quarta-feira, 24 de maio de 2017

O MIÚDO QUE QUERIA IR DE CASTIGO

Um dia destes a professora Paula entrou na biblioteca para apanhar uns livros com que preparar trabalhos e encontrou o Professor Velho, o que já não dá aulas, está na biblioteca e fala com os livros.
Olá Paula, tudo bem contigo?
Tudo bem Velho, de volta da preparação das aulas. Dizem que a gente trabalha pouco mas nem sabem o que a gente faz.
Sempre assim foi. Mas como é óbvio também acham que a escola é fundamental para os miúdos e somos nós que fazemos a escola, ou seja, dizem mal de nós e entregam-nos os filhos. Ou não gostam dos filhos ou, no fundo, sabem que não somos assim maus, só uns pouquinhos que também nos fazem mal a nós.
Tens razão Velho. Já que te encontro pergunto-te o que achas desta situação. Julgo que sabes, decidimos que aos alunos que se portarem mal damos um castigo, ficam algum tempo do intervalo numa sala acompanhados de um professor. No outro dia fiquei com o Filipe, tu conheces o Filipe, porque se portou mal e foi castigado. Passados alguns dias, ao intervalo, perguntou-me se podia ir para o castigo. Eu não respondi, achei que ele estava a gozar e fiquei a pensar sem entender muito bem. Que achas Velho?
Que sabes da vida do Filipe?
É complicada, a mãe nunca está em casa e o pai só lhe liga quando lhe bate. Os irmãos, são mais velhos, não se dão muito com ele e passa o tempo só.
Que fizeste com ele no castigo?
Fez o TPC, como não era muita coisa e eu tinha algum tempo ficámos de conversa um bom bocado.
E não estás a perceber porque é que ele te pergunta se pode ir para o castigo?
Claro Velho, conversar, como é que não percebi logo.
Sabes o que é mais curioso e estranho nesta situação? É um miúdo ter como castigo algo de que tanto precisa para ser gente.

DOS MANUAIS ESTRAGADOS E PUNIÇÃO DOS PAIS

Ao que leio no JN o ME atribui a responsabilidade aos Directores de escolas e agrupamentos pela punição dos pais cujos filhos tendo recebido manuais escolares por “empréstimo” os apresentem deteriorados.
Não encontrei orientações sobre as “punições” a aplicar pelo que estas notas se situam ao nível do princípio.
Em primeiro lugar e como muitas vezes tenho dito os manuais deveriam ser gratuitos em nome do princípio constitucionalmente da gratuitidade da escolaridade obrigatória.
Em segundo lugar, o “empréstimo” de manuais que se verificará, previsivelmente, para alunos mais carenciados não faz sentido sobretudo para alunos mais novos.
Quanto à “punição” dos pais retomo algumas notas quando esta questão também foi colocada a propósito dos comportamentos dos filhos aventando-se a hipótese de aplicação de coimas ou o corte de eventuais subsídios sociais.
Entendo, como seria de esperar, a importância da responsabilização dos pais em matéria de educação dos filhos, seja no cuidar dos materiais ou nos comportamentos a adoptar, nenhuma dúvida sobre isto. A minha questão é se esta responsabilização e aumento da qualidade da educação parental se promove com “punições” ainda que não saibamos a sua natureza. Alguns pontos.
1 - A maioria dos pais não gosta que os seus filhos sejam "maus", se portem mal ou estraguem materiais ou equipamentos. A maioria não sabe como fazê-los "melhores". Estes precisam de apoio não de multas ou punições. Ponto.
2 - Uma minoria, muito pequena, de pais de miúdos "maus" são pais maus não estão interessados ou preocupados em ser bons, nem se preocupam com os filhos, são "negligentes". Nestes casos, o problema é, no limite, retirar a guarda dos filhos, a multa não mexe seguramente com a negligência destes pais. Ponto.
3 - Um miúdo "mau" levanta problemas numa escola, qualquer escola, onde existem umas dezenas largas de especialistas em educação que sentem a maior dificuldade em "resolver" os problemas criados por esse miúdo "mau", não conseguindo, com frequência, resultados positivos. Será que alguém que conheça estes cenários acredita que os pais serão capazes de os resolver, por si, mesmo se lhes cobrarem uma multa, retirarem parte do abono de família ou de qualquer outra prestação social? Não acredito. Ponto.
Escolas organizadas, com cultura institucional sólida traduzida na adequação e consistência dos seus projectos educativos e com lideranças eficazes são mais organizadoras dos comportamentos de quem nelas habita, como qualquer outra organização. Também por isto se questiona incompetente constituição de mega-agrupamentos.
Por outro lado, as experiências conhecidas mostram a importância de estruturas de mediação entre a escola e a família o que implica a existência de recursos humanos qualificados e disponíveis. Veja-se o trabalho dos GAAFs apoiados pelo IAC, experiências no âmbito da intervenção da Associação EPIS ou iniciativas que algumas escolas conseguem desenvolver e que permitam apoiar os pais dos miúdos maus que querem ter miúdos bons e identificar as situações para as quais, a comprovada negligência dos pais exigirá outras medidas que envolvam, eficazmente e em tempo oportuno as CPCJ. Esta mediação não é compatível com o plano de tutoria em desenvolvimento pelo ME com 4h semanais de um professor tutor para um grupo de 10 alunos.
Um caminho de autonomia, com a alteração desejável dos modelos de organização e funcionamento das escolas e na gestão curricular, deveria permitir que as escolas, algumas escolas, mais problemáticas tivessem menos alunos por turma, mais assistentes operacionais com formação em mediação e gestão de conflitos ou ainda que se utilizassem, existindo, professores em dispositivos de apoio a alunos em dificuldades.
Por outro lado, os estudos e as boas práticas mostram que tal como programas de tutoria, também a presença simultânea de dois professores é um excelente contributo para o sucesso na aprendizagem e para a minimização de problemas de comportamento bem como se conhece o efeito do apoio precoce às dificuldades dos alunos também na prevenção da indisciplina.
Julgo que é neste sentido que temos de caminhar.

terça-feira, 23 de maio de 2017

O SANTO

Lá para trás, no tempo de miúdo havia um Santo de quem gostávamos e hoje partiu. Muitas horas de companhia quando ainda não havia televisão na minha casa e estes episódios eram vistos no café ou na casa da avó, uma privilegiada com televisão.



TODOS BATEM NOS PROFESSORES. Enésimo episódio

As notícias sobre agressões a professores, designadamente cometidas por encarregados de educação, vão chegando com alguma frequência à comunicação social. Desta vez em Sintra envolvendo uma professora de uma escola do 2º e 3º ciclo de Sintra. A mãe agressora não terá gostado que a docente tivesse marcado uma falta disciplinar à filha e procurou a professora que não encontrou voltando no dia seguinte à escola para a agressão, um comportamento elucidativo da sua racionalidade, não foi algo de emocional e reactivo ainda que igulamente inaceitável.
Algumas notas que apesar de repetidas me parecem ainda justificadas. Esta questão, embora sempre objecto de rápidos discursos de natureza populista e securitária, parece-me complexa e de análise pouco compatível com um espaço desta natureza. No entanto, uma breve reflexão em torno de três eixos: a imagem social dos professores, a mudança na percepção social dos traços de autoridade e o sentimento de impunidade, que me parecem fortemente ligados a este fenómeno.
Já aqui tenho referido que os ataques, intencionais ou não, à imagem dos professores, incluindo parte do discurso de gente dentro do universo da educação que tem, evidentemente, responsabilidades acrescidas e também o discurso que muitos opinadores profissionais, mais ou menos ignorantes, produzem sobre os professores e a escola, contribuíram para alterações significativas da percepção social de autoridade dos professores, fragilizando-a seriamente aos olhos da comunidade educativa, sobretudo, alunos e pais.
Esta fragilização tem, do meu ponto de vista, graves e óbvias consequências, na relação dos professores com alunos e pais.
Em segundo lugar, tem vindo a mudar significativamente a percepção social do que poderemos chamar de traços de autoridade. Os professores, entre outras profissões, polícias ou médicos, por exemplo, eram percebidos, só pela sua condição de professores, como fontes de autoridade. Tal processo alterou-se, o facto de se ser professor, já não confere “autoridade” que iniba a utilização de comportamentos de desrespeito ou de agressão. O mesmo se passa, como referi, com outras profissões em que também, por razões deste tipo, aumentam as agressões a profissionais.
Finalmente, importa considerar, creio, o sentimento instalado em Portugal de que não acontece nada, faça-se o que se fizer. Este sentimento que atravessa toda a nossa sociedade e camadas sociais é devastador do ponto de vista de regulação dos comportamentos, ou seja, podemos fazer qualquer coisa porque não acontece nada, a “grandes” e a “pequenos”, mas sobretudo a grandes, o que aumenta a percepção de impunidade dos “pequenos”.
Considerando este quadro, creio que, independente de dispositivos de formação e apoio, com impacto quer preventivo quer na actuação em caso de conflito, obviamente úteis, o caminho essencial é a revalorização da função docente tarefa que exige o envolvimento de toda a comunidade e a retirada da educação da agenda da partidocracia para a recolocar como prioridade na agenda política.
Definitivamente, a valorização social e profissional dos professores, em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade. Aliás, uma das características dos sistemas educativos melhor considerados é, justamente, a valorização dos professores.
É ainda fundamental que se agilizem, ganhem eficácia e sejam divulgados os processos de punição e responsabilização séria dos casos verificados, o que contribuirá para combater, justamente, a ideia de impunidade.

CHOQUE E HORROR. MAS AS CRIANÇAS, SENHORES?

Desta vez em Manchester.
Como dizia há dias e não posso deixar de repetir, vão faltando as palavras para falar do horror e da barbaridade que no mar e em terra vai acontecendo cada vez mais perto de nós, que, provavelmente, acreditávamos estar a salvo de tamanhas tragédias.
A merda de lideranças actuais da generalidade dos países que põem e dispõem no xadrez do poder mundial e de tantos outros subservientes e submissos que, em muitos casos, de pessoas não sabe nem quer saber, permite, sem um sobressalto e com palavras que de inócuas são um insulto, que se assista à barbaridade que as imagens, os relatos mostram e o muito que se imagina mas não se vê.
Sem estranheza, sempre assim foi, sempre assim é, as crianças são sempre os mais vulneráveis dos mais vulneráveis mas, como sempre, apesar dos sobressaltos ao sabor da espuma dos dias e dos efeitos mediáticos que incluem as lágrimas de crocodilo, a hipocrisia e o despudor, nada acontece.
Apesar da complexidade é evidente para toda a gente com um pouco de senso que nada disto se resolve com muros ou vedações, manipulando emoções e interesses de circunstância ou combatendo alguns e depois apoiar esses alguns ao sabor dos movimentos da luta pelo poder.
Crescem muros de várias naturezas, a barbaridade estende-se, o horror é imenso e, por vezes, nem a retórica da condenação é convincente e muitos menos, evidentemente, eficaz.
A questão é séria, os ventos sempre semeiam tempestades e as tempestades num mundo global não ficam confinadas nos epicentros.
Não existe terror mau e terror bom. Não existe horror mau e horror bom. Não existe terrorismo bom e terrorismo mau.
Como é possível que tais horrores e barabaridades aconteçam e tanta gente com responsabilidades assobie para o ar e se fique pelas palavras de circunstância ou mesmo de relativização.

DOS "JOBS" E DOS "BOYS" E "GIRLS"

Como é reconhecido, a questão do desemprego é de uma enorme gravidade e complexidade. São sempre urgentes medidas eficazes e diversas de promoção de emprego. Porque não começar pelos amigos?
Fazem parte da loja certa, da confraria certa, têm o cartão certo, portanto ...
Há que começar por algum lado e os amigos são para as ocasiões.
Aliás, o povo costuma dizer, "quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte".
Cambada de artistas, nem as moscas, às vezes, variam.
São assim as contas da partidocracia. Em alternância pois claro.
É curioso que ainda recordo do Professor João Bilhim, Presidente da Comissão de Recrutamento da Administração Pública, afirmar numa entrevista ao DN que se "acabaram os "jobs for the boys" na Administração Pública", a atribuição de lugares de chefia resulta da meritocracia.
A sério?!
Nota-se pelo que se segue.

Veja aqui os nomes e os cargos de todos os nomeados na Segurança Social e no IEFP

segunda-feira, 22 de maio de 2017

DO ENCERRAMENTO DE ESCOLAS

Ao que se lê no I está na agenda de trabalho entre o ME e a Associação Nacional de Municípios a continuidade do processo de reestruturação da rede escolar, isto é, o encerramento de escolas.
No entanto e dado que os decisores políticos estudam normalmente pelos mesmos manuais, sempre os manuais, em ano de eleições e autárquicas é provável que a coisa fique em “banho-maria”
No entanto e porque parece ser mesmo uma intenção recordo que segundo a Direcção-geral de Estatísticas da Educação e Ciência, entre 2000/2001 e 2014/2015 passámos de 14533 escolas públicas para 6161, uma queda de 58%, sendo que o ensino privado no mesmo período passou de 2608 estabelecimentos para 2737.
Tal como se verifica com a significativa queda do número de professores também o encerramento de escolas não é apenas justificado pelo abaixamento do número de alunos. Aliás, o quadro em baixo ajuda a perceber.
Como muitas vezes escrevi a política de encerramento de escolas assentou num princípio necessário de reorganização de uma rede já desadequada por ineficiente e onerosa.
No entanto, considerando os impactos que o encerramento dos equipamentos sociais têm na desertificação do país e nas assimetrias de desenvolvimento, a decisão de encerrar escolas não deveria ter sido ser vista exclusivamente do ponto de vista administrativo e económico. Não pode assentar em critérios cegos e generalizados, esquecendo particularidades contextuais e, sobretudo, não servir como tudo parece servir em educação, para o jogo político, local ou nacional.
Por outro lado, este movimento de reorganização da rede escolar e fechamento de escolas, de construção dos centros educativos e da constituição de mega-agrupamentos, criou situações em que as dimensões e características são fortemente comprometedoras da qualidade, com riscos e consequências já conhecidas, os mega-agrupamentos produzem mega-problemas.
É também verdade que menos escolas e agrupamentos e direcções unipessoais tornam também mais fácil o controlo político de um sistema ainda altamente centralizado apesar da retórica de autonomia. Este controlo é, naturalmente, uma tentação de sempre de qualquer poder e continua na agenda como é público.
De há muito que se sabe que um dos factores mais contributivos para o insucesso, absentismo e problemas de disciplina escolar é o efectivo de escola. Não é certamente por acaso, ou por desperdício de recursos, que os melhores sistemas educativos, lá vem a Finlândia outra vez, mas também os Estados Unidos ou o Reino Unido procurando a requalificação da sua educação, optam por estabelecimentos educativos que não ultrapassam a dimensão média de 500 alunos. Sabe-se, insisto, de há muito, que o efectivo de escola está mais associado aos problemas que o efectivo de turma, ou seja, simplificando, é pior ter escolas muito grandes que turmas muito grandes, dentro, obviamente dos limites razoáveis. É certo que o ME, sobretudo a partir de Maria de Lurdes Rodrigues e com Nuno Crato, tem feito o pleno, aumenta o número de alunos por escola e o número de alunos por turma o que leva à “dispensa” de professores. Como é habitual as equipas do ME citam ou ignoram estudos, experiências e especialistas, nacionais ou internacionais, conforme a agenda que lhe fosse favorável. Nos últimos anos a contabilidade, cortes em professores e funcionários, tem falado mais alto que a qualidade apesar de alguns sinais positivos mais recentes.
As escolas muito grandes, com a presença de alunos com idades muito díspares, são autênticos barris de pólvora e contextos educativos que dificilmente promoverão sucesso e qualidade apesar do esforço de professores, alunos, pais e funcionários. Recorrentes episódios e relatos de professores sustentam esta afirmação.
Por outro lado, a experiência já conhecida mostra casos de distâncias grandes entre a residência dos miúdos e os centros escolares, levando que devido à difícil gestão dos transportes escolares, os miúdos passem tempos sem fim nos centros escolares, experiência que não é fácil, sobretudo para os miúdos mais pequenos.
Em síntese, parece-me razoável que algumas escolas, sobretudo do 1º ciclo, tenham sido encerradas mas o recurso a critérios burocratizados e administrativos, como a análise simples do número de alunos, levou a situações de sério compromisso da qualidade da educação e mesmo da qualidade de vida de muitos alunos.
Seria desejável não esquecer e avaliar o que se tem passado.

DAÍ ESTE MEU CANSAÇO

É apresentado hoje um estudo da associação EPIS – Empresários pela Inclusão Social realizado em parceria com Fórum das Políticas Públicas - CIES-IUL e coordenado por maria de Lurdes Rodrigues. O estudo, “Aprender a ler e escrever em Portugal", investigou a a questão do insucesso escolar no 1º ciclo.
Os resultados são surpreendentes e merecem análise cuidada. A coordenadora do estudo se tivesse acesso a este conhecimento teria certamente um diferente desempenho e prioridades no tempo em que passou pela 5 de Outubro.
Alguns dados em termos de síntese
Ficamos a saber e não sabíamos que continua a verificar-se um nível importante de insucesso escolar no 1º ciclo desde logo no 2º ano, o primeiro em que a retenção, o chumbo, é possível.
Ficamos a saber e não sabíamos que muitas escolas são espaços de sucesso e que o insucesso é mais elevado em escolas de periferia que servem territórios mais vulneráveis em termos sociais e económicos e em escolas de concelhos do interior mais desertificado.
Ficamos a saber não sabíamos que no âmbito do insucesso identifica-se como questão crítica a aprendizagem da leitura e da escrita.
Ficamos a saber e não sabíamos que a atribuição de causalidade face ao insucesso privilegia o “contexto familiar” e o meio socioeconómico desfavorecido mais do que questões de natureza curricular ou de recursos físicos, humanos ou espaços.
Ficamos a saber e não sabíamos que mais de metade dos docentes inquiridos (52.2%) admite desvantagens na retenção mas 87% considera a retenção “como uma oportunidade e não como um problema” e defende vantagens pois permite a “aquisição e consolidação das aprendizagens”.
Ficamos a saber e não sabíamos que a maioria dos professores inquiridos não concorda com a proibição de chumbar no 1º ano.
Por outro lado, sabemos e não é de agora que o chumbo, a retenção, não transforma o insucesso em sucesso, repetir só por repetir não produz sucesso, aliás gera mais insucesso conforme os estudos mostram quer se queira, quer não. Aquilo a que alguns chamam de “cultura de retenção” existe e marca de forma importante alguns dos discursos agora retratados
Também sabemos que para promover mais sucesso e não empurrar os alunos para os anos seguintes sem nenhuma melhoria nas suas competências ou saberes é essencial promover e tornar acessíveis a alunos, professores e famílias apoios e recursos adequados e competentes de forma a evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo.
Sabemos também que a escola pode e deve fazer a diferença, em muitas escolas isso acontece. Mas para que isto seja consistente e não localizado também sabemos que o sucesso se constrói identificando e prevenindo dificuldades de forma precoce, com a definição de currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio eficazes, competentes e suficientes a alunos e professores, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados e reais de autonomia, organização e funcionamento das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, com a valorização do trabalho dos professores, com práticas de diferenciação e expectativas positivas face ao trabalho e face aos alunos, com melhores níveis de trabalho cooperativo e tutorial, quer para professores quer para alunos, etc.
Sabemos tudo isto. Nada é novo.
Só falta um pequeno passo.
Construir para todos os miúdos trajectórias de sucesso. Não, não é uma utopia. Tal como o insucesso não é uma fatalidade do destino.

domingo, 21 de maio de 2017

DA MUDANÇA ANUNCIADA E ADIADA NA DESIGNADA EDUCAÇÃO ESPECIAL

Segundo o DN, o ME adiantou em reunião com estruturas sindicais que a de há muito anunciada reforma do enquadramento da designada educação especial será operada no ano lectivo 2018/2019.
Terá ainda adiantado que a proposta elaborada pelo Grupo de Trabalho criado para o efeito e cujos trabalhos aqui fui comentando será divulgada em breve e objecto de debate público para aprovar ainda este ano. Afirmou ainda que durante o próximo ano será realizada formação de professores no sentido da mudança de que se desconhecem pormenores.
De há muito que entendo a necessidade e a urgência de operar mudanças nesta área. O enquadramento legislativo, designadamente alguns dos aspectos do DL 3/2008, como tive oportunidade também de partilhar com o Grupo de Trabalho respondendo a um convite simpático para colaboração.
A título de exemplo, alguns desses aspectos a carecerem de alteração.
. Aligeirar a presença de conteúdos “doutrinários” nos instrumentos legislativos. Os normativos dever ser “enxutos”, reguladores de medidas, recursos e procedimentos e estar, tanto quanto possível a salvo de “interpretações de doutrina”, os tão habituais, “cá para mim quer dizer …)
. A resposta educativa à diversidade (educação inclusiva) não cabe num normativo específico e, por isso, importa pensar a coerência legislativa e não esquecer matérias como currículo, organização e gestão de recursos, autonomia e organização das escolas, avaliação escolar, etc.
. Uma das maiores fragilidades do nosso sistema educativo é, do meu ponto de vista, a sua desregulação. Como tantas vezes afirmo, em matéria de trabalho com alunos com NEE e não só, convivem práticas e respostas de extraordinária qualidade com situações inaceitáveis. Parece-me imprescindível que se definam formas e dispositivos de regulação que não têm a ver com avaliação ou inspecção, são funções diferentes, mas com apoios e recursos verdadeiramente reguladoras do trabalho de professores e escolas. Existem muitíssimos profissionais nas escolas altamente competentes e experientes que podem integrar, por concurso por exemplo, estes dispositivos de regulação.
. Recursos técnicos e docentes suficientes e qualificados.
Em termos um pouco mais específicos entendo que o caminho passará:
. Por uma sólida e real autonomia das escolas como forma de melhorar a sua resposta a especificidades de contexto, incluindo as características dos alunos e dos recursos disponíveis
. Por repensar a existência “conceitos” como “necessidades permanentes”, “elegibilidade” e uma infinidade de “instrumentos” como diferentes Planos (PEIs, PITs, CEIs, etc.). Talvez esteja errado, mas parece-me mais eficaz e económico que quando necessário tenhamos um Plano Educativo no qual consta o que é ajustado para UM determinado aluno, seja ao nível das aprendizagens, da transição para a vida activa ou dos conteúdos curriculares, é o seu Plano Educativo, ponto. Aliás, até tenho dificuldade em perceber alguns destes “conceitos” que, desculpem as boas práticas existentes, muitas vezes funcionam com ferramentas de exclusão.
. Repensar o modelo de Unidades de Ensino Estruturado, de Unidades de Apoio Especializado para a Educação de Alunos com Multideficiência ou Escolas de referência para alunos cegos ou com baixa visão. O espaço não permite desenvolver a justificação mas já aqui a tenho referido.
. Repensar o modelo de avaliação centrado na CIF. Trata-se de um instrumento de classificação, útil e competente para outros objectivos que não a avaliação em educação.
. Reforçar a competência das escolas e dos professores na decisão sobre medidas de natureza educativa incrementando também um real envolvimento e participação das famílias.
. Repensar o modelo de apoios especializados prestados por entidades exteriores à escola. Sendo de natureza educativa, a sua gestão será da responsabilidade das escolas. Sendo de outra natureza devem ser integrados no Plano Educativo do aluno e desenvolvidos em moldes diferentes do actual modelo que gera situações de ineficiência.
. Na mesma linha devem ser repensados os modelos de parceria com outras entidades também no que respeita, por exemplo, à preparação e transição para a vida activa em que, mais uma vez, a responsabilidade de decisão é das escolas, inalienável dentro da escolaridade obrigatória.
. Simplificar tanto quanto possível as “medidas de apoio”. Em termos muitos simples temos alunos que precisam de algum tipo de apoio para percorrer de forma bem-sucedida um trajecto semelhante ao de todos os seus colegas, os alunos para os quais seja necessário algum ajustamento curricular que não comprometam o acesso às competências globais do ciclo de estudos e os alunos para os quais seja adequado uma adaptação mais significativa dos conteúdos curriculares.
Como já afirmei a propósito de outras alterações promovidas pela actual equipa do ME e dada a complexidade implicações das mudanças o quer que venha a ser realizado deve acontecer com uma enorme prudência, reflexão aprofundada e com a participação o mais abrangente possível dos diversos actores e entidades envolvidos.
Sabemos que depressa e bem não há quem. Objectivos globalmente positivos podem ser comprometidos por más metodologias, calendários de mudança inadequados ou a não antecipação das condições e requisitos necessários aos processos de mudança.
De facto, importa que as mudanças ou experimentação em educação não se realizassem de forma apressada, sem um consenso tão sólido quanto possível sobre conteúdos e calendário e a consideração prévia das condições e requisitos que sustentem as mudanças em execução e que, reafirmo, me parecem necessárias e num sentido positivo.
Como muitas vezes refiro, é tão importante "fazer as coisas certas como fazer certas coisas". Se bem repararmos nem sempre isto se verifica, mesmo na nossa acção individual. Em políticas públicas é ainda mais necessário e temos tido exemplos negativos.
O que me preocupa não é tanto o facto de apenas se iniciar o processo em 2018/2019, o que me inquieta é o sentido da mudança.
Como diz o Velho Marrafa, deixem lá ver.

sábado, 20 de maio de 2017

DAS LEIS NECESSÁRIAS

Ontem o Parlamento aprovou por unanimidade uma saudação a Salvador e Luísa Sobral bem como à RTP pela vitória no Festival da Eurovisão.
Com menos referência na imprensa foram também aprovados por unanimidade duas propostas do BE que agravam as multas para o estacionamento abusivo em lugares reservados a pessoas com deficiência e obriga as entidades públicas a disponibilizar estacionamento gratuito para estas pessoas.
Trata-se do que costumo designar por “leis necessárias", isto é, os valores éticos, culturais, sociais e morais deveriam ser suficientes para que não fossem necessárias mas como infelizmente tal não acontece, são justificadas. Aliás, a Comissão dos Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU, num relatório de 2016, criticou o Estado Português justamente pela brandura com que lida com situações de discriminação de pessoas com deficiência.
O caso particular do estacionamento abusivo faz-me recordar um episódio que creio já aqui ter contado em que num encontro sobre este universo um dos presentes ter contado uma história interessante e elucidativa do que está por fazer e mudar.
Ao deslocar-se de automóvel para uma zona comercial da cidade alentejana onde vive e quando se preparava para estacionar no espaço reservado a pessoas com deficiência, estava a estacionar um cidadão sem deficiência a quem o nosso amigo chamou a atenção para a sua condição e para o facto de aquele ser um espaço reservado.
Sintetizando a história, acabou por ouvir do "cidadão" que "tinha sorte em ser deficiente, senão as coisas não ficavam assim". Esclarecedor.
O nosso amigo, homem que entende não dever resignar-se, procurou um agente da autoridade para apresentar queixa da ameaça e da infracção.
O agente da autoridade aconselhou o nosso amigo a não se "chatear" “só” por causa de um lugar de estacionamento. O nosso amigo não aceitou o conselho e continuou a reclamar os seus direitos. Acontece que é brasileiro e o agente da autoridade acabou por achar que ele devia era estar no país dele em vez de andar por aqui a chatear cada um.
Creio que é dispensável comentar quer a atitude do "cidadão", quer a atitude e comportamento do "agente da autoridade".
Por este tipo de coisas e a regularidade com que acontecem, o nosso amigo que usa a cadeira de rodas dizia que mais do que o "peso" da cadeira de rodas é difícil suportar as dificuldades criadas pelas atitudes e valores de muitas pessoas.
E também por este tipo de coisas que as leis aprovadas merecem referência.
A vitória na Eurovisão também.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A MINHA BICICLETA

Um dia destes tive de passar no que se chama uma grande superfície comercial dedicada ao desporto e ao passar na enorme secção das bicicletas lembrei-me da minha bicicleta de rapaz, senti uma nostalgia que nem imaginam.
Tive a sorte de ter uma bicicleta desde gaiato pequeno, oferta de tios generosos, por isso sempre me habituei a bicicletas até porque foi o veículo de transporte familiar até à adolescência, altura em que o orçamento lá de casa possibilitou a aquisição de uma motorizada para a família e na qual todos nos revíamos embevecidos, continuávamos em duas rodas é certo, mas sempre tinha motor.
Já mais crescido, a economia familiar tinha limites apertados e não chegava para uma bicicleta nova de roda 28 pelo que desenvolvi um empreendedor plano. Recolhia cobre de fios velhos de instalações eléctricas e latão, sobretudo dos casquilhos das lâmpadas, que trocava no ferro-velho do Gato Bravo por peças para a minha bicicleta. O quadro, as rodas, selim, o guiador, os travões, o dispositivo de iluminação com o dínamo na roda e a minha bicicleta foi crescendo, linda, através do que se poderia designar por um modelo pioneiro de “assembling”, com a ajuda sabedora e companheira do meu pai, um conhecedor de bicicletas e, sobretudo, um especialista em gente miúda. Não vos posso dizer a cor da minha bicicleta porque teve várias, era uma bicicleta personalizada.
De vez em quando, conseguia outro guiador, outro selim e a minha amada e invejada bicicleta sofria um “restyling”, até mudanças ganhou. Grandes voltas percorremos nós, quase sempre com o Zé Padiola, íamos à Costa da Caparica e à Fonte da Telha, até voltar para casa, sempre por estradas que há cinquenta anos ainda nos permitiam andar de bicicleta sem os riscos actuais.
É certo que eu e ela também testámos o chão, mas éramos solidários e amigos, quando eu caía, ela acompanhava-me sem um queixume ou ponta de revolta.
Divertimo-nos a sério. Que saudades da minha bicicleta.

DA "TUDOTERAPIA"

No Público refere-se uma experiência piloto em desenvolvimento em Coimbra envolvendo o recurso a cães como abordagem terapêutica a crianças com autismo, cinoterapia. Os resultados, ao que se refere na peça, são animadores.
As notas que em seguida aqui ficam foram escritas em diferentes ocasiões a propósito de um trabalho desenvolvido no Porto com póneis, equitação terapêutica, envolvendo crianças e adultos com deficiência, de um outro trabalho em Miranda do Douro recorrendo a patos e lontras e também dirigido a pessoas com deficiência e ainda de um outro em Montemor-o-Velho mas recorrendo a lâmpadas especiais, fosfénicas, para apoio terapêutico a crianças com dificuldades.
Tenho consciência e assumo que de alguma forma podem ser delicadas mas o muito que que já observei e acompanhei levam-me a insistir.
Em primeiro lugar não tenho a menor dúvida sobre a seriedade, competência ou empenho dos profissionais envolvidos nestas actividades ou outras abordagens que se entendam terapêuticas e destinadas a pessoas portadoras de deficiência física ou mental ou com problemas de outra natureza.
Também não duvido que em muitas circunstâncias as crianças, jovens e adultos que nelas participam registem alterações positivas. Quando pessoas em situação mais vulnerável recebem atenção, estímulos, apoio e envolvimento, por princípio, notar-se-á melhoria na sua condição, independentemente da actividade, dentro do que sejam actividades racionais e aceitáveis com é evidente.
Na verdade, estas notas, embora partam da referência a estes trabalhos relevam, fundamentalmente, de que nos últimos anos e no que respeita aos problemas, de diferentes âmbitos e gravidade, que afectam as crianças e adolescentes, sobretudo mas não só, tem vindo a emergir uma gama sem fim de abordagens "terapêuticas" da mais variada natureza das quais, numa espécie de pensamento mágico, se anunciam ou esperam resultados milagrosos que nem sempre são comprovados com validade científica, embora muita gente possa "atestar" melhoras que, evidentemente, alimentam o recurso a esta gama do que eu chamo a "tudoterapia", ou seja, tudo é terapêutico.
A minha inquietação decorre, essencialmente, do que acontece com os pais, conheço muitas situações, quando se envolvem nestas experiências. As suas fragilidades e impotência face aos problemas que os filhos evidenciam, a vontade inesgotável de tentar ou experimentar o que estiver ao seu alcance para que os problemas se atenuem ou desapareçam, leva-os a investirem imenso nessas abordagens que, na verdade, não são milagrosas e não têm resultados garantidos.
Para além dos custos, da frustração em caso de insucesso, o mais provável na maior parte da "tudoterapia", alguns pais podem ainda sentir-se culpados porque, por exemplo, devido a circunstâncias económicas ou de acessibilidade, não podem providenciar tais "terapêuticas" aos seus filhos.
A "evolução" que por vezes se regista em algumas situações, pode dever-se, por exemplo, a um efeito placebo, a uma maior atenção estímulo proporcionado à criança ou adolescente e não decorrer das propriedades terapêuticas do procedimento, para as quais, como referi, não existe nas mais das vezes, validade científica .
Neste cenário, os técnicos têm um papel fundamental, embora difícil, de contenção das angústia e necessidades dos pais e no sentido de procederema a abordagens sérias e realistas sobre os objectivos, limites e resultados esperados das intervenções disponíveis, ajudando e orientando as famílias nas escolhas e decisões.
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quinta-feira, 18 de maio de 2017

E VOLTAMOS À QUESTÃO DOS CHUMBOS

No âmbito da sua participação no “Educação 2030” em Lisboa, Andreas Schleicher, director da OCDE na área da educação e competências afirmou em entrevista à TSF, entre outras ideias e a propósito do problema ainda severo do insucesso traduzido em níveis elevados de retenção que “A resposta não passa pela progressão automática mas por uma sinalização mais precoce de quando os alunos estão a ficar para trás. É preciso dar mais apoio aos professores, os professores em Portugal continuam a ter muito pouco tempo para fazer outras coisas além de dar matéria”.
Como é habitual no que respeita ao que vem da OCDE ou de outras fontes, seja na forma de estudos seja na forma de ideias ou enunciados, a leitura e interpretação dos conteúdos ou dados é de uma enorme latitude desde a negação ou omissão, à desvalorização ou sobrevalorização em função de agendas políticas, institucionais, corporativas, individuais ou de outra natureza.
Nenhum de nós foge isso e matérias como “qualidade na educação” “sucesso”, “mudança”, etc., etc. são sistematicamente referidas em modo “cada cabeça (ou interesse) sua sentença”.
Assim sendo e porque também ando neste mundo da educação aqui fica, mais uma vez, … a minha sentença que, neste caso, se aproxima da análise do responsável da OCDE.
O chumbo, a retenção, não transforma o insucesso em sucesso, repetir só por repetir não produz sucesso, aliás gera mais insucesso conforme os estudos mostram quer se queira, quer não.
Assim sendo, o que deve ser discutido e objecto de políticas adequadas será que tipo de apoios, que medidas e recursos devem estar disponíveis para alunos, professores e famílias desde o início da percepção de dificuldades com o objectivo de evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo. Disto decorre a concordância com Andreas Schleicher.
Importa também que as políticas educativas sejam promotoras de condições de sucesso para alunos e professores.
O número de alunos por turma em algumas escolas e agrupamentos, modelos curriculares extensos e prescritivos, insuficiência de dispositivos de apoio competentes e adequados são também exemplo de outras variáveis a considerar.
Este tipo de discurso não tem rigorosamente a ver com "facilitismo" e, muito menos, com melhoria "administrativa" das estatísticas da educação, uma tentação a que nem sempre se resiste.
Assim sendo, insisto, o essencial é promover e tornar acessíveis a alunos, professores e famílias apoios e recursos adequados e competentes de forma a evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo. É fundamental não esquecer que o insucesso continua a atingir fundamentalmente os alunos oriundos de famílias com pior condição económica e social o que inibe o objectivo da mobilidade social, replicando o velho "tal pai, tal filho". Aliás, o recente estudo da Direcção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência “Resultados escolares por disciplina - 2º ciclo - ensino público evidencia isso mesmo, como sempre.
É necessário também diversificar percursos de formação com diferentes cargas académicas e finalizando sempre com formação profissional mas não em idades precoces criando percursos irreversíveis de "segunda" para os "sem jeito para a escola" e "preguiçosos".
Assim sendo, a qualidade promove-se, é certo e deve sublinhar-se, com a avaliação rigorosa e regular das aprendizagens, sim, naturalmente, mas também com a avaliação mas também com a valorização do trabalho dos professores, com a definição de currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio eficazes, competentes e suficientes a alunos e professores, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados e reais de autonomia, organização e funcionamento das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, etc.
É o que acontece, genericamente, nos países com mais baixas taxas de retenção escolar.
É o que não tem acontecido em Portugal.
Ponto.

UMA FAMÍLIA É UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE

Na apresentação do relatório de avaliação da actividade das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens relativo a 2016 o Governo informou estar em preparação uma proposta que visa a atribuição de apoios a famílias que aceitem acolher temporariamente crianças em situação de risco enquanto se define a situação da família de origem.
A prioridade será atribuída a casos que envolvam crianças mais pequenas, até aos seis anos e tem como objectivo minimizar a institucionalização.
Parece-me um passo positivo.
De facto e como muitas vezes aqui tenho referido, apesar da evolução que se tem constatado, continuamos com uma elevada quantidade de crianças institucionalizadas, muitas das quais sem projectos de vida viáveis pese o empenho dos técnicos e instituições. É também reconhecido que os processos de adopção ainda são morosos e que muitas crianças não reúnem condições que lhes facilitem a adopção.
Seria desejável que se conseguisse até ao limite promover a desinstitucionalização das crianças por múltiplas e bem diversificadas razões e minimizar até ao limite a sua institucionalização.
Recordo um estudo da Universidade do Minho mostrando que as crianças institucionalizadas revelam, sem surpresa, mais dificuldade em estabelecer laços afectivos sólidos com os seus cuidadores nas instituições. Esta dificuldade pode implicar alguns riscos no desenvolvimento dos miúdos e no seu comportamento.
A conclusão não questiona, evidentemente, a competência dos técnicos cuidadores das instituições, mas as próprias condições de vida institucional e aponta no sentido da adopção ou outros dispositivos como forma de minimizar estes riscos e facilitar os importantes processos de vinculação afectiva dos miúdos. Neste contexto acentua-se a importância da promoção da existência de mais famílias de acolhimento que respondam às situações que não são para adopção e promover processos de adopção mais ágeis. Existem contextos familiares que podem reverter situações negativas que justificam a retirada dos menores durante algum tempo e com apoio reconstruir uma relação familiar bem-sucedida.
Uma família que de facto o seja é um bem de primeira necessidade na vida de uma criança.
Termino com uma afirmação de um autor muito conhecido na área da educação e do desenvolvimento, Bronfenbrenner, "Para que se desenvolvam bem, todas as crianças precisam que alguém esteja louco por elas".

quarta-feira, 17 de maio de 2017

DOS AUXILIARES DE EDUCAÇÃO

Também na audição de ontem na AR o ME divulgou a revisão da portaria que estipula o número de funcionários nas escolas, os assistentes operacionais, até aqui assente no número de alunos. A alteração contemplará a tipologia das escolas ou seja, o número de pavilhões, a existência de cantinas, bares e bibliotecas e a extensão dos recreios, o que levará ao aumento dos funcionários que as escolas disporão.
A confirmar-se trata-se de uma medida positiva.
Já aqui tenho escrito sobre as condições em que muitos destes assistentes operacionais chegam às escolas mas estas notas são para enfatizar os riscos da insuficiência do seu número.
Na verdade, os auxiliares de educação, insisto na designação, desempenham e devem desempenhar um importante papel educativo para além das funções de outra natureza que também assumem e que exige a adequação do seu efectivo, formação e reconhecimento. No caso mais particular de alunos com necessidades educativas especiais, em algumas situações os assistentes operacionais serão mesmo uma figura central no seu bem-estar educativo, ou seja, são mesmo auxiliares de acção educativa.
A excessiva concentração de alunos em centros educativos ou escolas de maiores dimensões não tem sido acompanhada pelo ajustamento adequado do número de auxiliares de educação. Aliás, é justamente, também por isto, poupança nos recursos humanos, que a reorganização da rede, ainda que necessária, tem sido feita com sobressaltos e com a criação de problemas.
Os auxiliares educativos cumprem por várias razões um papel fundamental nas comunidades educativas que nem sempre é valorizado.
Com frequência são elementos da comunidade próxima das escolas o que lhes permite o desempenho informal de mediação entre famílias e escola, têm uma informação útil nos processos educativos e uma proximidade com os alunos que pode ser capitalizada importando que a sua acção seja orientada, recebam formação e orientação e que se sintam úteis, valorizados e respeitados.
Os estudos mostram também que é nos recreios e noutros espaços fora da sala de aula que se regista um número muito significativo de episódios de bullying e de outros comportamentos socialmente desadequados. Neste contexto, a existência de recursos suficientes para que a supervisão e vigilância destes espaços seja presente e eficaz. Recordo que com muita frequência temos a coexistir nos mesmos espaços educativos alunos com idades bem diferentes o que pode constituir um factor de risco que a proximidade de auxiliares de educação minimizará.
Considerando tudo isto parece essencial e um contributo para a qualidade dos processos educativos a presença em número suficiente de auxiliares de educação que se mantenham nas escolas com estabilidade e que sejam orientados e valorizados na sua importante acção educativa.

SÓ APRENDE QUEM SE RI

A audição de ontem na comissão parlamentar de Educação e Ciência a Secretária de Estado Adjunta e da Educação anunciou que no próximo ano lectivo se verificará um reforço de verbas para a um reforço de verbas da Acção Social Escolar contemplando reforço da oferta das refeições escolares nos períodos de interrupção lectiva, voltando a apoiar as visitas de estudo em anos ao abrigo da Acção social Escolar e criando um 3.º escalão de abono no apoio à aquisição dos manuais escolares.
O aumento de apoios desta natureza é importante, ontem foram divulgados dados que evidenciam que apesar de alguma recuperação a situação de pobreza e risco de pobreza atingem ainda cerca de 25% da população portuguesa e sabe-se que as crianças, tal como os velhos, constituem o grupo mais vulnerável.
Há poucos dias o estudo da Direcção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, “Resultados escolares por disciplina - 2º ciclo - ensino público" sublinhou a de há muito reconhecida relação entre o desempenho escolar e o contexto socioeconómico familiar, no 5º ano 44% dos alunos no escalão máximo de acção social escolar tiveram negativa a Matemática, 28% dos alunos no segundo escalão e 16% não envolvidos em dispositivos de apoio.
A verdade é que o impacto das circunstâncias de vida no bem-estar das crianças e em aspectos mais particulares no rendimento escolar e comportamento é por demais conhecido e essas circunstâncias constituem, aliás, um dos mais potentes preditores de insucesso e abandono quando são particularmente negativas, como é o caso de carências significativas ao nível das necessidades básicas.
Um Relatório de 2013, "Food for Thought", da organização Save the Children, afirmava que 25% das crianças terão o seu desempenho escolar em risco devido à malnutrição com as óbvias e pesadas consequências em termos de qualificação e qualidade de vida de que a educação é uma ferramenta essencial.
Por isso gosto tanto da história que conto tantas vezes e uma das maiores lições que já recebi, acontecida há uns anos em Inhambane, Moçambique. Ao passar por uma escola para gaiatos pequenos o Velho Bata, um homem velho e sem cursos, meu anjo da guarda durante a estadia por lá, disse-me que se mandasse traria um camião de batata-doce para aquela escola. Perante a minha estranheza, explicou que aqueles miúdos teriam de comer até se rir, “só aprende quem se ri”, rematou o Velho Bata.
Pois é Velho, miúdos com fome não prendem e vão continuar pobres.

A GORDURA QUE JÁ NÃO É FORMOSURA

O DN trata hoje com chamada a primeira página o problema da obesidade infantil que já é um problema de saúde pública.
Segundo o Relatório Health at a Glance: Europe 2016, em Portugal mais de uma em cada quatro crianças tem excesso de peso. Nas raparigas ultrapassa os 30% e nos rapazes temos 25%.
Acresce que no que respeita à actividade física e considerando a recomendação da OMS de uma hora diária de actividade física aos 11 anos só 16% das raparigas e 26% dos rapazes cumprem e aos 15 anos temos 5% das raparigas e 18% dos rapazes.
Estes dados estão em linha com os de relatórios anteriores e com estudos nacionais sobre os hábitos alimentares e estilo de vida dos mais novos.
Recordo um trabalho, creio ser 2014, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto sugerindo que aos 4 anos mais 87% das crianças ultrapassa já “os valores toleráveis de sal” para a sua idade. Crianças com dois e “têm consumos alimentares nada saudáveis”, aos dois anos, por exemplo
O “EPACI Portugal 2012 – Estudo do Padrão Alimentar e de Crescimento na Infância”, mostrou que 31.4% das crianças portuguesas entre os 12 e os 36 meses apresentam excesso de peso e 6.5% situações de obesidade.
A Direcção-Geral de Saúde e o ME têm vindo a determinar que nas escolas alimentos hipercalóricos, como doces ou bolos, não sejam expostos, devendo ficar visíveis aos olhos dos alunos os alimentos considerados mais saudáveis em como estão em curso medidas no sentido de baixar a publicidade a alimentos e bebidas com maior carga calórica.
Ainda um estudo divulgado de 2015 da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, encontrou 17% de rapazes e 26% de raparigas de quatro anos, sublinho, quatro anos, com excesso de peso e obesidade e níveis de colesterol elevados, um cenário verdadeiramente preocupante e de graves consequências futuras.
Creio ainda de sublinhar que estudos realizados em Portugal mostram que a obesidade infantil é já um problema de saúde pública, implicando, por exemplo, o disparar de casos de diabete tipo II em crianças.
Apesar de parecer uma birra ou teimosia acho sempre importante sublinhar a importância que deve merecer a questão dos hábitos alimentares e o combate ao sedentarismo, sobretudo nos mais novos.
No que respeita á actividade física, um trabalho da Universidade de Coimbra divulgado em 2013 sublinhava, mais uma vez, o impacto que o sedentarismo tem na saúde das crianças. Este estudo envolveu 17424 crianças entre os 3 e os 11 anos e mostrou a forte relação entre hábitos fortemente sedentários, ver televisão por exemplo, e obesidade infantil e óbvias consequências na saúde e bem-estar dos miúdos.
Um outro trabalho de 2012 da Faculdade de Motricidade Humana envolvendo cerca de 3000 alunos que evidenciava o efeito positivo da actividade física no rendimento escolar para além dos benefícios óbvios na saúde.
Também em 2012, um trabalho divulgado na Lancet referia que em Portugal, entre os adolescentes, dos 13 aos 15, quatro em cada cinco não são fisicamente activos.
As consequências potenciais deste quadro em termos de saúde e qualidade de vida são muito significativas, quer em termos individuais, quer em termos sociais. Assim, e como já tenho referido, um problema de saúde pública desta dimensão e impacto justifica a definição de programas de prevenção, educação e remediação que o combatam. Provavelmente, teremos algumas reacções contra o chamado “fundamentalismo nos hábitos individuais” mas creio que são também de ponderar as implicações colectivas e sociais do problema.
No entanto, como sabemos, o excesso de peso e os riscos associados não serão, para a esmagadora maioria das miúdos e graúdos nessa situação, uma escolha individual, é algo de que não gostam e sofrem, de diferentes formas, com isso.
Eu sei que à escola não compete tudo. Não pode, nem deve ser responsável por todos os problemas que afectem a população em idade escolar. Sei, sabemos, no entanto, que pela educação é que vamos lá.

terça-feira, 16 de maio de 2017

OS MIÚDOS DE HOJE

Manel, deixa-me acabar a conversa com a Tia Joana.
Mas eu não posso falar porquê?
Porque eu te estou a dizer para estares calado. Não mexas nesse livro.
Mas não posso mexer no livro porquê?
Porque podes estragá-lo.
Mas eu não o estrago, posso ver?
Não Manel, já te disse que não
Como ia dizendo Joana … Manel não estejas a falar para a senhora.
Mãe, porque é que eu não posso falar para a senhora?
Para não a incomodares.
Mas ela não está incomodada.
Olha, enquanto esperas faz este jogo.
Eu tenho que fazer esse jogo porquê?
Para estares entretido e não fazeres asneiras.
E porque é que aquilo que eu estava fazer é asneira?
Manel, pára com as perguntas.
Mas não posso fazer perguntas porquê?
Cala-te um bocadinho Manel. Estás a ver Joana, como são os miúdos de hoje, não se calam nem por nada, sempre com perguntas, dão-nos cabo da paciência. Mas como te ia dizendo, o problema é que ninguém diz nada, as pessoas ouvem, calam-se e não refilam, depois admiram-se de as coisas estarem como estão.
A verdade é que os miúdos de hoje são educados pelos adultos de hoje, nós.

OUVIR OS ALUNOS

Ao que se lê no Público, Andreas Schleicher, o director do Departamento de Educação e Competências da OCDE, citou o exemplo do ME de ouvir os alunos sobre o universo das políticas educativas numa iniciativa a que chama “A voz dos alunos”. Se bem se recordam o ME organizou em Novembro em Leiria um encontro que reuniu alunos do ensino básico e secundário sobre temáticas como “O que aprendemos? Como aprendemos melhor? O que distingue os professores que constituem referências para nós? O que retemos do que aprendemos? Como utilizamos o que aprendemos? O que (não) mudaríamos na escola?”. Hoje realiza-se novo encontro.
De acordo com os relatos, os alunos apresentaram questões como aulas mais práticas, mais debates, mais trabalho colaborativo, mas saídas da escola, diversificação das opções de escolha das disciplinas no secundário, mais actividades ligadas às expressões, mais conteúdos ligados à cidadania, maior ligação com a prática, promoção do espírito crítico, turmas mais pequenas, professores motivados e que não desistam dos alunos.
Não tenho um entendimento idealizado ou romântico do “diálogo” e do “ouvir os alunos” mas creio que importará, de facto, ouvir os alunos, todos os alunos, com real interesse no seu olhar e ideias sobre a sua vida escolar.
Achei, portanto, uma iniciativa positiva.
A propósito de ouvir os alunos, recordo que há algum tempo participei num conjunto de conversas com alunos do 2º e 3º ciclo em que se discutia o que era essa coisa de ser um bom professor.
A maioria dos alunos envolvia-se activamente e a continuidade das referências levou à identificação de uma resposta que se poderia sintetizar na ideia de que "bom professor é o que fala com a gente e explica bem".
Este entendimento lembrou-me, cito-o aqui frequentemente, o Mestre João dos Santos quando afirmava que alguém tinha sido seu professor "porque foi seu amigo".
De facto, o sucesso dos processos de ensinar e aprender assenta em dois eixos fundamentais, a qualidade do ensinar e a relação entre quem ensina e quem aprende. Do meu ponto de vista, a grande maioria dos professores estará equipada sobre o ensinar. A grande questão é que a nossa escola, de uma forma geral, não facilita a relação. Esta dificuldade decorre, fundamentalmente, da organização dos tempos lectivos, da natureza e extensão dos conteúdos curriculares das diferentes e muitas disciplinas, da crescente pressão para resultados tangíveis, o número crescente de alunos por turmas e do número de turmas leccionado por muitos professores, de um ensino demasiado assente no manual, etc. para além, naturalmente, das concepções de alguns professores.
Os professores, muitos professores, sentem-se "escravos" do programa que tem de ser dado e do pouco tempo disponível para construção da relação que na verdade se torna muito difícil.
Muitas vezes digo que os professores "falam" para o programa, para o explicar, e os alunos "falam" para o programa para o aprender. Não falam entre si sendo que, além disso, existe um grupo significativo de alunos que, por diversas razões como dificuldades ou desmotivação ou associadas a variáveis de contexto, não conseguem "falar" com o programa. Para estes, os professores vêem-se obrigados a falar, sobretudo para controlar os seus (maus) comportamentos.
Também por estas razões, continuo a entender como necessária uma mudança mais significativa na organização dos tempos da escola e dos conteúdos curriculares que tornassem mais fácil podermos ouvir os alunos dizer, "a gente tem bons professores porque explicam bem e falam com a gente".
Esta ideia não tem nada de romântico nem de utópico, assenta em algo de muito simples, a educação constrói-se com a relação que se alimenta com a comunicação.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

EDUCAÇÃO INCLUSIVA. RECOMENDAÇÃO DA A.R.

Pelo seu significado político divulgo a recomendação da Assembleia da República sobre Educação Inclusiva hoje publicada em Diário da República.
Devo dizer que discordo de algumas das orientações expressas mas creio que é importante enquanto tomada de posição pelo Parlamento. Veremos o que contemplará a legislação que se aguarda, sobretudo no que respeita à substituição do DL 3/2008 que em nome da inclusão abriga alguns mecanismos de exclusão.

Resolução da Assembleia da República n.º 77/2017
Recomenda ao Governo que promova uma verdadeira escola inclusiva, dando cumprimento à Recomendação n.º 1/2014, de 23 de junho, do Conselho Nacional de Educação e às recomendações do Grupo de Trabalho sobre Educação Especial, criado pelo Despacho n.º 706 -C/2014, de 15 de janeiro.
A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição, recomendar ao Governo que:
1 — Promova uma verdadeira escola inclusiva, dando cumprimento à Recomendação n.º 1/2014, de 23 de junho, do Conselho Nacional de Educação (CNE) e às recomendações do Grupo de Trabalho sobre Educação Especial, criado pelo Despacho n.º 706 -C/2014, de 15 de janeiro.
2 — Estabeleça e diferencie medidas educativas temporárias para as necessidades educativas especiais (NEE) de caráter transitório, e medidas educativas específicas para as situações de alunos com dificuldades de aprendizagem específicas que impeçam a qualidade e desenvolvimento dessa aprendizagem.
3 — Crie condições para as escolas proporcionarem ao aluno medidas pedagógicas contextualizadas, entre as «adequações curriculares individuais», previstas no artigo 18.º da Lei n.º 3/2008, de 7 de janeiro, alterada pela Lei n.º 21/2008, de 12 de maio, e o estabelecimento de um «currículo específico individual», previsto no artigo 21.º da mesma lei.
4 — Estabeleça orientações específicas para a definição e avaliação de Programas Educativos Individuais (PEI), a partir das capacidades dos alunos e não das suas incapacidades. 5 — Garanta a certificação pedagógica do percurso escolar realizado pelos alunos com PEI e Currículo Específico Individual (CEI).
6 — Garanta a efetiva participação dos pais e encarregados de educação nos processos de referenciação e avaliação dos alunos com NEE, bem como na construção dos seus PEI/CEI.
7 — Operacionalize os princípios estruturantes do paradigma da inclusão, criando ações de formação e capacitação para diretores de agrupamento, professores do ensino regular e especial, assistentes operacionais, pais e encarregados de educação, técnicos e terapeutas.
8 — Distinga os apoios habilitativos/educativos dos apoios de natureza terapêutica, devendo os primeiros ocorrer em meio escolar e os segundos noutros contextos mais apropriados, como sejam os centros de saúde e as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) licenciadas para o efeito.
9 — Promova um maior envolvimento do Serviço Nacional de Saúde na identificação, avaliação e acompanhamento, em especial de forma precoce, das necessidades de apoio terapêutico das crianças e jovens.

UM OUTRO SUCESSO

Também é sucesso, também é de gente nova, também é de dimensão europeia, mas tem um bocadinho menos impacto mediático.
No entanto, o que significa e a sua importância são óbvias. Trata-se apenas ... do futuro.

Portugal ganha medalha de prata nas Olimpíadas da Ciência da UE

SÍNDROME PÓS-MINISTERIAL

Provavelmente devido ao que costumo designar por “Síndroma Pós-ministerial” os ex-ministros tendem a surpreender-nos defendendo com frequência posições ou produzindo afirmações de sentido completamente diferente à sua actuação enquanto ministros.
Nuno Crato veio dar mais um exemplo. Foi ministro de um Governo que foi um “bom aluno” e de uma subserviência ao diktat da troika que embaraçava. Ontem, num debate no Grémio Literário, afirmou ter “a pior opinião possível sobre a Comissão Europeia”. Notável. Talvez pudesse ter dito alguma coisa na altura, não? Ah, pois, mas não pode ser, eles é que mandam. Claro, os bons alunos são assim.
De resto e no que toca à educação, continua a reclamar a paternidade face aos resultados dos PISA sem que os testes de paternidades confirmem a sua exclusiva responsabilidade, refirma a excelência da sua política centrada em resultados, “a examocracia”, a criação de uma via vocacional precoce ao arrepio das boas práticas e orientações internacionais e a diabolização dos sindicatos de professores.
Nada de novo.

domingo, 14 de maio de 2017

A CAMINHO DOS AÇORES

Daqui a pouco e como diz o meu neto, lá vou eu a caminho dos Açores.
O desafio tem sido grande e estimulante para quem tem a educação como paixão e mundo profissional, sorte a minha. Trata-se de participar num projecto de natureza e educativa e comunitária a uma escala que torna tudo mais próximo, um concelho, o de Lagoa.
Combater o insucesso educativo e o abandono precoce é um imperativo em nome do futuro de crianças e adolescentes em idade escolar.
Com o entendimento que tantas vezes cito e ouvi pela primeira vez em Moçambique, “para fazer uma casa bastam quatro homens, para educar uma criança é preciso uma aldeia”, o trabalho que se realiza está para além das escolas, envolve as famílias e as diferentes estruturas, públicas ou privadas, que lidam com as problemáticas das crianças e jovens e das famílias.
É, será sempre, uma tarefa difícil certamente mas acredito que é possível, a educação pode, deve e é capaz de fazer a diferença e contrariar o destino.
O empenho e a mobilização que encontrámos no trabalho com os professores, direcções, funcionários, técnicos das escolas de Lagoa, a disponibilidade e abertura de várias entidades de sectores diversos da comunidade de Lagoa e, sobretudo, o muito trabalho com qualidade que já é realizado, são um conjunto de factores muito animadores apesar da consciência das dificuldades.
É sempre bom voltar e encontrar frutos positivos do trabalho que está a ser feito e pensado para ter continuidade e que os miúdos, as famílias e os professores e técnicos competentes e empenhados  que o desenvolvem bem merecem.

PELA VISÃO ONLINE. PARA ALÉM DA BALEIA AZUL

É essencial reflectir sobre o conjunto de razões pelas quais adolescentes e jovens se envolvem em situações desta natureza com riscos graves.

(...)

sábado, 13 de maio de 2017

QUE DIA!

Às vezes, mas só às vezes, uma boa canção excelentemente cantada e com um arranjo notável ganha um evento em que se não espera qualidade.
Bom trabalho Salvador e Luísa.



A CHAMA IMENSA

BENFICA TETRACAMPEÃO NACIONAL

A alma benfiquista acendeu de novo a chama imensa. Tetracampeões.





Com a estrada que já levo percorrida foram vários os títulos de campeão a que fui assistindo. No entanto, os dois últimos foram os mais saborosos.
Uma palavra de apreço à entrega e valor da equipa, à competência de Rui Vitória, ao seu  bom senso, falou quanto baste e calou quanto baste.
Um agradecimento ao fortíssimo contributo que Bruno de Carvalho, Jorge Jesus e Nuno Saraiva deram a este novo título emprestando-lhe, de facto, um sabor especial.

TRADIÇÃO

O dia de hoje está centrado em Fátima, no Futebol e no Festival. Muitos de nós contentes com a visita do Papa, que visitando Fátima e vivendo no Vaticano afirma querer uma "Igreja pobre de meios e rica de amor" o que é significativo. Veremos com que resultados. 
Alguns de nós esperando uma vitória do Benfica. 
Finalmente, muitos de nós esperando também uma vitória do Salvador. 
Um dia cheio. Veremos como tudo acaba
A tradição voltou.


sexta-feira, 12 de maio de 2017

DA FÉ, DO DESESPERO E DO ... TENHA PACIÊNCIA, JÁ NÃO CABE

A visita do Papa Francisco é, naturalmente, uma matéria incontornável e de uma multiplicidade de implicações e acontecimentos notável.
Uma peça do público com o título, "Só queria que o Papa pusesse o meu filho a falar", aborda os que por razões de saúde ou condição de necessidades especiais procuram uma bênção do Papa que os recupere ou alivie. O título do jornal é elucidativo.
Alguns depoimentos na peça mostram a força e o lado trágico da fé e do desespero perante a qual qualquer esforço de racionalidade é difícil.
O que me deixou verdadeiramente entre o perplexo e o embaraçado foi saber que “apenas” 600 pessoas terão acesso à bênção do Papa Francisco. Devido ao elevado número de pessoas que pretendia tal graça uma equipa de 24 médicos e 26 enfermeiros observa o candidato a abençoado, analisa a documentação que comprova o a sua condição e autoriza, ou não, um lugar entre os eleitos. Lê-se ainda que este processo levará horas, estamos a falar, em princípio, de pessoas altamente fragilizadas.
Face a isto ainda tentei num esforço de racionalidade, aqui sim, entender que o espaço será finito mas … não chega.
Também aqui teremos o povo eleito, os abençoados.
Os outros, os outros também são povo de Deus, mas de um Deus menor.
Certamente não estranharão.
É a vida de muitos deles, sempre à porta.

EPPUR SI MUOVE

A vinda do Papa Francisco a Portugal no contexto do centenário do fenómeno de Fátima não pode deixar de ser sublinhada, mesmo para um não crente como eu. O peso da Igreja Católica no nosso país e no mundo justifica a referência se bem que sejamos constitucionalmente um estado laico pelo que a tolerância de ponto aos funcionários da administração, ainda que habitual, não deixa de ser pouco justificada.
O discurso da Igreja sobre Fátima na sua face mais pública entrou em reversão, para recorrer a um termo em moda.
Duas figuras da Igreja em Portugal produziram afirmações importantes. O Bispo D. Carlos Azevedo, Delegado pontifício da Cultura no Vaticano, afirmou “Maria não vem do céu por aí abaixo” e entende que é o momento de usar uma “linguagem exacta” sobre os acontecimentos de há 100 anos na Cova da Iria, aconteceram visões imaginativas, místicas, não aparições.
Por outro lado, em entrevista ao Expresso o Padre Anselmo Borges diz, “É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima”.
Aguardo com alguma curiosidade a forma como o Papa Francisco se referirá às circunstâncias que motivam a sua visita.
No entanto, apesar de alguma frescura nos discursos e comportamento do Papa Francisco não estou particularmente confiante numa mudança de substantiva embora, mesmo como não crente, a julgue essencial pelo papel e significado que a Igreja ainda mantém nas nossas comunidades.
A propósito das mudanças na Igreja, ou da sua ausência, recordo que D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal, afirmava em 2012, em entrevista ao JN, que a Igreja não está à altura do momento, está "atrasada" e não presta atenção às "transformações do mundo".
A afirmação de D. Manuel Martins lembrou-me o conhecido enunciado, "no entanto ela move-se". Ao que a história ou a lenda rezam, no séc. XVII Galileu Galilei reagiu com esta mítica afirmação à sua condenação no Tribunal do Santo Ofício pela defesa do modelo heliocêntrico, a Terra move-se em volta do Sol.
Do meu ponto de vista, a reconhecida perda da influência da Igreja Católica, sobretudo nos países mais desenvolvidos, deve-se também ao seu imobilismo, à forma conservadora como não reage às óbvias mudanças sociais, políticas, económicas e culturais sustentando um progressivo afastamento da vida das pessoas, como reconhecia D. Manuel Martins.
Um dia, talvez a instituição Igreja aceite e perceba a importância e a necessidade de mudança no discurso e nas atitudes relativas ao divórcio e casamento, às uniões entre pessoas do mesmo sexo e adopção por parte destes casais, à anticoncepção, ao celibato dos padres, à abertura do sacerdócio às mulheres, o combate à ostentação visível em parte das estruturas da igreja, etc. Aliás, estas foram justamente algumas das questões referidas pelo Padre Anselmo Borges na entrevista ao Expresso e para as quais entendia a necessidade de mudanças na Igreja
No entanto, considerando o que se tem ouvido e é conhecido das intervenções da poderosa hierarquia da Igreja, não creio que, apesar de alguns comportamentos e discursos do Papa Francisco e também da significativa mudança de estilo face ao seu antecessor Bento XVI, seja de esperar um movimento de alteração significativa nas posições da Igreja sobre estas matérias.
Eppur si muove.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

RICOS MENDIGOS

Pode parecer estranha a formulação mas uma das questões que me inquieta no que respeita à vida dos mais novos é a situação de miúdos e adolescentes que vivendo em situações de aparente conforto e bem-estar acabam por se transformar em mendigos.
Existem muitas crianças e adolescentes que têm imensos brinquedos, diria demais, e não têm com quem brincar. Pedem, por isso, companheiros de brincadeira.
Existem crianças e adolescentes com muitos brinquedos e com pouco tempo para brincar. Pedem, por isso, tempo para brincar
Existem crianças e adolescentes cheios de ferramentas de comunicação mas com poucas pessoas com quem, verdadeiramente, comuniquem. Pedem, por isso, gente com quem falar, mesmo.
Existem muitas crianças e jovens com pais sem tempo para ser pais. Pedem, por isso, um tempinho para eles. Não tem que ser muito, só tem que ser para eles.
Existem muitas crianças e jovens que se sentem mal, a aprender e a ser. Pedem, por isso, atenção. Pedir atenção não é o problema, é o sintoma.
Existem muitas crianças e adolescentes que inventam personagens nas quais se escondem. Pedem, por isso, ajuda para os medos que os inquietam.
Existem muitas crianças e adolescentes que são tratados como gente adulta. Pedem, por isso, que as pessoas não se esqueçam de que são miúdos e jovens.
A verdade é que, de facto, há mais gente a mendigar do que pensamos. Acontece que, tal como os mendigos que nos pedem uma moeda, também estes por vezes são transparentes, nem damos por eles.

CRIANÇAS, JOVENS, LIVROS E LEITURA

No Público, a propósito da iniciativa “Livros a Oeste”, na Lourinhã, aborda-se o interesse e impacto para as escolas, alunos e professores, e comunidades que poderá ter a realização de festivais ou encontros literários e presença de autores.
Das opiniões recolhidas, programadores, editores, professores e professores bibliotecários, emerge algo consensual, estas iniciativas são úteis e mobilizadores para o estimular contacto com o livro e a leitura e para o conhecimento dos autores. Uma pequena nota para salientar que tem vindo a diminuir o número de professores bibliotecários algo que do meu ponto de vista não me parece justificável com o abaixamento do número de alunos pois o número de bibliotecas, o espaço de trabalho dos professores bibliotecários, aumentou.
Também me parece que iniciativas que aproximem desde muito cedo os alunos das actividades de leitura, independentemente do suporte e do contexto (familiar ou escolar), são essenciais na sua formação pessoal e escolar.
Muitos estudos e a experiência mostram que os hábitos de leitura são pouco consistentes entre as crianças, adolescentes e jovens como, sem surpresa, também o são entre a população em geral.
Sabemos ainda o quanto é positivo que os pais ou outros “mais crescidos” se envolvam com as crianças, mesmo em idade de jardim-de-infância, em práticas de leitura e de actividades com os livros para, por exemplo, contar histórias a partir das imagens. Lembro-me de ouvir o Mestre João dos Santos afirmar que as crianças aprendem a ler desde que abrem os olhos.
É verdade que os estilos de vida actuais ou a quantidade de tempo que muitas crianças passam nas instituições educativas podem minimizar a disponibilidade familiar para este tipo de actividades depois de dias muito compridos e cansativos para todos.
Também sei que os livros e materiais desta natureza têm uma concorrência fortíssima com outro tipo de materiais, jogos ou consolas por exemplo, e que nem sempre é fácil levar as crianças a outras opções, designadamente aos livros.
Apesar de tudo isto também sabemos todos que é possível fazer diferente, mesmo que pouco diferente e com mudanças lentas.
Como várias vezes tenho afirmado e julgo consensual, a questão central, embora importante, não assenta nos livros, bibliotecas (escolares ou de outra natureza) ou na presença crescente e atractiva dos "tablets", a questão central é o LEITOR, ou seja, o essencial é criar leitores que, quando o forem, procurarão o que ler, livros por exemplo, espaços ou recursos, biblioteca, casa ou escola e suportes diferente, papel ou digital.
Creio que também estaremos de acordo que um leitor se constrói desde o início do processo educativo. Desde logo assume especial importância o ambiente de literacia familiar e o envolvimento das famílias neste tipo de situações, através de actividades que desde a educação pré-escolar e 1º ciclo deveriam, muitas vezes são, estimuladas e para as quais poderiam ser disponibilizadas aos pais algumas orientações.
Nos primeiros anos de escolaridade é fundamental uma relação estreita com a leitura, não só com os aspectos técnicos, por assim dizer, da aprendizagem da leitura e da escrita da língua portuguesa, mas um contacto estreito e regular com a actividade de leitura, seja do que for, considerando motivações e culturas diferenciadas apresentadas pelos alunos.
Só se aprende a ler lendo, só se aprende a escrever, escrevendo, etc.
Neste contexto, parece fundamental que construa espaço e tempo para a leitura, para a leitura que não é colada ao estudo. Acontece que no actual currículo e no tempo que os alunos estão na escola e da forma como muitas vezes está preenchido, esse tempo para a leitura não abunda, a motivação não se alimenta e os hábitos de leitura mais dificilmente se instalam e mantêm. Recordo um estudo conhecido em 2015 realizado na Universidade do Minho que apontava para que 10% dos alunos do ensino secundário nunca leu um livro até ao fim. Elucidativo.
A relação de muitas crianças com os materiais de leitura e escrita assentará, provavelmente de forma excessiva, nos manuais, na aquisição pressionada dos “objectivos” e "descritores" curriculares e pouco mais apesar do esforço de muitos professores. Restará o tempo das AECs onde, apesar de algumas experiências interessantes, também nem sempre se encontram os conteúdos mais adequados, e o tempo de casa que em muitas famílias, cada vez mais famílias, é curto.
Neste contexto, embora desejasse muito estar enganado, não é fácil construir miúdos ou adolescentes leitores que procurem livros em casa, em bibliotecas escolares ou outras e que usem o "tablet" também para ler e não apenas para uma outra qualquer actividade do mundo que tornam acessível.
Temos que criar leitores, eles irão à procura das bibliotecas e dos recursos. As iniciativas que tragam os autores, os seus livros, as suas histórias para perto dos alunos e das comunidades fazem parte do caminho.