sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

FECUNDIDADE REVISTA EM BAIXA. Os filhos estão muito caros

O Presidente da República patrocinou hoje uma jornada de reflexão sobre a baixa natalidade em Portugal, problema que tem vindo a acentuar-se e que as políticas, desadequadas e dispersas, não têm conseguido reverter. O ano de 2011 foi o ano com menos nascimentos. A renovação de gerações exige 2,1 filhos por mulher sendo que desde 1982 que em Portugal não se atinge tal valor. Temos 1,37 como índice sintético de fecundidade o segundo mais baixo do mundo, atrás da Bósnia.
É ainda de registar que em 2010, um pouco mais de 10% dos nascimentos são crianças de mães estrangeiras, quando curiosamente temos discursos de governantes que nos aconselham, sobretudo aos mais novos, a emigrar e assim, lá longe, construir um projecto de vida.
Por outro lado, embora a maternidade faça parte dos projectos de vida das mulheres portuguesas, apenas 10% das que têm mais de 49 anos não têm filhos e 30% têm apenas um. Estes indicadores comprometem, obviamente, a renovação geracional, potenciando o envelhecimento populacional e o desequilíbrio demográfico. Contrariamente ao que se verifica noutros países que têm as respectivas taxas a subir, em Portugal o declínio a partir de 2003 tem sido constante.
É ainda interessante sublinhar que trabalhos recentes evidenciam que as mulheres portuguesas são de entre as europeias as que mais valorizam a carreira profissional e a família, a maternidade contrariando, assim, a tese de D. Manuel Monteiro de Castro, um novo cardeal português que defende que o Governo deveria apoiar mais as famílias, para que a mulher pudesse ficar em casa e “aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, a educação dos filhos”, lê-se no Público.
Também é sabido de outros estudos que as mulheres portuguesas são das que mais tempo trabalham fora de casa.
Como parece claro, este cenário, menos filhos quando se desejava fortemente compatibilizar maternidade e carreira, exige, já o tenho referido, a urgência do repensar das políticas de apoio à família. Os salários baixos são uma das razões que “obrigam” a que as famílias revejam em baixa, como agora se diz, os projectos relativos a filhos. Por outro lado, Portugal tem um dos mais elevados custos de equipamentos e serviços para crianças o que, naturalmente, é mais um obstáculo para projectos de vida que envolvam filhos.
Não pode ainda esquecer-se a discriminação salarial de que muitas mulheres, sobretudo em áreas de menor qualificação, são ainda alvo e a forma como a legislação laboral e a sua “flexibilização” as deixam mais desprotegidas. São conhecidas muitas histórias sobre casos de entrevistas de selecção em que se inquirirem as mulheres sobre a intenção de ter filhos, sobre casos de implicações laborais negativas por gravidez e maternidade, sobre situações em que as mulheres são pressionadas para não usarem a licença de maternidade até ao limite, etc.
Toda esta situação torna urgente a definição de políticas de apoio à família com impactos a curto e médio prazo como, por exemplo, a acessibilidade aos equipamentos e serviços para a infância com o alargamento da resposta pública de creche e educação pré-escolar, cuja oferta está abaixo da meta estabelecida. Combater a discriminação salarial e de condições de trabalho através de qualificação e fiscalização adequadas. Aliás, é ainda curioso sublinhar o impacto que nesta questão pode ter a política do governo de aumentar o tempo de trabalho o que, naturalmente, retira tempo à família.
Só com uma abordagem global e multi-direccionada me parece possível promover a recuperação demográfica indispensável.

OS DESFILES FELIZES DOS MENINOS E DOS PROFESSORES FELIZES

Hoje é dia de desfiles de Carnaval para as escolas portuguesas. Devo dizer, como registo de interesses, que não sou particular adepto da quadra, o que, eventualmente poderá contaminar estas notas. É certo que o Carnaval deste ano tem como peça de grande sucesso o genial “sketch” inventado por Passos Coelho com o nome “A tolerância de ponto”.
Ao olhar para os participantes, à excepção de uma residual minoria de alunos e professores que se sente obrigada a participar, os desfiles organizados pelas escolas são autênticos passaportes para a felicidade mesmo que transitória, o que em tempos de crise e de grandes dificuldades não é coisa de somenos.
Já me cruzei hoje com dois desses desfiles e é enternecedor o ar feliz que os cowboys, as bruxas, os super-homens, os homens aranha, os polícias, os dráculas, as fadas, as enfermeiras, as borboletas e flores, etc. etc., compõem no passeio pelas ruas.. Parece mesmo que estão felizes, até emociona.
É também enternecedora a imagem dos professores, muitos também carregando as suas máscaras, compondo um ar risonho, contente com que, depois do desgaste de vários dias a preparar os fatos, acompanham as criancinhas numa visita ao meio, o Estudo do Meio ainda integra o currículo, até o Ministro Crato se lembrar que essa coisa de estudar o meio não serve para nada, é melhor estar a fazer contas na escola, sem máquina calculadora, é claro.
Os desfiles acabam por ser contagiados pelo clima de empatia e boa-disposição que se vive nas escolas, os meninos armazenados muitas horas por dia, os papás a temer pelo desemprego e sem lá aparecer na escola e os professores com uma estabilidade profissional e com um clima nunca antes sentido face à genial política do MEC. Até os professores contratados parecem contentes.
Não consegui verificar, mas é natural que durante os desfiles alguns professores relatores estejam atentos às performances dançantes dos professores, às coreografias, às cantigas, aos fatos que os meninos carregam. Sendo que as aulas podem ser observadas e avaliadas, os professores que querem ser excelentes e bons, se couberem nas quotas, bem entendido, poderão ser também observados nos desfiles. Tão bonito.
E os fotógrafos das autarquias sempre em cima do desfile, para aquelas fotos que colocadas no Boletim Municipal, farão as delícias do Vereador responsável e do Presidente, relembrando que a Autarquia apoia, sempre mas sempre, a Educação. Lindo.
Estão a ver porque raio não simpatizo com o Carnaval?

ELE TEM QUALQUER COISA DE DIFERENTE

Vinha um e dizia, ele tem qualquer coisa de diferente.
Vinha outro e dizia, ele tem qualquer coisa de diferente.
Vinha mais alguém e dizia, ele tem qualquer coisa de diferente.
Vinha outro alguém e dizia, ele tem qualquer coisa de diferente.
Vinha um mais velho e dizia, ele tem qualquer coisa de diferente.
Vinha um mais novo e dizia, ele tem qualquer coisa de diferente.
Toda a gente dizia, ele tem qualquer coisa de diferente.

Ele também sentia que tinha qualquer coisa de diferente. Só não percebia porque é que isso era um problema muito grande. Olhava para os outros miúdos e também não os achava iguais. Todos tinham qualquer coisa de diferente.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

QUEM SEMEIA VENTOS, COLHE TEMPESTADES

A imprensa de hoje dá conta do cancelamento de uma visita do Presidente da República à Escola António Arroio devido a um "impedimento" que algumas fontes relacionam com questões de segurança decorrentes de manifestações de alunos. No mesmo universo, a segurança. hoje também se refere que devido a ameaças os Ministros Vítor Gaspar e Álvaro Pereira passam a dispor de protecção policial.
Estas notícias não são simpáticas mas, como o povo diz, são "fruta da época". As sucessivas e pesadíssimas medidas, chamadas de austeridade, conjugadas com as dificuldades decorrentes da própria situação económica estão a colocar a resistência de muitas pessoas nos limites ou para além dos limites, como o próprio Cavaco Silva já referiu. O desemprego, noticia-se hoje está a um nível recorde, 14%, e prevê-se o seu crescimento o que representa uma fortíssima ameaça à dignidade das pessoas.
Por outro lado, e do meu ponto de vista de forma muito grave, muitas afirmações de gente politicamente responsável têm sido profundamente infelizes, para ser simpático, mas na verdade insultuosas e inaceitáveis face aos problemas que colocam 2,7 milhões de portugueses à beira da pobreza e exclusão. Os exemplos são muitos, o caminho é empobrecer, emigrar é um saída, não se queixem, não estão bem mudem-se, etc., quando, simultaneamente, o estado e muitas figuras continuam a promover gastos e a usufruir de mordomias e rendimentos que não se compreendem e aceitam.
Tudo isto gera um caldo de cultura em que se corre o risco de diluir os brandos costumes com que nos costumam identificar.
Como o povo diz, "quem semeia ventos, colhe tempestades".

O MINISTRO CRATO E OS EXAMES. Uma relação incompreensível

Devo confessar que tenho alguma dificuldade em entender a relação que o Ministro Nuno Crato estabelece com a questão dos exames escolares.
Desde há muito que boa parte do seu pensamento educativo, se assim se pode chamar, se centra na promoção de mais exames como forma de melhorar a qualidade e os resultados dos alunos. Não estando, evidentemente, em discussão a importância , a vários níveis dos exames, escapa-me como o seu aumento produza, só por si, qualidade e mudança. Como costumo afirmar, é como se acreditássemos que medindo muitas vezes a febre esta acabará por baixar.
Em todos os patamares dos sistema educativo em que se realizam exames, sempre se organizaram, por razões óbvias, duas fases. Como também não é estranho, a existência das duas fases permite que os alunos organizem a sua agenda, repartindo a realização dos exames, numa tentativa de conseguir mais tempo de preparação. Compreensível e nada de estranho.
No entanto a coisa vai mudar. O Ministro Crato embirra com isto e, portanto, decidiu obrigar a que, em todos os exames nacionais, os alunos tenham que se apresentar na primeira fase, não podendo optar. A justificação é curiosa, "o que não pode acontecer é os alunos fazerem os exames quando lhes apetece", "Estamos a prejudicar todos com isso. Estarmos a prejudicar o processo de entrada no ensino superior e o funcionamento das escolas", afirmou o Ministro.
Não colhe, os alunos não fazem os exames quando lhes apetece, fazem-nos nas datas que o MEC determinar e haverá sempre duas fases pelo que, podem ir à primeira "para cumprir calendário" e voltar à segunda para "melhorar a nota". Não percebo pois em que é que a situação anterior "prejudica todos" e as escolas.
Quanto ao processo de entrada no ensino superior, afirmo de há muito que o acesso ao superior deveria ser da responsabilidade das instituições de ensino superior que frequentemente reclamam a responsabilidade para escolher os seus alunos mas não reclamam o processo de escolha, algo de contraditório. Assim os exames nacionais no secundário deveria destinar-se a certificar a conclusão do secundário e o processo de candidatura e acesso ao superior constituir um processo separado no qual se contemplaria, naturalmente, a classificação obtida no secundário. Existindo como é normal, duas fases de exame, continuo sem perceber as implicações que a decisão do Ministro Nuno Crato tem no acesso ao superior que, insisto, assenta um modelo inadequado.
Uma última nota relativa à orientação do Ministro que se encontra no sítio do GAVE, "os exames nacionais não devem incluir questões demasiado simples para o nível de escolaridade a que se destinam". Certamente estarei errado, mas parece-me um pouco aceitável atestado de incompetência aos serviços. É suposto que o trabalho seja competente e os exames adequados. Se não são, ou não eram, que se apurem responsabilidades e se tomem decisões. Produzir esta orientação é que me parece estranho.
Deve haver algo que me escapa na fixação que o Ministro Nuno Crato tem com a questão dos exames.

A EXPERIÊNCIA QUE ENSINA. Outro diálogo improvável

Um dia destes, entre dois apressados goles de chá na sala de professores, a Cláudia, professora com poucos anos de experiência, dizia para o Professor Velho, o que está biblioteca e fala com os livros.
Velho, ontem à noite estava a pensar como apesar de tantas coisas que aprendemos quando andamos na formação para professores, as tantas mais que aprendemos quando chegamos às escolas. A experiência ensina mesmo.
Tens razão, a experiência, quando a sabemos usar, ensina-nos muito, a nossa e a experiência dos outros. por isso é digo sempre que nós deveríamos trocar mais as nossas experiências, era bom para todos, nenhuma é igual à outra.
Pois é, mas é curioso que, isto aconteceu em quase todas as escolas onde trabalhei, para os grupos de alunos que se sabia serem mais difíceis, eram escolhidos justamente os professores com menos experiência, os mais novos. Não achas que deveria ser ao contrário?
Acho que tens razão Cláudia, mas essa situação, muito rara, é tomada de forma bem intencionada e para ajudar os professores menos experientes.
Estás a brincar ou a falar a sério? Não percebo o que queres dizer.
Os colegas mais experientes, que conhecem melhor os alunos e o fazer da profissão, sabem que os mais novos precisam de experiência para melhorar e se sentirem mais confiantes. Se lhes atribuírem grupos mais difíceis a sua experiência irá ser mais enriquecedora e sairão beneficiados, entendes agora? Os grupos mais difíceis para os professores menos experientes é mesmo para os ajudar a ser bons professores mais rapidamente. A experiência ensina, tu mesma o afirmaste.
Velho, eu acho que estás a gozar comigo. Ou estás a proporcionar-me mais experiência para ficar mais competente?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A SOPA DOS POBRES. Obrigado Senhores

Num assomo de caridade e generosidade, o Governo decidiu aumentar a Sopa dos Pobres. Obrigado Senhores.
Segundo notícia do Público, ficarão a funcionar 950 cantinas sociais, uma resposta que é uma acusação aos modelos de desenvolvimento a que nos sujeitámos e sujeitaram. Certamente algumas famílias vão beneficiar da medida, óptimo, mas é algo de degradante e uma afronta à dignidade, seria um dedo apontado à consciência ética de muitos, se a tivessem, evidentemente.
Curiosamente e a propósito de alimentação e carências gostava de recordar uma notícia de há poucos dias.
O Parlamento Europeu aprovou um relatório segundo o qual a União Europeia que tem 79 milhões de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza, 15,8% da população, e desperdiça anualmente cerca de metade do que consome em alimentos. Este desperdício corresponde a 89 mil milhões de toneladas, um número verdadeiramente assombroso. O Parlamento Europeu estabelece como objectivo para a Comissão reduzir em 50% o desperdício até 2025.
Relembro que 2010 foi o Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão e o resultado está à vista, 79 milhões de pobres, cerca de 2,7 milhões em Portugal. Parece-me ainda oportuno recordar que recentemente, também a Comissão Europeia publicou um relatório mostrando como as medidas de austeridade em Portugal estão a agravar as assimetrias sociais e, de forma extraordinária, o Primeiro-ministro já avisou que o caminho é o empobrecimento.
Quando tanto se fala de produtividade, em nome da qual, se ameaça a dignidade das pessoas e se lhes piora as condições de vida talvez fosse altura de também nos centrarmos no desperdício e nos seus efeitos devastadores.
Neste quadro releva a necessidade urgente de ponderar os modelos de desenvolvimento económico e social, combater desperdícios consequência desses modelos, diminuir efectivamente o fosso intolerável entre os mais ricos e mas pobres, caminhar no sentido da construção de uma dimensão ética que seja reguladora da atribuição de privilégios incompreensíveis e obscenos para poucos e tolerância face a situações de exclusão extrema para bastantes outros.
Enquanto não, aceitemos a generosidade e caridade que haverá de salvar as almas dos decisores que, sem um sobressalto, oferecem a sopa aos pobrezinhos. Obrigado Senhores.
Eu sei que escrever sobre estas questões em espaços desta natureza tem alcance zero, mas continuo convencido que é fundamental não deixar cair a preocupação, talvez seja melhor chamar-lhe a indignação, com a pobreza e exclusão. Por isso, a insistência.

A NEGLIGÊNCIA MATA

Começou a escrever-se o epílogo formal da trágica morte de uma criança, em 2009, numa piscina ilegal de uma creche ilegal. Os acidentes graves com crianças em piscinas são demasiado frequentes, neste caso acresceu a situação de ilegalidade de um equipamento que recebia crianças. A proprietária foi agora acusada pelo Ministério Público de homicídio por negligência. A questão, óbvia, é que uma tragédia desta dimensão não tem epílogo na sua dimensão humana e afectiva.
Continuamos a ser um dos países europeus em que as crianças mais são vítimas de acidentes domésticos. Nas mais das vezes verifica-se alguma negligência ou excesso de confiança da nossa parte, adultos, na vigilância dos miúdos.
O que me parece importante sublinhar é que num tempo em que os discursos e as práticas sobre a protecção da criança estão sempre presentes também se verifica um número altíssimo de acidentes mortais o que parece paradoxal. Por um lado, protegemos as crianças de forma que, do meu ponto de vista, me parece excessiva e por outro lado e em muitas circunstâncias, adoptamos atitudes e comportamentos altamente negligentes e facilitadoras de acidentes que com a inexperiência e à vontade próprias dos mais pequenos podem ter consequências trágicas.
A culpa que alguém pode carregar depois de uma episódio desta natureza será, creio, suficientemente forte para que deixemos de lado o aspecto da culpabilização embora neste caso sejam de apurar, obviamente, responsabilidades sobre a existência da creche ilegal, mais uma. Este apuramento deveria incidir sobre os responsáveis ou proprietários do equipamento mas também sobre as falhas de fiscalização.
Como sempre nestas matérias, a segurança dos mais novos, não dá para pensar que só acontece aos outros.
De vez em quando o céu desaba para cima de nós.

PONTO SIM. PONTO NÃO

E continua o Carnaval antes do Carnaval, o que mostra o lado visionário de Passos Coelho.
Numa medida genial, acaba com o diazinho de férias e, ao mesmo tempo, consegue prolongar a época carnavalesca.
Ao que se vai sabendo, a rapaziada da Assembleia da república anda em forte agitação e discussão sobre se cumprem, ou não, a determinação do Governo sobre a tolerância de ponto. Eu creio que, independentemente da decisão que venham a tomar, o Carnaval está garantido. O que me parece estranho é o tempo e o esforço gastos nestas discussões que, do meu ponto de vista, são mero desperdício.
Espero da Assembleia da República outro tipo de agenda, iniciativas e prioridades.
No entanto, não será certamente por acaso que são estas preocupações dos deputados que nos representam. Será que representam?

TRÊS SALGADOS E UMA COLA

Algumas matérias, pela sua importância, justificam referência regular. Um exemplo é a questão da saúde e bem-estar dos mais novos.
Hoje, no Público referem-se os dados do Observatório Nacional da Diabetes evidenciando o já conhecido e preocupante aumento de casos junto da população mais nova.
Embora no caso da diabetes tipo I não seja ainda bem conhecido sabe-se que a obesidade infanto-juvenil, decorrente do tipo de alimentação e sedentarismo tem uma estreita ligação com o aumento inquietante na incidência da diabete tipo II. Os indicadores sobre a obesidade entre a população júnior, apontam já no sentido de um problema de saúde pública.
Retomo um exemplo a que assisti e que aqui já contei. Um extremoso pai, ao meu lado, proporcionava a uma criancinha com 8 ou 9 anos um pequeno-almoço composto de três salgados e uma lata de cola. Curiosamente, na altura, esse texto despertou algumas reacções vindas, creio, de algumas pessoas que entendem que qualquer discurso ou iniciativa no âmbito dos comportamentos configurarão uma intromissão e desrespeito dos direitos individuais. Insisto na necessidade de iniciativas e discursos que promovam comportamentos mais saudáveis sobretudo quando se trata de crianças que são obviamente mais vulneráveis e desinformadas.
Um estudo há algum tempo divulgado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade revelava indicadores preocupantes. Entre os 2 e os 5 anos, 27,4% dos rapazes e 30,8% das raparigas estão em situação de pré-obesidade ou obesidade. Na faixa etária entre os 11 e os 15 anos a percentagem é de 28,6 para os rapazes e 27,8 para as raparigas. Em adultos e sem surpresa os números pioram, 50% dos homens e 30% das mulheres estarão em situação de pré-obesidade ou obesidade.
As consequências potenciais deste quadro em termos de saúde e qualidade de vida são muito significativas, quer em termos individuais, quer em termos sociais. Assim, e como já tenho referido no Atenta Inquietude, um problema de saúde pública desta dimensão e impacto justifica a definição de programas de prevenção, educação e remediação que o combatam.
Provavelmente, teremos algumas reacções contra o chamado “fundamentalismo nos hábitos individuais” mas creio que são também de ponderar as implicações colectivas e sociais do problema. Além de que todos nós sabemos que o excesso de peso não será, para a esmagadora maioria das pessoas nessa situação, uma escolha individual, é algo de que não gostam e sofrem, de diferentes formas, com isso.

O JOGO DOS BERLINDES

Hoje, não vislumbro a razão, lembrei-me com enorme nostalgia dos tempos em que jogava ao berlinde. Há muitos anos.
Lembro-me da minha bela colecção sempre em actualização, com os berlindes, também lhes chamávamos bilas ou carolos, as esferas de metal, os abafadores, as leiteiras, as pilecas, os olho-de-boi, etc., numa variedade de cores e valores que serviam de moeda de troca para gerir as colecções ou se perdiam e ganhavam no jogo das covas.
Não era um jogador de excelência mas tinha um divertimento excelente. A minha mediana pontaria não chegava para bater o genial Xico, o imbatível cromo do berlinde na minha rua.
Nos jogos com o Xico as apostas tinham que ser pelo mínimo, caso contrário arriscávamos um rombo sério na colecção. Tentávamos compensar escolhendo adversários mais acessíveis, com um ranking mais baixo como hoje se diria, que nos davam alguma garantia de acabar a sessão com mais uns berlindes no saco.
Usava os berlindes nuns sacos pequeninos de pano que a minha mãe, costureira, fazia aproveitando as sobras do trabalho dela. Um saco de berlindes e uma fisga constituíam o equipamento de saída para a rua, o cenário de todas as brincadeiras. É verdade, já houve tempos em que se brincava na rua.
Os renhidos jogos eram pretexto para acaloradas discussões, às vezes, mais do que discussões, mas crescíamos assim, percebendo limites e fronteiras para além, deve dizer-se, do peso das mãos dos outros que, à vez, eram nossos amigos ou nossos adversários. Nas mais das situações os conflitos surgiam da excessiva “elasticidade” com que medíamos o palmo, o ganso como lhe chamávamos, que nos levava a ficar mais perto do berlinde inimigo, facilitando a tarefa de lhe acertar. Lembro-me de a importância de, ao aceitar ou fazer um desafio para um jogo, gritar primeiro “marralhos p’ró carolo ao ganhas” que nos assegurava ser os últimos a iniciar o jogo e já ter os berlindes adversários no teatro de operações, como agora falam e escolher a táctica.
Na minha terra, há já alguns anos que não vejo os miúdos a jogar ao berlinde, devem, seguramente, estar a fazer outras tarefas que dão mais resultado e são boas para mais áreas do seu desenvolvimento, não podem perder tempo com actividades estúpidas e antigas.
Na verdade, também já não podem brincar na rua, é perigoso e a rua também já não permite as covinhas, só em zonas de terra.
Na verdade, também já quase não brincam.
Mas o futuro é risonho e feliz. Produzem e aprendem coisas fantásticas desde pequenos, para não perder tempo. Tempo é dinheiro.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

ATÉ AO DESACORDO FINAL

Parece que a questão do Acordo Ortográfico reentrou decididamente na agenda. Ainda bem.
Depois da agitação decorrente da decisão de Vasco Graça Moura de suspender a sua utilização no CCB, surgiu a notícia sobre a ausência de posição institucional da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e posteriormente o muito significativo editorial do Jornal de Angola com a expressão de uma opinião francamente desfavorável ao Acordo Ortográfico. Ainda bem, escrevo de novo.
Entretanto têm vindo a suceder-se iniciativas e tomadas de posição no sentido de tentar até ao limite contrariar a sua implantação, relembro que Angola e Moçambique ainda não o subscreveram, sendo, creio, pouco provável que após a posição expressa no Jornal de Angola, muito próximo do governo, as autoridades de Luanda o venham a fazer.
Ainda bem, torno a escrever.
Neste quadro, enquanto a questão não estiver definitivamente encerrada retomo, e retomarei, a minha breve e não técnica reflexão sobre o que me parece estar em causa e expresso o meu profundo desacordo com o Acordo.
Do que tenho lido e ouvido, nada me tem convencido da sua bondade ou necessidade. Entendo que as línguas são estruturas vivas, em mutação e isso é importante. Neste cenário, é clara a necessidade de ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma. Já estou cansado do argumento da “pharmácia” quando se pode verificar que em todos os países, e são muitos, em que o termo tem a mesma raiz, a grafia é com “ph” e nada de muito grave acontece. A introdução ou mudança na grafia tem acontecido em todas as latitudes e não tem sido necessário um Acordo com os conteúdos bizarros, alguns, que este contém.
Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence pois não me parece que o inglês e o castelhano que têm algumas diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, experimentem particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for. De facto não tenho conhecimento da perturbação e do drama com origem nas diferenças entre o inglês escrito e falado na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas.
Por outro lado, a opinião dos especialistas não é consensual, longe disso, temos regularmente exemplos disso mesmo, e eu sou dos que entendem que em todas as matérias é importante conhecer a opinião de quem sabe.
Neste quadro e como sou teimoso vou continuar a escrever em desacordo até que o teclado me corrija. Nessa altura desinstalo o corrector que venha com o acordo e vou correr o risco de regressar à primária, ou seja, ver os meus textos com riscos vermelhos por baixo de algumas palavras, os erros.
Não é grave, errar é humano.
No entanto, como toda gente, não gosto de errar, pelo que preferia continuar a escrever desacordadamente.

MINUDÊNCIAS IMPORTANTES

Esta história dos 120 000 euros que o Governo, segundo o Público, gastou na produção de 100 exemplares do Programa do Governo para distribuir … pelo Governo, seria uma irrelevância não fora a postura e os discursos do Governo no contexto de dificuldades que colocam 2,7 milhões de portugueses em risco de pobreza e exclusão.
Como é evidente, este montante, é nada no universo dos gastos estatais e é um tudo se considerarmos os sucessivos apelos a sacrifício, empobrecimento, saída da zona de conforto, aumento previsível e conformado do desemprego, abaixamento dos recursos para apoios sociais, etc., etc., etc.
Os governantes, pela condição de governantes a que voluntariamente acedem, contraem  responsabilidades de natureza ética e social que não podem hipotecar sob pena de perderem a autoridade e a capacidade de mobilização de quem verdadeiramente lidera e compreende o que isso significa.
Boa parte desta gente, em particular, o Ministro Relvas, o responsável por esta minudência, uma inútil edição de luxo do Programa do Governo, não compreende manifestamente esta questão, esta enorme responsabilidade ética e social, como evidenciam as suas frequentes intervenções.
Não há desculpa, mesmo tratando-se de uma irrelevância orçamental.

OS PORTUGUESES E AS PORTUGUESAS EM ALTA

No dia de S. Valentim, em que os mercados, sempre os atentos mercados, e os discursos dedicam algum espaço e tempo às relações amorosas, podemos encontrar referências na imprensa que, finalmente, poderão, de alguma forma, ajudar a cuidar da auto-estima lusitana que tão em baixo tem vindo a ser entendida.
Um estudo divulgado no Público, refere que mais de 54% dos portugueses afirmam ter relações sexuais pelo menos duas vezes por semana, o que é francamente superior à média mundial, de acordo com a notícia. Esta constatação, a ser verdadeira, estes inquéritos, que não conhecemos, podem ter as respostas inflacionadas pela vontade de "mostrar competência" mostra como se mantém o velho entendimento, "sorte nos amores, azar nos negócios". Com as dificuldades que a maioria dos portugueses atravessa nos seus "negócios", é reconfortante saber que nas transacções do amor o rating continua em alta.
Por outro lado, um estudo também citado no Público refere que apesar de a generalidade dos estudantes universitários afirmarem conhecer métodos contraceptivos, sendo o preservativo e a pílula os mais utilizados, constata-se que 70% das raparigas inquiridas se esquece de tomar a pílula.
A performance referida no primeiro estudo e o descuido revelado no segundo podem ser um contributo para a recuperação do inverno demográfico que atravessamos. Estou a ser optimista. Sendo pessimista, temos o risco de aumentar as situações de gravidez jovem não desejada ou as interrupções voluntárias da gravidez.
Finalmente, uma nota para registar as iniciativas da Câmara de Lisboa no âmbito ainda das relações afectivas de que se destaca a promoção de um "blind date" visando proporcionar um namorado ou namorada a quem a precisão leve a comparecer. É bonito.
Merece respeito e admiração o empenho e a entrega dos portugueses e das portuguesas às coisas do amor em tempo de crise.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

SÃO OS LOUCOS DE LISBOA

São os loucos de Lisboa, que nos fazem duvidar ... diz o poema de João Gil.
A história de José, o homem que tem plantado diariamente uma flor no Metro e que hoje anuncia no Público a sua saída da clandestinidade e a intenção de alargar, sem limites, a sua inquietação com o amor, sempre me recorda uma outra figura de Lisboa, o senhor João Serra, o Senhor do Adeus ou, como ele preferia, o Senhor do Olá e que partiu há cerca de um ano.
O Senhor do Adeus não gostava da solidão e, por isso, num tempo em que se dá pouco, João Serra dava, coisa pouca dir-se-á, um sorriso e um adeus a quem passava, sobretudo no Saldanha à noite, todos as noites. Com bom ou com mau tempo, porque a solidão não tem descanso.
Dar qualquer coisa já não parece muito saudável, dar afecto e simpatia é loucura, certamente.
Parece ser também a narrativa do José, a partir da solidão começou a plantar flores no Metro que alimentam a ideia de fazer crescer relações. Claro que espalhar flores no Metro é coisa de loucos ou de românticos, que nós saudáveis e normais achamos bizarro, fora do tempo. Mas José, diz, quer ir mais longe, pretende criar “uma corrente a nível mundial” para espalhar o amor, coisa pouca e irrelevante, mesmo de loucos ou de românticos. Creio, no entanto que, apesar dos discursos, sentimos uma ponta de inveja pela coragem.
Fazem falta, os loucos de Lisboa.
Que nos fazem duvidar.
Obrigado José.
Obrigado João Serra.

COPY, PASTE

A Universidade do Porto começou, segundo o Público, a utilizar uma ferramenta informática que despista os casos de plágio. Esta ferramenta, já em utilização em alguma instituições portuguesas, será usada, numa primeira fase, numa perspectiva mais formativa que punitiva, dando oportunidade aos próprios estudantes de analisarem, desse ponto de vista, o plágio, o seu trabalho.
Num estudo sobre integridade académica divulgado há alguns meses, a Universidade do Porto tinha concluído que cerca de metade dos inquiridos assumia ter recorrido a práticas menos aceites, por assim dizer.
De há uns tempos para cá, felizmente, tem vindo a emergir e entrar na agenda a questão da utilização da informação disponível, designadamente na net, na produção fraudulenta ou nos limites da ética de trabalhos académicos e científicos da mais variada natureza. Neste âmbito, conheceu-se o primeiro caso, creio, em Portugal de uma Tese de Doutoramento apresentada na Universidade do Minho e anulada por motivo de plágio. O Centro de Estudos Sociais da Faculdade Economia da U. de Coimbra tem a decorrer, creio que ainda sem resultados definitivos conhecidos, um estudo nacional sobre a questão da fraude académica. Nos estudos preliminares surgiu um indicador de que 37.6 % dos inquiridos aceita a fraude desde que “não prejudique ninguém”. A estes dados, ainda que não definitivos, pode acrescentar-se um estudo da Universidade do Minho há tempos divulgado referindo que as situações de “copianço” envolvem três em cada quatro estudantes.
Também há algum tempo, a propósito do aumento das situações de plágio que se verificam em todos os níveis de ensino, do básico à formação pós-graduada, doutoramentos incluídos, bem como artigos científicos, me referi à natureza da relação ética que estabelecemos com o conhecimento e que os alunos replicam. Aliás, no estudo da U. do Minho, dos alunos que admitem copiar, 90 % afirmam fazê-lo desde sempre.
O conhecimento será entendido como algo que se deve mostrar para justificar nota ou estatuto, não para efectivamente deter, ou seja, importante mesmo é que a nota dê para passar, que o curso se finalize, que a tese fique feita e se seja doutorado ou que se possa acrescentar mais um artigo à produção científica num mundo altamente competitivo. Que tudo isto possa acontecer à custa da manhosice, do desenrasca mais ou menos sofisticado, são minudências com as quais não podemos perder tempo.
No entanto, é bom termos consciência que esta questão não é um exclusivo nosso, a experiência mostra isso com clareza. De qualquer forma, não deixa de ser uma preocupação e justifica que as escolas, do básico ao superior, se envolvam nesta tentativa de que todos tenhamos uma relação sólida do ponto de vista ético com o conhecimento, a sua produção e divulgação.
O caminho passa pelo estabelecimento obrigatório de códigos de conduta com implicações sancionatórias severas e com uma atitude formativa e preventiva durante as aulas.
O trabalho será sempre difícil pois o actual contexto ao nível dos valores e da ética dos comportamentos e funcionamento social é, só por si, um caldo de cultura onde o copianço e o plágio, por vezes, não passam de "peanuts". É a cultura do desenrascanço, não importa como.

OS MAUS VENTOS E OS BONS CASAMENTOS

Ao que parece, o velho enunciado "De Espanha nem bom vento, nem bom casamento" estará em ajustamento.
Dos ventos não rezam as crónicas, mas dos casamentos temos notícias. Bom, quando falo de bom casamento, estou a referir-me a um bom casamento entre o orçamento em queda dos portugueses e os preços que muitos bens e serviços têm do lado de lá da raia.
Hoje no Público refere-se o preço dos medicamentos e ficamos a saber que apesar da baixa de preço de alguns fármacos verificada em Portugal, é muito compensador a aquisição em Espanha de uma gama razoável de medicamentos.
Nós, os litoralizados, a quem a deslocação não compensa, sabemos que se pode comprar combustíveis mais baratos, encontrar serviços que do lado de cá são difíceis, médicos, por exemplo. Também sabemos que boa parte dos produtos de consumo diário são mais baratos devido às taxas de IVA mais simpáticas, por assim dizer, que os nosso vizinhos praticam.
Nas zonas raianas também é conhecido que recorrer a um conjunto variado de serviços em Espanha é mais barato.
Parece, pois, em franco crescimento o bom casamento entre as nossas dificuldades e os custos mais baixos praticados em Espanha.
Será que este cenário não obedece à estratégia de nos fazer sair da nossa "zona de conforto" e obrigar-nos a emigrar para terras D'el-Rei Don Juanito?
Temos de perguntar ao Ministro Relvas.

FAMÍLIAS FALIDAS, VIDAS FALIDAS

No Público de hoje pode ler-se que a DECO registou em Janeiro de 2012 um aumento de 91,2 % de pedidos de ajuda em casos de sobre endividamento das famílias, comparativamente a Janeiro de 2011. Se recuarmos a 2008, o aumento deste tipo de situações é de 250 %. É também conhecido o aumento exponencial de casos de falência de singulares, famílias. Estas situações devastadoras para milhares de agregados familiares, decorrem também, frequentemente, de cenários de sobre endividamento que as dificuldades actuais potenciaram, desemprego por exemplo, impedindo a regularização dos créditos. As causas fundamentais são desemprego, degradação das condições laborais e doença.
Este cenário é, creio e já o tenho afirmado com frequência, um dos mais preocupantes sinais dos tempos, quer no que respeita a valores, quer no que respeita a dificuldades económicas.
As famílias em dificuldade que recorrem à DECO evidenciam frequentemente uma taxa de esforço cerca dos 90%, ou seja, ao receber 1000 €, 900 estão destinados ao pagamento de créditos e em média têm que gerir 8,6 créditos, um assombro. Como é óbvio, trata-se duma situação insustentável e mesmo com taxas de esforço mais baixas basta uma pequena perturbação ou algo de imprevisto, desemprego, perda de regalias laborais ou doença, por exemplo, para que se rompa o equilíbrio e as famílias entrem em incumprimento, com as previsíveis e complicadas consequências. A DECO recomenda 40% como a taxa de esforço aceitável e prudente.
Parece-me claro que este cenário não decorre, como muitas vezes ouvimos, exclusivamente da situação de crise económica que atravessamos, embora ela na maioria das vezes seja o gatilho que a despoleta. Radica, do meu ponto de vista, nos modelos económicos e sistema de valores que nos envolvem.
Como já tenho referido no Atenta Inquietude, instalou-se a ideia de que "és o que tens". Bem podemos afirmar que cada um de nós não olha assim para a vida mas, na verdade, é difícil resistir à pressão para o consumo e para a ostentação de alguns bens ou estilos de vida que "atestem" que "somos" gente e gente como deve ser. É o crédito da casa, do carro, da mobília, das férias, do casamento do filho, do plasma, etc. etc. Tudo bens a que obrigatoriamente temos de aceder como prova de que somos gente, embora se verifique ainda o recurso ao crédito até para tratar questões de saúde.
Por outro lado, as instituições financeiras que concedem crédito estiveram durante demasiado tempo mais atentas aos seus próprios interesses que aos riscos das pessoas que a elas recorrem. Actualmente, revelam-se bastante mais selectivas e cautelosas devido à subida enorme do valor do crédito malparado e dos seus próprios custos de financiamento.
Este tipo de problemas é apenas mais um indicador de como se torna necessário repensar valores e modelos de organização e desenvolvimento. Eu sei que não é fácil e pode parecer ingénuo, mas se não falarmos e não nos inquietarmos com isto, então é que nada mudará. Nunca.
As dívidas nas famílias não podem ser uma regra, deveriam ser uma excepção. É que, como recentemente se afirmava, as dívidas dos países podem ser geridas mas as das famílias têm que ser pagas e a obrigatoriedade de pagamento gera, com frequência, situações dramáticas e devastadoras.

A VIOLÊNCIA NA ESCOLA. De novo.

Na imprensa de hoje surgem mais duas referências que se inscrevem no preocupante universo da violência escolar. O DN coloca em primeira página a organização de um curso de defesa pessoal para professores que terá esgotado e de que se espera novas edições. Encontramos ainda no Público a referência a um episódio de agressão de duas jovens no recinto escolar a uma terceira que levou à necessidade de assistência hospitalar. Algumas notas requentadas.
Os comportamentos agressivos em contexto escolar, bullying por exemplo, são tão antigos quanto a instituição escolar, sendo certo que os estudos destes fenómenos são mais recentes. Actualmente, é também mais objecto de referências fora dos contextos educativos pois o volume e a gravidade de algumas situações, bem como a divulgação dos estudos e a fortíssima mediatização também assente na net.
Em vários estudos muito recentes constata-se que os adolescentes tendem encarar a violência entre si como normal o que não surpreenderá os mais atentos. A sociedade da informação e os sistemas de valores actuais banalizaram a violência, não são os adolescentes que a banalizaram.
Por outro lado, a escola, por ser o espaço onde os adolescentes passam a maior parte do seu tempo é, naturalmente, o espaço onde emergem e se tornam visíveis os problemas e inquietações que os alunos carregam. No entanto, não é possível considerar-se que a escola é mágica e omnipotente pelo que tudo resolverá. Tudo pode envolver a escola, mas nem tudo é da exclusiva responsabilidade da escola.
Apesar disso, no que respeita à violência entre jovens, um fenómeno complexo, existem duas questões que me parecem essenciais e contributivas para lidar com a situação. Em primeiro lugar é importante criar nos alunos vitimizados a convicção de que se podem queixar e denunciar as situações e encontrar dispositivos de apoio que garantam a protecção da vítima pois o medo de represálias é o principal motivo da não apresentação da queixa. è importante também que os actores da escola saibam detectar nos alunos sinais que indiciem vitimização.
Em segundo lugar, é preciso contrariar no limite do possível a ideia de impunidade, de que não acontece nada ao agressor. As escolas, tal como a comunidade em geral podem e devem assumir atitudes, discursos e montar dispositivos que, visivelmente, dêem aos indivíduos um sinal de que não existe tolerância para determinados comportamentos.
Por outro lado e no que respeita à violência que envolve professores, os ataques, intencionais ou não, à imagem dos professores incluindo parte do discurso de responsáveis da tutela, algum do discurso produzido pelos próprios representantes dos professores e também o discurso que muitos opinadores profissionais, mais ou menos ignorantes, produzem sobre os professores e a escola, contribuíram para uma desvalorização significativa da imagem social dos professores, fragilizando-a seriamente aos olhos da comunidade educativa, designadamente de alunos e pais. Esta fragilização, para além das alterações nos modelos que regulas as interacções sociais, tem, do meu ponto de vista, graves e óbvias consequências, na relação dos professores com alunos e pais, sobretudo porque mina a atribuição de autoridade cuja reconstrução não passará, creio, pelo domínio de artes marciais ou, porque não, o uso de arma.
Um professor ganha tanta mais autoridade quanto mais competente e apoiado se sentir. É também importante reajustar a formação de professores. As escolas de formação de professores não podem “ensinar” só o que sabem ensinar, mas o que é necessário ser aprendido pelos novos professores e pelos professores em serviço. Problemas "novos" carecem também de abordagens "novas".
As escolas devem poder usar a sua autonomia para desenvolver dispositivos de apoio, por exemplo, a existência de outros técnicos e a utilização regular de dois professores em sala de aula. Não é necessário aumentar o número de professores, é imprescindível que os recursos sejam geridos de outra maneira.
Escolas organizadas, com cultura institucional sólida traduzida na adequação e consistência dos seus projectos educativos e com lideranças eficazes são mais organizadoras dos comportamentos de quem nelas habita, como qualquer outra organização.
Os discursos demagógicos e populistas, ainda que bem intencionados, não são um bom serviço à minimização destes incidentes que minam a qualidade cívica da nossa vida.

AS CRIANÇAS AGENDA

Durante um telejornal televisivo de hoje passou uma peça sobre uma experiência de ensino do mandarim a crianças que me pareceram entre os seis e os oito anos. A actividade desenvolve-se aos sábados de manhã e os pais ouvidos referiram que a aprendizagem do mandarim para os seus filhos tinha como objectivo prepará-los para o futuro, para desenvolver competências, enfim, procurar garantir, digo eu, provavelmente, um lugarzinho na EDP em substituição de Eduardo Catroga.
Mais a sério, fiquei a pensar e inquieto com estes discursos que radicam num olhar sobre a vida crianças que se tem vindo a instalar entre nós.
De uma forma geral e em consequência dos estilos de vida que adoptámos ou nos sentimos obrigados a adoptar, (mas não só), as crianças passam tempos infindos na escolas. Recordemos que os modelos de organização escolar em funcionamento, envolvendo, por exemplo, as Actividades de Enriquecimento Curricular, permitem a presença dos miúdos na escola por vezes até às 10-11 horas diárias o que, apesar de algumas excelentes experiências neste âmbito, levanta um sério risco de intoxicação escolar, por assim dizer.
Por outro lado, também sinais dos tempos, tem vindo a emergir um mercado de oferta para crianças, logo de bebés, e pais que se propõe ocupar o já pouco tempo em que estão juntos. Esta oferta não pára de crescer e é de uma diversificação que me deixa perplexo. Temos as oficinas, os ateliers, os playcenters, os workshops, os espaços lúdicos, etc. destinados à música, do jazz à clássica, à dança ou à literatura, contos e histórias, às actividades expressivas, plásticas ou artísticas, a designação também varia, em toda a sua gama e diversidade. Temos a filosofia para crianças destinada eventualmente aos mais reflexivos. Temos as actividades desportivas, várias modalidades, e de ar livre em diferentes versões e natureza, quintas pedagógicas, contacto com animais e espaços de aventura, por exemplo. Enfim, uma oferta em desenvolvimento e para todas as bolsas.
É claro que a realização de todas, mesmo todas, estas actividades são imprescindíveis aos miúdos pois promovem níveis fantásticos de desenvolvimento intelectual e da linguagem, desenvolvimento motor, maturidade emocional, criatividade, interacção social, autonomia e certamente mais alguns aspectos de que agora não me lembro mas que a peça sobre a aprendizagem do mandarim actualizou em mais alguns efeitos positivos.
Os pais, alguns pais, seduzidos pela sofisticação desta oferta e com a culpa que carregam, deixam-se fechar com os seus filhos ou deixam que os seus filhos sejam fechados dentro destes “espaços de liberdade”, comprando, assim, mais um serviço educativo e transformando a vida dos miúdos numa agenda.
Não esqueço que em todos estas iniciativas alguma coisa pode acontecer de interessante para as crianças e para os pais e também não duvido da seriedade dos responsáveis, mas continuo convencido que a melhor utilização que pais e filhos podem dar ao (pouco) tempo livre que têm em conjunto, é … claro, conversar e brincar livremente em conjunto.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A POBREZA, DE NOVO. Desculpem

O Público de hoje apresenta um impressionante trabalho sobre a pobreza. O trabalho assenta num conjunto de histórias pessoais que são testemunhos de tal maneira violentos e impressivos que se torna impossível não fazer eco desta questão. É também referida a já divulgada situação do aumento exponencial da procura de ajuda junto das instituições de solidariedade social. Também na semana que terminou o Eurostat estimou em 2,7 milhões o número de portugueses em risco de pobreza e exclusão.
Os pedidos de ajuda e as histórias de pobreza vão atingindo grupos cada vez mais alargados, jovens, sobretudo e mesmo pessoas com emprego que se vêm juntar ao número em crescimento da população desempregada de que releva o aumento significativo de casais com ambos os elementos desempregados.
Relativamente aos mais jovens sabemos que este grupo etário é o mais afectado pelo desemprego e começa a ser urgente uma atenção séria à degradação da qualidade do emprego, a causa próxima do risco de pobreza entre pessoas empregadas.
De facto, nos últimos tempos cresceram exponencialmente os casos do que se pode chamar de “pobreza envergonhada”, sobretudo devido a desemprego mas também devido à falta de qualidade do emprego, aumentos e perdas salariais. São pessoas que se julgavam a coberto deste tipo de riscos e que sentem um embaraço pessoal e social enorme para assumir as dificuldades porque passam.
Este cenário é absolutamente extraordinário. Para além das consequências óbvias das dificuldades ainda se torna necessário, como várias vezes aqui tenho referido, acautelar a dignidade das pessoas afectadas como as histórias do relatadas no Público dramaticamente sublinham. De facto, umas das consequências menos quantificável das dificuldades económicas, sobretudo do desemprego, em particular o de longa duração e de situações em que o tempo obriga a perder o subsídio, é o roubo da dignidade às pessoas envolvidas. Sabemos que se verifica oportunismo e fraude no acesso aos apoios sociais, mas a esmagadora maioria das pessoas sentem a sua dignidade ameaçada quando está em causa a sobrevivência a que só se acede pela “mão estendida” que envergonha, exactamente por uma questão de dignidade roubada.
A questão da pobreza é um terreno que se presta a discursos fáceis de natureza populista e ou demagógica, sem dúvida. Mas também não tenho dúvidas de que os problemas gravíssimos de pobreza que mais de dois milhões e meio de portugueses conhecem, exigem uma recentração de prioridades e políticas que não se vislumbra. Curiosamente, até da área política mais próxima do actual governo surgem críticas às opções que têm vindo a ser assumidas.
A envergonhada pobreza deveria envergonhar-nos a todos, a começar por quem lidera. A liderança que transforma é uma liderança com responsabilidade social e com sentido ético.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

O COPO MEIO CHEIO OU O COPO MEIO VAZIO

Um dos aspectos invariavelmente envolvidos na realização de acções de protesto é a contabilidade em torno dos níveis de adesão, para uns o copo estará meio cheio, para outros estará meio vazio. As discrepâncias, de acordo com o posicionamento das fontes de informação, são extraordinárias. Lembram-se certamente de uma manifestação de trabalhadores da administração pública em 6 de Novembro de 2010, em que a organização estimou em 100 000 os participantes e um especialista americano que se encontrava em Lisboa avaliou a participação entre 8 000 e 10 000. Na altura lembro-me de ter escrito que não tendo estado presente e não tendo outras fontes de informação validada, só podia depreender que uma das avaliações estaria "ligeiramente" enganada.
Ainda antes de começarem a surgir os primeiros números da adesão à manifestação de hoje, poderemos certamente antecipar que, como é hábito, se instalará um consenso estranho, todos ganharam.
As estruturas representantes da administração e dos empregadores virão muito provavelmente afirmar que se registou um bom resultado pois a iniciativa não teve a adesão referida e ou esperada, pelo que fica evidente a aceitação ou, pelo menos, a compreensão das políticas seguidas e a bondade dos seus pontos de vista, etc.
Por outro lado, as estruturas representativas dos trabalhadores ou outros organizadores informam-nos que a adesão correspondeu às expectativas, que os trabalhadores, os cidadãos, mostraram o seu descontentamento, que o movimento sindical e a condenação das políticas obtiverm mais uma retumbante vitória, etc.
A questão é que esta discrepância, do meu ponto de vista, acaba por desvalorizar os efeitos da própria manifestação greve pois, como é sabido, muitos estudos têm vindo a demonstrá-lo, os níveis de cultura política, participação cívica, precariedade laboral, custos económicos, etc., levam a que uma percentagem muito significativa de pessoas que embora estando de acordo com a razão dos protestos não adiram à realização da greve. Há circunstâncias em que quando todos afirmam que ganham, todos estão a perder.
Para já estamos a perder o presente, as dificuldades que estão na origem do descontentamento das pessoas, das que aderem às manifestações de protesto e de muitas que não aderem, são graves e sérias.
E o risco de perdermos o futuro é também uma ameaça, os tempos estão difíceis e a desesperança é muita.
Creio que nesta altura a maioria de nós, presente ou não na manifestação, achará que o copo está meio vazio. Vão muito difíceis os tempos.

AUTONOMIA? Sim, mas a sério

De há muito que venho a defender, como boa parte das pessoas mais atentas ao universo da educação, que a autonomia das escolas é uma ferramenta indispensável ao seu desenvolvimento.
Apesar de alguns avanços verificados nas últimas décadas, o nosso sistema educativo permanece excessivamente centralizado, inibindo a necessidade de que as escolas possuam um quadro legal que sustente a sua organização, funcionamento e recursos adequados a especificidades contextuais que tornam as realidades educativas bem contrastadas. Continuam excessivamente dependentes de modelos de funcionamento centralizado que de uma forma geral as tratam como iguais. Por outro lado, existe ainda uma dispersão nos enquadramentos e tutela que dificultam uma gestão integrada e ajustada aos contextos. Para exemplificar esta dispersão, podemos referir o facto de que a tutela dos espaços e equipamentos educativos, apoios sociais e pessoal de apoio, até ao 1º ciclo, ser das autarquias, enquanto as mesmas competências para 2º, 3º ciclos e ensino secundário são do ME. No que respeita aos limites da autonomia, repare-se que apenas 10 % dos encargos de funcionamento das escolas e agrupamentos são da responsabilidade das respectivas direcções, tudo o resto é gerido de fora.
Neste quadro e tal como o Conselho Nacional de Educação tem vindo a afirmar é importante a promoção da autonomia das escolas que, aliás, tem sido também uma intenção presente nos discursos do Ministro Nuno Crato.
Assim, era com alguma expectativa que se aguardava a proposta do ME, agora conhecida, relativa novo modelo Autonomia, Administração e Gestão das Escolas.
Do meu ponto de vista, parece-me positivo um maior envolvimento da comunidade através do Conselho Geral, a importância da formação dos Directores e a sua avaliação pelos Conselhos Gerais, bem como a possibilidade cada escola determinar a sua organização em termos de departamentos curriculares e o envolvimento do corpo docente na definição dos seus responsáveis.
No entanto, parece-me importante caminhar de forma mais generalizada no sentido da maior autonomia em termos curriculares, dependente, de acordo com a proposta do ME, do estabelecimento de contratos de autonomia e ainda na autonomia na gestão e composição das suas equipas docentes e de outros técnicos, ou seja, uma maior responsabilização e autonomia em termos de gestão económica o que pressupõe a alteração dos modelos de financiamento.
Vamos a ver em que resulta o processo de discussão agora aberto.

TEMOS QUE SER MAIS EXIGENTES

Agora que parece ter assentado a poeira levantada pela intervenção de Passos Coelho em que se referiu à "pieguice" dos portugueses quero voltar a essa intervenção retomando uma outra afirmação baste menos referida no rescaldo mas bastante mais significativa do meu ponto de vista.
Passos Coelho afirmou a necessidade de sermos mais exigentes. Em absoluto acordo, vejamos alguns aspectos sem nenhuma ordem que não a da lembrança.
Temos a segunda maior taxa europeia de abandono escolar entre os 18 e os 24 anos. Temos de ser mais exigentes.
Temos a sétima mais baixa taxa de licenciados entre os 30 e os 34 anos e ainda se produzem discursos disparatados afirmando que temos licenciados a mais. Temos de ser mais exigentes.
Temos 2,7 milhões, um em cada cinco, portugueses em risco de pobreza ou exclusão. Temos de ser mais exigentes.
Temos uma obscena e gritante assimetria entre os mais ricos e os mais pobres que tem vindo a aumentar fruto das políticas de austeridade, como, aliás, reconhece um relatório recente da UE. Temos de ser mais exigentes.
Temos as duas maiores figuras do estado, Presidente da República e Presidente da Assembleia da República a optar por receber pensões de reforma em vez do salário correspondente salário da significativa função que desempenham e por uma óbvia razão, mais uns euros, o que é um desrespeito inaceitável pelas funções que exercem. Temos de ser mais exigentes.
Temos responsáveis políticos que despudoradamente produzem afirmações que insultam os portugueses que mais dificuldades atravessam. Temos de ser mais exigentes.
Temos uma escandalosa distribuição de lugares e tachos por um conjunto de pessoas cuja maior referência curricular é o cartão partidário que à época está em alta. Temos de ser mais exigentes.
Temos um sistema de justiça que agarra os pilha galinha e não incomoda o crime económico, a corrupção ou a fraude. Temos de ser mais exigentes.
Temos discursos políticos que assentam na promessa nunca cumprida, no cataventismo e no interesse da agenda política da partidocracia. Temos de ser mais exigentes.
Temos uma taxa de desemprego, designadamente entre os mais jovens, que inibe projectos e adia a esperança. Temos de ser mais exigentes.
Temos ... de ser mais exigentes. Estamos de acordo, Senhor Primeiro-ministro.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

PESSOAS EM BOM ESTADO PARA TODO O SERVIÇO. Vendem-se

Continua a ser estranhamente frequente, demasiado frequente, o surgimento de notícias relativas a situações de escravatura para trabalhos agrícolas em explorações espanholas que envolvem cidadãos portugueses. No Público de hoje é referido mais um episódio, por isso e porque esta é uma das matérias em que importa insistir e denunciar, retomo neste espaço algumas reflexões recorrentes.
O tráfico de seres humanos é, do meu ponto de vista, uma das questões que maior embaraço pode causar em sociedades actuais, a escravatura, algo de improvável no séc. XXI em países da Europa Ocidental.
Parece difícil de entender em comunidades tão abertas a regularidade das referências a situações de dezenas de portugueses, de pessoas, que são sequestradas e colocadas a trabalhar em estruturas agrícolas em Espanha. Como em todas as situações desta natureza, as autoridades estimam que os casos conhecidos sejam em número bastante inferior ao que na verdade se verifica. Sabemos também como no mundo inteiro o tráfico de pessoas se constitui como uma das áreas de mercado mais rentáveis, designadamente, no caso de mulheres para o universo da prostituição.
No entanto, a escravatura para trabalho agrícola parece algo “fora do tempo” e de impossível existência nos nossos países. Mas existe, e é sério o problema que, como não podia deixar de ser, atinge os mais vulneráveis.
Este negócio, o tráfico de pessoas, um dos mais florescentes e rentáveis em termos mundiais, alimenta-se da vulnerabilidade social, da pobreza e da exclusão o que, como sempre, recoloca a imperiosa necessidade de repensar modelos de desenvolvimento económico que promovam, de facto, o combate à pobreza e, caso evidente em Portugal, às escandalosas assimetrias na distribuição da riqueza. As circunstâncias que atravessamos potenciam, naturalmente, o risco e a vulnerabilidade.
As pessoas, muitas pessoas, apenas possuem como bem, a sua própria pessoa e o mercado aproveita tudo, por isso, compra e vende as pessoas dando-lhe a utilidade que as circunstâncias, a idade, e as necessidades de "consumo" exigirem. Até a dignidade é descartável e sem valor. A este quadro acresce, com frequência a ineficácia, fraqueza e morosidade da justiça hipotecando o efeito dissuasor que um cenário diferente poderia ter.
O que parece ainda mais inquietante é o manto de silêncio e negligência que muitas vezes cai sobre este drama tornando transparentes as situações, não as vemos.

O CHUMBO ESCOLAR. Serve para quê?

A divulgação do Relatório da OCDE "Equidade e Qualidade na Educação" vem mostrar, sem surpresa, que, apesar de algumas ligeiras diferenças, a educação em Portugal continua a merecer a maior atenção. Temos a terceira mais alta taxa, mais de 50%, de indivíduos entre os 25 e os 34 anos que não completaram o ensino secundário e cerca de 35% dos jovens até aos 15 anos já chumbou pelo menos uma vez.
No relatório pode ainda ler-se que o custo dos chumbos representa para Portugal 12% do orçamento para o funcionamento das escolas e que, de acordo com os especialistas, estando comprovada a ineficácia do chumbo, o caminho passa pela sua redução e pela definição de apoios e formas de organização e funcionamento ajustados o que requer docentes preparados e recursos adequados.
De facto, de há muito que os estudos internacionais também mostram que os alunos que começam a chumbar, tendem a continuar a chumbar, ou seja, a simples repetição do ano, não é, para muitos alunos, suficiente para os devolver ao sucesso o que pode constituir a base para um futuro de risco.
Há algum tempo o Público ouviu a Embaixada da Finlândia no sentido de perceber o residual nível de chumbos no seu sistema. O elemento ouvido referiu como bases do sucesso, “diagnóstico precoce de problemas e dispositivos de apoio a todos os alunos”, “orientação e aconselhamento a todos os alunos ao longo do ensino básico” assegurando “bem-estar físico, psicológico e social”. Por comparação ainda com o que se passa na Finlândia, em Portugal, apesar de muito boas práticas, frequentemente, não se procede ao “diagnóstico de dificuldades”, estabelece-se a impressão de que “se não aprende é porque não tem capacidades ou a família não funciona” pois não existem, na maioria das escolas, recursos qualificados e organizados de apoio educativo para este diagnóstico e consequente intervenção. Daí os planos de recuperação que a legislação prevê, serem, frequentemente, um enunciado de lugares comuns do tipo “dever ser assíduo” ou “deve fazer os trabalhos de casa”. Depois vem o “chumbo”, a seguir “mais do mesmo”, novo “chumbo”, e o aluno entra na estatística do insucesso e/ou abandono.
Nesta conformidade, a questão central, do meu ponto de vis, afirmo-o de há muito, não é o chumba, não chumba e quais os critérios (quantas disciplinas, por exemplo) é que tipo de apoio, que medidas e recursos devem estar disponíveis para alunos, professores e famílias de forma a evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo. É necessário diversificar percursos de formação com diferentes cargas académicas e finalizando sempre com formação profissional. A qualidade promove-se, é certo e deve sublinhar-se, com a avaliação rigorosa e regular das aprendizagens, naturalmente, mas também com a avaliação do trabalho dos professores, com a definição de currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio a alunos e professores eficazes e suficientes, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados de organização e funcionamento das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, etc.
Como é evidente este tipo de discurso não tem rigorosamente a ver com "facilitismo" e, muito menos, com melhoria "administrativa" das estatísticas da educação uma tentação a que nem sempre se resiste.

UMA TURMA INTERESSADA. Outro diálogo improvável

Bom, ficou percebida a resolução do problema?
Setôra, não se importa de repetir.
Tudo bem Tiago, repara que ... está certo?
Setôra, eu não percebi bem a parte do fim.
OK Maria, vamos lá ver ... ficou claro?
Setôra, agora estou baralhado pode explicar melhor.
Está difícil João, a questão é a seguinte ... Acho que agora toda a gente compreendeu.
Setôra, da primeira vez não explicou assim, agora não percebi bem.
Sónia, provavelmente estavas desatenta, é assim ... Agora não há dúvidas, espero.
Setôra, eu ainda não compreendi bem como é que a Setôra faz. Pode repetir.
...
...
...
...
Eu não entendo o que se passa aqui hoje, todos vocês têm dúvidas e eu não consigo avançar com a aula. Alguém me pode explicar a que se deve isto que eu nunca vi, uma turma inteira com dúvidas!? Sim Joana.
Setôra, os Setôres estão sempre a dizer para nós pormos as dúvidas porque é assim que se aprende e nós queremos aprender. Agora a gente põe as dúvidas e a Setôra diz que não consegue dar a aula. Como é que vamos fazer?

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O ACORDO E O DESACORDO. Agora o desacordo angolano

Pelos vistos a questão do Acordo Ortográfico reentrou decididamente na agenda. Ainda bem.
Depois da agitação decorrente da decisão de Vasco Graça Moura de suspender a sua utilização no CCB, surgiu a notícia sobre a ausência de posição institucional da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e hoje conhece-se a importante reflexão publicada no Jornal de Angola, o mais importante do país e cuja posição será de considerar seriamente. A opinião expressa é francamente desfavorável ao Acordo Ortográfico. Ainda bem, escrevo de novo.
Enquanto a questão não estiver definitivamente encerrada retomo, e retomarei, a minha breve e não técnica reflexão sobre o que me parece estar em causa.
Do que tenho lido ainda não me convenci da bondade do acordo. Entendo que as línguas são estruturas vivas, em mutação e isso é importante. Neste cenário, é clara a necessidade de ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma. Tem acontecido, aliás, em todas as latitudes onde se fala português como sublinha o texto do Jornal de Angola.
Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence pois não me parece que o inglês e o castelhano que têm algumas diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, experimentem particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for. De facto não tenho conhecimento da perturbação e do drama com origem nas diferenças entre o inglês escrito e falado na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas.
Por outro lado, a opinião dos especialistas não é consensual, longe disso, temos regularmente exemplos disso mesmo, e eu sou dos que entendem que em todas as matérias é importante conhecer a opinião de quem sabe.
Neste quadro e como sou teimoso vou continuar a escrever em desacordo até que o teclado me corrija. Nessa altura desinstalo o corrector que venha com o acordo e vou correr o risco de regressar à primária, ou seja, ver os meus textos com riscos vermelhos por baixo de algumas palavras, os erros.
Não é grave, errar é humano.

OS DESTRATOS DOS VELHOS

Com alguma regularidade vêm sendo noticiadas situações de maus tratos a idosos perpetrados por familiares, um exemplo das alterações significativas dos modelos de relacionamento social, sobretudo no que pode considerar-se como a percepção de traços de autoridade que inibem ou regulam comportamentos.
Há algum tempo, a imprensa referia que a linha telefónica do Cidadão Idoso da Provedoria de Justiça recebeu 2142 chamadas durante 2011. Destas chamadas, cerca de seis por cento estavam relacionadas com maus-tratos.
Também há alguns meses, um relatório da OMS identificava Portugal como um dos cinco países europeus, entre 53, em que os velhos sofrem mais maus-tratos. Cerca de 39,4% dos velhos sofrem alguma forma de maus-tratos, que envolvem, por exemplo. extorsão, abuso psicológico, físico ou negligência.
Quer no seio das famílias, quer em instituições, algumas encerradas compulsivamente, tal é a gravidade das situações, multiplicam-se as referências à forma inaceitável como os velhos estão a ser tratados. Começam por ser desconsiderados pelo sistema de segurança social que com pensões miseráveis, transforma os velhos em pobres, dependentes e envolvidos numa luta diária pela sobrevivência. Continua com um sistema de saúde que deixa muitos milhares de velhos dependentes de medicação e apoio sem médico de família. Em muitas circunstâncias, as famílias, seja pelos valores, seja pelas suas próprias dificuldades ou alterações nos estilos de vida, não se constituem como um porto de abrigo, sendo parte significativa do problema e não da solução.
Finalmente, as instituições, muitas delas, subordinam-se ao lucro e escudam-se numa insuficiente fiscalização além de que, com frequência, os equipamentos de qualidade são inacessíveis aos rendimentos de boa parte dos nossos velhos.
Lamentavelmente, boa parte dos velhos, sofreu para chegar a velho e sofre a velhice.
Não é um fim bonito para nenhuma narrativa.

POLÍTICA DE PLÁSTICO

Este episódio da troca de mimos entre o "sempre-em-pé" Santana Lopes e Fernando Rosas, durante um debate televisivo, é apenas um pequeno e irrelevante exemplo da "overdose" da chamada "análise política" que diariamente nos é servida.
Quando era miúdo, na escola, usava-se muito a expressão "procurar o sumo", no sentido de encontrar o essencial nos textos que nos eram dados a ler e a interpretar. Os professores bem insistiam connosco para nos tornarmos mais competentes na separação entre o essencial e o acessório ou, no jargão da escola, identificar as ideias principais do texto.
Actualmente, uma das críticas que recorrentemente se faz ao trabalho dos nossos alunos continua a ser a sua falta de competência na interpretação dos materiais que lêem.
Como é natural temos que trabalhar todos para que essas competências evoluam.
A grande questão é que o ambiente em que vivemos tem, do meu ponto de vista, vindo a dificultar progressivamente este trabalho de encontrar o essencial, o sumo.
Boa parte dos discursos políticos dirigem-se para questões completamente acessórias, de baixa política e marginais aos conteúdos que, de facto, precisam de reflexão e análise.
As supostas análises não passam, nas mais das vezes, de exercícios de propaganda dos interesses partidários ou de outras corporações.
De vez em quando, a coisa é animada por algum incidente mais crispado que compõe a espuma dos dias e que alimenta uns comentários como este que subscrevo, para além de uma volumosa abordagem on-line.
Entretanto, do lado de fora desta importante actividade, o comentário político, sobrevivem 2,7 milhões de portugueses em risco de pobreza e exclusão. Quase que aposto que boa parte deles nem se deu conta da importante troca de mimos entre Santana Lopes e Fernando Rosas.
Política de plástico.

UMA VISÃO PARA EUROPA

O presidente do Parlamento Europeu, o alemão Martin Schulz, criticou a aposta de Portugal nos investimentos angolanos considerando que, assim, “o futuro de Portugal é o declínio”. Independentemente da minha opinião pessoal sobre a questão angolana, parece-me que pode ser discutida a opinião do presidente do Parlamento Europeu.
Uma primeira nota para subscrever as preocupações genéricas manifestadas por Martin Schulz face aos caminhos que o modelo político e económico da União Europeia estão a tomar. Os tempos mais recentes são a evidência da falta de um projecto político assente na solidariedade e coesão política, económica e financeira.
No entanto, em termos mais específicos, creio que se justificam algumas notas. Começa a ser habitual que altos responsáveis alemães entendam por bem perorar sobre a política interna de outros países subscrevendo entendimentos ou propostas que começando com uma intrusão em assuntos internos, muitas vezes, comprometem a soberania dos países alvo das apreciações. Tem sido assim, designadamente com a Grécia e agora chegou a vez a Portugal. Como é evidente não está em causa a liberdade de opinião, está em causa o que representam estes discursos enunciados por responsáveis políticos de relevo.
Esta alta figura da União Europeia não expressou particulares preocupações com a coesão e o risco de declínio dos países mais pequenos em função do domínio do eixo franco-alemão nos destinos da UE. Os sucessivos planos de ajuda a países em dificuldade, um excelente negócio para a banca alemã, não parecem constituir uma preocupação para Martin Schulz. Expressa ainda uma preocupação com a coesão da Europa mas as políticas dominantes das efectivas lideranças europeias, Merkel e Sarkozy, não têm sido propriamente favoráveis a essa coesão e a voz dos responsáveis políticos da UE em Bruxelas não é muito ouvida. A agenda da Senhora Merkel, tal como agora a de Sarkozy, tem sido mais preenchida com as suas dificuldades internas, o que não é estranho, do que com a coesão da UE e o desenvolvimento dos países mais pequenos embora, provavelmente, à luz da "real politik" se tenha deslocado recentemente à China, certamente pelas mesmas razões que Passos Coelho foi a Angola, atrás do dinheiro como, aliás, Schulz afirma.
Este episódio é apenas mais um bom exemplo da ausência de um projecto europeu, com visão assente na coesão política, económica e financeira, servido por lideranças sólidas que saibam conciliar interesses nacionais com interesses europeus.

SER O MELHOR. Outro diálogo improvável

Fábio, não te importas, não saias ainda, queria falar contigo, é rápido.
Setôra, qual é a cena agora?
Ando preocupada contigo, o teu comportamento tem vindo a piorar. Sempre a fazer com que os teus colegas se distraiam, passas o tempo a desafiar as regras e os outros professores também se queixam, têm vindo falar comigo. Que se passa?
É verdade Setôra, estou a esforçar-me e agora já consigo porta-me mal bem melhor.
O quê? Já estás a conseguir portar-te pior e dizes que estás a ficar melhor a comportares-te dessa maneira. Não entendo.
Setôra, os Setôres dizem muitas vezes que nós temos de nos tornar melhores, ou até os melhores, fazendo o que sabemos fazer e melhorando no que fazemos. Acho que já estou bom a portar-me mal mas gostava de ser o melhor.
Nunca tinha ouvido coisa parecida, Fábio, consegues surpreender-me. Então queres ser o melhor no mau comportamento?
É onde posso ser bom Setôra, mesmo o melhor. Setôra, tenho más notas, não sou muito forte, as raparigas não me acham giro, não sou bom a fazer desporto nem nas outras coisas, só sou bom a fazer cenas na sala. Quase todos gostam de mim por fazer essa cenas, é fixe. Hei-de ser o melhor.
Fábio, isso tudo parece-me um disparate que não te vai ajudar em nada. Que achas tu que eu e os outros Professores devemos fazer.
Pois é Setôra, é um problema, eu preciso de me portar assim para que gostem de mim. Acho que os Setôres deviam perceber isso e ter paciência. A gente tem que se ajudar uns aos outros.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A INDIGNIDADE DA POBREZA E DA EXCLUSÃO

Existem notícias que por mais habituados que estejamos aos difíceis tempos que correm, conseguem ainda surpreender-nos ao mesmo tempo que se constituem como uma acusação que nos embaraça a todos. Os dados do Eurostat hoje conhecidos apontam para que, em 2010, mais de um quarto dos portugueses, 2,7 milhões, estava em risco de pobreza ou exclusão social em pelo menos uma das suas dimensões, risco de pobreza, situação de privação material grave ou, finalmente, a viver em agregados com uma intensidade de trabalho muito baixa.
Relembro que 2010 foi o Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão e o resultado está à vista, cerca de 2,7 milhões em risco em Portugal. Parece-me ainda oportuno recordar que recentemente também a Comissão Europeia publicou um relatório mostrando como as medidas de austeridade em Portugal estão a agravar as assimetrias sociais e, de forma extraordinária, o Primeiro-ministro já avisou que o caminho é o empobrecimento. Os números de 2011 e 2012 serão certamente mais graves.
Os dados do INE indiciam a maior vulnerabilidade ao risco de pobreza por parte de famílias monoparentais com mais de dois filhos, bem como os mais idosos, muitos a viver só. Creio ainda ser de relembrar o impacto que as situações de pobreza familiar têm na qualidade de vida dos miúdos e a ameaça que representam na construção de projectos de vida viáveis e bem sucedidos traduzidos, por exemplo, na desejável quebra do ciclo de pobreza.
Não é novidade o baixo impacto que políticas centradas quase que exclusivamente no subsídio, obviamente necessário em muitas circunstâncias, têm no combate à pobreza e exclusão uma vez que não atingem o aspecto essencial que é autonomia na produção de recursos que minimizem as dificuldades económicas.
É óbvio que grupos sociais como idosos exigem modelos e dispositivos de apoio social diferenciados de populações mais jovens e em idade produtiva. É certo que existem algumas iniciativas nesse âmbito como, por exemplo, a promoção de formação profissional no âmbito de programas de apoio.
Acontece, no entanto, que essa oferta é, por vezes, desfasada das necessidades e particularidades contextuais sendo ainda desvalorizada pelos próprios beneficiários que a encaram apenas como condição de acesso a apoios e não como oportunidades de desenvolvimento pessoal e reconstrução de projectos de vida. É pois fundamental que estas iniciativas sejam devidamente avaliadas e regulado o seu desenvolvimento.
Neste quadro importa ainda a coragem de, mais uma vez, ponderar os modelos de desenvolvimento económico e social, diminuir efectivamente o fosso intolerável entre os mais ricos e mas pobres, caminhar no sentido da construção de uma dimensão ética que seja reguladora da atribuição de privilégios incompreensíveis e obscenos para poucos e tolerância face a situações de exclusão extrema para bastantes outros.
Eu sei que escrever sobre estas questões em espaços desta natureza tem alcance zero, mas continuo convencido que é fundamental não deixar cair a preocupação com a pobreza e exclusão. Por isso, a insistência.

O ACORDO DO DESACORDO

Uma vez que acredito que a questão não estará definitivamente encerrada, retomo e retomarei o problema do Acordo Ortográfico que, depois da agitação decorrente da decisão de Vasco Graça Moura de suspender a sua utilização no CCB, regressa à agenda a propósito da ausência de posição institucional da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa referida no Público.
Assim retomo, repetindo, a minha breve e não técnica reflexão sobre o que me parece estar em causa.
Umas das vantagens de ser velho é poder ser teimoso e ter uma justificação para isso, a idade, toda a gente sabe como os velhos são teimosos. Do que tenho lido ainda não me convenci da bondade do acordo. Entendo que as línguas são estruturas vivas, em mutação e isso é importante. Neste cenário, é clara a necessidade de ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras o que não me parece susentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma.
Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence pois não me parece que o inglês e o castelhano que têm algumas diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, experimentem particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for. De facto não tenho conhecimento da perturbação e do drama com origem nas diferenças entre o inglês escrito e falado na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas.
Por outro lado, a opinião dos especialistas não é consensual, temos regularmente exemplos disso mesmo, e eu sou dos que entendem que em todas as matérias é importante conhecer a opinião de quem sabe.
Neste quadro e como sou teimoso vou continuar a escrever em desacordo até que o teclado me corrija. Nessa altura desinstalo o corrector que venha com o acordo e vou correr o risco de regressar à primária, ou seja, ver os meus textos com riscos vermelhos por baixo de algumas palavras, os erros.
Nessa altura, também não me importo, os velhos, além de teimosos têm coisas esquisitas.

NOVOS INDIGNADOS

A rapaziada das forças armadas anda alvoroçada. Ao que parece, a rapaziada do governo não os tem tratado muito bem. Estranho, deve ser o único grupo que se sente destratado. É claro que os diferentes grupos têm formas de manifestar o seu descontentamento que estão vedadas aos militares, a greve, por exemplo. É certo que os militares, entre outras regalias, têm tido acesso a serviços de saúde em condições que a generalidade dos cidadãos não tem. Será verdade, estou certo, que terão objectivamente razões para descontentamento mas não são os únicos nem, provavelmente, os que mais razões terão para se queixar. Sobre este universo de descontentamento já surgiram os discursos dos incontornáveis Otelo e Vasco Lourenço a deixarem avisos claro que a “malta militar pá, se for preciso, pá, tá aí pá e agita isto tudo, pá”. São dois especialistas em revoluções e que avisam, ser bom não esquecer que quem já fez uma revolução faz duas.
Agora a Associação dos Oficiais das Forças Armadas vem também avisar o Governo de que nada "os obriga a serem submissos". É assim mesmo, juntem-se aos indignados, sempre ouvi dizer que “com a tropa não se brinca”.
Recordo também um discurso recente de Ramalho Eanes que naquele seu jeito ágil e profundo consegue dizer que se está a “estar a criar uma situação que é insustentável até psicologicamente, porque os militares são indivíduos que têm determinados princípios e valores e um deles é cumprir com competência os trabalhos que lhes são entregues”.
É evidente que os civis, ou seja, o resto da população, é um pessoal que, provavelmente, não tem este hábito estranho e particular dos militares que é cumprir com competência os trabalhos que estão entregues. Será certamente para alimentar este espírito de competência exclusivo dos militares que as forças armadas portuguesas têm um número de oficiais superiores desproporcionalmente grande quando comparado com outros países.
De modo que já sabem senhores governantes, muito cuidado. A propósito, também não estou nada satisfeito com algumas políticas sectoriais. Senhores do governo, não se esqueçam que tenho uma fisga e estou descontente. E deixo aqui um aviso, nada me obriga a ser submisso, nem a mim nem aos outros milhões de cidadãos.
Vejam lá, vejam lá.

REUNIÃO DE PROFESSORES. Uma história improvável

Cláudio, agradecia que entregasses este bilhete à Directora de Turma.
Sim pai.

Eu, Mário Silva, na condição de encarregado de educação do aluno Cláudio Silva, venho convidar os Senhores Professores do 6º B, a turma do Cláudio, para uma Reunião a realizar na minha casa em data e hora da vossa conveniência. Sendo muito importante a presença dos pais e encarregados de educação nas Reuniões de Pais, também julgo importante a presença dos professores nas Reuniões de Professores para o bom andamento do processo educativo dos nossos educandos.
Proponho como Ordem de Trabalhos:
1) Informações - gostava de que percebessem as circunstâncias de vida do Cláudio para que melhor o possam ajudar e apoiar;
2) Articulação entre os Professores - parece-me necessário que todos os professores do 6º B tenham um entendimento próximo sobre as regras e comportamentos em sala de aula para que se evitem diferenças muito grandes entre o que é ou não permitido no funcionamento dos alunos e para que eu próprio melhor possa orientar o Cláudio;
3) Trabalhos de Casa - A quantidade de trabalhos de casa que em muitos dias o Cláudio traz para fazer são em excesso para o tempo que ele tem depois de chegar da escola;
4) Material escolar - Em muitas disciplinas é pedido material repetido e em quantidades que tornam difícil a situação, não só do ponto de vista económico mas também em termos de organização da mochila e até do peso que carregam.
Durante a reunião terei à disposição dos Senhores Professores um pequeno lanche que o Cláudio e a irmã prepararão.
Renovo o agradecimento antecipado pela vossa presença e disponibilidade.
Os meus cumprimentos,
Mário Silva, pai do Cláudio Silva.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A DEMOCRATIZAÇÃO DA TOLERÂNCIA

A tolerância é um bem precioso na vida das comunidades e uma das dimensões mais importantes da democracia. A luta pela democracia tem sido a luta pela tolerância.
É sempre um processo em aberto, tomando, cito Camões, novas qualidades. Agora discutimos a tolerância de ponto. O Governo numa intolerante decisão decidiu não conceder tolerância de ponto na terça feira de Carnaval aos funcionários da administração pública. O argumento, como vai sendo habitual, radica na produtividade o que traduz o equívoco de que a produtividade é exclusivamente consequência de mais trabalho e não de melhor trabalho.
Por outro lado, em muitos sectores levantou-se uma intolerante contestação à decisão do Governo. A argumentação radica nos direitos adquiridos, no “timing” da decisão e nos eventuais impactos económicos em regiões onde existe a indústria do Carnaval.
Como o povo costuma dizer, “Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”, nem tolerância acrescento eu. Numa outra abordagem, mais tolerante, poderíamos dizer que todos têm razão.
Acontece que, como era de prever, a tolerância é algo a que uns acedem outros não. O sector privado, boa parte dele, vai beneficiar da tolerância, está nos regulamentos e temos os supra-citados direitos adquiridos. Na administração surgem também excepções. Alberto João com a tolerância que o caracteriza já decidiu que na Madeira há tolerância, algo que ele nem precisava de dizer, nós conhecemos a tolerância existente na Pérola da Atlântico. Ao que se começa a saber também várias autarquias já decidiram ou vão decidir pela existência da tolerância.
Este processo, ele próprio já inscrito, na época carnavalesca é elucidativo. A tolerância não é para todos, é um bem precioso mas de difícil administração, até a tolerância de ponto.