sábado, 7 de agosto de 2010

A DERIVA

Sugere o bom senso e qualquer manual básico de ciência política, que um dos requisitos para a tomada de decisões políticas, sobretudo nas que podem implicar alterações na vida do cidadão, é a sua adequada justificação para que os envolvidos, embora possam não concordar, conheçam, pelo menos a justificação. Um outro requisito é a coerência e eficácia da decisão e do processo consequente para que com o mínimo sobressalto se operacionalize a mudança.
Serve isto para comentar dois bons exemplos, mais dois, do que tem sido a deriva reactiva e voluntarista da equipa do ME.
Como frequentemente aqui referi era imprescindível proceder à reorganização da rede escolar. O ME desencadeou o processo, definiu critérios e objectivos que dificilmente se entenderam, incorreu em incidentes processuais, não ouviu o Conselho de Escolas por exemplo, estabelece uma figura que ninguém defende “os mega agrupamentos” e nem sequer consegue cumprir a lei conforme hoje o Público sublinha. A rede escolar deveria ter sido divulgada até 30 de Junho e ainda não está ”fechada”. É incompreensível, indesculpável e mina qual ideia de eficácia e credibilidade.
O segundo exemplo remete para o facto de depois, sublinha-se depois, de fechadas as matrículas nas escolas privadas com ensino musical e que desde 2007 eram subsidiadas pois o ME não garante ensino musical público para todos os alunos interessados, ter sido agora anunciado que os novos alunos, já matriculados, não serão contemplados no financiamento às escolas em que se matricularam. Tal situação afecta centenas de alunos que se inscreveram na perspectiva de obterem formação musical em escolas privadas que funcionariam com o apoio do ME.
É evidente que se pode discutir, e deve, a relação entre os subsistemas de ensino público e de ensino privado, designadamente no que respeita ao financiamento do privado, o que não pode, não deve, acontecer é a alteração do quadro legal com o “jogo” já iniciado e com consequências óbvias para alunos, famílias e estabelecimentos de ensino.
Não fica fácil entender tanta falta de senso em matéria de decisão política. Parece continuar a maldição da 5 de Outubro.

IMPUNIDADE, NADA DE NOVO

Com a violência doméstica tragicamente na agenda, o Público apresenta hoje um trabalho importante sobre a questão. Em 1ª página e, presumo, explorando o efeito surpresa, afirma-se que “SÓ” 59 pessoas cumprem pena de prisão em Portugal por violência doméstica. Para termos de comparação sabemos que em 2009 foram efectuadas 30543 participações.
Considerando as várias abordagens apresentadas, parece assumir-se que resulta uma espécie de fatalidade face à tolerância do crime de violência doméstica, à dificuldade de prova, ao sistema de valores e situação de dependência emocional e económica de muitas das vítimas, à atitude conservadora de alguns juízes, etc. É ainda curiosa a referência à dificuldade de proceder à retirada do agressor do ambiente doméstico, procedendo-se à saída da vítima numa espécie de dupla violência que, aliás, também se verifica em situações de maus tratos a crianças, em que o agressor fica em casa e a criança é “expulsa”.
O quadro é dramático mas não surpreende. Um dos mais devastadores efeitos da situação da nossa justiça é a instalação de um sentimento de impunidade generalizado com consequências incalculáveis.
Este sentimento de impunidade está instalado em todas as áreas da criminalidade, não é só a violência doméstica. Atente-se em quantos casos de corrupção acabam em condenações a prisão efectiva. Atente-se no tempo e nos expedientes que os processos sofrem, acabando muitas vezes em prescrições ou em penas ridículas. Atente-se nos efeitos de algumas alterações do código penal que permitem que um indivíduo comprovadamente autor de um crime susceptível de pena de prisão, possa ser imediatamente solto e aguardar, se aguardar, o julgamento que demorará um tempo infindo enquanto se mantém em actividade.
Atente-se no comportamento despudorado de muitas das nossas lideranças políticas e partidárias com comportamentos de compadrio, tráfico de influências, distribuição de lugares pelas clientelas, etc.
De facto, lamentavelmente não percebo qual a estranheza do número residual de detidos por violência doméstica, nada de novo.

A MODA DAS FEIRAS MEDIEVAIS

O calor áspero que está no meu Alentejo não é um grande estimulante das sinapses e, daí, a dificuldade acrescida de uma ideia.
De repente, lembrei-me, estou safo, de ter reparado que em poucos minutos publicitaram na televisão a realização de duas feiras medievais neste fim-de-semana, em Silves e em Santa Maria da Feira.
Fiquei a pensar na quantidade de feiras medievais que de há uns tempos para cá se encontram por todo o país. Não há concelho que não realize a sua feira medieval. Até existe um Festival Erótico Medieval em Gaia.
Gostava de perceber a razão desta emergente apetência pela recriação dos ambientes medievais e a renhida competição entre as autarquias pela melhor feira medieval. E porquê medieval e não pré-histórica, ou estilo século XIX?
As imagens que frequentemente as televisões passam a fechar noticiários lá mostram esforçados cavaleiros e donzelas, artesãos e nobres de ar compenetrado, além de outros imensos e empenhadíssimos personagens a viverem a sua feira medieval. Há uns tempos até foi notícia um participante habitual que tinha adquirido propositadamente um burro, ou burra não me lembro, para a qual não tinha instalações mas que com a ajuda de vizinhos e familiares lá se desenrascava para manter o burro que leva às feiras medievais. Um militante das feiras medievais.
De facto, não consigo entender esta moda das feiras medievais. Será devida à nostalgia do passado que de vez em quando nos atinge, ou a alguma estranha premonição dos riscos do futuro, uma espécie de “back to basis”?

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A JUSTIÇA EM ALERTA VERMELHO

De há uns tempos para cá fomo-nos familiarizando com a emissão de alertas. Se chove vêm os alertas, se faz frio, vêm os alertas, se faz calor vêm os alertas, se faz vento vêm os alertas, se não acontece nada vêm os alertas.
Tenho até para mim que a banalização de emissão de alertas pode desencadear um efeito perverso levando ao desenvolvimento de uma atitude de indiferença pois tendemos pela habituação a desvalorizar o aviso.
Deve ser o mesmo fenómeno que se passa na justiça portuguesa. Apesar de não ter havido a emissão formal de alertas o que se tem passado ao longo de décadas no sistema de justiça português fez bater no fundo os níveis de confiança e credibilidade. São recorrentes a demora, a manha nos processos judiciais com a utilização de legislação complexa, ineficaz e cirurgicamente construída para ser manhosamente usada por quem a construiu. É uma justiça manifestamente marcada pelas desigualdades de tratamento, etc.
Quando pensamos que pior já não pode ficar sempre aparecem novos episódios que nos desmentem. Ainda é possível tornar-se pior do que já está. Os recentes desenvolvimentos no âmbito do caso Freeport, a intervenção do Procurador-geral e a bagunça instalada no processo Casa Pia, já de si um insulto à justiça, são exemplos de que é sempre possível ir mais longe no pântano em que se transformou a justiça em Portugal.
Ontem ouvi o Ministro Alberto Martins que, contrariamente a Alberto Costa que se esquecia de acordar mesmo quando parecia acordado, até falou. O problema é que não disse nada.

AS PALAVRAS ADEQUADAS

Uma das actividades que no âmbito da aprendizagem da escrita e da leitura nos primeiros anos de escolaridade, os professores gostam de utilizar é providenciar aos alunos frases ou pequenos textos com espaços em branco que deverão ser preenchidos com as palavras adequadas, retiradas de uma lista fornecida pelo professor ou, mais difícil, escolhidas pelos alunos.
É um exercício engraçado que após o domínio aparente das competências de leitura e escrita deixa de ser realizado.
Do meu ponto de vista é lamentável que assim aconteça.
À medida que crescemos assume progressiva importância a escolha das palavras adequadas. Em muitas circunstâncias da nossa vida e por razões bem diferentes na sua natureza, experimentamos sérias dificuldades na utilização das palavras ajustadas. Umas vezes, faltam-nos e sem a lista à mão ficamos aflitos para encontrar a boa palavra. Outras vezes, sobram-nos e nem sabemos muito bem o que fazer com elas, onde as colocar e quais.
Na verdade, já todos passámos por muitas situações em que não ouvimos ou dissemos as palavras adequadas. Pode ser maior ou menor, mas é um embaraço que repetidamente nos acontece.
É por isso que julgo ser importante continuar durante a vida a aprender a escolher as palavras certas para o que queremos dizer.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

SE NEM TUDO SE TRANSFORMA, MUITO SE PERDE

Quando Lavoisier postulou que nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma, não imaginou que as sociedades modernas teriam um outro entendimento, tudo se compra, mal se usa e deita-se no lixo.
Face às consequências devastadoras daqui decorrentes, a necessidade e o mercado, sempre o mercado, recuperaram o princípio da transformação aplicada ao lixo e inventaram a reciclagem. Ainda bem, dizemos todos.
A questão é que passámos séculos a instalar a ideia de que quando algo chega a lixo, acaba aí. Não é fácil mudar, sobretudo, quando produzimos mais lixo que nunca.
Serve esta introdução para referir que apesar de em seis anos se terem duplicado os resíduos colocados para reutilização, ainda reciclamos apenas 13% do lixo, abaixo dos 17% de média europeia.
Ainda de acordo com o INE, citado no Público, verificam-se avanços importantes nos diferentes tipos de resíduos o que também é positivo.
Parece, pois, necessário insistir no esforço de reciclagem.
No entanto, julgo ser também necessário racionalizar a utilização dos materiais procurando produzir menos lixo. Um exemplo desta "sobreprodução" de lixo é a área das embalagens com excessos que me parecem ter um peso importante no desperdício. É frequente, por exemplo, envolver um pequeno frasco de um qualquer produto em papel, cartão, plástico, etc. que lhe multiplicam a dimensão e constituem fonte de desperdício, de lixo.
Se repararmos nas embalagens da maior parte dos bens que adquirimos, parece relativamente claro que em termos económicos, custo de produção e custos no consumidor, e em termos ambientais a factura é pesadíssima e, isso é que é curioso, boa parte dispensável e inútil.
É que só reciclamos 13% do lixo e se nem tudo se transforma, muito se perde.

FESTAS INFANTIS

Não sei bem como, mas apareceu aqui em casa um pequeno folheto promovendo a realização de festas infantis, isso mesmo, a realização de festas infantis que, aliás, são publicitadas como inesquecíveis.
O folheto enumera a oferta disponível para as inesquecíveis festas que, com a vossa licença, aqui deixo.
Num lado enuncia-se Dança com Hip Hop, Expressão corporal, Pinturas faciais, Jogos tradicionais, Contador de histórias, Caça ao tesouro, Karaoke infantil, Aparência fashion e Canções infantis.
No lado B, chamemos-lhe assim, temos Insuflável, Teatro de fantoches, Magia infantil, Palhaço e Espectáculo de fogo.
Claro que uma inesquecível festa infantil ainda beneficia se tiver, segue o resto da oferta, Bolos personalizados 3D, Buffet crianças e adultos e Decoração e criação de ambientes com balões.
Não sei que mais admirar. Fiquei particularmente entusiasmado com a Aparência fashion, mas, por outro lado, o Insuflável é um concorrente de respeito. Estranhei a presença dos Jogos tradicionais e de apenas um Palhaço numa festa infantil inesquecível tão fantástica, mas parece compensada com o sempre estimulante, imagino, Espectáculo de fogo.
Cativou-me, devo dizer, a ideia de Bolos personalizados 3D (que raio será isto?) mas verdadeiramente irresistível é a Criação de ambientes com balões.
Agora a sério, se querem promover festas infantis, deixem as crianças brincar. É a brincadeira, a coisa mais séria que as crianças fazem, que torna a infância inesquecível.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

CURSOS DE EDUCAÇÃO FORMAÇÃO - sim, mas ...

Depois de demasiado tempo agarrados à utopia ingénua de que todo os alunos chegariam ao ensino superior apesar dos escandalosos números do insucesso e abandono no Ensino Básico e Secundário, a partir de certa altura e timidamente, começaram a surgir ofertas de vias de ensino profissionalizante que, por má explicação política, foram sobretudo entendidas com a estrada por onde vai quem não tem "jeito" ou competência para estudar. Neste contexto, famílias e alunos sentiram dificuldade em aderir a algo percebido como sendo de segunda. Entretanto, o nível inaceitável de chumbos e abandono no secundário continuava a envergonhar-nos.
Nos últimos anos, temos finalmente assistido a uma significativa diferenciação da oferta educativa, sobretudo depois do 9º ano, e essa oferta começa agora e ainda de forma ténue a perceber-se como uma alternativa à continuação de estudos, o ensino superior politécnico ou universitário. A questão é que em muitas escolas esta oferta diversificada é ainda gerida de forma classista ainda no básico, ou seja, os bons alunos são os que se encaminham para os cursos gerais e os outros são encaminhados para os cursos profissionais que assim continuam percebidos como de segunda.
Neste universo, os Cursos de Educação e Formação cujo existência é importante e tem permitido o desenvolvimento de boas experiências em muitas escolas, também tem servido para "crivo", ou seja, para estes cursos são encaminhados basicamente os alunos com insucesso ou em risco, instalando uma imagem de "alunão" dos CEF, espaços (recipientes) para onde despejam os alunos que não prestam. Tais práticas têm ainda o efeito lateral de aliviar as estatísticas do insucesso e abandono, uma tentação maior das equipas do ME.
A determinação, hoje referida no Público, de aumentar o número mínimo de alunos exigido para criação de turmas de CEF sem o qual não há financiamento, de 10 para 15, amplia, do meu ponto de vista, o risco de que em algumas escolas se acentuem as práticas de selecção, discriminação negativa, que garantam o número de alunos necessários para se criarem as turmas e obter o financiamento.
O nível de desenvolvimento das sociedades actuais exige níveis de qualificação profissional sem os quais o risco de exclusão social é enorme, como sempre digo, a exclusão escolar é a primeira etapa da exclusão social. Assim, conseguir que os alunos, todos os alunos, cumpram a etapa escolar saindo com qualificações profissionais é o grande desafio que o nosso sistema educativo enfrenta e para cujo sucesso é fundamental a oferta de percursos formativos diferenciados mas sérios e com qualidade.
Na tentação de torcer a realidade até que esta diga aquilo que se pretende, o ME tortura os números para os transformar em sucessos que componham as estatísticas, confunde frequentemente certificar com qualificar, um equívoco de consequências devastadoras.
Não basta fazer as coisas certas, é também necessário fazer certas as coisas.

O JOGO DAS MENTIRAS

Uma tarde destas, já nas férias, num dos poucos dias em que não tinham actividades de férias, o Manel e o primo, o João, aproveitavam para brincar que é uma coisa interessante para fazer nas férias quando dão tempo para isso aos miúdos. Estavam na casa do João e para variar do que tinham estado a fazer, o Manel, que gosta de ter ideias, lembrou-se de inventar um jogo. Cada um contava uma história pequena e o outro tinha que descobrir se era uma mentira ou uma história verdadeira.
Com a experiência e a imaginação dos oito anos o jogo foi ganhando animação e o Manel e o João esmeravam-se na criação dificultando o trabalho do outro, tornando extremamente equilibrado o resultado do jogo.
A certa altura entrou no cenário o Pai do João que, perante a animação e a estranheza da tarefa, quis perceber de que actividade se tratava.
Entusiasmados os miúdos explicaram e como é habitual nestas alturas o Pai quis entrar no jogo. Quase em coro o Manel e o João recusaram liminarmente pelo que o Pai lhes pediu uma explicação para a recusa.
O Manel, com um ar sério, disse que os adultos estão muito mais habituados a inventar mentiras que parecem verdades do que os miúdos. Assim o jogo não era equilibrado, não era justo.
O Pai do João ficou com a ideia de que tinha acabado de ouvir algo que não era propriamente um elogio.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

SENTIDO ÉTICO E DIGNIDADE

O Procurador-geral, Pinto Monteiro, é uma homem admiravelmente eficaz no discurso. Sempre que intervém cria confusão, não falha. Não percebo se é intencional, para enviar recados que de outra forma não é capaz ou não quer, se é apenas ingenuidade e falta de jeito o que para mim que não sou muito ingénuo não me parece uma boa hipótese explicativa ou se, finalmente, é mesmo por incompetência ou perfil desadequado para o cargo.
Hoje no DN, considera-se uma "Rainha de Inglaterra" e afirma que nunca leu um despacho como o dos procuradores que investigaram o caso Freeport.
Um dos mais sérios problemas da justiça em Portugal, tal como de outras áreas, a educação é um bom exemplo, é o facto de que as análises, discursos, opiniões, etc. sobre este universo derivam fundamentalmente da agenda político-partidária e dos interesses de quem as produz. Na prática, isto significa que não se discute a essência da política de justiça, mas a gestão táctica dos interesses corporativos e partidários envolvidos.
Para o cidadão comum ouvir o Procurador-geral afirmar que se sente uma espécie de Rainha de Inglaterra na área que tutela há vários anos e afirmar a sua perplexidade perante um despacho de dois procuradores é, no mínimo, delirante.
O problema sério é que a situação é mesmo assim, os interesses corporativos e partidários estão em roda livre, contaminam legislação, investigações, processos, despachos, decisões judiciais, etc.
A forma mais séria que o Procurador-geral teria de se referir a estas questões seria bater com a porta.
Mas para isso falta algo que é um bem de primeira necessidade e que escasseia entre a classe política portuguesa, sentido ético e dignidade.

CRÓNICAS DA PRAIA - vuvuzelas à portuguesa

Em semana de praia mar durante a manhã o areal fica mais pequeno obrigando o pessoal a estar mais próximo.
Este proximidade, entre outras consequências, aproxima de nós aquele barulhinho simpático tão característico das nossas praias, o jogo das raquetes. Sabem ao que me refiro, aquelas raquetas de madeira com as quais se bate numa bola de plástico duro e que produzem uma musiquinha tão irritante como a famosa vuvuzela embora, felizmente, com uns decibels a menos.
Como gosto de ver o mundo passar pus-me a observar alguns dos "tocadores" de raqueta que tocavam à minha beira. Um casal de meia idade tentava sem sucesso aparente manter a bola em jogo mais do que duas batidas o que exasperava o homem que sublinhava falta de jeito da empenhada esposa. Destes o barulho não era grande e o treino era mais dobrar-se e levantar-se para tirar a bola do chão.
Um extremoso pai procurava ensinar o rebento de sete ou oito anos a "tocar" e a maneira que escolheu foi acertar com quanta força tinha na bola para ela subir bastante alto e dizia para o gaiato, "Vês, é assim que tens de fazer". Eu acho que por pudor e respeito o miúdo não dizia ao pai que aquela não era a melhor maneira de aprender a "tocar" raquetas.
Havia um casal, gente certamente experiente que quase imóveis, os dois, a pouca distância um do outro, com um pezinho adiante e com os braços simetricamente em movimento trocavam a bola por bastantes vezes, produzindo um som seguido sem oscilações e bem afinado. Bons "tocadores", sem rasgos mas eficazes, o som contínuo e sem falhas irritava mesmo.
Um outro par, dois atletas, "tocavam" as raquetes longe, com a bola percorrer alguma distância, com uma batida forte levando a que os atletas tivessem de fazer alguns slaloms entre a assistência para continuarem a "tocar". Estes atletas acompanhavam a sua exibição com alguns saltos bem conseguidos e por vocalizações, algumas menos apropriadas mas que surgem no calor da exibição.
Fui para a água onde, antes de mergulhar, ainda me cruzei com mais um casal de tocadores de raqueta que preferiam o meio aquático para a sua exibição barulhenta é certo, mas sem grande nível.
A água estava fria, por isso agora desculpem mas tenho de ir. Vou "tocar" raquetas para aquecer.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A QUEDA DE UM ANJO

Em pouco espaço de tempo é a segunda criança que morre em consequência de queda de habitações em prédios, agora em Odivelas. Durante a época de Verão, todos os anos somos informados da quantidade inaceitável de acidentes que vitimizam crianças em piscinas.
Continuamos a ser um dos países europeus em que as crianças mais são vítimas de acidentes domésticos. Nas mais das vezes verifica-se alguma negligência ou excesso de confiança da nossa parte, adultos, na vigilância dos miúdos.
A culpa que alguém pode carregar depois de uma episódio desta natureza será, creio, suficientemente forte para que deixemos de lado o aspecto da culpabilização.
O que me parece importante sublinhar é que num tempo em que os discursos e as práticas sobre a protecção da criança estão sempre presentes também se verifica um número altíssimo de acidentes mortais o que parece paradoxal. Por um lado, protegemos as crianças de forma que, do meu ponto de vista, me parece excessiva e por outro lado e em muitas circunstâncias, adoptamos atitudes e comportamentos altamente negligentes e facilitadoras de acidentes que, frequentemente, têm consequências trágicas.
E não vale a pena pensar que só acontece aos outros.

OS FARDOS

No sábado à tarde, depois de uma lida mais pesada pela quentura do meu Alentejo, arrancar cebolas e amanhar uns caminhos no monte não é coisa leve, eu e o Velho Marrafa poisámos debaixo da pimenteira para as lérias do fim do dia temperadas com umas cervejas.
Comentávamos como o trabalho fica pesado quando o calor está mais bravo e Velho Marrafa contou-me, ele gosta de contar histórias, de uma empreitada em que ele a mulher e o sogro se envolveram quando ainda tinha casado há pouco tempo e procurava "jogar-se" ao que podia para fazer uns amanhos na casita.
O trabalho era carregar fados que estavam numa herdade lá para os lados de Torre dos Coelheiros. A herdade tão tinha tractor que içasse os fardos para cima da "rolota" (o atrelado de carga do tractor) e o Velho Marrafa tomou conta da empreitada de carregar os fardos todos para serem armazenados. A mulher e o sogro estavam em cima da "rolota" e iam arrumando os fardos que o Velho Marrafa levantava do chão com um forcado, uma forquilha de duas pontas, para cima do atrelado.
Esta empreitada veio à conversa porque sendo pagos ao fardo, que tinha por volta de 50 kg cada, saíam de casa ainda de noite e trabalhavam até ficar escuro. Faziam umas quatro carradas de 200 fardos cada. Acresce que este trabalho se fez, foi essa a lembrança, com um calor que até no Alentejo se estranhava ou, como dizia o Velho Marrafa, estava mesmo áspero.
No fim, da história e da cerveja, o Velho Marrafa, com o ar de sempre dizia, "Sr. Zé, sem trabalho nada se faz, nada se tem. Amanhei a casa, sem a empreitada dos fardos não conseguia".
Mas esta é uma história antiga, do tempo em que os fardos eram mais pesados de carregar.

domingo, 1 de agosto de 2010

ÉTICA E SOLIDARIEDADE

Entram hoje em vigor, de mansinho, em tempo de férias, os novos mecanismos relativos aos apoios sociais.
Sou dos que entendem que o combate à pobreza e à exclusão é, sobretudo num país assimétrico como o nosso, com 20 % da população em risco de pobreza e 10.8% de desempregados, o maior desafio que enfrentamos, e que só o repensar dos modelos económicos e de desenvolvimento pode verdadeiramente minimizar tal cenário.
Neste combate à pobreza e exclusão, as políticas sociais são o instrumento privilegiado de correcção por iniciativa pública, ainda que com natureza mais ou menos assistencialista ou paternalista, das situações mais dramáticas.
Sou também dos que entende que em muitas circunstâncias que toda gente conhece, a gestão e aplicação dos apoios sociais é injusta, que é desregulada e objecto de fraude, que permite situações estranhíssimas como por exemplo a possibilidade de recusar trabalho igual ao que se perdeu porque, entre subsídios e programas de formação também apoiados, é mais compensador estar em casa que a trabalhar, que pode alimentar uma dependência do subsídio sem quebra do ciclo de pobreza, etc. É, pois, necessário que os apoios sociais sejam permanentemente escrutinados e, eventualmente, ajustados, para que a sua eficácia se potencie.
Também entendo que se torna necessário um esforço de equilíbrio e contenção na utilização dos dinheiros públicos.
Por isso, sou dos que não entendem a manutenção de milhares de institutos, entidades e organismos públicos cuja eficácia é mais do que duvidosa e que, só por existirem são um sorvedouro de dinheiros públicos. Salários elevados da administração e chefias, máquina administrativa, edifícios e manutenção, logística e funcionamento, veículos afectos, etc. constituem-se como um saco de desperdício sem fundo. Os serviços de consultoria e aquisição de serviços em "outsourcing" são uma praga de altíssimo custo. Na gestão autárquica existem milhares de empresas municipais com competências ininteligíveis e eficácia não perceptível, também com custos imensos só por existirem. Os modelos de funcionamento em muitos organismos públicos, centrais e locais, são um convite ao desperdício sem controlo.
Sou dos que não entendem, foi notícia esta semana, como é que o BCP, o BES e o BPI aumentaram os lucros em 12% no primeiro semestre deste ano face ao ano passado e pagaram de imposto menos dois terços que no ano anterior, correspondendo a cerca de 6% de imposto.
Finalmente, sou dos que entendem, que o funcionamento do mercado é compatível com o chamado estado social. A compatibilidade é assegurada por algo de muito simples, ética e solidariedade.

sábado, 31 de julho de 2010

DE TANTO CHUMBARES, VAIS APRENDER

Em entrevista ao Expresso a Ministra Isabel Alçada aborda a questão dos chumbos e a sua ineficácia genérica como promotor de qualidade. De imediato se levanta o alarido do costume sempre que se fala de chumbos. Diz-se a Ministra quer acabar com os chumbos. É evidente que se pode decretar que não existem chumbos, mas isso é delinquência política e ética, não creio ser isso que está na intenção da Ministra. Do meu ponto de vista a ministra enuncia bem o problema. Já muitas vezes aqui tenho referido que estudos internacionais mostram que Portugal tem ao mesmo tempo, surpreendentemente para alguns, níveis altíssimos de insucesso e níveis altíssimos de “chumbos”. No mesmo sentido, parece importante sublinhar que vários dos países com mais altas taxas de sucesso escolar não prevêem na organização dos seus sistemas a figura chumbo, sobretudo para alunos mais novos. Não se prova, portanto, a ideia de que reprovar mais produz mais sucesso. Escapa-me a insistência no chumbo como forma de promover qualidade.
Os estudos internacionais também mostram que os alunos que começam a chumbar, tendem a continuar a chumbar, ou seja, a simples repetição do ano, não é para muitos alunos, suficiente para os devolver ao sucesso. Os franceses utilizam a fórmula “qui redouble, redoublera” quando referem esta questão.
Nesta conformidade, a questão central não é o chumba, não chumba e quais os critérios (quantas disciplinas, por exemplo) é que tipo de apoio, que medidas e recursos devem estar disponíveis para alunos, professores e famílias de forma a evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo. É necessário diversificar percursos de formação com diferentes cargas académicas e finalizando sempre com formação profissional.
É neste quadro que gostava de acreditar que quando a Ministra fala de criar os dispositivos de apoio a alunos e professores que substituam com vantagem a decisão do chumbo, tal cenário fosse uma realidade.
É “só” isto que está em causa. O resto é demagogia, política de segunda e ignorância. Insisto, somos o país que mais chumba e o que piores resultados obtém.

E A MUDANÇA CURRICULAR?

A Ministra Isabel Alçada anunciou que as metas de aprendizagem para o ensino básico serão divulgadas no início do ano lectivo. Pode até acontecer que seja depois das aulas, o que não é grave pois são de “utilização voluntária” por parte dos professores e são apenas um “referencial” para o estabelecimento das aprendizagens.
A definição das “metas de aprendizagem” em qualquer disciplina ou área curricular decorre, obviamente, dos respectivos conteúdos curriculares. Considerando que, designadamente, no 2º e 3º ciclo de há muito se entende a necessidade de reformas curriculares, esta é a questão central. Assim, mais do que a urgência do estabelecimento de metas de aprendizagem, seria necessário a redefinição dos conteúdos, extensão e organização curriculares.
O próprio ME, ao considerar de “utilização voluntária” as metas de aprendizagem, desvaloriza a sua importância embora acene com o facto de serem utilizadas em alguns países.
Se tivermos uma estrutura curricular ajustada, dispositivos de avaliação de alunos e professores competentes e dispositivos de apoio ao trabalho de uns e de outros, a definição formal de “metas de aprendizagem”, podendo constituir-se, de facto, como um instrumento regulador, não é imprescindível.
Com conteúdos curriculares ajustados, com a extensão e organização adequada, os bons professores, a grande maioria, saberá o que devem aprender os alunos em cada disciplina ou área disciplinar, em cada ano de escolaridade. Sim, porque eles têm de aprender, eles precisam de saber.

OS HOMENS QUE SE CHAMAVAM CAMALEÃO

Lá naquela terra onde acontecem coisas existiam alguns homens que se chamavam Camaleão, aliás, até havia muitos homens assim chamados e todos funcionavam da mesma maneira, em qualquer circunstância que estivessem faziam o que as outras pessoas estavam a fazer ou esperavam que fosse feito, ou diziam o que as outras pessoas estavam a dizer ou esperavam que fosse dito. Nunca nada de diferente.
Esta forma de funcionar criava situações curiosas pois, com muita frequência, os homens que se chamavam Camaleão entravam em contradições bem evidentes. Ora faziam exactamente o contrário do que tinham feito antes se assim fosse a situação, ora afirmavam tudo e o seu contrário conforme a audiência que tivessem.
Procuravam, assim, agradar a toda a gente e tornar-se populares e apreciados.
Naturalmente que havia muita gente que não gostava dos homens que se chamavam Camaleão e até gostava de perceber porque é que eles assim procediam. Tal preocupação levou a que os cientistas daquela terra começassem a estudar os homens que se chamavam Camaleão.
Após alguns anos de observação e investigação chegaram à conclusão que alguns grupos naquela terra, sobretudo o dos homens chamados Camaleão, tinham sofrido uma mutação genética, faltava-lhes a espinha dorsal. A falta de espinha dorsal torna impossível que os homens possam funcionar de acordo com a sua própria cabeça.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

SE FOSSE FICÇÃO ERA MAU, COMO REALIDADE É UMA TRAGÉDIA

Poderiam fazer parte dum argumento de um filme de segunda, qualquer coisa entre a farsa, o burlesco e o non sense sem qualidade, mas não, fazem parte do mundo real de um país real que, frequentemente, parece de ficção. Vejamos.
Passados cinco anos de investigação de um mega processo judicial, o caso Freeport, a acusação é ridícula, os investigadores afirmam que não tiveram tempo para investigar tudo, parece que perderam o rasto das verbas envolvidas e, finalmente, o Procurador-geral manda investigar a investigação. Mais bizarro era impossível.
Ao fim de seis anos de julgamento e de sucessivos adiamentos da leitura da sentença do caso Casa Pia, parece agora desenhar-se a possibilidade de implodir o processo por razões processuais, voltando tudo ao início. Mais uma etapa até ao esquecimento final.
O país está suspenso sobre a decisão da Federação Portuguesa de Futebol relativa ao despedimento ou não de Carlos Queiroz, também conhecido por Professor. Parece que a decisão balança entre o despedimento com justa causa ou por motivo atendível, em versão PC (Passos Coelho), ou a rescisão com uma indemnização de cerca de 3 milhões, sim, três milhões. Por falar em despedimentos, um jornal televisivo referia há pouco o despedimento de umas centenas de pessoas na Leoni em Viana do Castelo e a taxa de 10.8% de desemprego no país, número que, aliás, deixou o inenarrável Valter Lemos satisfeito com o progresso.
Este tipo de episódios que insulta a inteligência do comum dos mortais, tem ainda um efeito devastador sobre a já degradadíssima imagem da justiça e da qualidade ética da nossa vivência como país.
Poderiam ser apenas uma excepção integrada na silly season. Lamentavelmente, são a regra em todas as estações.

CRÓNICAS DA PRAIA - Encontrei o Tuga

Hoje na praia encontrei o Tuga, ou melhor, um exemplar do Tuga, uma espécie característica do nosso habitat. No encontro de hoje na praia tratava-se de um adulto, acompanhado da mulher e dos filhos, ainda crianças pequenas.
O Tuga, braços tatuados e cabelo curtinho, chega ao areal equipado com uma camisola de alças vermelha, com o emblema do glorioso e com uns calções amarelos e verdes compridos, quase a tocar nas havaianas brancas. Carrega o chapéu de sol, uma geleira e ainda consegue rebocar um dos filhos. Traz um boné de pala e em cima desta poisam uns óculos escuros.
A tribo do Tuga poisou logo bem encostadinha às pessoas que já estão na praia, o Tuga não gosta de estar sozinho. Espetado o chapéu de sol, os miúdos são besuntados com creme protector pela mãe Tuga, enquanto o pai arruma a geleira debaixo do chapéu e em voz bem alta avisa-os para se portarem bem senão volta tudo para casa.
Em seguida pega numa bola e com um pontapé atira-a para longe dizendo aos miúdos para irem jogar e terem cuidado com as pessoas. A bola atirada pelo Tuga tinha, entretanto, acertado num velhote que passeava no sítio errado.
Com o olho nos putos o Tuga senta-se a ler o Record e puxa de um cigarro cuja cinza vai sendo depositada na areia.
Passado pouco tempo os putos aparecem, um deles a chorar porque o outro lhe tinha batido. Aí o Tuga, senta o mal comportado na toalha, acende mais um cigarro, põe os óculos na cabeça, como sabem os Tugas não usam os óculos nos olhos, é na testa ou na cabeça, e vai ele jogar com o irmão.
Dois minutos depois volta e diz para a família ir ao banho. Ouvem-se uns protestos da mãe Tuga, mas a voz alta do pai Tuga é persuasiva e vai tudo para a água.
Quando voltam, a protestar pela frieza da água, juntam-se à volta da geleira donde emergem umas "sandes" para todos, colas para os miúdos, sumo para a mãe e uma mini para o Tuga.
Durante o lanche surge uma discussão sobre a que horas sairiam da praia a que o Tuga, sempre em alta voz, pôs termo dizendo que sairão à hora que ele disser. Esta cena foi-se desenrolando acompanhada de vários telefonemas do Tuga por causa de um problema com a bomba de água do carro de que boa parte da praia ficou ao corrente.
Aquietado o estômago, o Tuga e a família deitam-se nas toalhas e ele volta ao Record e a mais um cigarro, cuja beata irá fazer companhia às anteriores no areal da praia.
Mais não pude perceber porque a minha praia acaba cedo. É sempre um prazer encontrar o Tuga.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

EU QUERIA PERCEBER

Atentemos em alguns dados hoje divulgados no DN. No primeiro semestre de 2010 BCP, BES e BPI tiveram lucros de 544.9 milhões de euros, mais 62.2 do que em igual período de 2009, qualquer coisa como 3 milhões por dia. No mesmo período, os três bancos pagaram de impostos 33.8 milhões contra 108.6 milhões pagos de impostos no ano passado, ou seja, os lucros subiram 12%, mas pagam de imposto menos que um terço do valor do ano que passou. Sim, estou a transcrever bem, o lucro subiu 12% mas o imposto pago baixou, correspondendo a qualquer coisa como 6% dos lucros.
A notícia acrescentava algumas declarações de especialistas procurando esclarecer como é que mais lucro se traduz em menos imposto pago, situação que para qualquer de nós, trabalhadores por contra de outrem, dificilmente se verifica, creio.
Não sou particular conhecedor dos meandros da economia, sou apenas um cidadão minimamente informado que paga impostos, muitos impostos, que sofreu recentemente aumentos no IRS e no IVA e não consegue entender como os impostos pagos pela banca são obscenamente mais baixos que os dos cidadãos com rendimentos médios.
Não consigo perceber o discurso da distribuição dos sacrifícios e da necessidade de hipotecar apoios sociais e de aumento das receitas do estado assente na receita habitual, imposto sobre o rendimento do trabalho e no consumo e, caso do consumo, tratando da mesma forma quem mais pode e quem menos pode.
Não consigo perceber muito bem como é que a banca precisa da protecção, ajuda e garantias que se sustentam com os nossos impostos, apresenta lucros significativos e paga bem menos imposto que nós. Sabemos também que quando o dinheiro fica mas caro para os bancos, é o cidadão que paga, por exemplo através do aumento dos spreads.
Mas não vou ser capaz de perceber, nunca.
É a economia, estúpido. Estou cansado de saber.

CRÓNICAS DA PRAIA - Um estranho bailado

Pelo título poderia pensar-se que me refiro ao estranho bailado cantado pelos Trovante em “Travessa do Poço dos Negros”, mas não, nem sequer é em tom dolente. Vejamos então de que se trata. Nas deambulações matinais pelas minhas praias de sempre, as da Costa da Caparica, sempre que as marés andam mais baixas, dá para assistir a um espectáculo curiosíssimo. Muitíssimas pessoas à beirinha da água agitam-se furiosamente num estranho bailado rodopiante, ora em cima de um pé, ora em cima do outro, abrem buracos na areia e de vez em quando baixam-se. A coreografia, devo dizer, não é particularmente brilhante e criativa mas a performance envolve, e isso é notável, bailarinos de todas as idades, predominando adultos e seniores, todos com o mesmo empenho. A produção também não é superlativa, predominam os fatos de banho clássicos, um boné ou um mais sofisticado “panamá” na cabeça e uma garrafinha na mão para onde diligentemente é remetido o resultado do estranho bailado, meia dúzia de minúsculas cadelinhas que gozando as delícias do mar da Costa estavam bem longe de se imaginar engarrafadas pelos azafamados bailarinos.
Não sei o que mais admirar. Por um lado, acho notável o empenho e a atitude profissional dos bailarinos que sempre que apanham uma desgraçada cadelinha olham à volta para se certificar que alguém viu como caçaram, ou pescaram, mais uma e de que aquela não vai parar à garrafinha do bailarino da poça a seguir. Por outro lado, acho fantástico imaginar aqueles bailarinos e a respectiva família a preparar um delicioso e bem regado lanche com a meia dúzia de cadelinhas pequeninas, ainda juniores, que a sua empreendedora acção matinal conseguiu e que, para uma família média, dará, pelo menos, a indigesta enormidade de umas três ou quatro por prato.
Este estranho bailado ficaria muito bem numa versão beira-mar do notável “Aquele querido mês de Agosto” de Miguel Gomes.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

OS FOGOS, SERÁ DESTINO?

Apesar de alguma aparente evolução, quando chegam os primeiros dias de calor a sério surgem os fogos, sempre.
Todos os anos somos informados de melhorias nos dispositivos de prevenção e combate, no aumento de meios à disposição, etc. Entretanto, quando a comunicação social, de forma frequentemente desajeitada, começa a mostrar o "terreno", o "cenário dantesco", a ouvir "moradores que passaram uma noite em branco", a ouvir o "senhor comandante dos bombeiros", a referir os "meio aéreos, dois Canadairs e um Kamov", a ouvir os "responsáveis locais ou regionais da protecção civil", parece um filme sempre visto e sem surpresas.
É evidente que temperaturas muito altas e vento são condições desfavoráveis e que a negligência e delinquência dão um contributo fortíssimo ao inferno que sobressalta cada Verão.
Sem nenhuma espécie de conhecimento destas matérias, para além do interesse e preocupação de um cidadão atento, tenho alguma dificuldade, considerando a dimensão do nosso país, em compreender a inevitabilidade destes cenários. Os espanhóis têm por costume afirmar que os incêndios se combatem no inverno, nós combatemo-los no inferno.
Trata-se de um destino que não pode ser evitado? Trata-se de uma área de negócios, a fileira do fogo, que, pelos muitos milhões que envolve, importa manter e fazer funcionar sazonalmente? Trata-se "só" de incompetência na decisão política em termos de resposta e prevenção? Trata-se da falência de modelos de desenvolvimento facilitadores de desertificação e abandono, designadamente das área rurais?
Acresce que em Portugal passamos o ano todo a apagar fogos de diferentes naturezas e implicações.

CRÓNICAS DA PRAIA - As Actividades Fantásticas

O síndrome das Actividades Fantásticas chegou à praia. Aquela coisa de brincar na areia, jogar à bola ou com as avós das vuvuzelas, as raquetas de praia, tomar banho ou, mais simplesmente, apanhar sol com ou sem livro, já foi.
Hoje deparei com um grupo de umas dezenas de pessoas que se abanavam furiosamente, procurando de forma desajeitada imitar os movimentos de uma jovem que maestrava o grupo.
A agitada dança, uma espécie de dança, faria certamente parte do programa de animação da praia que incluiria, seguramente, outras actividades fantásticas. Os tempos parece que nos estão a tornar incapazes de nos animarmos sem ajuda, precisamos de animadores e de programas de animação.
Quando passei, empenhado numa daquelas irrelevantes actividades, andar na praia pela maré baixa, a cara de boa parte daquela gente não parecia particularmente animada. Alguns, aparentavam mesmo estar a sofrer de animação.
Mas é uma actividade fantástica, de um programa fantástico,para uma animação fantástica. É fantástico.


terça-feira, 27 de julho de 2010

OS (DIS)MIÚDOS

O trabalho hoje divulgado no Público sobre crianças hiperactivas, não querendo beliscar a sua pertinência e rigor, vai ao encontro de uma matéria que há algumas semanas aqui abordei.
Estranharão certamente o título mas vou tentar explicar. De há uns tempos para cá uma boa parte dos miúdos e adolescentes ganharam uma espécie de prefixo na sua condição, o "dis".
Se bem repararem a diversidade é enorme, ao correr da lembrança temos os meninos que são disléxicos em gama variada, disgráficos, discalcúlicos, disortográficos ou até distraídos.
Temos também as crianças e adolescentes que têm (dis)túrbios. Estes também são das mais diferenciadas naturezas, distúrbios do comportamento, distúrbios da atenção e concentração, distúrbios da memória, distúrbios da cognição, distúrbios emocionais, distúrbios da personalidade, distúrbios da actividade, distúrbios da comunicação, distúrbios da audição e da visão, distúrbios da aprendizagem ou distúrbios alimentares.
Como é evidente existem ainda os que só fazem (dis)parates e aqueles cujo ambiente de vida é completamente (dis)funcional.
Pois é, há sempre um "dis" à espera de qualquer miúdo e senão, inventa-se, "ele tem que ter qualquer coisa".
Agora um pouco mais a sério, sabemos todos que existem um conjunto de problemas que podem afectar crianças e adolescentes mas, felizmente, não tantos como por vezes parece. Inquieta-me muito a ligeireza com que frequentemente são produzidos "diagnósticos" e rótulos que se colam aos miúdos, dos quais eles dificilmente se libertarão e que pela banalização da sua utilização se produza uma perigosa indiferença sobre o que observa nos miúdos.
Esta matéria, avaliar e explicar o que passa com os miúdos e adolescentes, exige um elevadíssimo padrão ético e deontológico além da óbvia competência técnica e científica. Não se pode aligeirar, é "dis"masiado grave.

UMA HISTÓRIA FELIZ

É a história de um rapaz chamado Tiago que vive numa família com o pai João, a mãe Maria e a irmã Filipa. Não muito longe vivem os avós António e Luísa que o Tiago e família visitam semanalmente.
O Tiago é um excelente aluno na escola pública da zona onde moram tendo passado de ano com notas muito boas tal como a irmã Filipa, também ela boa aluna da mesma escola. O Tiago e a Filipa praticam desporto fora da escola e colaboram nas acções sociais da paróquia destinadas a ajudar as pessoas mais necessitadas. Gostam particularmente de participar nas campanhas de recolha de géneros alimentares, tendo, aliás, um jeito imenso para persuadir as pessoas a ajudar.
O pai João e a mãe Maria são pais atentos que sabem estabelecer as regras e os limites que de forma tranquila são aceites pelos filhos. Conversam regularmente entre si, trocando pontos de vista e opiniões sobre que se vai passando na família e no mundo.
Aos fins de semana, quase sempre fazem um passeio, que tanto pode ser ao ar livre, uma caminhada ou uma volta de bicicleta no parque, como uma ida a um espectáculo, exposição ou museu.
O Tiago e a Filipa são miúdos tranquilos com muitos amigos que lhes enchem a casa em cada festa de anos.
A família consegue sempre ter um tempo para umas férias em conjunto, mesmo sem serem luxuosas, onde ainda mais conversam e brincam e em que arranjam sempre novos amigos.
Estão nesta altura num desses períodos de férias e este ano também levaram o avô António e a avó Luísa que nunca tinham passado uns dias na praia.
Há muito tempo que não escrevia uma história tão feliz.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O DIREITO AOS AVÓS

Como tem acontecido aqui no Atenta Inquietude em cada 26 de Julho, dia que a agenda das consciências manda dedicar aos Avós, retomo a minha proposta no sentido de ser legislado o direito aos avós. Isto quer simplesmente dizer que todos os miúdos deveriam, obrigatoriamente, ter avós e que todos os velhos deveriam ter netos. Num tempo em que existem milhares de miúdos sós e velhos a morrer de solidão, qualquer partido verdadeiramente interessado nas pessoas, sentir-se ia obrigado a inscrever tal medida no seu programa ou, porque não, promover a sua inscrição nos direitos fundamentais.
Com tantas crianças abandonadas dentro de casa, institucionalizadas, mergulhadas na escola tempos infindos ou escondidas em ecrãs, ao mesmo tempo que os velhos estão emprateleirados em lares ou também abandonados em casa, trata-se apenas de os juntar, seria um dois em um. Creio que os benefícios para miúdos e velhos seriam extraordinários.
Um avô ou uma avó, de preferência os dois, são bens de primeira necessidade para qualquer miúdo.

O STRESS DO CAJÓ

Já há algum tempo que não me cruzava com o meu amigo Cajó, vocês conhecem, o mecânico que tem o Punto kitado e é casado com a Odete que trabalha, quando tem, numa loja do Centro Comercial. Pois durante a tarde encontrei-o no café, para não variar estava agarrado a uma mini.
Então amigo Zé, não tem passado lá pela oficina, tá zangado c'a gente ou o chasso porta-se bem?
Não tem calhado Cajó, a máquina aguenta-se e é melhor que continue porque os carros estão caros.
Pá, nem me fale em caro, tá tudo uma miséria, o guito não chega p'ra nada.
A coisa não está fácil Cajó, é verdade.
Não tá fácil, mas é sempre prós mesmos. Os gajos enchem-se, gandas máquinas, belos empregos, não fazem a ponta d'um corno e depois, inda por cima, altas reformas. Um gajo anda aqui uma vida inteira enfiado no macaco com as mãos no óleo e tem que bulir até velho. A mãe da minha Odete tem setenta e tais e inda anda nas limpezas, a reforma não lhe dá para ficar a tomar conta dos miúdos e bem me dava jeito.
Pois é, a vida está um bocado dura.
Dura? Tá um stress do caraças. Agora por stress, noutro dia tava um bacano, devia ser doutor, a falar lá na oficina e tava a falar c'o patrão duma cena qualquer do stress dos bancos, uma cena assim. Stress dos bancos? Ganda treta. Stress é a vida dum gajo a ver se o guito chega até ao fim do mês. Queria comprar um telemóvel pó meu Tolicas, tinha aí um bacano que me orientava um fixe, já desbloqueado, o puto anda-me a chatear e não consigo. Amigo Zé, cuide do físico e passe por lá com o chasso, a gente precisa de clientes.
Um dia destes passo por lá Cajó, deixe que eu pago a mini, sem stress.

domingo, 25 de julho de 2010

VIDEOJOGOS E OUTROS ECRÃS

O DN de hoje apresenta um trabalho sobre os potenciais malefícios do excesso de utilização dos videojogos por parte dos adolescentes. É curioso que em Fevereiro de 2009 foi divulgado um relatório da União Europeia elaborado pelo Comité do Mercado Interno e de Protecção do Consumidor do Parlamento Europeu, sob a coordenação de Toine Manders, em que se afirmava que os resultados “contradizem muitos estudos que sublinham a dependência e a violência que os videojogos podem provocar nos mais pequenos, deixando alguns pais mais tranquilos” e, citando o próprio relatório, os videojogos estimulam “a aprendizagem de factos e habilidades como a reflexão estratégica, a criatividade, a cooperação e o sentido de inovação”. O relatório também referia que alguns videojogos podem não ser apropriados. Sobre este relatório na altura escrevi, "Vamos ser sérios, não conheço ninguém, especialista ou não, que diga que os videojogos fazem mal, conheço muita gente, eu próprio, que se inquieta com a falta de qualidade, com os conteúdos violentos e desadequados às crianças de muitos destes produtos que lhes estão acessíveis. Muitos de nós, especialistas ou não, inquietamo-nos com o tempo excessivo que muitas crianças e adolescentes passam sós, agarradas a um ecrã, numa espécie de teledependência pouco positiva. Esta preocupação não tem nada a ver com um entendimento definitivo de que os videojogos fazem mal. Existem excelentes videojogos que, naturalmente, serão úteis e positivos na vida dos miúdos, mas não se afirme que os videojogos fazem bem às crianças. É um mau serviço prestado aos miúdos e aos pais.
Ainda neste contexto, parece-me relevante sublinhar algo que a noticia também aborda, o impacto na qualidade vida dos adolescentes. Segundo alguns estudos, perto de 50% das criança até aos 15 anos terão computador ou televisor no quarto, além do telemóvel.
Acontece que durante o período de sono e sem regulação familiar muitas crianças e adolescentes estarão diante de um ecrã, pc, tv ou telemóvel. Com é óbvio, este comportamento não pode deixar de implicar consequências nos comportamentos durante o dia, sonolência e distracção, ansiedade e, naturalmente, o risco de falta de rendimento escolar num quadro geral de pior qualidade de vida.
Comer faz bem às crianças, mas comer excessivamente e produtos de má qualidade, provoca sérios problemas de saúde. Que se eduque o consumo, sem se diabolizar ou exaltar disparatadamente o produto.
Estas matérias, a presença das novas tecnologias na vida dos mais novos, são problemas novos para muitos pais, eles próprios com níveis baixos de alfabetização informática. Considerando as implicações sérias na vida diária importa que se reflicta sobre a atenção e ajuda destinada aos pais de forma a que a utilização imprescindível seja regulada e protectora da qualidade de vida das crianças e adolescentes.

sábado, 24 de julho de 2010

ESCOLAS GRANDES, ESCOLAS PEQUENAS, DE NOVO

Já por diversas vezes aqui me referi à questão da rede escolar e da dimensão das escolas. Face à decisão definitiva que parece ser assumida pelo ME na linha do “manda quem pode obedece quem deve”, princípio político em vigor, volto à questão.
Durante décadas de Estado Novo, tivemos um país ruralizado e subdesenvolvido. Em termos educativos e com a escolaridade obrigatória a ideia foi “levar uma escola onde houvesse uma criança”. Tal entendimento minimizava a mobilidade e a abertura sempre evitadas. No entanto, como é sabido, os movimentos migratórios e emigratórios explodiram e o interior entrou em processo de desertificação o que, em conjunto com a decisão de política educativa referida acima, criou um universo de milhares de escolas sobretudo no 1º ciclo, pouquíssimos alunos. Como se torna evidente e nem discutindo os custos de funcionamento e manutenção de um sistema que admite escolas com 2, 3 ou 5 alunos, deve colocar-se a questão se tal sistema favorece a função e papel social e formativo da escola. Creio que não e a experiência e os estudos revelam isso mesmo, escolas demasiado pequenas não proporcionam necessariamente melhores resultados. Neste quadro emerge a necessidade de redimensionar a rede de escolas.
É também verdade que muitas vezes se afirma que a “morte da escola é a morte da aldeia”. No entanto, creio que será, pelo menos de considerar, que os modelos de desenvolvimento económico e social possam começar a matar as aldeias e, em consequência, liquidam os equipamentos sociais, e não afirmar sem dúvidas o contrário.
No entanto, o processo de reordenamento da rede não pode ser realizado de forma administrativa e “cega”. Em primeiro lugar importa ponderar aspectos de natureza contextual, bem diferenciados nas diferentes zonas do país, como distância a percorrer, tipo de percurso e apoio logístico, condições obviamente importantes.
Aceitando, assim, o princípio da necessidade de ajustamentos na rede, importaria analisar os cenários desejáveis. O ME estabelece como média os 1700 alunos e como limite os 3000. Estes números são completamente comprometedores da qualidade e, portanto, inaceitáveis.
Conforme o Público referiu num importante trabalho há dias divulgado a dimensão excessiva da escola é um problema identificado, de há muito que se sabe que um dos factores mais contributivos para o insucesso, absentismo e problemas de disciplina é o efectivo de escola. Não é certamente por acaso, ou por desperdício de recursos, que os melhores sistemas educativos, lá vem a Finlândia outra vez, e agora os Estados Unidos na luta pela requalificação da sua educação optam por estabelecimentos educativos que não ultrapassam a dimensão média de 500 alunos. Sabe-se, insisto, de há muito que o efectivo de escola está mais associado aos problemas que o efectivo de turma, ou seja, simplificando, é pior ter escolas muito grandes que turmas muito grandes.
É fundamental que a comunidade tenha consciência deste universo de modo a tentar travar o movimento de construção de autênticos barris de pólvora e contextos educativos que dificilmente promoverão sucesso e qualidade apesar do esforço de professores alunos, pais e funcionários.
Não conheço nenhuma justificação de natureza educativa que sustente a existência vantajosa de escolas para crianças e adolescentes com 1500 lugares ou mais. A razão para a sua criação só pode, pois, advir da vontade de controlo político do sistema, menos escolas envolvem menos directores ou de questões economicistas que a prazo se revelarão com custos altíssimos pela ineficácia e problemas que se levantarão.
Há dias perguntava se ainda iríamos a tempo. Hoje creio que talvez não. É preocupante.

TESTES DE STRESS? SIM, A VIDA DE MUITOS MIÚDOS

Nos últimos dias tornou-se conhecida uma expressão que não me recordo de ver utilizada, testes de stress. A propósito da crise nos mercados financeiros realizaram-se aos bancos europeus os tais testes de stress, também chamados de resistência, para aferir da sua capacidade de resposta. Os resultados conhecidos sugerem que os bancos portugueses analisados se aguentaram ao stress. Deve ser bom, imagino.
Sendo, ao que parece, novo neste universo, os testes de stress são mais do que frequentes e conhecidos. A vida de muita gente, em particular dos miúdos e adolescentes, é um contínuo teste de stress.
Muitos miúdos passam o dia a saltitar entre actividades e a correr de espaço para espaço sem tempo para respirar.
Muitos miúdos vivem em famílias que experimentam tremendas dificuldades em assegurar patamares mínimos de bem-estar e qualidade de vida.
Muitas crianças são vítimas de maus-tratos e negligência que transforma a sua vida num inferno inaceitável.
Muitos miúdos e adolescentes são fortemente pressionados pelas famílias para a excelência do desempenho vivendo angustiadas perante o risco do fracasso e de se sentirem responsáveis por expectativas familiares defraudadas.
Muitos miúdos e adolescentes vivem em ambientes afectivamente hostis, ameaçadores da sua auto-estima e confiança quando não vitimizados pela fragilidade que demonstram.
Muitos adolescentes sentem-se perdidos e incapazes de construir um projecto de vida viável capaz de os rebocar até ao futuro.
Os exemplos poderiam crescer, mas parecem suficientes para mostrar o nível de especialização que muitas crianças, adolescentes e jovens já atingiram em testes de stress.
E só falei dos mais novos. No fundo e relativamente à banca, creio que sempre viveu, vive e viverá sem stress.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

FINALMENTE, TAMBÉM AO DOMINGO À TARDE

Finalmente conseguiu-se, as grandes superfícies comerciais vão estar abertas aos Domingos e pode ser até à meia-noite, ouvi. Claro que existem sempre vozes que se levantam brandindo a retórica do costume, o impacto no pequeno comércio, o fomento do consumismo, os estilos de vida e o tempo das famílias, etc. Este argumentário é de uma ignorância confrangedora, esquece a relevância que as grandes superfícies comerciais e os centros comerciais que as acolhem assumem para a nossa qualidade de vida.
Para nós portugueses, um centro comercial não é apenas um espaço, maior ou menor, onde se realizam compras. Aliás, comprar o que quer que seja, está cada vez mais difícil por razões óbvias, daí as lojas com pouca gente e os corredores cheios. Um centro comercial é um espaço de ocupação de tempos livres. Como vários estudos mostram, Portugal tem um baixo consumo de actividades de lazer no exterior, de actividades desportivas e de actividades culturais. É nos centros comerciais que gastamos boa parte dos nossos tempos livres o que os transforma em excelentes ATLs. Para os reformados e, sobretudo, para a população escolar em tempo de férias são uma excelente alternativa para as famílias e com custos relativamente baixos, o hamburger e a cola para o almoço e a miudagem passa lá o dia. Com o fim dos cafés tradicionais os centros comerciais ocupam também uma boa parte desse espaço de convívio e tertúlia, quando precisamos de nos encontrar com alguém á fácil marcar o encontro para qualquer espaço no centro comercial com a enorme vantagem de ter estacionamento disponível. Os centros comerciais têm, com frequência os chamados hipermercados onde entramos para comprar um cestinho de bens e saímos a rebocar um carro a abarrotar de imprevistas compras, cujo preço as tornou irrecusáveis, ainda bem que entrámos, concluímos.
Uma outra razão prende-se com a falta de qualidade genérica da construção para habitação em Portugal. As nossas casas estão mal preparadas, quer para o frio, quer para o calor. Assim sendo, que melhor e mais confortável espaço para se passar o tempo que um climatizado centro comercial, com bancos para descanso, palmeiras em plástico, água a correr em fontes, sempre fresquinho no verão e quentinho no inverno.
Por este conjunto de razões, mais algumas haverá de que não me lembrei, um muito obrigado pela decisão, só espero que as autarquias não se armem em desmancha-prazeres.

O QUE QUERES SER QUANDO FORES VELHO?

Não, não é engano, é mesmo isso que queria escrever, não era que queres ser quando fores grande. Esta formulação talvez seja a pergunta que mais vezes é feita a miúdos e adolescentes. Acontece que os miúdos e adolescentes chegam a grandes, na sua grande maioria não são o que responderam à inevitável pergunta, mas a partir daí, estranhamente, ninguém mais pergunta ou se inquieta com o que um grande quer ser quando for velho. Acresce que hoje, felizmente, cada vez mais os grandes chegam a velhos.
Já sendo grande há uns anos e estando a bater à porta da velhice, interrogava-me sobre que quero eu ser quando for velho.
Bom, gostava de ser velho, ou seja, existir enquanto velho e com a qualidade de vida física funcional.
Costumo dizer que um dos privilégios da velhice é ter histórias para contar. Eu gostava de poder contar histórias. Gostava de contar histórias a gente mais nova, não para ensinar, ensinar é tarefa para grandes, pais e professores, não é para velhos. As histórias dos velhos são para ouvir e conversar, não são para aprender.
Outro privilégio que a velhice traz é assim uma espécie de inimputabilidade, podemos dizer e fazer coisas estranhas que as pessoas aceitam e dizem de forma condescendente, é velho, às vezes até acham graça. Deve ser bom poder dizer e fazer, quase, o que nos vem à cabeça. Quando for velho quero ser assim.
Quando for velho quero ter o tempo, não o tempo do dever, mas o tempo do querer, embora acredite que quando se é velho o tempo parece mais pequeno. Também gostava que os que já foram pequenos comigo, ficaram grandes ao pé de mim, também permanecessem por perto quando forem velhos.
Não parece assim grande coisa, mas eu acho que os velhos só ligam ao essencial.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O ACESSO AO ENSINO SUPERIOR

Segundo o CM a Confap vai propor ao Ministro Mariano Gago a revisão do papel dos exames nacionais do ensino secundário no acesso ao ensino superior.
Parece-me positivo alterar o sistema em vigor contra o qual me pronuncio há muito.
Os exames nacionais destinam-se, conjugados com a avaliação realizada nas escolas, a avaliar e certificar o trabalho escolar produzido pelos alunos do ensino secundário e que, obviamente, está sediado no ensino secundário.
O acesso ao ensino superior é um outro processo que deveria se ser da responsabilidade do ensino superior e estar sob a sua tutela.
A situação existente, não permite qualquer intervenção do ensino superior na admissão dos seus alunos, a não ser a pouco frequente definição de requisitos em alguns cursos, o que até torna estranha a passividade aparente por parte das universidades sempre tão ciosas da sua autonomia. Parece-me claro que o ensino superior fazendo o discurso da necessidade de intervir na selecção de quem o frequenta não está interessado na dimensão logística e processual envolvida.
Os resultados escolares do ensino secundário deveriam constituir apenas um factor de ponderação a contemplar nos processos de admissão organizados pelas universidades como, aliás, acontece em muitos países.
Sediar no ensino superior o processo de admissão minimizaria muitos dos problemas conhecidos decorrentes do facto da média do ensino secundário ser o único critério utilizado para ordenar os alunos no acesso. Todos nós conhecemos os clássicos exemplos de alunos que se dirigem a medicina porque as suas altíssimas notas assim o sugerem, acabando por reconhecer não ser esse o seu caminho e, por outro, um potencial excelente médico que deixará de o ser porque por três vezes ficou a décimas da média de entrada.
Veremos a reacção da tutela do ensino superior à proposta da Confap.

O ESTATUTO DO ALUNO - algumas notas

Não tendo tido oportunidade de conhecer o texto do Estatuto do Aluno que hoje será aprovado no Parlamento, apenas umas notas sobre o que é conhecido publicamente.
Parece-me importante que se reponha a existência da falta injustificada. Não era possível, do me ponto de vista, sustentar o sinal contido no Estatuto em vigor da irrelevância das faltas. Acresce a este sinal a existência, que agora também , de umas incompreensíveis e inúteis provas de recuperação que constituíam um desperdício de esforço e burocracia por parte dos professores sem qualquer resultado significativo na qualidade do trabalho de alunos e de professores.
Parece-me também positivo o caminho de agilização dos procedimentos face a incidentes de natureza disciplinar. Ao que parece são estabelecidos prazos mais curtos de análise e tomada de decisões face a episódios verificados.
Apesar de haver quem discorde, parece-me também positiva a responsabilização do aluno pelos seus comportamentos, ressarcindo a escola por danos do património ou através da realização de serviços na comunidade escolar. Importa que estes casos não sejam analisados de forma administrativa e burocratizada mas de forma individual e, portanto, diferenciada.
Como também já tenho referido temos assistido a alterações na percepção dos traços de autoridade das figuras sociais, o que inclui, naturalmente, os professores. Assim, medidas que reforcem a percepção de autoridade na figura do professor irão também no caminho certo.
Finalmente, creio, ao que percebi, que continua ausente a existência de dispositivos de apoio, recursos humanos por exemplo, que contribuam para a gestão mais eficaz de problemas de indisciplina e absentismo. A complexidade de muitas das situações, os professores têm uma profunda consciência desta dimensão, exigem respostas que estão para lá do trabalho do professor em sala de aula ou do exercício de autoridade do director por mais competentes que sejam. Assim, a existência de recursos multidisciplinares, dentro da escola, alguns, ou ao alcance da escola, outros, são peças fundamentais para com mais sucesso fazer face aos problemas no âmbito do comportamento que, é preciso não esquecer, existirão enquanto houver escola, apenas se actualizam e acompanham as mudanças sociais, culturais e nos sistemas de valores.

PROJECTO DE VIDA E EMPREGABILIDADE

Nesta altura em que decorre o período de candidaturas ao ensino superior são recorrentes os discursos e a divulgação de dados sobre a empregabilidade. Identificam-se algumas áreas de baixa ou difícil empregabilidade e apontam-se outras com melhores perspectivas de emprego.
Antes de entrar no ponto que hoje me interessa focar, duas notas. Em primeiro lugar, é notório que existem áreas em que a oferta de formação é claramente excessiva. Como muitas vezes já aqui referi, a responsabilidade decorre da negligência e da demissão da tutela política da regulação da oferta de formação de nível superior, pública e privada, universitária e politécnica. Seria de exigir que essa função de regulação fosse cumprida minimizando as consequências do enviesamento da oferta e da impossível qualidade de toda a que existe.
Uma segunda nota para, repito-o pela enésima vez, chamar a atenção para o facto de termos metade da média europeia de pessoas com formação superior. Não podemos produzir discursos que levem os jovens ou adultos a entender que uma formação de nível superior é um passaporte para o desemprego, é um discurso suicidário.
Dito isto, creio que nesta altura se deve sublinhar que a imprescindível informação sobre o nível de empregabilidade do curso que se desejaria fazer é apenas, repito, apenas, um dos critérios de escolha a ter em conta. Parece-me absolutamente estranho que alguém abdique de um projecto de vida dedicado a algo de que gosta e em que se imagina a trabalhar porque pode não encontrar emprego depois da formação. É absolutamente legítimo e desejável que alguém assuma o sonho de ter a profissão que o atrai e motiva, a entrada no mercado de trabalho virá depois. Muitas pessoas que clamam pela sobrevalorização da empregabilidade não teriam, certamente, abdicado do percurso que fizeram mesmo se, quando o iniciaram, soubessem que o emprego não estava garantido, ou mesmo, seria difícil.
Assim, parece-me que, para além da empregabilidade, mesmo em áreas identificadas como de baixa saída, importa estar informado sobre a qualidade das instituições formadoras, corpo docente e credibilidade por exemplo, ou sobre a natureza, conteúdos e opções em matéria de currículos e diversidade de formação.
Só alguns, poucos, receberão por mérito ou outros motivos não despiciendos em Portugal, a designada "golden call", ou seja, um telefonema à saída do curso a oferecer um excelente emprego. Todos os outros terão de lutar pelo seu sonho, começando pelo direito a tê-lo.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

NÃO SE ESQUEÇAM QUE EDUCAÇÃO E SAÚDE NÃO SÃO GRATUITAS

A proposta de revisão constitucional apresentada pelo PSD desencadeou um alarido que não tem fim. Não estou particularmente interessado nas propostas referentes à organização política, creio que não introduz nada que contrarie a "partidocracia" instalada o que, aliás, não será surpresa.
Do meu ponto de vista, as questões relativas à gratuitidade e universalidade do acesso à educação e ao serviço nacional de saúde são mais relevantes. O PSD quer retirar o "tendencialmente gratuito" na educação e quanto à saúde propõe que a ninguém seja negado o acesso a cuidados de saúde por questões económicas.
Sou dos que na tradição do estado social, entende dever estar garantido constitucionalmente a gratuitidade e universalidade no acesso à educação pública e a existência de um serviço nacional de saúde gratuito, embora aceite a introdução de modelos complementares ou alternativos em matéria de segurança social e saúde por iniciativa dos cidadãos, bem como me parece importante a existência de ensino privado.
Dito isto e face ao que tem sido afirmado, gostava de chamar atenção para dois ou três aspectos. Em primeiro lugar, é bom não esquecer que, em temos práticos e no quadro actual, o acesso à educação está longe de ser gratuito e é permeável à discriminação por questões económicas apesar da acção social escolar. Só a título de exemplo, o preço dos manuais e dos obrigatórios livros que os acompanham, o custo da quantidade enorme de material que é solicitado às famílias torna difícil o entendimento de gratuitidade. Muitas famílias experimentam sérias dificuldades para proporcionarem condições básicas de equidade e igualdade de oportunidades aos seus filhos.
No que respeita à saúde, também no quadro actual e apesar dos apoios, o acesso aos cuidados de saúde está também longe da gratuitidade. Para muita gente, sobretudo na população mais idosa com pensões baixíssimas, é frequente a não utilização, quer de consultas quer de medicação por razões económicas. Diferentes estudos e a comunicação social mostram regularmente situações deste tipo.
Parece-me óbvio que o edifício normativo e constitucional se actualize, no entanto e apesar do quadro actual de dificuldades, creio ser bem mais importante que se atente no cumprimento dos direitos e da legislação do que alimentar uma retórica inconsequente que não passa de jogo político.

OS FILHOS DOS NUMBER ONE

Na Pública do passado Domingo li com algum interesse um trabalho sobre uma figura pública de incontornável referência nos tempos que correm, Zeinal Bava o CEO da PT. O trabalho mostrava, para além da faceta de gestor reconhecido e premiado, um lado mais pessoal que sublinhava a importância que o senhor atribui à família, designadamente, a relação com os filhos. Sobre esta questão, diz-se, "tem a preocupação de evitar que se deslumbrem" porque "eles, mais tarde, podem não ter a mesma capacidade financeira do pai", avisada ideia. Logo a seguir afirma-se que "só lhes impõe uma condição: não importa que profissão escolham no futuro, desde que estejam sempre entre os três melhores". Aqui parei e pensei no tormento que pode ser a vida de alguns filhos destes number one.
O number one Zeinal Sr. Bava, apesar de tudo, não parece ser particularmente exigente, basta-lhe um lugar no pódio, não tem que ser o primeiro, para além de que, sendo de uma esmagadora amplitude, é-lhe indiferente que os filhos possam ser o terceiro melhor electricista ou o melhor gestor embora eu não tenha percebido a escala, será da cidade, do país, do continente, do mundo?
Talvez o number one Zeinal Bava não concorde, mas o sucesso na vida das pessoas dependendo certamente dos seus méritos e esforços, depende de muitas outras variáveis entre as quais a sorte, como, aliás, ele próprio reconheceu no trabalho jornalístico.
Talvez o number one Zeinal Bava não compreenda ou concorde, mas existem miúdos que, por variadas razões, não aguentam a pressão para serem os melhores, mesmo num modesto terceiro lugar. Talvez não saiba, até que muitas histórias de pressão deste tipo têm finais tristes. Esta questão não tem a ver, obviamente, com o natural e desejável incentivo dos pais para que os miúdos progridam.
Não tenho nenhum preconceito ou reserva contra os number one, antes pelo contrário, em muitos casos admiro as suas competências e realizações, apenas me preocupa o inferno em que se pode transformar a vida dos filhos de alguns number one, conheço situações desta natureza, vale a pena estar atento.

terça-feira, 20 de julho de 2010

BAIRROS SOCIAIS E COMUNIDADE

O I divulga um trabalho muito interessante, realizado pelo Instituto de Sociologia da Universidade do Porto, sobre os chamados bairros sociais da cidade onde vivem cerca de 50 000 pessoas, 20% da população quando a média nacional é de 4%.
Antes de umas notas sobre o trabalho um pormenor sobre o tão usado termo "bairros sociais" que acho engraçado. Um bairro é por definição uma estrutura social pelo que falar de bairros sociais implica a existência de bairros que não são sociais, ou seja, não seriam bairros. Mas como todos sabemos o significado atribuído a "bairro sociais" voltemos ao estudo.
O que é mais interessante, do meu ponto de vista, e eventualmente menos esperado, tanto que o jornal puxa esse dado para título é o facto de a maioria dos inquiridos residentes em bairros sociais não quererem de lá sair apesar de reconhecerem dificuldades e problemas como delinquência associada quase sempre a tráfico de droga. Os habitantes apresentam baixos níveis de escolaridade e índices significativos de desemprego.
O facto de a maioria das pessoas inquiridas não querem sair do bairro mostra, do meu ponto de vista, exactamente a característica social dos bairros, isto é, a promoção de um sentimento de comunidade e de pertença que para pessoas mais vulneráveis e com menos autonomia devido à baixa escolarização e qualificação profissional, constitui um bem de primeira necessidade. Muitas vezes, em diferentes circunstâncias, ouvimos pessoas residentes em bairro sociais problemáticos defender o bairro e apontar as causas dos problemas ao que vem de fora, sublinhando sempre que esmagadora maioria dos habitantes do bairro são muita boa gente. Também é importante salientar que este sentimento de comunidade e de pertença se alimenta das relações de vizinhança que ainda se estruturam nos bairros e que são uma mais valia num quadro de dificuldades.
O grande desafio que as políticas de urbanismo e habitação colocam é como criar e manter nos tempo que correm, estruturas e equipamentos residenciais que preservem e promovam relações de vizinhança, sentimento de comunidade e pertença, mas que se construam fora de um quadro de guetização fonte de problemas e discriminação.

AS PESSOAS SOL

Creio que a maioria de nós ao longo da narrativa que vai escrevendo já se cruzou com pessoas que, por uma razão ou por outra, ficam para sempre connosco.
Por vezes, acho que nem sabemos explicar porquê, apenas sentimos que são boas para nós, fazem-nos bem. Existe uma espécie de indizível razão, ou razões, para que isso aconteça. Chamo-lhes Pessoas Sol.
Apesar da banalidade da imagem, peço desculpa, quase sempre têm a enorme capacidade de tornar claro, de iluminar o mundo através dos seus olhos e das suas falas. São assim uma espécie de bússola ou, quando à distância, uma espécie de farol que baliza o rumo. Também funcionam como porto de abrigo a que voltamos quando as águas da vida andam mais turbulentas
São pessoas que sempre nos ocorrem quando o mundo pesa e pensamos, fazia-nos falta a Pessoa Sol. Acontece até que talvez nem precisassem de falar, basta que estivessem e o mundo pareceria melhor.
Tenho a certeza que as Pessoas Sol para conseguirem iluminar por fora, para fora, são iluminadas por dentro, são sábias, são mestres, são serenas. São tão sábias que são capazes de nos mostrar o que nunca viram.
Hoje, lembrei-me do meu pai e da minha avó Leonor, duas Pessoas Sol que me mostraram a minha estrada e há muito que cumpriram a sua.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

ESCOLAS GRANDES, PROBLEMAS MAIORES, RESULTADOS MENORES

Finalmente e felizmente. O Público de hoje aborda a questão da dimensão da escola e do seu impacto na qualidade do trabalho educativo de alunos e professores. Faltava este tipo de informação na opinião publicada sobre esta matéria.
Desde sempre aqui tenho defendido que apesar de ser necessária uma reorganização da rede escolar porque escolas de reduzidíssima dimensão, para além dos custos, não cumprem a sua função social com qualidade, seria absolutamente desejável que se não enveredasse pela criação de mega escolas ou mega agrupamentos. O ME estabelece como média os 1700 alunos e como limite os 3000. Estes números são completamente comprometedores da qualidade e, portanto, inaceitáveis.
De há muito que se sabe que um dos factores mais contributivos para o insucesso, absentismo e problemas de disciplina é o efectivo de escola. Não é certamente por acaso, ou por desperdício de recursos, que os melhores sistemas educativos, lá vem a Finlândia outra vez, e agora os Estados Unidos na luta pela requalificação da sua educação optam por estabelecimentos educativos que não ultrapassam a dimensão média de 500 alunos. Sabe-se, insisto, de há muito que o efectivo de escola está mais associado aos problemas que o efectivo de turma, ou seja, simplificando, é pior ter escolas muito grandes que turmas muito grandes.
É fundamental que a comunidade tenha consciência deste universo de modo a tentar travar o movimento de construção de autênticos barris de pólvora e contextos educativos que dificilmente promoverão sucesso e qualidade apesar do esforço de professores alunos, pais e funcionários.
Não conheço nenhuma justificação de natureza educativa que sustente a existência vantajosa de escolas para crianças e adolescentes com 1500 lugares ou mais. A razão para a sua criação só pode, pois, advir da vontade de controlo político do sistema, menos escolas envolvem menos directores ou de questões economicistas que a prazo se revelarão com custos altíssimos pela ineficácia e problemas que se levantarão.
Ainda iremos a tempo?