sábado, 11 de fevereiro de 2012

O COPO MEIO CHEIO OU O COPO MEIO VAZIO

Um dos aspectos invariavelmente envolvidos na realização de acções de protesto é a contabilidade em torno dos níveis de adesão, para uns o copo estará meio cheio, para outros estará meio vazio. As discrepâncias, de acordo com o posicionamento das fontes de informação, são extraordinárias. Lembram-se certamente de uma manifestação de trabalhadores da administração pública em 6 de Novembro de 2010, em que a organização estimou em 100 000 os participantes e um especialista americano que se encontrava em Lisboa avaliou a participação entre 8 000 e 10 000. Na altura lembro-me de ter escrito que não tendo estado presente e não tendo outras fontes de informação validada, só podia depreender que uma das avaliações estaria "ligeiramente" enganada.
Ainda antes de começarem a surgir os primeiros números da adesão à manifestação de hoje, poderemos certamente antecipar que, como é hábito, se instalará um consenso estranho, todos ganharam.
As estruturas representantes da administração e dos empregadores virão muito provavelmente afirmar que se registou um bom resultado pois a iniciativa não teve a adesão referida e ou esperada, pelo que fica evidente a aceitação ou, pelo menos, a compreensão das políticas seguidas e a bondade dos seus pontos de vista, etc.
Por outro lado, as estruturas representativas dos trabalhadores ou outros organizadores informam-nos que a adesão correspondeu às expectativas, que os trabalhadores, os cidadãos, mostraram o seu descontentamento, que o movimento sindical e a condenação das políticas obtiverm mais uma retumbante vitória, etc.
A questão é que esta discrepância, do meu ponto de vista, acaba por desvalorizar os efeitos da própria manifestação greve pois, como é sabido, muitos estudos têm vindo a demonstrá-lo, os níveis de cultura política, participação cívica, precariedade laboral, custos económicos, etc., levam a que uma percentagem muito significativa de pessoas que embora estando de acordo com a razão dos protestos não adiram à realização da greve. Há circunstâncias em que quando todos afirmam que ganham, todos estão a perder.
Para já estamos a perder o presente, as dificuldades que estão na origem do descontentamento das pessoas, das que aderem às manifestações de protesto e de muitas que não aderem, são graves e sérias.
E o risco de perdermos o futuro é também uma ameaça, os tempos estão difíceis e a desesperança é muita.
Creio que nesta altura a maioria de nós, presente ou não na manifestação, achará que o copo está meio vazio. Vão muito difíceis os tempos.

AUTONOMIA? Sim, mas a sério

De há muito que venho a defender, como boa parte das pessoas mais atentas ao universo da educação, que a autonomia das escolas é uma ferramenta indispensável ao seu desenvolvimento.
Apesar de alguns avanços verificados nas últimas décadas, o nosso sistema educativo permanece excessivamente centralizado, inibindo a necessidade de que as escolas possuam um quadro legal que sustente a sua organização, funcionamento e recursos adequados a especificidades contextuais que tornam as realidades educativas bem contrastadas. Continuam excessivamente dependentes de modelos de funcionamento centralizado que de uma forma geral as tratam como iguais. Por outro lado, existe ainda uma dispersão nos enquadramentos e tutela que dificultam uma gestão integrada e ajustada aos contextos. Para exemplificar esta dispersão, podemos referir o facto de que a tutela dos espaços e equipamentos educativos, apoios sociais e pessoal de apoio, até ao 1º ciclo, ser das autarquias, enquanto as mesmas competências para 2º, 3º ciclos e ensino secundário são do ME. No que respeita aos limites da autonomia, repare-se que apenas 10 % dos encargos de funcionamento das escolas e agrupamentos são da responsabilidade das respectivas direcções, tudo o resto é gerido de fora.
Neste quadro e tal como o Conselho Nacional de Educação tem vindo a afirmar é importante a promoção da autonomia das escolas que, aliás, tem sido também uma intenção presente nos discursos do Ministro Nuno Crato.
Assim, era com alguma expectativa que se aguardava a proposta do ME, agora conhecida, relativa novo modelo Autonomia, Administração e Gestão das Escolas.
Do meu ponto de vista, parece-me positivo um maior envolvimento da comunidade através do Conselho Geral, a importância da formação dos Directores e a sua avaliação pelos Conselhos Gerais, bem como a possibilidade cada escola determinar a sua organização em termos de departamentos curriculares e o envolvimento do corpo docente na definição dos seus responsáveis.
No entanto, parece-me importante caminhar de forma mais generalizada no sentido da maior autonomia em termos curriculares, dependente, de acordo com a proposta do ME, do estabelecimento de contratos de autonomia e ainda na autonomia na gestão e composição das suas equipas docentes e de outros técnicos, ou seja, uma maior responsabilização e autonomia em termos de gestão económica o que pressupõe a alteração dos modelos de financiamento.
Vamos a ver em que resulta o processo de discussão agora aberto.

TEMOS QUE SER MAIS EXIGENTES

Agora que parece ter assentado a poeira levantada pela intervenção de Passos Coelho em que se referiu à "pieguice" dos portugueses quero voltar a essa intervenção retomando uma outra afirmação baste menos referida no rescaldo mas bastante mais significativa do meu ponto de vista.
Passos Coelho afirmou a necessidade de sermos mais exigentes. Em absoluto acordo, vejamos alguns aspectos sem nenhuma ordem que não a da lembrança.
Temos a segunda maior taxa europeia de abandono escolar entre os 18 e os 24 anos. Temos de ser mais exigentes.
Temos a sétima mais baixa taxa de licenciados entre os 30 e os 34 anos e ainda se produzem discursos disparatados afirmando que temos licenciados a mais. Temos de ser mais exigentes.
Temos 2,7 milhões, um em cada cinco, portugueses em risco de pobreza ou exclusão. Temos de ser mais exigentes.
Temos uma obscena e gritante assimetria entre os mais ricos e os mais pobres que tem vindo a aumentar fruto das políticas de austeridade, como, aliás, reconhece um relatório recente da UE. Temos de ser mais exigentes.
Temos as duas maiores figuras do estado, Presidente da República e Presidente da Assembleia da República a optar por receber pensões de reforma em vez do salário correspondente salário da significativa função que desempenham e por uma óbvia razão, mais uns euros, o que é um desrespeito inaceitável pelas funções que exercem. Temos de ser mais exigentes.
Temos responsáveis políticos que despudoradamente produzem afirmações que insultam os portugueses que mais dificuldades atravessam. Temos de ser mais exigentes.
Temos uma escandalosa distribuição de lugares e tachos por um conjunto de pessoas cuja maior referência curricular é o cartão partidário que à época está em alta. Temos de ser mais exigentes.
Temos um sistema de justiça que agarra os pilha galinha e não incomoda o crime económico, a corrupção ou a fraude. Temos de ser mais exigentes.
Temos discursos políticos que assentam na promessa nunca cumprida, no cataventismo e no interesse da agenda política da partidocracia. Temos de ser mais exigentes.
Temos uma taxa de desemprego, designadamente entre os mais jovens, que inibe projectos e adia a esperança. Temos de ser mais exigentes.
Temos ... de ser mais exigentes. Estamos de acordo, Senhor Primeiro-ministro.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

PESSOAS EM BOM ESTADO PARA TODO O SERVIÇO. Vendem-se

Continua a ser estranhamente frequente, demasiado frequente, o surgimento de notícias relativas a situações de escravatura para trabalhos agrícolas em explorações espanholas que envolvem cidadãos portugueses. No Público de hoje é referido mais um episódio, por isso e porque esta é uma das matérias em que importa insistir e denunciar, retomo neste espaço algumas reflexões recorrentes.
O tráfico de seres humanos é, do meu ponto de vista, uma das questões que maior embaraço pode causar em sociedades actuais, a escravatura, algo de improvável no séc. XXI em países da Europa Ocidental.
Parece difícil de entender em comunidades tão abertas a regularidade das referências a situações de dezenas de portugueses, de pessoas, que são sequestradas e colocadas a trabalhar em estruturas agrícolas em Espanha. Como em todas as situações desta natureza, as autoridades estimam que os casos conhecidos sejam em número bastante inferior ao que na verdade se verifica. Sabemos também como no mundo inteiro o tráfico de pessoas se constitui como uma das áreas de mercado mais rentáveis, designadamente, no caso de mulheres para o universo da prostituição.
No entanto, a escravatura para trabalho agrícola parece algo “fora do tempo” e de impossível existência nos nossos países. Mas existe, e é sério o problema que, como não podia deixar de ser, atinge os mais vulneráveis.
Este negócio, o tráfico de pessoas, um dos mais florescentes e rentáveis em termos mundiais, alimenta-se da vulnerabilidade social, da pobreza e da exclusão o que, como sempre, recoloca a imperiosa necessidade de repensar modelos de desenvolvimento económico que promovam, de facto, o combate à pobreza e, caso evidente em Portugal, às escandalosas assimetrias na distribuição da riqueza. As circunstâncias que atravessamos potenciam, naturalmente, o risco e a vulnerabilidade.
As pessoas, muitas pessoas, apenas possuem como bem, a sua própria pessoa e o mercado aproveita tudo, por isso, compra e vende as pessoas dando-lhe a utilidade que as circunstâncias, a idade, e as necessidades de "consumo" exigirem. Até a dignidade é descartável e sem valor. A este quadro acresce, com frequência a ineficácia, fraqueza e morosidade da justiça hipotecando o efeito dissuasor que um cenário diferente poderia ter.
O que parece ainda mais inquietante é o manto de silêncio e negligência que muitas vezes cai sobre este drama tornando transparentes as situações, não as vemos.

O CHUMBO ESCOLAR. Serve para quê?

A divulgação do Relatório da OCDE "Equidade e Qualidade na Educação" vem mostrar, sem surpresa, que, apesar de algumas ligeiras diferenças, a educação em Portugal continua a merecer a maior atenção. Temos a terceira mais alta taxa, mais de 50%, de indivíduos entre os 25 e os 34 anos que não completaram o ensino secundário e cerca de 35% dos jovens até aos 15 anos já chumbou pelo menos uma vez.
No relatório pode ainda ler-se que o custo dos chumbos representa para Portugal 12% do orçamento para o funcionamento das escolas e que, de acordo com os especialistas, estando comprovada a ineficácia do chumbo, o caminho passa pela sua redução e pela definição de apoios e formas de organização e funcionamento ajustados o que requer docentes preparados e recursos adequados.
De facto, de há muito que os estudos internacionais também mostram que os alunos que começam a chumbar, tendem a continuar a chumbar, ou seja, a simples repetição do ano, não é, para muitos alunos, suficiente para os devolver ao sucesso o que pode constituir a base para um futuro de risco.
Há algum tempo o Público ouviu a Embaixada da Finlândia no sentido de perceber o residual nível de chumbos no seu sistema. O elemento ouvido referiu como bases do sucesso, “diagnóstico precoce de problemas e dispositivos de apoio a todos os alunos”, “orientação e aconselhamento a todos os alunos ao longo do ensino básico” assegurando “bem-estar físico, psicológico e social”. Por comparação ainda com o que se passa na Finlândia, em Portugal, apesar de muito boas práticas, frequentemente, não se procede ao “diagnóstico de dificuldades”, estabelece-se a impressão de que “se não aprende é porque não tem capacidades ou a família não funciona” pois não existem, na maioria das escolas, recursos qualificados e organizados de apoio educativo para este diagnóstico e consequente intervenção. Daí os planos de recuperação que a legislação prevê, serem, frequentemente, um enunciado de lugares comuns do tipo “dever ser assíduo” ou “deve fazer os trabalhos de casa”. Depois vem o “chumbo”, a seguir “mais do mesmo”, novo “chumbo”, e o aluno entra na estatística do insucesso e/ou abandono.
Nesta conformidade, a questão central, do meu ponto de vis, afirmo-o de há muito, não é o chumba, não chumba e quais os critérios (quantas disciplinas, por exemplo) é que tipo de apoio, que medidas e recursos devem estar disponíveis para alunos, professores e famílias de forma a evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo. É necessário diversificar percursos de formação com diferentes cargas académicas e finalizando sempre com formação profissional. A qualidade promove-se, é certo e deve sublinhar-se, com a avaliação rigorosa e regular das aprendizagens, naturalmente, mas também com a avaliação do trabalho dos professores, com a definição de currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio a alunos e professores eficazes e suficientes, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados de organização e funcionamento das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, etc.
Como é evidente este tipo de discurso não tem rigorosamente a ver com "facilitismo" e, muito menos, com melhoria "administrativa" das estatísticas da educação uma tentação a que nem sempre se resiste.

UMA TURMA INTERESSADA. Outro diálogo improvável

Bom, ficou percebida a resolução do problema?
Setôra, não se importa de repetir.
Tudo bem Tiago, repara que ... está certo?
Setôra, eu não percebi bem a parte do fim.
OK Maria, vamos lá ver ... ficou claro?
Setôra, agora estou baralhado pode explicar melhor.
Está difícil João, a questão é a seguinte ... Acho que agora toda a gente compreendeu.
Setôra, da primeira vez não explicou assim, agora não percebi bem.
Sónia, provavelmente estavas desatenta, é assim ... Agora não há dúvidas, espero.
Setôra, eu ainda não compreendi bem como é que a Setôra faz. Pode repetir.
...
...
...
...
Eu não entendo o que se passa aqui hoje, todos vocês têm dúvidas e eu não consigo avançar com a aula. Alguém me pode explicar a que se deve isto que eu nunca vi, uma turma inteira com dúvidas!? Sim Joana.
Setôra, os Setôres estão sempre a dizer para nós pormos as dúvidas porque é assim que se aprende e nós queremos aprender. Agora a gente põe as dúvidas e a Setôra diz que não consegue dar a aula. Como é que vamos fazer?

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O ACORDO E O DESACORDO. Agora o desacordo angolano

Pelos vistos a questão do Acordo Ortográfico reentrou decididamente na agenda. Ainda bem.
Depois da agitação decorrente da decisão de Vasco Graça Moura de suspender a sua utilização no CCB, surgiu a notícia sobre a ausência de posição institucional da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e hoje conhece-se a importante reflexão publicada no Jornal de Angola, o mais importante do país e cuja posição será de considerar seriamente. A opinião expressa é francamente desfavorável ao Acordo Ortográfico. Ainda bem, escrevo de novo.
Enquanto a questão não estiver definitivamente encerrada retomo, e retomarei, a minha breve e não técnica reflexão sobre o que me parece estar em causa.
Do que tenho lido ainda não me convenci da bondade do acordo. Entendo que as línguas são estruturas vivas, em mutação e isso é importante. Neste cenário, é clara a necessidade de ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma. Tem acontecido, aliás, em todas as latitudes onde se fala português como sublinha o texto do Jornal de Angola.
Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence pois não me parece que o inglês e o castelhano que têm algumas diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, experimentem particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for. De facto não tenho conhecimento da perturbação e do drama com origem nas diferenças entre o inglês escrito e falado na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas.
Por outro lado, a opinião dos especialistas não é consensual, longe disso, temos regularmente exemplos disso mesmo, e eu sou dos que entendem que em todas as matérias é importante conhecer a opinião de quem sabe.
Neste quadro e como sou teimoso vou continuar a escrever em desacordo até que o teclado me corrija. Nessa altura desinstalo o corrector que venha com o acordo e vou correr o risco de regressar à primária, ou seja, ver os meus textos com riscos vermelhos por baixo de algumas palavras, os erros.
Não é grave, errar é humano.

OS DESTRATOS DOS VELHOS

Com alguma regularidade vêm sendo noticiadas situações de maus tratos a idosos perpetrados por familiares, um exemplo das alterações significativas dos modelos de relacionamento social, sobretudo no que pode considerar-se como a percepção de traços de autoridade que inibem ou regulam comportamentos.
Há algum tempo, a imprensa referia que a linha telefónica do Cidadão Idoso da Provedoria de Justiça recebeu 2142 chamadas durante 2011. Destas chamadas, cerca de seis por cento estavam relacionadas com maus-tratos.
Também há alguns meses, um relatório da OMS identificava Portugal como um dos cinco países europeus, entre 53, em que os velhos sofrem mais maus-tratos. Cerca de 39,4% dos velhos sofrem alguma forma de maus-tratos, que envolvem, por exemplo. extorsão, abuso psicológico, físico ou negligência.
Quer no seio das famílias, quer em instituições, algumas encerradas compulsivamente, tal é a gravidade das situações, multiplicam-se as referências à forma inaceitável como os velhos estão a ser tratados. Começam por ser desconsiderados pelo sistema de segurança social que com pensões miseráveis, transforma os velhos em pobres, dependentes e envolvidos numa luta diária pela sobrevivência. Continua com um sistema de saúde que deixa muitos milhares de velhos dependentes de medicação e apoio sem médico de família. Em muitas circunstâncias, as famílias, seja pelos valores, seja pelas suas próprias dificuldades ou alterações nos estilos de vida, não se constituem como um porto de abrigo, sendo parte significativa do problema e não da solução.
Finalmente, as instituições, muitas delas, subordinam-se ao lucro e escudam-se numa insuficiente fiscalização além de que, com frequência, os equipamentos de qualidade são inacessíveis aos rendimentos de boa parte dos nossos velhos.
Lamentavelmente, boa parte dos velhos, sofreu para chegar a velho e sofre a velhice.
Não é um fim bonito para nenhuma narrativa.

POLÍTICA DE PLÁSTICO

Este episódio da troca de mimos entre o "sempre-em-pé" Santana Lopes e Fernando Rosas, durante um debate televisivo, é apenas um pequeno e irrelevante exemplo da "overdose" da chamada "análise política" que diariamente nos é servida.
Quando era miúdo, na escola, usava-se muito a expressão "procurar o sumo", no sentido de encontrar o essencial nos textos que nos eram dados a ler e a interpretar. Os professores bem insistiam connosco para nos tornarmos mais competentes na separação entre o essencial e o acessório ou, no jargão da escola, identificar as ideias principais do texto.
Actualmente, uma das críticas que recorrentemente se faz ao trabalho dos nossos alunos continua a ser a sua falta de competência na interpretação dos materiais que lêem.
Como é natural temos que trabalhar todos para que essas competências evoluam.
A grande questão é que o ambiente em que vivemos tem, do meu ponto de vista, vindo a dificultar progressivamente este trabalho de encontrar o essencial, o sumo.
Boa parte dos discursos políticos dirigem-se para questões completamente acessórias, de baixa política e marginais aos conteúdos que, de facto, precisam de reflexão e análise.
As supostas análises não passam, nas mais das vezes, de exercícios de propaganda dos interesses partidários ou de outras corporações.
De vez em quando, a coisa é animada por algum incidente mais crispado que compõe a espuma dos dias e que alimenta uns comentários como este que subscrevo, para além de uma volumosa abordagem on-line.
Entretanto, do lado de fora desta importante actividade, o comentário político, sobrevivem 2,7 milhões de portugueses em risco de pobreza e exclusão. Quase que aposto que boa parte deles nem se deu conta da importante troca de mimos entre Santana Lopes e Fernando Rosas.
Política de plástico.

UMA VISÃO PARA EUROPA

O presidente do Parlamento Europeu, o alemão Martin Schulz, criticou a aposta de Portugal nos investimentos angolanos considerando que, assim, “o futuro de Portugal é o declínio”. Independentemente da minha opinião pessoal sobre a questão angolana, parece-me que pode ser discutida a opinião do presidente do Parlamento Europeu.
Uma primeira nota para subscrever as preocupações genéricas manifestadas por Martin Schulz face aos caminhos que o modelo político e económico da União Europeia estão a tomar. Os tempos mais recentes são a evidência da falta de um projecto político assente na solidariedade e coesão política, económica e financeira.
No entanto, em termos mais específicos, creio que se justificam algumas notas. Começa a ser habitual que altos responsáveis alemães entendam por bem perorar sobre a política interna de outros países subscrevendo entendimentos ou propostas que começando com uma intrusão em assuntos internos, muitas vezes, comprometem a soberania dos países alvo das apreciações. Tem sido assim, designadamente com a Grécia e agora chegou a vez a Portugal. Como é evidente não está em causa a liberdade de opinião, está em causa o que representam estes discursos enunciados por responsáveis políticos de relevo.
Esta alta figura da União Europeia não expressou particulares preocupações com a coesão e o risco de declínio dos países mais pequenos em função do domínio do eixo franco-alemão nos destinos da UE. Os sucessivos planos de ajuda a países em dificuldade, um excelente negócio para a banca alemã, não parecem constituir uma preocupação para Martin Schulz. Expressa ainda uma preocupação com a coesão da Europa mas as políticas dominantes das efectivas lideranças europeias, Merkel e Sarkozy, não têm sido propriamente favoráveis a essa coesão e a voz dos responsáveis políticos da UE em Bruxelas não é muito ouvida. A agenda da Senhora Merkel, tal como agora a de Sarkozy, tem sido mais preenchida com as suas dificuldades internas, o que não é estranho, do que com a coesão da UE e o desenvolvimento dos países mais pequenos embora, provavelmente, à luz da "real politik" se tenha deslocado recentemente à China, certamente pelas mesmas razões que Passos Coelho foi a Angola, atrás do dinheiro como, aliás, Schulz afirma.
Este episódio é apenas mais um bom exemplo da ausência de um projecto europeu, com visão assente na coesão política, económica e financeira, servido por lideranças sólidas que saibam conciliar interesses nacionais com interesses europeus.

SER O MELHOR. Outro diálogo improvável

Fábio, não te importas, não saias ainda, queria falar contigo, é rápido.
Setôra, qual é a cena agora?
Ando preocupada contigo, o teu comportamento tem vindo a piorar. Sempre a fazer com que os teus colegas se distraiam, passas o tempo a desafiar as regras e os outros professores também se queixam, têm vindo falar comigo. Que se passa?
É verdade Setôra, estou a esforçar-me e agora já consigo porta-me mal bem melhor.
O quê? Já estás a conseguir portar-te pior e dizes que estás a ficar melhor a comportares-te dessa maneira. Não entendo.
Setôra, os Setôres dizem muitas vezes que nós temos de nos tornar melhores, ou até os melhores, fazendo o que sabemos fazer e melhorando no que fazemos. Acho que já estou bom a portar-me mal mas gostava de ser o melhor.
Nunca tinha ouvido coisa parecida, Fábio, consegues surpreender-me. Então queres ser o melhor no mau comportamento?
É onde posso ser bom Setôra, mesmo o melhor. Setôra, tenho más notas, não sou muito forte, as raparigas não me acham giro, não sou bom a fazer desporto nem nas outras coisas, só sou bom a fazer cenas na sala. Quase todos gostam de mim por fazer essa cenas, é fixe. Hei-de ser o melhor.
Fábio, isso tudo parece-me um disparate que não te vai ajudar em nada. Que achas tu que eu e os outros Professores devemos fazer.
Pois é Setôra, é um problema, eu preciso de me portar assim para que gostem de mim. Acho que os Setôres deviam perceber isso e ter paciência. A gente tem que se ajudar uns aos outros.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A INDIGNIDADE DA POBREZA E DA EXCLUSÃO

Existem notícias que por mais habituados que estejamos aos difíceis tempos que correm, conseguem ainda surpreender-nos ao mesmo tempo que se constituem como uma acusação que nos embaraça a todos. Os dados do Eurostat hoje conhecidos apontam para que, em 2010, mais de um quarto dos portugueses, 2,7 milhões, estava em risco de pobreza ou exclusão social em pelo menos uma das suas dimensões, risco de pobreza, situação de privação material grave ou, finalmente, a viver em agregados com uma intensidade de trabalho muito baixa.
Relembro que 2010 foi o Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão e o resultado está à vista, cerca de 2,7 milhões em risco em Portugal. Parece-me ainda oportuno recordar que recentemente também a Comissão Europeia publicou um relatório mostrando como as medidas de austeridade em Portugal estão a agravar as assimetrias sociais e, de forma extraordinária, o Primeiro-ministro já avisou que o caminho é o empobrecimento. Os números de 2011 e 2012 serão certamente mais graves.
Os dados do INE indiciam a maior vulnerabilidade ao risco de pobreza por parte de famílias monoparentais com mais de dois filhos, bem como os mais idosos, muitos a viver só. Creio ainda ser de relembrar o impacto que as situações de pobreza familiar têm na qualidade de vida dos miúdos e a ameaça que representam na construção de projectos de vida viáveis e bem sucedidos traduzidos, por exemplo, na desejável quebra do ciclo de pobreza.
Não é novidade o baixo impacto que políticas centradas quase que exclusivamente no subsídio, obviamente necessário em muitas circunstâncias, têm no combate à pobreza e exclusão uma vez que não atingem o aspecto essencial que é autonomia na produção de recursos que minimizem as dificuldades económicas.
É óbvio que grupos sociais como idosos exigem modelos e dispositivos de apoio social diferenciados de populações mais jovens e em idade produtiva. É certo que existem algumas iniciativas nesse âmbito como, por exemplo, a promoção de formação profissional no âmbito de programas de apoio.
Acontece, no entanto, que essa oferta é, por vezes, desfasada das necessidades e particularidades contextuais sendo ainda desvalorizada pelos próprios beneficiários que a encaram apenas como condição de acesso a apoios e não como oportunidades de desenvolvimento pessoal e reconstrução de projectos de vida. É pois fundamental que estas iniciativas sejam devidamente avaliadas e regulado o seu desenvolvimento.
Neste quadro importa ainda a coragem de, mais uma vez, ponderar os modelos de desenvolvimento económico e social, diminuir efectivamente o fosso intolerável entre os mais ricos e mas pobres, caminhar no sentido da construção de uma dimensão ética que seja reguladora da atribuição de privilégios incompreensíveis e obscenos para poucos e tolerância face a situações de exclusão extrema para bastantes outros.
Eu sei que escrever sobre estas questões em espaços desta natureza tem alcance zero, mas continuo convencido que é fundamental não deixar cair a preocupação com a pobreza e exclusão. Por isso, a insistência.

O ACORDO DO DESACORDO

Uma vez que acredito que a questão não estará definitivamente encerrada, retomo e retomarei o problema do Acordo Ortográfico que, depois da agitação decorrente da decisão de Vasco Graça Moura de suspender a sua utilização no CCB, regressa à agenda a propósito da ausência de posição institucional da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa referida no Público.
Assim retomo, repetindo, a minha breve e não técnica reflexão sobre o que me parece estar em causa.
Umas das vantagens de ser velho é poder ser teimoso e ter uma justificação para isso, a idade, toda a gente sabe como os velhos são teimosos. Do que tenho lido ainda não me convenci da bondade do acordo. Entendo que as línguas são estruturas vivas, em mutação e isso é importante. Neste cenário, é clara a necessidade de ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras o que não me parece susentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma.
Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence pois não me parece que o inglês e o castelhano que têm algumas diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, experimentem particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for. De facto não tenho conhecimento da perturbação e do drama com origem nas diferenças entre o inglês escrito e falado na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas.
Por outro lado, a opinião dos especialistas não é consensual, temos regularmente exemplos disso mesmo, e eu sou dos que entendem que em todas as matérias é importante conhecer a opinião de quem sabe.
Neste quadro e como sou teimoso vou continuar a escrever em desacordo até que o teclado me corrija. Nessa altura desinstalo o corrector que venha com o acordo e vou correr o risco de regressar à primária, ou seja, ver os meus textos com riscos vermelhos por baixo de algumas palavras, os erros.
Nessa altura, também não me importo, os velhos, além de teimosos têm coisas esquisitas.

NOVOS INDIGNADOS

A rapaziada das forças armadas anda alvoroçada. Ao que parece, a rapaziada do governo não os tem tratado muito bem. Estranho, deve ser o único grupo que se sente destratado. É claro que os diferentes grupos têm formas de manifestar o seu descontentamento que estão vedadas aos militares, a greve, por exemplo. É certo que os militares, entre outras regalias, têm tido acesso a serviços de saúde em condições que a generalidade dos cidadãos não tem. Será verdade, estou certo, que terão objectivamente razões para descontentamento mas não são os únicos nem, provavelmente, os que mais razões terão para se queixar. Sobre este universo de descontentamento já surgiram os discursos dos incontornáveis Otelo e Vasco Lourenço a deixarem avisos claro que a “malta militar pá, se for preciso, pá, tá aí pá e agita isto tudo, pá”. São dois especialistas em revoluções e que avisam, ser bom não esquecer que quem já fez uma revolução faz duas.
Agora a Associação dos Oficiais das Forças Armadas vem também avisar o Governo de que nada "os obriga a serem submissos". É assim mesmo, juntem-se aos indignados, sempre ouvi dizer que “com a tropa não se brinca”.
Recordo também um discurso recente de Ramalho Eanes que naquele seu jeito ágil e profundo consegue dizer que se está a “estar a criar uma situação que é insustentável até psicologicamente, porque os militares são indivíduos que têm determinados princípios e valores e um deles é cumprir com competência os trabalhos que lhes são entregues”.
É evidente que os civis, ou seja, o resto da população, é um pessoal que, provavelmente, não tem este hábito estranho e particular dos militares que é cumprir com competência os trabalhos que estão entregues. Será certamente para alimentar este espírito de competência exclusivo dos militares que as forças armadas portuguesas têm um número de oficiais superiores desproporcionalmente grande quando comparado com outros países.
De modo que já sabem senhores governantes, muito cuidado. A propósito, também não estou nada satisfeito com algumas políticas sectoriais. Senhores do governo, não se esqueçam que tenho uma fisga e estou descontente. E deixo aqui um aviso, nada me obriga a ser submisso, nem a mim nem aos outros milhões de cidadãos.
Vejam lá, vejam lá.

REUNIÃO DE PROFESSORES. Uma história improvável

Cláudio, agradecia que entregasses este bilhete à Directora de Turma.
Sim pai.

Eu, Mário Silva, na condição de encarregado de educação do aluno Cláudio Silva, venho convidar os Senhores Professores do 6º B, a turma do Cláudio, para uma Reunião a realizar na minha casa em data e hora da vossa conveniência. Sendo muito importante a presença dos pais e encarregados de educação nas Reuniões de Pais, também julgo importante a presença dos professores nas Reuniões de Professores para o bom andamento do processo educativo dos nossos educandos.
Proponho como Ordem de Trabalhos:
1) Informações - gostava de que percebessem as circunstâncias de vida do Cláudio para que melhor o possam ajudar e apoiar;
2) Articulação entre os Professores - parece-me necessário que todos os professores do 6º B tenham um entendimento próximo sobre as regras e comportamentos em sala de aula para que se evitem diferenças muito grandes entre o que é ou não permitido no funcionamento dos alunos e para que eu próprio melhor possa orientar o Cláudio;
3) Trabalhos de Casa - A quantidade de trabalhos de casa que em muitos dias o Cláudio traz para fazer são em excesso para o tempo que ele tem depois de chegar da escola;
4) Material escolar - Em muitas disciplinas é pedido material repetido e em quantidades que tornam difícil a situação, não só do ponto de vista económico mas também em termos de organização da mochila e até do peso que carregam.
Durante a reunião terei à disposição dos Senhores Professores um pequeno lanche que o Cláudio e a irmã prepararão.
Renovo o agradecimento antecipado pela vossa presença e disponibilidade.
Os meus cumprimentos,
Mário Silva, pai do Cláudio Silva.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A DEMOCRATIZAÇÃO DA TOLERÂNCIA

A tolerância é um bem precioso na vida das comunidades e uma das dimensões mais importantes da democracia. A luta pela democracia tem sido a luta pela tolerância.
É sempre um processo em aberto, tomando, cito Camões, novas qualidades. Agora discutimos a tolerância de ponto. O Governo numa intolerante decisão decidiu não conceder tolerância de ponto na terça feira de Carnaval aos funcionários da administração pública. O argumento, como vai sendo habitual, radica na produtividade o que traduz o equívoco de que a produtividade é exclusivamente consequência de mais trabalho e não de melhor trabalho.
Por outro lado, em muitos sectores levantou-se uma intolerante contestação à decisão do Governo. A argumentação radica nos direitos adquiridos, no “timing” da decisão e nos eventuais impactos económicos em regiões onde existe a indústria do Carnaval.
Como o povo costuma dizer, “Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”, nem tolerância acrescento eu. Numa outra abordagem, mais tolerante, poderíamos dizer que todos têm razão.
Acontece que, como era de prever, a tolerância é algo a que uns acedem outros não. O sector privado, boa parte dele, vai beneficiar da tolerância, está nos regulamentos e temos os supra-citados direitos adquiridos. Na administração surgem também excepções. Alberto João com a tolerância que o caracteriza já decidiu que na Madeira há tolerância, algo que ele nem precisava de dizer, nós conhecemos a tolerância existente na Pérola da Atlântico. Ao que se começa a saber também várias autarquias já decidiram ou vão decidir pela existência da tolerância.
Este processo, ele próprio já inscrito, na época carnavalesca é elucidativo. A tolerância não é para todos, é um bem precioso mas de difícil administração, até a tolerância de ponto.

FAZER AS COISAS CERTAS E FAZER CERTAS AS COISAS

Segundo um relatório da ONU, citado no JN, os jovens entendem que a escola os prepara mal para a entrada na vida activa. Na verdade, de uma forma geral e também entre nós, as dificuldades de entrada no mercado de trabalho são conhecidas e aumentaram significativamente na conjuntura actual. Algumas notas a este propósito.
No caso mais particular do nosso sistema educativo, depois de Abril de 74 instalou-se uma das mais generosas e ingénuas ideias que o tempo das utopias gerou, todos os indivíduos devem ter formação universitária. Esta ideia, de trágicas consequências, quis combater a marca de classe presente nas escolhas entre liceu e escolas industriais e comerciais e o baixo numero de pessoas que estudavam. O resultado foi criar um percurso que todos deveriam seguir e que só terminaria no fim do ensino superior universitário.
Com o aumento da escolaridade obrigatória e o aumento exponencial do número de alunos, começou a perceber-se o erro trágico de um só percurso, muitos alunos chumbavam e abandonavam saindo do sistema sem qualquer tipo de qualificação. Aliás, mesmo completando o ensino secundário, o 12º ano, as competências profissionais eram nulas, isto é, o 12º apenas ensinava, e mal, a continuar a estudar, coisa que entretanto era dificultada com a figura (lembram-se?) do "numerus clausus". Neste cenário, o aumento da escolaridade obrigatória para doze anos deve ser acompanhado com muita atenção.
A partir de certa altura, timidamente, começaram a surgir ofertas de vias profissionais que, por má explicação política, foram sobretudo entendidas como a estrada por onde vai quem não tem "jeito" ou competência para estudar. Neste contexto, famílias e alunos sentiram dificuldade em aderir a algo percebido como sendo de segunda. E o nível inaceitável de chumbos e abandono no secundário continuava a envergonhar-nos.
Nos últimos anos, temos finalmente assistido a uma significativa diferenciação da oferta educativa, sobretudo depois do 9º ano, e essa oferta começa agora, finalmente, a perceber-se como uma alternativa à continuação de estudos mais prolongada, o ensino superior politécnico ou universitário. A questão é que em muitas escolas esta oferta diversificada é ainda gerida de forma classista, ou seja, os bons alunos são os que se encaminham para os cursos gerais e os outros são encaminhados para os cursos profissionais que assim continuam percebidos como de segunda.
O nível de desenvolvimento das sociedades actuais exige níveis de qualificação profissional sem os quais o risco de exclusão social é enorme, sempre digo que a exclusão escolar é a primeira etapa da exclusão social. Assim, conseguir que os alunos, todos os alunos, cumpram a etapa escolar saindo com qualificações profissionais é o grande desafio que o nosso sistema educativo enfrenta e para cujo sucesso é fundamental a oferta de percursos formativos e de qualificação diferenciados mas sérios e com qualidade.
Não basta fazer as coisas certas, é também necessário fazer certas as coisas.

PODE ALGUÉM SER QUEM NÃO É

Um destes dias a professora Cláudia estava com ar cansado a olhar para a chávena do chá na sala de professores. O Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros foi meter-se com ela.
Então Cláudia a lida pesa?
Não Velho, mesmo quando pesa, e às vezes pesa muito, gosto da lida. Estava pensar no Miguel Costa.
Porquê?
Não sei o que hei-de fazer. É desatento, desorganizado, pouco trabalhador, não acaba as actividades, não sabe escrever conforme seria de esperar, não tem competências de estudo, enfim. Não o entendo.
Na verdade existem miúdos que não fica fácil entender, mas posso dizer-te uma coisa sem que te zangues comigo, Cláudia?
Claro Velho, porque haveria de me zangar contigo.
Achas que alguém pode ser quem não é?
Não entendo.
Quando falas do Miguel Costa só referiste o que ele não é, não disseste nada do que ele é. É por isso, também, que eu acho que não está a ser fácil entendê-lo. Quando estamos mais atentos ao que somos fica mais claro perceber o que é que não somos, ninguém pode ser quem não é. Quando percebemos o que sabemos fica mais claro o que não sabemos, só somos mais a partir do que somos e só sabemos mais a partir do que já sabemos.
Acho que vou ter que olhar de novo para o Miguel Costa.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

PIEGUICES

Passos Coelho numa intervenção de hoje pediu aos portugueses para "serem mais exigentes" e "menos piegas".
Gostava de relembrar algumas pieguices ao Primeiro-ministro. Segundo dados do IEFP, o número de casais em que ambos estão desempregados subiu em Dezembro 9,9 % e durante 2011 a subida foi de 49,9% o que é verdadeiramente significativo e preocupante.
É crescente o número de desempregados que não auferem subsídio de desemprego e que se estima em perto de meio milhão. Este número estará em crescimento pois começa a esgotar-se o período em que se usufrui de subsídio, entretanto encurtado, envolvendo as pessoas que caíram no desemprego a partir de 2009, o ano em que os aspectos mais gravosos da crise nos começaram a atingir. Acresce que os valores médios de subsídio de desemprego também estão a baixar.
Estima-se que cerca 200 000 pessoas já terão desistido de procurar emprego e já não constam dos números do desemprego. Estas pessoas inactivas, devido à idade ou à falta de habilitações e em situação de desesperança, aumentariam, se fossem contabilizadas, a taxa de desemprego para 15,5% sabendo-se ainda, dados recentes, que 84% dos jovens com menos de 25 anos estão desempregados e não têm subsídio.
Dois milhões de portugueses estão em risco de pobreza e as instituições de solidariedade social não conseguem responder ao volume crescente de pedidos de apoio.
Há dias noticiava-se que o Instituto de Segurança Social está sem dinheiro para atribuir subsídios eventuais a pessoas em situação de grave carência. Este tipo de apoio pode ser disponibilizado a quem tem um rendimento per capita inferior ao valor da pensão social, 189,52 euros.
Há pouco tempo o Primeiro-ministro e outros responsáveis convidaram professores e e outros profissionais desempregados a “abandonarem a sua zona de conforto” e a “procurarem emprego noutro sítio”.
A gente que cabe neste retrato são os piegas que irritam o Primeiro-ministro.
Mas numa coisa ele tem razão, os piegas são pouco exigentes. No que diz respeito a lideranças políticas é impressionante a falta de exigência.

AS CRIANÇAS ENTRE FAMÍLIAS

No DN de hoje uma peça referindo que muitos casais em processo de divórcio começam a procurar apoio para os problemas que eventualmente os filhos possam sentir com tal situação.
De facto, os números mais recentes sobre o universo familiar mostram o aumento do número de divórcios e, naturalmente, do número de crianças que, como costumo dizer, se encontram “entre famílias”, isto é, permanecem numa situação familiar com um dos progenitores e, em tempos variáveis, integram uma outra situação familiar com o outro progenitor.
O volume de opiniões sobre estas situações é extenso, oscilando entre considerações de natureza moral e/ou ética e um entendimento científico sobre a forma como as famílias e sobretudo as crianças e jovens lidam com as circunstâncias. Por mim, creio “apenas” que o(s) ambiente(s) familiar(es) deve ser suficientemente saudável para que a criança se organize também saudavelmente e faça o seu caminho sem uma excessiva preocupação geradora de ansiedade e insegurança em todos os envolvidos, miúdos e graúdos.
De há muito que defendo ser mais interessante para as crianças uma boa separação do que uma má família. No entanto, como sempre afirmo, há que estar atento e perceber os sinais que as crianças mostram e, na verdade, com alguma frequência, os pais estão tão centrados no seu próprio processo que podem negligenciar não intencionalmente a atenção aos miúdos. Pode ser necessário alguma forma de apoio externo mas sempre encarado de uma forma que se deseja serena e não culpabilizante.
A este propósito recordo uma pequena história optimista que há já algum tempo aqui deixei no Atenta Inquietude.
No último dia de aulas, a Ana foi à biblioteca da escola entregar um livro. Quando estava para sair, o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, disse-lhe adeus e desejou-lhe boas férias. A Ana riu-se.
Vão ser boas, Velho, vou ter duas férias.
Duas férias, Ana? Como é isso?
Primeiro, vou de férias com a minha mãe, com o amigo dela, o João, e com o Manel que é filho do João. Depois, vou de férias com o meu pai, a amiga dele, a Sara, e com o Tito que é o filho da Sara.
Estás contente?
Claro. Eles são todos fixes e a gente farta-se de brincar. Brinco mais do que brincava quando vivia com o pai e a mãe. Eles estavam sempre um bocado chateados e a gente não brincava muito. Já viste Velho, tinha uma família chata e agora tenho duas famílias mesmo fixes.
Sorte a tua, Ana, boas férias.

O IRRESPONSÁVEL DESPERDÍCIO

É certo que vivemos naquela terra onde acontecem coisas pelo que a capacidade de ficar perplexo é inesgotável.
O Público de hoje retoma uma questão que é um excelente exemplo de incompetência política. Apesar de em Outubro o presidente do Instituto Português do Sangue ter garantido que o assunto estaria resolvido, continua a verificar-se que boa parte do sangue que os cidadãos doam em Portugal é incinerado porque falta equipamento que permita processar plasma ou, em alternativa, trocar este produto por medicamentos derivados. Curiosamente, a imprescindível importação destes produtos custa cerca de 70 milhões de euros por ano. Não é fácil perceber porque não se justifica a aquisição do equipamento.
É difícil acreditar como a incompetência impune permite que situações destas se verifiquem quando são conhecidas as dificuldades que muitas vezes se colocam relativamente aos stocks de sangue e produtos deste universo disponíveis nas unidades hospitalares.
Como é evidente e habitual entre nós, ninguém será responsável técnica ou politicamente por esta situação.
Curiosamente, embora sem estranheza, lançam-se regularmente apelos aos cidadãos para que possam doar sangue. Legitimamente podemos interrogarmo-nos para quê, se parte dele vai para o lixo.
E assim se cumpre Portugal.

HISTÓRIA COM TEMPO

Era uma vez uma Professora. Era ainda nova e uma daquelas professoras que acreditava ter nascido para a profissão. Achava-a a mais bonita de todas. É certo que não gostava de muitas coisas que se passavam na escola e à sua volta, mas, ainda assim, seria a sua vida.
Naquele ano as coisas não estavam a correr muito bem. Pela primeira vez, tinha um grupo de meninos que estavam na escola pelo primeiro ano. De início ficou muito contente. Ia começar a ajudar os miúdos a ser gente logo desde o princípio de tudo. Preparou-se o melhor possível, com materiais e ideias, mas as dificuldades apareceram. Os miúdos falavam o tempo todo, não se aquietavam para trabalhar e a sala, invariavelmente, ficava bastante agitada. Sem se dar conta, percebeu depois, começou a gritar com os alunos como nunca tinha feito e, até, a ameaçá-los com castigos, procurando que se envolvessem nas tarefas que tão empenhadamente tinha preparado. Nada parecia mudar e o desconforto aumentava.
Um dia, quando buscava ajuda ou inspiração, encontrou o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, que a inquiriu sobre o ar desalentado de quem tanto gostava de ser professora. Depois de ouvir a sua história, contada com a cabeça, o coração e os olhos, o Professor Velho falou baixinho.
“Sabes Professora, há um tempo para tudo. Antes do tempo de aprender as coisas da escola, há o tempo de aprender a escola. Os miúdos precisam de um tempo para aprender quem são eles na escola, como é estar na escola. Precisam de te aprender, quem és tu, quem és tu com eles. Precisam de aprender o que é isso da escola, para que serve, como serve, etc. Só depois é que vem o tempo de aprender as coisas da escola, as que tens para lhes mostrar. Nessa altura, já sabem como gostas deles, de os ensinar, mesmo quando gritas e te zangas, e vão devolver-te, mais à frente, o tempo que lhes emprestaste de início. Hoje, queremos que os miúdos andem demasiado depressa, como nós.”
No dia a seguir, a Professora pediu a cada aluno que contasse aos outros a coisa mais bonita que já lhe tinha acontecido. Nunca os tinha visto tão tranquilos. A ouvir-se.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A QUEDA DE UM ANJO

Mais um episódio a acrescentar aos que regularmente vão acontecendo. Hoje aconteceu no Peso da Régua, uma criança tomba de um 9º andar e, milagrosamente, sobrevive, com ferimentos graves mas em situação estável e com bom prognóstico. Os que acreditam costumam dizer, "ao menino e ao borracho, põe Deus a mão por baixo". Às vezes não, as janelas, varandas, escadas ou piscinas, por exemplo, são um cenário muito ligado a episódios graves ou fatais para muitos miúdos, demais.
Continuamos a ser um dos países europeus em que acontecem maior número de acidentes domésticos com crianças. Nas mais das vezes verifica-se alguma negligência ou excesso de confiança da nossa parte, adultos, na vigilância dos miúdos a que se junta a inexperiência e o à vontade próprios dos mais pequenos.
A culpa que alguém pode carregar depois de episódios desta natureza será, creio, suficientemente forte para que deixemos de lado o aspecto da culpabilização que aqui nada acrescenta.
O que me parece importante sublinhar é que num tempo em que os discursos e as práticas sobre a protecção da criança estão sempre presentes, também se verifica um número altíssimo de acidentes, por vezes mortais, o que parece paradoxal. Por um lado, protegemos as crianças de forma que, do meu ponto de vista, me parece excessiva e por outro lado e em muitas circunstâncias, adoptamos atitudes e comportamentos altamente negligentes e facilitadoras de acidentes que, frequentemente, têm consequências trágicas.
E não vale a pena pensar que só acontece aos outros.

A COMUNICAÇÃO SOCIAL (alguma) E OS PODERES. Temos de ser uns para os outros

A entrevista de Judite de Sousa ao Público, designadamente o episódio da montagem das entrevistas com os banqueiros no sentido de pressionar o Primeiro-ministro Sócrates a pedir "ajuda" internacional, constitui mais um excelente exemplo da relação entre o poder, os poderes, e a comunicação social.
A relação de boa parte da classe política e dos líderes dos diferentes poderes existentes na nossas comunidades com a comunicação social tem aspectos muito interessantes, o recente caso na RDP foi apenas mais um episódio.
Se estivermos atentos, reparamos como todos se procuram servir da comunicação social para a defesa dos seus interesses pessoais, partidários, institucionais, económicos, etc. Nada de novo, sabemos o peso que a comunicação social tem nas sociedades actuais.
O que me parece particularmente irritante é a forma quase infantil, está um pouco na moda este tipo de infeliz comparação mas não resisto, como algumas figuras reagem ao ser abordadas sobre assuntos sobre os quais, por várias razões, não lhes interessa discorrer. Surgem então as afirmações patéticas, “não tenho nada a acrescentar”, “desculpem, não comento”, “não estou aqui para falar dessas matérias,” etc., etc. Desenvolvem assim uma espécie de surdez selectiva, só ouvem o que lhes convém, de mutismo selectivo, só falam do que lhes convém, de cognição selectiva, só conhecem o que lhes convém.
As mesmas figuras que directamente ou através de terceiros, lambem as botas às redacções e aos jornalistas (quanto mais influentes melhor) e pedem tempo de antena quando tal serve os seus diferentes interesses, como no caso a que Judite Sousa se prestou com os banqueiros.
Algumas dessas figuras quando, quase sempre fruto do alpinismo partidário, ascendem a alguma forma de poder conseguem ainda ir mais longe nessa relação com a imprensa, se não lhes agrada calam-na. É um método velho e intemporal.
Devo confessar que tal cenário é, para mim, profundamente irritante e patético, sinto que nos insultam, que nos consideram destituídos, como se por não abordarem as diferentes matérias, elas não se passassem ou não existissem ou, noutros processos, que somos manipulados de forma completamente imperceptível para nós.
Finalmente, incomoda-me uma comunicação social, boa parte dela, passiva e resignada que não confronta as figuras públicas com estes comportamentos, não os denuncia, e que acorrem solícitos quando essas figuras entendem que têm algo a dizer, as mais das vezes, irrelevante. Também lhes convém esta subserviência interesseira que alguns mantêm, também têm as suas agendas. Às vezes são recompensados.
Gente pequena e sem espinha, como dizia o meu pai, de um lado e de outro.

O "DARK SIDE" DA ECONOMIA

O presidente do Observatório de Economia e Gestão de Fraude, Carlos Pimenta, afirma que com a política de austeridade, a degradação da classe média e o agravamento das desigualdades sociais, vão aumentar as fraudes e a economia paralela.
A economia paralela representará em Portugal cerca de 24 % do PIB português, facto que não pode ser desligado da fraude e corrupção. Aliás, uma das imposições da "troika" é justamente a obrigatoriedade de existência a curto prazo de um plano contra a fraude e a evasão fiscal.
Neste universo parece de relembrar que, segundo o último relatório da Transparency International, Portugal é um dos 21 países em que existe "pouca ou nenhuma implementação" da Convenção anti-corrupção da OCDE. Considerando ainda os últimos indicadores do Barómetro Global da Corrupção, também no âmbito da Transparency International, 83% dos portugueses acham que piorou a questão da corrupção e 75% não acredita na eficácia do combate.
Este outro lado da economia que envolve desde a fuga de capitais para paraísos "off-shore", à habilidade individual da ausência de recibo no dia-a-dia, está completamente enraizado, é apenas uma questão de escala e as dificuldades resultantes da crise e dos aumentos de impostos potenciarão, muito provavelmente, esse lado paralelo da vida económica.
Este funcionamento quase que faz parte da nossa cultura, a do "dar um jeitinho", "fazer uma atençãozinha" ou arranjar “um esquema”. Com alguma regularidade aqui tenho me referido a esse "traço" da nossa cultura cívica "a atençãozinha" ou à sua variante "dar um jeito". Trata-se de um fenómeno, um comportamento generalizado e com o qual parecemos ter uma relação ambivalente, uma retórica de condenação, uma pontinha de inveja dos dividendos que se conseguem e a tentação quotidiana de receber ou providenciar uma "atençãozinha" ou pedir ou dar um jeito, sempre "desinteressadamente", é claro.
Por outro lado, o cidadão comum, nós, sentimos, creio, algo de muito significativo, não acreditamos que exista verdadeira vontade política de combater a corrupção apesar de algumas iniciativas recentes da AR neste domínio. A teia de interesses que ao longo de décadas se construiu envolvendo o poder político, a administração pública, central e autárquica, o poder económico, o poder cultural, a área da justiça e segurança, parte substantiva da comunicação social e muito do nosso funcionamento quotidiano, dificulta seriamente um combate eficaz e mudança cultural nesta matéria. Este combate passará, naturalmente, por meios e legislação adequada, mas passa sobretudo pela formação cívica que promova uma outra cidadania. Estarão lembrados que há alguns meses atrás foram divulgados estudos evidenciando a nossa atitude tolerante para com a corrupção.
Certamente que poderíamos viver o “esquema”, mas não era a mesma coisa.

JOVENS, PRECÁRIOS, IGNORANTES E POUCO SOLIDÁRIOS

Pois é, não está nada fácil ser jovem. Sabíamos que eram precários, que eram ignorantes e agora que não são solidários.
O Público de hoje refere um estudo interessante do Instituto de Ciências Sociais de que alguns dados me levam a umas notas breves.
Os jovens são o grupo que menos solidariedade revela face às dificuldades dos mais pobres, sendo que a seguir neste "ranking" de preocupação social, vem precisamente o grupo com menor estatuto social. Um outro dado que me merece referência é o facto de mais de metade, 58%, dos inquiridos não acreditar "que existam oportunidades para que pessoas de todas as origens sociais possam subir na vida".
Estes resultados remetem para um aspecto que várias vezes tenho referido no Atenta Inquietude e que designo como a dimensão de natureza psicológica e não tangível da crise.
Os jovens constituem o grupo etário mais afectado pelo desemprego e pela precariedade. São o grupo de desempregados mais desprotegido dos apoios sociais, creio que 85% dos jovens desempregados não têm subsídio de desemprego. Existem centenas de milhares de jovens em situação "nem, nem", não estudam nem trabalham. Acresce que são também o grupo etário mais qualificado e a qualificação que lhe venderam como passaporte seguro para um projecto de vida positivo não está a ser rentabilizada hipotecando sonhos e projectos.
Neste quadro, não me parece nada estranho a "falta de solidariedade" revelada no estudo, aliás coerente com o facto de o segundo grupo menos solidário ser justamente o grupo com menos estatuto social. Todos nós conhecemos as dramáticas e patéticas imagens televisivas de lutas de pobres por migalhas distribuídas.
A questão é que o modelo económico, social e cultural que estruturámos e a que chamamos "desenvolvido", produz um nível de competitividade fomentador de exclusão, pobreza e deterioração das relações sociais, produzindo "efeitos colaterais" como a falta de solidariedade.
Provavelmente, os mais solidários são os que vivem na sua "zona de conforto" para usar a expressão tão em moda, ou seja, têm recursos que asseguram um mínimo de qualidade de vida e valores menos "contaminados" pela indiferença motivada pela auto-centração nas suas próprias dificuldades, caso dos jovens e mais pobres.
Uma palavra final para a desesperança revelada e que já designei como o mais grave efeito não tangível da crise, o não acreditar, a desistência. Discursos inaceitáveis das lideranças políticas que temos vindo a ouvir nos últimos tempos alimentam, também, esta desesperança.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O CARNAVAL ANTES DO CARNAVAL

Sem estranheza face ao seu entendimento sobre as questões laborais, o Governo decidiu não conceder a habitual tolerância de ponto no Carnaval com a habitual justificação da produtividade que suporta também a abolição de quatro feriados. De novo algumas notas sobre esta matéria que me parece contaminada por alguns equívocos, sobretudo na ligação estabelecida com a produtividade, cujo incremento é necessário. Assim, retomo algumas notas.
Já aqui afirmei a este propósito que tenho a convicção de que o problema da produtividade é, fundamentalmente uma questão de melhor trabalho e não de mais trabalho. Aliás, algumas opiniões ouvem-se neste sentido e podemos reparar o que se passa noutros países com cargas de horário laboral semelhantes à nossa. Há semanas um relatório divulgado na imprensa permitiu constatar que no universo na União Europeia e, contrariamente a alguns entendimentos, a duração do trabalho em Portugal é a terceira mais elevada da Europa, repito, a terceira mais elevada da Europa, embora a competitividade e produtividade sejam das mais baixas.
Parece assim claro que a produtividade não decorre fundamentalmente do tempo de trabalho. Existem, tenho-o afirmado, factores menos considerados e que do meu ponto de vista desempenham um papel fundamental, a qualificação profissional, a organização do trabalho, a qualidade dos modelos de organização e funcionamento, no fundo, a qualidade das lideranças nos contextos profissionais. O nível de desperdício no esforço, nos meios e nos processos em alguns contextos laborais é extraordinariamente elevado. O relatório a que refiro sublinhava isso mesmo.
Relembro que os empregadores portugueses, sobretudo nas médias, pequenas e micro empresas, as que asseguram a grande fatia dos postos de trabalho, possuem um baixíssimo nível de qualificação em termos europeus, excepção feita, evidentemente, a alguns nichos.
Neste cenário, a decisão de aumentar o horário de trabalho, com redução de feriados, dias de férias ou a ausência de tolerância de ponto no Carnaval, não parecem ser, só por si, as soluções milagrosas de incremento da produtividade.
Parece-me bem mais potente um esforço concertado e consistente de apoio à modernização e formação dos empregadores e quadros do tecido empresarial do que baixar custos do trabalho pelo recurso simplista e “fácil” ao aumento da carga horária.

UM ATAQUE À CULTURA PORTUGUESA

Algumas horas depois de aplaudir uma atitude que, do meu ponto de vista, defende a nossa identidade, a suspensão da utilização da norma do Acordo Ortográfico nos serviços do CCB por decisão de Vasco Graça Moura, sou confrontado com um ataque muito sério à nossa cultura e identidade. A Câmara do Porto tem a intenção de alterar o seu Código Regulamentar e introduzir novas regras e coimas para ‘graffiti’ e cartazes. Como se já não fosse suficientemente grave, pretende ainda proibir uma das nossas marcas identitárias, cuspir para o chão e ainda, incompreensivelmente, urinar, fazer limpezas domésticas e lavar carros na via pública.
Francamente, não entendo o alcance destas medidas que só descaracterizam a nossa vida urbana e nos condenam a um cinzentismo bem comportado e sensaborão que alguns, erradamente, interpretam como desenvolvimento.
Imagino ainda que se esta atitude de destruição cultural tem seguidores, os danos podem ser catastróficos. Repararem o estado em que, por exemplo o Bairro Alto ou Santos, em Lisboa, ficariam se António Costa tivesse a fraqueza de seguir este triste e lamentável exemplo de Rui Rio.
Assim como Graça Moura resistiu ao Acordo Ortográfico, também nós, cidadãos comuns preocupados com a cultura portuguesa, temos que resistir e lançar um amplo movimento cívico contra a intenção da Câmara do Porto antes que se constitua um péssimo exemplo.
Como querem que nós vivamos em comunidade urbana se não podemos cuspir para o chão, fazemos o quê? Para o ar? Está tudo louco e tomado por uma espécie de fundamentalismo higiénico. Alguém é capaz de prescindir da sensação inultrapassável de aliviar uma aflição proveniente de uma noite de cerveja na soleira mal iluminada de um prédio? E do cheiro a humanidade, por assim dizer, que muitos espaços urbanos têm para oferecer?
Quem nos visitará quando formos iguais a todos os outros e perdermos as nossas características distintivas.
Aux armes, citoyens.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O DIREITO AOS AVÓS

Peço imensa desculpa de voltar a um tema que nas últimas semanas por diversas vezes aqui abordei. No entanto, a sua importância creio poder justificar um retorno. Refiro-me ao problema dos velhos que vivem sós.
De acordo com o Censos de 2011, cerca de 400 000 velhos vivem sós, mais 29% que há dez anos. Em termos mais globais, 1,2 milhões de idosos vivem sós ou com outros velhos.
Em muitas circunstâncias, as famílias, seja pelos valores, seja pelas suas próprias dificuldades e estilos de vida, não se constituem como um porto de abrigo, sendo parte significativa do problema e não da solução produzindo cada vez mais situações de solidão e isolamento entre os velhos, com consequências que têm feito manchetes, muitos velhos morrem de sozinhismo, de solidão. Estão em extinção as relações de vizinhança e a vivência comunitária, fontes privilegiadas de protecção dos mais velhos.
É certo que existe, felizmente, um pequeno número de idosos que além do apoio familiar, ainda possuem meios que lhes permitem aceder a bens e equipamentos que contribuem para uma desejável e merecida qualidade de vida no fim da sua estrada.
Uma hipótese de lidar com esta questão cada vez mais presente na medida em que assistimos ao envelhecimento e ao prolongamento da esperança de vida poderia ser, defendo-o frequentemente, a institucionalização do Direito aos Avós. Isto quer simplesmente dizer que todos os miúdos deveriam, obrigatoriamente, ter avós e que todos os velhos deveriam ter netos.
Num tempo em que milhares de miúdos estão sós e muitos velhos vão morrendo devagar de sozinhismo, qualquer partido verdadeiramente interessado nas pessoas, sentir-se ia obrigado a inscrever tal medida no seu programa ou, porque não, inscrevê-la nos direitos fundamentais.
Com tantas crianças abandonadas dentro de casa, institucionalizadas, mergulhadas na escola tempos infindos ou escondidas em ecrãs, ao mesmo tempo que os velhos estão emprateleirados em lares ou também abandonados em casa, isolados de tal forma que morrem sem que ninguém se dê conta, trata-se apenas de os juntar, seria uma espécie de dois em um. Creio que os benefícios para miúdos e velhos seriam extraordinários e alguns bons exemplos mostram isso mesmo.
Um avô ou uma avó, de preferência os dois, são bens de primeira necessidade para qualquer miúdo.

POBRES SEM DAR CONTA

O Primeiro-ministro, em extensa entrevista ao Sol que a restante imprensa também cita, afirma, "Já estamos pobres. Alguns é que não deram conta disso". No actual contexto parece-me claro o sentido da afirmação de Passos Coelho. No entanto, exactamente pelas mesmas razões, o contexto que atravessamos, esperava do Primeiro-ministro uma maior referência e atenção aos que "estão pobres e já se deram conta disso", são muitos e com muitas dificuldades.
Para refrescar a nossa memória alguma informação divulgada nos últimos tempos. O Instituto de Segurança Social está sem dinheiro para atribuir subsídios eventuais a pessoas em situação de grave carência. Este tipo de apoio pode ser disponibilizado a quem tem um rendimento per capita inferior ao valor da pensão social, 189,52 euros.
Há poucos dias, de acordo com o IEFP, soubemos que o número de casais em que ambos estão desempregados subiu em Dezembro 9,9 % e durante 2011 a subida foi de 49,9% o que é verdadeiramente significativo e preocupante.
Sabe-se também que é crescente o número de desempregados que não auferem subsídio de desemprego e que se estima em perto de meio milhão. Este número estará em crescimento pois começa a esgotar-se o período em que se usufrui de subsídio, entretanto encurtado, envolvendo as pessoas que caíram no desemprego a partir de 2009, o ano em que os aspectos mais gravosos da crise nos começaram a atingir. Acresce que os valores médios de subsídio de desemprego também estão a baixar.
Há tempos foram divulgados alguns dados referindo que cerca de 200 000 pessoas já terão desistido de procurar emprego, já não constam dos números do desemprego, e calcula-se que 84% dos jovens com menos de 25 anos estão desempregados e não têm subsídio.
É Senhor Primeiro Ministro, estas pessoas, muitas delas, estão a viver situações de pobreza e, dramaticamente, dão conta disso.
A União Europeia, em relatório recente, já afirmou que as medidas de austeridade tomadas em Portugal acentuam as assimetrias sociais e as medidas de austeridade são da responsabilidade das lideranças políticas.
Como afirmo frequentemente, a liderança que transforma é uma liderança com responsabilidade social e com sentido ético, dimensão em desuso nos tempos que correm. Não é raro assistir a discursos e afirmações que revelam uma insultuosa insensibilidade face às dificuldades das famílias.

DE ACORDO COM O DESACORDO DE VASCO GRAÇA MOURA

Na imprensa de hoje é notícia a decisão de Vasco Graça Moura mandar suspender a aplicação do Acordo Ortográfico nos serviços do Centro Cultural de Belém, incluindo a retirada dos correctores de texto instalados nos computadores da instituição.
Desde já saúdo a atitude de resistência. Não sei, as notícias são inconclusivas, quais as implicações legais desta decisão. No entanto, parece-me importante, significativa e corajosa. Da cultura espera-se também isso.
Do que tenho lido ainda não me convenci da bondade do Acordo Ortográfico a que nos obrigaram e que tanta oposição tem suscitado.
Entendo que as línguas são estruturas vivas, em mutação e isso é importante. No entanto, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, não me convenceu pois não me parece que o inglês e o castelhano que têm algumas diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, experimentem particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for. De facto não tenho conhecimento da perturbação e do drama com origem nas diferenças entre o inglês escrito e falado na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas.
Por outro lado, a opinião dos especialistas não é consensual, longe disso, e eu sou dos que entendem que em todas as matérias é importante conhecer a opinião de quem sabe.
Neste quadro e como sou teimoso vou continuar a escrever em desacordo até que o teclado me corrija. Nessa altura desinstalo o corrector que venha com o acordo e vou correr o risco de regressar à primária, ou seja, ver os meus textos com riscos vermelhos por baixo de algumas palavras, os erros.
Umas das vantagens de ser velho é poder ser teimoso e ter uma justificação para isso, a idade, toda a gente sabe como os velhos são teimosos.
Assim, quando começar a dar erros também não me importo, os velhos, além de teimosos, têm coisas esquisitas.

O FRIO OU A FALTA DE CALOR

Este texto vai ter de novo como tema o frio, ou melhor, a falta de calor. Estamos no tempo. Sempre que a temperatura começa a descer surgem as notícias, os alertas e as referências às mortes devido ao frio. Sem surpresa, estas situações trágicas atingem fundamentalmente os excluídos e pobres, designadamente os sem-abrigo. É então frequente, já começámos a assistir hoje, a peças na comunicação social em que se mostram as medidas acrescidas de apoio a alguns grupos que se consideram mais vulneráveis ao frio.
O problema é que esta gente não corre risco de vida por causa do frio, corre risco de vida por causa da falta de calor. Não, não estou a fazer alguma espécie de humor de mau gosto e desadequado. É mesmo isso.
Algumas pessoas vivem numa condição inaceitável e na grande maioria das vezes não é uma escolha sua. Faltou-lhes a partir de certa altura, ou nunca tiveram, o calor de uma casa, de uma família, de um trabalho que lhes desse sustento e dignidade que não mais conseguiram recuperar ou alcançar. O frio ou qualquer outro episódio extremo vai ser o gatilho que os tombará e constará na certidão de óbito. Mas não, não morrem de frio, morrem de falta de calor. Quando não se tem falta de calor, não se morre de frio.
Se assim não entendermos, e não me parece que queiramos entender, vamos continuar apenas atentos à meteorologia e a comunidade, no seu todo, é importante sublinhar que alguns esforçam-se para que assim não seja, nessa altura lembra-se dessa gente e do frio que estão sentir. Vai-se embora a onda de frio e tudo volta à normalidade, a uma estranha e intolerável normalidade.
Os do costume e novos do costume que os tempos difíceis vão produzindo, continuarão a sentir a falta de calor até que o frio volte.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

É O INVERNO, LEMBRAM-SE?

E pronto, já está aí mesmo a chegar a vaga de frio. Alinham-se reportagens e alertas. Alguns ainda tentam dizer que estamos em Fevereiro, talvez não seja estranho o frio mas não, não é frio, é uma vaga de frio polar e muitos alertas meteorológicos.
Como é evidente, as situações climáticas mais extremas causam sempre danos e, por vezes, tragédias, mas muitas pessoas sabem que os frios que trazem neve e geadas são imprescindíveis para garantir boas produções e qualidade na natureza nos meses de Primavera e Verão. Pela mesma razão, apesar dos inconvenientes das cheias, as pessoas que vivem no Ribatejo, por exemplo, sabem como as cheias no Tejo são importantes para a qualidade dos solos e sempre conviveram naturalmente com a subida do Tejo, a cheia normal, por assim dizer.
No fundo, é a mesma naturalidade com que as pessoas da Guarda e de Trás-os-Montes não se queixam do frio e afirmam a sua necessidade nas patéticas reportagens que as televisões fazem logo que a temperatura baixa um pouco mais como aliás já se viram hoje. Algumas pessoas a insistirem na normalidade e habituação ao tempo frio desta época e os repórteres aflitos à espera de algo que pudesse ser notícia. Confrangedor.
Curiosamente, as reportagens são iguais quando no Verão se dirigem ao Meu Alentejo para saber se as pessoas têm calor. As pessoas, como é evidente, dizem que têm calor mas o tempo por aquelas banda é mesmo assim o que obriga os desgraçados repórteres a uma verdadeira ginástica imaginativa para ter o calor de Verão no Alentejo como motivo de reportagem. Ainda no Meu Alentejo, lembro-me de uma vez me estar a queixar da muita chuva que caía já há uns dias e o Velho Marrafa com a sabedoria do costume dizer, "não tem dúvida, se a água cair agora, vamos tê-la no Verão".
Como é evidente, também podem ocorrer episódios mais violentos que trazem prejuízos e danos, às vezes pessoais, o que é naturalmente grave, o que exige meios e recursos de apoio.
Em todo o caso, estamos no Inverno. Será que nos desabituámos de viver um Inverno?

DESOCULTAR AS FACES

À medida que desfila aos nossos olhos o país político, o país social, o país económico, não consigo descrever com exactidão que sentimento me passa pela cabeça, vergonha, tristeza, revolta, indignação, indiferença resignada, etc. Provavelmente um pouco de tudo isto. Já não nos conseguimos surpreender com o que todos os dias nos entra em casa.
Do meu ponto de vista, já o tenho referido, a partidocracia que se instalou em Portugal levando a que os partidos, através dos respectivos aparelhos e consoante o calendário tomassem conta do país, minou dramaticamente a estrutura ética de uma democracia que estava ainda em maturação. A agenda dos partidos e os respectivos interesses, institucionais ou pessoais, sobrepõem-se despudoradamente ao bem comum.
Tal cenário não parece facilmente modificável pois, obviamente, os partidos capturaram o quadro normativo que regula a actividade política e, por isso, sendo parte do problema dificilmente serão parte da solução. Veja-se por exemplo a permanente e consistente falta de vontade política de promover o combate à corrupção. Finalmente, ao fim de muita deriva e retórica, consegiu-se algo no sentido de criminalizar o enriquecimento ilícito.
Os sucessivos casos que têm vindo a público, de que o processo designado Face Oculta que está em julgamento é um bom exemplo, serão a face visível de tudo isto. As faces ocultas, muitas mais do que as conhecidas, permanecerão isso mesmo, ocultas, mas com muitos rabos de fora em todos os patamares e áreas da nossa sociedade. Ao que a imprensa tem noticiado, um dos envolvidos e com mais responsabilidades pelas actividades em investigação, começou a depor e as consequências do seu depoimento já implicam a necessidade de protecção policial. Na verdade, desocultar as faces tem, pode ter, um preço elevado.
Oiço os politólogos, espécie em proliferação e já quase praga que se juntou aos tudólogos, perorarem sobre o mal-estar da democracia de vários ângulos e com análises sempre muito interessantes mas sempre, do meu ponto de vista, ao lado, como se costuma dizer. Seria necessário um movimento forte da sociedade não alinhada nos aparelhos partidários a exigir mudanças e compromissos éticos às lideranças. É necessário uma militância activa no combate aos vícios da partidocracia, denunciando, exigindo responsabilidades, a abstenção não chega. A imprensa teria aqui um papel fundamental, se parte dela não tivesse, ela também, um compromisso mais ou menos evidente com as agendas partidárias.
Quando penso que tudo isto já bateu no fundo, surge algo ainda pior. Quando começarão as faces a ser desocultadas?

A MAGIA DO FUTEBOL

A tragédia ocorrida no Egipto, num estádio de futebol, leva-me a algumas notas sobre este universo remetendo-as para o nosso país embora as questões que levanto não lhe sejam exclusivas, como o drama do Egipto demonstra.
Em primeiro lugar devo dizer que sou um apaixonado do futebol e praticante durante muitos anos, só uma lesão grave me privou de uma carreira notável que certamente acabaria em Itália ou Espanha.
É esta minha paixão pelo futebol que faz entender que o futebol português tem vindo de há vários anos a transformar-se num produto pouco recomendável e num cenário mal frequentado. O melhor do que existe no futebol português passa pelos os jogadores, quase todos, e pela bola, apesar dos pontapés que leva.
Os meandros do futebol e os interesses económicos que movimenta levaram à instalação de uma teia de compadrio, lavagem de imagem e interesses particulares e políticos que se instalou no dirigismo do futebol, clubes, Federação e Liga. Esta situação tem rostos e nomes, mas, como temos visto, não acontece nada a propósito de nada, há muito tempo. Temos uma imprensa desportiva e generalista subserviente e agradecida à protecção das “fontes privilegiadas” e contactos “certos” e temos, temos tido sempre, um poder político que se serve do futebol para almofada e para operações de duvidoso interesse mas que parecem agradar ao povo, veja-se a enormidade de gastos inúteis com os dez estádios do Euro 2004.
O que se passa em torno de algo normalíssimo, a rivalidade entre clubes de futebol, assume contornos cada vez mais graves com declarações absolutamente irresponsáveis e criminosas dos responsáveis clubistas. Ataques a espaços dos clubes, vandalismo na estrada, ataques e insultos a pessoas são a regra. Quando, esperemos que não, algo de mais grave suceder, o caso de ontem no Egipto é um pesadíssimo exemplo, virão todos com a hipocrisia do costume livrar-se de responsabilidades e assumir o papel de vítimas. Triste espectáculo.
Em nota final, felizmente ou infelizmente, acho que a maioria das pessoas que como eu têm a paixão do futebol e estão conscientes de tudo isto, de tudo isto se esquecem sempre que a sua equipa marca um golo.
Provavelmente reside aí, ainda, a magia do futebol.

A CULPA. Outros diálogos improváveis

A questão, como te digo, é que não percebo o que é que os professores do secundário fazem, como é que trabalham, os alunos chegam aqui à universidade sem saber como tratar informação, como estudar sem ser por um manual, querem tudo feito, não têm hábitos de pesquisa. Ficamos com a vida difícil com esta gente tão mal preparada.
...
A questão, como te digo, é que não percebo o que é que os professores do 3º e do 2º ciclo fazem, como é que trabalham, os alunos chegam aqui ao secundário sem ser capazes de alinhar duas ideias com autonomia, têm poucos hábitos de trabalho e organização, para não falar do comportamento, é claro. Ficamos com a vida difícil com esta gente tão mal preparada.
...
A questão, como te digo, é que não percebo o que é que os professores do 1º ciclo fazem, como é que trabalham, os alunos chegam aqui ao 5º ano, mal sabem escrever, de matemática é melhor não falar e o comportamento é uma desgraça. Ficamos com a vida difícil com esta gente tão mal preparada.
...
A questão, como te digo, é que não percebo o que é que as educadoras fazem no jardim de infância, como é que trabalham, os miúdos chegam aqui ao 1º ano, nem sentados a trabalhar são capazes de estar, não trazem regras, enfim, um problema. Ficamos com a vida difícil com esta gente tão mal preparada.
...
A questão, como te digo, é que não percebo o que é que os pais fazem , como é que educam os miúdos, chegam aqui ao jardim de infância, uns autênticos bebés, é só birras, são muito dependentes, não têm regras. Ficamos com a vida difícil com esta gente tão mal preparada.
...
A questão, como te digo, é que os nossos filhos, não são como nós éramos em pequenos, são diferentes, só fazem o que querem, não obedecem, uma chatice, são muito diferentes. Nós pais temos um vida bem mais complicada com os miúdos de hoje.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

NÃO DESESPERE DR. ISALTINO, A COISA HÁ-DE COMPOR-SE

É azar. Parece que coube ao Dr. Isaltino servir de “prova” de que a justiça funciona no Portugal dos Pequeninos. Mas ele que não desespere. O Tribunal da Relação de Lisboa já tinha rejeitado mais um recurso do Dr. Isaltino. Não tem problema, ele entregou um outro, de novo no Tribunal da Relação de Lisboa, o mesmo que rejeitou o anterior. Ficámos entretanto a saber que, adivinhem, isso mesmo, o Tribunal da Relação de Lisboa determinou que o Tribunal de Oeiras procedesse a nova apreciação. O Tribunal de Oeiras pronunciou-se anteontem, considera não ter havido prescrição mas, segundo o Público, não manda prender, "por ora", o Dr. Isaltino. Evidentemente que não está em causa a inocência do Dr. Isaltino, a questão é saber se os crimes, repito, os crimes por ele cometidos prescreveram ou não. Parece que não. Acontece alguma coisa? Parece que não.
É sabido que o Sr. Dr. Isaltino tem uma condenação decidida mas que ainda não transitou em julgado pelo que tem continuado a sua narrativa interpondo recursos atrás de recursos levando a que o processo se desenvolva através de uma série de manobras, recursos e outros expedientes que o nosso sistema de justiça tão minuciosa e eficazmente tem desenhado para quem dele se sabe aproveitar o possa fazer em seu benefício, pode acontecer, dizem alguns, que a coisa se prolongue mais uns tempos até à prescrição final. A titular da pasta da Justiça já tem assumido em público a despudorada utilização de manobras manhosas que mais não fazem que minar a justiça transformando-a numa espécie de administração da injustiça. Alguns titulares de cargos de responsabilidade na área da justiça também já afirmaram que a sentença decidida já deveria ter sido executada, mas calma, há sempre lugar a mais um recurso.
Tenho para mim que este caso virá a morrer por morte morrida, para usar as palavras de João Cabral de Melo Neto, ou seja, cairá por esgotamento. Assim, o Dr. Isaltino poderá ter uma reforma tranquila com a herança que receberá do sobrinho que tem na Suíça e os trocos miseráveis resultantes de uma vida dedicada à causa pública.
No meio do azar, coitado, até teve sorte, felizmente amealhou um bom pé-de-meia que nos tempos que correm não é coisa pouca.
A nós, só nos cabe o azar de ver como anda o Portugal dos Pequeninos.

TODOS BATEM NOS PROFESSORES

As notícias sobre agressões a professores, designadamente cometidas por encarregados de educação, vão chegando com alguma frequência à comunicação social. O Público noticia mais um caso, desta vez numa escola da zona de Gaia. Três familiares de uma aluna expulsa da sala de aula pelo professor de Matemática devido a comportamento incorrecto, esperaram-no e agrediram-no de forma grave.
De novo, algumas notas já aqui colocadas. Esta questão, embora, objecto de rápidos discursos de natureza populista e securitária, parece-me complexa e de análise pouco compatível com um espaço desta natureza. No entanto, umas breves notas em torno de três eixos: a imagem social dos professores, a mudança na percepção social dos traços de autoridade e o sentimento de impunidade, que me parecem fortemente ligados a este fenómeno.
Já aqui tenho referido que os ataques, intencionais ou não, à imagem dos professores, incluindo parte do discurso de responsáveis da tutela, algum do discurso produzido pelos próprios representantes dos professores e também o discurso que muitos opinadores profissionais, mais ou menos ignorantes, produzem sobre os professores e a escola, contribuíram para uma desvalorização significativa da imagem social dos professores, fragilizando-a seriamente aos olhos da comunidade educativa, designadamente de alunos e pais. Esta fragilização tem, do meu ponto de vista, graves e óbvias consequências, na relação dos professores com alunos e pais, sobretudo porque mina a atribuição de autoridade.
Em segundo lugar, tem vindo a mudar significativamente a percepção social do que poderemos chamar de traços de autoridade. Os professores, entre outras profissões, polícias ou médicos, por exemplo, eram percebidos, só pela sua condição de professores, como fontes de autoridade. Tal processo alterou-se, o facto de se ser professor, já não confere “autoridade” que iniba a utilização de comportamentos de agressão. O mesmo se passa, como referi, com outras profissões em que também, por razões deste tipo, aumentam as agressões a profissionais.
Finalmente, importa considerar, creio, o sentimento instalado em Portugal de que não acontece nada, faça-se o que se fizer. Este sentimento que atravessa toda a nossa sociedade e camadas sociais é devastador do ponto de vista de regulação dos comportamentos, ou seja, podemos fazer qualquer coisa porque não acontece nada, a “grandes” e a “pequenos”, mas sobretudo a grandes, o que aumenta a percepção de impunidade dos “pequenos”.
Considerando este quadro, creio que, independente de dispositivos de formação e apoio, com impacto quer preventivo quer na actuação em caso de conflito, obviamente úteis, o caminho essencial é a revalorização da função docente tarefa que exige o envolvimento de toda a comunidade e a retirada da educação da agenda da partidocracia para a recolocar como prioridade na agenda política. É ainda fundamental que se agilizem, ganhem eficácia e sejam divulgados os processos de punição e responsabilização séria dos casos verificados, o que contribuirá para combater, justamente, a ideia de impunidade.

ÉS O QUE TENS. Mesmo que seja a crédito

Na imprensa de hoje pode ler-se que a DECO registou em 2011 um aumento de 60% nos pedidos de ajuda relativos a situações de sobre endividamento das famílias.
É também conhecido o aumento exponencial de casos de falência de singulares, famílias. Estas situações devastadoras para milhares de agregados familiares, decorrem também, frequentemente, de cenários de sobre endividamento que as dificuldades actuais potenciaram, desemprego por exemplo, impedindo a regularização dos créditos.
Este cenário é, creio e já o tenho afirmado, um dos mais preocupantes sinais dos tempos, quer no que respeita a valores, quer no que respeita a dificuldades económicas.
As famílias em dificuldade que recorrem à DECO evidenciam frequentemente uma taxa de esforço cerca dos 90%, ou seja, ao receber 1000 €, 900 estão destinados ao pagamento de créditos e em média têm que gerir 8,6 créditos, um assombro. Como é óbvio, trata-se duma situação insustentável e mesmo com taxas de esforço mais baixas basta uma pequena perturbação ou algo de imprevisto, desemprego por exemplo, para que se rompa o equilíbrio e as famílias entrem em incumprimento, com as previsíveis e complicadas consequências. A DECO recomenda 40% como a taxa de esforço aceitável e prudente.
Parece-me claro que este cenário não decorre, como muitas vezes ouvimos, exclusivamente da situação de crise económica que atravessamos, embora ela na maioria das vezes seja o gatilho que a despoleta. Radica, do meu ponto de vista, nos modelos económicos e sistema de valores que nos envolvem.
Como já tenho referido no Atenta Inquietude, instalou-se a ideia de que "és o que tens". Bem podemos afirmar que cada um de nós não olha assim para a vida mas na verdade é difícil resistir à pressão para o consumo e para a ostentação de alguns bens ou estilos de vida que "atestem" como "somos" gente. É o crédito da casa, do carro, da mobília, das férias, do casamento do filho, do plasma, etc. etc. Tudo bens a que obrigatoriamente temos de aceder como prova de que somos gente, embora se verifique ainda o recurso ao crédito até para tratar questões de saúde.
Por outro lado, as instituições financeiras que concedem crédito estiveram durante demasiado tempo mais atentas aos seus próprios interesses que aos riscos das pessoas que a elas recorrem. Actualmente, revelam-se bastante mais selectivas e cautelosas devido à subida enorme do valor do crédito malparado e dos seus próprios custos de financiamento.
Este tipo de problemas é apenas mais um indicador de como se torna necessário repensar valores e modelos de organização e desenvolvimento. Eu sei que não é fácil e pode parecer ingénuo, mas se não falarmos e não nos inquietarmos com isto, então é que nada mudará. Nunca.