quarta-feira, 5 de outubro de 2022

DIA MUNDIAL DO PROFESSOR

 De acordo com o calendário das consciências, o 5 de Outubro é também o Dia Mundial do Professor e como habitualmente algumas notas e peço desculpa pela repetição, mas a realidade não é a projecção dos nossos desejos contrariamente ao que muita gente parece acreditar.

Não me lembro de nos últimos anos a classe docente estar tão presente na agenda. Os seus problemas e as consequências a curto e médio prazo são agora mais conhecidos e reconhecidos, sendo recorrentes a referência à preocupante falta de professores, o envelhecimento da classe, os níveis de cansaço e de exaustão emocional, a menor atracção dos mais jovens pela profissão associada a modelos de carreira, contratação e valorização pouco motivadores. Os professores passam por dispositivos de avaliação pouco transparentes e competentes que desmotivam, causam mal-estar e climas institucionais pouco amigáveis, para ser simpático na adjectivação.

Antecipa-se um caminho que transformará técnicos em professores, num processo questionável e preocupante de “desprofissionalização”.

Também é de registar que de uma forma geral continuam a merecer a confiança das comunidades.

Este quadro de um mal-estar reconhecido, não pode deixar de ter impacto, Como muitas vezes afirmo, crianças, enquanto grupo social, e professores, enquanto grupo profissional, constituem dois grupos nucleares nas sociedades contemporâneas. Os mais novos porque são o futuro e os professores porque, naturalmente, o preparam, tudo (quase) passa pela escola e pela educação. Entre nós, este entendimento ainda me parece mais justificado porque, devido a ajustamentos na organização social e familiar e, é minha convicção, devido a políticas públicas sociais e educativas inadequadas, os miúdos passam tempo excessivo na escola, alterando a dinâmica educativa familiar o que sobrevaloriza o papel da escola através dos professores.

Raramente a profissão professor tem estado tanto em foco como nos últimos anos bem como a necessidade de defender a qualidade da escola pública. Os tempos que vivemos sublinham uma questão e outra de forma crítica.

Múltiplas acções e decisões políticas, bem como alguma imprensa e "opinion makers" têm contribuído para degradar a sua função, fragilizar a sua imagem social e comprometer o clima e a qualidade do trabalho desenvolvido nas escolas apesar dos professores continuarem a ser uma das classes profissionais em que os portugueses mais confiam.

A atenção que tem estado centrada nos professores advém de boas e más razões. Não cabe aqui um balanço, e entendo que, tal como os miúdos, os professores não têm sempre razão, os discursos dos seus representantes são, por vezes parte do problema e não parte da solução e também sei que existem alguns professores que o não deviam ser. No entanto, a verdade é que a esmagadora maioria dos docentes são ... Professores, muito bons Professores.

Ser professor no ensino básico e secundário por razões conhecidas e por vezes esquecidas, é hoje uma tarefa de extrema dificuldade e exigência que social e politicamente justifica um reconhecimento e valorização frequentemente negligenciados. Acresce que é uma tarefa desempenhada por uma classe extremamente envelhecida e cansada como tem sido amplamente estudado e divulgado.

Por um momento, pensemos no que é ser professor em algumas escolas que décadas de incompetência na gestão urbanística, nas políticas sociais e consequente guetização social produziram.

Pensemos ainda na forma como milhares de professores cumprem a sua carreira, muitos deles sem a possibilidade de desenharem projectos de vida para si quando são os principais responsáveis por lançar projectos de vida para os miúdos com quem trabalham. Aliás, nos últimos anos, milhares de professores, de bons professores e professores necessários, foram constrangidos à reforma e muitos ao desemprego por uma política de contabilidade inimiga da educação pública e da qualidade.

Pensemos em como os professores são injustiçados nas apreciações de muita gente que no minuto a seguir a dizer uma qualquer ignorante barbaridade, vai numa espécie de exercício sadomasoquista entregar os filhos nas mãos daqueles que destrata, depreendendo-se assim que, ou quer mal aos filhos ou desconhece os professores e os seus problemas.

Pensemos como é imprescindível que a educação e os problemas dos professores não sejam objecto de luta política baixa e desrespeitadora dos interesses dos miúdos, mesmo por parte dos que se assumem como seus representantes.

Pensemos que a forma como os miúdos, pequenos e maiores, vêem e se relacionam com os professores está directamente ligada à forma como os adultos os vêem e os discursos que fazem.

Pensemos finalmente nos professores que nos ajudaram a chegar ao que hoje cada um de nós é, aqueles que carregamos bem guardadinhos na memória, pelas coisas boas, mas também pelas más, tudo contribuiu para sermos o que somos.

A valorização social e profissional dos professores em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade. A valorização e reconhecimento passa também pela necessidade de modelos de avaliação justos e transparentes que sustentem, reconheçam e promovam competência e empenho.

Gostava ainda de deixar uma ideia do enorme João dos Santos, “O Professor João, foi meu professor porque foi meu amigo” e uma convicção pessoal que a idade cada vez mais cimenta, qualquer professor ou educador, tanto ou mais do que aquilo que sabe, ensina aquilo que é. É da relação que tudo nasce numa sala de aula, qualquer que seja a configuração.

A verdade é que de todos os professores que connosco se cruzaram, os que mais nos marcaram positivamente foi sobretudo pelo que eram e menos pelo que nos ensinaram, por mais importante que seja.

terça-feira, 4 de outubro de 2022

QUALIFICAÇÃO, SALÁRIO E EMPREGO

 Retomemos o recente relatório da OCDE, “Education at a Glance 2022”. Em continuidade com estudos anteriores, em Portugal o nível de qualificação dos cidadãos que, registe-se, tem vindo a aumentar, reflecte-se positivamente no estatuto salarial e no emprego.

Considerando dados de 2020, as pessoas entre os 25 e os 64 anos com formação ao nível do secundário recebiam em média 25% a mais que os indivíduos que não ultrapassaram o 3º ciclo.

Se considerarmos a formação de nível superior, a diferença é mais do dobro e ligeiramente acima da média da OCDE.

No que respeita ao emprego, em 2021 a taxa de emprego na idade entre 25 e 34 era 14% mais alta relativamente a cidadãos como 3º ciclo e 5% face ao secundário. Esta diferença acentua-se no caso das mulheres.

Estes dados são mais um contributo uma questão que muitas vezes é tratada com alguns equívocos.

O primeiro, radica no discurso recorrentemente difundido, ampliado por alguma imprensa preguiçosa, de que, dada a enorme taxa de desemprego de jovens com qualificação superior, o investimento numa qualificação superior não compensa pois não existe mercado de trabalho, alguns empregos que surgem são precários e mal pagos e muita gente qualificada está a ser empurrada para fora por falta de futuro cá.

Um outro equívoco remete para o estatuto salarial. Apesar da política de proletarização do mercado de trabalho, da precariedade e do manhoso recurso a estágios, nem sempre remunerados ou seguidos de emprego, a formação superior ainda compensa.

É claro que não podemos esquecer o nível ainda significativo de desemprego entre os jovens, em particular entre os jovens com qualificação superior, obrigando tantos a partir à procura de um futuro que por cá não vislumbram, mas esta questão decorre do baixo nível de desenvolvimento do nosso mercado de trabalho, de circunstâncias conjunturais e de erradas políticas de emprego e não da sua qualificação.

Conseguir níveis de qualificação compensa sempre e é imprescindível. Estudar e conseguir qualificação de nível superior compensa ainda mais.

Portugal não tem gente qualificada a mais, tem é desenvolvimento a menos. Não podemos acolher a mensagem de que a qualificação não é uma mais-valia. É um tiro no pé.

No entanto, também neste relatório se constata que Portugal é um dos países que menos investe no ensino superior, ou seja, no futuro.

Com dados de 2019 e com o cálculo equiparado ao poder de compra, Portugal investe 11858 dólares por aluno no superior, sendo que a média na OCDE é de 17559. Só a Grécia e a Lituânia investem menos no espaço europeu.

Neste cenário, e conforme diferentes estudos comprovam, "Social and Economic Conditions of Student Life in Europe” é um exemplo, as famílias portuguesas são das que suportam uma fatia maior dos custos de frequência do superior sendo que ainda se verifica uma forte associação entre a frequência do ensino superior e nível de escolarização e estatuto económico das famílias. Este ano tem estado particularmente em foco a questão do alojamento para estudantes deslocados que atinge preços incomportáveis associados a uma oferta insuficiente.

Apesar de um abaixamento do valor as propinas no ensino público, as dificuldades sentidas por muitos estudantes do ensino superior e respectivas famílias, quer no sistema público, quer no sistema privado com valores bem mais altos de propinas, são, do meu ponto de vista, consideradas frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo pelo que ... quem não tem dinheiro não tem vícios.

A qualificação é a melhor forma de promover desenvolvimento e cidadania de qualidade pelo que apesar de ser um bem caro é imprescindível. E voltamos à questão do investimento.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

DESPESA OU INVESTIMENTO

 Foi divulgado o relatório da OCDE “Education at a Glance 2022” que, como sempre, merece alguma reflexão.

Considerando dados de 2019, apesar de alguma melhoria, e tendo como indicador o gasto por estudante entre o 1º ciclo e o ensino superior, Portugal investe menos que a média dos países da OCDE. No caso do ensino superior a diferença é ainda mais significativa. Em números, Portugal investe menos 1480€ que a média. Este valor é calculado de forma a considerar as “diferenças de rendimentos e de custo de vida entre países para possibilitar uma comparação”.

A realidade é, de facto, desafiante e não é a projecção dos nossos desejos ou o que afirmamos que é. Para além de repensar investimentos que surgem de fora da escola para a promoção de múltiplas iniciativas, projectos, experiências, inovação, etc., existem necessidades e de diferente natureza. Em alguns casos podem verificar-se resultados interessantes, mas que acabam por ter impacto limitado e pouco duradouro dada a natureza externa das iniciativas.

É fundamental que as escolas possam dispor dos recursos humanos, docentes, técnicos e auxiliares, de materiais e equipamentos adequados, bem como de dispositivos de apoio suficientes e qualificados para que se possa garantir, tanto quanto possível, a equidade de oportunidades e a protecção dos direitos dos miúdos, de todos os miúdos.

Sabemos, é uma referência comum, a existência de “constrangimentos” que pesam nos recursos disponíveis.

No entanto, mais uma vez e não esquecendo a necessidade de combater desperdício e ineficácia, é bom recordar que a qualidade da educação e a promoção do sucesso para todos os alunos não representam despesa, são investimento.

Os custos que envolverão serão certamente compensados pelos custos que pouparão em abandono e exclusão.

domingo, 2 de outubro de 2022

OS PAPAGAIOS DE PAPEL, LEMBRAM-SE?

 Há pouco saí de casa para dar uma volta aqui pelo bairro e ao passar numa zona relvada vi algo que creio já não ver há algum tempo, um gaiato tentava com a ajuda do pai fazer voar um papagaio. Como acho que frequentemente acontece com os velhos dei por mim a andar para trás no tempo.

Vejo poucas vezes miúdos nesta actividade apesar de os papagaios de agora se comprarem feitos, terem um ar sofisticado, cheio de cores, e de maior facilidade no voo como o do miúdo que vi. Talvez os miúdos gostassem de lançar papagaios e mesmo construí-los, como nós fazíamos e agora recordei.

Também foi com o meu pai que aprendi a fazer papagaios. Embora tenha feito alguns até com papel de jornal, os mais bonitos, também mais caros, levavam papel de seda às cores. Para a estrutura do papagaio era preciso ir a um canavial e escolher umas canas fininhas que cuidadosamente se abriam ao meio para que ficassem ainda mais leves. Com as canas e com fio de sapateiro, ia pedir umas pontas ao Sr. Fernando Sapateiro de quem aqui já falei, construía-se a estrutura do papagaio que podia ter diferentes formas. Depois vinha a parte mais difícil, colar as folhas de papel na estrutura do papagaio. Quando era tempo para isso, usávamos "cola de damasqueiro", uma cola excelente feita com umas secreções da casca dos damasqueiros que misturadas com água produziam uma cola de boa qualidade e muito importante, barata. Quando não era o tempo, recorríamos à velha cola de farinha, água misturada com farinha fazendo uma pasta que também era a mais usada para colar os cromos das colecções nas respectivas cadernetas.

O papagaio estava quase pronto, levava um rabo que ajudava a equilibrá-lo no ar feito com um cordel e laços de papel nele dispostos. Atava-se o papagaio no novelo de fio de nylon ou cordel, quando não havia o mais fino nylon, e lá íamos. Para lançar o papagaio eram precisos, pelo menos dois, um segurava no "aparelho" e o outro, sempre um companheiro rápido de pernas, a uns metros segurava a corda. Ao sinal, começava a corrida, o lançamento do papagaio que, devo dizer, nem sempre voava à primeira. Lá recomeçava o lançamento até conseguirmos aquela magia de ter o papagaio bem alto, cheio de cores a voar, horas.

E a gente voava com ele. Aquele miúdo que vi há pouco a segurar o papagaio lá no alto, também.

sábado, 1 de outubro de 2022

PÚBLICAS VIRTUDES, VÍCIOS PRIVADOS

 À semelhança do que acontece em muitos países, também a Igreja em Portugal se tem vindo a mostrar inaceitavelmente tolerante com casos comprovados de abusos sexuais de crianças ou adolescentes por parte de membros do clero ou de instituições sob sua tutela. As queixas e denúncias têm sido recorrentes como recorrentes são os arquivamentos por razões processuais e formais, não porque se tenha provado que não existiram abusos. Em alguns casos, no limite, a hierarquia da igreja “deslocalizou” os sacerdotes envolvidos mantendo-os em funções ou num discreto retiro sem qualquer procedimento mais significativo, .

Recordo que há já alguns anos o então bispo de Setúbal, D. Manuel Martins, afirmar que a Igreja está "atrasada" e não presta atenção às "transformações do mundo".

Na verdade, D. Manuel Martins tinha razão, a reconhecida perda de influência da Igreja, sobretudo nos países mais desenvolvidos, deve-se também ao seu imobilismo, à forma conservadora como não reage às óbvias mudanças sociais, políticas, económicas e culturais sustentando um progressivo afastamento da vida das pessoas, como reconhecia D. Manuel Martins e, acrescento eu, a comportamentos como os que tem adoptado face a sucessivas noticias de abusos por parte de membros do clero ou praticados em instituições religiosas marcado por encobrimento, compra do silêncio das vítimas e negligência. É verdade que foi criada a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa cujos resultados aguardamos.

Um dia, talvez a instituição Igreja aceite e perceba a necessidade de mudança no discurso sobre a anti-concepção, o casamento, o celibato dos padres, a abertura do sacerdócio às mulheres, a ostentação visível em parte da hierarquia da igreja, na necessidade de manter transparência e rigor face a comportamentos que para além do sofrimento das vítimas também acabam por penalizar a própria Igreja, etc.

Enquanto assim não for, talvez a simpatia e as boas intenções e dscursos do Papa Francisco não sejam suficiente para esbater uma ideia de “públicas virtudes, vícios privados” que não sendo, evidentemente, generalizável, também não pode ser tolerada.

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

VIOLÊNCIA ENTRE JOVENS

 Nos últimos dois dias registaram-se episódios de violência e agressão entre adolescentes e jovens. Considerando a gravidade, implicações e frequência (apesar dos episódios conhecidos serem apenas uma parte dos que ocorrem), parece-me sempre importante reflectir sobre eles o que me leva a retomar algumas notas.

Os comportamentos agressivos e abusos entre jovens em contexto escolar, bullying por exemplo, ou fora deles, na vida nocturna por exemplo, são de sempre ainda que os estudos destes fenómenos sejam mais recentes. Não sendo também um fenómeno recente importa considerar o impacto da acção de grupos de adolescentes e jovens, os "gangues", a que as redes sociais dão amplificação e também alimentam. O volume e a gravidade de alguns episódios e, sobretudo, a sua mediatização através das redes sociais acrescentam uma maior visibilidade e preocupação que tem sido expressa nos mais recentes relatórios sobre segurança.

Na verdade e com alguma inquietação, em vários estudos ultimamente realizados constata-se que os adolescentes tendem a encarar a violência entre si e de uma forma geral, como normal o que não surpreenderá os mais atentos. A sociedade da informação, os sistemas de valores e um lado B dos actuais estilos de vida a que podemos acrescentar alguns conteúdos de vídeo jogos ou séries banalizam a violência, não são os adolescentes que a banalizam embora não esteja a estabelecer relações de causa e efeito.  Acrescem os contributos advindo de problemas sociais sérios que exclusão, pobreza, ausência de projectos de vida, etc., alimentam.

Por outro lado, a escola e o meio circundante, por serem os espaços onde os adolescentes e jovens passam a maior parte do seu tempo são, naturalmente, os espaços onde emergem e se tornam visíveis os problemas e inquietações que muitos alunos carregam. No entanto, não é possível considerar-se que a escola é mágica e omnipotente pelo que tudo resolverá. Tudo pode envolver a escola, mas nem tudo é da exclusiva responsabilidade da escola, família e outros actores da comunidade devem assumir responsabilidades até porque muitos dos jovens participantes nestes episódios estão já fora da idade de cumprimento da escolaridade obrigatória.

No entanto, sem desresponsabilizar as famílias importa não esquecer que alguns pais se sentem tão perdidos quanto os filhos, têm elas próprias dificuldades e disfuncionalidades que são parte do problema e não da solução pelo que também elas precisam de apoio, só responsabilizá-las não chega.

No que respeita à violência entre jovens, um fenómeno complexo, existem ainda duas questões que me parecem essenciais e contributivas para lidar com a situação. Em primeiro lugar é importante criar nos adolescentes jovens ou adultos vitimizados a convicção de que se podem queixar e denunciar as situações e encontrar dispositivos de apoio que garantam a protecção da vítima pois o medo de represálias é o principal motivo da não apresentação da queixa, sobretudo entre os mais novos. É importante também que os actores da escola e da comunidade saibam detectar nos adolescentes e jovens alunos sinais que indiciem vitimização e mal-estar.

Em segundo lugar, é preciso contrariar no limite do possível a ideia de impunidade, de que não acontece nada ao agressor. As escolas, tal como a comunidade em geral, podem e devem assumir atitudes e discursos que, visivelmente, mostrem um sinal de que não existe tolerância para determinados comportamentos.

É também importante que famílias, escolas e demais instituições com intervenção social estejam atentas e que possam ser dotadas de dispositivos de apoio e recursos suficientes e competentes que permitam o desenvolvimento de iniciativas no plano da formação e apoio aos adolescentes e jovens, integrados ou não nos conteúdos curriculares, que, tanto quanto possível, minimizem o risco de incidentes como os que têm ocorrido.

Os discursos demagógicos e populistas não são um bom serviço prestado à minimização destes incidentes que minam a qualidade cívica da nossa vida.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

O LUXO DO DESPERDÍCIO

 Os tempos que vivemos são duros e torna-se difícil hierarquizar os problemas que afectam as comunidades. Talvez não seja o que mais frequentemente nos preocupa e faz reflectir, mas cumpre-se hoje o Dia Internacional da Consciencialização sobre Perdas e Desperdício Alimentar. É verdade, existe um dia para pensar no desperdício alimentar.

Recordo um trabalho de 2018 de Iva Pires, “Desperdício Alimentar”, divulgado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos no qual se estimava que cada família portuguesa desperdice 80 quilos de alimentos por ano, 1,5 Kg por semana.

A questão do desperdício alimentar, por cá e no mundo mais desenvolvido, não tem o destaque que se justificaria e, sobretudo, não parece abrandar. Num trabalho citado no The Guardian em 2016 lia-se que metade de toda a comida produzida nos EUA é deitada ao lixo.

Mais alguns dados. A Organização para a Alimentação e a Agricultura, da ONU, estima que 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos, um terço do que é produzido, são desperdiçadas com um custo de anual de 570 mil milhões de euros para a economia global, o suficiente para alimentar 925 milhões de pessoas. Vivemos num mundo estranho. Na Europa, até chegar ao consumidor perde-se entre 30 e 40% da comida, qualquer coisa como 179 quilos por habitante, 42% dos quais em casa.

O Projecto de Estudo e Reflexão sobre o Desperdício Alimentar (PERDA), desenvolvido pela Universidade Nova de Lisboa, conhecido em 2014, sugere que “no campo e no armazenamento, no sector da pecuária e nas pescas, todos os anos são desperdiçadas 332 mil toneladas de alimentos em Portugal, valor que ultrapassa o desperdício que é feito pelos próprios consumidores (324 mil toneladas de comida deitadas fora).

Somando as 77 mil toneladas perdidas na indústria que processa os alimentos, entre o campo e as fábricas, desperdiçam-se no total 409 mil toneladas por ano.”

Esta escala de valores no que respeita ao desperdício de alimentos é devastadora e, como por vezes se quer acreditar, não é coisa de gente rica, é coisa de toda a gente e mostra o quase tudo que está por fazer embora actualmente tenhamos em Portugal algumas iniciativas importantes no sentido de atenuar desperdícios.

Na verdade, o desperdício é um subproduto dos modelos de desenvolvimento e dos sistemas de valores que deveria merecer uma fortíssima atenção.

Há algum tempo, creio que em 2013, o Parlamento Europeu aprovou um relatório segundo o qual a União Europeia que tem 79 milhões de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza, 15,8% da população, e desperdiça anualmente cerca de metade do que consome em alimentos. Este desperdício corresponde a 89 mil milhões de toneladas, um assombro. Aliás, o Parlamento Europeu estabeleceu como objectivo reduzir em 50% o desperdício até 2025.

Neste quadro releva a necessidade urgente de ponderar os modelos de desenvolvimento económico e social, questionar o quadro de valores com que nos organizamos em comunidade, designadamente no que respeita ao consumo e aos excessos e combater desperdícios que também são consequência desses modelos.

Acresce que a perda e o desperdício de alimentos se repercutem significativamente na sustentabilidade dos recursos. O desperdício foi produzido com recursos, terra, água, trabalho, investimento que, obviamente, são inúteis e com sérios custos ambientais associados às alterações climáticas.

Escrever sobre estas questões em espaços desta natureza terá alcance zero, mas continuo convencido que é fundamental não deixar cair a preocupação, talvez seja melhor chamar-lhe a indignação, com a pobreza e exclusão para as quais os níveis de desperdício dão um forte contributo.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

COM UM BOCADINHO DE SORTE

 Com um bocadinho de sorte teria nascido numa família que o desejasse e onde não representasse um estorvo.

Com um bocadinho de sorte teria brincado quando foi a altura de brincar.

Com um bocadinho de sorte teria passado por uma escola que sentisse sua e onde acreditassem que era capaz.

Com um bocadinho de sorte teria encontrado os amigos certos que o não levassem por descaminhos.

Com um bocadinho de sorte teria encontrado alguém que gostasse dele e ficasse a seu lado.

Com um bocadinho de sorte não teria a vida, má e feia, em que mergulhou.

Com um bocadinho de sorte teria percebido que o consumo o consumiria.

Com um bocadinho de sorte não teria estado naquele momento, naquele sítio.

Com um bocadinho de sorte não teria acabado assim, ainda novo.

Com um bocadinho de sorte teria sido gente.

(…)

Tantos miúdos que nascem e crescem sem um bocadinho de sorte. Dizem que é destino ... ou fado. Será que não conseguimos contrariar o destino?

terça-feira, 27 de setembro de 2022

SAÚDE MENTAL E ESCOLA - UM NOVO PROGRAMA

 Em Maio, foram divulgados os resultados e conclusões do estudo “Saúde Psicológica e Bem-estar” promovido pelo Ministério da Educação que procura caracterizar a saúde mental e bem-estar de alunos e professores. O estudo envolveu 8.067 crianças e adolescentes do pré-escolar até ao 12.º ano e 1.457 professores e os dados divulgados causaram alguma inquietação como sinal de mal-estar.

Na altura escrevi umas notas que recupero bem como alguns dos dados.


A experiência abrupta dos períodos de confinamento total por que passaram milhões de crianças e adolescentes em todo o mundo com o encerramento de escolas e, praticamente, de todos os serviços da comunidade de que são utentes, não podia deixar de ter implicações no seu bem-estar.

Desde logo e naturalmente pelo impacto no seu trajecto educativo e de aprendizagem, mas também no seu bem-estar, na sua saúde mental. Aliás, também nos adultos é considerável este impacto como também se verificou nos docentes.

O confinamento a que foram sujeitos em contextos familiares em que nem sempre os factores de protecção equilibravam os factores de risco, sustentou mudanças no seu bem-estar e comportamentos e a emergência de quadros de risco que agora viajam na "mochila" que os alunos carregam para a escola.

De facto, têm sido múltiplos os estudos que referem esta questão, a deterioração da saúde mental de crianças e jovens, mas também de adultos, designadamente professores no quadro da pandemia e, no caso de docentes, de questões de natureza profissional. Os confinamentos a que se associaram os períodos de isolamento, a falta de rede social dos pares, as dificuldades de diversa ordem sentidas nos contextos familiares terão dado um contributo significativo. Os dados mais recentes acentuam a importância desta matéria.

Deste quadro resulta a necessidade e urgência de atenção à saúde mental de crianças e jovens ainda que habitualmente a saúde mental seja um parente pobre das políticas públicas de saúde.

Assim, é fundamental que as comunidades educativas tenham os recursos ou dispositivos de acesso a esses recursos que acomodem as situações de vulnerabilidade psicológica e mal-estar. As crianças e adolescentes com necessidades específicas estarão muito provavelmente em situação de risco acrescido.

Crianças e adolescentes são mais resistente do que por vezes parecem, felizmente. No entanto, como já tenho escrito, importa um ambiente sereno que tranquilize e apoie alunos, professores, pais e técnicos.

É preciso sublinhar os professores e todos os que estão nas escolas precisam dessa tranquilidade para que possam ter mais bem-estar e melhor ensinem, apoiem e aprendam.

Será bom não esquecer que, par além dos recursos existem circunstâncias de risco para os quais se exigem políticas públicas adequadas.

Contextos familiares vulneráveis são, por exemplo, uma ameaça ao bem e estar e saúde mental de crianças e adolescentes. No que respeita aos professores, as condições de carreira e avaliação, a instabilidade nos trajectos profissionais a desvalorização sentida pelos professores, a asfixia da burocracia, o clima de escola em algumas situações, são, entre outras razões, um forte contributo para um mal-estar que afecta muitos docentes.

Por todo este cenário é crítico que a recuperação no plano das aprendizagens estivesse associada a uma forte preocupação com a saúde mental de alunos e professores com os apoios e recursos necessários.

Ao que tem sido divulgado o Plano de Recuperação e Resiliência prevê um investimento nos serviços de saúde incluindo a saúde mental, a ver vamos.

Uma nota final para a sublinhar a importância de que os recursos e iniciativas a desenvolver integrem as escolas no âmbito da sua autonomia e não “apareçam” traduzidos numa imensidade de projectos e iniciativas vindas “de fora” como, lamentavelmente, é frequente.

Hoje, no Público, divulga-se uma iniciativa, “Ao teu lado - Programa de Promoção de Bem-estar Mental nas Escolas” que irá ser desenvolvido em mais de 100 estabelecimentos de ensino durante os próximos quatro anos envolvendo mil alunos entre os 12 e os 15 anos, 800 professores e 2015 famílias.

Tinha de ser, mais uma iniciativa, para algumas escolas.

Desta vez é financiada pela Z Zurich Foundation e num primeiro ano sensibilizará as comunidades escolares para a problemática e em seguida intervirá com alunos e professores.

A operacionalização do Programa será da responsabilidade da EPIS - Empresários Pela Inclusão Social numa parceria com a Unidade de Psicologia Clínica Cognitivo - Comportamental da Universidade de Coimbra. Existirá uma equipa de investigação que realizará uma avaliação do impacto e eficácia do programa para perceber se houve um efectivo aumento do bem-estar mental.

Sim, como cantava o Zeca Afonso, “seja bem-vindo, quem vier por bem”, e como é evidente, registo todas as iniciativas que possam contribuir para minimizar ou erradicar problemas, mas já me falta convicção no impacto do modelo mais habitualmente seguido.

Para cada constrangimento ou dificuldade percebida nas e pelas escolas e com regularidade, aparece vindo de fora ou gerido de fora, um Plano, um Projecto, um Programa, uma Iniciativa, as combinações são múltiplas, destinado a essa problemática.

Durante as últimas décadas, perco a conta a planos, projectos, programas, experiências inovadoras que chegaram às escolas para combater o insucesso ou, pela positiva, promover o sucesso, promover a leitura e escrita, promover a matemática, promover a educação científica, promover a educação inclusiva, erradicar ou minimizar o bullying, a relação entre escola e pais e encarregados de educação, promover a expressão artística e a criatividade, promover comportamentos saudáveis e actividades desportivas, literacia financeira, promover a inovação e as novas tecnologias, para não falar de iniciativas mais "alternativas", por assim dizer, e que têm poderes mágicos, parece.

Com demasiada frequência muitos destes projectos vêm de fora das escolas, as origens são variadas, não chegam a envolver a gente das escolas, esmagada pelo trabalho, burocracia e outros constrangimentos como, por exemplo, assegurar da melhor forma possível o dia-a-dia do trabalho educativo que tem de ser realizado.

Também com demasiada frequência muitos destes projectos morrem de “morta matada” ou de “morte morrida”, não são avaliados de forma robusta e dão umas fotografias ou vídeos que compõem o portfólio dos organizadores e proporcionam uma experiência que se deseja positiva aos intervenientes no tempo que durou, mas sem mais impacto.

Todavia, preciso de afirmar que muitos destes Planos, Projectos, Inovações, etc. dão origem a trabalhos notáveis que, também com frequência, não têm a divulgação e reconhecimento que todos os envolvidos mereceriam.

Também demasiadas vezes estas iniciativas consomem recursos com baixo retorno e ao serviço de múltiplas agendas.

Tenho para mim, que não podendo a escola responder a todas as questões que afectam quem nelas passa o dia poderia, ainda assim, fazer mais se os investimentos feitos no mundo à volta da escola e que lhe vem bater à porta com propostas fossem canalizados para as escolas.

Com real autonomia, com mais recursos e com modelos organizativos mais adequados as escolas poderiam fazer certamente mais e melhor que quem vem de fora numa passagem transitória, mais ou menos longa, mas transitória. Sim, tudo isto deveria ser objecto de escrutínio, regulação e avaliação também externa, naturalmente.

Escolas com mais auxiliares, auxiliares informados e formados podem ter um papel importante em diferentes domínios.

Directores de turma com mais tempo para os alunos e menos burocracia poderiam desenvolver trabalho útil em múltiplos aspectos do comportamento e da aprendizagem.

Psicólogos e outros técnicos em número mais adequado, o que se verifica é inaceitável, poderiam acompanhar, promover e desenvolver múltiplas acções de apoio a alunos, professores, técnicos e pais.

Mediadores que promovessem iniciativas no âmbito da relação entre escola, pais e comunidade seriam, a experiência mostra-o, um investimento com retorno.

São apenas alguns exemplos de respostas com resultados potenciais com um custo que talvez não seja superior aos custos de tantos Projectos, Planos, Programas ou Iniciativas Inovadoras destinadas a múltiplas matérias e com custos associados de “produção” que já me têm embaraçado, mas a verdade é que as agendas e o marketing têm custos.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

A MINHA ESCOLA É MELHOR QUE A TUA. OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL

 A minha escola é melhor que a tua, não tem repetentes.

A minha escola é melhor que a tua, também tem alunos com notas muito altas.

A minha escola é melhor que a tua, tem professores muito bons.

A minha escola é melhor que a tua, também tem professores fixes.

A minha escola é melhor que a tua, tem autocarros para nos ir buscar e levar para casa.

A minha escola é melhor que a tua, a gente pode ir a pé e diverte-se.

A minha escola é melhor que a tua, a gente porta-se bem.

A minha escola é melhor que a tua, a gente não tem farda.

A minha escola é melhor que a tua, não tem alunos esquisitos.

A minha escola é melhor que a tua, também tem alunos que são fixes.

A minha escola é melhor que a tua, tem montes de actividades para a gente fazer.

A minha escola é melhor que a tua, não tem montes de actividades para a gente fazer.

A minha escola é melhor que a tua, mas às vezes eu não gosto muito da minha escola.

A minha escola é melhor que a tua, mas às vezes eu também não gosto muito da minha escola.

domingo, 25 de setembro de 2022

AGORA O JARDIM DE INFÂNCIA A TEMPO INTEIRO

 O equívoco continua. Na imprensa de hoje divulga-se que o Governo pretende alargar o horário da educação pré-escolar pública que terminando agora às 15h, presumivelmente, se estenderá até às 17:30 como no 1º ciclo. A medida, assim como o almoço gratuito, estará inscrita no Plano de Acção da Garantia para a Infância.

Muitas crianças que frequentam a educação pré-escolar já estão no jardim de infância mais do que as cinco horas lectivas. As famílias recorrem, por necessidade ou opção, à frequência das Actividades de Animação e de Apoio à Família.

Não esqueço que os estilos de vida actuais colocam graves problemas às famílias para assegurarem a guarda das crianças em horários não escolares. A resposta tem sido prolongar a estadia dos miúdos nas instituições escolares radicando no equívoco que referi de início, o estabelecimento de uma visão de “Escola a tempo inteiro” em vez de “Educação a tempo inteiro”, agora na versão “Jardim de Infância a Tempo Inteiro”.

É preciso o maior dos esforços, espaços, equipamentos e recursos humanos qualificados para que se não transforme, agora o jardim de infância, numa “overdose” asfixiante para muitos miúdos e um clima pouco positivo de trabalho para todos profissionais que aí desempenham funções.

É verdade que sempre existirão boas práticas existem boas práticas neste universo, mas também conhecemos situações em que se verifica a dificuldade óbvia e esperada de encontrar recursos humanos com experiência e formação em trabalho não curricular com crianças a partir dos seis anos.

Reafirmo a consciência das enormes dificuldades que as famílias sentem na guarda das crianças em tempo não escolar. No entanto, não podem ser minimizadas basicamente com o recurso do prolongamento da estadia das crianças na escola, agora no jardim de infância.

A medida, ao que se lê, inscreve-se no Plano de Acção da Garantia para a Infância, mas seria mais ajustado que se considerasse a existência de um Plano de Acção de Garantia para a Família.

Neste Plano caberiam medidas integradas em política públicas de natureza social ou laboral que contribuam para que os tempos das famílias sejam mais amigáveis para os filhos, por exemplo o recurso ao teletrabalho ou a diferenciação nos horários de trabalho que em alguns sectores e profissões é possível.

Seria também de explorar a possibilidade de recorrer a outros serviços e equipamentos das comunidades, desportivos ou culturais, por exemplo, que respondessem às necessidades de crianças e jovens e não os manter na escola, a resposta mais fácil, mas com inconvenientes que me parecem claros. Aqui sim, parece-me importante o papel das autarquias.

Não podemos continuar a empurrar os miúdos para estadias nas instituições escolares que, com frequência, superam as horas de trabalho semanal definidas para adultos.

Não é uma fatalidade que tenhamos o cenário que se verifica, existem múltiplas possibilidades como se verifica em vários países.

sábado, 24 de setembro de 2022

OS DIAS DO ALENTEJO

 Nas duas últimas semanas chegaram as primeiras chuvas ao Alentejo. Por pouco não se cumpria a tradição de termos chuva na Feira d´Aires que se realiza este fim-de-semana neste canto alentejano.

Desde há muitos meses, demasiados meses, que tal não acontecia e o calor foi áspero. A terra gretada e desesperada por água agradeceu, já está a mudar de cor para um castanho mais escuro e amaciou. É uma terra milagrosa, uns dias de chuva e o pasto já está a nascer e vai ganharum verde que é vida e rapidamente irá tapar o castanho que ainda predomina.

Deu para fabricar um bom bocado de terra para começar a preparar a horta, o alho francês e as diferentes espécies de couve que compõem os pratos de Inverno já estão na terra. O cheiro da terra molhada a ser fabricada é redentor e assinala um novo começo. Seria desejável que este novo começo fosse mais amplo.

Também por esta altura é o tempo das nozes, a maior parte ficará apanhada esta semana. Algumas ainda não largam bem o involucro, têm um óleo que custa a sair da pele e nem sempre as luvas conseguem evitar umas mãos coloridas. Parecem boas, terão de secar um pouco e durarão até ao próximo ano.

E são assim os dias do Alentejo, agora menos completos, não temos o Mestre Marrafa aqui na lida com a gente.



sexta-feira, 23 de setembro de 2022

ESTUDAR, UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE ... MAS MUITO CARO

 Neste início de ano de lectivo registou-se no ensino superior o segundo maior contingente de alunos colocados o que é de sublinhar. No entanto, verificou-se que 10% dos alunos colocados não se inscreveram.

Este período também tem sido marcado pela enorme dificuldade criada no alojamento a alunos deslocados, designadamente, em Lisboa e Porto, mas não só. O cenário é de falta de oferta, o mercado turístico é mais atractivo, e pela exorbitância dos preços.

É também sabido que atravessamos um período muito duro para as famílias com impacto significativo em termos económicos pelo que podemos falar de “tempestade perfeita”.

Também sabemos que o abandono escolar no final do 1º ano no ensino superior aumentou em 20/21. Dos alunos que ingressaram num curso técnico superior, 24,4% tinham abandonado no final do primeiro ano face a 18,7% no ano anterior. Nas licenciaturas passou de 9,1% para 10,8%.

Todo este contexto vem mostrar que, apesar da qualificação ser um bem de primeira necessidade e um forte contributo para projectos de vida bem-sucedidos, existe uma questão de natureza estrutural, estudar no ensino superior é muito caro em Portugal. A recente alteração do regulamento de atribuição de bolsas não minimizou esta situação.

Algumas notas começando por alguns dados que já aqui tenho citado.

De acordo com Relatório do CNE, "Estado da Educação 2019", a percentagem de alunos que em Portugal acede a bolsas de estudo para o 1º ciclo está no segundo escalão mais baixo da análise, entre 10 e 24,9%. Para comparação, Irlanda, Países Baixos estão no intervalo entre 25% e 49,9% e a Suécia no superior a 75%. Países como Espanha, França, Reino Unido e muitos outros têm percentagens de alunos com apoio superiores a nós e, sem estranheza, também maior nível de qualificação.

Em 2018 foi divulgado um estudo já aqui citado, “O Custo dos Estudantes no Ensino Superior Português” da responsabilidade do Instituto de Educação da U. de Lisboa, relativo ao ano lectivo de 2015/2016 mostrando que cada estudante universitário gastou em média 6445€ em despesas como propinas, material escolar, alojamento ou alimentação. Os alunos de instituições universitárias privadas têm uma despesa perto dos 10000€ e nos politécnicos privados o custo será de 8296€. De facto, sendo a qualificação superior um bem de primeira necessidade para os cidadãos e para o país, é um bem muito caro, demasiado caro para muitas famílias e indivíduos.

Estudos comparativos internacionais, “Social and Economic Conditions of Student Life in Europe”, por exemplo, também mostram que as famílias portuguesas são das que suportam uma fatia maior dos custos de frequência do superior sendo que ainda se verifica uma forte associação entre a frequência do ensino superior e nível de escolarização e estatuto económico das famílias.

Apesar de um abaixamento do valor as propinas no ensino público, as dificuldades sentidas por muitos estudantes do ensino superior e respectivas famílias, quer no sistema público, quer no sistema privado com valores bem mais altos de propinas, são, do meu ponto de vista, consideradas frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo pelo que ... quem não tem dinheiro não tem vícios.

A qualificação é a melhor forma de promover desenvolvimento e cidadania de qualidade pelo que apesar de ser um bem caro é imprescindível.

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

EDUCAÇÃO E ESTABILIDADE

 Estão a decorrer negociações entre o ME e representantes dos professores com uma agenda bem pesada e com negociações que não serão fáceis quando se discutem modelos de colocação e recrutamento. Estarão ainda de fora outras questões centrais como modelo de carreira e avaliação para além do estatuto salarial.

Independentemente das opções que estarão em cima da mesa, incluindo o alargamento da autonomia das escolas, julgo que será imprescindível acautelar dimensões como transparência, regulação, escrutínio e justiça. São por demais os exemplos das portas que se abrem com decisões e procedimentos dificilmente aceitáveis à luz destes critérios.

Parece-me ainda essencial que a discussão tenha também como eixo crítico a estabilidade, a estabilidade das escolas e do seu corpo docente e, naturalmente, a estabilidade dos professores.

São muitos, demasiados, os professores que ao longo de muitos anos vão percorrendo o país em busca de alguma estabilidade profissional.

Esta instabilidade é vivida com custos severos do ponto de vista económico, muitos docentes mantêm duas residências, familiares, separação forçada de filhos e cônjuges e até, do meu ponto de vista, emocional com potenciais riscos no bem-estar e desempenho profissional. Esta é, seguramente, uma das razões para a baixa atractividade da profissão docente.

Este cenário releva, obviamente, de medidas de política educativa com erros de décadas e outros mais actuais. Por outro lado, o modelo de gestão da colocação de professores carece de óbvia alteração, designadamente, caminhando numa perspectiva de descentralização que acompanhe a necessária e regulada autonomia das escolas e promova estabilidade.

Muitos professores, alguns com muitos anos de experiência, vivem vidas adiadas, sem estabilidade, mantendo a dependência familiar ou adiando a vida familiar própria.

Parece também adiada a esperança e a confiança num futuro melhor.

Será que vamos desperdiçar, mais uma oportunidade?

A história não vos absolverá.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

PROFESSORES NOVOS, NOVOS PROFESSORES

 Nesta altura de início de ano lectivo multiplicam-se na imprensa as referências ao universo da educação. Boa parte delas tratam os problemas e inquietações em torno dos professores, justamente o grupo que tal como os alunos mais precisa de serenidade no seu trabalho.

No DN e a propósito do envelhecimento significativo e preocupante, mas previsível, da classe docente, encontra-se uma entrevista com David Erlich, professor de Filosofia que, com 33 anos, integra o grupo de 1,1% de professores com menos de 35 anos.

Gostei de ler a entrevista, merece reflexão, e devolve-nos algum esperança e optimismo. Também transmite alguma serenidade bem necessária a um universo atolado em burocracia e enredado em inúteis procuras de “nova escola”, “novos professores”, “novos paradigmas”, “projectos inovadores”, “iniciativas” “novas filosofias”, etc.

Sabemos que os velhos não sabem tudo e os novos nem sempre trazem novidade. Mas também sabemos que qualquer grupo profissional exige renovação por diferentes razões incluindo emocionais, de suporte, partilha de experiência ou pela diversidade.

Sabemos que os sistemas educativos com melhor desempenho são também os sistemas em que os professores são mais valorizados, reconhecidos e apoiados.

Parece clara a necessidade urgente de definir uma resposta oportuna e consistente a este trajecto.

Não parece difícil perceber porquê.

terça-feira, 20 de setembro de 2022

APRENDER A ANDAR DE "BINA" NA ESCOLA

 Com alguma curiosidade leio no Expresso que a partir deste mês 259 escolas públicas começarão a receber kits de bicicletas e capacetes no âmbito do Desporto Escolar sobre Rodas esperando-se que todas as escolas sejam abrangidas até 2024. Finalmente, algo que na educação anda sobre rodas.

Com a medida pretende-se que todos os alunos aprendam a andar de bicicleta até ao final do 6º ano e se promovam formas mais saudáveis de mobilidade apesar de contextos muito pouco amigáveis em muitas das nossas cidades e vilas.

Ainda que possa entender a iniciativa não deixo de achar alguma estranheza na ideia de ser a escola a ensinar a andar de bicicleta ainda que também defenda que “andar de bina” é uma aprendizagem essencial.

Como sempre, alguma competência que é julgada útil vai engordar o trabalho da escola restando saber até quando a escola aguentará o contínuo aumento de solicitações. É bom lembrar que a escola passa por tremendas dificuldades para assegura o que só a escola pode fazer, ensinar os alunos através do trabalho dos professores que … não chegam para as necessidades.

É verdade que os estilos de vida e rotinas diárias se alteraram, as crianças tendem a desenvolver outro tipo de actividades pelo que várias escolas e agrupamentos ou autarquias têm desenvolvido iniciativas no mesmo sentido.

Recordo que a Câmara de Torres Vedras desenvolveu há já algum tempo uma iniciativa, “Mini-Agostinhas”, que envolvendo numa 1ª fase alunos do 1º e 2º ano de três escolas fomentou a aprendizagem do andar de bicicleta. Como afirmava um professor envolvido, muitas crianças acedem primeiro ao “tablet” que à bicicleta.

Recupero ainda o que escrevi a propósito de uma iniciativa semelhante numa escola básica de Lisboa na qual, também de acordo um dos responsáveis, numa turma de 4º ano com 25 a alunos, 80% não sabia andar de “bina”.

A experiência de andar de bicicleta está de facto ausente da vida de muitas crianças. Por questões da segurança, a alteração da percepção de valores, equipamentos, brinquedos e actividades dos miúdos e, sobretudo, a mudança nos estilos de vida, o brincar e, sobretudo, o brincar na rua começa a ser raro.

Embora consciente de variáveis como risco, segurança e estilos de vida das famílias, creio que seria possível “devolver” os miúdos ao circular e brincar na rua, talvez com a supervisão de velhos que estão sós as comunidades. Seria muito bom que as famílias conseguissem alguns tempos e formas de ter as crianças fora das paredes de uma casa, escola, centro comercial, automóvel ou ecrã.

Quantas histórias e experiências muitos de nós carregam vindas do brincar e andar na rua e que contribuíram de formas diferentes para aquilo que somos e de que gostamos.

Como muitas vezes tenho escrito e afirmado, o eixo central da acção educativa, escolar ou familiar, é a autonomia, a capacidade e a competência para “tomar conta de si” como fala Almada Negreiros. A rua, a abertura, o espaço, o risco (controlado obviamente, os desafios, os limites, as experiências, são ferramentas fortíssimas de desenvolvimento e promoção dessa autonomia.

Curiosamente, se olharmos às nossas condições climatéricas, Portugal é um dos países com valores mais baixos no tempo dedicado a actividades de ar livre, situação com implicações menos positivas na qualidade de vida, nas suas várias dimensões, de miúdos e crescidos.

Talvez, devagarinho e com os riscos controlados, valesse a pena trazer os miúdos para a rua, mesmo que por pouco tempo e não todos os dias.

A notícia e as notas, que alinhei fizeram-me também recordar com imensa ternura e nostalgia a minha bicicleta de adolescente, lá muito para trás no tempo numa estória que já por aqui passou.

Tive a sorte de ter uma bicicleta desde gaiato pequeno, oferta de tios generosos, por isso sempre me habituei a bicicletas até porque foi o veículo de transporte familiar até à adolescência, altura em que o orçamento lá de casa possibilitou a aquisição de uma motorizada para a família e na qual todos se reviam embevecidos. É certo que continuávamos em duas rodas, mas sempre tinha motor.

Já mais crescido, a economia familiar tinha limites apertados e não chegava para uma bicicleta nova de roda 28 pelo que desenvolvi um empreendedor plano. Recolhia cobre de fios velhos de instalações eléctricas e latão, sobretudo dos casquilhos das lâmpadas, que trocava no ferro-velho do Gato Bravo por peças para a minha bicicleta. O quadro, as rodas, selim, o guiador, os travões, o dispositivo de iluminação com o dínamo na roda e a minha bicicleta foi crescendo, linda, através do que se poderia designar por um modelo pioneiro de “assembling”, com a ajuda sabedora e companheira do meu pai, um conhecedor de bicicletas e, sobretudo, um especialista em gente miúda. Não vos posso dizer a cor da minha bicicleta porque teve várias, era uma bicicleta personalizada.

De vez em quando, conseguia outro guiador, outro selim e a minha amada e invejada bicicleta sofria um “restyling” ou “tuning”, até mudanças ganhou. Grandes voltas percorremos nós, quase sempre com o Zé Padiola, tantas idas à Costa da Caparica e à Fonte da Telha, sempre por estradas que há quarenta anos ainda nos permitiam andar de bicicleta sem os riscos actuais.

É verdade que eu e ela também testámos o chão, mas éramos solidários e amigos, quando eu caía, ela acompanhava-me sem um queixume ou ponta de revolta.

Era uma diversão a sério. Que saudades da minha bicicleta e do tempo em que aprendíamos muito na rua.

Ainda agora, não tanto quanto queria, ando de bicicleta sempre com gozo, tal como o fazem os meus netos que já me fogem na "brasa", o Tomás, seis anos, diz que é por causa das mudanças. Eu sei, Tomás, é mesmo uma questão de mudanças, as que a idade traz, por exemplo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

OS FARDOS QUE AS CRIANÇAS CARREGAM

 Muito provavelmente esta não será uma questão importante embora seja uma questão de peso e que deveria merecer alguma atenção. Refiro-me ao excesso de peso que muitas crianças e adolescentes carregam nas mochilas.

Em 2017, na sequência de uma petição subscrita por mais de 50000 cidadãos, foi aprovada no Parlamento uma recomendação sobre esta questão e em 2017 o ME divulgou um conjunto de recomendações sob a designação “Mochila Leve” relativas ao excesso de peso que muitos crianças e adolescentes carregam nas mochilas. A campanha iniciada tem como designação “Mochila Leve”.

Nessas recomendações contemplavam-me medidas como o estabelecimento de dispositivo de homologação das mochilas e das condições ergonómicas mais adequadas, a definição de salas fixas para cada turma, para evitar que as crianças tenham de carregar as mochilas durante os intervalos, a instalação de cacifos, a possibilidade dos materiais escritos, manuais, por exemplo, livros serem produzidos com um papel com uma gramagem mais leve ou a utilização gradual dos recursos digitais que também se estavam incluídas na recomendação do Parlamento.

Os anos da pandemia viraram do avesso o mundo da escola que parece recuperar agora as suas rotinas, ainda que não a sua tranquilidade.

Eu sei que nem toda gente concorda que a vida de muitos miúdos se traduz num fardo bem pesado, mas a verdade é que diferentes estudos sugerem que cerca de sete em cada dez crianças transportam às costas um peso superior ao aconselhado pela OMS, 10% do seu peso corporal.

Como é óbvio, pelas suas implicações e riscos, imediatos e a prazo, para a saúde dos miúdos, esta questão deve merecer a atenção de pais e educadores no sentido de a minimizar, embora, por outro lado, o seu transporte configure um exercício físico que minimiza a ausência de espaços e equipamentos adequados em muitas das nossas escolas e combate uma infância sedentarizada, a troco, é certo, de uma coluna castigada. Nada é perfeito, dir-se-á com algum cinismo.

No entanto, aproveitando o espaço e o tempo de reflexão, talvez também fosse útil olhar de uma forma mais alargada para o peso excessivo que muitas crianças carregam nas suas costas.

As mochilas escolares serão apenas um dos carregos, por assim dizer, mas existem outros que temo ficarem fora deste conjunto de recomendações e nas quais insisto.

Estou a pensar no peso da pressão para que sejam excelentes.

Estou a pensar no peso da pressão para que sejam o que não são e da pressão para que não sejam o que são.

Estou a pensar no peso da pressão de viver demasiado só.

Estou a pensar no peso da pressão que leva a que, por vezes, só gritando e agitando-se se façam ouvir.

Estou a pensar no peso da pressão de não conhecer o caminho e sentir-se perdido.

Estou a pensar no peso da pressão de actividades sem fim e, às vezes, sem sentido.

Estou a pensar no peso da pressão do depressa e bem.

Estou a pensar no peso da pressão para sejam diferentes e na pressão para que sejam iguais.

Estou a pensar na pressão da exclusão e do insucesso.

Estou a pensar na pressão dos que são vitimizados por outros que também sendo vítimas se escondem na agressão.

Estou a pensar no peso da pressão causada por famílias demasiado distantes ou por famílias demasiado próximas ou ainda por famílias ausentes.

Na verdade, há miúdos que carregam o mundo às costas. Entende-se as preocupações dos professores, pediatras, psicólogos, ortopedistas, outros especialistas e de muitos de nós com a coluna dos miúdos.

Não, não é uma visão romântica ou “eduquesa”, seja lá isso o que for, trata-se do bem-estar de crianças e adolescentes.

domingo, 18 de setembro de 2022

DOS DOCENTES CONTRATADOS

 O CM retoma com colocação em primeira página a ausência de resposta do Ministério da Educação à Comissão Europeia sobre a regularização da progressão salarial dos professores contratados a que estava obrigado por uma directiva de 1999 que deveria ter sido transposta em 2001.

A Comissão abriu um procedimento por infracção contra Portugal em Novembro a que o Ministério deveria responder até 5 de Setembro.

A questão deve-se a que os professores contratados não têm o seu salário actualizado anualmente, mantendo-se inalterado e significativamente abaixo vencimento dos seus colegas que integram os quadros. Esta situação afecta milhares de professores com muitos anos de serviço e que não têm conseguido aceder aos quadros em virtude das opções erradas em matéria de política educativa. Esta situação não é a única razão, mas faz parte do conjunto de dimensões que alimentam o cenário que vivemos de falta de docentes e pouca atracção pela profissão.

No dia 9 o Ministro da Educação, sem adiantar quando responderia à Comissão, afirmou, lê-se no JN, que o processo ainda está na fase de “direito de oposição”, “Ainda estamos no diálogo jurídico-legal com a Comissão Europeia”. Como?

“Direito de oposição” a quê? A que um professor veja o seu salário progredir a cada ano de trabalho tal como acontece aos seus colegas?

“Diálogo jurídico-legal”?!

Não senhor Ministro, esta questão não é um problema jurídico-legal, é um problema de ética, de seriedade institucional, de justiça moral e zelo, de equidade, de respeito por profissionais e pelo seu trabalho, pela ordem que lhe parecer.

Gerir esta questão com base nas habilidades processuais jurídicas é inaceitável e ajuda a perceber a forma e a cultura com que o Ministério da Educação tem tratado os professores.

Importa sublinhar que também sabemos, e o Senhor Ministro também sabe, que apesar das dificuldades que o mundo da educação sempre sente,  os sistemas educativos com melhor desempenho são também os sistemas em que os professores são mais valorizados, reconhecidos e apoiados.

sábado, 17 de setembro de 2022

DA POBREZA

 Segundo dados divulgados pelo Eurostat relativos a 2021, o índice de pobreza subiu na UE em termos médios, sendo que em Portugal a subida foi maior, afecta cerca de 2,3 milhões de pessoas, mais 2,4% que em 2020, e acima da média europeia, 21,7%.

Conforme trabalho no Expresso e de forma mais diferenciada, sem surpresa, a pobreza afecta mais as famílias com crianças, a população menos escolarizada e mulheres. Considerando a população em situação de pobreza, 22,9% são crianças e 24,25 têm entre 18 e 24 (justamente a idade de frequência do ensino superior ou a entrada no mercado de trabalho). Portugal foi o país em que a situação mais se agravou descendo cinco lugares na ordenação realizada.

Com a situação que actualmente atravessamos e não esperando alterações substantivas nos tempos mais próximos as circunstâncias de vida para boa parte da população são dramáticas mesmo para muitas pessoas que trabalham e não conseguem sair da pobreza.

Também sabemos que a pobreza tem claramente uma dimensão estrutural e intergeracional, de acordo com vários estudos, as crianças de famílias pobres demorarão até cinco gerações a aceder a rendimentos médios, um indicador acima da média europeia.

A escola é certamente uma ferramenta poderosa de promoção de mobilidade social, mas, por si só, dificilmente funciona como elevador social.

O impacto das circunstâncias de vida no bem-estar das crianças, em particular no rendimento escolar e comportamento, é por demais conhecido. Essas circunstâncias constituem, aliás, um dos mais potentes preditores de insucesso e abandono quando são particularmente negativas, como é o caso de carências significativas ao nível das necessidades básicas, incluindo bem-estar psicológico e emocional. Em qualquer parte do mundo, miúdos que passam mal têm menor desempenho escolar e mais provavelmente vão continuar pobres. Com ligeiras alterações as estatísticas internacionais referentes a assimetrias e incapacidade de proporcionar mobilidade social através da educação vão-se mantendo. Não estranhamos. Dói, mas é “normal”, será o destino.

É verdade que com muita frequência a escola distribui refeições e disponibiliza recursos a alunos mais carenciados e ainda bem que o faz. No entanto, não compete à escola a resolução de questões estruturais nas quais radica a pobreza continuada nem o providenciar de necessidades básicas às crianças.

Assim, ou nos concertamos na exigência a alterações nos modelos de desenvolvimento de modo a garantir, tanto quanto possível, equidade e um combate eficaz à exclusão com a consequente alteração nas políticas públicas, ou ciclicamente nos confrontamos com indicadores desta natureza. Os dias que vivemos mostram como e difícil é concertar perspectivas na promoção de um sentido comum, o bem-estar das comunidades.

Não, não é destino que os filhos dos filhos dos filhos, dos filhos das famílias pobres continuem pobres. Se assim acontece e continuar a acontecer é a falência das políticas públicas e dos que por elas são responsáveis.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

AGORA VAI

 No Público encontra-se um trabalho elucidativo sobre as dificuldades que muitos pais de crianças com necessidades especiais sentem para encontrar respostas para os filhos no complemento ao horário escolar ou mesmo para participarem nas Actividades de Enriquecimento Curricular. Estas respostas envolvem Ateliers de Tempos Livres, actividades no âmbito da Componente de Apoio à Família ou as Actividades de Animação e de Apoio à Família.

Estas respostas podem ser no âmbito privado, social ou autárquico para além das responsabilidades da escola.

Nada de novo, lamentavelmente. Para as crianças com necessidades especiais e respectivas famílias, a vida é muito complicada face à qualidade e acessibilidade aos apoios e recursos educativos e especializados necessários. Não esqueço os bons exemplos e práticas que conhecemos, assim como sei do empenho e profissionalismo da maioria dos profissionais que trabalham nestas áreas.

O que me parece relevante é a resposta da Secretária de Estado da Inclusão a solicitação do Público, estão definidas três prioridades para este ano lectivo, a revisão do DL 54/2018 respeitante à Educação Inclusiva, acções de formação para os “actores escolares” sobre este documento e a criação de um grupo de trabalho com membros do seu gabinete e do Ministério da Educação, para analisar as queixas que recebam dos pais, “Será uma task force para receber exposições e procurarmos resolver caso a caso, de forma mais cirúrgica”.

A sério!?

Sendo certo que importa pensar na revisão do DL 54/2018 precisamos de perceber em que sentido e com base em que avaliação?

A onda de capacitação que varre o sistema tinha, naturalmente, de ser … inclusiva.

E mais uma “task force”, claro, para ouvir as queixas e (procurar) resolver os problemas.

Daí este meu cansaço.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

À CONVERSA COM PAIS

 Mais uma vez voltei ao Agrupamento de Escolas de Santo António, na zona do Barreiro, para uma conversa com um numeroso grupo de pais/mães de alunos que começam este ano o 5º ano. O Agrupamento é um daqueles territórios educativos onde, dizem, se faz “intervenção prioritária” ainda que, em bom rigor e tal como em todos os territórios educativos, se realize a intervenção possível.

Apesar da redução da actividade profissional o trabalho com pais e encarregados de educação é sempre estimulante. Mais estimulante é quando estamos numa comunidade educativa que procura empenhadamente construir um futuro melhor para os seus filhos ou alunos, muitos dos quais a viver em circunstâncias de alguma vulnerabilidade.

Buscar por um inexistente manual de instruções para lidar com os filhos, ajudar a construir um caminho que os leve sem grandes sobressaltos ao futuro, dá sempre origem a histórias e inquietações que partilhadas ajudam a pensar e a fazer.

Para além de abordarmos algumas questões mais específicas relativas à transição do 4º para o 5º ano e noutra escola com características diferentes, acordámos em ideias simples e que parecem bons contributos.

Educar pode traduzir-se em ajudar alguém a tomar conta de si próprio. Assim, a autonomia é o fio estruturante da acção educativa e começa no berço. Quanto mais autónomos mais autodeterminados e auto-regulados as crianças e jovens serão, menos será necessário "tomar conta deles", eles saberão tomar conta de si de forma adequada.

O afecto é imprescindível, não existe "afecto a mais" ou, noutra versão, "mimos a mais". Existe mau afecto e mau mimo e mau porque é tóxico, faz mal e não por ser muito. As regras e os limites são bens de primeira necessidade. Tal como com os afectos, nenhuma dieta educativa pode prescindir de regras e limites.

A educação, escolar ou familiar, assenta relação que tem como ferramenta essencial a comunicação. A comunicação é essencial, em qualquer idade.

Os pais, todos os pais independentemente da sua qualificação escolar têm um papel importante na sua relação com a escola e na relação dos seus filhos com a escola.

Estudar e adquirir uma qualificação é o melhor passaporte para o futuro e os pais ajudam a adquiri-lo em conjunto com a escola.

Foi boa a conversa, um dia destes lá voltarei.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

AOS VOSSOS LUGARES

Entre terça e a próxima sexta-feira iniciam-se as aulas embora não todas, faltarão professores para algumas o que condicionará a actividade escolar.

Depois de dois anos completamente atípicos seria desejável um ano lectivo que se iniciasse e decorresse com alguma serenidade. No entanto, o universo da educação parece estar condenado ao sobressalto, os discursos não se centram no trabalho em sala de aula de alunos e professores, mas noutras dimensões da “escola” cujo relevo quase faz esquecer o que é central, aprender e ensinar num clima positivo e tranquilo.

Tanto está a ser dito, que dificilmente serei capaz de acrescentar algo a não ser reforçar um apelo à serenidade.

Assim e talvez porque o meu neto pequeno, o Tomás, está a iniciar a escolaridade obrigatória, umas notas pensando sobretudo nos que vão começar a sua estrada na escolaridade obrigatória. Deixem que fale um pouco do que se espera e deseja que aconteça nos próximos tempos, o trabalho de professores e alunos em sala de aula, as aulas, o que menos me parece ser objecto de reflexão.

Para a maioria das crianças e apesar da sua experiência na educação pré-escolar, a "entrada" na escola, ou melhor, o processo de início da escolaridade obrigatória, continua a ser uma experiência fundamental para o lançamento de um percurso educativo e formativo com sucesso.

Em muitíssimas circunstâncias da nossa vida, quando alguma coisa não correu bem, é possível recomeçar e tentar de novo esperando ser mais bem-sucedido. Todos experimentámos episódios deste tipo.

Pois bem, o processo de início da escolaridade envolve na verdade um conjunto de circunstâncias irreversíveis, ou seja, quando corre mal já não é possível voltar atrás e recomeçar com a esperança de que a situação vá correr melhor. Por isso se torna imprescindível que o começo seja positivo. Para isso, importa que seja pensado e orientado, que crie as rotinas, a adaptação e a confiança em miúdos e em pais indispensáveis à aprendizagem e ao desenvolvimento bem-sucedidos.

Os tempos actuais tornam bastante mais difícil que assim seja, mas esse é o nosso grande desafio.

É fundamental não esquecer que por variadas razões, os miúdos à "entrada" na escola não estão todos nas mesmas condições, ambiente, experiências e recursos familiares, percurso anterior, características individuais, etc. o que exige desde o início uma atenção diferenciada que combata a cultura de que devem ser todos tratados da mesma maneira, normalizando o diferente, que alguma opinião publicada e ignorante defende. Muitas vezes os lugares da escola não conseguem acomodar a diversidade dos alunos, a escola ainda não é para todos com a mesma qualidade.

Antes de, com voluntarismo e empenho, se tentar ensinar aos miúdos as coisas da escola é preciso, como sempre afirmo, dar tempo, oportunidade e espaço para que os miúdos aprendam a escola. Depois de aprenderem a escola estarão mais disponíveis para aprender então as coisas da escola.

Vai começar o tempo do trabalho "a sério" e muitas crianças irão rapidamente sentir-se pressionados para a excelência, o mundo não é para gente sem sucesso. Vão ter que adquirir competências, muitas competências, em variadíssimas áreas, porque é preciso ser bom em tudo e é preciso preparar para o futuro, curiosamente, descuidando, por vezes, o presente.

E vão também começar a perceber como anda confusa a cabeça dos adultos, como estamos sem perceber o nosso próprio presente e com dificuldade em antecipar o futuro, que será o presente deles.

Vão, parte deles, desaprender de rir, de se sentir bem e de brincar, a coisa mais séria que sempre fizeram.

Vão ouvir cada vez mais frequentemente qualquer coisa como "não podes fazer isso, já és uma mulherzinha, ou um homenzinho", como se as mulherzinhas e os homenzinhos já crescidos não fizessem asneiras.

Vão conhecer tempos em que se sentem sós e perdidos com um mundo demasiado grande pela frente.

Mais cedo ou mais tarde, alguns deles, vão sentir uma dor branda que faz parte do crescer, mas que, às vezes, não passa com o crescer.

Também sei, felizmente que a grande maioria vai continuar a sentir-se bem, por dentro e para fora.

Pode parecer-vos um pouco estranho, mas gostava que a estes miúdos que agora vão começar "a escola", tal como aos outros que já a cumprem, lhes apetecesse "fugir para a escola" e que nós possamos ser capazes de lhes dizer "Cresçam devagarinho, não tenham pressa".

É que depressa e bem, não há quem, como se costuma dizer.

Boa sorte e bom trabalho para alunos, professores, técnicos, funcionários e pais.

terça-feira, 13 de setembro de 2022

ESCOLA ONZE MESES POR ANO

 Ontem, a propósito da entrevista de Carlos Neto ao Público e da iniciativa “Escola a Tempo Inteiro”, abordei aqui a questão dos tempos da escola. Apesar disso, retomo a questão.

Com alguma estranheza da minha parte passou despercebida, que me desse conta, a notícia no CM relativa à apresentação por parte da Confederação Nacional das Associações de Pais ao Governo de uma proposta defendendo que o fim das férias escolares dos alunos seja em Agosto.

Não é nada de novo, em 2015 já o Presidente da CONFAP tinha defendido a existência de apenas um mês de férias para os alunos.

Estranhamente, ou talvez não, vou comentar a proposta de hoje com o que disse em 2015. No sistema educativo que temos e no modelo de sociedade em que vivemos proporcionar onze meses de estadia na escola é insustentável.

É verdade, sentimos todos, que os estilos de vida actuais colocam graves problemas às famílias para assegurarem a guarda das crianças em horários não escolares. A resposta tem sido prolongar a estadia dos miúdos nas instituições escolares radicando, como ontem escrevia, no que considero um equívoco, o estabelecimento de uma visão de “Escola a tempo inteiro” em vez de “Educação a tempo inteiro”. A CONFAP insiste neste caminho.

No actual quadro de organização das escolas os alunos podem estar na escola entre as 8h (ou 7:30 em algumas escolas) e as 19h (19:30 em algumas escolas), é obra!

É preciso o maior dos esforços, espaços, equipamentos e recursos humanos qualificados para que se não transforme a escola numa “overdose” asfixiante para muitos miúdos e um clima pouco positivo de trabalho para todos profissionais que nela desempenham funções.

É verdade que existem boas práticas neste universo, mas também conhecemos situações em que se verifica a dificuldade óbvia e esperada de encontrar recursos humanos com experiência e formação em trabalho não curricular com crianças a partir dos seis anos.

Acresce que muitas escolas, fruto da concentração de alunos e do número de alunos por turma, não possuem espaços ou equipamentos que permitam com facilidade o desenvolvimento de actividades fora do figurino mais habitual de actividades de natureza escolar.

Em muitas situações, apesar do empenho dos profissionais (alguns não o são por falta de qualificação adequada), apesar dos alunos estarem “guardados” o benefício imediato é quase nulo e a consequência a prazo poderá ser a desmotivação, no mínimo.

Neste quadro, manter aos alunos onze meses na escola é de um enorme risco.

Creio que a CONFAP andaria melhor se promovesse, dentro das suas competências, a discussão sobre a organização do trabalho, os horários e políticas de família, para que as famílias, quando fosse possível evidentemente, pudessem ter alternativas de horários laborais que lhes permitissem mais disponibilidade para os filhos.

Seria também de explorar a possibilidade de recorrer a outros serviços e equipamentos das comunidades, desportivos ou culturais, por exemplo, que respondessem às necessidades de crianças e jovens e não os manter na escola, a resposta mais fácil, mas com inconvenientes que me parecem claros. Aqui sim, parece-me importante o papel das autarquias.

Na mesma lógica da pretensão expressa pela CONFAP por que não avançar com a proposta de que as escolas estejam abertas, por exemplo, à sexta à noite de modo a permitir vida cultural ou social dos pais?

Sim, é anedótico e demagógico, mas trata-se de sublinhar que, por um lado, a escola não pode ser a solução para todos os problemas das famílias, crianças e jovens e que, por outro lado, nem sempre os interesses dos pais coincidem com os interesses dos filhos.

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

EXPLICAÇÕES

 Apesar de ainda estarmos no início do ano lectivo e de acordo com o JN o recurso a apoio escolar externo, a “explicação”, está já em alta, quer na procura, quer no crescimento da oferta com a abertura de novos espaços. Trata-se de um nicho de mercado que apesar da pandemia, ou por causa da pandemia, continua em franco florescimento.

Algumas vezes aqui tenho abordado esta questão e retomo algumas notas. Recordo um estudo realizado em 2019 pelo grupo “Ginásios da Educação Da Vinci”, um franchising que gere em Portugal 42 centros respondendo a 5400 alunos num universo estimado em 244 mil que recorrem a estes “serviços”. Destes, cerca de 70% têm “explicadores” particulares, maioritariamente professores que dão explicação num “cantinho” da sua casa num volume de facturação estimado em 200 milhões de euros e que passa, por assim dizer ao lado, das obrigações fiscais. Ainda segundo os mesmos dados, existirão à volta de doze mil explicadores e de mil centros de estudo e apoio escolar.

Trata-se de facto de um mercado em expansão e fomentador do empreendedorismo individual e que também contribui para acentuar as desigualdades sociais pré-existentes sem qualquer sobressalto por parte de quem é responsável por políticas públicas.

É um mercado que envolve alunos de todos os anos de escolaridade, mas tem maior procura em anos de exame e no ensino secundário quando está em jogo o acesso ao ensino superior.

Na verdade, é um mercado generalizado como se pode verificar com um passeio pelas proximidades das escolas abundando a oferta de ajudas fora da escola, antes conhecidas por “explicações”, mas agora com designações mais sofisticadas como “Centro de Estudo”, “Ginásio”, "Academia", etc., que, provavelmente, terão mais efeito “catch” no sentido de atingir o “target”, aliás, não são raras as designações em inglês. Ainda temos a oferta mais personalizada, as “explicações” no aconchego caseiro dos explicadores, numa espécie de atendimento personalizado. O mercado está sempre atento e o marketing desempenha um papel importante.

Apesar de nada ter contra a iniciativa privada desde que com enquadramento legal e regulação, o que está longe de existir, várias vezes tenho insistido no sentido de entender como desejável que os apoios e ajudas de que os alunos necessitam fossem encontrados dentro das escolas e agrupamentos. O impacto no sucesso dos alunos minimizaria, certamente, eventuais custos em recursos que, aliás, em alguns casos já existem dentro do sistema.

Esta minha posição radica no entendimento de que a procura “externa” de apoios, legítima por parte das famílias, tem também como efeito o alimentar da desigualdade de oportunidades e da falta de equidade como tem sido regularmente sublinhado em múltiplos estudos.

Neste contexto, recordo que no Relatório do CNE, "Estado da Educação 2016", constava um dado interessante relativo a Portugal que na altura comentei e extraído do TIMSS de 2015. Referindo apenas o secundário, 61% dos estudantes do secundário afirmam ter aulas particulares de Matemática no sentido de melhorar o desempenho nos exames. A comparação com outros países é elucidativa tanto mais se considerarmos o respectivo nível de vida, sendo a Noruega um exemplo extremo.

Também trabalhos realizados pelo CNE e pela Fundação Francisco Manuel dos Santos que evidenciam algo de muito significativo apesar de bem conhecido e reconhecido, nove em cada dez alunos com insucesso escolar são de famílias pobres.

A ajuda externa ao estudo como ferramenta promotora do sucesso não está ao alcance de todas as famílias pelo que é fundamental que as escolas possam dispor dos dispositivos de apoio suficientes e qualificados para que se possa garantir, tanto quanto possível, a equidade de oportunidades e a protecção dos direitos dos miúdos, de todos os miúdos.

De uma vez por todas, é necessário contenção e combate ao desperdício, mas em educação não há despesa há investimento. Talvez o investimento canalizado para inúmeros projectos, iniciativas, vestidas de "inovação" e vindas de fora da escola fosse mais eficiente se utilizado na e pela escola no âmbito da sua autonomia.

domingo, 11 de setembro de 2022

PARA REFLECTIR, A ENTREVISTA DE CARLOS NETO NO PÚBLICO

 Vale a pena reflectir sobre a entrevista do Professor Carlos Neto no Público. Não temos de concordar ou discordar relativamente a tudo o que é afirmado, mas precisamos de reflectir em muitas das questões abordadas.

Desde 2006, quando foi lançada, que considero a “Escola a Tempo Inteiro” um dos maiores equívocos em matéria de educação. Precisamos de “Educação a Tempo Inteiro”, não de “Escola a Tempo Inteiro”.

As enormes dificuldades que as famílias sentem na guarda das crianças em tempo não escolar, não podem ser minimizadas basicamente com o recurso do prolongamento da estadia das crianças na escola.

Urgem medidas integradas em política públicas de natureza social ou laboral que contribuam para que os tempos das famílias sejam mais amigáveis para os filhos, por exemplo o recurso ao teletrabalho ou a diferenciação nos horários de trabalho que em alguns sectores e profissões é possível.

Não podemos empurrar os miúdos para estadias nas escolas que, com frequência, superam as horas de trabalho semanal definidas para adultos.

Não é uma fatalidade que tenhamos o cenário que se verifica, existem múltiplas possibilidades como se verifica em vários países.