Merece leitura e reflexão o texto de João Conde no Público, “Ciência a 100 à hora (para o abismo): o Encontro Ciência e a arte de servir canapés”.
(…)
Aliás, o ministério coloca a
cabeça no cepo da retórica, mas os investigadores, esses, já lá têm o resto do
corpo, com milhares de doutorados mantidos por bolsas de investigação, que,
tecnicamente, não conferem direitos laborais básicos, criando uma classe de
subcidadãos científicos com uma idade média de entrada na carreira estável que
já ultrapassa os 40 anos. É o talento nacional transformado em combustível
fóssil de baixo custo para a máquina burocrática. A estratégia do ministério é,
no fundo, a gestão do declínio, fingir que se investe no futuro enquanto se
mantém o investigador preso num ciclo eterno de renovação de contratos de seis
meses, como se a ciência se fizesse com o desespero de quem não sabe se terá
onde dormir no próximo trimestre.
(…)
Na verdade, o nível de
precariedade no trabalho dos investigadores em Portugal é inaceitável e um tiro no pé dado
pelos sucessivos responsáveis das políticas públicas.
Esta precariedade menoriza
direitos e necessidades permanentes com impacto na vida de muitas pessoas e no tecido
das instituições científicas.
Acresce, que, como afirmava
Carlos Fiolhais, “a ciência é a árvore do desenvolvimento” e cuidar dela é
cuidar do futuro do país.
Como já tenho escrito, está
estudada e reconhecida de há muito a associação fortíssima entre o investimento
em educação e investigação e o desenvolvimento das comunidades, seja por via
directa, qualificação e produção de conhecimento, seja por via indirecta,
condições económicas, qualidade de vida e condições de saúde, por exemplo.
Não é coisa pouca.
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