No Público encontra-se uma peça que merece leitura e reflexão a propósito do brincar em contexto familiar. Divulgam-se alguns resultados do estudo “Práticas e Perspectivas Parentais no Brincar das Crianças em Portugal: Um Inquérito Transversal”, publicado recentemente na revista Acta Médica Portuguesa realizado em 2024.
Alguns dados para reflectir. De
acordo com as respostas dos inquiridos, pais de crianças entre os três e os dez
anos e resultou num total de 4637 respostas, as crianças passaram, em média,
oito horas na escola e 75% também participaram em actividades
extracurriculares, na maioria das vezes durante uma a duas horas por semana.
O tempo médio de exposição a
ecrãs mais frequente foi de 1 a 2 horas. Os “parceiros” mais referidos foram a
mãe ou o pai, 51%, seguidos pelos irmãos, 50% e pela criança a brincar sozinha,
24%. O espaço para brincar mais referido foi dentro de casa, 72%, e o quintal
ou terraço, 20%.
Considerando o tempo durante a
semana a brincar com os pais, “na maioria das vezes” foi menos de uma hora por
dia”, 46%. Nos fins-de-semana, “a brincadeira conjunta durou, com maior
frequência, entre uma e três horas diárias, 43%. Durante estes períodos, 2139
pais referiram estar dedicados exclusivamente a brincar, 46%, enquanto 2118
referiram realizar tarefas domésticas em simultâneo (46%).
São dados muito interessantes e
em linha com outros trabalhos, Há algum tempo referi aqui um estudo realizado
pelo IAC em 2024 com indicadores interessantes e a merecer reflexão. Cerca de
52% das crianças brincam menos de uma hora por dia e se procurar quem brinca de
duas a três horas diárias são apenas 9%.
Acresce que os pais participam
pouco nas brincadeiras das e com as crianças e 40,4% aponta o cansaço “devido à
carga de trabalho!”, valor que tem vindo a crescer desde 2018.
O estudo, “Portugal a Brincar”
envolveu mais de 1100 famílias e cuidadores de crianças com idades até aos dez
anos. 36% dos pais inquiridos desejava que os filhos brincassem pelo menos
cinco horas por dia. Metade das famílias entende o tempo livre como factor
necessário para permitir o brincar.
No entanto, 47% dos inquiridos
reconhecem o brincar como actividade para a imaginação e criatividade e 21,5%
como forma de promoção do desenvolvimento emocional.
Quem por aqui passa dá conta da
frequência com que aqui abordo a questão do brincar, a actividade mais séria
que as crianças realizam e na qual põem tudo o que são e o que virão a ser.
No entanto e como já tenho
referido aqui em muitas intervenções de natureza profissional, nos últimos
anos, provavelmente associada às mudanças nos estilos de vida e quadro de
valores, foi-se instalando a ideia de que o brincar é supérfluo, é perda de
tempo, o foco deve ser em trabalhar, em rendimento e resultados, em nome da
competitividade e da produtividade, condição para a realização e felicidade.
Progressivamente foi-se retirando
aos miúdos o tempo e o espaço que muitos de nós na sua idade tínhamos e
empregam-nos horas sem fim nas fábricas de pessoas, escolas, chamam-lhes. Aí os
miúdos trabalham a sério, a tempo inteiro, dizem, pois só assim serão grandes a
sério, dizem também.
Às vezes, alguns miúdos ainda
brincam de forma escondida, é que brincar passou a uma actividade quase
clandestina que só pais ou professores “românticos”, “facilitistas”,
“eduqueses” ou “incompetentes” acham importante.
Nestes tempos de férias, muitos
outros miúdos vão para umas coisas a que chamam “tempos livres” e que, com
frequência, de livres têm pouco, onde, frequentemente, se confunde brincar com
entreter e, outras vezes, acontece a continuação do trabalho que se faz na
fábrica de pessoas, a escola.
Numa história que já aqui contei
ouvi uma mãe que se mostrava muito aborrecida com o Atelier de Tempos Livres em
que o filho, gaiato de uns 10 anos, passa boa parte das férias, porque os
técnicos responsáveis "dão poucas actividades às crianças e depois elas
põem-se a brincar umas com as outras".
Também são encaixados em dezenas
de actividades fantásticas, com nomes fantásticos, que promovem competências
fantásticas e fazem um bem fantástico a tudo e mais alguma coisa.
É inquietante perceber alguma
visão que, de mansinho, se foi instalando também em muitos pais.
O brincar da infância vai-se
encurtando, algum dia os miúdos vão nascer crescidos para já não precisarem de
brincar. Importa ainda lembrar que também existem crianças, muitas, em que a
infância é encurtada, diria roubada, porque são mão-de-obra barata e coisificada.
Era bom escutar os miúdos. Se
lhes perguntarem, (das diferentes formas de fazer perguntas e ouvir respostas),
vão ficar a saber, como disse acima, que brincar é a actividade mais séria que
realizam, em que põem tudo o que são, sendo ainda a base de tudo o que virão a
ser e a saber.
Em 2018 a Academia Americana de
Pediatria recomendou aos pediatras que na sua prática clínica prescrevam “tempo
para brincar”, um bem de primeira necessidade para o bem-estar dos mais novos
com impacto em diferentes dimensões.
Insistem que não se trata de uma
ideia “frívola” e os actuais estilos de vida de muitas famílias, por diferentes
razões, tornam ainda mais importante que se reafirme a importância de brincar.
No caso mais particular, mas
também essencial do brincar na rua sabemos que as questões da segurança e,
sobretudo dos estilos de vida e a mudança verificada nos valores e nos
equipamentos, brinquedos e actividades dos miúdos, o brincar na rua começa a ser
raro.
Embora consciente das questões
como risco, segurança e estilos de vida das famílias, creio que seria possível
alguma oportunidade de “devolver” aos miúdos o circular e brincar na rua,
talvez com a supervisão de velhos que estão sozinhos, as comunidades e as
famílias conseguissem alguns tempos e formas de ter as crianças por algum tempo
fora das paredes de uma casa, escola, centro comercial, automóvel ou ecrã.
Como muitas vezes tenho escrito e
afirmado, o eixo central da acção educativa, escolar ou familiar, é a
autonomia, a capacidade e a competência para “tomar conta de si” como fala
Almada Negreiros. A brincadeira, a rua, a abertura, o espaço, o risco (controlado
obviamente, os desafios, os limites, as experiências, são ferramentas
fortíssimas de desenvolvimento e promoção dessa autonomia.
Curiosamente, se olharmos às
nossas condições climatéricas, Portugal é um dos países com valores mais baixos
no tempo dedicado a actividades de ar livre, situação com implicações menos
positivas na qualidade de vida, nas suas várias dimensões, de miúdos e
crescidos.
Talvez, devagarinho e com os
riscos controlados, valesse a pena trazer os miúdos para a rua, mesmo que por
pouco tempo e não todos os dias.
É, pois, importante que todos os
que lidam com crianças, em particular, os que têm “peso” em matéria de
orientação, pediatras, professores, psicólogos, etc. assumam o brincar como uma
das “guide lines” para a sua intervenção.
Os mais novos vão gostar e
faz-lhes bem.
Desculpem a insistência e a
extensão, mas brincar é mesmo uma coisa séria e ainda uma história pequenina
que aqui coloquei em 2007 no começo do Atenta Inquietude.
A propósito dos textos que
surgiram na imprensa referindo o tempo disponível nas famílias para a relação
com os filhos, deixo-vos uma estorinha.
- Pai…
- Sim.
- Pai … quanto ganhas por uma
hora de trabalho?
- Que pergunta!
- Responde.
- Cerca de 30 €.
(algum tempo depois)
- Pai…
- Sim.
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