O calendário das consciências determina para hoje o Dia Mundial dos Avós, pessoas normalmente discretas. Uma lembrança à minha Avó Leonor, uma Mulher notável com uns olhos claros, uma fala e um estar que eram um ninho de aconchego.
A avozice é um mundo mágico no
qual entrei há algum tempo com a abençoada chegada do Simão há treze anos e do
Tomás há dez. Acho que ainda não consegui acomodar os sentimentos e a magia de
acompanhar de perto, tão de perto quanto possível sem o excesso da intrusão
inibidora de autonomia, o crescimento destes gaiatos que têm uma geração pelo
meio.
Tem sido um divertimento, uma
descoberta permanente e a percepção de um outro sentido para uma vida que já
vai comprida e também, desculpem a confissão, cumprida.
Neste entendimento e como tem
acontecido aqui no Atenta Inquietude a cada 26 de Julho, retomo a minha
proposta no sentido de ser legislado o direito aos avós. Isto quer dizer,
simplesmente, que todos os miúdos deveriam, obrigatoriamente, ter avós e que todos
os velhos deveriam ter netos.
Num tempo em que milhares de
miúdos passam muito tempo sós, mesmo quando, por estranho que pareça, têm
pessoas à beira, e muitos velhos vão morrendo devagar de sozinhismo, a doença
que ataca os que vivem sós, isolados, qualquer partido verdadeiramente interessado
nas pessoas, sentir-se ia obrigado a inscrever tal medida no seu programa ou,
porque não, inscrevê-la nos direitos fundamentais.
Com tantas crianças abandonadas
dentro de casa, institucionalizadas, mergulhadas na escola tempos infindos ou
escondidas em ecrãs, ao mesmo tempo em que os velhos estão emprateleirados em
lares ou também abandonados em casa, isolados de tal forma que morrem sem que
ninguém se dê conta, trata-se apenas de os juntar, seria um “dois em um”. Creio
que os benefícios para miúdos e velhos seriam extraordinários.
Um avô ou uma avó, de preferência
os dois, são bens de primeira necessidade para qualquer miúdo e, deixem-me que
vos diga e insista, os avós não estragam os netos até porque gostam deles.
Cuidam deles com outro tempo, com outro olhar.
Já agora recupero uma história
com avô dentro. Como sabem contar histórias é mesmo coisa de avós e às vezes
repetem-nas, é o caso desta, já aqui a contei.
De há uns tempos para cá apareceu
uma moda que “impede” as pessoas de falarem em brincar nas escolas da terra, é
proibido brincar nas escolas.
A moda foi fabricada por uma
gente ignorante de miúdos, obcecada com trabalho e produtividade, mesmo
infantil, uns infelizes escravos convencidos de que são livres e que também
querem escravizar os outros.
Mas naquela terra ainda existem
uns professores, muitos, que não se deixam enganar, sabem ler os miúdos e
percebem que eles aprendem porque também brincam e brincam porque também
aprendem. Aliás, brincar e aprender são as coisas mais sérias que os miúdos
fazem, sorte a deles, a de alguns, felizmente muitos.
Um dia, um desses professores
lembrou-se, que sacrilégio, de dizer aos seus alunos para trazerem para a
escola o seu brinquedo preferido. A Maria trouxe uma boneca. O João apareceu
com a consola nova. A Sara vinha vaidosa com umas bonecas que o pai tinha
mandado vir estrangeiro. A Irina trazia o Noddy. O Carlos vinha com uns olhos
quase tão grandes como a bola de futebol que trazia debaixo do braço. O David,
sempre pronto para as lutas, trazia uns bonecos lutadores de wrestling. A Joana
não ligava a ninguém com o seu dispositivo com as músicas de que gosta. Enfim,
por um dia, toda gente veio para a escola com um brinquedo, o seu preferido.
O último a chegar foi o Tomás.
Feliz e sorridente entrou na sala
de aula com a avó pela mão.
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