No Público divulga-se o trabalho realizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre o mercado de trabalho da população mais nova e os números, não sendo surpreendentes, são inquietantes. Vejamos alguns dados.
Nos jovens com menos de 18 anos,
perto de 60% têm contrato de trabalho precário o que também se passa no grupo
entre 18 e 24. Relativamente ao grupo dos 25 aos 34 o trabalho precário é
realizado por 40%.
Neste quadro, Portugal é o quarto
país com mais trabalho precário entre os jovens, quatro em cada dez
trabalhadores com menos de 30 anos com contratos temporários.
Este contexto de precariedade
associa-se a uma autonomia mais tardia, os jovens portugueses saem da casa dos
pais aos 29 anos, idade superior à média europeia, 26 anos. Acresce que os
nossos jovens cumprem uma carga horária de trabalho semanal que apenas cinco
países têm superior.
Parece claro que os jovens
portugueses continuam a experimentar dificuldades em construir projectos de
vida autónomos e positivos. Num tempo em que tudo tem de ser para hoje, boa
parte dos jovens sentirá que um projecto de vida é algo percebido para um amanhã
longínquo.
Estão identificadas dimensões
contributivas para esta situação como a dificuldade em aceder a trabalho digno,
a precariedade laboral, os custos elevados da educação e qualificação e os
também elevados custos no acesso, renda ou compra, de habitação que como se
sabe se acentuou dramaticamente nos últimos tempos.
Este cenário ajuda a perceber
algumas das mais fortes razões pelas quais os jovens em Portugal abandonam a
casa dos pais cada vez mais tarde e adiam projectos de vida que incluam
paternidade e maternidade. Para além das questões de natureza cultural e de
valores que importa considerar, bem como as políticas de família nos países do
norte da Europa, as actuais circunstâncias de vida dos jovens e as implicações
da conjuntura económica sustentam este cenário que provavelmente demorará a ser
revertido.
A estes indicadores, já a merecer
preocupação, devem juntar-se os dados sobre precariedade, abuso do recurso a
estágios e outras modalidades de aproveitamento de mão-de-obra barata e a
prática de vencimentos que mais parecem subsídios de sobrevivência mesmo para
jovens altamente qualificados.
Esta situação complexa e de
difícil ultrapassagem tem obviamente sérias repercussões nos projectos de vida
das gerações que estão a bater à porta da vida activa. Entre outras,
contar-se-ão o retardar da saída de casa dos pais por dificuldade no acesso a condições
de aquisição ou aluguer de habitação própria ou o adiar de projectos de
paternidade e maternidade que por sua vez se reflectem na crise demográfica que
atravessamos e que é uma forte preocupação no que respeita à sustentabilidade
dos sistemas sociais. As gerações mais novas que experimentam enormes
dificuldades na entrada sustentada na vida activa, vão também, muito
provavelmente, conhecer sérias dificuldades no fim da sua carreira
profissional.
No entanto, um efeito potencial,
mas menos tangível desta precariedade no emprego e na construção de um projecto
de vida autónomo e sustentado, é a promoção de uma dimensão psicológica de
precariedade face à própria vida no sentido global e que, com alguma
frequência, os discursos das lideranças políticas acentuam. Dito de outra
maneira, pode instalar-se, está a instalar-se nos jovens, uma desesperança que
desmotiva e faz desistir da luta por um projecto de vida de que se não
vislumbra saída mobilizadora e que recompense.
O aconchego da casa dos pais pode
ser a escapatória para a sobrevivência, mas potenciar o risco da desistência o
que certamente poderá ter implicações sérias.
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