quarta-feira, 27 de maio de 2026

FAZER AS COISAS CERTAS, FAZER CERTAS AS COISAS

 Inicia-se hoje a época das provas de monitorização das aprendizagens (Moda) do 4.º e 6.º ano que estarão terminadas em 9 de Junho. Retomo algumas notas. A avaliação externa é uma ferramenta imprescindível de regulação dos sistemas educativos nos diversos patamares. No entanto e como tenho escrito, parece-me crítica a decisão de realização das provas em formato digital, fruto do “deslumbramento digital”, perdão, da transição digital.

Durante algum tempo, tive esperança de que o bom senso e o conhecimento do que se passa noutros sistemas educativos sustentassem uma reflexão e alguma prudência relativamente à introdução em termos excessivos dos recursos digitais e pudesse contribuir para um maior equilíbrio e precaução na utilização destes recursos, designadamente nos primeiros anos de escolaridade. Sabemos também que se determinou uma restrição mais exigente relativa aos telemóveis nas escolas e, global e felizmente, se está a reconsiderar a forma de utilização dos recursos digitais.

Por outro lado, continuam a ser conhecidas com demasiada frequência queixas relativas ao acesso a equipamentos por parte dos alunos, à qualidade dos equipamentos, que, de acordo com os directores de escolas e agrupamentos, a insuficiência dos recursos necessários à adequada utilização dos equipamentos, nas escolas, mas em particular nas salas de aulas, infra-estruturas eléctricas e rede de net eficientes, por exemplo. Acontece ainda que existe uma enorme diversidade na literacia digital dos alunos.

Deste cenário, apesar do esforço que vai ser realizado recorrendo ao apoio dos docentes de informática, podem decorrer situações sérias de desigualdade entre escolas e entre alunos e todos conhecemos múltiplas situações que evidenciam a enorme disparidade de recursos e da sua utilização. A proficiência da escrita e realização em formato digital será na esmagadora maioria dos alunos de natureza e nível diferente o que pode contaminar os resultados.

Uma outra questão prende-se com o tempo que demora o retorno às escolas da informação recolhida nas provas, é tardio e o eventual contributo para o percurso dos alunos estará comprometido. Acresce que os resultados das provas de ModA continuam a não ter qualquer impacto na avaliação dos alunos, mantém-se o “não servem para nada”. É verdade que são registadas no processo de cada aluno, que as escolas recebem os resultados, demasiado tarde como referi, mas também está estudado de há muito, que as representações e expectativas sobre uma determinada tarefa contaminam de forma significativa o desempenho nessa tarefa. Para pais e alunos, mas também para professores e escolas, é relevante o facto de as provas não “contarem para nada”, não é fazer "certa a coisa". Um dos meus netos realiza as provas do 4.º ano e creio que está menos preocupado que para a realização de um teste durante o tempo de aulas. Podemos correr o risco de que a desvalorização inquine resultados.

Voltando ao início, sei que nem sempre é fácil “fazer as coisas certas e fazer certas as coisas”, mas neste caso não me parecia muito difícil.

Foi mesmo uma opção, uma má opção.

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