terça-feira, 26 de maio de 2026

O RAPAZ QUE VIVIA À SOMBRA

 Era uma vez um Rapaz que sempre viveu à sombra. Quando era pequeno a sua vida decorria entre a sombra dos pais e, depois, a sombra da educadora. O Rapaz, filho único, envolvia-se com ninguém e ninguém se envolvia com ele. Quanto menos se envolvia na relação com os outros miúdos mais à sombra continuava.

 Cresceu e passou para escola dos mais crescidos, sempre andando pela sombra. Na escola, ajeitava-se num canto, só, à sombra. Os pais levavam-no e traziam-no da escola e ficava, claro, à sombra. Continuava a não ter amigos, ninguém gosta de brincar com quem não sabe brincar.

Cresceu para a outra escola, a dos grandes, uma escola cheia de sombras, árvores, muros, professores e outra gente. O Rapaz tinha sempre uma sombra para se acolher. Naquela escola andava uma rapariga que, de mansinho começou a reparar naquele Rapaz, sempre à sombra e com ninguém. Qualquer coisa naquela tristeza sombria e resignada a chamava. Um dia aproximou-se do Rapaz, olhou bem para ele e disse de forma convicta, “Anda”. O Rapaz, meio atordoado, hesitou, mas como sempre fez o que lhe disseram, foi.

A Rapariga falava de tudo, de coisas de que ele nunca falava, mas que sabia que se falavam e passavam, ele lia muito. Foram a muitos lados, perderam-se, voltaram a encontrar-se e, como diz o Sérgio Godinho, a Rapariga mostrou ao Rapaz caminhos onde ele nem atalhos conhecia.

O Rapaz que tinha vivido sempre à sombra tinha acabado de descobrir o Sol.

Esta história, a deste Rapaz que vivia à sombra acabou bem. Há Rapazes que vivem à sombra e nunca descobrem, ou lhes mostram, o Sol.

Talvez os raios de Sol ainda consigam iluminar tantas sobras que parecem crescer.

Sem comentários: