No Expresso encontra-se uma peça interessante sobre as escolas do 1.º ciclo que têm menos de 20 alunos e a pertinência da sua manutenção em funcionamento.
Depois do estudo do Edulog,
“Necessidade de Professores: Deficit ou ineficiência na gestão da oferta de
ensino?”, ter referido a existência de 40% de escolas do 1.º ciclo com menos de
15 alunos a realidade, maldita realidade que não diz sempre o que queremos que
diga, está longe deste cenário. As escolas com menos de 20 alunos serão cerca
de 10%, 351 em 22/23, e numa decisão acertada assim se manterão uma vez que as
alternativas para os seus alunos não são adequadas.
Na verdade, em muitas
comunidades, sobretudo no interior, naturalmente, a manutenção das escolas do 1.º
ciclo em funcionamento são um suplemento de vida. Aliás, está a verificar-se um
aumento da população discente em diferentes geografias devido também à presença de imigrantes
o que se reflecte positivamente na vida comunitária.
Também importa considerar que alguns estudos realizados nos últimos anos sustentam que, de forma geral, os alunos dessas escolas realizam processos bem-sucedidos
de entrada no 2.º ciclo.
Retomo umas notas sobre esta
questão do encerramento de escolas que também está associado à criação de
mega-agrupamentos que, muitos deles, se transformam em mega-problemas, mas esta
é uma outra matéria. Muitas das questões que se colocam em educação, como
noutras áreas, independentemente da reflexão actual, solicitam algum
enquadramento que nos ajudem a melhor entender o quadro temos no momento.
Como já tenho escrito e abordado
em alguns encontros, durante décadas de Estado Novo, tivemos um país ruralizado
e subdesenvolvido o que, evidentemente não é nada de novo.
Em termos educativos e com a
escolaridade obrigatória a ideia terá sido “levar uma escola onde houvesse uma
criança”. Tal entendimento minimizava a mobilidade e a abertura de espírito, algo a evitar naqueles tempos. No entanto, como é sabido, os movimentos migratórios e
emigratórios explodiram e o interior entrou em processo de desertificação o
que, em conjunto com a decisão de política educativa referida acima, criou um
universo de centenas de escolas, sobretudo no 1º ciclo, com pouquíssimos
alunos. Como se torna evidente e nem discutindo os custos de funcionamento e
manutenção de um sistema que admite escolas com 2, 3 ou 5 alunos, deve considerar-se a questão se tal sistema favorece a função e o papel social e
formativo da escola. Creio que não e a experiência e os estudos revelam isso
mesmo.
Parece, pois, ajustada a decisão
de em muitas comunidades proceder a uma reorganização da rede.
É também verdade que muitas vezes
se afirma que a “morte da escola é a morte da aldeia”. No entanto, creio que
será, pelo menos de considerar, que os modelos de desenvolvimento económico e
social promovem a litoralização e desertificação do interior. Apostas políticas
erradas não contrariam este processo, antes pelo contrário, promovem-no
fechando os equipamentos sociais, incluindo as escolas, uma das formas
evidentes de fixação das pessoas. Cria-se assim um ciclo sem fim, as pessoas
partem, fecham-se equipamentos, as pessoas não voltam ou continuam a partir. E
este processo de definhamento vai-se alastrando. Talvez a manutenção das
escolas em funcionamento ajude a fixar e atrair famílias como já parece ser a
situação em diferentes comunidades.
Torna-se fundamental e urgente a
coragem e a visão para outros caminhos.
Por outro lado, como referia
acima, a concentração excessiva de alunos em centros educativos ou
mega-agrupamentos não ocorre sem riscos, tornam-se mega-problemas. Para além de
aspectos como distância a percorrer, tipo de percurso e apoio logístico, importa
não esquecer que escolas demasiado grandes são mais permeáveis a insucesso
escolar e exclusão, absentismo, problemas de indisciplina e outros problemas de
natureza comportamental como bullying.
Neste cenário, a decisão de
encerrar escolas não deve ser vista exclusivamente do ponto de vista
administrativo e económico, não pode assentar em critérios generalizados
esquecendo particularidades contextuais e, sobretudo, não servir como tudo
parece servir em educação, para o jogo político.
Vamos ver como vai evoluindo a
situação.
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