quinta-feira, 21 de outubro de 2010

FALTOU A MENSAGEM VÍDEO

O Conselho Nacional de Educação no seu importante relatório hoje divulgado, coloca algumas questões que têm sido recorrentemente abordadas e identificadas por quem conhece minimamente o nosso sistema educativo.
Numa primeira reflexão regista-se as dificuldades e ineficácia dos apoios aos alunos em dificuldades no seu percurso escolar e sublinha também a importância dos apoios sociais de que beneficia um número muito significativo de alunos. Como já referi, esta constatação é algo de familiar a quem se move nos sistema.
Em reacção a esta divulgação do CNE e às preocupações expressas pela sua Presidente, o Ministério emite um comunicado em que se responsabiliza e garante que todas as crianças frequentarão a escola "com todas as condições de aprendizagem" e que nenhuma criança abandonará o sistema por "dificuldades económicas".
Devo dizer que me parece estranho o ME vir a Público afirmar o que obviamente é da sua responsabilidade.
A questão, essa sim preocupante e que não é de todo estranha, é que o ME tem falhado muitos dos aspectos que são da sua área de competência, o que, aliás, o relatório do CNE também evidencia.
Vir a terreiro "descansar" o País sem enunciar as iniciativas que pretende desenvolver face aos problemas identificados, parece-me uma iniciativa que se enquadra no estilo materno-voluntarista à deriva da Ministra Isabel Alçada. Faltou uma mensagem em vídeo.

A POBREZA, AINDA E SEMPRE, A POBREZA

Lamentavelmente a pobreza e o risco de pobreza em Portugal continuam na agenda. Os dados do INE referentes a 2009, que certamente estarão desactualizados em 2010 e ainda mais desactualizados em 2011, mostram que 21,4 % da população vive em condições de privação material. Isto quer dizer, por exemplo, dificuldade em pagar rendas sem atraso, manter a casa aquecida ou fazer uma refeição de carne ou de peixe pelo menos de dois em dois dias. Apesar dos apoios sociais, há algumas semanas, Bruto da Costa, um dos mais conhecidos especialista nestas matérias para além dos verdadeiros pobres, naturalmente, alertava para a ineficácia genérica da Acção Social na diminuição dos números da pobreza. O INE também sublinha a maior vulnerabilidade ao risco de pobreza por parte de família monoparentais com mais de dois filhos bem como os mais idosos, muitos a viver só. Creio ainda ser de relembrar o impacto que as situações de pobreza familiar têm na qualidade de vida dos miúdos e a ameaça que representam na construção de projectos de vida viáveis e bem sucedidos traduzidos, por exemplo, na desejável quebra do ciclo de pobreza.
Não é novidade o baixo impacto que políticas centradas quase que exclusivamente no subsídio, obviamente necessário em muitas circunstâncias, têm no combate à pobreza e exclusão uma vez que não atingem o aspecto essencial que é autonomia na produção de recursos que minimizem as dificuldades económicas.
É óbvio que grupos sociais como idosos exigem modelos e dispositivos de apoio social diferenciados de populações mais jovens e em idade produtiva. É certo que existem algumas iniciativas nesse âmbito como, por exemplo, a promoção de formação profissional no âmbito de programas de apoio.
Acontece, no entanto, que essa oferta é, por vezes, desfasada das necessidades e particularidades contextuais sendo ainda desvalorizada pelos próprios beneficiários que a encaram apenas como condição de acesso a apoios e não como oportunidades de desenvolvimento pessoal e reconstrução de projectos de vida. É pois fundamental que estas iniciativas sejam devidamente avaliadas e regulado o seu desenvolvimento.
Neste quadro importa ainda a coragem de, mais uma vez, ponderar os modelos de desenvolvimento económico e social, diminuir efectivamente o fosso intolerável entre os mais ricos e mas pobres, caminhar no sentido da construção de uma dimensão ética que seja reguladora da atribuição de privilégios incompreensíveis e obscenos para poucos e tolerância face a situações de exclusão extrema para bastantes outros.
Eu sei que escrever sobre estas questões em espaços desta natureza tem alcance zero, mas continuo convencido que é fundamental não deixar cair a preocupação com a pobreza e exclusão. Por isso, a insistência.

A HISTÓRIA DAS CONTAS COM TRANSPORTE

Aqui há tempos numa conversa com o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, ele contou-me uma história engraçada.
Andava lá na escola uma Menina que experimentava dificuldades nas contas com transporte. Lembram-se? Aquelas do "e vai um" como dizíamos em pequenos e que agora certamente terão uma nova designação. A professora da Menina tinha alguma dificuldade em perceber o que se passava pois ela parecia perceber a lógica do transporte a partir da ideia de dezena. Tudo parecia entendido, no entanto, quando a Menina experimentava fazer as contas, lá vinha o erro, sendo que se não houvesse necessidade do "transporte" a coisa corria bem.
A Ana, a professora, comentava esta sua dificuldade com uma colega e o Professor Velho que estava por perto sugeriu-lhe que perguntasse à Menina porque não lhe saíam bem as contas com transporte. A Ana achou que o Velho estava brincar e riu-se, "vou agora perguntar à Menina porque erra, ela não vai saber responder". "Experimenta pedir-lhe para tentar resolver as contas mas pensando em voz alta o que vai fazendo, vais ver que percebes porque erra".
O engraçado da história é que o Professor Velho tinha razão, quando a Menina tentou fazer as contas em voz alta imediatamente ficou clara a razão do erro.
A Menina fazia as contas da esquerda para a direita, tal como lia e não da direita para a esquerda com as contas pedem.
Quanto melhor percebermos os processos que conduzem aos erros, em melhores condições estaremos de os modificar, os processos e os erros, disse ainda o Velho.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

OS CUSTOS DA DEFICIÊNCIA

Os dados de um interessante estudo realizado pelo Centro de Estudos Sociais da Fac. de Economia da Univ. de Coimbra, citado no Público, apontam para que uma pessoa com deficiência possa ter um gasto anual entre 6 000 e 27 000 € decorrentes especificamente da sua condição e considerando diferentes quadros de deficiência. Estes dados estão incompletos porque os investigadores não conseguiram elementos sobre os gastos no âmbito do Ministério da Saúde.
O estudo revela também que apesar de algumas melhorias a situação deste grupo social é ainda muito complicada. São referidos aspectos como"a morosidade das respostas, que se torna dramática em situações urgentes", a dependência da “pessoa que está no guichet" e da permeabilidade ao tão português “dar um jeitinho” que permite acelerar ou desbloquear processos. A falta de eficácia na fiscalização ou a escassez de recursos são também aspectos referenciados. As dificuldades são reconhecidas pela Secretaria de Estado que tutela estas matérias.
Finalmente, o estudo sublinha os enormes custos sociais, não quantificáveis facilmente, envolvidos na vida destes cidadãos e que têm impacto no contexto familiar, profissional, relacional, lazer, etc.
Como é óbvio, os recursos são finitos e o tempo é de contenção. No entanto, pode afirmar-se que para as pessoas com deficiência os tempos sempre foram de recursos finitos e de contenção, ou seja, as dificuldades são recorrentes e persistentes.
Creio também que é justamente no tempo em que as dificuldades mais ameaçam a generalidades das pessoas que se avoluma a vulnerabilidade das minorias e, portanto, se acentua a necessidade de apoio e de políticas sociais mais sólidas, mais eficazes e, naturalmente, mais reguladas.
Assim sendo, exige-se a quem decide uma ponderação criteriosa de prioridades que proteja os cidadãos dos riscos de exclusão, em particular os que se encontram em situações mais vulneráveis.

IMAGEM

Os tempos que atravessamos evidenciam, entre muitíssimos outros aspectos, o papel que a imagem e, mais globalmente, a comunicação assumem em todas as áreas do nosso funcionamento e também, como é obvio, na acção política. Diria até, que actualmente parte importante da acção política assenta na comunicação e na imagem. Não existe serviço ou entidade que não tenha o seu gabinete de imagem e comunicação e respectivo assessores.
Ontem o DN titulava em 1ª página que o Governo prevê um gasto de 23 000 € em seminários e publicidade, hoje o Público que refere que em 2009 o Estado gastou 408 milhões em publicidade o que corresponde a 10,1 % do mercado global sendo que 89 % desse volume se destinou a publicidade televisiva.
Não tenho nenhuma reserva contra a importância atribuída à comunicação e imagem, negá-la seria tapar o Sol com uma peneira. Sabemos todos que o suporte a comunicação podem transformar uma má ideia em boa ideia, se for bem "vendida", e uma boa ideia pode transformar-se em má ideia, se for mal "vendida".
O que me deixa mais embaraçado e inquieto é a frequência com que assistimos por parte dos actores políticos, de todos os actores políticos sublinho, ao despudor e à manipulação de factos, ideias ou sentimentos no sentido de venderem aquilo que em cada momento possa servir os seus interesses particulares.
Se assistirmos a um jornal televisivo ou lendo da imprensa escrita é muito evidente a forma como através da publicidade, mascarada de "opinião" ou mais grave ainda apresentada como "saber", se procura "vender" ao "consumidor" um qualquer produto (ideia, opinião, etc.) que se queira promover.
Este cenário é certamente um dos contributos para a falta de confiança nos políticos que os cidadãos revelam, em estudos de imagem, é claro.

NÃO SOMOS UM PAÍS DE DOUTORES (Take 2)

O Relatório do Conselho Nacional de Educação mostrando que apenas 32% dos alunos portugueses concluem os 12 anos de escolaridade sem conhecer o "chumbo" e o número ainda significativo dos que não concluem vem, mais uma vez, demonstrar a falsidade de uma ideia instalada na opinião pública e muitas vezes alimentada pela ignorância e irresponsabilidade de alguma imprensa, a ideia de que somos um "país de doutores", ou seja, temos um excesso de mão de obra qualificada e condenada ao desemprego. Este entendimento é obviamente falso e frequentemente aqui tenho procurado demonstrá-lo. Sabemos, é conhecido, que temos umas dezenas de milhares de jovens licenciados em situação de desemprego mas, de uma vez por todas, é fundamental que percebamos que, primeiro, eles não estão no desemprego por serem licenciados, estão no desemprego porque temos um mercado pouco desenvolvido e ainda insuficientemente exigente de mão de obra qualificada e estão no desemprego porque, por desresponsabilização da tutela, a oferta de formação do ensino superior é completamente enviesada distorcendo o equilíbrio entre a oferta e a procura como muitas vezes afirmo. Muitas empresas, sobretudo as de menor dimensão, provavelmente devido ao baixo nível de qualificação dos empresários (um dos mais baixos da UE), parecem também mais avessas à contratação de mão de obra qualificada.
Por outro lado, se atentarmos em dados da OCDE e do INE sabemos que um trabalhador licenciado ganha em média mais 80% que alguém com o ensino secundário. Um indivíduo com a escolaridade básica recebe em média menos 57% que alguém com o Ensino Secundário. Apenas 7.5% de pessoas com o 9º ano recebem duas vezes mais que a média nacional enquanto licenciados a receber duas vezes mais que a média são quase 60%. Os filhos de pais licenciados têm 3,2 vezes mais probabilidades de obter uma licenciatura. Entre os 25 e os 34 anos, 19% dos jovens tem uma licenciatura enquanto na OCDE a média é 32%. Em Portugal, o número de licenciados é metade da média da União Europeia. Na franja entre os 35 e 44 anos a percentagem ainda baixa para 13%. Um indivíduo com apenas o básico corre um risco de pobreza 20 vezes superior ao de um indivíduo com um curso superior.
Deste quadro releva a absoluta imprudência de passar a mensagem de que a formação é irrelevante, o desemprego é o destino.
A qualificação profissional, de nível superior ou não, é essencial como também é essencial a racionalidade e regulação da oferta do ensino superior.
Deixem definitivamente de lado a ideia de que somos um país de doutores, é um tiro no pé.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

TUDO SE COMPRA, TUDO SE VENDE, ATÉ AS PESSOAS

A agenda das consciências marca para hoje a preocupação com o Tráfico de Seres Humanos que segundo o Alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados gera um negócio de 2,5 mil milhões de euros na União Europeia e tem como vítimas mais comuns mulheres e crianças. Segundo o relatório há tempo divulgado do Observatório do Tráfico de Seres Humanos (OTSH), 84 pessoas foram sinalizadas no último ano em Portugal como eventuais vítimas de tráfico de seres humanos. Com alguma dramática frequência são também conhecidos casos de cidadãos portugueses que se encontram em situação de escravatura em explorações agrícolas espanholas.
Parece estranho como é possível em tempos actuais, em sociedades desenvolvidas ou consideradas como tal, a existência de tráfico de pessoas.
Este negócio, um dos mais florescentes e rentáveis em termos mundiais, alimenta-se da vulnerabilidade social, da pobreza e da exclusão o que, como sempre, recoloca a imperiosa necessidade de repensar modelos de desenvolvimento económico que promovam, de facto, o combate à pobreza e, caso evidente em Portugal, às escandalosas assimetrias na distribuição da riqueza.
As pessoas, muitas pessoas, apenas possuem como bem, a sua própria pessoa e o mercado aproveita tudo, por isso, compra e vende as pessoas dando-lhe a utilidade que as circunstâncias, a idade, e as necessidades de "consumo" exigirem.
O que parece ainda mais inquietante é o manto de silêncio e negligência com que este drama.

PAI E FILHO - uma improvável cena


- Isto vai ensinar-te que não deves bater nas pessoas.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

VIVÊNCIA E SOBREVIVÊNCIA

Desde que se abateu a crise financeira e depois económica, não antecipada na sua dimensão pela maioria dos gurus que sempre endeusaram o mercado e a sua resiliência, o quadro tem vindo a piorar e, mais grave ainda, a instalar-se a desesperança. Lembrar-se-ão certamente das afirmações de responsáveis governamentais que produziram pérolas como "Portugal está preparado para a crise" ou "a crise acabou".
Durante estes dois últimos dois anos começamos por ouvir os discursos que sugeriam a necessidade de mudar hábitos e estilos de vida, quer à escala familiar quer à escala do país. É preciso poupar, conter despesas, não podemos viver acima das nossas possibilidades, etc. têm sido discursos recorrentes e tal situação é traduzida, por exemplo, no aumento exponencial do crédito malparado das famílias.
Neste cenário, surge a proposta de Orçamento para 2011 que dadas as dificuldades e as prioridades com que parece ser concebido faz desabar sobre as famílias e os trabalhadores por conta de outrem a fatia mais pesada das dificuldades. Deve ainda acrescentar-se o abaixamento também previsto da fatia orçamental destinada às políticas sociais.
Por outro lado, reportando-se a dados de Junho, o INE informa que o salário médio nacional é de 777 € e que 1,44 milhões de pessoas têm salários abaixo dos 600 €, a que importa a acrescentar um milhão de reformados e pensionistas com pensões mínimas.
Este quadro implicará certamente um salto no trajecto de dificuldades que a maioria das pessoas tem vindo a fazer. Começámos por nos preparar para alterar as vivências, a forma como organizamos a nossa vida e as prioridades que definimos. Agora passamos para o patamar da sobrevivência, como aguentar o impacto das enormes dificuldades que temos pela frente tão mal equipados para o combate.
Adivinham-se tempos ainda mais complicados, a luta pela sobrevivência quase sempre tem coisas muito feias.

LINGUAGEM E PODER

Há uns dias o Governo decidiu que a legislação publicada deveria ser acompanhada por um resumo em "português comum" para que o cidadão comum (o que fala português comum) possa entender o texto que no original estará escrito em "juridiquês". O Bastonário dos Advogados manifestou-se contra tal ideia pois a interpretação das leis é matéria de exclusiva competência dos juízes.
O Bastonário, como por vezes lhe acontece, pensou à pressa e como o cidadão comum que fala português comum costuma dizer, "depressa e bem, não há quem". O Dr. Marinho Pinto não entende que aos juízes cumpre administrar a justiça com base nas leis em vigor e que nós os cidadãos comuns temos o direito, sublinho o direito, de entender o que está escrito nas leis que nos regem nos diferentes domínios da nossa vida.
Os códigos de comunicação fechados, sejam de natureza científica ou profissional são nas mais variadas áreas instrumentos de poder, ou seja, apenas os "membros da tribo" dominam a linguagem utilizada pelo que os outros, os comuns, estão impossibilitados de estabelecer relações simétricas e, por exemplo, discutir matérias que lhes dizem respeito porque não percebem a linguagem utilizada.
No nosso quotidiano são inúmeras as situações que ilustram este poder advindo de uma linguagem hermética e desconhecida. A relação de muitos de nós com os técnicos de saúde, com a escola, com serviços públicos, com a informação de natureza económica etc. é, frequentemente uma "comunicação" de sentido único, uns falam, outros escutam mas não entendem e, por isso, não discutem.
No caso particular da justiça é sabido como boa parte do nosso edifício legislativo é produzido por escritórios de advogados que, posteriormente, ganham elevadíssimos montantes em pareceres e interpretações da legislação que eles próprios produziram cheia de armadilhas e alçapões, mais ou menos sofisticados e inacessíveis ao "cidadão comum".
O Dr. Marinho Pinto na apressada defesa dos interesses corporativos que representa, ficou assustado com o facto de um "português comum" poder estar informado sobre as leis que o obrigam sem estar dependente de um douto e caro parecer jurídico. Entende-se.

domingo, 17 de outubro de 2010

SR. POBREZINHO, TENHA PACIÊNCIA

Não deixa de ser uma coincidência curiosa estarmos ainda no rescaldo da apresentação da proposta do Governo de Orçamento Geral do Estado para 2011 e das suas consequências para as famílias no dia em que a agenda das consciências determina o Dia Internacional de Erradicação da Pobreza, e ainda em pleno Ano Europeu de Luta contra a Pobreza e Exclusão. Com cerca de dois milhões de cidadãos em risco de pobreza, 300 000 dos quais crianças, 650 000 desempregados e um terço das famílias com orçamentos encostados ao limiar de pobreza a situação está grave.
Como é habitual nos dias que em que a consciência se debruça sobre a problemática agendada, surge a retórica e mediatização dos problemas. Por um lado, tem a vantagem óbvia de chamar a atenção para essas matérias mas, por outro lado, permite a emergência de discursos e exemplos de atitudes voluntaristas muito mediatizadas, que numa lógica de proteccionismo de natureza caritativa, sendo naturalmente importantes em alguns aspectos, não questionam seriamente os modelos de desenvolvimento (!) e sistema de valores que verdadeiramente produzem a pobreza e a exclusão que se propõem combater, meritoriamente, aliás.
Neste contexto, lembrei-me de alguns episódios da minha infância que ainda agora me causam alguma perplexidade. Na zona onde na altura habitava, era relativamente frequente a aparecerem pessoas a bater à porta para, numa humilhante circunstância, pedir esmola, o mais degradante dos pedidos, que aliás começa a reaparecer. Nessa altura, sem a actual paranóia securitária, ainda eram as crianças que acudiam a ver quem era. Eu assim fazia. E depois de verificar que era “um pobrezinho” (o tal tranquilizante fórmula no diminutivo a que já me referi no Atenta Inquietude) avisava a minha mãe. Sem eu nunca conseguir entender com critérios, ela decidia dar ou não dar esmola, em dinheiro ou em géneros. Mas a minha grande perplexidade, que se mantém até hoje, tem a ver com o facto de que, quando decidia não ser caridosa, a minha mãe mandava-me de volta para dizer ao pobrezinho “tenha paciência”. Devo dizer que ainda hoje esta memória me deixa embaraçado. Então o homem, ou mulher, não tem que comer, não tem trabalho, não leva ajuda ou apoio e ainda tem que ter paciência. É extraordinário como até como caridade se oferecia conformismo. E o que hoje me fez lembrar esta história foi exactamente isso, a normalidade conformista da pobreza e da exclusão.

sábado, 16 de outubro de 2010

SAÚDE, NEGÓCIO E ÉTICA

De há uns anos a esta parte aumentou exponencialmente o recurso aos partos por cesariana produzindo em Portugal a segunda taxa mais elevada da Europa. Como não parece haver justificação de ordem clínica para que as mulheres portuguesas recorram mais a este tipo de parto, resta o óbvio, a cesariana é um negócio tal como muitos outros nessa importantíssima área de mercado que é a saúde. Pode aliás verificar-se que nos serviços de saúde privados a taxa de cesarianas é quase o dobro da média global nacional, segundo dados de 2005 temos 65.9% e 34.8%, respectivamente.
Por iniciativa de um grupo de especialistas na Região Norte vai ser apresentado um plano de redução do recurso à cesariana que contempla, entre outras medidas, um incentivo individual aos médicos que recorram menos a esta opção. A medida parece levantar alguma polémica e o Bastonário acorre rapidamente considerando “um grave atentado à ética médica … Nenhum médico pode tomar uma decisão por estímulo financeiro”.
Como não podia deixar de ser, concordo com o Senhor Bastonário, as decisões em matéria de actos médicos não devem decorrer de questões financeiras. Só não percebo muito bem é como o Senhor Bastonário explicará o facto de nos hospitais privados a realização de cesarianas ser quase o dobro do que se passa em termos médios nacionais. Certamente não poderá ser explicado pelos quadros clínicos das mulheres que recorrem a essas unidades de saúde privadas.
Um pormenor certamente irrelevante, a quantia paga aos hospitais por uma cesariana é maior que por um parto vaginal. Mas não estamos a falar de dinheiro porque, obviamente, seria eticamente inaceitável.
Claro.

ESCOLAS GRANDES, PROBLEMAS MAIORES, RESULTADOS MENORES

Das linhas conhecidas sobre a educação, depois da divulgação genérica do Orçamento Geral do Estado para 2011, queria sublinhar dois aspectos positivos, a universalização da educação pré-escolar a partir dos 3 anos e a intenção de “reajustamento do plano curricular” uma necessidade imperiosa sobretudo no ensino básico, e uma preocupação que já vem de trás, a continuidade da política de mega-agrupamentos e estabelecimentos educativos de grande dimensão. Como já tenho afirmado é necessário prosseguir no processo de reordenamento da rede escolar mas a insistência em grandes escolas e agrupamentos é, de facto, preocupante se soubermos que o ME estabelece como média os 1700 alunos e como limite os 3000 como critério. Estes números são completamente comprometedores da qualidade e, portanto, inaceitáveis.
De há muito que se sabe que um dos factores mais contributivos para o insucesso, absentismo e problemas de disciplina é o efectivo de escola. Não é certamente por acaso, ou por desperdício de recursos, que os melhores sistemas educativos, lá vem a Finlândia outra vez, e agora os Estados Unidos na luta pela requalificação da sua educação optam por estabelecimentos educativos que não ultrapassam a dimensão média de 500 alunos. Sabe-se, insisto, de há muito que o efectivo de escola está mais associado aos problemas que o efectivo de turma, ou seja, simplificando, é pior ter escolas muito grandes que turmas muito grandes.
É fundamental que a comunidade tenha consciência deste universo de modo a tentar travar o movimento de construção de autênticos barris de pólvora e contextos educativos que dificilmente promoverão sucesso e qualidade apesar do esforço de professores alunos, pais e funcionários.
Não conheço nenhuma justificação de natureza educativa que sustente a existência vantajosa de escolas grandes. A razão para a sua criação só pode, pois, advir da vontade de controlo político do sistema, menos escolas envolvem menos directores ou de questões economicistas que a prazo se revelarão com custos altíssimos pela ineficácia e problemas que se levantarão.
As dificuldades económicas não podem justificar o compromisso com a qualidade, sobretudo quando verificamos que as prioridades estabelecidas estão longe de parecer justas e equilibradas.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

RANKINGS, UM PRODUTO SAZONAL

O Outono, entre outras coisas bem mais interessantes, traz-nos a sazonal divulgação das classificações das escolas mais conhecida pela questão dos “rankings”. O Ministério divulga os resultados e dados relativos às escolas, alguma imprensa entretém-se a olhar para esses dados e produzem-se umas classificações “criteriosas”, com “indicadores ponderados”, utilizando “diferentes critérios”, etc. etc. Curiosamente, os estudos publicados concluem invariavelmente pela “supremacia das escolas privadas face às públicas”, que as escolas do litoral apresentam genericamente melhores indicadores que as do interior, como seria de esperar num país assimétrico e litoralizado, sendo ainda que os pólos de Lisboa, Coimbra, Porto e Braga acolhem as escolas que genericamente melhores resultados evidenciam, que as escolas das regiões autónomas mostram globalmente piores indicadores, etc. Parece-me claro que, para quem conhece minimamente o país, em particular o país educativo, estes dados são obviamente previsíveis. Embora entenda que os dados relativos aos resultados dos alunos possam e devam ser tratados e divulgados, a minha questão é “QUAL O CONTRIBUTO SIGNIFICATIVO QUE A ORGANIZAÇÃO E DIVULGAÇÃO DESTES “RANKINGS” OFERECE PARA A MELHORIA DA QUALIDADE DO SISTEMA?”. No meu entendimento a resposta é: “pouco relevante”, porque é possível antecipar os seus resultados sem grande margem de erro e porque não se traduzem em medidas de política educativa. E tanto mais relevante o será quanto menor é a qualidade de vida social, económica e cultural das populações, comprometendo de forma inaceitável princípios de equidade. Rankings? Uma ideia de teor liberal que alimenta a obsessão pela excelência que, sendo de promover, não pode transformar-se numa cruzada “neo-darwinista” que produz exclusão. Como hoje no Público mais uma vez se reconhece existem escolas, é um facto por muitos conhecido, que recusam matrículas para proteger a sua posição no ranking.
Sendo um defensor intransigente de uma cultura e prática de exigência, avaliação e qualidade, parece-me bem mais importante o aprofundamento dos mecanismos de autonomia e responsabilização e a constituição obrigatória em todos os agrupamentos ou escolas de Observatórios de Qualidade que integrem também elementos exteriores à escola. Existem capacidade técnica e recursos suficientes. O trabalho realizado por esses Observatórios, este sim, deveria ser divulgado e discutido em cada comunidade e passível de leituras cruzadas com os resultados nacionais.

AS OBRAS DE ARTE

A terminologia que usamos e que, naturalmente, está em permanente construção oferece, por vezes, algumas situações menos esperadas.
Até à altura em que devido a circunstâncias familiares a comecei a ouvir, não conhecia a expressão "obras de arte" como designação das estruturas mais conhecidas, por mim pelo menos, por pontes. De facto, no mundo da construção civil uma ponte não é uma ponte, é uma obra de arte. Devo dizer que me parece ser uma opção mais bonita e que desconheço a sua origem.
No entanto, depois de alguma surpresa inicial, acho que a designação é apropriada. Uma ponte é um dispositivo, por assim dizer, que, em muitas circunstâncias, permite a ligação mais fácil, ou é mesmo a única forma de ligar dois pontos, duas instâncias, que uma qualquer barreira separa. Dito de outra forma, uma ponte é algo que permite a comunicação.
Embora estejamos, diz-se, num mundo cuja característica mais marcante é a comunicação, tenho para mim que atravessamos uma séria e generalizada dificuldade em comunicar. Devo dizer que gostava de ser eu a estar enganado mas um olhar sobre o que nos rodeia, seja à escala individual, miúdos sós, famílias com baixos níveis de comunicação, seja a escalas de outra dimensão, as dificuldades ou até a ausência de diálogo, de comunicação, é preocupante.
Neste contexto e pela sua importância, acho que qualquer dispositivo que promova a comunicação, que aproxime distâncias, que facilite a relação, só pode mesmo ser uma obra de arte.
E como estamos necessitados de obras de arte. A questão é que a arte nunca parece ser uma prioridade.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A AJUDA NO BERÇO. De pequenino é que ...

O Público refere-se hoje às dificuldades que atravessa a instituição de solidariedade social Ajuda de Berço que apoia cerca de 40 crianças para aí encaminhadas pelas Comissões de Protecção de Crianças e Jovens.
Nos tempos que correm ninguém estranhará certamente a referência a dificuldades de natureza económica. A crise é grande e, como diz o povo, o dinheiro não chega para tudo. Também penso que será consensual que em tempo de vacas magríssimas temos que ser altamente cautelosos com o rigor dos gastos mesmo na chamada área social.
A questão que se me coloca sempre é a natureza da definição de prioridades que quem decide assume.
Ainda hoje é noticiado no I um estudo defendendo que a redução em 20% do orçamento dos 350 institutos públicos, estruturas de que frequentemente não percebemos as competências e o resultado da sua intervenção, partindo do pressuposto que intervêm em alguma coisa permitiria não aumentar o IVA. Isto quer dizer que se estabelecessem prioridades ajustadas no combate ao desperdício, na promoção do rigor e na justificação dos gastos públicos, talvez pudéssemos evitar notícias como a que serve de base a este texto.
De facto, miúdos que já nasceram em ambientes de exclusão que são retirados das famílias pelas mais variadas razões, continuando vulneráveis e sem voz voltam a estar ameaçados.
É verdade, há gente que não vai livrar-se nunca da sua condição de "em risco" ou de "excluído". A responsabilidade é, também, nossa.

A HISTÓRIA DO NADA

Era uma vez um homem chamado Nada. O seu nascimento não foi mais que um nada numa família de Nadas pelo que nada de relevante se registou, apenas mais um Nada.
A escola do Nada foi uma passagem que quase nada lhe deixou, aliás, abandonou-a antes da altura devida pois sentia que ali não fazia nada e para nada lhe serviria. Pelo facto do Nada ter saído da escola nada aconteceu.
O Nada atravessou a adolescência sem que nada lhe mostrasse um futuro. Já de pequeno quando alguém, raramente pois as pessoas não se interessam muito por Nadas, lhe perguntava o que queria ser quando fosse grande, respondia num indiferente encolher de ombros, nada.
A vida do Nada era pois composta dos pequenos nadas que se sucediam com nada de mudança.
Um dia, sem que nada dissesse, o Nada partiu daquela terra onde nada tinha, à procura de uma terra onde nada teria.
Ninguém sentiu a falta do Nada, nem a família que nada sabia dele desde um tempo sempre.
No meio de tantos Nadas, a ausência de um passa completamente despercebida. É assim a vida dos Nadas, um nada feito de nadas.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

GOSTAVA DE TE ADICIONAR COMO AMIGO

No Público divulga-se um estudo sobre o envolvimento em redes sociais. Este estudo que inquiriu indivíduos de 40 países conclui que os portugueses estão em quarto lugar entre os 17 países da Europa que participaram. Têm em média 196 amigos, repito 196 amigos, nas várias redes sociais em que se integram. Considerando o intervalo dos 16 aos 20 anos ascendemos ao segundo lugar, notável.
Estes dados vêm ao encontro da minha experiência mais recente. Nos últimos tempos tenho andado francamente entusiasmado com a quantidade de pessoas que se me dirigem convidando-me para amigo e propondo-me a integração numa rede social. De facto, numa época em que nos referimos, aqui no Atenta Inquietude tenho-o feito com frequência, ao isolamento em que muita gente parece estar, surpreende-me a disponibilidade solidária com que tanta gente encara o risco de eu estar sem, ou com poucos amigos. A surpresa é tanto maior quando verifico que a esmagadora maioria dos convites vem de pessoas que não tenho ideia de conhecer de lado algum.
Já pensei que será gente que assumiu uma espécie de missão em regime de voluntariado na qual se empenham em oferecer amizade a eventuais necessitados. É bonito e cria uma ilusão de esperança na humanidade, afinal as pessoas continuam a empenhar-se na relação com o outro e a preocupar-se com a amizade.
Por outro lado, uma das fórmulas divulgadas "gostava de te adicionar como amigo" é particularmente feliz, eu acho. A ideia de ir somando amigos, chegando a centenas ou, quem sabe, a milhares, permite sonhos de popularidade e amizade nunca antes imaginados. Estou completamente rendido.
Por favor, não desistam de enviar a toda a gente, a mim também, as fantásticas mensagens que contêm os criativos e solidários "gostava de te adicionar como amigo" ou "tituxa enviou-te um Pedido de Amizade".
Bem-haja pela atenção.

A HISTÓRIA DO ARTESÃO

Uma vez conheci um Artesão como não há muitos, era um homem de uma sabedoria e de um amor à sua arte que impressionava.
Desde miúdo que sonhava dedicar-se à arte que viria a ser a sua. Preparou-se bem e mesmo já a trabalhar sempre procurou compreender mais, falando com outros mestres e outras pessoas que o Artesão entendia que o podiam ajudar a ser melhor.
Mesmo sendo um Artesão muito experiente e trabalhando sempre com a mesma matéria, quando começava cada trabalho estudava e pensava em cada peça que iniciava. Muitas vezes fazia o mesmo tipo de trabalho mas sabia que os materiais nunca são exactamente iguais e por isso não podem ser sempre trabalhados da mesma maneira. O Artesão dizia muitas vezes que temos de respeitar as diferenças nos materiais, só assim conseguiremos que eles acabem por se transformar em peças valiosas e, na verdade, as peças que saíam das mãos do Artesão eram peças valiosas, muito valiosas.
O Artesão referia frequentemente que algumas das peças se tornavam muito fáceis de produzir, tinham características próprias que lhe facilitavam o trabalho, outras, como ele dizia, davam luta, resistiam ao trabalho, às vezes nem corria bem, mas, quase sempre conseguia algo de interessante e bonito.
Este Artesão tinha uma outra qualidade que o tornou conhecido, não guardava a sua arte só para si, gostava de falar dela, de ajudar os mestres que estavam a começar e que também apreciavam o seu trabalho e a sua ajuda.
Coisa estranha, agora que estou a acabar a história do Artesão reparei que não referi a arte a que se dedicava. Era Professor. A sério.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

SOS Pais

O DN de hoje toca numa matéria que algumas vezes tenho abordado no Atenta Inquietude e que entendo nem sempre merecer a atenção que justifica. Refiro-me às dificuldades, diria incapacidade, que muitos pais sentem para lidar com os problemas colocados pelos filhos.
No ano passado 2342, 8.8% do total, casos de pedido de ajuda às Comissões de Protecção de Crianças e Jovens foram realizados pelos pais.
Na maioria dos pedidos tratava-se obviamente de situações em que os pais já não conseguem controlar os comportamentos e atitudes de adolescentes, ou mesmo crianças, pelo que recorrem às Comissões. Estas, através de um esforço de mediação procuram evitar a situação, por vezes desejada pelos pais, da retirada da criança ou jovem do agregado familiar com recurso à institucionalização.
De facto, de há muito afirmo que o exercício da parentalidade não é tarefa fácil, as crianças e adolescentes colocam problemas novos com que muitos pais, e até profissionais, têm dificuldade em lidar. Embaraça-me a excessiva ligeireza com que frequentemente se culpam os pais pelos problemas dos filhos. Enquanto pais serão responsáveis, mas por vezes os problemas estão para além da capacidade de resposta das famílias. Não estou a falar dos casos de negligência, que também existem e devem ser objecto de intervenção, mas de dificuldades reais sentidas por pais que querem ser bons pais e da inexistência de estruturas de apoio acessíveis e generalizadas a essas dificuldades.
Neste contexto e porque os problemas das crianças e jovens em idade escolar não podem deixar de envolver as escolas parece-me imprescindível que nos estabelecimentos educativos ou próximo e com funcionamento articulado existam dispositivos de apoio às famílias e ao exercício da parentalidade que ajudem no trabalho dos pais e à relação destes com a escola.

DE AVIÁRIO

É com alguma frequência que me lembro duma mulher enorme de quem já vos tenho falado, a minha avó Leonor, que já partiu há muito. Hoje, olhando para dentro e atento ao que se passa por fora, recordei uma expressão que lhe era comum e que aplicava a tudo o que não lhe parecesse genuíno e de qualidade, "é de aviário". Tal hábito radicava no facto de vivendo numa quinta, tudo o que dela tirava era genuíno e criado como deve ser, sem os truques de aviário que abastardam os produtos. Foi incapaz de comer alguma vez, por exemplo, frango que não fosse criado por ela, com o que a quinta dava.
Pois recordei-a e assustei-me. Se a avó Leonor voltasse iria achar que já é tudo de aviário, não só os produtos de alimentação, aliás, ela não iria certamente acreditar que parte do peixe que se consome já é de aviário.
Na verdade, a sociedade parece estar a aviarizar-se. Os miúdos são criados fechados, alimentados a fast-food. Curiosamente dizemos que nos preocupamos e os protegemos, mas eles nunca foram tão dependentes e nós bem nos esforçamos para que assim seja.
A rua e a comunicação presencial substituem-se pela realidade virtual, o sozinhismo impera, e ainda lhe chamamos redes sociais, o que é notável.
As lideranças já não se alimentam de causas, desígnio, missão, bem comum mas de subprodutos como influência, poder pequenino, calculismo. São lideranças de aviário, bem querem parecer genuínos e sérios mas quando falam ou agem, percebe-se a contrafacção. Nós já não decidimos o que deve acontecer nos mercados, os mercados decidem o que deve acontecer em nós.
O pensamento divergente de quem é criado ao ar livre, é substituído pelo pensamento convergente ditado pelos diferentes aparelhos instalados que debitam a ração certa, à hora certa.
Não, a avó Leonor não iria acreditar como nos vamos tornando progressivamente uma sociedade de aviário.
Bom, tenho de terminar, está na hora do leite magro com flocos de cereais integrais e de uma fatia de pão sem sal com sementes que combatem o colesterol, barrado com um pouco de manteiga de óleos vegetais e rica em Ómega 3.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

OS MIÚDOS A QUEM DÓI A ALMA

No DN de hoje aborda-se a meritória acção dos Gabinetes de Apoio ao Aluno e à Família, existentes em várias escolas, sublinhando os bons resultados obtidos em situações de bullying com intervenção junto de vítimas e de agressores. Estes gabinetes, a funcionar no âmbito de um programa do Instituto de Apoio à Criança, dedicam ainda a sua atenção a situações relativas aos consumos, à sexualidade e à utilização segura da Net. De uma forma geral, os técnicos dos GAAFs têm desenvolvido um bom trabalho embora, do meu ponto de vista, passado um eventual período experimental, esse trabalho devesse ser desenvolvido por técnicos integrados nas escolas e não com a habitual dispersão que se verifica em Portugal.
Na verdade, esta intervenção é de uma necessidade. Os tempos estão difíceis e crispados para os adultos, seguramente para boa parte dos adultos, e para os miúdos a estrada também não está fácil de percorrer. Alguns vivem, sobrevivem, em ambientes familiares disfuncionais que comprometem o aconchego do porto de abrigo, afinal o que se espera de uma família. Alguns percebem, sentem, que o mundo deles não parece deste reino, o mundo deles é um bairro insustentável que, conforme as circunstâncias, é o inferno onde vivem ou o paraíso onde se acolhem e se sentem protegidos. Alguns sentem que o amanhã está longe de mais e um projecto para a vida é apenas mantê-la. Alguns convencem-se que a escola não está feita para que nela caibam. Alguns sentem que podem fazer o que quiserem porque não têm nada a perder e muito menos acreditam no que têm a ganhar.
Alguns destes miúdos vão carregar para a escola a dor de alma que sentem mas não entendem, por vezes.
Não, não tenho nenhuma visão idealizada dos miúdos, nem acho que tudo lhes deve ser permitido ou desculpado e também sei que alguns fazem coisas inaceitáveis e, portanto, não toleráveis. Só estou a dizer que muitas vezes a alma dói tanto que a cabeça e o corpo se perdem e fogem para a frente atrás do nada que se esconde na adrenalina dos limites.
Espreitem a alma dos miúdos, sem medo, com vontade de perceber porque lhes dói e surpreender-se-ão com a fragilidade e vulnerabilidade de alguns que se mascaram de heróis para uns ou bandidos para outros, procurando todos os dias enganar a dor da alma.

A COMICHÃO DO CRESCER

Não é raro que a entrada na pré-adolescência e adolescência seja acompanhada pelo aparecimento de uma irritante comichão decorrente das "borbulhas" do crescimento. Ainda menos raramente, os pais dos miúdos que entram nesta fase desenvolvem também uma fortíssima comichão resultante dos comportamentos, nem sempre esperados e entendidos, dos seus miúdos.
A esta fase de comichão em filhos e pais corresponde também com alguma frequência uma espécie de afastamento e abaixamento dos níveis de comunicação recíprocos o que, naturalmente, acentua a comichão que sendo ela irritante, acaba por deixar todos muito irritados.
Como também é previsível nestas idades, os miúdos tendem a procurar os anti-histamínicos junto dos amigos que, claro, também atravessam um período em que sentem a comichão do crescer e "padecem" das mesmas inquietações.
Por outro lado, os pais, muitas vezes assustados, não sabem como procurar os miúdos e viram-se, na melhor das hipóteses para outros pais com comichão e falam deles, dos filhos, não falando com eles, os filhos. Na pior das hipóteses, os mais assustados escondem, tentam esquecer e não sentir a preocupação com a comichão, esperando que a simples passagem do tempo, que se deseja rápida, a cure.
Talvez fosse de recordar que a comichão do crescer é algo de absolutamente natural, como talvez se lembrem nem sempre é fácil crescer, ficar diferente.
Assim, a gente mais crescida, mais experiente, estando atenta aos sinais, pode contribuir para tranquilizar os miúdos, não se assustando, dando-lhes espaço e tempo para perceber que vão ser capazes de lidar com a comichão do crescer.

domingo, 10 de outubro de 2010

DOENÇA MENTAL

A agenda das consciência marca para hoje a atenção ao Dia Mundial da Doença Mental. Por assim ser, duas notas.
A doença mental é algo que, obviamente, não constitui uma preocupação significativa em matéria de saúde em Portugal. Por outro lado e curiosamente, no discurso comum e, sobretudo no discurso político é muito frequente a utilização, que considero insultuosa, de terminologia própria à doença mental. Todos os dias ouvimos referências às posições ou discursos esquizofrénicos da oposição ou do governo, conforme os registos, às posições ou discursos que se consideram neuróticos ou obsessivos, à banalização do termo depressão, etc. Aliás, tal abuso já foi objecto de uma iniciativa na Assembleia da República no sentido de o combater.
Sabemos também que Portugal tem uma das mais altas taxas de consumo de psico-fármacos da Europa e diferentes estudos sugerem que um em cada cinco portugueses pode ter alguma forma de perturbação do foro da doença mental sendo que a perturbação da ansiedade parece ser a mais prevalente. É também conhecido o efeito que situações ameaçadoras ou de dificuldades podem ter no emergir de perturbações pelo que o cenário dos próximos tempos não se afigura animador.
Tal como o Público hoje refere, temos ainda um número excessivo de doentes mentais condenados ao internamento eterno quando o consenso terapêutico actual passa por um princípio de manutenção do doente mental em situação de integração social em situações variáveis desde a unidade residencial de pequena dimensão e funcionamento familiar com várias tipologias dirigida a problemáticas diversas, à unidade sócio-ocupacional, até às equipas de apoio familiar.
Pretende-se sobretudo evitar o "internamento eterno" e, no caso de crianças e jovens adequar as respostas aos quadros clínicos, sempre na perspectiva de manter um princípio de integração social e comunitária.
Eu gostava de ser optimista mas a experiência tem mostrado que a doença mental é, nas mais das vezes, um parente pobre no universo das políticas de saúde. Vamos ver.

sábado, 9 de outubro de 2010

A PEGADA ÉTICA

A propósito das notícias sobre a realização de dois eventos sociais comemorativos do aniversário de serviços públicos, a Direcção Geral de Contribuições e Impostos e ANACOM, em que se gastaram cerca de 370 000 € num insulto obsceno nos tempos que atravessamos e o despudor ético que tais comportamentos significam, lembrei-me de um pequeno texto que há algum tempo aqui tinha colocado e que me apetece recordar.
O despertar das consciências para as questões do ambiente e da qualidade de vida colocou na agenda a questão das pegadas, das marcas, que imprimimos no mundo através dos nossos comportamentos. Este novo sentido dado às pegadas tornou secundárias e ultrapassadas as míticas pegadas dos dinossauros e as românticas pegadas que os pares de namorados deixam na areia da praia.
Fomo-nos habituando a ouvir referências às várias pegadas que produzimos com nomes e sentidos mais próximos ou mais distantes mas, sobretudo, tem-se acentuado a grande preocupação com a diminuição do peso, isto é, do impacto das nossas pegadas. Conhecemos a pegada ecológica numa perspectiva mais global ou, em entendimentos mais direccionados, a pegada hídrica, a pegada energética, a pegada verde, a pegada do papel, a pegada do carbono, etc.
Do meu ponto de vista e sempre preocupado com o ambiente, com a qualidade de vida e com a herança que deixaremos a quem nos segue, nunca encontro referências e muito menos inquietações sérias com a pegada ética, isso mesmo, a pegada ética. Os comportamentos e valores que genericamente mobilizamos têm, obviamente, uma consequência na qualidade ética da nossa vida que não é despicienda. Os maus-tratos e negligência que dedicamos aos princípios éticos mais substantivos provocam um empobrecimento e degradação do ambiente e da qualidade de vida das quais cada vez parece mais difícil recuperar.
As lideranças, hipotecando a sua condição de promotores de mudanças positivas são fortemente responsáveis pelo peso e impacto que esta pegada ética está a assumir.
Vai sendo tempo de incluir a pegada ética no universo da luta pelo ambiente, pela qualidade de vida e pelo futuro.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

UMA OUTRA DIMENSÃO DA CRISE

Embora não seja fácil procuro resistir a falar da crise e dos discursos políticos sobre a crise, fico-me por uma outra dimensão.
O JN de hoje divulga uns dados que me parecem interessantes e justificam umas notas de reflexão. Segundo o Eurostat e reportando-se a 2008, em Portugal, 47,6% dos homens entre os 25 e os 34 anos e 34,9% das mulheres na mesma faixa etária vivem ainda em casa dos pais. Estes valores são dos mais altos encontrados na União Europeia.
Estes números, que certamente passarão de forma discreta, podem ser encarados como uma outra dimensão da crise, bastante menos considerada. De facto, já perto de metade dos jovens em idade de autonomizar o seu projecto de vida, quer em termos profissionais, quer em termos pessoais, vê-se obrigada a permanecer na casa familiar na maioria dos casos por dificuldade na entrada no mercado de trabalho e mesmo entre os que conseguem, muitos envolvem-se em situações de precariedade. Tal situação implica, obviamente, uma quase ausência de estabilidade e meios para, por exemplo, conseguir casa própria e construir projectos de vida e de realização pessoal.
Como dado colateral mas de fortíssima importância, este cenário repercute-se seriamente na demografia pois o prolongamento da permanência junto da família tende a atrasar ou a inibir os projectos de maternidade e paternidade contribuindo assim para o preocupante inverno demográfico que atravessamos.
Finalmente, uma nota para uma outra dimensão envolvida com impacto significativo mas de difícil contabilização, refiro-me à confiança. Boa parte destes jovens terá feito um investimento, maior ou menor, numa perspectiva de futuro e num projecto de vida. Quando atingem a idade de o desenhar percebem como esse futuro de autonomia parece inacessível o que provavelmente conduzirá a uma percepção de desconfiança face ao futuro e à capacidade de o influenciar. Daí à desistência é um passo, pequenino e perigoso.

O HOMEM QUE VIVE DO AR

Lá naquela terra onde acontecem coisas há um homem que vive do ar, é verdade, vive do ar.
É curioso que desde muito novo, alguma gente o avisava de que não iria conseguir viver do ar. Quem o conhecia achava-o um habilidoso, sempre à procura de esquemas estranhos para conseguir alguma coisa. Contava umas mentiras de um lado, falhava umas promessas do outro, arranjava umas desculpas bem montadas e com alguma ligeireza ia construindo a sua vida. Naquela terra onde acontecem coisas o desenrascar, por assim dizer, é habitual.
Face ao comportamento do Homem algumas pessoas insistiam, "tens que mudar e aprender a fazer qualquer coisa de sério, não vais poder viver do ar", "não podes ser assim toda vida, andar sempre a inventar habilidades, julgas que vais viver do ar", etc.
Mas nada parecia levar o Homem a mudar algo, ia levando assim a sua forma de estar na vida e, ao fim de algum tempo, para espanto dos que o acompanharam mais de perto, conseguiu mesmo começar a viver do ar.
Tornou-se especialista em mostrar um ar sério, um ar de pessoa competente em muito assuntos, um ar de pessoa interessada pelos outros, um ar de pessoa com capacidade para resolver problemas, fáceis ou mais complicados, enfim um ar de qualquer coisa que parecesse bem. Até ascendeu a lugares importantes lá na comunidade, sempre a partir do ar que compunha.
Naquela terra onde acontecem coisas, muita gente gosta das pessoas que mostram um ar de qualquer coisa que lhes pareça positivo.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

HISTÓRIA DE AMOR

Numa agenda marcada pela crise, o orçamento, as previsões catastrofistas, a retórica dos políticos, ou seja, nada de novo, emerge uma história de amor, coisa importante e que merece reflexão.
O Rapaz, com catorze anos, lá dos lados de Ponte da Barca, enamorou-se via Net, tinha que ser, por uma Rapariga cá dos meus lados, do Seixal, recolhe uns euros para a viagem, pega no carrinho da mãe e faz-se à estrada, o amor é assim, impulso.
Como o amor retira lucidez, o Rapaz vai perceber rapidamente, deixou no quarto o mapa sacado da Net que o traria ao Seixal e, dizem, um bilhete com um apaixonado e original "amo-te baby". Tal descuido valeu-lhe a pronta localização e a interrupção da sua estadia amorosa 400 kms a sul de casa numa espécie de migração afectiva.
Das notícias sobre o assunto relevam comentários sobre os comportamentos do Rapaz, algo isolado, muito dado à companhia do computador, tal como boa parte da gente da sua geração. O avô acha mesmo que a "a culpa é dessas coisas da Internet, onde eles aprendem a fazer de tudo e os levam para estes caminhos", discurso de velho, já se vê embora, na verdade, saibamos que se escondem alguns perigos nestas modernices a que importa estar atento.
Os adolescentes são notícia, quase sempre, pelos maus comportamentos de delinquência ou pré-delinquência que mostram como os tempos estão conturbados e os valores alterados.
No entanto, de vez em quando, uma notícia redentora, um Rapaz de 14 anos apaixona-se e atravessa o país em busca da sua amada, deixando como rasto o mapa anunciado da deslocação e a mensagem que o orienta, "amo-te baby".
Seria bonito que a felicidade deste Rapaz, isolado, pacato e que gosta de computadores, começasse aqui. Força, Rapaz.

AS MÃOS QUE ENSINAM

Um dia destes a Sara, professora de gente pequena, encontrou-se no refeitório da escola com o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros. A conversa, para não variar, foi sobre o trabalho de ensinar e aprender.
Estava a lembrar-me da reunião que ontem tivemos. Velho, que me dizes à polémica que vai por aí sobre a utilização dos computadores com os gaiatos pequenos? Estás contra ou a favor?
Na minha idade já nem sempre consigo estar de forma definitiva, contra ou favor de muitas coisas. A questão dos computadores na sala de aula com os miúdos pequenos é um exemplo, acho que não se pode discutir assim.
Então?
Como é evidente os computadores fazem cada vez mais parte da nossa vida em múltiplas dimensões. Assim sendo, considerando que a escola deve lidar e colocar os miúdos a lidar com as coisas da vida, o computador poderá aparecer e integrar-se, no trabalho "sério" ou nas brincadeiras, é uma questão de bom senso. Por outro lado, quando se começa a mexer nas letras, a juntá-las e a escrever, parece-me muito importante que as mãos escrevam, desenhem as letras, construam as histórias. Às vezes dizem que os miúdos se motivam mais porque os computadores são inovadores. É um equívoco, os miúdos motivam-se por aquilo que gostam e aprendem a gostar. E para aprender a gostar também é preciso saber fazer. Repito, parece-me essencial que as mãos conheçam as letras, como elas se desenham, como elas se juntam e o que elas são capazes de dizer. Utilizar o computador será útil para algumas outras tarefas ou actividades que não substituem escrever e construir textos com as mãos.
Sabes que tanto como a cabeça ensina as mãos, as mãos ensinam a cabeça. Quando as mãos e a cabeça aprendem e sabem, então o computador também já pode ser uma caneta. Dá para entender Sara? É por isso que estou contra e a favor do uso dos computadores pelo gaiatos pequenos ou, se preferires, a favor e contra.
Parece simples Velho, porque se discute tanto?

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

CONFLITOS, PROFESSORES E EDUCAÇÃO

O Público de hoje divulga a realização de um programa de formação de professores na área a gestão de conflitos. Este programa, da responsabilidade do Professor João Amado da Universidade de Coimbra, envolverá numa primeira fase 225 professores.
Por princípio, qualquer iniciativa séria e competente, como será o caso, de promover o desenvolvimento profissional e científico dos docentes é de registar. No entanto, para além da melhor preparação para lidar com situações extremas em sala de aula, creio que nos tempos que correm a conflitualidade nas escolas também radica em aspectos nem sempre considerados, a imagem social dos professores e a sua cultura profissional.
A imagem social dos professores tem vindo a sofrer uma erosão significativa, alguns estudos e a chamada "opinião pública" reflectem-no. As razões são variadas e dificilmente compatíveis com a abordagem neste espaço mas creio que uma boa parte da política educativa dirigida aos professores nos últimos anos, uma boa parte dos discursos dos lideres sindicais e os discursos ignorantes e irresponsáveis de alguns "opinion makers" têm dado um bom contribuo para que, em termos sociais, a imagem dos professores se desvalorize. Este processo mina de forma muito significativa a relação que pais e alunos têm com os professores, ou seja e sendo deselegante, "uma classe de gente que não trabalha", "que não se interessa pelos alunos", "que não quer ser avaliada", etc., (basta ver muitos dos comentários on-line a notícias que envolvem professores), não é, obviamente uma classe que mereça respeito pelo que se instala de mansinho um clima de reacção, desconfiança e fraqueza que minimizam o exercício da autoridade. Os pais e alunos que agridem e ofendem professores são uma espécie de "braço armado" dessa imagem social induzida.
Por outro lado, a cultura profissional e institucional em boa parte das nossas escolas e agrupamentos é ainda marcada por um excesso de individualismo. Quero dizer com isto que, lamentavelmente, os professores evidenciam níveis de cooperação e partilha profissional abaixo do que seria desejável. As razões serão várias e não cabem aqui, mas creio que justificam, muitas vezes, a não realização de queixas de incidentes, muitas vezes graves, por receio de exposição e demonstração de fragilidades face a colegas e responsáveis, o que uma cultura de maior cooperação atenuaria. Acresce ainda que, por desatenção, incompetência ou negligência muitas direcções de escolas e agrupamentos não vão muito longe na definição de dispositivos de apoio, recorrendo a outros docentes mais experientes ou à presença de dois professores por exemplo, que dariam aos professores apoio e confiança para o trabalho com os seus alunos.
Finalizando, independentemente de outras medidas certamente necessárias, urge caminhar no sentido de reconstruir a imagem social dos professores como fonte imprescindível de autoridade, saber e importância e, paralelamente, incentivar a construção nas escolas de dispositivos leves e ágeis de apoio aos professores de forma a que cada um não se sinta entregue a si próprio e com receio de "enfrentar" os alunos e os pais, a pior das situações em que um docente se pode sentir.
Este caminho é da responsabilidade de todos, ministério, sindicatos, direcções de escola pais, professores e alunos.

PAI E FILHA, OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL - o material escolar

Pai, podes ajudar-me a arrumar o material da escola?
Claro Joana, mas uma rapariga já no 5º ano deve saber arrumar o seu material. Então o que é que tens para arrumar?
Tenho que ler para dizer tudo, mas é isto.
Os manuais são: Ciências da Natureza - Viva a Terra! 5 - Ciências da Natureza e o caderno de actividades; História e Geografia de Portugal - Saber em Acção 5; História e Geografia de Portugal e o caderno de actividades; Inglês - WIN! e o caderno de actividades; Língua Portuguesa - Voando...Nas Asas da Fantasia; Matemática - Matemática 5 e o caderno de actividades; Educação Visual e Tecnológica - Gesto - Imagem 5º/6º; Educação Física - Jogo Limpo 5.º/6.º; Educação Musical - Allegretto 5º/6º.
O material geral é: 2 Lápis; 2 borrachas de lápis e de tinta; 1 afia; 2 esferográficas “bic” azuis, verdes e vermelhas; 4 Cadernos de linhas A4 de capa preta (Língua Portuguesa, Inglês, História e Geografia de Portugal, Ciências da Natureza); 1 Caderno quadriculado A4 de capa preta (Matemática); 3 Cadernos de linhas A5 de capa preta (1 para Estudo Acompanhado de Matemática e Estudo Acompanhado de Português; 1 para Área de Projecto e Formação Cívica; 1 para Informática e Educação Física); 2 Capas A4 de duas argolas, lombada alta; Um conjunto de separadores A4; 1 Bloco de folhas grossas quadriculadas A4; 1 Bloco de folhas grossas pautadas A4; 1 Bloco de folhas grossas lisas A4; 1 Pasta de arquivo com micas integradas A4; 1 Compasso; 1 Transferidor; 1 Régua de 15 cm; Máquina de calcular ( Modelo TI – 30X IIB ou outra equivalente); 1 Pen Drive.
Para Educação Visual e Tecnológica tenho: Régua de 50cm; Esquadro de 45º ou 60º; Compasso; Apara-lápis com contentor; Tesoura; Pincéis (nº2 ou nº5) ou (nº3 ou nº6);Capa preta de lombada larga A3; Caderno; Bloco A3 de papel cavalinho; Lápis de grafite nº2/HB; Borracha branca macia; Lápis de cor; Canetas de feltro; Lápis de cera; Cola em stick (tipo UHU); Cola em bisnaga; Guaches: magenta, azul cyan (ou ciano),amarelo, branco e preto.
E para Educação Musical é: Caderno de linhas A4; Tubo de Cola Stick; Flauta de Bisel Hohner de Plástico (dedilhação alemã).
Bom ... então ... vamos começar por ... deixa-me pensar um pouco.
Então?

Nota - Texto composto após consulta a páginas de diferentes escolas

terça-feira, 5 de outubro de 2010

AS PESSOAS, OS RECURSOS E OS MEIOS

Entre as iniciativas que pretendem comemorar o centenário da República, aparece a inauguração no dia de hoje de 100 escolas, algumas novas, outras que passaram por obras de beneficiação. Apesar da polémica em torno do programa de requalificação das escolas a cargo da Parque Escolar, como, aliás, não podia deixar de ser em Portugal (hoje é notícia e fonte de discussão a instalação de máquinas de alimentos nas escolas), a melhoria das condições de trabalho de professores, alunos e funcionários é, por princípio, uma boa decisão.
Deve dizer-se que nos últimos anos e apesar de muitas carências ainda verificadas o parque escolar nacional deu um salto qualitativo o que é positivo.
No entanto e como sempre, para além dos recursos e equipamentos que por direito dos miúdos devem estar disponibilizados em cada momento com a melhor qualidade possível, no fim temos as pessoas. E de facto, a escola, mais do que equipamentos e meios que se desejam de qualidade, é feita pelas pessoas, todas as pessoas, que na sua função específica lhe dão sentido e qualidade.
Desde o aparelho do ME, na definição das políticas educativas adequadas nas mais variadas dimensões, ao trabalho das direcções das escolas e agrupamentos, ao trabalho dos professores nas suas diferentes funções, ao trabalho dos alunos e dos pais através do nada fácil trabalho educativo familiar, o exercício da responsabilidade e intervenção individual são o mais sólido instrumento de qualidade ao serviço do sistema.
É nesta dimensão que me parece necessário insistir. A comunidade deve ser mais exigente face ao desempenho e à qualidade no que respeita a políticas educativas, na organização e funcionamento das escolas, no que respeita ao trabalho com os miúdos e dos miúdos, no que respeita à responsabilização e envolvimento das famílias, etc. Os meios e os recursos sendo fundamentais, só por si não garantem sucesso e qualidade, veja-se o exemplo recente do Programa Magalhães, um computador para cada menino e o que daí parece estar a resultar em termos de mudanças significativas e generalizadas no trabalho de alunos e professores.
Quando se aborda a questão dos meios, dos recursos e das pessoas em matéria de educação, lembro-me sempre de uma afirmação já com alguns anos do Council for Exceptional Children, "o factor individual mais contributivo para a qualidade da educação é a existência de um professor qualificado e empenhado".
Sempre. No dia em que a agenda das consciências assinala o Dia Mundial do Professor é importante não esquecer.

A HISTÓRIA DO CARTEIRO

Hoje, depois da consulta de rotina à caixa do correio lembrei-me do carteiro e do facto de se falar na privatização deste serviço. Neste contexto, recordei que há uns meses, um estudo realizado em Portugal sobre os níveis de confiança dos portugueses em diferentes classes profissionais mostrava que bombeiros, professores e carteiros são os profissionais em quem os portugueses mais parecem confiar. Na altura da divulgação achei interessante a confiança expressa por nós em quem cuida do nosso bem estar e ajuda em caso de necessidade, os bombeiros, em quem nos constrói o futuro, os professores, cuidando do nosso mais precioso bem, os filhos, e em quem nos traz as notícias do mundo, os carteiros, provavelmente, com a secreta esperança de que sejam sempre boas notícias.
As cartas e postais de natureza pessoal, lamentavelmente em vias de extinção, são bastante mais inteligentes que os e-mails, não estão sujeitas a infecções virais, a "forwards" tontos e impessoais e à complementar praga de "junke" e-mail. São os carteiros que as trazem e que, em muitos locais, mais do que imaginamos quando vivemos em zonas urbanas, conhecem os destinatários e prestam um serviço que é bem mais do que a entrega de correspondência.
Ainda me lembrei com alguma saudade do Sr. Gonçalves, o carteiro da minha zona quando eu era adolescente. O Sr. Gonçalves que já partiu há alguns anos, era um homem de grandes bigodes, forte, tinha que o ser para transportar aquele enorme saco de cabedal castanho, de grandes bigodes e amigo da gente nova. Era uma figura. Vou partilhar um segredo convosco, mas peço que mantenham a devida reserva. Durante algum tempo, o Sr. Gonçalves e eu tivemos um acordo. Ele mostrava-me os postais que vinham do liceu dirigidos ao meu pai com as notas e as faltas e eu quando o encontrava à tarde de vez em quando pagava uma cerveja na tasca do meu tio. Já vos tenho dito que não fui um aluno brilhante, longe disso, e no que respeita ao comportamento, é melhor nem falar. A cumplicidade com o Sr. Gonçalves no sentido de, por amor filial que compreenderão, proteger o meu pai de notícias menos agradáveis, era conseguida, eu acho, porque ele, no fundo, acreditaria que talvez eu não fosse um caso perdido. E não era, ele entendia de miúdos.
E eu gostava do carteiro, do Sr. Gonçalves.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O COLO DA MÃE

Há questões ou acontecimentos que nos tempos que correm, marcados pelas agruras de uma profunda crise e pelos discursos políticos sobre a mesma, quase não cabem na agenda.
Um exemplo deste cenário é a discrição sobre uma matéria que esta semana entra nas preocupações mundiais, o aleitamento materno, que, provavelmente, não passará de mais uma referência de rodapé na imprensa.
De facto, apesar da existência de uma série de mitos e equívocos construídos nas últimas décadas em torno da alimentação dos bebés com o leite da mãe, parece que devagarinho se volta a tomar consciência dos benefícios de tais práticas maternais. É consenso entre os especialistas em várias áreas do desenvolvimento infantil que o aleitamento materno, para além das não despiciendas vantagens económicas, é uma excelente base para o lançamento de um desenvolvimento saudável, previne riscos de infecções pelo fortalecimento do sistema imunitário dos bebés e até funciona como inibidor do risco de obesidade uma ameaça já muito séria de saúde pública entre os mais novos.
Aos benefícios de natureza mais biológica, por assim dizer, acresce ainda o impacto positivo que a prática de aleitamento materno revela na qualidade dos laços entre mães e filhos com, mais uma vez, consequências importantes na qualidade do desenvolvimento e da relação.
Face a tudo isto, torna-se pois imprescindível que no âmbito de verdadeiras políticas de apoio às famílias, se estabeleçam as condições em matéria de legislação laboral, o que tem sido feito, e, sobretudo, que se promova a eficácia de uma fiscalização inibidora de práticas discriminatórias que efectivamente incentivem e possibilitem às mães algo que, diz quem sabe, as mães, é uma experiência extraordinária. Os miúdos também acham.

A PROVA DE VIDA

Eram cerca de nove da manhã quando a D. Rosa, uma senhora idosa que vive só, entrou no Centro de Saúde. Tirou a senha de atendimento, não estranhou a quantidade de gente que tinha à sua frente e arranjou um lugar na sala de espera que estava, como é hábito, bem composta.
Teve sorte, ao seu lado estava a D. Gracinda, uma senhora que tal como a D. Rosa vive só, com pouco contacto com a família e que ela conhece pois mora na sua rua. Assim, de conversa, sempre se passa melhor a espera e sempre se aproveita para trocar de queixas sobre a vida e de comentários sobre imensas coisas que muitas horas de televisão sugerem.
Estavam tão entretidas na conversa que a D. Rosa quase não dava conta de que estavam a chamar pelo seu número. A funcionária, depois de saber que a D. Rosa apenas queria dar uma palavrinha à sua médica de família por causa de uns incómodos que andava sentir e sobre os quais ouviu uma explicação detalhada, informou, delicadamente, que não saberia se a Dra. Manuela a poderia atender, é que estava muita gente e as consultas já estavam atrasadas. Ainda assim, prometeu que tentaria conseguir que a D. Rosa fosse vista pelo que deveria esperar na sala.
A D. Gracinda, entretanto, já tinha sido chamada pelo que a D. Rosa se sentou, desta vez, junto de um casal de reformados muito simpáticos, embora a senhora esteja sempre muito queixosa, que costuma encontrar no Centro.
Foi até engraçado, pensou a D. Rosa, porque a conversa se encaminhou para a recordação dos tempos em que os três eram novos, das diferenças para os dias de hoje, sempre com a inevitável conclusão que, isso sim, naquele tempo é que era bom. Depois do casal ter saído, já consultado e com os papéis em ordem, considerando que se aproximavam as duas da tarde, a D. Rosa voltou ao balcão onde outra funcionária a informou que naquele dia a Dra. Manuela já não veria mais ninguém pois faltavam ainda três pessoas e a Dra. precisava de sair logo.
Com a tranquilidade de quem não tem pressa, a D. Rosa foi embora devagar, para a casa só, a pensar para consigo que no dia seguinte voltaria ao Centro mas viria um bocadinho mais cedo.

domingo, 3 de outubro de 2010

AS 225 METAS DO 1º CICLO

O tempo disponível ainda não permitiu a análise mais aprofundada dos conteúdos das metas de aprendizagem para o ensino básico e secundário ontem disponibilizadas pelo ME em http://www.metasdeaprendizagem.min-edu.pt/. Como entendo que o sucesso do percurso educativo se desenha em grande parte no 1º ciclo comecei por ver o que se encontrava definido para este ciclo. Fiquei com alguma inquietação. Para as seis áreas foram definidas 225 metas de aprendizagem assim distribuídas, Língua Portuguesa - 117; Estudo do Meio - 32; Expressão e Educação Físico-motora - 3; Matemática - 37; Expressões Artísticas - 32 e Tecnologias de Informação e Comunicação - 4, o que dá o total, como disse, de 225 metas de aprendizagem. Por curiosidade, para o 2º ciclo estão definidas, considerando o Inglês e mais uma Língua Estrangeira, 207 metas de aprendizagem. A este quadro acresce o estabelecimento, que também se encontra, de metas intermédias, no caso do 1º ciclo temos até o 2º ano e até ao 4º ano, uma enormidade de metas.
Como ontem referia, considero da máxima necessidade e urgência a reformulação curricular, designadamente no Ensino Básico, quer na sua organização quer nos seus conteúdos. Como também já tive oportunidade de expressar a definição mais objectiva do que deve, ser aprendido pelos alunos, pode ajudar a regular a qualidade do trabalho de alunos e professores.
No entanto, com o cenário actual no que respeita à organização e conteúdo curriculares e no que concerne à organização e funcionamento da escola, designadamente em matéria de trabalho dos professores que gastam tempos infindos em tarefas burocráticas e em aspectos, por exemplo ligados aos modelos de avaliação de docentes em vigor, dificilmente imagino como podem as metas de aprendizagem agora divulgadas, mesmo sendo de uso facultativo(?), e com a estrutura que foi opção dos autores, constituir-se como um regulador ou referência do trabalho dos professores que já têm que lidar com a definição de objectivos para uma enorme quantidade de Projectos e Planos, individuais, de turma ou de escola que intoxicam e minam a qualidade do trabalho e se constituem muitas vezes como álibi para o que de menos bom acontece nas escolas.
Mais uma vez, parece colocar-se a questão, fazer as coisas certas, não significa fazer certas as coisas.

sábado, 2 de outubro de 2010

E A REVISÃO CURRICULAR?

Conforme anunciado pela Ministra Isabel Alçada e como se tornou inevitável, de forma tardia, foram agora divulgadas as “metas de aprendizagem” para o ensino básico. A sua divulgação, bem como a disponibilização de informação sobre a mesma matéria noutros sistemas educativos é positiva e pode ser útil. O material agora conhecido é de “utilização voluntária” por parte dos professores e constituem-se apenas como um “referencial” para o estabelecimento das aprendizagens.
Algumas notas a este propósito. A definição das “metas de aprendizagem” em qualquer disciplina ou área curricular decorre, obviamente, dos respectivos conteúdos curriculares. Considerando que, designadamente, no 2º e 3º ciclo de há muito se entende a necessidade de reformas curriculares, esta é a questão central. Assim, mais do que a urgência do estabelecimento de metas de aprendizagem, seria necessário a redefinição dos conteúdos, extensão e organização curriculares.
O próprio ME, ao considerar de “utilização voluntária” as metas de aprendizagem, desvaloriza a sua importância embora acene com o facto de serem utilizadas em alguns países.
Se tivermos uma estrutura curricular ajustada, dispositivos de avaliação de alunos e professores competentes e dispositivos de apoio ao trabalho de uns e de outros, a definição formal de “metas de aprendizagem”, podendo constituir-se, de facto, como um instrumento regulador, não é imprescindível.
Com conteúdos curriculares ajustados, com a extensão e organização adequada, os bons professores, a grande maioria, saberá o que devem aprender os alunos em cada disciplina ou área disciplinar, em cada ano de escolaridade. Sim, porque eles têm de aprender, eles precisam de saber.

PÁ, UM GAJO TEM QUE SE SAFAR, TÁS A VER

Segundo o Público de hoje, o Centro de Estudos Sociais da Faculdade Economia da U. de Coimbra vai desencadear um estudo nacional sobre a questão da fraude académica. Nos estudos preliminares surge um indicador de que 37.6% dos inquiridos aceita a fraude desde que “não prejudique ninguém”. A este dado, ainda que preliminar, pode acrescentar-se um estudo da Universidade do Minho há tempos divulgado referindo que as situações de “copianço” envolvem três em cada quatro estudantes.
Também há algum tempo, a propósito do acréscimo das situações de plágio que se verificam em todos os níveis de ensino, do básico à formação pós-graduada, doutoramentos incluídos, bem como artigos científicos, me referi à natureza da relação ética que estabelecemos com o conhecimento e que os alunos replicam. Aliás, no estudo da U. do Minho, dos alunos que admitem copiar, 90% afirmam fazê-lo desde sempre.
O conhecimento é entendido como algo que se deve mostrar para justificar nota ou estatuto, não para efectivamente deter, ou seja, importante mesmo é que a nota dê para passar, que o curso se finalize, que a tese fique feita e se seja doutorado ou que se possa acrescentar mais um artigo à produção científica num mundo altamente competitivo. Que tudo isto possa acontecer à custa da manhosice, do desenrasca mais ou menos sofisticado, são minudências com as quais não podemos perder tempo.
No entanto, é bom termos consciência que esta questão não é um exclusivo nosso, a experiência mostra isso com clareza. De qualquer forma, não deixa de ser uma preocupação e justifica que as escolas, do básico ao superior, se envolvam nesta tentativa de construção de relação com o conhecimento mais sólida em termos éticos.
O caminho passa pelo estabelecimento obrigatório de códigos de conduta com implicações sancionatórias severas e com uma atitude formativa e preventiva durante as aulas.
O trabalho será sempre difícil pois o contexto global ao nível dos valores e da ética dos comportamentos e funcionamento social é, só por si, um caldo de cultura onde o copianço e o plágio, por vezes, não passam de "peanuts", é a cultura do desenrascanço, não importa como.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

OS CUSTOS DO ENSINO "MANUALIZADO"

Foram hoje a discussão no Parlamento propostas legislativas com o objectivo de tornar gratuitos os manuais escolares ou, em versão mais leve, estruturar bolsas de empréstimos que permitam o acesso das famílias aos manuais em condições mais favoráveis. A proposta da gratuitidade foi chumbada por PS e PSD devido ao impacto económico da medida, enquanto as propostas das bolsas de empréstimo foram aprovadas com o voto contra do PS.
Algumas notas sobre a questão dos manuais escolares e que já aqui abordámos. A Constituição da República estabelece no Artigo 74º que “Compete ao Estado assegurar o Ensino Básico universal, obrigatório e gratuito”.
Segundo a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros os manuais obrigatórios representam um encargo de 80 milhões de euros para as famílias de 1,4 milhões de alunos. Sabe-se também que ao abrigo do PEC se verificaram ajustamentos nas regras e destinatários dos apoios sociais escolares, que temos cerca de dois milhões de portugueses em risco de pobreza e um terço das famílias a viver mesmo encostadas a esse limiar. Acresce ainda que ao custo com os manuais se deve acrescentar o encargo com material escolar e livros de apoio sempre “sugeridos” pelas escolas e que determinam, de acordo com o INE, que as famílias portuguesas gastem mais que a média europeia em educação.
Também sabemos que o investimento individual, familiar e institucional na educação é um investimento no futuro e, naturalmente, os investimentos têm custos que devem ser repartidos, tanto quanto possível de forma justa e na defesa intransigente da qualidade da escola pública mas, como muita gente diariamente dá por isso, o nosso modelo social, económico e também o sistema educativo não é justo.
A questão dos manuais escolares é complexa e muito importante, é um nicho de mercado no valor de muitos milhões como referimos. Depois da abolição do execrável livro único de natureza totalitária e da proliferação de manuais aos milhares parece ter-se entrado numa fase de alguma estabilidade e, sobretudo, da necessária qualidade, ainda que insuficientemente regulada.
No entanto, do meu ponto de vista, importa questionar não só o papel dos manuais mas, fundamentalmente, da quantidade enorme de outros materiais que os acompanham e que contribuem de forma muito significativa para o aumento da factura dos custos familiares com a educação potenciando injustiça e desigualdade de oportunidades. De facto, para além de imenso material de outra natureza, temos em cada área programática ou disciplina uma enorme gama de cadernos de fichas, cadernos de exercícios, cadernos de actividades, materiais de exploração, etc. etc. que submergem os alunos e oneram as bolsas familiares, até porque muitos destes materiais não são incluídos nos apoios sociais escolares. Em muitas salas de aula verifica-se a tentação de substituir a “ensinagem”, o acto de ensinar, pela “manualização” ou “cadernização” do trabalho dos alunos, ou seja, a acção do professor é, sobretudo, orientar o preenchimento dos diferentes dispositivos que os alunos carregam nas mochilas.
Esta questão, que não me parece suficientemente reflectida nas suas implicações acaba por baixar a qualidade das aprendizagens e apesar de se promover algum controlo da qualidade dos manuais, o mesmo não se verifica com os chamados materiais de apoio o que envolve custos pesados de natureza diversa.

RESET

Muitos de nós temos uma relação com a informática apenas funcional e em patamares básicos. Somos o que eu costumo considerar como utilizadores conservadores, utilizamos as novas tecnologias apenas na exacta medida das nossas necessidades e sem grande investimento. Para me sossegar, lá vou pensando que não somos capazes de nos interessarmos por tudo e ter sempre um bom desempenho.
Neste cenário, acontece, não raras vezes, deparar-me com algumas dificuldades ou pior, pois fico mais atrapalhado, esbarrar com uma mensagem ou aviso indecifráveis para os meus conhecimentos. As pessoas mais sabedoras a quem peço ajuda dizem-me muitas vezes qualquer coisa do tipo, “faz um reset que isso passa”. E passa, o que não deixa a minha auto-estima muito bem tratada.
A propósito desta experiência, de que me socorri há minutos devido a um misteriosa “recusa” do meu PC em obedecer às minhas sábias ordens, estava a lembrar-me como era bom podermos provocar um reset em algumas circunstâncias da vida dos miúdos.
Já pensaram no extraordinário que seria nós podermos com um Ctrl+Alt+Del reiniciar, apagando, uma situação difícil de aprendizagem, um episódio mais complicado na sala de aula ou uma qualquer experiência de vida pesada ou violenta a que muitas crianças e jovens não conseguem escapar e que alguns não conseguem mesmo ultrapassar? Com as devidas cautelas seria uma ferramenta fantástica.
A questão é que, como costumo dizer, para o melhor e para o pior, os miúdos continuam a não ser providenciados à família, à comunidade e à escola com manual de instruções. Por isso, às vezes, as dificuldades que sentimos para os entender e ajudar.