sexta-feira, 5 de novembro de 2021

O TEMPO DA AZEITONA

 Iniciámos hoje a época da azeitona. O lagar já abriu e é preciso começar a entregar. Este ano a produção está muito boa e a manhã rendeu. A chuva da passada semana veio ajudar a azeitona a engrossar e manter-se mais firme nas árvores. Vão ser ainda uns dias de lida até darmos conta do recado.

A apanha da azeitona pelo método tradicional é coisa brava embora ajude a aquecer num dia que está frio. Os braços e sobretudo as costas estão moídas de varejar e carregar, limpar as árvores com as motosserras para bater já no chão em cima dos panos os ramos mais altos com boa azeitona e a que as varas não chegam. Impressionante continua ser a resistência do Velho Marrafa, homem já na casa dos oitenta anos e que também coordena as "operações". Felizmente, este ano contamos com a ajuda do Valter e do Diogo que “aceleram” a lida.

Lá para o fim da tarde terei que ir ao lagar entregar e pesar a azeitona e … amanhã e Domingo continua a lida.

Algum tempo de espera no lagar passa-se nas lérias e os temas de conversa vão surgindo, mas quase sempre, não podia deixar de ser, andam à volta dos enleios e das molengas em que a vida da gente se transformou e da pouca rentabilidade que tanto trabalho dá.

Acho que só lá para o fim de Janeiro, quando voltar ao lagar para buscar o azeite, com o ambiente quentinho das enormes salamandras que impede o azeite de coalhar e o cheirinho inconfundível do azeite novo é que me vou esquecer das agruras da apanha da azeitona que continuará, espero, para a semana.

Prometo não me queixar mais e … tenho que voltar à lida, há ainda muitas oliveiras para bater, panos para estender e azeitona para carregar com o tractor.

São também assim os dias do Alentejo.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

EDUCAÇÃO E CIDADANIA PARA TODOS NAS ESCOLAS? SIM, OBVIAMENTE (take 2)

 Deixem-me insistir em duas ou três notas que me parecem relativamente claras e simples que retomo de reflexões anteriores.

Os estilos de vida, as exigências de qualificação têm tornado gradualmente a escola mais presente e durante mais tempo na vida de crianças e adolescentes e, consequentemente, com reflexos na educação em contexto familiar.

Creio que já dificilmente se entende que a “família educa e a escola instrói”.

Creio que já dificilmente se entende que a escola forma “técnicos” e não cidadãos, pessoas, com qualificações ao nível dos conhecimentos em múltiplas áreas. Aliás, se bem repararem sempre falamos de sistemas de educação e não de sistemas de ensino e ainda bem que assim é.

Creio que já dificilmente se entende que o conhecimento é asséptico. O conhecimento, a sua produção e a sua divulgação, tem, deve ter, sempre um enquadramento ético e não é imune a valores.

Creio que os tempos mais recentes são elucidativos de como a abordagem de matérias como Direitos Humanos; Igualdade de Género; Interculturalidade; Desenvolvimento Sustentável; Educação Ambiental; Saúde; Sexualidade; Media; Instituições e Participação Democrática; Literacia Financeira e Educação para o Consumo; Segurança Rodoviária; Risco, Empreendedorismo; Mundo do Trabalho, Segurança defesa e paz, Bem-estar animal e Voluntariado são fundamentais ao longo do processo de formação de crianças, jovens e adultos.

Nas sociedades contemporâneas um sistema público de educação com qualidade, desde há muito de frequência obrigatória e progressivamente mais extenso, é uma ferramenta fundamental para a promoção de igualdade de oportunidades, de equidade e de inclusão. É através de uma educação global de qualidade que se minimiza o impacto de condições sociais, económicas e familiares mais vulneráveis.

Já agora, uns indicadores que, do meu ponto de vista, justificam com clareza a ideia de que “Educação e Cidadania para todos, porque sim”.

Considerando a violência nas relações de namoro, dados de 2019 Um trabalho que envolveu 4598 jovens, do 7.º ao 12.º com idade média de 15 anos, mostra que para 67% é normal algum tipo de violência e 58% já terá sofrido pelo menos um comportamento de agressão.

Relativamente ao bullying, os estudos em Portugal sugerem uma prevalência entre 10 e 25% e a OMS indica que 1 em cada 3 crianças ou adolescentes será vítima de bullying. No caso mais particular do bullying homofóbico, um trabalho da Associação ILGA Portugal (2018) envolvendo 700 jovens dos 14 e aos 20 anos, refere que 73,6% já sentiu alguma forma de exclusão intencional por parte dos colegas.

Consumo de drogas, dados de 2019. Entre os 13 e os 18 anos aumentou o consumo de drogas não canábis e no grupo de 18 anos aumentou o consumo de canábis. O número de overdoses aumenta há três anos.

O consumo de álcool por jovens está a aumentar desde 2017 e a delinquência juvenil, entre os 12 e os 16 anos, em 2019 aumentou 5,6% e a criminalidade grupal (gangues) aumentou 15,9%.

Assim, por estas razões simples entendo que "Educação para a Cidadania" deve obrigatoriamente integrar o trabalho desenvolvido na educação em contexto escolar.

Precisamos e devemos discutir como fazer sempre considerando a autonomia das escolas, não acredito na disciplinarização destas matérias, julgo mais interessantes iniciativas integradas, simplificadas e desburocratizadas em matéria de organização e operacionalização.

 

PS – O episódio dos meninos de Famalicão que se mantém activo e que desencadeou esta reflexão é um outro problema, com outros contornos e aspectos lamentáveis, mas que está a servir de gatilho e alavanca para agendas outras. Os pais não são donos dos filhos e não vale tudo.

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

DAS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

 Está a decorrer em Glasgow a 26.ª Cimeira do Clima da ONU (COP26) com a maioria dos países representada, mas com a ausência das lideranças da China e da Rússia, justamente dois dos maiores responsáveis pela situação que o planeta atravessa.

Como provavelmente acontecerá, apesar da retórica dos discursos insistir na defesa da qualidade da vida no planeta, os avanços serão curtos e assim se cumprirá o “desenvolvimento”, dizem. As sucessivas cimeiras fazem parte de uma espécie de liturgia com avanços aquém do necessário e inadiáveis.

Como é evidente, o clima actual em que o mundo está mergulhado é profundamente preocupante e sob várias perspectivas.

Com uma ligação estreita às alterações climáticas consideremos o clima de guerra e pobreza que se instalou em diversas zonas do planeta e que se torna, por exemplo, responsável pela maior crise de refugiados que a Europa está a sofrer depois das guerras mundiais com um cortejo de tragédias que estão mesmo à nossa beira e se espalham por diversas latitudes.

Também numa outra escala muitos de nós sentimos como o clima não está bem, são recorrentes as queixas sobre alterações no clima, nos climas, e também aqui sabemos que a responsabilidade é dos homens, ou melhor, da irresponsabilidade dos homens

Só para referir algumas áreas, veja-se o que tem sido de há anos para cá o clima de funcionamento de boa parte das escolas portuguesas. Está longe de ser o mais favorável ao bom andamento do trabalho de professores, alunos e pais.

O clima na saúde ainda a braços com a evolução da pandemia também não atravessa melhores dias com queixas e dificuldades de natureza variada.

O clima político é de uma turbulência que impressiona o que acaba por criar turbulência na economia e nos mercados. Como é sabido, os mercados são muito sensíveis à turbulência, ficam nervosos e assim. Depois … sobra para os suspeitos do costume, nós.

Todo este cenário tem implicações severas no clima das famílias com níveis de desemprego devastadores e com dificuldades sociais gravíssimas.

Também creio que não damos a devida atenção a um fenómeno de natureza contrária, o arrefecimento global na relação entre as pessoas. Parece razoavelmente claro que as relações interpessoais, estão mais frias, mais distantes apesar dos milhares de “amigos” nas redes sociais. Cada vez mais parecemos condomínios de uma pessoa só.

Finalmente, importa considerar, evidentemente, as potenciais consequências do aquecimento global. Uma das dificuldades que, na verdade, a Terra só se torna mesmo preocupação quando se zanga e de vez em quando a Terra zanga-se com efeitos devastadores. E está a zangar-se com cada vez maior frequência.

Imagino que a Terra vá ficando cansada da irresponsabilidade delinquente da gente que a povoa, sobretudo dos que lideram. Depois de tanta asneira insistem nos maus-tratos e não se entendem sobre a forma de mudar de rumo.

Dão-lhe cabo das entranhas, alteram-lhe o clima, mudam paisagens, esgotam-na, deixam-na estéril e sem sustento. Não vai aguentar.

A minha avó Leonor, mulher de sabedoria, costumava dizer que não era bom a gente meter-se com a Terra, com a natureza, e maltratá-la. A natureza vai ser sempre maior que a gente e não aceita que mandem nela.

Quando acorda zanga-se e quando se zanga os efeitos são devastadores. Apesar destes avisos, cada vez mais frequentes, não parece que a levem a sério.

Esta gente não aprende mesmo, já não espero que o fizessem em nome deles, os seus interesses imediatos não deixam. Mas podiam fazê-lo em nome dos filhos, dos filhos dos filhos, dos filhos dos filhos dos filhos, 

São demasiadas complicações no clima para ter alguma esperança sólida na COP 26.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

DA POBREZA

 

Na semana que passou foram divulgados pelo Eurostat dados relativamente à pobreza e exclusão social elaborados com novos indicadores.

Em Portugal, cerca de 20% dos cidadãos estão em risco de pobreza e exclusão sendo que relativamente a crianças e jovens até aos 18 anos é de 21,9% e nos idosos é 21,4%. Trata-se de taxas ligeiramente superior às do INE que divulgará nos próximos dias dados já calculados com os novos indicadores.

Ainda de acordo com um estudo recente, "A Pobreza em Portugal – Trajectos e Quotidianos", da Fundação Francisco Manuel dos Santos o risco de pobreza e exclusão atinge mesmo pessoas com emprego estável, um terço das pessoas que vivem abaixo do limiar de pobreza estão empregadas.

A pobreza tem claramente uma dimensão estrutural e intergeracional, as crianças de famílias pobres demorarão até cinco gerações a aceder a rendimentos médios, um indicador acima da mádia europeia.

A escola é certamente uma ferramenta poderosa de promoção de mobilidade social, mas, por si só, dificilmente funciona como elevador social.

O impacto das circunstâncias de vida no bem-estar das crianças, em particular no rendimento escolar e comportamento, é por demais conhecido. Essas circunstâncias constituem, aliás, um dos mais potentes preditores de insucesso e abandono quando são particularmente negativas, como é o caso de carências significativas ao nível das necessidades básicas. Em qualquer parte do mundo, miúdos que passsam mal têm menor desempenho escolar e mais provavelmente vão continuar pobres. Com ligeiras alterações as estatísticas internacionais referentes a assimetrias e incapacidade de proporcionar mobilidade social através da educação vão-se mantendo. Não estranhamos. Dói, mas é “normal”, será o destino.

É verdade que com muita frequência a escola distribui refeições e disponibiliza recursos a alunos mais carenciados e ainda bem que o faz. No entanto, não compete à escola a resolução de questões estruturais nas quais radica a pobreza continuada nem o providenciar de necessidades básicas às crianças.

Assim, ou nos concertamos na exigência a alterações nos modelos de desenvolvimento de modo a garantir, tanto quanto possível, equidade e um combate eficaz à exclusão com a consequente alteração nas políticas públicas, ou ciclicamente nos confrontamos com indicadores desta natureza. Os dias que vivemos mostram como e difícil é concertar perspectivas na promoção de um sentido comum, o bem-estar das comunidades.

Não, não é destino que os filhos dos filhos dos filhos, dos filhos das famílias pobres continuem pobres. Se assim acontece e continuar a acontecer é a falência das políticas públicas e dos que por elas são responsáveis.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

A HISTÓRIA DO CROMO

 Era uma vez um homem chamado Cromo. Nome estranho este, parecia indiciador de um destino que o homem quis cumprir.

Desde pequeno, logo na escola tentou destacar-se em alguma actividade sem resultados significativos. Aliás saiu cedo da escola e sem grande brilho. Os colegas achavam que o Cromo tinha algum jeito para o futebol a que se dedicava de alma e coração com aqueles sonhos que povoam a cabeça de todos os miúdos, jogar num estádio cheio e aparecer na capa de um jornal desportivo. Com os sonhos na mochila foi percorrendo os vários escalões na equipa lá da sua terra.

Um dia teve sorte, até os Cromos precisam de sorte que, como sabem, é um bem escasso e um olheiro, uma daquelas pessoas que ao serviço de clubes maiores andam a observar jogadores, reparou nele. Entre parêntesis, devo dizer que acho olheiro um nome bonito, alguém que olha para querer ver, mas decidiram começar a falar de “scouting”. Como ia dizendo, o Cromo recebeu um convite para ir fazer uns treinos num clube daqueles que disputam o campeonato mais importante. Na noite anterior ao primeiro treino o Cromo nem dormiu, chegou nervoso como nunca se tinha sentido, mas com a ajuda dos companheiros a coisa correu bem e assinou um contrato de profissional. Ficou algum tempo nesse clube com uma carreira modesta, sem brilho particular e sem ser capa de jornal.

O Cromo era um daqueles jogadores discretos diluídos na equipa. Acabou por sair e terminar onde tinha começado, no clube da sua terra. Apesar de tudo o Cromo cumpriu o seu destino. Com um enorme orgulho, ocupa um lugar na página 16 de uma caderneta de cromos que o seu filho tem sempre aberta e que passa o tempo a mostrar aos amigos com um brilho de encantamento nuns olhos grandes, “Este Cromo é o meu pai”.


domingo, 31 de outubro de 2021

DOÇURAS OU TRAVESSURAS

 

O calendário obrigou que tenha sido na sexta-feira que se comemorou nas escolas, sobretudo as que têm alunos mais novos, uma das mais ancestrais tradições portuguesas, o Halloween, o nome em estrangeiro também funciona bem, é uma questão de marketing, passa melhor. O espírito do Halloween já estava um pouco por todo lado, em particular nas superfícies comerciais espaços habituais para festas e comemorações de que todos estávamos carenciados face aos confinamentos que vivemos.

É bonito que assim seja, esta celebração de uma das nossas genuínas tradições é importante e imprescindível para que mantenhamos a nossa cultura e identidade.

Gostei de voltar a ouvi as crianças a baterem-me à porta nesta altura, embora estranhasse a pergunta que convictamente faziam, “doçuras ou travessuras?” E reaprendi a estar apetrechado com as doçuras que nos salvarão das travessuras que, aliás, nem imagino o que possam ser pois as crianças já quase não fazem travessuras, só agora no Halloween e poucas pois nós … providenciamos as doçuras.

Na verdade, ainda fico espantado como ainda conseguimos mobilizar as crianças e os adultos para, entre bruxas e zombies, comemorar a nossa cultura e costumes. Ainda bem que assim é.

Quando passa este dia recordo e não resisto a repetir uma história que creio tem uns anos, mas poucos.

Bateu-nos à porta um grupo de crianças, discretamente vigiado à distância por um dos pais, porque, achamos, sentimos que a segurança já não é o que era, que nos interpelou com o portuguesíssimo “doçuras ou travessuras?”.

Desculpem lá mas naquela vez não percebemos bem a pergunta e um dos gaiatos lá nos explicou a tradição.

Lembrámo-nos então que talvez esta situação correspondesse a uma outra tradição portuguesa para nós mais familiar, dever ser da origem, o “Pão por Deus” que nos fazia a nós miúdos andar de casa em casa a pedir “pão por Deus” no Dia de todos os Santos como se chamava cá na nossa terra, Portugal, ao Halloween, o Dia de todas as Bruxas.

Perguntámos então se queriam romãs, como era costume no Pão por Deus e talvez fosse no Halloween.

Tínhamos vindo Monte lá do Alentejo, onde hoje estamos, e trazido romãs. Nesse ano as romaneiras, como por lá se fala, esmeraram-se e produziram umas romãs grandes, lindas, com bagos de cor vermelha-romã, claro, e doces, muito doces. Aliás, tal como este ano.

À nossa pergunta uma das miúdas do grupo, talvez a mais velha, aí com uns nove ou dez anos, responde, "o que são romãs?"

Lá nos safámos na explicação e o grupo levou as romãs.

Na altura ficámos em casa a pensar no que é o saber e de que saberes se faz a vida dos miúdos de hoje. Na verdade, é feita de muitos saberes, os que conhecemos, alguns que a nós nos escapam e outros que quando na idade deles nem sonhávamos.

Não simpatizo muito com as discussões sobre o que os miúdos sabem actualmente em que, quase sempre, os mais velhos gostam de concluir pela superioridade dos tempos outros, os seus, naturalmente.

Acho apenas que gostava que os miúdos soubessem o que são romãs, São bonitas e doces e crescem numas árvores também bonitas, as romaneiras, mas que têm picos. Para comer no Halloween, o Dia das Bruxas, ou no Dia de todos os Santos. São uma doçura.

Esta noite não virão certamente, vieram netos, nora e filho, mas temos as doçuras que fazem parte da nossa tradição, o Halloween.

sábado, 30 de outubro de 2021

UM DIA CABANEIRO

 Está o primeiro dia cabaneiro deste Outono neste canto do Alentejo. Por aqui um dia cabaneiro é um dia bom para estar na cabana.

Desde ontem, mas sobretudo a partir da madrugada tem estado a chover bem, o vento forte assobia no telhado do monte, só falta o frio para acrescentar a salamandra ou o lume de chão. Assim será lá mais para a frente.

É daqueles dias que convidam à leitura, à escrita, a ouvir qualquer coisa que componha a alma. Já lá vamos.

A água já estava a fazer falta e é bem-vinda. talvez torne a azeitona um pouco mais grada se, entretanto, não vier um tempo quente que a estrague. Este ano as oliveiras estão bem carregadas parece ser um bom ano de azeita, mas temo que esta ventaneira derrube muita azeitona. Quero acreditar no Mestre Zé, a que cair é compensada pela que fica nas árvores engrossada pela água. Esperemos que assim seja. Vamos começar a apanha da azeitona no final da próxima semana, vai ser áspero se se mantiver a quantidade de azeitona que está nas árvores e lhes dobra os ramos com o peso.

Uma das tarefas de hoje era, justamente, colher mais alguma para retalhar e para conserva. Já começámos, mas achamos sempre que é preciso um pouco mais, ficam muito gulosas, com um sabor que nem vos conto.

Entretanto apareceu o Mestre Zé, com este tempo não esperava por ele. Veio para um café e, claro, para umas lérias, ganha-se sempre. Ainda assim, estivemos a ver das varas. Ele não se habitua a usar varas de carbono, acha que são muito leves e deixámos duas de madeira a apanhar chuva para ficarem mais macias e não quebradiças. Eu não quero que o Mestre Zé trabalhe com as varas, é áspero, ajuda a estender panos, a limpar e ensacar azeitona e, sobretudo, a atar as sacas com uma arte que ainda não consigo replicar, as sacas atadas por mim nem sempre chegam fechadas ao lagar.

E são assim os dias do Alentejo.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

A ESCOLA MÁGICA, OMNIPOTENTE

 Os discursos sobre a educação e sobre a escola produzidos quer pelos actores deste universo, quer pelos opinantes profissionais ou amadores, referem sistematicamente um conjunto de problemas, desafios como muitas vezes lhes chamam, com que a educação, enquanto sistema e em particular as escolas, se confrontam.

Em poucos anos passámos de uma escola percebida como mais direccionada para a instrução para uma escola à qual parece exigir-se a responsabilidade e competência para responder a todos as necessidades dos alunos.

De facto, aumentando até ao inaceitável a presença dos miúdos na escola, os problemas que os afectam são transportados para a escola, mas será que podemos ou devemos esperar que a escola seja responsável e capaz de gerir todos os problemas que os miúdos carregam na mochila?

Não creio, pelos menos com o modelo de escola e de organização da acção educativa que temos e porque não me parece ser esse o caminho adequado.

Como pode ser a escola a gerir a pobreza e a exclusão que afectam as famílias de origem dos meninos que batem à porta da escola?

Numa sociedade de relações interpessoais pouco reguladas, muitas vezes violentas e desrespeitadoras, das elites ao cidadão comum, como resolve a escola os problemas do impacto deste clima nos comportamentos de crianças e jovens?

Numa sociedade, em particular em Portugal, em que os tempos da família para o exercício da parentalidade vão baixando por razões que se prendem com a organização do trabalho, mas também por opções e estilos de vida assumidos pelas famílias como pode a escola acomodar esta realidade?

Será que a escola é uma realidade mágica e omnipotente que tudo resolve? Qual deve ser a formação dos professores e a organização da escola para que, além de lidarem com construção do conhecimento os saberes, respondam a tudo o resto que afecta os alunos? E que outros profissionais devem estar na escola? Todos os que de alguma forma intervêm em problemas de crianças e jovens? Acho difícil, aliás, parece-me errado admitindo que isso seria possível.

Creio que o caminho passa por uma redefinição do sentido de comunidade educativa, na qual, mesmo fora da escola, devem existir recursos e dispositivos eficazes, sejam sociais, na área da saúde ou em qualquer outra que, em rede, possam a pedido da escola intervir a tempo e eficazmente. Enquanto o discurso for no sentido de responsabilizar a escola por tudo e a própria escola assumir essa responsabilidade, por exemplo reclamando recursos para tal, a mudança, do meu ponto de vista, ficará mais difícil.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

AS CRIANÇAS-AGENDA

 

No DN encontra-se um texto de Rute Agulhas, “Já viram a agenda das nossas crianças?” chamando a atenção para o volume de horas de actividade em que muitas crianças se envolvem

Já muitas vezes aqui tenho abordado esta questão referindo-me às crianças-agenda, as crianças, demasiadas crianças que têm um dia muito comprido e carregado de actividades. Também em intervenções com grupo de pais e na comunicação social tenho reflectido sobre esta matéria que julgo necessitar de ponderação como sugere Rute Agulhas.

Com o retorno a alguma normalidade da vida quotidiana e considerando as características dos estilos de vida de muitas famílias volta também uma questão que de há uns anos se faz sentir,  a guarda das crianças nos períodos laborais.

Reconhecendo que é um problema sério, também entendo que não pode, não deve, ser resolvido prolongando até ao “infinito” a estadia dos alunos na escola, com base no equívoco de confundir “Escola a Tempo Inteiro” com “Educação a Tempo Inteiro”. A “overdose” é sempre algo de pouco saudável.

Creio que nem toda a gente tem consciência de que, de acordo com a lei e considerando as necessidades das famíilias, uma criança, por exemplo do 1º ciclo, pode chegar a 50 horas por semana na escola, considerando horário curricular, AEC, ATL e Componente de Apoio à Família. Aliás, no que respeita aos tempos escolares já sabíamos, como referi acima, que os alunos portugueses, sobretudo no início da escolaridade, têm umas das mais elevadas cargas horárias conforme relatórios da Rede Eurydice ou da OCDE.

Esta overdose de estadia institucional na escola, com o tempo muitas vezes preenchido com actividades de duvidosa qualidade apesar de também existirem muito boas práticas, não pode deixar de ter algum impacto na relação que os miúdos estabelecem com a escola e com as actividades da escola.

Por outro lado, muitos pais recorrem ao envolvimento dos filhos em múltiplas actividades transformando-as numa espécie de crianças-agenda. Todas estas actividades, a oferta é variadíssima, são percebidas como imprescindíveis à excelência, os miúdos devem ser educados para ser excelentes. Promovem níveis fantásticos de desenvolvimento intelectual e da linguagem, desenvolvimento motor, maturidade emocional, criatividade, interacção social, autonomia e certamente de mais alguns aspectos que agora não recordo. Assim, as crianças e adolescentes estão sempre envolvidos em qualquer actividade, a quase todas as horas pois delas se espera não menos que a excelência.

Nada disto belisca a importância que, de facto, podem ter algumas actividades, mas apenas sublinhar alguns riscos no excesso e que poderiam, aqui sim com apoios das autarquias e potenciando equipamentos e recursos comunitários proporcionar experiências menos pesadas às crianças.

Os pais, alguns pais, sobretudo como melhor estatuto económico, seduzidos pela sofisticação desta oferta, pressionados por estilos de vida que não conseguem ou podem ajustar e com a culpa que carregam pela falta de tempo para os filhos e sem vislumbrar alternativas aceitam que os trabalhos dos miúdos se desenvolvam para além do que seria desejável, eu diria saudável.

Vamos ter que repensar os trabalhos dos miúdos, de muitos miúdos. O consumo excessivo, mesmo de actividades fantásticas ou de actividades escolares, tem riscos.

Recordo que em 2018 a Academia Americana de Pediatria recomendou aos pediatras que na sua prática clínica prescrevam “tempo para brincar”, um bem de primeira necessidade para o bem-estar dos mais novos com impacto em diferentes dimensões.

Insistem e insisto que não se trata de uma ideia “frívola” e os actuais estilos de vida de muitas famílias, por diferentes razões, tornam ainda mais importante que se reafirme a importância de brincar.

Mais uma vez, brincar é a actividade mais séria que os miúdos realizam, em que põem tudo o que são, sendo ainda a base de tudo o que virão a ser e a saber.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

AS BOLHAS

 Confirmou-se. Os deputados eleitos para o Parlamento em representação do país seguiram as orientações tão repetidas pelas autoridades de saúde e organizaram-se em bolhas.

Seria expectável que todas as bolhas votassem o Orçamento Geral de Estado a pensar no país a partir, para as pessoas do país, naturalmente com base na sua visão política. É assim que funcionam as democracias com maturidade. Parece que assim não foi.

O resultado é notável, as bolhas do BE e do PC votaram de forma igual às bolhas do PSD, do CDS, da IL e do Chega. Estão muito bem acompanhadas e certamente têm uma visão de País, das pessoas do País, que os leva a tomar exactamente a mesma posição sobre algo tão pouco importante, o OGE.

Tenho alguma dificuldade em entender, ou melhor, em aceitar. Talvez seja por não pensar dentro de nenhuma das bolhas, mas ter uma ideia para o país, para as pessoas do país, arrumada sem dogmas do lado esquerdo do espectro político se é que ainda podemos falar nestes termos. Eu insisto.

Como ontem referi, ninguém sabe o resultado das eleições que aí virão. Boa parte dos eleitores não vive nas bolhas criadas pelos diferentes partidos e talvez algumas bolhas corram sérios riscos de ter dado um tiro no pé.

Também pode acontecer que algumas bolhas, incluindo quem se serve da democracia para atacar a democracia, possam retirar dividendos pelo bom serviço realizado pelas outras bolhas numa interessante convergência.

Não, repetindo-me, a história não vos absolverá, não vislumbro, certamente por cegueira política, o que o país, as pessoas ganham com os jogos das bolhas.

A discussão de Orçamento Geral do Estado transformada numa deplorável birra de estado.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

A HISTÓRIA NÃO VOS ABSOLVERÁ

 Não sabemos ainda como vai acabar, no meio das referências às portas abertas parecem estar fechadas as portas aos acordos e o orçamento será chumbado.

Confesso que tenho alguma dificuldade em entender que tal aconteça, mas ouvindo os intervenientes directos nas negociações (será que são negociações) a coisa ainda fica mais complicada de se perceber.

Se tentar entender o que do ponto de vista dos envolvidos nestas decisões está em jogo, creio que ninguém ganhará e muita gente sem voz nas discussões poderá perder.

Não tenho competência nem quero substituir analistas políticos, comentadores, opinadores e demais politólogos, mas duas ou três coisas me parecem claras caso como Marcelo Rebelo de Sousa afirmou, sem orçamento aprovado seja imediatamente desencadeado o processo que culmina com eleições antecipadas.

Sem ordenar, em caso de eleições o PS pode voltar a ganhar sem maioria absoluta, parece o mais provável, o que volta a solicitar entendimentos à esquerda pois não parece expectável o regresso ao Bloco Central. Se assim acontecer, foi tempo perdido e sem resultados, voltamos ao início do filme.

O PSD, isolado ou em coligação, vá lá saber-se com quem face ao que se vai ouvindo, ganha as eleições sem maioria absoluta o que, sendo obviamente possível parece menos provável apesar da retórica do candidato Paulo Rangel. Aliás, este candidato acha que é a "irresponsabilidade" do PS que criará a crise pelo que, depreendo, Paulo Rangel "preferirá" a "geringonça" reforçada. Estranho! Ou talvez não. Neste cenário, vitória do PSD ou de uma coligação liderada pelo PSD será curioso assistir à “negociação” de BE e PCP de um OGE com estes vencedores. No caso da vitória do PS e de uma provável baixa de votação. No caso de uma vitória do PS que exija negociações voltaremos ao princípio do filme.

No caso da vitória do PSD ou de uma coligação liderada pelo PSD será curioso assistir à “negociação” de BE e PCP de um OGE com estes vencedores. 

Parece-me ainda bastante provável que PCP e BE saiam bastante “chamuscados” deste processo pois parece ainda presente, mesmo que não queiram pagarão também os custos do não acordo. E retornarão ao que parece ser a sua vocação e zona de conforto, protestar sem assumir os encargos da governação que, em democracia, exigem negociação. 

Aliás, no caso da vitória do PSD ou de uma coligação liderada pelo PSD será curioso assistir à “negociação” de BE e PCP de um OGE com estes vencedores. Voto contra, é claro, e assim ficam trancados num contrismo que pouco beneficiará o "povo" ou o "país" como também se usa.

Fico, pois sem perceber o que verdadeiramente sustenta esta situação. Não sou simpatizante fidelizado de nenhum dos partidos potencialmente signatários do acordo que se peocura o que não obsta a que tenha um posicionamento de natureza ideológica, sim ideológica, que me faça assumir a necessidade e a esperança num caminho diferente do que tivemos com PSD e CDS-PP na governação.

As dificuldades internas e externas serão imensas e muita gente deseja também um falhanço deste acordo, é ouvir e ler como se esforçam nesse sentido. É interessante assistir ao voo dos abutres por cima de tudo isto, os seus discursos na imprensa em que se abrigam são patéticos.

O caminho é difícil, os obstáculos e armadilhas são muitos e grandes, a margem de erro é estreita, mas não podem falhar na construção e manutenção de uma outra via mais amigável para as pessoas. É esse o sentido da mudança necessária.

Não podem falhar por responsabilidade vossa.

A história não vos absolverá.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

A HISTÓRIA DA HISTÓRIA

 Era uma vez uma História. Foi inventada por um Velho. Os velhos, como são Velhos, têm muito tempo de estrada e gostam de inventar histórias, quase sempre a partir das histórias que foram encontrando pelo caminho.

O Velho inventou esta História para contar a uns netos pequenos que gostavam de histórias. A gente, às vezes, esquece-se que os miúdos gostam de ouvir histórias contadas pelos velhos. Quando o Velho a inventou era uma História pequena com coisas cómicas e os miúdos gostavam mesmo dessa História.

Como gostavam muito da história, quando cresceram contavam a História aos miúdos deles. Como também já se tinham cruzado com outras histórias a História foi ficando maior, mas tinha sempre muitas coisas cómicas que faziam rir os miúdos que pediam mais histórias.

A História, de tanto ser contada, ficou tão grande que foi preciso guardá-la num livro para que não se perdesse.

Mas as histórias muito grandes que enchem um livro têm um problema, demoram muito tempo a contar e os miúdos pequenos gostam de histórias mais pequenas e com coisas cómicas.

Por isso, um Velho inventou uma história mais pequena para contar a uns netos pequenos que gostavam de histórias. A gente, às vezes, esquece-se que os miúdos gostam de ouvir histórias contadas pelos velhos. Quando o Velho a inventou era uma História pequena com coisas cómicas e os miúdos gostavam mesmo dessa História.

E tudo recomeçou.

As histórias não têm fim. Atrás de uma História vem sempre outra História e têm de ser contadas. Ainda bem.

domingo, 24 de outubro de 2021

ESTUDAR É IMPRESCINDÍVEL, MAS É MUITO CARO

 Lê-se no Público que apesar de ainda não ter terminado o período de candidatura, o número de estudantes de ensino superior que já apresentou candidatura a bolsa é o maior de sempre.

Na peça são referidas como hipóteses explicativas, o aumento também verificado número de estudantes que entrou este ano no ensino superior e a perda de rendimento de muitas famílias em consequência do impacto económico e social da pandemia.

Apesar destas dimensões poderem constituir alguma justificação creio que importa não esquecer uma questão de natureza estrutural, estudar no ensino superior é muito caro em Portugal. Também a recente alteração do regulamento de atribuição de bolsas não minimizou esta situação.

Algumas notas começando por alguns dados.

Em 2018 foi divulgado um estudo, “O Custo dos Estudantes no Ensino Superior Português” da responsabilidade do Instituto de Educação da U. de Lisboa, relativo ao ano lectivo de 2015/2016 mostra que cada estudante universitário gastou em média 6445€ em despesas como propinas, material escolar, alojamento ou alimentação. Os alunos de instituições universitárias privadas têm uma despesa perto dos 10000€ e nos politécnicos privados o custo será de 8296€. De facto, sendo a qualificação superior um bem de primeira necessidade para os cidadãos e para o país, é um bem muito caro, demasiado caro para muitas famílias e indivíduos.

Também dados de um trabalho conhecido em 2018 realizado pelo Projecto Eurostudent “Social and Economic Conditions of Student Life in Europe” mostra um extenso quadro das condições de frequência do ensino superior em muitos países da Europa com base em dados de 2016 a 2018.

Da imensidade de dados disponíveis releva que Portugal é o quarto país em que as famílias assumem maior fatia dos gastos com a frequência do ensino superior. Verifica-se ainda uma forte associação entre a frequência do ensino superior e nível de escolarização e estatuto económico das famílias.

São conhecidas as dificuldades de promoção de mobilidade social que o sistema educativo português, e não só, atravessa registando ainda níveis baixos de qualificação e perto de 160 000 jovens que não estudam nem trabalham.

Por outro lado, talvez seja de recordar no que respeita aos custos de frequência do ensino superior que muitos jovens portugueses têm emigrado para realizar os seus estudos superiores em países em que as propinas são mais baratas que em Portugal, não existem de todo ou são financiadas, casos da Dinamarca, Reino Unido ou o Canadá e a Austrália fora da Europa.

Recordo que também em 2014 um estudo patrocinado pela Comissão Europeia em oito países da Europa revelava, sem surpresa, que Portugal apresenta uma das mais altas percentagens, 38%, de jovens que gostava de prosseguir estudos, mas não tem meios para os pagar.

De acordo com o Relatório da OCDE, “Education at a Glance 2015”, os custos da frequência de ensino superior em Portugal suportados pelo universo privado, sobretudo as famílias, era o mais alto da União Europeia, 45.7%.

Segundo o relatório "Sistemas Nacionais de Propinas e Sistemas de Apoio no Ensino Superior 2015-16", da rede Eurydice da União Europeia apenas Portugal e a Holanda cobram propinas a todos os alunos do ensino superior, sendo também Portugal um dos países com valores de propina mais altos.

Apesar de um abaixamento do valor as propinas no ensino público, as dificuldades sentidas por muitos estudantes do ensino superior e respectivas famílias, quer no sistema público, quer no sistema privado com valores mais altos de propinas, são, do meu ponto de vista, consideradas frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo pelo que ... quem não tem dinheiro não tem vícios.

A qualificação é a melhor forma de promover desenvolvimento e cidadania de qualidade pelo que apesar de ser um bem caro é imprescindível.

sábado, 23 de outubro de 2021

VIOLÊNCIA ENTRE JOVENS

 Nos últimos tempos e agora mais recentemente depois dos confinamentos têm sido recorrentes episódios de violência e agressão entre adolescentes e jovens, alguns com desfechos trágicos. Considerando a gravidade, implicações e frequência (apesar dos episódios conhecidos serem apenas uma parte dos que ocorrem), parece-me sempre importante reflectir sobre eles pelo que retomo algumas notas.

Os comportamentos agressivos e abusos entre jovens em contexto escolar, bullying por exemplo, ou fora deles, na vida nocturna por exemplo, são de sempre ainda que os estudos destes fenómenos sejam mais recentes. Não sendo um fenómeno recente importa também considerar o impacto da acção de grupos de adolescentes e jovens, os "gangues", a que as redes sociais dão amplificaçao e também alimentam. O volume e a gravidade de alguns episódios e, sobretudo, a sua mediatização através das redes sociais acrescentam uma maior visibilidade e preocupação.

Na verdade e com alguma inquietação, em vários estudos ultimamente realizados constata-se que os adolescentes tendem a encarar a violência entre si e de uma forma geral, como normal o que não surpreenderá os mais atentos. A sociedade da informação, os sistemas de valores e um lado B dos actuais estilos de vida banalizam a violência, não são os adolescentes que a banalizam embora não esteja a estabelecer relações de causa  e efeito. Veja-se também o impacto de alguns videojogos ou séries como o actual “Squid Game”.  Acrescem os contributos advindo de problemas sociais sérios que exclusão, pobreza, ausência de projectos de vida, etc., alimentam. 

Por outro lado, a escola e o meio circundante, por serem os espaços onde os adolescentes e jovens passam a maior parte do seu tempo são, naturalmente, os espaços onde emergem e se tornam visíveis os problemas e inquietações que os alunos carregam. No entanto, não é possível considerar-se que a escola é mágica e omnipotente pelo que tudo resolverá. Tudo pode envolver a escola, mas nem tudo é da exclusiva responsabilidade da escola, família e outros actores da comunidade devem assumir responsabilidades até porque muitos dos jovens que se envolvem nestes episódios estão já fora da idade de cumprimento da escolaridade obrigatória.

No entanto, sem desresponsabilizar as famílias importa não esquecer que alguns pais se sentem tão perdidos quanto os filhos, têm elas próprias dificuldades e disfuncionalidades que são parte do problema e não da solução pelo que também elas precisam de apoio, só responsabilizá-las não chega.

No que respeita à violência entre jovens, um fenómeno complexo, existem ainda duas questões que me parecem essenciais e contributivas para lidar com a situação. Em primeiro lugar é importante criar nos adolescentes jovens ou adultos vitimizados a convicção de que se podem queixar e denunciar as situações e encontrar dispositivos de apoio que garantam a protecção da vítima pois o medo de represálias é o principal motivo da não apresentação da queixa, sobretudo entre os mais novos. É importante também que os actores da escola e da comunidade saibam detectar nos adolescentes e jovens alunos sinais que indiciem vitimização.

Em segundo lugar, é preciso contrariar no limite do possível a ideia de impunidade, de que não acontece nada ao agressor. As escolas, tal como a comunidade em geral, podem e devem assumir atitudes e discursos que, visivelmente, mostrem um sinal de que não existe tolerância para determinados comportamentos.

É também importante que famílias, escolas e demais instituições com intervenção social estejam atentas e que possam ser dotadas de dispositivos de apoio e recursos suficientes e competentes que permitam o desenvolvimento de iniciativas no plano da formação e apoio aos adolescentes e jovens, integrados ou não nos conteúdos curriculares, que, tanto quanto possível, minimizem o risco de incidentes como os que têm ocorrido.

Os discursos demagógicos e populistas não são um bom serviço prestado à minimização destes incidentes que minam a qualidade cívica da nossa vida.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

UM RAPAZ CHAMADO PUZZLE

 Era uma vez um rapaz chamado Puzzle. É um nome um bocado estranho para um rapaz ter, mas era mesmo o nome dele.

Quando nasceu, através de um exercício frequente nas famílias, descobriram ou quiseram descobrir que ele tinha os olhos da mãe Maria, a testa e o nariz do pai João, o cabelo do avô paterno Manuel e a boca da avó materna Leonor.

À medida que crescia o Puzzle ficava mais complexo, tinha o andar e o feitio do pai João, a maneira doce de falar da mãe Maria e um ar esperto e atento do avô materno António. Na escola a esperteza era a da mãe Maria e o comportamento era o do pai João e tinha ainda a vontade de despachar tudo bem depressa, mesmo se não estivesse muito perfeito, que era tal e qual o avô Manuel.

O Puzzle foi crescendo e um dia, um sobressalto daqueles muito grandes, que por vezes a vida proporciona sem se esperar, fê-lo dar um tombo, um tombo muito sério que deixou o Puzzle bastante maltratado. Com a energia que a vontade de continuar vivo lhe emprestava, tentou erguer-se de novo, mas sentiu a maior das dificuldades para juntar aquelas peças todas de que era feito.

Após muitos esforços e recaídas, decidiu que ficaria só com aquilo que era seu e até mudou o nome, agora chama-se Eu.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

QUALIFICAÇÕES A MAIS OU DESENVOLVIMENTO A MENOS

 No âmbito do lançamento do Observatório do Emprego Jovem da responsabilidade do ISCTE foi divulgado um estudo sobre o mercado de trabalho que merece reflexão e, sobretudo, acção em matéria de políticas públicas de economia e emprego.

Portugal é o segundo país europeu com maior taxa de sobrequalificação no mercado de trabalho. Com dados de 2016, 23.6% dos empregados possuíam qualificações mais elevadas do que as necessárias para o trabalho desempenhavam, apenas trás da Grécia, 23.7%. Para comparação, Finlândia e República Checa têm os níveis mais baixos, 7.8% e 8.7%.

Nos últimos anos Portugal evidenciou um avanço notável nos níveis de qualificação, um bem de primeira necessidade, para o desenvolvimento das comunidades. Entre 2000 e 2020, a percentagem de pessoas entre os 25 e os 34 anos com ensino superior passou de 12.8% para 39.6%.

Parece, pois, verificar-se um inquietante desperdício do capital mais importante, a qualificação dos recursos humanos. Para além da sobrequalificação para os empregos disponíveis acresce a debandada de muitos jovens adultos qualificados para outros países em busca de projectos de vida mais sólidos e compatíveis com as suas motivações e qualificação.

No estudo estão identificados dois factores considerados fortemente contributivos para este cenário.

Verifica-se que o peso da indústria e dos serviços de alta tecnologia é baixo e, por outro lado as limitações da contratação no sector público.

Sem que seja, longe disso, um especialista nesta área que tem faltado uma estratégia concertada envolvendo a qualificação dos cidadãos e, simultaneamente a qualificação e organização do trabalho e emprego por parte do universo de empregadores.

Por outro lado, creio que nesta equação terá de ser considerado algo que me parece pouco referido e valorizado, o nível de qualificação dos empregadores.

Um estudo divulgado em 2018 pelo Observatório das Desigualdades do ISCTE, "O mercado de trabalho em Portugal e nos países europeus" com base em dados do Instituto Nacional de Estatística e do Eurostat mostrava que em 2017 e considerando a qualificação que não passou do 9º ano, os empregados eram 43.7% e os empregadores 56.4%.

Considerando o ensino superior, a percentagem de empregados com este nível estava em 27.1% e nos empregadores, 20.1%.

Este cenário, torna ainda mais necessária a existência de políticas públicas que sustentem e promovam de forma consistente e prolongada a modernização do mercado de trabalho, a qualificação do emprego que não pode assentar em proletarização dos salários e precariedade que desincentiva a busca de qualificação, a aposta em sectores de actividade que absorvam mão-de-obra mais qualificada e com maior produtividade, entre outros aspectos.

Como muitas vezes tenho afirmado, não temos gente com qualificação a mais, temos desenvolvimento a menos.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

DIA MUNDIAL DE COMBATE AO BULLYING. É PRECISO INSISTIR

 Para que não nos esqueçamos o calendário das consciências determina para hoje o Dia Mundial do Combate ao Bullying.

Nos tempos que atravessamos o fenómeno do bullying e em particular do cyberbullying, continua a ser fonte de sofrimento para muitas crianças e jovens e, naturalmente, uma fonte de preocupação para famílias, professores e técnicos.

Mesmo durante o período do de confinamento a variante cyberbullying constituiu uma fonte de enorme inquietação como emergiu no estudo “Cyberbullying em Portugal durante a pandemia da covid-19” do Centro de Investigação e Intervenção Social do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, que aqui  referi, e nos dados revelados pela Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil, uma em cada cinco crianças com obesidade foi pela primeira vez vítima de cyberbullying durante os meses de confinamento e ensino à distância.

Algumas notas repescadas direccionadas a pensar sobretudo nos alunos que ainda frequentam a escolaridade obrigatória.

Desde logo parece-me de chamar a atenção que também por questões desta natureza se percebe a necessidade de uma área reflexão trabalhada na escola, que chegue a todos os alunos e que promova a qualidade das relações interpessoais, a empatia, solidariedade e inteligência emocional, etc.

O cyberbullying parece ser actualmente a variante de bullying mais preocupante. Contrariamente ao bullying presencial o cyberbullying não tem “intervalos”, normalmente os fins-de-semana pois ocorrem predominantemente nos espaços escolares. Não sendo presencial o(s) agressor(es) não tem, ou não têm, uma percepção clara do nível de sofrimento infringido o que em algumas circunstâncias pode funcionar como “travão” e inibir o comportamento agressivo. Esta situação é potenciada quando se junta a um menor nível de empatia pelo outro o que ficou muito claro no primeiro trabalho citado acima e que merece leitura.

Também por estas razões é fundamental uma atitude ajustada face a este tipo de comportamentos.

Em termos globais, sabe-se também que a ocorrência de situações de bullying é bem superior ao número de casos que são relatados. Uma das características do fenómeno, nas suas diferentes formas, incluindo o cyberbullying, é justamente o medo e a ameaça de represálias a vítimas e assistentes que, evidentemente, inibem a queixa pelo que ainda mais se justifica a atenção proactiva e preventiva de adultos, pais, professores, técnicos ou funcionários.

Este cenário determinaria, só por si, um empenhado investimento em recursos e dispositivos que procurassem minimizar o volume de incidências, algumas das quais de gravidade severa.

Neste contexto e dada a gravidade e frequência com que ocorrem estes episódios, é imprescindível que lhes dediquemos atenção ajustada a sinais dados por crianças e adolescentes, nem sobrevalorizando, nem tudo é bullying, o que promove insegurança e ansiedade, nem desvalorizando, o que pode negligenciar riscos e sofrimento.

Neste universo e mais uma vez importa considerar dois eixos fundamentais de intervenção por demais conhecidos, a prevenção e a intervenção depois dos problemas ocorrerem. Esta intervenção pode, por sua vez e de forma simplista, assumir uma componente mais de apoio e correcção ou repressão e punição, sendo que podem coexistir. Com alguma demagogia e ligeireza a propósito do bullying, as vozes a clamar por castigo têm do meu ponto de vista falado mais alto que as vozes que reclamam por dispositivos de prevenção, intervenção e apoio para além da óbvia punição, quando for caso disso.

Esta utilização mostra a necessidade de dispositivos de apoio e orientação absolutamente fundamentais para que pais, professores e alunos possam obter informação e apoio. Entretanto estão criados vários portais e disponíveis alguns canais de denúncia e procura de orientação e suporte dirigido a pais, professores, técnicos e, naturalmente, alunos.

Lamentavelmente, parte importante das entidades e iniciativas de apoio e suporte é exterior às escolas e ilustra a falta de resposta estruturada e global do sistema educativo, para além das insuficiências de recursos e na formação de técnicos e de professores sobre esta complexa questão, desde logo para o seu reconhecimento e identificação.

A existência de dispositivos de apoio sediados nas escolas, com recursos qualificados e suficientes, designadamente no que respeita aos assistentes operacionais com funções de supervisão dos espaços escolares, é uma tarefa urgente.

Do meu ponto de vista, o argumento custos não é aceitável porque as consequências de não mudar ou não fazer são incomparavelmente mais caras. Depois das ocorrências torna-se sempre mais fácil dizer qualquer coisa, mas é necessário. Muitas crianças e adolescentes evidenciam no seu dia-a-dia sinais de mal-estar a que, por vezes, não damos ou não conseguimos dar atenção, seja em casa, ou na escola.

Estes sinais não devem ser ignorados ou desvalorizados. O resultado pode ser trágico.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

O POSTAL

 A abertura rotineira da caixa de correio no portão trouxe uma enorme surpresa. No meio dos habituais folhetos publicitários vinha um postal com cores bem bonitas.

Tratava-se de um postal enviado pelo neto pequeno, cinco anos, o Tomás dirigido à Avó.

Não pude deixar de o ler antes de o entregar à destinatária, a avó Né.

Desejava que a Avó estivesse bem e perguntava pelo Alentejo, também uma paixão do Tomás.

Numa letra muito cuidada o postal vinha assinado, Tomás.

 Num tempo em que pouco se usa a comunicação de natureza pessoal através do correio foi bom recebermos este postal.

É também assim que a escrita se valoriza e se instala e é também assim que se escrevem os dias mágicos da avozice.

domingo, 17 de outubro de 2021

A PROPÓSITO DO "SQUID GAME"

 Nos últimos dias a imprensa tem divulgado episódios de violência preocupante ocorridos em comunidades escolares desencadeados por manifesta influência da série da Netflix, “Squid Game”.

Numa das abordagens, realizada pelo DN, foi-me solicitada alguma colaboração.

Em síntese do que procurei expressar creio que agora falamos dos efeitos potenciais nos mais novos de conteúdos como o “Skid Game”, como já falámos do “Fortnite”, da “Baleia Azul” ou mesmo de comportamentos e desafios de risco desencadeados no contexto da rede “TikTok”.

Não tenho a convicção que os autores e difusores deste tipo de produtos venham a desenvolver qualquer dispositivo de regulação do seu consumo, afirmar que o “Squid Game” se destina a maiores de 16 anos e, portanto, os mais novos não o consomem é, no mínimo, pouco sério.

Sabemos ainda que a cultura e valores dominantes acomodam sem grande sobressalto consumo de produtos de diferentes tipos que, evidentemente, são tóxicos, física ou psicologicamente, e potencialmente perigosos sobretudo para grupos mais vulneráveis.

Também sou pouco optimista na disponibilidade e capacidade das comunidades para instituírem dispositivos de regulação eficazes, veja o que actualmente se discute em torno do Facebook. São conteúdos que valem muitos milhões, números demasiado grandes para que se “belisquem”.

É neste contexto que, como muitas vezes afirmo, esta questão acaba por ficar mais reservada à acção educativa familiar e escolar.

Sim, eu sei das dificuldades da parentalidade nos contextos actuais, com estilos de vida que sustentam um tempo limitado de interacção e também sei que não se pode exigir tudo à escola.

Por outro lado, sei, como afirmei ao DN, que assentar a acção reguladora fundamentalmente em estratégias proibicionistas tendem a não ser eficazes à medida que as crianças crescem.

Creio que o caminho passa incontornavelmente pela promoção da literacia digital das famílias para ajudar a perceber os “alçapões” que existem nos conteúdos que nos podem chegar através do ecrã. Muitos pais, diz-me a experiência, desconhecem boa parte dos riscos.

Num tempo em que a escola, por boas e más razões, a pandemia, entrou decididamente num tempo de recursos digitais. No contexto da sua utilização talvez possamos introduzir proactivamente e numa perspectiva de desenvolvimentos dos alunos uma abordagem a conteúdos e aos riscos.

A abordagem em contexto familiar ou escolar será, provavelmente, mais eficiente se assentar numa tentativa de mediação nos consumos, o “ecrã” não deve ser a “babysitter” dos miúdos, e de auto-regulação, ou seja, “eu sei o que é isto e decido ou não ver”, ou mesmo, “eu vejo isto, mas … só vejo”.

Como também será claro, nada disto garantirá a ausência de risco nem algo que não defendo e em que não acredito, uma “educação para a santidade”.

Finalmente, uma referência à necessidade de estarmos, pais, escola, comunidade, atentos a sinais que podem notar-se em crianças e adolescentes que nos podem alertar para situações ou comportamentos que não conhecemos, mas podem provocar mal-estar ou sofrimento.

Não se trata de uma tarefa fácil, é a única certeza que tenho para além de que após o “Squid Game” surgirá certamente qualquer outro conteúdo que nos fará voltar a pensar nestas questões.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

DOS MANUAIS ESCOLARES

 A questão dos manuais escolares reentra regularmente na agenda em particular no início de cada ano lectivo. Desta vez trata-se de um atraso na impressão e distribuição que, de acordo com editoras, se deverá ao prolongamento do ano lectivo passado.

Como algumas vezes aqui tenho referido creio que a questão dos manuais escolares merece alguma reflexão.

Como regularmente tenho afirmado e insisto, o nosso ensino parece ainda manter-se excessivamente "manualizado" o que tem óbvias implicações didáctico-pedagógicas e, naturalmente, económicas.

Apesar da progressiva disponibilização de outras fontes de informação e do acréscimo de acessibilidade através das tecnologias de informação e de outros suportes, a utilização dessas fontes alternativas aos manuais parece-me pouco valorizada incluindo por pais e alunos embora a experiência adquirida cm os períodos de confinamento seja certamente um contributo para mudanças.

De facto, embora o abandono do “livro único” tenha ocorrido há já bastante tempo e de uma preocupação nem sempre bem-sucedida com a qualidade dos manuais, predomina a sua utilização e das respectivas fichas e instrumentos como materiais de apoio às aprendizagens e à “ensinagem” e que agravam substantivamente os custos das famílias.

Para além de imenso material de outra natureza, temos em cada área programática ou disciplina uma enorme gama de cadernos de fichas, cadernos de exercícios, cadernos de actividades, materiais de exploração, etc. etc. que submergem os alunos e oneram as bolsas familiares, até porque muitos destes materiais não são incluídos nos apoios sociais escolares.

Em muitas salas de aula, dada a natureza da estrutura e conteúdos curriculares, corre-se o risco de substituir a “ensinagem”, o acto de ensinar, pela “manualização” ou “cadernização” do trabalho dos alunos, ou seja, a acção do professor será, sobretudo, orientar o preenchimento dos diferentes dispositivos que os alunos carregam nas mochilas.

É verdade que a minimização da dependência dos manuais envolve um conjunto de variáveis que devem ser consideradas.

Passa pela uma reorganização e flexibilização curricular, diminuindo a extensão de alguns conteúdos, por exemplo, o que permita a alunos e professores um trabalho de pesquisa e construção de conhecimentos com base noutras fontes potenciando, por exemplo, a acessibilidade que as novas tecnologias oferecem.

Passará pelo ajustamento no número de alunos por turma de modo a permitir melhores níveis de diferenciação pedagógica e, assim, acomodar outros suportes ao processo de ensino e aprendizagem.

Passará ainda por maior autonomia de escolas e professores e recursos que acomodem dispositivos de apoio, tutorias por exemplo, que diversifiquem e diferenciam as formas e materiais de trabalho bem como respondam mais eficazmente à diversidade entre os alunos.

Creio que seria importante caminharmos no sentido de atenuar a fórmula instalada que de forma simplista se pode enunciar, o manual formata operacionalmente o currículo, o professor ensina com base no manual o que o aluno aprende através do manual que o pai acha muito importante porque tem tudo o que professor ensina.

É possível caminhar numa perspectiva de “desmanualização” do nosso trabalho escolar, existem já experiências em diferentes escolas e agrupamentos, da rede pública e privada, que sustenta a sua possibilidade.

Não esqueço, no entanto, o peso das decisões em matéria de política educativa bem como o peso económico deste mercado.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

UM RAPAZ CHAMADO PERFEITO

 Há uns tempos conheci um rapaz. Chamava-se Perfeito. Na escola onde andava não havia ninguém como ele. Nas aulas, apenas falava para esclarecer dúvidas ou ajudar os colegas. Pedindo antecipadamente autorização, claro. Os cadernos e trabalhos de casa do Perfeito estavam sempre em dia e bem organizados. Mostrava os conhecimentos esperados sobre todas as matérias. Nos intervalos brincava de forma tranquila, envolvido nos jogos próprios da sua idade. Era simpático para com os colegas, professores e funcionários que, naturalmente, adoravam o Perfeito.

Em casa era arrumado com as suas coisas, colaborava nas tarefas e ainda encontrava tempo para ajudar a irmã mais nova nos trabalhos de casa e, até para dia sim, dia não, telefonar aos avós. Gostava de falar com os pais e, por vezes, gostava de se envolver em conversas muito interessantes sobre o que lia no jornal. Não era exigente com a roupa, gostava de ler e ouvir música.

Os vizinhos do prédio adoravam o Perfeito, sempre com um sorriso e pronto a ajudar a D. Adosinda com o saco das compras.

Desde há dois meses que não sei nada sobre o Perfeito. Perdi o livro onde ele morava.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

OLÁ ABUELITO

 Como é reconhecido e, sobretudo, sentido, os ecrãs fazem parte próxima das nossas vidas e, naturalmente, também dos mais novos.

Muitas vezes aqui tenho abordado essa questão o que também frequentemente acontece em conversas com pais.

Como tenho afirmado, mais do que abordagens proibicionistas defendo um acesso mediado dos mais pequenos aos ecrãs e a promoção, de acordo com idade, de estratégias de auto-regulação, eles vão percebendo e decidindo o que pode, ou não, ser adequado.

Vem esta introdução a propósito de algo que me está a acontecer com regularidade e que é explicado pelo convívio com o ecrã do meu neto pequeno, o Tomás, cinco anos de vida.

De repente e com alguma surpresa passei a ser tratado por “abuelito” em vez de avô.  

Quando me dei conta da “espanholização” do tratamento procurei perceber a razão.

É simples, trata-se de uma banda desenhada “Santiago dos mares” que passa num canal dedicado à banda desenhada e com episódios em castelhano e de que o Tomás gosta. Ao que parece existe um personagem avô o que tem levado a que esta personagem, eu, seja de vez quando convertido em “Olá abuelito!” e com uma pronúncia perfeita. Aqui para nós, até acho piada.

E são também assim os dias mágicos da avozice com os meus dois “nietos”.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

A UNIVERSALIDADE DO ACESSO À EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR. AINDA NÃO É DESTA

 Há alguns dias foi divulgada a versão preliminar da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030. Vai entrar em discussão pública e inclui uma proposta de alargamento da escolaridade obrigatória para quinze anos iniciando-se aos três anos.

O objectivo será que através da frequência universal da educação pré-escolar se combatam desigualdades que afectam as crianças e dificultam o seu trajecto de desenvolvimento e educação de forma bem-sucedida.

Hoje, com a divulgação da proposta de Orçamento de Estado para 2022 ficamos a saber que ainda não será garantida a universalidade do acesso a educação pré-escolar aos 3 anos pois implicaria um investimento não previsto na capacidade de resposta da rede existente.

Sou dos tenho alguma reserva face à obrigatoriedade da frequência do jardim-de-infância aos três anos, mas defendo a universalidade do acesso. Dito de outra maneira, nenhuma criança com três anos deve ser obrigada frequentar jardim-de-infância, mas qualquer família que precise de aceder a esta resposta deve ter acesso e em condições acessíveis e com qualidade.

Assim, mais do que discutir sobre o alargamento da escolaridade obrigatória a partir dos três anos importa, isso sim, assegurar, a universalidade da resposta o que ainda não será conseguido durante o próximo ano dificultando a situação de crianças e famílias.

Como aqui escrevi há dias a propósito desta questão, existem lista de espera de creches e jardins-de-infância no chamado sector social em que as mensalidades são indexadas aos rendimentos familiares. Esta situação afecta sobretudo zonas mais urbanas e a alternativa da resposta privada é inacessível para muitas famílias.

Acresce que para além da dificuldade de encontrar respostas os custos elevados do acesso aos equipamentos, boa parte privada ou da rede social, são dos mais altos no contexto europeu de acordo com o relatório "Starting Strong 2017" da OCDE. Aliás esta questão é contributiva para a baixa natalidade tal como vários outros aspectos das políticas públicas, designadamente as políticas de família.

Como já afirmei, tendo dúvidas sobre a obrigatoriedade da frequência, mas tenho a maior convicção na necessidade de garantir a universalidade do acesso à educação pré-escolar aos três anos criando uma rede de oferta com respostas de qualidade, acessíveis, logística e economicamente.

Sabemos todos como o desenvolvimento e crescimento equilibrado e positivo dos miúdos é fortemente influenciado pela qualidade das experiências educativas familiares e institucionais nos primeiros anos de vida, de pequenino é que ...

Assim, existem áreas na vida das pessoas que exigem uma resposta e uma atenção que sendo insuficiente ou não existindo, se tornam uma ameaça muito séria ao futuro, a educação de qualidade universalmente acessível para os mais pequenos é uma delas.

No entanto e mais uma vez, a educação pré-escolar é bastante mais que a “preparação” para a escola, não deve ser entendida como uma etapa na qual os meninos se preparam para entrar na escola embora se saiba do impacto positivo que assume no seu trajecto escolar.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O RISCO DA "DESPROFISSIONALIZAÇÃO" DOCENTE

 O início deste ano lectivo, para além da questão relativa à designada “recuperação das aprendizagens”  dos efeitos do quadro pandémico que ainda estamos a viver continua também marcado pela falta de docentes sobretudo em alguns grupos disciplinares e também em algumas regiões.

A situação tem levado à necessidade de contratação de profissionais que não possuem habilitação específica para a docência o que também não é uma situação nova.

Importa recordar que em 2020 o ME estabeleceu a possibilidade de que professores de Inglês, Francês, Alemão ou Espanhol possam dar aulas de Português no 3.º ciclo e secundário desde que tenham feito um “estágio pedagógico” nesta área. Também a disciplina de Inglês poderá ser assegurada por professores de Português, Francês, Alemão e Espanhol e a de Geografia por professores de História. Finalmente, a disciplina de TIC pode ser leccionada por qualquer docente que tenha frequentado uma acção de formação nesta área. Esta situação está agora a ser aproveitada.

Parece claro que a existência de muitos alunos sem aulas em diferentes disciplinas é um problema sério e que exige resposta.

Parece também claro que a negligência incompetente com que a questão do número de professores necessário ao sistema tem sido tratada contribui para a situação criada. Os dados demográficos, a composição dos grupos disciplinares e as necessidades das escolas constituem informação conhecida de há muito sem que se tenham desencadeado medidas com alguma eficiência e em tempo oportuno.

Parece ainda claro que a narrativa dos professores a mais, globalmente, não passava disso mesmo, uma narrativa.

Acresce que o modelo de carreira, a desvalorização da profissão docente entre outras variáveis serão contributivas para a actual situação que também se traduz numa menor capacidade de captação de novos professores, para além da alimentação da precariedade que vai contribuindo para que muitos professores vão tendo um conhecimento alargado do país.

Finalmente, parece claro que algumas opções seguidas levantam algumas inquietações em linha com o que aqui já tenho abordado a propósito de um risco emergente de “desprofissionalização” dos docentes. Esta “desprofissionalização” pode ir acontecendo através de medidas desta natureza, mas também através da timidez na promoção da autonomia das escolas associada aos efeitos da "municipalização” em curso ou projectos de intervenção nas escolas realizados em “outsourcing”.

Deve dizer-se que este movimento não é de agora e não começou por cá. Tem vindo a fazer o seu caminho em diferentes sistemas emergiu na década de 80 sob a designação de “deskilling” promovendo concepção “empobrecida”, diria “embaratecida”do professor e da sua função. Nesta visão, os docentes cumprem ordens e programas, não têm que fazer escolhas, possuir conhecimento aprofundado, solidez nas metodologias, valores éticos e morais, etc. Seria suficiente uns burocratas, agora mais burocratas digitais a papaguear, fabricar, aulas para grupos de alunos "normalizados".

Os professores serão basicamente “entregadores de conteúdos”, (content delivers na formulação original), outros burocratas a medir saberes ou a desvalorização da avaliação interna e externa e uns outros ainda a construir fórmulas de gestão em modelo “digito-burocrata) num qualquer serviço centralizado ou com um modelo que apesar de “descentralizado” não atribui, de facto, autonomia robusta às escolas cujo modelo de governação é parte desta equação.

Definitivamente, este não pode ser o caminho. A “desprofissionalização” pode tornar os professores mais “baratos”, mas o nosso futuro será mais caro por pior qualidade, um professor de … é muito mais que um técnico de …

Todas as necessárias mudanças na educação só podem ocorrer e ser bem-sucedidas com o envolvimento e valorização dos professores, das suas competências, mas também, naturalmente, com a sua avaliação justa, transparente e competente.

domingo, 10 de outubro de 2021

A SAÚDE MENTAL DE CRIANÇAS E JOVENS

 Na agenda das consciências cumpre-se hoje o Dia Mundial da Saúde Mental que, como muitas afirmo, é o parente pobre das políticas de saúde. Os indicadores disponíveis mostram com as perturbações no âmbito da saúde mental constituem um problema grave em Portugal com impactos fortíssimos no bem-estar pessoal e familiar e económicos através da perda de funcionalidade e de gastos brutais em medicação de que somos dos maiores consumidores europeus.

Algumas notas repescadas pensando sobretudo nos mais novos.

Em Agosto foi divulgado um trabalho realizado pela Universidade de Calgary, no Canadá em que foram analisados 29 estudos de diferentes países envolvendo 80879 crianças e jovens. Como dado mais relevante constata-se que um em cada quatro crianças ou jovens tem sintomas de depressão elevados e um em cada cinco apresenta sintomas de ansiedade altos devido à pandemia da covid-19.

Complementando recordo que em Março deste ano foi divulgado que em alguns hospitais se registou um aumento do número de crianças e jovens que chegaram ao serviço de urgência com problemas de ansiedade ou humor. No Hospital D. Estefânia, por exemplo, o número de crianças e jovens que tiveram contacto com a pedopsiquiatra através de serviço de urgência aumentou quase 50% no início de 2021 face ao mesmo período do ano passado.

De facto, têm sido múltiplos os estudos que referem esta questão, a deterioração da saúde mental de crianças e jovens, mas também de adultos, no quadro da pandemia. O confinamento que se associou a isolamento e falta de rede social, as dificuldades de diversa ordem sentidas nos contextos familiares terão dado um contributo significativo.

Deste quadro resulta a necessidade de atenção à saúde mental, normalmente um parente pobre das políticas públicas de saúde.

O impacto da pandemia nas aprendizagens tem sido muito referido e está a ser objecto de um plano específico, Plano 21/23 Escola +. Seria importante que a esta recuperação no plano das aprendizagens estivesse associada a uma forte preocupação com a saúde mental de crianças e jovens mobilizando os recursos necessários.

Crianças e jovens que passam mal, não aprendem, vivem pior e correm riscos sérios de comprometer o futuro pelo que os apoios e resposta não podem, não devem, falhar.

Como o povo diz, é de pequenino que se torce o … destino.

Acresce que tem vindo a verificar-se em muitos agregados familiares e em contextos escolares a emergência de discursos que pressionam os mais novos no sentido de atingirem a excelência nos resultados escolares ou em qualquer actividade “importante” pois será, dizem, a “única” forma de atingir um patamar de sucesso futuro.

Como se sabe e a experiência mostra, muitas crianças e adolescentes não suportam com tranquilidade esta pressão o que se repercute no seu bem-estar e na sua saúde mental. Para complicar um pouco mais, ainda se verifica que algumas pessoas desvalorizam estes fenómenos, entendendo que é preciso ser exigente e bem-sucedido e não percebendo o sofrimento de algumas crianças e jovens.

Por outro lado, é também conhecida a enorme dificuldade que muitas instituições que acolhem menores estão a passar dificultando a resposta com a qualidade bem como a possibilidade de responder a novas situações.

Os miúdos, nas famílias preferencialmente, ou nas instituições, necessitam de um aconchego, um ninho, uma qualidade de vida que os cuidadores, por diversas razões, não sabem, não querem, não podem ou não são capazes de providenciar. Tal cenário implica riscos fortíssimos de compromisso do seu futuro pelo que os apoios e resposta são fundamentais, mas não podem passar apenas pela medicação.

Como o povo diz, é de pequenino que se torce o … destino.

sábado, 9 de outubro de 2021

O TEMPO DAS NOZES

 Este fim-de-semana depois de fabricar a terra dos pomares com o escarificador foi tempo para continuar a apanha das nozes aqui no Monte. É quase sempre na altura da Festa da Sra. D’Aires que também este ano ainda não se realizou por causa do maldito vírus que ainda nos inferniza a vida.

Acabámos há pouco a tarefa, apenas restam as nozes altas de uma nogueira que ficarão para ser batidas para a semana, as costas já protestam ainda que a vara não seja muito pesada, a modernice do carbono veio ajudar, é uma das que usamos para varejar as oliveiras. Sempre que colhemos as nozes recordo uma história, uma de muitas, que o Mestre Zé Marrafa me contou.

Dizia ele que há uns quarenta ou cinquenta anos lá para trás no tempo trabalhava para um lavrador muito velhaco, muito malino, naquele tempo havia muitos sublinhou, que obrigava as moças que trabalhavam na herdade a colher as nozes sempre no dia antes de começar a festa da Sra. D’ Aires, estivessem ou não prontas para colher.

Face à minha estranheza explicou que naquele tempo não se usavam luvas e que as mãos ficam tão negras e impregnadas com o óleo do invólucro das nozes que as moças tinham que ir à festa com as mãos num estado lastimoso. É verdade, não sei se já passaram pela experiência, por isso eu uso luvas de trabalho para tal tarefa.

Esse mesmo lavrador para castigar os homens determinava tarefas “sujas” logo no início da semana levando a que a roupa de trabalho das pessoas ficasse em mísero estado para o resto da semana. Naquele tempo era assim, não seria só assim, mas era também assim.

Às vezes, coisas de velho já se vê, parece-me não haver memória.

Mas o Velho Marrafa não esqueceu. E eu acho que é bom recordar.

Amanhã será a vez de colher azeitona para retalhar e conserva, mal posso esperar pelo sabor das azeitonas novas.

E são assim os dias do Alentejo

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

UM OLHAR POR DENTRO DA ESCOLA

 O texto de Paulo Prudêncio no Público, “A escola, os certificados e o monstro burocrático” merece leitura atenta. Talvez se possa considerar uma reflexão sobre um outro lado da escola quase que unicamente acessível aos profissionais que nela diariamente prestam funções, o peso do excesso de burocracia. Tal excesso é esbanjador de esforços, empenho e competências dos professores sem ganhos significativos para a qualidade dos processos educativos escolares.

A sua leitura fez recordar-me de como em múltiplos contactos e conversas com professores são recorrentes as referências à burocracia que continua a inquinar o trabalho de toda a gente. O recurso exaustivo às novas tecnologias, através de múltiplas plataformas parece ter-se integrado no problema e não representa um contributo sólido para agilização de processos e eficiência

Já há algum tempo aqui escrevi como seria desejável que o trabalho a desenvolver, os conteúdos envolvidos, os dispositivos em utilização, a organização de tempos e rotinas, etc., tivessem como preocupação a simplificação. Professores, técnicos. alunos e famílias ganhariam. Esta simplificação deveria incluir a avaliação e registos. Seria positivo que, tanto quanto possível, se aliviasse a pressão “grelhadora” a que habitualmente escolas e professores estão sujeitos.

Não é por registar, muito, registar tudo, aliás, nunca se regista tudo pelo que não vale a pena insistir, que o trabalho melhora e o desperdício é grande.

Como é evidente, este apelo à simplificação não tem a ver com menos rigor, qualidade, intencionalidade educativa ou não proporcionar tempo de efectiva aprendizagem para todos. Antes pelo contrário, se conseguirmos simplificar processos e recursos, alunos, professores e famílias beneficiarão mais do esforço enorme que todos têm que realizar e estão a realizar.

Sempre que falo desta questão recordo-me do Mestre João dos Santos, quando dizia, cito de memória pelo privilégio de ainda o ter conhecido e ouvido, que em educação o difícil é trabalhar de forma simples, é mais fácil complicar, mas, obviamente, menos eficaz, menos produtivo e muito mais desgastante.

Talvez valesse a pena tentarmos esta via de mais simplificação. As circunstâncias já são suficientemente complicadas.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

COMBATE À CORRUPÇÃO? ENTRE O NÃO QUERER E O NÃO PODER

 Nos últimos dias tem estado na agenda mais um episódio que, apesar de lamentavelmente já não estranharmos e talvez por isso, nos faz sentir algures entre a indiferença alimentada pela regularidade de situações desta natureza e uma raiva a crescer nos dentes alimentada pela indignação. A fuga de João Rendeiro estava escrita nas estrelas, talvez com menos despudor, mas este despudor é ele próprio mais um sinal.

Os indicadores produzidos regularmente pelo Barómetro Global da Corrupção, da responsabilidade da Transparency International, a rede global de Organizações Não-Governamentais que em Portugal é representada pela Transparência e Integridade mostraram que Portugal permanece sistematicamente numa posição pouco digna, antes pelo contrário, na tabela do índice de percepção da corrupção tendo praticamente estagnado o que segundo a Transparência e Integridade evidencia a inexistência de uma estratégia de combate à corrupção e aos designados crimes de "colarinho branco".

Sabe-se ainda que numa parte muito significativa dos casos conhecidos, registados  e investigados não resulta condenação. São também regulares as referências à falta de meios e recursos humanos no sistema judicial, mas a coisa não se altera significativamente.

Lembro também que já em Fevereiro de 2016 a Comissão Europeia afirmava num relatório que em Portugal “não existe uma estratégia nacional de luta contra a corrupção em vigor”. Não sei se já temos uma estratégia nacional de combate à corrupção, somos bons a definir estratégias nacionais e até admito que sim, mas os resultados …

No entanto, sobretudo à entrada de cada novo governo ou em períodos pré-eleitorais, está sempre presente nos discursos partidários a retórica que sustenta o fingimento da luta contra a corrupção e a promoção da transparência na vida política portuguesa e, regularmente, emergem umas tímidas propostas que mascaram essa retórica, entram na agenda, por vezes até se dá mais um "jeitinho" nas leis (nada de substantivo) e rapidamente tudo se apaga até ao próximo fingimento.

Do meu ponto de vista, nenhum dos partidos do chamado “arco do poder” ou que a ele pretendem aceder, está verdadeiramente interessado na alteração da situação actual, o que, aliás, pode ser comprovado pelas práticas desenvolvidas enquanto poder nos diversos patamares. A questão, do meu ponto de vista, é mais grave. Os partidos, insisto no plural, mais do que não querer mexer seriamente na questão da corrupção e do seu financiamento, não podem e vejamos porque não podem.

Nas últimas décadas, temos vindo a assistir à emergência de lideranças políticas que, salvo honrosas excepções, são de uma mediocridade notável. Temos uma partidocracia instalada que determina um jogo de influências e uma gestão cuidada dos aparelhos partidários donde são, quase que exclusivamente, recrutados os dirigentes da enorme máquina da administração pública e instituições e entidades sob tutela do estado. Esta teia associa-se à intervenção privada sobretudo nos domínios, e são muitos, em que existem interesses em ligação com o estado, a banca, as obras públicas ou os grandes escritórios de advogados verdadeiramente os autores da legislação que depois irão aplicar ou sobre a qual darão, venderão, pareceres criteriosos, são apenas exemplos. Acresce o intenso tráfego de dirigentes entre entidades públicas e privadas sem qualquer sobressalto. Os últimos anos, meses, semanas, dias, foram particularmente estimulantes nesta matéria.

A manutenção deste quadro, que nenhum partido estará verdadeiramente interessado em alterar, exige um quadro legislativo adequadamente preparado no parlamento e uma actividade reguladora e fiscalizadora pouco eficaz ou, utilizando um eufemismo, “flexível”. Assim, a sobrevivência dos partidos, tal como estão e da praxis que desenvolvem, exigem a manutenção da situação existente pelo que, de facto, não podem alterar. Quando muito e para nos convencer de que estão interessados, introduzem algumas mudanças irrelevantes e acessórias sem, obviamente, mexer no essencial. Seria um suicídio para muita da nossa classe política e para os milhares de amigos de diferentes cores que se têm alimentado, e alimentam do sistema.

O combate à corrupção, parece, assim, um problema complicado e fortemente dependente da inadiável criação de uma pressão cívica que obrigue à mudança. De quem faz parte do problema, não podemos esperar a solução.

E assim se cumpre a pantanosa pátria nossa amada.