quarta-feira, 16 de julho de 2008

O GOVERNADOR, O PROFESSOR E O SUBMARINO

Prometo que vou fazer um esforço para, tanto quanto possível, manter a crise um bocadinho afastada destes encontros. Por vezes, temos a secreta e estúpida esperança de que, se não falarmos das coisas, elas deixam de existir, isto é, a portuguesa ideia, “longe da vista, longe do coração”. Fugindo, portanto, à crise, da imprensa de hoje algumas notas a merecer atenção.
Em primeiro lugar. Temos finalmente submarino, já não somos um qualquer país que nem um submarino em condições tem. Podia lá ser uma pátria de marinheiros caber num velho Barracuda dos anos 50. Não, pela módica quantia de 1000 milhões de euros (não vale falar da crise) vamos ter dois submarinos, um já está na água, e voltaremos a ser donos dos mares. Que se cuidem terroristas, inimigos em geral, contrabandistas e traficantes e pescadores espanhóis. Agora é que vão ser elas. Segundo o DN até “o Mar das Caraíbas passa a estar igualmente ao alcance do poder naval lusitano”. É obra.
Segunda nota. Chegou o Professor para fazer o melhor por nós. Não, não é o Marcelo. Não, não é o Karamba. Não, não é o Manuel Machado. É o Professor Carlos Queirós, novo seleccionador nacional de futebol, que vem substituir o devoto da Senhora do Caravaggio, o Sr. Scolari agora devotamente atrás das libras do Sr. Abrammovich, o tal que fez fortuna através de honestos processos de corrupção. A apresentação do Professor feita por essa maior figura da lusa comunidade, o Dr. Madail, foi comovente.
Um dos maiores especialistas em política energética, o Dr. Vitor Constâncio, governador do Banco de Portugal, aconselhou o Governo a considerar a hipótese da energia nuclear. Considerando o vastíssimo curriculum do Sr. Dr. nesta matéria, o Governo já encomendou ao LNEC um estudo sobre a questão.
Finalmente. A PSP anda à procura de duas pistolas-metralhadoras Beretta que terão desaparecido de uma esquadra. Bom, o país é pequeno, estou certo de que vão encontrar as duas armas. Não tenho a mesma certeza é sobre a capacidade para encontrar os outros milhares de armas que, é sabido, andam por aí nas mãos de muita gente.

BRINCAR CONTRA A SOLIDÃO

(Foto de Mico)

“Foi para continuar a fazer o que fazíamos em criança – brincar contra a solidão – que vim para o teatro”
L. Miguel Cintra

Lamentavelmente, agora que a escola acabou, muitos putos brincam com a solidão, mascarada de ecrã ou de telemóvel.

terça-feira, 15 de julho de 2008

O DISCURSO DO BASTONÁRIO - PROBLEMA DE FORMA OU DE CONTEÚDO?

Estou com alguma curiosidade de ver a evolução da presença do Dr. Marinho Pinto como bastonário dos advogados. O homem, numa atitude entre o heróico, o ingénuo e quixotesco, o suicida, o aventureiro, o justiceiro, o missionário, ou numa mistura disto tudo, desencadeou uma cruzada contra juízes e magistrados e contra a elite dos advogados devidamente instalados na corporativa Ordem. Esta gente é a trave mestra do sistema de justiça português, tal como o conhecemos, ineficaz, lento, prepotente, injusto, etc. Naturalmente que mexendo no vespeiro, as vespas reagem, e aí estão os sobressaltos incomodados das virgens ofendidas representantes de juízes e magistrados, dos anteriores bastonários com a figura do incontornável Júdice à cabeça e dos sectores dos advogados que beneficiam do estado da arte na justiça. Como sou exterior aos actores do sistema de justiça, reparo como cidadão que ainda não vi negado formal e objectivamente o que é afirmado pelo bastonário. A minha experiência nesta matéria resume-se a um julgamento por uma infracção de trânsito (que entretanto deixou de o ser) e no qual fui completa e arrogantemente “destratado” por um jovem juiz. Vejo, sobretudo, referências ao estilo, não ao conteúdo. É verdade que para um país de brandos costumes, ouvir o Bastonário falar naqueles termos é, no mínimo embaraçante. Mas tenho para mim, que o Dr. Marinho Pinto, tonto não é, e, provavelmente, sabe que se não utilizar este estilo, o seu estilo, a sua voz não chegará onde chegam as vozes das instituições corporativas e das vacas sagradas que, desde que não agitem, podem sempre ouvir-se, mesmo que seja para dizer o nada, como é costume.

APRENDIZAGEM DA ESPERA

Tens que aprender a esperar miúdo. Aprender a entrar na fila de espera, na sala de espera, na lista de espera. Alguém te dirá muitas vezes, agora vais ter de esperar. Vais pensar ainda mais vezes, mas estou à espera de quê? E rir-se-ão de ti, quando também te perguntarem, estavas à espera de quê? Vais descobrir que, às vezes adianta ficar à espera e que, outras vezes, a espera não adianta. Vais conhecer a espera leve e curta e a espera pesada e longa, a espera de viver e a espera de sofrer. Vais perceber que a distância entre a espera do tudo e a espera do nada é nenhuma, quase nenhuma. Vais aprender a espera por alguém que vai aprender a espera por ti e, assim, saberás que quando te disserem que quem espera desespera, nem sempre é verdade.
E um dia, vais saber, finalmente, que andaste o tempo todo a aprender a esperar por ti.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

OS CIDADÃOS E OS PARTIDOS

Quando tanto se fala na qualidade da nossa democracia e do afastamento dos cidadãos da participação cívica e partidária, o Público de hoje refere uma iniciativa que me parece interessante e que pode oferecer alguma mudança na partidocracia em que vivemos. A concelhia do PS de Vila Nova de Famalicão convidou pessoas do concelho, sem filiação partidária, a integrar um Conselho de Acompanhamento Estratégico (não gosto do nome) onde são solicitados a dar opiniões e pareceres sobre as questões concelhias e no âmbito de matérias a que, por formação ou experiência, estão ligadas. Inclusivamente, este grupo de pessoas pode participar nas reuniões da Comissão Política. O líder da concelhia apesar de, obviamente, antecipar algumas reservas face ao funcionamento habitual dos partidos, vê utilidade na iniciativa.
Também eu. Não sendo um alinhado partidário, não me demito de poder ter um contributo de natureza política que se me torna difícil, consequências da partidocracia. Creio que se pudéssemos discutir e participar com ideias em estruturas partidárias, poderiam ser até de diferentes partidos, sem que para tal nos exigissem a militância encartada e alinhada, talvez a representação e escrutínio sobre a vida partidária se alterassem, contribuindo para qualidade e modernização da democracia.

ILITERACIA NA BOLSA

O DN revela um hoje um estudo da Comissão de Mercado de Valores Mobiliários, reportado a 2007, com dados curiosos. No universo dos investidores em bolsa, um terço tem a antiga 4ª classe ou menos, apenas 20% se informam diariamente sobre o mercado e, genericamente, assumem um conhecimento insuficiente sobre a actualidade bolsista. O estudo analisa o impacto deste quadro nos comportamentos dos investidores e, consequentemente, nos riscos dos investimentos por má preparação.
Os dados sublinham a coerência do (mau) estado da nação. Com muitos políticos mal preparados, muitos gestores especialistas em má gestão, por vezes premiada, elites que emigram e os poucos que resistem sofrem com a iliteracia política de quem os tutela politicamente, por que mistério ou milagre os investidores bolsistas seriam altamente preparados? Vamos ter que esperar que os alunos que agora subiram notavelmente o seu desempenho a matemática, cheguem a investidores bolsistas, se resistirem até lá.

(DES)CRENÇAS

Numa sala de espera um grupo de pessoas discutia, como em todas as sala de espera, os problemas que as afligiam. Falavam de todos os problemas, desde os mais individuais até aos que diziam respeito a mais pessoas e, mesmo, aos que envolviam o mundo inteiro. Sem que ninguém tenha dado por isso, tinha entrado na sala um Velho que, sempre calado e atento, assistia às conversas. Estranhando o tempo de silêncio alguém o interpelou, “E você Velho, que acha destes problemas todos?”. O Velho fez uma pausa grande e de forma muito clara e serena disse, “Se em mim acreditassem, tudo estaria melhor”. Algumas pessoas riram-se, outras, poucas, ficaram sérias e desconfiadas, outras, ainda, disseram, “O Velho está louco”. O Velho ficou de pé, tranquilo, calado a olhar para toda a gente e, devagarinho, instalou-se um silêncio pesado. Ao fim de algum tempo, um miúdo que estava na sala perguntou, “Como te chamas Velho?”.
“Muitos chamam-me Deus, outros muitos chamam-me outros nomes, muitos me invocam, outros muitos me esquecem e outros muitos me desconhecem”, e saiu como entrou, discretamente, deixando as pessoas numa discussão ainda maior, agora sobre o Velho. Ou seria sobre Deus?

domingo, 13 de julho de 2008

TRÊS SALGADOS E UMA LATA DE COCA-COLA

O fim-de-semana no meu Alentejo ocupado com a rega e o arranjo dos alhos à conversa com o Velho Zé Marrafa, apenas permitiu agora uma vista de olhos na imprensa. Para além da incontornável referência aos acontecimentos da Quinta da Fonte, consequência óbvia e previsível, de décadas de políticas urbanísticas e de alojamento erradas, merece referência, pelo impacto no futuro, o estudo Pro Children apoiado pela UE e divulgado no sábado. Dos nove países europeus envolvidos no estudo, do norte, centro e sul da Europa, as crianças portuguesas de 11 anos são as que evidenciam a mais elevada taxa de peso a mais e obesidade, 30.6% nos rapazes e 21.6% nas raparigas. A obesidade infantil e juvenil pode ser já considerada um sério problema de saúde pública. Não é por acaso que o aparecimento da Diabetes de tipo II em crianças e adolescentes tem disparado. Creio que contei aqui esta história que acho ilustrativa da atitude negligente e estranhamente ignorante de alguns pais. Há pouco tempo, ao tomar a bica da manhã, vi ao meu lado um gaiato que teria 10/11 anos, já bem pesadinho, acompanhado pelo pai, a bater-se com três salgados e uma lata de Cola. Nesta altura em que as crianças estão de férias e muitos pais ainda não, sobe o recurso a alimentos(!) e refrigerantes bem estimulado por publicidade verdadeiramente “terrorista” e maus hábitos de consumo alimentar.
Parece verdadeiramente imprescindível que, sem cair no excesso fundamentalista, a comunidade assuma que hábitos alimentares mais ajustados, são parte da vida que deve existir para além dos bons resultados a português e a matemática.

sábado, 12 de julho de 2008

ELA

Imaginava-se com ela todos os dias, todo o dia. Não se cansava de olhar para as inúmeras fotografias dela, coleccionava-as desde que a vira pela primeira vez. Ansiava estar perante o brilho que ela irradiava. Contava os minutos para a poder acariciar e, quando tal acontecesse, iria sentir-se a pessoa mais feliz do mundo. A toda a hora, antecipava como seria extraordinário vê-la, ouvi-la. Pensava que a trataria com um cuidado, assegurava para si próprio, que nunca usou na sua vida. Já conheceu algumas antes, mas nada de parecido com ela, a que ia chegar. Todos os dias ao acordar o primeiro pensamento era para ela e, quando adormecia, era também ela que lhe embalava o sonho.
Finalmente, quando a espera já era insuportável, ela apareceu. Estava à sua frente a PlayStation, último modelo, que os pais lhe tinham prometido se passasse de ano.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

A CRISE A RENDER

O homem é um génio. Ontem no debate sobre o estado da nação, (pobre nação em tão mau estado), o Primeiro-ministro anunciou um pacote de medidas que, numa situação que creio única, não mereceram contestação na sua natureza, ainda que alguns partidos achassem que se podia, e devia, ter ido mais longe. Esta performance, conseguir o pleno, já de si notável, que aliás contribuiu para apagar a estreia, discreta, diga-se, do novo líder parlamentar do PSD, consegue ainda um efeito absolutamente extraordinário, dá lucro à administração central, ou seja e dito de outra maneira, o Governo apoia camadas sociais mais atingidas pela crise, taxa lucros especulativos e ainda ganha. Com efeito e de acordo com o Público, contabilizado o envolvimento financeiro do pacote anunciado, a Administração Central ainda arrecada 20 milhões de euros.
O povo costuma dizer que “a necessidade aguça o engenho” e, de facto, apesar de os detractores acusarem o engenheiro de desenhar umas casas manhosas, esta engenharia, que permite fazer a crise render euros e votos, é simplesmente genial.

A MEDIDA DO TEMPO

Professor Velho, toda a gente mede o tempo com o relógio?
Não Manel, ninguém mede o tempo com o relógio. O relógio só serve para organizar as pessoas, todas as pessoas, dentro do tempo. Medir o tempo é diferente, cada pessoa mede o tempo à sua maneira.
Não percebo, Velho.
Quando estás a ler um livro de que gostas muito, o tempo é grande ou pequeno?
É pequeno, a gente quer ler sempre mais.
Quando estás a ler um livro de que não gostas, mas tens que ler, o tempo é grande ou pequeno?
É grande, nunca mais chega ao fim.
Quando estás na aula de que gostas mais, o tempo é grande ou pequeno?
É pequeno, acaba num instante.
Quando estás na aula de que gostas menos, o tempo é grande ou pequeno?
É grande, nunca mais acaba.
Quando estás com os amigos de que gostas mais, o tempo é grande ou pequeno?
É pequeno, dura sempre pouco.
Quando estás com pessoas de que não gostas, o tempo é grande ou pequeno?
É grande, Velho, nunca mais me safo delas.
Como vês, Manel, o coração é que mede o tempo, o relógio só organiza as pessoas no tempo. Agora, vai almoçar que a manhã está no fim.
Já Velho? Passou mesmo depressa.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A GRANDE (DES)ILUSÃO


Não resisto a esta pérola do Portugal dos Pequeninos. O Presidente da Câmara de Alcobaça entendeu por bem comemorar a eleição do Mosteiro de Alcobaça como Maravilha de Portugal com um espectáculo de Luís de Matos, o homem da ilusão. Para tal efeito e pela módica quantia de 180 000 €, o ilusionista terá deixado criar a ideia de que o Mosteiro se evaporaria. O especialista em ilusão surpreendeu mesmo, em vez da ilusão, criou a desilusão no público sublinhada com vaias e assobios dirigidas a um número com 3 minutos já conhecido e visto, mas nunca por 180 000 €. Agora, o Presidente da Câmara e os seus cidadãos dizem-se desiludidos e lamentam a (des)ilusão.
Não percebo a reacção. Mais uma vez, sacar 180 000 € em três minutos foi a maior das ilusões criadas por Luís de Matos. E alguém pagou. Foram mesmo iludidos.

A FILANTRÓPICA CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS

A conhecida e reconhecida instituição filantrópica e de utilidade pública chamada Caixa Geral de Depósitos, preocupada com o impacto que a actual crise, designadamente a subida das taxas de juro, tem nas famílias, sobretudo na sua capacidade de satisfação do endividamento, propôs uma série de medidas de apoio social aos seus apoiados que importa registar.
De entre o pacote, releva a possibilidade de estender aos 80 anos o prazo de liquidação. Que sinal lindo de confiança e optimismo no bem-estar físico dos portugueses, no Serviço Nacional de Saúde e na sustentabilidade da Segurança Social traduzida no aumento do valor das pensões de reforma. As várias medidas, são também mais acessíveis aos clientes “com maior envolvimento negocial” com a CGD, ou seja, os mais favorecidos, outra prova da preocupação assistencial da CGD. É também de registar, que nenhuma das medidas parece traduzir-se na renegociação do montante em dívida através, por exemplo, do abaixamento dos spreads, isto é, pode ajustar prazos e prestações mas meus amigos, a generosidade tem limites e no fim, a Organização Governamental de Assistência tem que garantir a intocável continuidade dos lucros brutais.

NINGUÉM CABE NUMA FOTOGRAFIA, SEMPRE

(Foto de Mico)

O professor velho lá da minha escola, disse-me uma vez que ninguém cabe numa fotografia, sempre.
Um dia, vou ser capaz de sair desta fotografia. Então, vão ver o mundo bonito que vai ser o meu.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

UM BISPO NÃO ALINHADO

Num tempo em que parece privilegiar-se o pensamento alinhado, creio ser merecedora de registo a entrevista do Bispo da Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, ao RCP em que refere a sua satisfação com a aprovação da recente Lei do Divórcio. Como é sabido, a posição oficial da Igreja vai no sentido da recusa do divórcio. Sabe-se também como as mudanças sociais exigem ajustamentos nos sistemas de valores que, por sua vez, sustentam, de novo, mudanças sociais. É, assim, de saudar a posição de um elemento importante da hierarquia da Igreja que, de forma mais sábia que o discurso oficial, entende que o papel que a instituição Igreja possa desempenhar, será tanto mais importante, quanto mais próxima se posicione face aos reais problemas das pessoas e dos tempos.
Diz isto, alguém que se percebe como ateu, mas atento ao óbvio impacto que as diferentes culturas religiosas têm no mundo actual.

O QUE É CRESCER?

Avô, o que é crescer?
É ficar grande.
O que é ficar grande?
É ficar melhor.
O que é ficar melhor?
É ficar mais velho.
O que é ficar mais velho?
É ter mais tempo.
O que é ter mais tempo?
É saber mais.
O que é saber mais?
É entender as coisas.
O que é entender as coisas?
É … perguntas difíceis que tu fazes, João.
Está bem avô, eu tenho relógio mas … que horas são?

terça-feira, 8 de julho de 2008

BEM-HAJA, DOM DUARTE


No meio da turbulência que nem a aproximação das férias parece acalmar, aparecem notícias que nos dão algum alento.
Ficámos a saber, através do DN, que Dom Duarte Pio de Bragança, o sempre eterno aspirante a rei da nossa república, vai desenvolver a ideia da “monarquia aberta” na senda das “presidências abertas” e dos “roteiros” de Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva, os republicanos presidentes.
Esta monarquia aberta, realizada no Fundão, é centrada no tema “Crise alimentar nos centros urbanos”, cuja actualidade e pertinência é inegável.
Saber que a real figura de Dom Duarte de Bragança se interessa por esta problemática é algo que não pode deixar qualquer plebeu indiferente. O reconhecido impacto das frequentes, profundas, desenvoltas e excelentes intervenções públicas de Dom Duarte, permitem augurar o sucesso e importância da monárquica iniciativa.
Os agradecimentos deste seu humilde seguidor. (Não é visível, mas estou a realizar uma discreta vénia).

GÉNIO CRATO, AGORA O PORTUGUÊS

A publicação das pautas dos exames nacionais confirmou, naturalmente, a informação já conhecida, a subida extraordinária dos resultados em Matemática e a surpreendente descida em Português. Embora existam algumas opiniões que remetem para a maior facilidade dos exames deste ano a melhoria dos resultados na Matemática, creio que parece consensual e, sobretudo, justo, atribuir parte deste sucesso à influência do genial Professor Crato e da sua cruzada contra os eduqueses, que, como é sabido e demonstrado pela investigação desenvolvida pelo Génio Crato e pelo seu assessor de imprensa José Manuel Fernandes, lamentavelmente pouco conhecida no meio, são os grandes responsáveis pela catastrófica situação no ensino. Bem-haja Génio Crato.
Mas falta o Português. Na minha modesta opinião algumas medidas poderiam, certamente, contribuir para reverter os resultados. Por dever de cidadania aqui ficam algumas.
. Fazer eleger o Génio Crato Presidente da Associação dos Professores de Português. O senhor, com a maior das facilidades definiria um plano de combate ao insucesso.
. Desenvolver uma campanha na imprensa, gerida pelo Director do Público, José Manuel Fernandes, com o objectivo de melhorar a cultura científica dos professores de Português com as opiniões do Génio Crato.
. Constituir uma “task-force” liderada pelo Génio Crato, que estabelecesse novos programas de Português e definisse, com todo o rigor e saber inerentes ao Génio, as orientações didácticas a seguir, obrigatoriamente, pelos professores de Português. Aos que resistissem seriam disponibilizados vídeos com as aparições do Génio Crato, que teriam de visualizar todos os dias antes de dormir.
. Encarregar o Génio Crato de elaborar um calendário de exames de Português a realizar pelos alunos a partir dos 3 anos e ao longo de toda a carreira escolar. De acordo com o genial pensamento do Génio Crato, nunca menos de três por semana.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

VIOLÊNCIA ENTRE NAMORADOS, SERÁ SURPRESA?

O trabalho desenvolvido pela Universidade do Minho sobre violência nas relações de namoro entre os mais jovens, 15 – 25 anos, hoje conhecido publicamente através do DN, vem, lamentavelmente, ao encontro de algo que temos dificuldade em aceitar. Os sistemas de valores pessoais alteram-se a um ritmo bem mais lento que os nossos desejos e estão, também e obviamente, ligados ao quadro de valores sociais presentes em cada época. De facto, e reportando-nos apenas aos dados mais gerais, um em cada quatro jovens inquiridos, refere ter-se envolvido em alguma forma de violência nas suas relações de namoro. Não me parece surpreendente, mas sim preocupante. Para além do elevado número, merece registo a idade dos intervenientes e, sobretudo, um discurso de tolerância, aceitação e o entendimento de alguma “normalidade” nestes comportamentos revelado pelos sujeitos entrevistados no estudo.
Como todos os comportamentos fortemente ligados à camada mais funda do nosso sistema de valores, crença e convicções, os nossos padrões sobre o que devem ser as relações interpessoais, mesmo as de natureza mais íntima, são de mudança demorada. Esta circunstância, torna ainda mais necessária a existência de dispositivos ao nível da formação e educação de crianças e jovens; de uma abordagem séria persistente nos meios de comunicação social; de um enquadramento jurídico dos comportamentos e limites numa perspectiva preventiva e punitiva e, finalmente, de dispositivos eficazes de protecção e apoio a vítimas. Entretanto e enquanto não, "só faço isto, porque gosto de ti, acreditas não acreditas?".

CONTAS DA MINHA VIDA

(Foto de Mico)

O meu pai brincava comigo ao faz-de-conta.
Também me dizia, conta comigo,
enquanto contei com ele.
Com os meus amigos combinava,
vamos fazer isso, mas ninguém conta.
Ninguém contava.
A minha professora ralhava,
tens que aprender a fazer as contas.
Na escola, as minhas contas,
quase sempre davam erradas.
Cresci e disseram-me,
tens que fazer contas à vida.
A vida fez as contas por mim.
No fim, acertámos as contas.
O resto foi zero.

domingo, 6 de julho de 2008

ALBERTO JOÃO NA CAPITAL DO IMPÉRIO

Não acredito. Parece que existe a séria possibilidade do homem vir aí. De acordo com o DN e segundo as habituais fontes próximas e bem informadas, o Dr. Alberto João considera a hipótese de antecipar o fim do seu mandato à frente do Governo da Região Autónoma da Madeira e vir ocupar o lugar de deputado na Assembleia da República.
Tenham paciência, que mais nos irá acontecer? Ele é a subida das taxas de juro, ele é a subida do preço dos combustíveis, ele é a subida dos preços dos transportes, dos bens alimentares, etc. Já temos a habitual confusão por época no futebol português. Temos o menino guerreiro e o menino de ouro. Temos o Dr Vitalino Canas e o ministro Mário Lino. Temos o dedinho em riste, o pestanejar assustador e os dentinhos brancos do Dr. Portas. Temos o Dr. Bernardino Soares. Temos o Avelino Ferreira Torres e o Dr. Isaltino. Temos o Professor, o Marcelo. Temos o Dr. Madail embora já nos tivéssemos livrado do Sr. Scolari e do Murtosa. Creio que, para exemplo, já chega.

O Dr. Alberto João em Lisboa, na capital do império colonialista? Ou é a rendição ao poder colonial ou é mesmo para me arreliar.

sábado, 5 de julho de 2008

UMA CRÓNICA ATÍPICA

Este texto nasce numa situação completamente atípica, está a ser escrito num quarto de hospital, ainda que numa situação de acompanhante. Nestas circunstâncias é mais ou menos previsível que se nos coloquem interrogações em torno da nossa fragilidade e vulnerabilidade. Será também de esperar que tenhamos uma percepção mais nítida de estados de bem-estar e mal-estar, de saúde e de doença.
É certo que não consegui fugir a esta previsibilidade, mas o que pareceu mais estranho e, de certa forma, dissonante é que estou num quarto de hospital ao lado de alguém que não quis deixar só, sentado com o portátil à frente, ligado ao mundo através da net, a ouvir baixinho a notável “Elegia” de Paolo Conte e a dizer-vos isto.
Alguma vez esta circunstância poderá fazer parte do SNS e, portanto, tornar-se acessível à generalidade dos cidadãos?

sexta-feira, 4 de julho de 2008

A REALIDADE ESTÁ ENGANADA, O SR. PRESIDENTE É QUE ESTÁ CERTO

Mais uma vez, um bom exemplo da profunda convicção de parte da elite política portuguesa no princípio, “eu estou certo, a realidade é que está enganada”. Desta vez o iluminado é o Presidente da Águas de Portugal, Pedro Serra. O relatório do Tribunal de Contas é, no mínimo, arrasador para a sua gestão e para a situação da empresa, concluindo pela sua “debilidade economia e financeira”. Entre muitos aspectos, é referido o facto de, num contexto de dificuldades internas e de prejuízo, terem sido gastos 4,8 milhões de euros em viaturas de serviço, combustível e prémios, perdão, incentivos a elementos da empresa.
Pois o Senhor Presidente acha que o problema está no Tribunal de Contas, que não entende “a natureza do negócio”. Na mesma linha, o Senhor Presidente também considera a atribuição de prémios como perfeitamente normal, mesmo em situações negativas, uma vez que, se quer ter os melhores tem que os incentivar. Melhores? Em quê? A gerir mal? Premiar o fracasso e a incompetência?
Eu creio que estou como o Tribunal de Contas, não entendo a natureza do negócio. Ou se calhar, por pudor, não quero entender.

NÃO BRINQUEM COM COISAS SÉRIAS

Estou muito preocupado comigo. Estive a ler umas referências à iniciativa da Assembleia da República no sentido estabelecer um quadro de definição da pobreza como uma violação dos direitos humanos e, portanto, passível de sanções quando não cumprido. Será ainda estabelecido, com o apoio de todos os partidos representados, “um limiar de pobreza em função do nível de rendimento nacional” que servirá de critério para a “definição e avaliação de medidas públicas para a erradicação de pobreza”.
O que me preocupa seriamente, é que não consigo de deixar de considerar que esta iniciativa, está envolvida numa boa dose de hipocrisia, demagogia e populismo. Eu não era assim, era mais crente e não tão mal intencionado. De qualquer forma, não brinquem com coisas sérias.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

ESTABILIDADE?

O Banco Central Europeu aumentou as taxas de juro. Era esperado, dizem os especialistas, e o objectivo é, de acordo com o Presidente Trichet, garantir a estabilidade dos preços e, portanto, conter a subida da inflação. A questão é como explicar a isto a muitos milhares de portugueses que já sentem os preços completamente desestabilizados, tal como a sua vida. Junto do Gabinete de Apoio ao Sobreendividado da DECO, os pedidos de apoio subiram 22% no primeiro semestre deste ano, em comparação com igual período do ano passado. É ainda de sublinhar, como tem sido referido, que as dificuldades começaram a chegar a camadas da classe média, normalmente, em condições de resistir melhor a algumas dificuldades. Bem pode o Primeiro-ministro referir-se a avanços na diminuição do risco de pobreza e na disparidade obscena entre os rendimentos dos mais ricos e os dos mais pobres, mas a verdade é que a situação de dificuldade agravou-se significativamente e a esperança e o optimismo baixaram, o que também é essencial na percepção de bem-estar das pessoas.

O CAMINHO ESTÁ NO FIM

(Foto de Rodrigo Bela Vista)

O caminho está no fim.
Foi longo, foi curto.
Foi duro, foi suave.
Foi pesado, foi leve.
Foi com ela, foi só.
Foi depressa, foi devagar.
Foi gritado, foi calado.
Foi chorado, foi rido.
Foi ganho, foi perdido.
Foi tudo, foi nada.
O fim está a caminho.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

A PERGUNTA PARA O REFERENDO NA MADEIRA

Considerando a anunciada intenção do Dr. Alberto João promover, em 2009, um Referendo na Região Autónoma da Madeira sobre os ajustamentos constitucionais necessários ao seu modelo de autonomia, proponho um texto para a pergunta a inserir no boletim de voto.

“Concorda que a Constituição da República Portuguesa seja alterada no sentido de determinar que:
1 – O Governo da Região Autónoma da Madeira seja presidido pelo querido líder, Dr. Alberto João, ou por quem ele indicar;
2 – O processo eleitoral decorre na Assembleia Regional em que, obrigatoriamente, o PSD terá a maioria, sendo os outros partidos representados por um elemento cada;
3 - A totalidade das receitas produzidas na Região Autónoma da Madeira seja afecta ao Orçamento Regional e que todas as áreas que neste orçamento envolvam despesa, sejam da competência do Orçamento Geral do Estado;
4 – A Assembleia Regional tenha competência para alterar o que entender nas Leis da República.”

Sim - X Não - x

SERVIÇO PÚBLICO DE TELEVISÃO

Boa noite. Eu sou a Fada Madrinha e este é o TVJornal. Antes dos desenvolvimentos a síntese das principais notícias do dia.
Os indicadores económicos do Governo e das principais Instituições Internacionais coincidem pela primeira vez. O crescimento económico do país é superior à média da zona euro, o que significa um caminho seguro de convergência e recuperação do poder de compra dos cidadãos.
Segundo o INE, a taxa de desemprego voltou a baixar, o que acontece pelo terceiro semestre consecutivo. O abaixamento significativo dos números do desemprego possibilitará, anunciou o Ministro do Trabalho, o aumento dos apoios sociais aos desempregados de longa duração.
A ministra da Saúde informou que, finalmente, as listas de espera para cirurgia são residuais. O prazo nas intervenções mais solicitadas não ultrapassa as duas semanas.
A Ministra da Educação anunciou o fim do Programa Novas Oportunidades pois atingimos, praticamente, os 100% de frequência de ensino secundário. Na sua intervenção na Assembleia da República, a Ministra referiu que as taxas de sucesso escolar estão, de forma consolidada, ao nível dos países do norte da Europa.
O Ministro das Finanças enviou uma carta aos contribuintes individuais e às empresas, felicitando-os pelo facto de os níveis de evasão e fraude fiscais terem diminuído cerca de 85%.
O Ministro da Justiça informou que Portugal recebeu do Eurostat a informação de que foi o país que, nos últimos anos, mais encurtou os prazos de duração dos processos decididos em tribunal.
O Primeiro-ministro anunciou que … OOPS, adormeci a olhar para a televisão, que sonho estranho!

terça-feira, 1 de julho de 2008

A FRUTA, O MILAGRE, O MENINO DE OURO E A ACÇÃO PEDAGÓGICA

Notas de leitura.
Num exemplo de comportamento saudável, uns árbitros terão pedido que lhes fosse fornecida fruta para comerem durante a noite, ao que alguns dirigentes terão acedido. Vá lá saber-se porquê, algumas consciências mal intencionadas viram aqui fumos de corrupção. A douta justiça portuguesa entendeu, por agora, que não há razão para levar a julgamento os ofertantes. O incentivo a comportamentos saudáveis não deve, obviamente, ser punido.
O milagre aconteceu e talvez possa ser atribuído aos pastorinhos de Fátima que bem precisados estão. A funcionária da Junta de Freguesia de Vitorino de Piães, Ponte de Lima, que comoveu o país por ver negada a reforma antecipada devido a uma doença degenerativa que a deixou praticamente imobilizada, parece, agora, uma pessoa nova, praticamente restabelecida. História linda, esta.
Depois do vídeo do Menino Guerreiro, sobre o mítico Santana Lopes, temos agora “O menino de ouro do PS”, livro de Eduarda Maio sobre o Engenheiro, ontem apresentado com a colaboração de Dias Loureiro, numa espécie de Bloco Central antecipado. Estes meninos não se enxergam e envolvem-se em tamanha e ridícula saloiice.
O pessoal das forças policiais, envolvido num processo de reivindicação relativo a aspectos profissionais admite o recurso, não à greve às multas, isso não, mas a acções pedagógicas junto dos cidadãos. Será que esta acção educativa vai ser objecto de reconhecimento no Programa Novas Oportunidades? Há que aproveitar todas as iniciativas que contribuam para a qualificação dos portugueses.
PS – Não é que seja importante, mas o DN sublinha que, num ano, os encargos com a prestação da casa subiram cerca de 25% e prevê-se nova subida das taxas de juro.

HISTÓRIA DO CHUMBADO

Hoje, o Professor Velho, aquele que está na biblioteca e fala com os livros, ia a passar no recreio da escola e reparou no ar triste de um miúdo, sozinho, sentado num bando de cimento, o único que estava à sombra.
- Estás triste?
- Estou.
- Como te chamas?
- Chumbado.
- Estás triste porquê?
- Não passei.
- Disseram-te os professores?
- Não, vi na pauta.
- Estavas à espera?
- Eu acho que tinha feito as coisas mais bem-feitas e até comecei a ter positivas. No primeiro período é que foi pior e acho que foi por causa disso que não passei.
- Porquê?
- Então Velho, houve setores que me disseram logo que não ia passar e acho que eles já não ligaram muito ao que eu fiz no terceiro período. Mas para o ano já sei como vou fazer. Vou ver se no primeiro período tento desenrascar-me melhor para os setores não ficarem à espera que eu chumbe.
- Fazes bem, Chumbado.
E o Professor Velho foi-se embora a pensar porque é que não se percebe que há miúdos que chumbam e miúdos que são chumbados.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

E MAIS UM "KIT" DE SOBREVIVÊNCIA

O CDS-PP apresentou na Assembleia da República a proposta de introduzir no 9º ano de escolaridade formação em primeiros socorros. Pretende-se como objectivo que, a prazo, tenhamos uma parte significativa da população apta a providenciar cuidados de emergência no âmbito do chamado suporte básico de vida. Parece interessante.
No sentido de alargar o impacto da iniciativa e de proporcionar aos alunos, de forma mais imediata, ferramentas úteis, proponho que, conjuntamente com a formação em Primeiros Socorros”, lhes seja fornecido, para além do inevitável computador, um “Kit de sobrevivência”. Nos tempos actuais do sistema educativo, este dispositivo parece-me de uma utilidade extrema. Considerando os dados previsíveis relativos à evolução e o pessimismo que os estudos demonstram, um “kit de sobrevivência” parece, também, constituir uma excelente ferramenta de abordagem ao futuro.

UM HOMEM CHAMADO DO CONTRA

Era uma vez um homem, chamava-se Do Contra. Consideravam-no um tipo estranho. Em qualquer conversa que se envolvesse ou ideia que se discutisse, estava sempre em desacordo com a opinião geral, tanto que a expressão que mais utilizava era, justamente, “não estou de acordo”. Esta atitude, envolvia, quer a análise mais sofisticada, quer a mais simples opinião. Se alguém achava que o tempo estava quente, o Do Contra achava que nem por isso. Se alguém gostava de algo, o Do Contra não apreciava. O Do Contra estava tão habituado a funcionar assim que, por vezes, as pessoas ainda não tinham falado e já ele “não estava de acordo”. Os amigos, alguns e em algumas circunstâncias, suportavam-no porque sempre dava alguma animação às conversas, mas, na maior parte das vezes, detestavam o Do Contra e protestavam.
Um dia foi apreendido. O Do Contra não era normalizado. Quando souberam, as pessoas, de um modo geral, sentiram-se aliviadas e tranquilas. No fundo, o Do Contra só atrapalhava.

domingo, 29 de junho de 2008

BRINCAR

(Foto de Rodrigo Bela Vista)

“Foi para continuar a fazer o que fazíamos em criança – brincar contra a solidão – que vim para o Teatro”. (Luís Miguel Cintra)

A inexistência de equipamentos urbanos adequados e em número razoável, destinados aos miúdos, bem como a sua vandalização e falta de manutenção, constituem, também, uma boa forma de os empurrar para a solidão de um ecrã, qualquer ecrã, onde permanecerão fechados à espera de um futuro triste, porque só.

sábado, 28 de junho de 2008

OS CONSELHOS DA COMISSÁRIA MOREIRA E O DIA DO DIPLOMA

Uma viagem que começou muito cedo, agruras de quem tem que atravessar a Ponte 25 de Abril, e um dia que já vai longo em Aveiro, não permitem grandes divagações. No entanto, uma rápida passagem de olhos pela imprensa, o Público, exige duas breves referências. Em primeiro lugar, sem surpresa, o facto da Comissária Margarida Moreira, Directora Regional de Educação do Norte, ter, ao que parece, “aconselhado” os Conselhos Executivos que “talvez fosse útil excluir de correctores aqueles professores que têm repetidamente classificações muito distantes da média”. Não me apetece comentar mas, tragicamente, já não surpreende.
Uma segunda nota, dirigida à divulgação do calendário escolar para 2008-2009, mais concretamente, à inédita determinação de, a 12 de Setembro, se realizar o Dia do Diploma. As escolas com ensino secundário, deverão, nesse dia, proceder à entrega de diplomas e certificados aos alunos que terminaram o 12º no ano anterior. Depois do assinalável sucesso comercial da importação da comemoração do Halloween, tradição americana, como sabem, bem enraizada na nossa cultura, da extensão das viagens de finalistas, aos alunos dos 3º, 2º e 1º ciclos, bem como às crianças do jardim-de-infância, vamos agora ter aquelas cerimónias, lindíssimas e comoventes, vistas nos filmes americanos, em que os familiares, com os seus melhores fatinhos, se deslocam às escolas e, no meio de umas bolachas, salgadinhos e sumos de “plástico”, vêem os seus rebentos receber o diploma. Muito bonito. Creio, no entanto, que a Senhora Ministra ao determinar que estas cerimónias decorram todas no mesmo dia, complica a agenda do Primeiro-ministro. Como é que ele pode deslocar-se, simultaneamente, a várias escolas, para entregar os computadores e fazer a enésima referência ao estrondoso sucesso do Programa Novas Oportunidades?

sexta-feira, 27 de junho de 2008

HISTÓRIA DO RAPAZ QUE SE CHAMAVA O TAL

Era uma vez um rapaz, tinha 11 anos e chamava-se O Tal. Era o aluno de quem mais se falava na escola, por toda a gente. Cada professor achava que O Tal não aprendia o suficiente na sua disciplina, não tinha o comportamento adequado, não tinha motivação para aprender, não estudava, não gostava de escrever, não gostava de ler, não se interessava pela generalidade dos assuntos abordados nas aulas, não sabia participar numa conversa, não completava uma actividade, não era organizado, não gostava de ser contrariado, não cumpria a generalidade das tarefas, etc.
Um dia, um dos professores que tinha O Tal, falou nele ao Professor Velho, o que estava na biblioteca e falava com os livros. O Professor Velho, depois de ouvir afirmou que não conhecia O Tal. A resposta surpreendeu o professor. “Como não conheces O Tal? É o aluno mais conhecido da escola!”.
Disse o Velho naquele jeito baixinho, “Não, eu acho que O Tal é o aluno mais desconhecido da escola. Repara, só conhecem o que ele não sabe, o que ele não faz, o que não gosta, o que ele não é. Não saberão, portanto, o que ele é, o que ele é capaz de fazer, o que ele sabe, o que ele gosta. Olha que a gente só aprende a partir do que sabe e só cresce a partir do que já é. Era melhor conhecer O Tal”.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

OS (DES)TRATOS DA JUSTIÇA

A situação no sistema de justiça, que nunca foi brilhante, continua a merecer sérias preocupações.
O Dr. Azevedo, condenado em Portugal a pena de prisão, foi obrigado a emigrar e agora, coitado, vítima de um sistema de justiça iníquo e persecutório, vive em Londres nas maiores dificuldades, sendo obrigado a viver, comer e desempenhar o trabalho possível, junto da elite londrina na esperança da sobrevivência. Deu uma entrevista sobre esta triste situação e, certamente por maldade minha, pareceu-me sentir no seu discurso a convicção da impunidade.
Uma rapaziada, que no Tribunal de Sta. Maria da Feira, foi condenada por tráfico de droga, ao que parece, não gostou das penas e, vai daí, resolve bater nos juízes e PSP. Consta que a culpa foi das instalações.
Um pessoal que, tem-se afirmado, praticava a modalidade desportiva da influência de resultados e corrupção de árbitros, assenta a sua defesa, ouvi da boca do advogado de um dos ilustres desportistas, não na prova da sua inocência, mas na impossibilidade de ser acusado pela natureza das provas, ou seja, parece que eles foram escutados a praticarem o desporto da corrupção, mas não podiam ser escutados. Um desses rapazes, a quem chamam Major e passa o tempo a gritar, diz que vai escrever um livro, certamente um best seller, para, provavelmente, aconselhar eventuais adeptos sobre a prática da modalidade a que se dedica, dizem.
Acompanhando os tempos, Euro 2008, apareceu uma bola de futebol no julgamento do caso Casa Pia, (lembram-se?), que, mais uma vez, vai a banhos sem fim à vista.
Parece que quem de direito não percebe o efeito devastador que estas situações têm na qualidade da nossa cidadania. É que crise não é só o aumento dos combustíveis.

ELE HÁ COINCIDÊNCIAS

Depois de uma ida ao Alentejo, Portel, sob uns simpáticos trinta e muitos graus, a disponibilidade para aqui reflectir, a esta hora, não é a maior. No entanto, uma rápida passagem de olhos pela imprensa on-line, mostrou-me algumas referências, cuja ligação aparente, se deverá, seguramente a coincidência, circunstância em que, como sabemos, o mundo é fértil.
Parece que hoje tivemos o dia mais quente do ano. Certamente por coincidência, a Conta Geral do Estado de 2006 foi discutida na Assembleia da República por menos de 46 dos 230 deputados, o mínimo exigido para que a Reunião Plenária possa funcionar.
Estamos a entrar no período crítico pré-eleitoral. Certamente por coincidência, o Governo descobriu uma desconhecida veia negocial, estabelecendo sucessivos acordos com grupos contestatários de políticas sectoriais.
O ministro Jaime Silva esticou-se nas referências às ligações políticas das organizações representativas dos agricultores. Certamente por coincidência, o gabinete do Primeiro-ministro assumiu as negociações do sector.
De há muitos anos que os resultados escolares dos alunos portugueses nas diferentes provas de carácter nacional têm sido desastrosos. Certamente por coincidência, toda a gente fora do inner circle da 5 de Outubro que olha para os exames deste ano, a começar pelos alunos, consideram-nos bem mais fáceis que os anteriores. Ao que parece, sendo difícil mudar os alunos, pois que se mudem os exames.
Este tipo de coisas passa-se no Portugal dos pequeninos. Certamente por coincidência, às vezes, estamos cansados e pessimistas.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

NÃO OUVIRAM O MEU AMIGO MANEL, O OPTIMISTA

Só agora posso comentar a notícia divulgada durante a tarde que, referindo um relatório da Comissão Europeia, coloca os portugueses como os mais pessimistas. Não falaram com o meu amigo Manel. O meu amigo Manel é um optimista, como ninguém. Oiçam-no numa pequena amostra.
Ganhamos pouco. O meu amigo Manel manda-nos olhar para os ordenados na Índia ou na China, “isso é que são ordenados baixos, e não protestam”.
Listas de espera para os cuidados de saúde. O meu amigo Manel acha que temos sorte, esperamos mas vêem, há países em que nem vale a pena esperar.
Insucesso escolar. O meu amigo Manel riposta que toda a gente, agora, quer ser doutora. Há muitos sítios por esse mundo, onde a maioria dos miúdos nem à escola vai.
Governo arrogante, O meu amigo Manel pergunta se já ouvimos falar num tal Mugabe.
Políticos incompetentes. O meu amigo Manel ri-se e pergunta se o pessoal não costuma ver telejornais em que se fala da América do Sul ou de África.
Território desordenado. O meu amigo Manel fala de cidades africanas que já viu nos documentários do Odisseia.
Combustíveis caros. O meu amigo Manel acha que é uma boa oportunidade do pessoal largar o uso do carrinho entre a casa e qualquer destino, mesmo que seja o café ao lado.
Bens alimentares mais caros. O meu amigo Manel diz que o problema é o pessoal ser esquisito, só quer comprar do melhor.
Corrupção. O meu amigo Manel que se não fosse a corrupção o país ainda estava mais atrasado, “o esquemazinho ajuda a coisa a andar”.
Alterações do clima. O meu amigo Manel acha que estamos num oásis, sem os tornados da América e os tufões das Caraíbas, as secas de África ou as cheias na China.
Famílias endividadas. O meu amigo Manel entende que é uma bela maneira do pessoal aprender a fazer contas e não dar passos maiores que as pernas.
E assim vive o meu amigo Manel, fora da estatística, (e à espera de um lugarzinho numa agência de comunicação que trabalhe para o governo).

terça-feira, 24 de junho de 2008

OS INADAPTADOS FUNCIONAIS AGRADECEM

A informação hoje veiculada de que, no processo de revisão do Código do trabalho, o governo poderá recuar, deixando cair a possibilidade de despedimento por “inadaptação funcional” é algo que deve ser registado. Em primeiro lugar, porque, sendo Portugal um país com uma fatia larga de mão-de-obra com baixa qualificação, este conceito de “inadaptação profissional” abriria certamente a porta a uma ultra liberalização desregulada dos despedimentos. Por outro lado, importa também registar o impacto deste recuo em alguns indivíduos ou grupos que correriam sérios riscos de serem considerados “inadaptados funcionais” e veriam, obviamente, o seu posto de trabalho fortemente ameaçado. Vejamos alguns exemplos.
Alguém acredita que o Eng. Mário Lino nasceu para ministro? O homem é, manifestamente, um inadaptado funcional em termos de desempenho.
Consideremos o caso de centenas de gestores de empresas públicas que acumulam processos de gestão ruinosa e deficitária. Certamente serão inadaptados funcionais.
Creio que também entre os autarcas, existe um grupo significativo que tem conseguido, brilhantemente, delapidar património natural, comprometer a qualidade de vida dos seus munícipes, endividar as respectivas autarquias, etc. Este notável desempenho estará certamente ligado a uma inadaptação funcional, mas o partido e a política exigem sacrifícios a que um cidadão responsável não se pode negar. Veja-se os exemplos de Gondomar, Oeiras, Marco, Felgueiras, etc.
E o que aconteceria ao Alberto João, claramente um inadaptado funcional a estas coisas da democracia, que só servem para atrapalhar?
Outra figura ameaçada seria certamente Ricardo, o guarda-redes da selecção do Sr. Scolari, obviamente um inadaptado funcional que dificilmente se manteria em funções.
Por isto tudo, creio que a possibilidade de cair o recurso a “inadaptação funcional” como causa de despedimento, é uma notícia importante.

UM HOMEM FRIO

Era uma vez um homem, chamava-se Frio. Nada acontecia à sua beira que lhe causasse uma pontinha de emoção. A sua cara mantinha-se completamente impassível perante o acontecimento mais dramático, como no meio da mais contagiante alegria. Permanecia impávido. Era, naturalmente, uma pessoa com poucos amigos, ninguém aprecia alguém que não se emociona, nunca. Vivia só, dificilmente alguém partilharia a vida com uma pessoa inexpressiva.
Um dia, o Frio estava no parque a ler o jornal e um miúdo pediu-lhe para o ajudar a arranjar a corrente da bicicleta que tinha saltado. Meio a medo e impassível como sempre, o Frio ajudou o miúdo, que em seguida o desafiou para jogar à bola com os amigos dele. O Frio aceitou, de mansinho primeiro, de forma mais empenhada depois. Acabou por se envolver no jogo com os miúdos, de uma forma como nunca se tinha envolvido em nada na sua vida. Passado algum tempo, no sítio onde estava juntou-se uma poça de água. O Frio tinha finalmente descongelado.