Está decidida a proibição do uso de telemóveis na escola também para os alunos do 3º ciclo a partir de 1 Janeiro de 2027.
Face às questões levantadas com a
utilização pelos mais novos (e não só) bem como o movimento no mesmo sentido
que se verifica noutros sistemas educativos era uma decisão esperada assente
nos riscos para a nome da saúde e bem-estar de crianças e adolescentes.
Apesar de conhecermos avaliações
positivas de experiência de interdição do uso de telemóveis em algumas escolas
e que se registam, não creio que a “simples” proibição do telemóvel na escola
sustentará só por si que, terminado o período de proibição, se mantenha uma
relação continuada diferente com os ecrãs. Basta atentar à nossa volta.
Muitas vezes aqui tenho tratado
esta questão e recupero a referência a um trabalho publicado pela The Lancet
relativo a uma investigação realizada pela Universidade de Birmingham
envolvendo mais de mil alunos de 30 escolas secundárias. O estudo teve como
objectivo avaliar o impacto da proibição de utilização de telemóveis nas
escolas no comportamento dos estudantes, na saúde mental e no desempenho
escolar.
Os resultados “sugerem que as
políticas escolares restritivas actuais não influenciam significativamente a
utilização do telemóvel e das redes sociais nem se traduzem em melhores
resultados ao nível dos domínios mentais, físicos e cognitivos”.
Verifica-se ainda que não diminui
o tempo de exposição a ecrãs, boa parte dos alunos “compensam” a restrição da
escola com mais tempo em casa.
Também abordei esta questão em
muitas sessões de trabalho com pais com filhos de diferentes idades e tenho
sustentado que, ainda que se possam compreender as razões que sustentam as
proibições, o uso excessivo e desregulado, as decisões de proibição não me
parecem consensuais. Aliás, também não tenho a convicção de que uma estratégia
de proibição, só por si, devolva crianças e adolescentes à interacção pessoal e
a outros hábitos comportamentais mais interessantes embora, obviamente, seja
imprescindível a regulação do seu uso o que não significará, necessariamente,
uma “lei seca” para telemóveis que não garante que, libertos da proibição, os
bons hábitos de utilização se mantenham.
Acontece ainda que a telemóvel é
cada vez mais uma ferramenta multifunções, incluindo o ensino e a aprendizagem
como muitos de nós sabemos por experiência própria, pessoal ou profissional.
Neste contexto, creio que importa
também colocar a questão a questão a montante, a utilização que todos damos a
estes dispositivos. Seria muito interessante e desejável que se discutisse a
sério (incluindo crianças e jovens) nas comunidades educativas a regulação dos
comportamentos e definição de regras e limites, sem “superpais”, sem
“superfilhos” ou “superprofessores”. No entanto, esta discussão tem de ser
acompanhada pela nossa, adultos, pais e/ou profissionais, regulação da sua
utilização. Se olharmos para muitas famílias em “convívio” ou para muitos
contextos profissionais em “reunião” verificaremos os ecrãs que muitos terão à
sua frente e perceberemos o que está por fazer, comportamento gera
comportamento. A sobreutilização por parte dos adultos parece-me ser uma
variável crítica desta equação e se não conseguirmos todos esta regulação não
podemos pedir à escola que o faça com sucesso e de forma continuada no tempo.
Como também tenho referido, creio
que este movimento deve ser enquadrado na mudança que felizmente também parece
estar a emergir, a não utilização dos manuais digitais no 1.º ciclo também
agora decidida refreando o deslumbramento pela “transição digital” que, como
ontem escrevi, enquadrando de forma ajustada a inevitabilidade de incorporar
estas ferramentas nos processos educativos, também volta a defender a
importância de abordagens metodológicas ou didácticas “antigas”,
“conservadoras”, tais como escrever à mão, desenhar, brincar na rua, ler em
suporte papel, interagir presencialmente ou promover relações afectivas
literalmente mais próximas, tudo ferramentas importantes de desenvolvimento e
aprendizagem.
A ver vamos com a coisa evoluirá
por cá, mas não me parece que a proibição de telemóveis nas escolas venha a ter
o efeito regulador que todos desejamos. A regulação do uso por parte dos
adultos, pais em particular, poderia ter um efeito potenciador mais positivo
minimizando a tentação dos mais novos de “compensar” em casa a “companhia” do
telemóvel que não têm na escola ou a sobreutilização depois de terminada a
proibição.
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