segunda-feira, 4 de agosto de 2008

HÁ QUE PROTEGER O CDS-PP

Face a alguns entendimentos mais fundamentalistas da legislação europeia, à ineficácia da política portuguesa na protecção dos produtos tradicionais e a alguns excessos de zelo da ASAE, são de saudar as iniciativas legislativas que, no seu conjunto e sem comprometer a qualidade dos produtos, protejam a nossa identidade e especificidades sociais, culturais e gastronómicas.
No Público, o deputado do CDS-PP, Hélder Amaral, embora sublinhe como positiva a iniciativa, reclama mais alcance sustentando a insuficiência das medidas agora apresentadas.
Poder ser que este ventinho da Ericeira, aligeire as ideias, mas não será que o ilustre deputado teme que as medidas de protecção a produtos artesanais e em vias de extinção agora estabelecidas não sejam suficientes para evitar o desaparecimento do CDS-PP?
Por mim, apelo desde já, à compreensão da ASAE e a toda a comunidade para que contribua para a protecção do cada vez mais pequeno CDS-PP. É que não imagino a política à portuguesa sem o dedinho em riste e aquele frémito no olhar do Dr. Portas, o Paulo, e sem a lúcida análise e brilhante argumentário da Dra. Teresa Caeiro.

ANDAR NA LINHA

(Foto de Lúcia Pedro)

Só os pássaros são capazes de não andar na linha.
Felizmente.
Algumas pessoas voam.

domingo, 3 de agosto de 2008

O CAJÓ FOI À PRAIA

O Cajó acordou a pensar em ir à praia. O Cajó é um rapaz que é mecânico e faz uns biscates para a malta do chunning (que é o tunning de quem não tem dinheiro). Acordou a Odete e disse-lhe para pôr na geleira umas “mines”, uns “semóis” para os miúdos e umas sandes, que iam todos para a praia. Tinham que ir cedo porque é Domingo e o pessoal vai todo para a praia.
Não começou muito bem porque o Punto não queria pegar e o Tólicas, o mais velho, não encontrava a bóia que tinham dado no Lidl. Chegaram à Ponte e, para ajudar, levaram uma hora para a atravessar. Já estava a começar a desatinar, mas a Micas, a mais nova, lá se calou e adormeceu. Finalmente, chegou à Costa e teve sorte, arranjou um lugar para estacionar, embora a tapar a saída a outro carro. Mas o Cajó achava que o gajo do carro era capaz de só sair depois deles e, portanto, “tá-se bem”.
Na praia, estava maré cheia e o espaço não abundava. Assim, pediu desculpa a um casal simpático que estava ali, afastaram-lhe as toalhas e estendeu as toalhas para a família toda. A geleira ficou debaixo do chapéu-de-sol que dizia Sporting, uma oferta do cunhado, um ganda lagarto. Para aquecer um bocado, e porque já não aguentava o cheiro da Odete toda besuntada para se estender ao sol, foi jogar à bola com o Tólicas. Mas como havia muita a gente, estava chato para jogar, porque estavam sempre a acertar com a bola nuns velhos que nem se desviavam, parecia que faziam de propósito para arranjar confusão. Foram então ao banho, mas a água estava fria “comó caraças” e resolveu estender-se ao sol um bocado. Então, o Cajó reparou que, pertinho, estava uma miúda “boa comó milho”, pôs-se mais a jeito, e para disfarçar, que a Odete é ciumenta “à brava”, enfiou os óculos escuros, por acaso muito giros, marca Ray-ban, que tinha comprado no mercado por 5 euros a um indiano. Às tantas, a Odete topou que ele não tirava os olhos da miúda do lado e armou uma peixeirada das antigas. Ficou o caldo entornado, comeram as sandes e o Cajó mandou arrumar a tralha para não apanhar bicha na Ponte. Quando chegou ao carro, quase que se pegou à pancada como o dono do carro que estava entalado e já estava à espera, disse ele, há uma hora. Lá se acalmaram.
Toda a gente deve ter pensado como o Cajó. Gastou mais uma hora e tal, mas lá conseguiu chegar a casa, os putos todos amassados a dormir no banco de trás do Punto, a Odete com umas trombas pior que a mãe e ele a pensar para consigo.
“Mas quem é que me mandou ir prá praia, porra. Tinha ido, sozinho, dar uma volta até ao Centro Comercial, via as miúdas à mesma, bebia umas imperiais, estava fresquinho, não gastava gasolina e não me chateava. Ganda camelo”.

sábado, 2 de agosto de 2008

O MILAGRE DA PRODUTIVIDADE

O Público informa-nos que, nos últimos dois dias antes da entrada em vigor do novo Código de Contratos Públicos, 30 de Julho, os mais diversos serviços da administração abriram cerca de trezentos concursos e que se verificou uma média de quarenta por dia nos últimos dois meses, enquanto a média habitual se situa nos dez por dia. Tudo isto para, naturalmente, evitar as novas regras. Duas notas.
Primeira nota. Mais um bom exemplo do Portugal dos Pequeninos em acção. Pressupõe-se que a alteração de regras se justifique para melhorar, ajustar, alterar os procedimentos. No entanto, a administração, a mesma que promove as alterações, reage no sentido de as evitar. Dá para entender? Dá, trata-se da cultura instalada em parte significativa da nossa administração e resistente a qualquer simplex, com medo do rigor e da transparência.
Segunda nota, esta mais reconfortante. Quando tantas vezes a administração é acusada de baixa produtividade, aqui está uma bofetada nas injustas críticas. Preparar quarenta concursos por dia durante dois meses, trezentos em dois, quando habitualmente a produção é de dez por dia mostra a capacidade produtiva dos serviços. É de louvar e atribuir um prémio de produtividade em evento a agendar para o efeito, com a presença do Primeiro-ministro e mais dois ou três ministros, que estejam disponíveis, um power-point alusivo e, claro, um discurso sobre a esperança dos portugueses e a genialidade das políticas do governo.

(DÚ)VIDA

E se eu
talvez ela
ou não

Mas se ela
será que eu
e porque não
ou até
mas

E se nós
então
e talvez
ou até
e assim

Porque não?

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

A BIRRA DO BERARDITO E DO JARDINZITO

O Berardito e o Jardinzito andavam no mesmo Jardim de Infância. Os miúdos que lá andavam não tinham muitos brinquedos, mas o Berardito e o Jardinzito já tinham mais do que os outros. O Jardinzito, que era esperto até dizer chega, começou a emprestar brinquedos a quem tinha poucos e quando os miúdos devolviam os brinquedos emprestados, tinham de dar outro a mais. É claro que o Jardinzito arranjou uma pipa de brinquedos.
O Berardito que também já tinha muitos brinquedos que tinha trazido de outros Jardins de Infância onde andara, lembrou-se de combinar com o Jardinzito uma coisa que era assim. O Berardito punha os brinquedos que tinha no caixote do Jardinzito, este emprestava-os aos miúdos que não tinham e quando os miúdos devolvessem com os tais brinquedos a mais, esses brinquedos também eram para o Berardito. E este jogo foi andando bem. Às tantas, parece que o Jardinzito deixou mais alguns miúdos entrar no jogo de ganhar brinquedos, alguns, consta, sem dizer nada a ninguém, nem às educadoras. Vai daí, o Berardito chateou-se e começou a fazer queixinhas do Jardinzito, que ele tinha feito aldrabices, que era parecido com um velho mau que havia antigamente, etc. O Jardinzito não gostou e diz que se o Berardito não pedir desculpa, vai fazer queixa à Directora e obrigá-lo a dar-lhe uma Play Station, três livros do Noddy, um DVD do Avô Cantigas e um Magalhães, tudo isto, como um castigo simbólico.
E assim se cumpre Portugal.

TODOS DIFERENTES, TODOS IGUAIS - SANTOS SILVA E PACHECO PEREIRA

Duas notas sobre o universo da comunicação social.
O ideólogo do governo, o ministro Augusto Santos Silva, vem defender que a RTP entrou no concurso, com altíssimos custos, para a transmissão de jogos da Liga de Futebol por entender os jogos de futebol como “factores de identidade portuguesa” e, portanto, susceptíveis de se enquadrar no conceito de serviço público. Ou o ministro abusou do sol na moleirinha, ou acha que somos tontos ou o arrogante despudor é tanto, que entende poder dizer qualquer coisa que lhe passe pela cabeça para justificar o injustificável. Transmitir jogos do campeonato de futebol profissional é serviço público por razões de identidade cultural? Não, com essa justificação determine à sua RTP a transmissão dos torneios de sueca, de bisca, de dominó, de chinquilho, da lerpa, do berlinde, das corridas de arco e gancheta, dos carrinhos de rolamentos, etc., mas, sobretudo, não goze com a gente.
A segunda nota é para chamar a atenção para um notável texto da jornalista Fernanda Câncio, hoje no DN, sobre um dos maiores bluffs da política à portuguesa, o grande, o mestre, o sábio, o omnisciente, o farol, o terror de qualquer líder político-partidário, o oráculo infalível, o analista definitivo, enfim, o enorme José Pacheco Pereira. Vale a pena, e evitem considerações de preconceito face à autora, não merece

PAGAMENTO EM ESPÉCIE, QUE ESPÉCIE?

Parece interessante a proposta contida na revisão da legislação laboral, que permite o pagamento em espécie de parte da remuneração sem que se torne necessário o acordo prévio do colaborador (antes chamava-se trabalhador), conforme notícia avançada no Público. Sabemos que em alguns sectores constitui prática corrente o complemento do vencimento com alguma “espécie”, quase sempre ligada ao sector de actividade e sempre com a concordância do colaborador, o que agora deixaria de ser condição. Aguardam-se as posições das organizações representativas dos vários grupos de interesses. Considerando a maldita crise, creio que a proposta pode ter alguns aspectos positivos. É verdade, agora deu-me para ser optimista, ver o copo meio cheio.
Assim, uma primeira vantagem seria baixar o risco de endividamento das famílias, isto é, quem não tem dinheiro, não tem vícios. Como é público, o nível de endividamento das famílias é brutal. Diminuindo o montante disponível em dinheiro a tentação da compra poderá baixar.
Para fomentar o choque tecnológico poderia ser fornecido ao trabalhador um “cabaz informático” com um pack base a definir pelo ministro Gago.
Para combater as listas de espera e promover a acessibilidade a serviços de saúde, poderia ser fornecido um “cabaz saúde” de que constaria, por exemplo, um check-up e uma operação à escolha em estabelecimentos privados, mas com necessidade fundamentada.
Para promover a qualificação dos portugueses, poderia ser fornecido um “cabaz doutor” contendo um cheque propina para custear a frequência de ensino superior aos filhos do trabalhador.
Para fomentar a actividade cultural poderia ser fornecido um “cabaz cultura” com assinaturas para cinema, teatro, museus e concertos.
Para fomentar o bem-estar dos trabalhadores poderia pensar-se num “cabaz desportivo” que incluiria um fato de treino, umas sapatilhas e uma bicicleta.
Finalmente, estamos no tempo, poderia ser criado um “cabaz férias” com o fornecimento de uma semaninha numas termas à escolha dos colaboradores, de preferência com águas indicadas para problemas digestivos.

UM HOMEM CHAMADO CANTO

Era uma vez um homem chamado Canto. A sua vida foi um encadeado de cantos. Uma família grande, reservou-lhe um canto à mesa e outro canto para dormir. A escola, curta, foi passada ao canto. No tempo de brincar, ficava só, ao canto.
Por hábito, trabalhava, claro, no canto da oficina.
Sempre pelos cantos, um olhar de canto trouxe-lhe na volta um sorriso que lhe pareceu um encanto, e, atrás do sorriso, a mulher que, pela companhia, lhe iluminou o canto.
Os filhos preencheram-lhe os cantos à casa e a velhice deixou-o só, de novo, a passear pelos cantos.
O Sr. Canto repousa agora, discretamente, num canto do cemitério, como sempre.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

DEVE SER UM VOTO DE BOAS FÉRIAS

A inédita decisão do Presidente Cavaco Silva de interromper as férias e oferecer uma intervenção no nobre horário das 20 está, naturalmente, a agitar o país, especulando-se sobre o provável conteúdo(s) da conversa. A generalidade dos analistas, inclina-se para uma referência ao veto do Tribunal Constitucional ao Estatuto dos Açores e/ou à promulgação (ou não) de alguns diplomas que a aguardam.
Podem confirmar-se estas análises, no entanto, creio que outras hipóteses devem ser consideradas. Vejamos algumas.
Confirmando-se a suspensão de dois anos a Pinto da Costa, como irá o país futebolístico reagir e manter a serenidade? É importante a ponderada opinião do Professor Cavaco Silva.
A agitação extraordinária do Dr. Portas sobre o Rendimento Social de Inserção atribuído aos parasitas e marginais pode, também, justificar uma palavra de apaziguamento de Cavaco Silva.
Seis milhões (pelo menos) de portugueses estão sem saber o que vai acontecer a Mantorras e muitos outros inquietam-se com os problemas de Moutinho e a sua saída do Sporting. Importa uma palavra de tranquilidade do PR, que pode, até, incluir uma referência tranquilizadora a Cristiano Ronaldo e à sua eventual ida para o Real Madrid e à manutenção de Quaresma no Porto.
Outra hipótese, pode ser informar o país que, afinal, a Dra. Manuela Ferreira Leite, já lhe comunicou uma ideia para fazer oposição ao PS.
Finalmente, pode, simplesmente acontecer que o Professor Cavaco Silva esteja preocupado com o desaparecimento do Menino Guerreiro, Santana Lopes, que já foi visto de IPhone e quer um Magalhães.
De resto, só mesmo para nos desejar boas férias.

NOVAS OPORTUNIDADES PARA LICENCIADOS

Se não estivesse em jogo a dignidade das pessoas envolvidas, poderíamos estar em presença de um excelente contributo para a “silly season”, que este ano tão discreta tem estado. Segundo o Correio da Manhã, funcionários do Ministério da Agricultura em situação de Mobilidade Especial, terão recebido ofertas no sentido de participarem em acções de formação. O meritório objectivo, seria promover para estes funcionários a aquisição de habilitações ao nível do 9º e 12º ano. Existe, no entanto, um pormenor, os funcionários são economistas, engenheiros ou detentores de outras licenciaturas. Extraordinário. O ministro Jaime Silva, certamente convertido ao emblemático Novas Oportunidades, ou, outra hipótese, desconfiado das habilitações académicas dos seus funcionários, ou ainda, pela incompetência política e pressa de mostrar serviço ao dono, ofereceu um, mais um, exemplo de como não se devem tratar as pessoas, por mais razoáveis e necessárias que possam ser as mudanças. Mas vai acontecer nada, “comme d’habitude”.

PERDIDO

Nascer perdido, do acaso.
Crescer perdido, do abandono.
Viver perdido, do rumo.

Amor perdido, da ausência.
Tempo perdido, do vazio.
Pensamento perdido, da descrença.
Sentido perdido, da vida.
Corpo perdido, do cansaço.
Perdido, de só.
Perdido, de sempre.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

O MAGALHÃES E O PENSAMENTO MÁGICO

É de saudar o investimento anunciado de 400 milhões de euros em educação que permitirá, designadamente, a instalação de acesso à net em todas as salas de aula e o aumento da largura de banda. Sobre a questão da videovigilância nas escolas conversaremos um dia destes. O anúncio deste investimento foi feito numa sessão “à la Gates”, organizada para a apresentação do Magalhães, um portátil destinado a todos os alunos dos seis aos dez anos. Magalhães, palavras para quê? É um portátil português. O Primeiro-ministro, numa cuidada coreografia, passeava em mãos livres por um palco “high tech” e parecia completamente em transe numa conversão absolutamente mística ao milagroso poder das novas tecnologias para nos livrar dos embaraçantes números da nossa educação.
Cuidado Senhor Engenheiro, existe uma altura no desenvolvimento dos miúdos em que eles acreditam num poder mágico, capaz de modelar a realidade, convicção essa que, com a idade, tende a desaparecer, para o melhor e para o pior. É importante que não se convença do poder mágico das tecnologias. São importantes, sem dúvida, mas são parte da solução, não são a solução.

PS – Se o Magalhães tiver uma calculadora instalada, vamos ter que ouvir o Génio Crato.

A NECESSÁRIA NÃO DISCRIMINAÇÃO

Confirmando-se a descida, segundo notícia do Público, dos números internacionais e nacionais relativos ao número de indivíduos infectados com HIV/sida, temos um bom motivo de optimismo e satisfação, apesar de em Portugal a situação ser ainda muito grave. Naturalmente que muito continua por fazer no domínio da prevenção e tratamento. No entanto, considerando também o prolongamento, já atingido, da expectativa de vida dos indivíduos infectados, importa desenvolver um combate pela sua não discriminação. É sabido que, em diversas áreas de serviços, se verifica essa discriminação. São exemplos o acesso à banca e seguros, ao mercado de emprego, aos serviços de educação e mesmo aos serviços de saúde. Assim, parece positiva a apresentação no parlamento, por parte do BE, de uma iniciativa legislativa que combata essa discriminação e à qual o PS já mostrou sensibilidade. Em boa verdade, seria dispensável esta legislação se cumpríssemos as disposições constitucionais no âmbito dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos mas, provavelmente, será necessário ser mais directo e eficaz.
Como frequentemente afirmo, o nível de desenvolvimento de uma comunidade também se avalia pela forma como cuida das suas franjas mais vulneráveis ou fragilizadas.

DUAS FÉRIAS

No último dia de aulas, a Ana foi à biblioteca da escola entregar um livro. Quando estava para sair, o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, disse-lhe adeus e desejou-lhe boas férias. A Ana riu-se.
Vão ser boas, Velho, vou ter duas férias.
Duas férias, Ana? Como é isso?
Primeiro, vou de férias com a minha mãe, com o amigo dela, o João, e com o Manel que é filho do João. Depois, vou de férias com o meu pai, a amiga dele, a Sara, e com o Tito que é o filho da Sara.
Estás contente?
Claro. Eles são todos fixes e a gente farta-se de brincar. Brinco mais do que brincava quando vivia com o pai e a mãe. Eles estavam sempre um bocado chateados e a gente não brincava muito. Já viste Velho, tinha uma família chata e agora tenho duas famílias mesmo fixes.
Sorte a tua, Ana, boas férias.

terça-feira, 29 de julho de 2008

MASSAGENS NA PRAIA? PENSAM QUE O ALL GARVE É O QUÊ?

Sim, eu sei, não será um assunto de transcendente importância mas, desculpem, não posso deixar de o referir. Então não é que o Comandante Reis Ágoas, do Comando Marítimo do Sul, proibiu as massagens nas praias do All Garve? Diz o comandante que “Toda a gente sabe como começa uma massagem, mas ninguém sabe como vai acabar”. O Comandante Ágoas tem toda a razão. Onde é que isto iria parar? Pois é, como ele explicou, o pessoal parece saber como começar a massagem, o problema é depois. Sabe-se lá se ainda se chega a desavergonhices. Pensam que as praias são o quê? Lá por o ministro Pinho andar a promover o All Garve e mais os golfes, e mais os spas e resorts (sem serviço de massagem), não podem pensar que dão cabo dos sólidos costumes lusos, Já nos basta os estragos causados por essa enorme figura do All Garve, o mítico Zézé Camarinha. Agora que o homem parece estar em retirada, queriam massagens nas praias. Não pode ser. Deus o abençoe, Comandante Ágoas, por tão nobre decisão e coragem, não ligue às vozes críticas. Essas, são daqueles que estão à espera que a massagem acabe onde o Senhor Comandante não quer que acabem. Malandros, façam mas é castelinhos na areia e apanhem conquilhas na maré vaza.

TEMPO

(Foto de Filipe Arruda)

Tempo, com tempo.
Tempo de parar,
tempo de andar.
Tempo de recordar,
tempo de esquecer.
Tempo de esperar,
tempo de desesperar.
Tempo de ser,
tempo de desaparecer.
Tempo de viver,
tempo de morrer.
Tempo, sem tempo.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

UM GRANDE BEM-HAJA A VOSSA EXCELÊNCIA

Senhor Primeiro-ministro, Engenheiro José Sócrates,

Perdoar-me-á o atrevimento, mas imperativos de justiça obrigam-me a dirigir-lhe esta nota. Não o merecemos, como, aliás, não merecemos outros vultos de excelência que nos têm governado, como é o caso, fez bem recordá-lo, da Dra. Leonor Beleza. Em nome de um povo que não consegue entender, na hora, o alcance das suas políticas e a genialidade da sua acção, queira aceitar as minhas desculpas. Não me orgulho nada de o dizer, mas somos, como sabe, um povo com baixa qualificação académica. Esta fraca preparação não nos deixa entender o nível superior em que se move o seu espírito e justeza das suas decisões. Estamos ansiosamente à espera que os resultados da política educativa de que é, afinal, o último responsável, nos tirem desta apagada e vil tristeza intelectual. Talvez fruto dessa obra-prima de qualificação acelerada, o emblemático Novas Oportunidades, tenhamos, já com um nível de qualificação estatisticamente adequado e sem ironia, novas oportunidades para entender aquilo que agora nos parece difícil. O Senhor tem sido de uma paciência inesgotável, embora, às vezes, se note alguma exasperação, compreensível, com as constantes, injustas e ignorantes críticas. O Senhor até me faz lembrar, desculpe-me a comparação, o meu saudoso pai que me dizia tanta vez, “é para teu bem” e o que eu refilava. Não entendia como aquelas cargas de marmeleiro, que tanto me doíam, me iriam fazer bem. Pois é, fizeram, cá estou, cidadão responsável, honesto e pagador de impostos.
Por tudo isto, com um renovado pedido de desculpas, um grande bem-haja a Vossa Excelência.

UM RAPAZ DISTRAÍDO

Um dia, na biblioteca da escola, estava o João de volta de uns livros e do computador. O Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, parou a observá-lo sem que o João desse por isso. Quando o viu até se assustou.
Estavas tão concentrado que nem me viste.
Velho, o que é estar concentrado?
É estar a fazer alguma tarefa ou a pensar em alguma coisa com muita atenção.
Então eu estava com muita atenção?
Claro que estavas.
Velho, pode-se estar com atenção a duas coisas ao mesmo tempo?
É muito difícil, João, por isso é que quando estavas concentrado no teu trabalho, nem viste que eu estava aqui.
Pois é Velho. Nas aulas, às vezes, os professores estão a falar de coisas que eu não percebo bem para que serve aprendê-las, então ponho-me a pensar noutras coisas e eles dizem que estou distraído. Eu respondo que não estou distraído, estou a pensar e, portanto, estou concentrado, não é?
É verdade, mas não te esqueças de que, durante a vida, aprendemos coisas que só mais à frente percebemos melhor para que servem.

domingo, 27 de julho de 2008

DAR LIÇÕES, A PAIXÃO DA EDUCAÇÃO

Afinal não foi o Canas. Se calhar não está de serviço e então mandaram o Dr. Alberto Martins. A justificação das críticas do Eng. Cravinho também não foi com a distância a que se encontra, em Londres.
Desta vez, a resposta veio naquele tom irritante que o Primeiro-ministro também usa frequentemente no debate político, isto é, certamente, devido à paixão pela educação, ao sucesso das políticas educativas, ao choque tecnológico ou à simples consequência da genialidade, não temos nada que aprender, apenas, obviamente, para ensinar. É uma maçada, não percebem as nossas políticas e ainda criticam. Vão mas é estudar.

NÃO SABE, ESTÁ EMIGRADO

Estou a estranhar a ausência de resposta de Vitalino Canas à entrevista do Eng. Cravinho. Lembrar-se-ão que, há algum tempo atrás, outro ilustre membro do PS, o Eng. Ferro Rodrigues, “exilado” em Paris, na OCDE, teceu algumas leves críticas às políticas do Governo e logo “his master’s voice”, o Dr. Canas, veio à praça pública explicar que as críticas se deveriam ao facto de estar longe e, portanto, distante da genialidade da acção governativa.
Agora é o Eng. Cravinho, “exilado” em Londres na direcção do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento que vem dizer no Público, RR e RTP2, que o PS andou mal na forma como tratou as suas propostas de combate à corrupção e, pior, este fenómeno está em expansão. Ninguém vai acreditar nisto. Nem é preciso o Dr. Canas vir negar porque, temos todos essa convicção, a corrupção é residual porque o combate desencadeado por todo o aparelho do Estado e pelos dispositivos de segurança, tem sido de uma eficácia e empenho absolutamente extraordinários. O facto de o Eng. Cravinho encontrar fragilidades na luta contra a corrupção deve-se, obviamente, a estar longe e, portanto, ignorante do que se passa. É também coincidência, certamente, dois ex-dirigentes do PS, dois engenheiros, dois emigrantes em postos de trabalho de altíssimo nível, dois críticos de aspectos da acção governativa. Que fale o Canas.
PS – Talvez o Dr. Canas esteja a preparar-se para responder às previsíveis pérolas de oratória vindas do Chão da Lagoa pela vozes inimputáveis de Alberto João e do seu “pastor-alemão”, Jaime Ramos. O Eng. Cravinho deve ser levado mais a sério.

sábado, 26 de julho de 2008

O DIREITO AOS AVÓS (TAKE 2)

A agenda das consciências determina hoje um pensamento dirigido ao grupo dos seniores, da terceira idade, dos velhos, dos mais experientes, ou, expressão para hoje, dos Avós. A situação mais habitual destas pessoas espelha uma das consequências que as muitas e significativas mudanças nas sociedades têm implicado. Com a desagregação geográfica das famílias e com a cultura, hábitos e rotinas que, de mansinho, se vão instalando, este grupo social aparece cada vez mais isolado (abandonado) ou, em alternativa, institucionalizado, por vezes, em más condições. Hoje, talvez alguns destes recebam um rápida visita e uma prendinha “espanta consciências” por parte da família.
Por outro lado, verificamos também que as crianças e jovens passam uma parte significativa do seu tempo abandonados mas, paradoxalmente, acompanhados do mais presente, potente e actual "baby-sitter", o Sr. Ecrã (de computador, consola ou TV).
É neste contexto, que, retomando um texto já aqui divulgado, reafirmo a proposta de que se legisle no sentido de estabelecer o DIREITO AOS AVÓS e, naturalmente, o DIREITO AOS NETOS. De facto, existindo tantos velhos sós e tantas crianças e jovens sós, um Decreto-lei poderia juntá-los conseguindo um fantástico dois em um. Os velhos passariam a ter netos com quem (con)viver e os miúdos a ter avós com quem (con)viver, trocando a vontade de ser gente com a vontade de continuar gente. Esta relação, que para a maioria das pessoas que a conheceram e conhecem é fantástica, providencia ainda, de acordo com os técnicos, um bom contributo para o bem-estar de novos e velhos. Em termos práticos, a coisa também não parece assim tão difícil, uma vez que existe sempre um Lar de Terceira Idade e um Jardim de Infância ou Escola, não muito longe um do outro, onde se podem encontrar, Iniciativas deste tipo podem constituir bons exemplos, estes sim, de uma educação a tempo inteiro em vez de "só" escola a tempo inteiro. Conheço, aliás, alguns exemplos avulsos e interessantes de experiências neste âmbito.
E porque não promover estes encontros, mesmo sem Decreto que os determine?

COMO É QUE SE FAZ PARA SONHAR?

Professor Velho, há muita gente que fala dos sonhos que tem. Eu nunca sonho. Às vezes quando vou dormir, penso, vou sonhar. Depois adormeço e, quando acordo, ponho-me a ver se sonhei e não me lembro de nada. Gostava de sonhar também. Como é que se faz para sonhar?
Manel, eu acho que sonhar não é difícil. E podemos sonhar sem estar a dormir. Quando estamos a dormir, estamos tão distraídos que nem reparamos nos sonhos. Queres sonhar um bocado?
Claro, Velho, mas acho que não sou capaz.
Ès Manel. Pensa num bocadinho do mundo que tu já conheceste e de que gostaste muito.
O monte que o meu avô Xico tinha no Alentejo
Então vamos ao monte do avô Xico. Que pessoas é que tu gostavas de encontrar lá?
O meu pai António, que já morreu, e a minha amiga Joana.
Já estou a vê-los lá no monte, tu, o teu pai António e a tua amiga Joana. E que estão a fazer?
O meu pai está a contar à gente umas histórias muito engraçadas que ele inventava. E a gente está a rir-se muito, porque ele está contar aquela história do mecânico trapalhão que avariava ainda mais os carros em vez de os arranjar.
Manel, reparaste que, sem sair daqui, fomos ao monte do teu avô Xico, encontrámos a Joana e o teu pai António que contou a história do mecânico trapalhão que nos divertiu. Sonho bonito não achas?
Tens razão, Velho. Agora que já percebi como é, não vou parar de sonhar. Depois conto-te.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O MEU PARECER

Se não se importam, o meu parecer.
1 – Parece-me que este processo é um bom fresco, hiper-realista, do futebol português;
2 – Parece-me que o Direito é uma ferramenta que cada um usa para afirmar a sua verdade;
3 – Parece-me que Freitas do Amaral mexeu com o vespeiro;
4 – Parece-me que anda muita gente a mais no futebol;
5 – Parece-me que tudo seria mais fácil, se os juristas elaborassem um conjunto de normas, processos e níveis que regulassem a corrupção. Dar-lhe-ia transparência.
6 – Parece-me que se poderia optar por atribuir, rotativamente, a Benfica, Porto e Sporting o título de campeão. A cada 4 anos, o título seria atribuído, por sorteio, a uma das outras equipas;
7 – Parece-me que o Dr. Madail está como o Martim Moniz, isto é, entalado;
8 – Parece-me que se justifica solicitar outro parecer a uma pool de eminentes professores. Sugiro o Prof. Neca para arquitectar o parecer, o Prof. Manuel Machado para o escrever, o Prof. Marcelo, conhecido entertainer e comunicador, para o divulgar e o Prof. Karamba para adivinhar o granel que isto ainda vai dar;
9 – Parece-me que o futebol deveria mudar de tutela. Deveria ser integrado no Ministério do Ambiente com uma rede dedicada de Estações de Tratamento;
10 – Parece-me, finalmente, que nada vai ficar como antes, ou seja, vai ficar tudo na mesma.

UM HOMEM CHAMADO NÃO SE SABE O QUÊ

Era uma vez um homem chamado Não Se Sabe O Quê. Tinha vindo de algures e vivia não se sabe onde. Teria uma família que não se conhecia e de quem não falava. Aliás, o homem, praticamente, não falava, apenas trabalhava, fazendo tudo o que lhe pedissem sem a menor reserva. Fora do trabalho, estava não se sabe onde, fazendo não se sabe o quê. Quando se conseguia olhar nos seus olhos, o que era raro, eles parecia sempre olhar para longe, não se sabe para onde. Nos intervalos do trabalho ficava num canto, com ar de quem estava a pensar, não se sabe em quê. Alguns colegas disseram que, às vezes, parecia que chorava, não se sabe porquê.
Um dia, levaram-no, não se sabe para onde. O seu verdadeiro nome era, Clandestino.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

FALTA DE RECEPTIVIDADE? FALTA DE SOLIDARIEDADE, ISSO SIM

Uma deslocação profissional ao Algarve, só agora me permitiu saber deste verdadeiro atentado à maior onda de solidariedade alguma vez prevista para Portugal. Com efeito, a ERSE, Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos, deixou cair, “por falta de receptividade”, a proposta de imputar aos consumidores de boas contas, os custos dos clientes incobráveis da EDP. Não está certo, Falta de receptividade?! Então um dos mais generosos povos do mundo não está receptivo a pagar as dívidas dos incumpridores. Que andam os educadores deste país a fazer? Com que valores estamos a ser formados? Eu, uma pessoa que gosto de me sentir solidário, estou, obviamente, receptivo a pagar as dívidas à EDP de quem não queira, ou não possa, pagar os seus consumos. Se acharem por bem, também estou receptivo para pagar os impostos de quem se balda, para pagar a gasolina de quem se pira das estações de serviço sem pagar o abastecimento, para ajudar os ex-administradores do BCP a pagar aqueles empréstimos a familiares, etc. Só não quero é que digam que não estou receptivo à solidariedade.

UM DIA PERFEITO

Estranhamente, porque não era hábito, levantou-se com a melhor das disposições para enfrentar mais um dia. A mulher, já a pé a despachar os filhos para a escola, sorriu para ele. Estranhou, não era hábito. A torrada não queimou, como era hábito, e saiu de casa estranhamente bem-disposto, mas com a vaga sensação de que se tinha esquecido de algo. O Luís, o do café, estranhamente, não gozou com o seu Benfica enquanto tomava a bica. Mantinha a sensação de que se tinha esquecido de alguma coisa. A manhã de trabalho no banco foi perfeita, só clientes simpáticos e com problemas simples. Estranhou, a si sempre lhe tocavam os chatos que só percebem o que se lhes explica à décima vez. Continuou com a sensação de que se tinha esquecido de algo. O almoço foi excelente no sítio do costume. Até, contra o que era hábito, o seu prato preferido ainda não tinha esgotado. Ainda deu para dar uma volta no centro comercial e cruzar-se com duas mulheres, lindíssimas, que lhe retribuíram o sorriso. Mas a sensação de que se tinha esquecido de algo continuava. O resto do dia de trabalho correu lindamente. O Chefe, o Dr. Lopes, em vez de o chatear ao fim do dia com algum processo para despachar com urgência, teve quase uma hora de conversa sobre banalidades e namoradas. Quando voltou para casa, sempre com a sensação de que se tinha esquecido de alguma coisa, os miúdos estavam entretidos a brincar, quietinhos, sem a algazarra do costume e sem o obrigarem a deitar-se no chão para os levar às cavalitas. A mulher, que o recebeu com um beijo daqueles de que já não se lembrava, tinha preparado um petisco de se lhe tirar o chapéu. A sensação de que se tinha esquecido de algo continuava. Já tarde, contra o que era hábito, recordou com a mulher as primeiras noites de paixão. Quando, depois do dia perfeito, se preparava para dormir, lembrou-se, finalmente, do que se tinha esquecido logo de manhã.
Tinha-se esquecido de acordar.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

NOVAS OPORTUNIDADES, "YES, WE CAN"

Eu bem tento, mas é impossível fugir a falar da crise. Tinha alguma esperança na chegada da “silly season”, mas até esta parece em crise, de tão discreta que se tem mostrado. Voltemos, portanto, à crise, agora abordada de um outro ângulo, os roubos nos super e hipermercados. Um estudo hoje revelado pela APED, (Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição), refere que os valores envolvidos nestes roubos têm vindo a aumentar significativamente, estando já ao nível dos valores verificados no último período recessivo da economia portuguesa, 2003.
É óbvio que, do ponto de vista das empresas, esta situação está longe de ser simpática. No entanto, esforçando-me por encarar a realidade de forma optimista, seguindo, aliás, a visão do Primeiro-ministro, talvez possamos encontrar alguns sinais positivos neste comportamento de consumidores e empregados destes estabelecimentos comerciais.
Em primeiro lugar, podemos admitir que, para fazer face às necessidades diárias recorrem a Novas Oportunidades de o fazerem, mostrando empreendorismo e iniciativa, contrariando a passiva atitude, mais habitual, de reclamar e esperar por mais subsídios, um pouco seguindo a "Obamática" perspectiva de “yes, we can”. Lindo.
Parece-me também de saudar esta democratização do roubo. As notícias nesta matéria referem-se, sobretudo, aos grandes “negócios”, pelo que recuperarmos a portuguesa tradição do “pilha-galinhas”, pequeno delinquente, para além de introduzir equidade no universo da delinquência, ainda preserva as nossas tradições sociais e culturais. É certo que, na mesma linha, são os que têm mais probabilidades de serem “apanhados” pela justiça portuguesa, forte com os fracos e fraca com os fortes, mas também, última nota de optimismo, tal facto, introduz uma pontinha de adrenalina que ajuda a animar os cinzentos dias que a crise, sempre a crise, nos proporciona.

PODE ALGUÉM SER QUEM NÃO É?

Professor Velho, há pessoas que quando estão a falar de si para outras pessoas, dizem muitas coisas sobre o que pensam, o que fazem, como tratam os outros, do que gostam, do que não gostam, de quem gostam, de quem não gostam e outras coisas. Depois, quando vemos essas pessoas a fazer, não são nada como disseram. Velho, pode alguém ser quem não é?
É uma boa pergunta, Francisco. É engraçado que há muito tempo havia uma canção que falava da mesma questão. Sabes, existem muitas pessoas que quando olham para si, não gostam muito do que vêem. Então, quando falam de si para os outros, descrevem-se como gostariam que os outros as vissem. É como se dissessem, “reparem bem, eu sou assim”. Quando se comportam sem estar a pensar no que os outros estão a pensar de si, parecem-se mais com o que são verdadeiramente. Por isso, ninguém pode ser quem não é, só no teatro e no cinema.
E as pessoas são todas assim, Velho?
Francisco, estás satisfeito contigo?
Oh Velho, às vezes faço umas asneiras e desatino, mas sinto-me bem.
Então não vais precisar de ser quem não és. Entendes?

terça-feira, 22 de julho de 2008

"TALVEZ OS GAJOS NÃO TOPEM"

Ontem referi aqui que os efeitos do arquivamento do processo envolvendo o trágico desaparecimento de Maddie McCann, estão bem para lá do drama familiar. Atingem de forma demolidora a confiança na justiça.
Hoje, numa área completamente diferente temos um relatório do Tribunal de Contas arrasador da gestão de quatro Universidades cujos efeitos estão, também, para além dos factos relatados. Sabemos que, sendo as organizações, qualquer que seja a sua natureza, uma obra humana, carregam, incontornavelmente, o risco do erro. Mas também sabemos que nas sociedades mais desenvolvidas, as Universidades são, devem ser, percebidas socialmente como nichos de excelência face à sua enorme responsabilidade na preparação e qualificação dos indivíduos, riqueza última e essencial ao desenvolvimento de qualquer país. Não é assim possível, sem algum desconforto, perceber que, por erros grosseiros e inadmissíveis de gestão, universidades, espaços onde se verifica a maior densidade de sinapses de boa qualidade por metro quadrado, são, também elas, o reflexo de um país incompetente, de lápis na orelha, à espera do subsídio salvador ou do truque de contabilidade que “talvez os gajos não topem”.

UM RAPAZ CONTENTE E TRISTE

Professor Velho, a gente pode estar contente e triste ao mesmo tempo?
Por que perguntas, Manel?
Estou um bocado baralhado. Dantes, quando me aconteciam coisas de que eu gostava ficava contente e, quando me aconteciam coisas de que eu não gostava, ficava triste. Mas hoje, aconteceu-me uma coisa fixe, fui ver as notas e foram boas, tive um 5, dois 4 e o resto três. Fiquei contente, mas olhei para as notas da Joana e fiquei triste porque ela teve notas más. Como eu gosto muito dela fiquei triste, e quando a encontrar nem vou mostrar que estou contente com as minhas notas.
Manel, quando a gente cresce começa a ser capaz de ver mais coisas ao mesmo tempo. E outra coisa muito importante, também começa a pensar no que as outras pessoas pensam, especialmente quando gostamos delas. Sabes que a Joana vai ficar triste, gostas dela e, por isso, ficas triste. Entendes?
Acho que sim, Velho.
Então, quando encontrares a tua amiga Joana não precisas de esconder que estás contente, porque ela, como também gosta de ti, vai ficar contente com as tuas notas e triste com as notas dela. Cá para mim, ainda vai ficar mais contente se lhe disseres que vais estudar com ela para ajudar as notas a ficar fixes, como tu dizes.
Boa ideia, Velho.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

ARQUIVE-SE A CONFIANÇA NA JUSTIÇA

Como anunciado de há muito, o “caso” Maddie foi arquivado. É óbvio que se torna impossível garantir que todos os processos criminais tenham resolução. Mas, por tudo o que rodeou este longo drama, este era o “único” caso que não poderia ser arquivado por falta de provas.
O seu arquivamento, para além dos contornos emocionais pesadíssimos do desconhecimento sobre o que aconteceu à pobre garota, representa o arquivamento de mais uma parcela da nossa confiança na equidade e funcionamento eficaz da justiça. Pouco a pouco não restará nenhuma. Tal como o destino de Maddie, é uma consequência sem preço.

OS MIÚDOS DE ONTEM

Uma vez, um grupo de professores falava dos seus alunos. De uma forma geral, entendiam que os alunos de agora eram piores que os alunos de ontem e de outros ontem. Um dos professores, uns dias depois, contava esta conversa ao Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros. O Professor Velho sorria à medida que ia ouvindo. Depois, naquele jeito baixinho, falou.
“É muito engraçado. Quando crescemos e ficamos mais velhos, começamos a achar que tudo o que era antes, era melhor. Não acontece só com os professores a falar dos miúdos. Toda a gente, de quando em vez pensa, no meu tempo é que era bom, agora é pior.
E porquê Velho?
Quando nós, todos nós, nos confrontamos com coisas, ideias, comportamentos, etc. que não conhecemos bem, não entendemos, ou não nos sentimos preparados, ficamos um bocadinho surpreendidos e inseguros. Então, começamos a recordar o que já conhecemos e que, por isso, não nos inquieta tanto. Assim, pensamos que, se fosse como era antes, saberíamos o que fazer, pensar, entender, o que nos devolve a segurança.
No fundo, todos nos sentimos mais confortáveis com o que já conhecemos. E todos os anos, os professores têm alunos novos. Entendes?”

domingo, 20 de julho de 2008

"BOA" GESTÃO HOSPITALAR E "REALPOLITIK"

Mas porquê? Fará parte do ADN? É uma questão de escola cultural? É moda? É o destino? Um relatório da Inspecção Geral de Saúde refere que, em 2003 e 2004, se verificou na gestão e administração de Hospitais do Sistema Nacional de Saúde a utilização indevida de 1 milhão e 200 000 €. A verba foi administrada em mordomias diversas para os gestores, sem cobertura legal. Ao que parece, parte dessa verba foi já devolvida pelos competentíssimos administradores, quem sabe com medo de não continuarem ou de não serem “deslocalizados” para outros Conselhos de Administração. E não acontece nada? São inimputáveis? Como entender isto, quando a Administração Fiscal acciona a penhora de vencimentos por dívidas fiscais de menor monta do cidadão comum, sobreendividado? Vergonha!
O Primeiro-ministro fez duas rápidas visitas a dois países irmãos, baluartes da democracia onde se realiza um “trabalho notável” em prole do desenvolvimento e do bem-estar dos respectivos povos, Angola e Líbia. É certo que a necessidade do petróleo e dos negócios exige esta “realpolitik”, mas alguma contenção na linguagem seria mostrar alguma dignidade e sentido de democracia que não se vendem por meia dúzia de barris de petróleo ou uns negócios, por mais importantes que sejam. Depois ficaram ofendidos com o Dr. Bernardino Soares por falar da democracia norte-coreana. Os amigos são para as ocasiões.

sábado, 19 de julho de 2008

DESTINO

(Foto de Adriane)

O destino,
de quem por destino tem,
andar sem destino,
à procura de um destino,
que destinado está.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

PORTUGAL DOS PEQUENINOS

Neste dia de intenso calor, uma referência ao nosso Portugal dos Pequeninos, em particular ao Portugal futebolístico. Parte da rapaziada do futebol, com o trovejante e incontornável Major à cabeça, foram condenados por prevaricação e abuso de poder e absolvidos da caluniosa acusação de corrupção. É certo que as penas são suspensas, tal como a justiça, que continua suspensa. É claro que o Major também já fez saber que vai recorrer, naturalmente, e concorrer de novo à presidência da Câmara de Gondomar. Sem comentários.
O miúdo de bons pés e pouca cabeça, o Cristiano Ronaldo, é considerado uma referência importante para os portugueses, em particular dos mais novos. Reparem como a provinciana imprensa se refere ao Manchester de Ronaldo, como se o inglês clubezeco de terceira em que joga o génio, fosse uma criação sua. Pois esse modelo inspirador da juventude, ao que a imprensa refere, gastou 12000 € numa noite de copos num bar em Los Angeles. Também sem comentários, apenas dizer-vos que estou a olhar para uma notícia, que refere que o número de casas leiloadas detidas pela banca, devido à execução das hipotecas por incumprimento das famílias, duplicou. Sim, eu sei, é um bocadinho demagógica a referência, mas que me incomoda, incomoda.

UM HOMEM CONTENTE

Era uma vez um homem chamado Contente. Estava sempre com o ar mais feliz que se possa imaginar. Nada de menos positivo parecia incomodá-lo. Não se preocupava com nada que pudesse perturbar o seu contentamento, nem sequer lia jornais ou via televisão para não estragar o estado de felicidade em que, permanentemente, vivia. A relação do Contente com as pessoas era a melhor possível, sem sombra de atrito. Na sua perspectiva, o Contente tinha a família perfeita, a casa perfeita o carro perfeito, as rotinas perfeitas, enfim, a vida perfeita. O Contente sentia-se a pessoa mais feliz do mundo, do seu mundo.
Um dia, inesperadamente, faleceu. Quando procederam aos exames necessários para determinar a causa, os médicos descobriram que, surpreendentemente, o Contente era apenas um invólucro. Por dentro, apenas o nada.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

PORREIRO, PÁ

Está a ser um tempo horribilis para os funcionários públicos. O governo, como se sabe, tem entre os princípios fundadores das suas políticas, o princípio da convergência. A primeira grande batalha foi a convergência dos indicadores da nossa economia com os dos restantes países da zona euro. Tem sido o sucesso que conhecemos. Outro grande desígnio de convergência tem sido o rendimento disponível das famílias que, como pode ser facilmente comprovado, é claramente convergente com outras realidades europeias. Temos também convergido na lentidão da justiça, nas listas de espera do SNS, nos resultados escolares dos nossos alunos, designadamente nos níveis de abandono, etc. Sintetizando, estamos fartos de convergir.
Bom, em mais um sinal desta política, os funcionários públicos vão ver a sua reforma obedecer a uma ideia de convergência com a situação dos trabalhadores do sector privado, isto é, passarão a trabalhar mais, até aos 65 em vez dos 60 anteriores, portanto a descontar durante mais tempo, mas, para compensar e convergir, também passam a receber menos, cerca de 18%, de acordo com o estudo do Banco de Portugal referido no Público. Porreiro, pá.

UM HOMEM DIFERENTE

Era uma vez um homem chamado Diferente. Desde pequeno, ainda na escola, o achavam diferente de todos. A família sempre o considerou diferente e Diferente ficou, para sempre. Os colegas entendiam que era diferente e, muitas vezes, tratavam o Diferente de forma diferente. Os professores também o achavam diferente, muito diferente. Os vizinhos desde que conheciam o Diferente também o consideravam diferente e, por isso, de maneira diferente se relacionavam com ele.
O Diferente foi-se acostumando à ideia de que era diferente. Assim, cresceu diferente, viveu diferente e morreu diferente.
Quando o Diferente morreu, todas as pessoas, com um ar ansioso, começaram a olhar à sua volta. Precisavam, urgentemente, de encontrar outro Diferente que as fizesse sentir, tranquilamente, iguais.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

OLÁ SOU O MANEL E TENHO SEIS ANOS

Considerando a referência do Público ao estudo do SPGL envolvendo as Actividades de Enriquecimento Curricular e pedindo desculpa da repetição, aqui fica um texto já publicado, mas que o meu amigo Manel pediu que voltasse a mostrar.
Olá, sou o Manel, tenho seis anos e ando no 1º ano numa escola nova. Não sei ainda escrever muito bem e pedi ajuda para dizer isto. Quando andava no Jardim de Infância que se chamava O Paraíso da Criança, a educadora Tita e a outra ai… a Beca diziam que esta escola ia ser boa e ia aprender muita coisa, até a ler e a fazer contas e problemas. Também disseram que podia brincar à mesma mas eu não acreditei porque o meu pai disse que umas pessoas que escrevem no jornal dizem que não se pode brincar na escola. Tem que se trabalhar a sério e se calhar ainda mais que os grandes porque os jornais também dizem que eles, os grandes, não têm ai…isso, produtividade. Mas vim para a escola e até estava animado. Havia uns meninos e umas meninas que eu já conhecia. Outras não, mas são fixes. A professora Maria também é fixe. Às vezes zanga-se e grita. É melhor porque a gente assim ouve-a. Umas vezes fala com as outras professoras e ficam zangadas com uma senhora que se chama Ministra. Dizem que essa senhora é que devia estar a ensinar a gente. Não sei bem porquê mas eu não quero outra professora. Gosto da minha. Ela também gosta de mim. Ela disse-me e eu acredito. O que eu não gosto muito é da escola ser tão comprida. Muito comprida. Só para saberem vou dizer como é a segunda-feira.
Levanto-me às sete e meia e a minha mãe primeiro larga o meu irmão no Jardim de Infância e depois deixa-me na escola quase às nove. O meu amigo João já está à minha espera porque ele chega às 8 aos Tempos Livres e o dia da gente é assim:
Das 9 às 9 e 45 temos Matemática. Fazemos umas fichas do livro e professora explica coisas. Às vezes não percebo e ela diz que já vem mas os outros também não percebem e temos que esperar. Não se pode falar mas a gente fala e é quando a professora grita.
Das 9 e 45 às 10 e 30 é a mesma coisa mas com mais barulho.
Das 10 e 30 às 11 temos um intervalo para brincarmos à bola e ao wrestling.
Das 11 às 12 temos Língua Portuguesa. É o que eu gosto mais e já quase sei ler mas também temos barulho. Eu não me importo com isso porque quero aprender a escrever histórias e a ler livros. O meu avô não sabe ler e fica triste quando diz que não sabe. E ele fica contente quando leio coisas que já sei. Eu também fico.
Depois de almoçar no refeitório da escola com os alunos todos e com mais barulho ainda, vamos ter Estudo do Meio das 13 e 15 às 14. A Professora disse que a gente ia estudar o que estava à nossa volta mas ainda não saímos da escola. Se calhar temos que estudar primeiro para depois ir ao Meio.
Das 14 às 15 e 15 temos Expressões. Também é giro. O que eu gosto mais é de pintar mas a Professora diz que eu nunca escolho bem as cores e os desenhos ficam feios. Mas eu gosto deles e a Rita que é minha amiga, também.
Às 15 e 30 e até às 16 e 15 temos Educação Física. Também gosto mas fico muito cansado de correr e jogar e fico transpirado.
Às 16 e 30 vamos para Inglês. A professora está sempre aborrecida, diz que não percebe miúdos pequenos. Diz que não estamos calados e quietos a fazer as fichas como uns alunos que ela tem noutra escola e que já andam no 12º ano. O inglês é giro mas só aprendi os números e as cores. Não sei falar inglês e ainda fico mais cansado.
Das 17 e 15 às 18 temos Música. O professor é engraçado bué, tem um piercing e o cabelo atado. Toca um violino e anda numa escola chamada Conservatório e só estuda música. Ele gosta. Mas acho que não gosta muito de estar com a gente. Diz que precisa de ganhar dinheiro e que lhe pagam pouco e que a gente não tem jeito para a música. Eu gostava de experimentar o violino mas a gente cá na escola só tem pífaros.

O meu pai vem buscar-me às 18 e 30 e vou para casa e aproveito para brincar um bocadinho com o meu irmão. Às vezes digo que estou cansado mas a minha mãe diz que é para eu aprender como é a vida dos grandes. Eu acho que eles têm uma vida grande porque são grandes e eu… EU SOU PEQUENO. AINDA NÃO PERCEBERAM?