Passados já 52 anos, o tempo voa, é impossível para as pessoas da minha geração não falar do 25 de Abril, daquele 25 de Abril, do nosso 25 de Abril, do meu 25 de Abril, o de 1974.
É com alguma frequência que falo
com gente mais nova sobre o que era o 24 de Abril. Ainda há poucos dias o fazia
com o meu neto Grande, o Simão, com doze anos. Quando conto a vida, o dia a dia daquele tempo,
e algumas das circunstâncias que moldavam os dias percebe-se alguma
perplexidade nos jovens, não tanto pelas referências às grandes questões da
época, conhecem-nas pelas abordagens curriculares, mas, sobretudo, pelas
pequenas histórias do quotidiano.
Histórias do clima de
desconfiança e suspeição sobre a pessoa do lado que nos prendia dentro da
gente, do livro que se não tinha e não se podia ler, do filme proibido, do
disco que se contrabandeava; do teatro que não se podia fazer, da conversa que
se não podia ter, do professor de quem não se podia discordar, da ideia que se
não podia discutir, da repressão visível e, mais pesada, invisível, do beijo
que não se podia dar em público, do livro único para formar um pensamento
único, de tantas outras histórias com que se tecia um mundo pequeno que nos
queria pequenos.
São sempre conversas
estimulantes. É certo que me deixam a doce amargura da idade, mas, talvez num
excesso de optimismo, quero acreditar que estes miúdos ou jovens não irão
permitir que se possa voltar a ter histórias daquelas para contar a gente mais
nova. Sim, os tempos vão duros e têm-nos trazido circunstâncias que julgávamos
que não voltariam e assustam. Muita gente, sem memória, sem conhecimento,
sem valores inferniza os nossos dias.
Ainda assim, acho que boa parte
desta gente mais nova, apesar das enormes dificuldades que enfrentam para
construir um projecto de vida viável e sustentado, não vai mesmo crescer e
estudar para ser escrava. Esta gente vai, apesar de por vezes se sentir "à
rasca”, chegar ao futuro.
Gosto de acreditar nisto. Também
por causa daquele 25 de Abril.
E porque fica mais fácil e é mais
bonito "Traz outro amigo também".
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