Numa peça do Público lê-se que desde o início do seu funcionamento, Setembro de 2024, a Linha Nacional de Prevenção do Suicídio registou cerca de 14 mil chamadas. A maioria das chamadas é realizada por mulheres e jovens, 40%. De acordo com o Coordenador, José Carlos Santos, a frequência de chamadas tem vindo a aumentar.
São recorrentes as notícias e os
estudos que referem ou evidenciam um mal-estar crescente entre os adolescentes
e jovens ainda que se reflicta em todas as idades..
De acordo com dados divulgados em
Setembro de 2025, pelo Programa Mais Contigo, 41% dos adolescentes inquiridos
revelaram sintomas de depressão, tristeza persistente, baixa auto-estima, perda
de interesse ou de prazer e pensamentos negativos. Também 12% dos inquiridos
estarão em risco de comportamentos suicidários.
Vivemos tempos muito complicados
e sombrios que muitas vezes incubam quadros de mal-estar entre os mais novos que a família
e a comunidade escolar muitas vezes não conseguem, primeiro, perceber e,
segundo, desenvolver alguma acção preventiva ou remediativa.
Retomo umas notas em torno do
contexto familiar.
Sabemos da importância protectora
que a família tem na resposta aos desafios da adolescência. Em inúmeras
conversas que realizei com pais estes “desafios” estavam quase sempre na
agenda. Normalmente, começava por recordar e acentuar que crescer e ser, desde
que se nasce é sempre um desafio, mas, evidentemente, percebo as inquietações
associadas a estas idades e, mais recentemente, a um clima pouco amigável, por
assim dizer, que se foi instalando.
Parece-me também importante
reafirmar, faço-o convictamente, que na maioria das situações, com mais ou
menos sobressaltos … a coisa corre bem.
Também sei que quando emerge
algum mal-estar a situação pode ser bem complicada para adolescentes e pais e
uma ajuda exterior pode fazer a diferença. Dito isto, também entendo que é
necessária prudência para evitar um excesso de “psicologização” da vida educativa
das famílias e sabemos que não existe um manual de instruções que tudo
conserta.
A família, recorrendo às palavras
de Paul Bowles que inspirou Bertolucci num filme notável, deveria ser sempre
percebida como “The sheltering sky”, um céu protector na vida de todos os seus
membros, designadamente, nos que pela idade ou pelas circunstâncias enfrentam
“desafios”.
Parece-me ainda claro que este
céu protector só pode ser construído com base na comunicação, na escuta, na
disponibilidade (não estou a falar de tempo embora também), de percepção do que
se passa com o outro e do que ele sente.
Os estilos de vida, as alterações
dos quadros de valores e de prioridades nem sempre serão muito amigáveis para a
construção deste céu protector. Como sabemos as alterações climáticas são uma
realidade e também neste céu familiar se verificam alterações de clima a que
importa estar atento e prevenir … comunicando.
As famílias, nas suas diferentes
tipologias não podem ser um grupo de pessoas com a chave da mesma casa na qual
se cruzam, pouco falam e se escondem num ecrã. Tornam-se tóxicas e degradam-se.
Corremos então o risco de alguns
adolescentes, sobretudo em períodos mais crispados do ponto de vista social,
como estamos a viver, entre “muros”, nas mais das vezes invisíveis, que apertam
de mais e são difíceis de “saltar”. Vejamos alguns exemplos, se alguém os
inquirir sobre o que pensam ser o seu futuro, o seu projecto de vida, muito
provavelmente obterá uma resposta vazia, ou seja, não têm projecto de vida, não
têm ideia de futuro, trata-se assim de viver o presente e apenas o presente. A
adolescência é uma fase fundamental na construção da identidade. Certo, que
identidades estão muitos destes jovens a construir? Revêem-se nelas? Ou
sentem-se meio perdidos num mundo em que não sentem caber e encostam-se aos que
estão tão perdidos quanto eles. Que referências sustentam muitos destes jovens,
o lado positivo? Os modelos adequados, o que quer que isto seja? Ou os modelos
fornecidos por quem, como eles, vive o presente à pressa cheio de medo do
futuro, procurando chegar a tudo antes que se acabe a oportunidade?
Por vezes lembro-me de Brecht,
“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as
margens que o comprimem”. Esta ideia não tem como objectivo branquear ou
desculpar os comportamentos socialmente inadequados de adolescentes, dirigidos
a outros ou mesmo a si próprio, mas a verdade é que muitos vivem com margens
demasiado estreitas.
Educar, em casa ou na escola,
pode traduzir-se em ajudar alguém a tomar conta de si próprio. Assim, a
autonomia é o fio estruturante da acção educativa e começa no berço. Quanto
mais autónomos mais autodeterminados e auto-regulados as crianças e jovens serão,
menos será necessário "tomar conta deles", eles saberão tomar conta
de si de forma adequada.
O afecto é imprescindível, não
existe "afecto a mais" ou, noutra versão, "mimos a mais".
Existe mau afecto e mau mimo e mau porque é tóxico, faz mal e não por ser
muito.
As regras e os limites são bens
de primeira necessidade. Tal como com os afectos, nenhuma dieta educativa pode
prescindir de regras e limites.
Finalmente e insistindo, a
educação, escolar ou familiar, assenta na relação que tem como ferramenta
essencial a comunicação. A comunicação é essencial, em qualquer idade.
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