Há uns dias, no JN encontrava-se a referência a um trabalho da Associação Sistema Terrestre Sustentável (Zero) que num estudo realizado a partir de uma amostra com uma amostra permite estimar que as famílias portuguesas poderão desperdiçar mil toneladas de alimentos por dia. É muito desperdício.
Os tempos que vivemos são duros e
torna-se difícil hierarquizar os problemas que afectam as comunidades. A
questão do desperdício alimentar, por cá e no mundo mais desenvolvido, não tem
o destaque que se justificaria e, sobretudo, não parece abrandar. Já num num
trabalho citado no The Guardian em 2016 lia-se que metade de toda a comida
produzida nos EUA é deitada ao lixo.
Mais alguns dados. Em 2022, a
Organização para a Alimentação e a Agricultura, da ONU, estimava que 1,3 mil
milhões de toneladas de alimentos, um terço do que é produzido, são
desperdiçadas com um custo de anual de 570 mil milhões de euros para a economia
global, o suficiente para alimentar 925 milhões de pessoas. Vivemos num mundo
estranho. Na Europa, até chegar ao consumidor perde-se entre 30 e 40% da
comida, qualquer coisa como 179 quilos por habitante, 42% dos quais em casa.
Esta escala de valores no que
respeita ao desperdício de alimentos é devastadora e, como por vezes se quer
acreditar, não é coisa de gente rica, é coisa de toda a gente e mostra o quase
tudo que está por fazer embora actualmente tenhamos em Portugal algumas
iniciativas importantes no sentido de atenuar desperdícios.
Na verdade, o desperdício é um
subproduto dos modelos de desenvolvimento e dos sistemas de valores que deveria
merecer uma fortíssima atenção.
Há algum tempo, creio que em
2013, o Parlamento Europeu aprovou um relatório segundo o qual a União Europeia
que tem 79 milhões de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza, 15,8% da
população, e desperdiça anualmente cerca de metade do que consome em alimentos.
Este desperdício corresponde a 89 mil milhões de toneladas, um assombro. Aliás,
o Parlamento Europeu estabeleceu como objectivo reduzir em 50% o desperdício
até 2025. Não creio que se tenha conseguido atingir.
Segundo dados de 2023 do Eurostat,
desperdiçavam-se 58/59 milhões de toneladas por ano, 130 Kg por pessoa.
Neste quadro releva de novo a
necessidade urgente de ponderar os modelos de desenvolvimento económico e
social, questionar o quadro de valores com que nos organizamos em comunidade,
designadamente no que respeita ao consumo e aos excessos e combater
desperdícios que também são consequência desses modelos.
Acresce que a perda e o
desperdício de alimentos se repercutem significativamente na sustentabilidade
dos recursos. O desperdício foi produzido com recursos, terra, água, trabalho,
investimento que, obviamente, são inúteis e com sérios custos ambientais associados
às alterações climáticas.
Escrever sobre estas questões em
espaços desta natureza terá alcance zero, mas continuo convencido que é
fundamental não deixar cair a preocupação, talvez seja melhor chamar-lhe a
indignação, com a pobreza e exclusão para as quais os níveis de desperdício dão
um forte contributo.
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