segunda-feira, 13 de abril de 2026

O LUXO DO DESPERDÍCIO

 Há uns dias, no JN encontrava-se a referência a um trabalho da Associação Sistema Terrestre Sustentável (Zero) que num estudo realizado a partir de uma amostra com uma amostra permite estimar que as famílias portuguesas poderão desperdiçar mil toneladas de alimentos por dia. É muito desperdício.

Os tempos que vivemos são duros e torna-se difícil hierarquizar os problemas que afectam as comunidades. A questão do desperdício alimentar, por cá e no mundo mais desenvolvido, não tem o destaque que se justificaria e, sobretudo, não parece abrandar. Já num num trabalho citado no The Guardian em 2016 lia-se que metade de toda a comida produzida nos EUA é deitada ao lixo.

Mais alguns dados. Em 2022, a Organização para a Alimentação e a Agricultura, da ONU, estimava que 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos, um terço do que é produzido, são desperdiçadas com um custo de anual de 570 mil milhões de euros para a economia global, o suficiente para alimentar 925 milhões de pessoas. Vivemos num mundo estranho. Na Europa, até chegar ao consumidor perde-se entre 30 e 40% da comida, qualquer coisa como 179 quilos por habitante, 42% dos quais em casa.

Esta escala de valores no que respeita ao desperdício de alimentos é devastadora e, como por vezes se quer acreditar, não é coisa de gente rica, é coisa de toda a gente e mostra o quase tudo que está por fazer embora actualmente tenhamos em Portugal algumas iniciativas importantes no sentido de atenuar desperdícios.

Na verdade, o desperdício é um subproduto dos modelos de desenvolvimento e dos sistemas de valores que deveria merecer uma fortíssima atenção.

Há algum tempo, creio que em 2013, o Parlamento Europeu aprovou um relatório segundo o qual a União Europeia que tem 79 milhões de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza, 15,8% da população, e desperdiça anualmente cerca de metade do que consome em alimentos. Este desperdício corresponde a 89 mil milhões de toneladas, um assombro. Aliás, o Parlamento Europeu estabeleceu como objectivo reduzir em 50% o desperdício até 2025. Não creio que se tenha conseguido atingir.

Segundo dados de 2023 do Eurostat, desperdiçavam-se 58/59 milhões de toneladas por ano, 130 Kg por pessoa.

Neste quadro releva de novo a necessidade urgente de ponderar os modelos de desenvolvimento económico e social, questionar o quadro de valores com que nos organizamos em comunidade, designadamente no que respeita ao consumo e aos excessos e combater desperdícios que também são consequência desses modelos.

Acresce que a perda e o desperdício de alimentos se repercutem significativamente na sustentabilidade dos recursos. O desperdício foi produzido com recursos, terra, água, trabalho, investimento que, obviamente, são inúteis e com sérios custos ambientais associados às alterações climáticas.

Escrever sobre estas questões em espaços desta natureza terá alcance zero, mas continuo convencido que é fundamental não deixar cair a preocupação, talvez seja melhor chamar-lhe a indignação, com a pobreza e exclusão para as quais os níveis de desperdício dão um forte contributo.

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