terça-feira, 15 de novembro de 2011

ADOLESCENTES E CONSUMOS

Apesar dos dados hoje referidos no relatório anual do Observatório Europeu das Drogas e da Toxicodependência que apontam para que em termos europeus os consumos de cannabis e cocaína pareçam em regressão na idade entre 15 e 34 anos, em Julho, dados do Instituto da Droga e da Toxicodependência apontavam no sentido de se verificar um aumento preocupante do consumo de drogas duras por parte dos adolescentes e uma tendência de abaixamento do número de toxicodependentes.
Embora seja de saudar este abaixamento global do número de consumidores é importante estar atento à utilização das drogas duras e das drogas “novas” pelo efeito devastador e, sobretudo, pelo facto do aumento estar a envolver os mais novos.
Parece-me importante recordar que os estudos também referem que o consumo de álcool tem vindo a crescer alterando-se os padrões de consumo, beber na rua (é bastante mais barato, e o consumo excessivo e rápido (binge drinking). Este padrão tem vindo a ser sublinhado por diferentes estudos sobre os hábitos dos adolescentes e jovens portugueses, cerca de 80% dos jovens com 15 anos consomem álcool.
Este quadro torna verdadeiramente necessária uma política de prevenção, tratamento e combate ao tráfico eficaz e, tanto quanto possível, com os recursos necessários.
Há algum tempo foi noticiado que em virtude dos limites orçamentais o Instituto da Droga e da Toxicodependência iria prescindir dos serviços de algumas centenas de técnicos, psicólogos e assistentes sociais, que integravam as unidades de tratamento de proximidade com resultados conhecidos. O IDT procederá ainda ao encerramento de unidades de atendimento ao nível concelhio em vários locais do país levando os especialistas a referir as consequências negativas de tal decisão.
No que respeita ao álcool, como é sabido, a venda processa-se com a maior das facilidades e sem qualquer controlo da idade dos compradores. Muitos adolescentes, ouvidos em estudos nesta matéria, referem ainda a ausência de regulação dos pais sobre os gastos, sobre os consumos ou sobre as horas de entrada em casa, que muitas vezes tem que ser discreta e directa ao quarto devido ao “mau estado” do protagonista.
Existem áreas de problemas que afectam as comunidades em que os custos da intervenção são claramente sustentados pelas consequências da não intervenção, ou seja, não intervir ou intervir mal é sempre bastante mais caro que a intervenção correcta em tempo oportuno. A toxicodependência e o consumo do álcool são exemplos dessas áreas.
Quadros de dependência não tratados desenvolvem-se habitualmente, embora possam verificar-se excepções, numa espiral de consumo que exigem cada vez mais meios e promove mais dependência. Este trajecto potencia comportamentos de delinquência, alimenta o tráfico, reflecte-se nas estruturas familiares e de vizinhança, inibe desempenho profissional, promove exclusão e “guetização”. Este cenário implica por sua vez custos sociais altíssimos, persistentes e difíceis de contabilizar.
Face ao consumo de álcool pelos adolescentes, pode haver alguma negligência paternal mas, na maioria dos casos, trata-se de pais, que sabem o que se passa, “apenas fingem” não perceber desejando que o tempo “cure” porque se sentem tremendamente assustados, sem saber muito bem o que fazer e como lidar com a questão. De fora parece fácil produzir discursos sobre soluções, mas para os pais que estão “por dentro” a situação é muitas vezes sentida como maior que eles, justificando-se a criação de programas destinados a pais e aos adolescentes que minimizem o risco do consumo excessivo.
Costumo dizer em muitas ocasiões que se cuidar é caro façam as contas aos resultados do descuidar. Assim sendo, dificilmente se entendem algumas opções.

A TENTAÇÃO

Já por diversas vezes aqui tenho expresso a ideia de que boa parte dos responsáveis políticos desenvolvem a estranha convicção de que a realidade é a projecção dos seus desejos e não resistem à tentação de se enamorar por essa tentação, por assim dizer. Não é um fenómeno novo, antes pelo contrário, e os exemplos são múltiplos.
Na Assembleia da República, no âmbito da discussão na especialidade do Orçamento de Estado para 2012, tivemos mais dois notáveis exemplos.
O Ministro Álvaro Pereira afirmou que 2012 seria o ano do fim da crise. Anunciar o fim da crise parece estar a fazer escola entre os Ministros da Economia em Portugal, lembram-se certamente do mesmo anúncio realizado por Manuel Pinho em 2006. Temos bem presente o que tem acontecido entretanto. O Ministro Álvaro Pereira veio posteriormente corrigir o tiro afirmando que não afirmara o que toda a gente ouviu ser afirmado, dizendo que tinha dito que 2012 será o princípio do fim da crise, seja lá isso o que for. Esta fórmula ambígua e indefinível do "princípio do fim" de qualquer coisa, também já tinha sido utilizada por Passos Coelho na Universidade de Verão do PSD ao estabelecer que "2012 será o princípio do fim da emergência nacional".
Um outro exemplo notável desta visão do mundo foi dado pelo Secretário de Estado do Emprego que afirmou durante o debate que "o salário (mínimo) não é realmente baixo", isto mesmo, 485 € mensais não representam um salário baixo. A afirmação terá provocado uma gargalhada pelo que foi considerada uma piada, caso contrário teria de ser um insulto. Ninguém que conheça minimamente as dificuldades diárias, os custos acrescidos com aumento de impostos e implicações na inflação, pode entender como se (sobre)vive sem especial esforço com 485 € por mês.
Estas afirmações coexistem tranquilamente com o anúncio de mais dificuldades como desemprego e empobrecimento, o que é extraordinário.
Às lideranças, seja de que natureza forem, exige-se lucidez e realismo, é isso que lhes confere credibilidade e promove a confiança na sua capacidade de realização. Os discursos que não resistem à tentação de torcer a realidade que todos (quase) conhecemos e torná-la aquilo que se deseja que fosse são uma prova de mediocridade política.
Não é novo, mas é grave.

PODES CONTAR COMIGO. Outro diálogo improvável

Francisco, creio que mais uma vez se torna necessário termos uma conversa muito séria.
Sim pai, o que é agora?
Como muitas vezes te tenho dito, se na escola te comportares como deve ser, podes contar comigo.
Sim pai, já disseste.
Se te aplicas, trabalhas e os resultados aparecem, podes contar comigo.
Sim pai, também sei.
Se a tua mãe me diz que não és impertinente e discutes permanentemente o que ela te manda fazer, podes contar comigo.
Sim pai, também já me tinhas dito isso.
Se cumpres as tarefas que aqui em casa são da tua responsabilidade sem passares o tempo a pedir, eu até diria, mandar a tua irmã fazer o que te compete, podes contar comigo.
Agora como as coisas andam é que não pode ser.
Pai, quando tudo corre bem eu não preciso assim muito de contar contigo. Eu preciso de contar contigo é quando as coisas não estão bem. Quando estamos mal é que precisamos de contar com os outros, não é?
Sim, mas não é isso que eu quero dizer.
Então porque é que não dizes o que queres dizer. Só complicas.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O MEC VAI RESTAURAR A AUTORIDADE DOS PROFESSORES

A propósito das questões da indisciplina o Secretário de Estado do Ensino e Administração Escolar afirmou hoje, “Aqueles que são professores que saibam que nós lhes reconhecemos autoridade e que tudo faremos para que ela volte a estar na linha da frente ...". É interessante, é importante mas vindo do MEC poderá ser apenas mais um exemplo de discurso de conformidade, ou seja, está conforme o que se deseja ouvir, mas, em termos reais, corresponde a pouco.
A realidade não muda, para o melhor e para o pior, conforme a expressão dos desejos dos responsáveis do MEC, é mais complexa do que isso e não é permeável a desejos voluntaristas. No caso mais específico da indisciplina escolar, retomo algumas notas já por deixadas em textos anteriores.
Em primeiro lugar é importante clarificar o que está em causa. Permitir, por exemplo, que um telemóvel toque na sala de aula é indisciplina, insultar, humilhar, confrontar fisicamente uma professora é um comportamento pré-delinquente ou delinquente, donde, importa do meu ponto de vista, clarificar a análise.
A indisciplina escolar é matéria de competência da escola e matéria de responsabilidade de toda a comunidade, incluindo os pais, naturalmente, e todas as figuras com relevância social, por exemplo, não se riam, políticos e jogadores de futebol.
A pré-delinquência e delinquência entre crianças e jovens são um problema da comunidade de que a escola é PARTE da solução mas não é A solução.
O Estatuto do Aluno, cuja revisão o Secretário de Estado também prometeu, qualquer que seja, é um regulador, melhor ou pior, mas nunca A solução e, pela mesma razão, nunca será A causa da indisciplina. Daí a minha reserva face aos discursos do MEC.
Todas as figuras sociais a que se colam traços de autoridade por exemplo, pais, professores, médicos, polícias, idosos, etc., viram alterada a representação social sobre esses traços. Dito de outra maneira, o facto de ser velho, polícia, professor ou médico, já não basta, só por si, para inibir comportamentos de desrespeito.
Do anterior resulta que, falar da restauração da autoridade dos professores, tal como era percebida há décadas, é uma impossibilidade porque os tempos mudaram e não voltam para trás. Pela mesma razão, não se fala em restaurar a relação pais – filhos nos termos em que se processava antigamente e falar da "responsabilização" dos pais é interessante mas é outro nada.
Um professor ganha tanta mais autoridade quanto mais competente se sentir. A grande questão da avaliação dos professores deveria ser entendida como ferramenta do seu desenvolvimento profissional. É também importante reajustar a formação de professores. As escolas de formação de professores não podem “ensinar” só o que sabem ensinar, mas o que é necessário ser aprendido pelos novos professores e pelos professores em serviço. Problemas "novos" carecem também de abordagens "novas".
Um professor ganha tanta mais autoridade quanto mais apoiado se sentir. O MEC não pode desenvolver políticas que socialmente deixem o professor desapoiado embora agora afirme que vai restaurar a sua autoridade e promover a sua valorização social. As escolas devem poder usar a sua autonomia para desenvolver dispositivos de apoio, por exemplo, a existência de outros técnicos e a utilização regular de dois professores em sala de aula. Não é necessário aumentar o número de professores, é imprescindível que os recursos sejam geridos de outra maneira.
Escolas organizadas, com cultura institucional sólida traduzida na adequação e consistência dos seus projectos educativos e com lideranças eficazes são mais organizadoras dos comportamentos de quem nelas habita, como qualquer outra organização.
Os discursos demagógicos e populistas, ainda que bem intencionados, não são um bom serviço à minimização destes incidentes que minam a qualidade cívica da nossa vida.

PRECISAVA DE UMA "BAIXAZINHA"

O Bastonário da Ordem dos Médicos quer ver reformulado o actual sistema de baixas médicas. Esta intenção decorre, sinteticamente, de duas ordens de razões, a sobrecarga dos serviços com estes pedidos e a dificuldade que em alguns quadros clínicos o próprio médico terá em atestar a impossibilidade de trabalho. Aliás, verifica-se um elevado número de baixas médicas, naturalmente assinadas por clínicos, que são levantadas pelas juntas médicas. Este ano estão já contabilizados perto de 45 000 casos.
Todos nós a temos mais profunda consciência que a utilização da baixa é apenas mais um dos muitos "esquemas" em que vivemos mergulhados. A baixa permite o biscate que compõe orçamentos familiares, liberta uns diazinhos de descanso, etc., e, é bom que se diga, trata-se de um fenómeno que atravessa várias estratos sociais. Desde sempre me lembro de pessoas que toda a gente sabia estar de baixa e andavam nos biscates. Curiosamente, sendo pessoas que estavam a meter a mão no nosso bolso eram vistas pela vizinhança com indulgência e até mesmo com alguma admiração disfarçada. É um exemplo típico do xico-espertismo empreendedor, somos mal pagos, arranjamos uma “doençazinha” e andamos ao biscate.
Por outro lado, apesar da dificuldade dos clínicos na avaliação de sintomas eventualmente impeditivos de trabalho, também todos conhecemos casos, muitos casos, de baixa consciência deontológica, para ser simpático, de médicos que de forma leviana assinam baixas médicas com a maior das facilidades. Em muitos locais se conhecem uns "doutores" a quem recorrer para arranjar um "atestadinho".
Parece pois ajustada a alteração deste cenário. Temo que o processo passe pela criação de 27 comissões, 25 grupos de trabalho, 5 observatórios que, depois de concluídos os seus trabalhos, produzirão Relatórios com propostas que serão analisadas em 5 comissões e 14 grupos de trabalho interministeriais. Findo este processo, desencadear-se-ão iniciativas legislativas que correrão no Parlamento através do trabalho e acompanhamento das respectivas comissões especializadas.
Pois.

A ENVERGONHADA POBREZA QUE ENVERGONHA

A imprensa de ontem e hoje faz-se eco dos relatos de responsáveis por instituições de solidariedade social que referem, sem surpresa, o aumento da procura por ajuda.
Os responsáveis têm vindo a referir que, para além do aumento de pedidos, emergem de forma significativa os pedidos realizados por gente mais jovem e por pessoas com emprego. Relativamente aos mais jovens sabemos que este grupo etário é o mais afectado pelo desemprego e começa a ser urgente uma atenção muito sólida à degradação da qualidade do emprego, a causa próxima do risco de pobreza entre pessoas empregadas.
De facto, nos últimos tempos cresceram exponencialmente os casos do que se pode chamar de “pobreza envergonhada”, sobretudo devido a desemprego mas também devido à falta de qualidade do emprego, aumentos e perdas salariais. São pessoas que se julgavam a coberto deste tipo de riscos e que sentem um embaraço pessoal e social enorme para assumir as dificuldades porque passam.
Este cenário é absolutamente extraordinário. Para além das consequências óbvias das dificuldades ainda se torna necessário, como várias vezes aqui tenho referido, acautelar a dignidade das pessoas afectadas. De facto, umas das consequências menos quantificável das dificuldades económicas, sobretudo do desemprego, em particular o de longa duração e de situações em que o tempo obriga a perder o subsídio, é o roubo da dignidade às pessoas envolvidas. Sabemos que se verifica oportunismo e fraude no acesso aos apoios sociais, mas a esmagadora maioria das pessoas sentem a sua dignidade ameaçada quando está em causa a sobrevivência a que só se acede pela “mão estendida” que envergonha, exactamente por uma questão de dignidade roubada.
A questão da pobreza é um terreno que se presta a discursos fáceis de natureza populista e ou demagógica, sem dúvida. Mas também não tenho dúvidas de que os problemas gravíssimos de pobreza que perto de dois milhões de portugueses conhecem, exigem uma recentração de prioridades e políticas que não se vislumbra. Curiosamente, até da área política mais próxima do actual governo surgem críticas às opções que têm vindo a ser assumidas.
A envergonhada pobreza deveria envergonhar-nos a todos, a começar por quem lidera. A liderança que transforma é uma liderança com responsabilidade social e com sentido ético.

SÓ AS CRIANÇAS ADOPTADAS SÃO FELIZES

O Público de hoje aborda de novo a questão da adopção infantil em Portugal a propósito da realização em Lisboa de um congresso internacional dedicado a esta matéria.
Apesar de alguns dados positivos referidos no trabalho, ainda continuamos com uma elevada quantidade de crianças institucionalizadas, muitas das quais sem projectos de vida viáveis pese o empenho dos técnicos. Neste universo, acresce a dificuldade enorme de algumas crianças em ser adoptadas devido a situações como doença, deficiência, existência de irmãos ou uma idade já elevada. Assim, muitas crianças estarão mesmo condenadas a não ter uma família. Curiosamente, existem famílias interessadas na adopção de bebés que esperam até cinco anos porque entre os mais pequeninos passíveis de adopção, o número é menor, situação que se mantém, os candidatos à adopção preferem as crianças abaixo dos 3 anos.
Como é óbvio, um processo de adopção é algo cuja qualidade não pode em momento algum ser hipotecada e o Plano Nacional de Adopção zela por isso no sentido de evitar, por exemplo, processos de "devolução" de crianças em processo de adopção, situação altamente penalizadora para todos os envolvidos. No entanto, parece claro que o processo carece de agilização de modo a que os candidatos à adopção não desistam assustados com a morosidade.
Como repararão os mais atentos, sempre que aqui me refiro a este tipo de questões, julgo justificado umas notas sobre os contextos familiares das crianças.
Por estranho que possa parecer, existe uma outra realidade, menos perceptível em termos globais, mas conhecida por aqueles que lidam de mais perto com as crianças e que remete para a quantidade enorme de situações de crianças abandonadas e rejeitadas dentro das famílias, algumas destas famílias até com um funcionamento aparentemente normal.
Pode parecer surpreendente esta abordagem, mas muitas crianças vivem em famílias, diferentes tipos de família, que, por variadíssimas razões, as não desejam, as não amam, apenas as toleram, cuidam, pior ou melhor, sobretudo nos aspectos "logísticos". Em alguns casos, são mesmo crianças a que "não falta nada", dizem-nos. Na verdade falta-lhes o essencial, o abrigo de uma família.
Quando penso nestas situações lembro-me sempre de uma expressão que ouvi já há algum tempo a Laborinho Lúcio num dos encontros que tenho tido o privilégio de manter com ele.
Dizia Laborinho Lúcio que "só as crianças adoptadas são felizes, felizmente a maioria das crianças são adoptadas pelos seus pais”. Na verdade, muitas crianças não chegam a ser adoptadas pelos seus pais, crescem sós e abandonadas.
Existem mais crianças a viver narrativas desta natureza, abandonadas e ou rejeitadas dentro da família, do que se pode imaginar.

ESTOU AQUI MAS NÃO SOU EU

Está uma noite em que a trovoada e a chuva a bater nas janelas do sótão quase se sobrepõem à música ingénua e genuína que integra a colectânea Bachata Roja. Ao ouvir o tema de Juan Batista, “Estoy aqui pero no soy yo”, fiquei a pensar na curiosidade deste título, muito repetido como refrão.
Creio que todos nós já alguma vez pensámos qualquer coisa como, “estou aqui mas não sou eu”, certamente em circunstâncias diferentes mas sempre com a estranha sensação de dissonância.
É também o que se passa em algumas situações da vida dos mais novos.
De facto, assistimos, por vezes, a comportamentos, maus comportamentos, de alguns miúdos que apesar do que aparentam não correspondem ao que, na verdade os miúdos, alguns miúdos, pensam ou sentem.
Eles próprios conseguem mostrar, quando se cria a oportunidade, que não gostam e não desejam evidenciar esse tipo de comportamentos. Acontece que o desconforto e mal-estar que lhes rói a alma, os leva a assumir um personagem de que se alimentam, mal, e se alimenta do que fazem quando qualquer deles diz “estou aqui”. No entanto, no fundo “não sou eu”, não sou assim.
Alguns destes miúdos, se estivermos atentos e encontrarem escuta e apoio podem reverter o discurso para “sou eu e estou aqui”.

domingo, 13 de novembro de 2011

AS CRIANÇAS DESAPARECIDAS QUE ESTÃO À VISTA

A propósito do início do julgamento do caso relativo ao desaparecimento de Rui Pedro ocorrido há 13 anos, na altura a criança tinha 11, o Público de hoje apresenta um trabalho interessante sobre esta questão, as crianças desaparecidas. É importante sublinhar, tal como a peça refere, o enorme esforço que as autoridades nacionais e internacionais têm realizado no sentido de aumentar a eficácia na abordagem a situações desta natureza bem como, a maior atenção aos factores de risco de que a título de exemplo se cita a net e as redes sociais que não podendo, obviamente, ser diabolizadas, apresentam alguns riscos que não devem ser negligenciados.
Embora se saiba que muitos dos casos reportados de desaparecimento de crianças e adolescentes acabem por ter, por assim dizer, um final feliz, o desaparecimento é temporário, reactivo a incidentes ou a resultados escolares alguns transformam-se em tragédias sem fim como caso do Rui Pedro desaparecido há 13 anos.
Uma situação desta natureza é uma tragédia absolutamente devastadora numa família. Nós pais, não estamos "programados" para sobreviver aos nossos filhos, é quase "contra-natura". Se a este cenário acresce a ausência física de um corpo que, por um lado, testemunhe a tragédia da morte mas, simultaneamente, permita o desenvolvimento de um processo de luto, a elaboração da perda como referem os especialistas, que, tanto quanto possível, sustente alguma reparação e equilíbrio psicológico e afectivo na vida familiar a situação é de uma violência inimaginável.
No entanto e neste contexto, creio que vale a pena não esquecer a existência de muitas crianças que estão desaparecidas mas à vista, situações que por desatenção e menos carga dramática passam mais despercebidas.
Na verdade, existem muitíssimas crianças e jovens que vivem à beira de pais e professores para os quais passam completamente despercebidas, são as que eu chamo de crianças transparentes, olhamos para elas, através delas, como se não existissem. Não estando desaparecidas, estão abandonadas. Algumas delas não possuem ferramentas interiores para lidar com tal abandono e desaparecem, mantendo-se à nossa vista, no primeiro buraco que a vida lhes proporcionar, um ecrã, outros companheiros tão abandonados quanto eles, o consumo de algo que lhes faça companhia ou adrenalina de quem nada tem para perder.
Em boa parte das situações, por estes ninguém procura.
E eles perdem-se de vez.

sábado, 12 de novembro de 2011

O TEMPO DA AZEITONA

Como ontem vos falei do começo da lida da azeitona aqui no Meu Alentejo, deixem-me abusar mais um pouco e voltar ao tema.
A apanha da azeitona pelo método tradicional é coisa brava, vá que não estava muito frio, embora a ventaneira não ajudasse. Os braços estão moídos de varejar e carregar mas impressionante mesmo, é ver a resistência do Velho Marrafa, homem de setenta anos e que ainda tem a gentileza e generosidade de me deixar trabalhar com a vara mais leve.
O velho Marrafa tem um entendimento que eu não me atrevo a discutir sobre a apanha da azeitona aqui no monte, isto é, ao mesmo tempo que se apanha a azeitona procede-se à limpeza das oliveiras. O resultado é que me transformo num agricultor em apuros, estendem-se os panos, colhe-se a azeitona numa catártica actividade de varejamento, corta-se o que há a cortar nas árvores com a motosserra, ensaca-se e carrega-se no tractor. Depois lá vamos a caminho do lagar para a pesagem e entrega. Para depois ficará tratar da lenha sobrante.
O tempo de espera no lagar passa-se nas lérias, hoje até apareceu um bagaço que aqueceu a espera. Os temas de conversa vão surgindo mas quase sempre, não podia deixar de ser, andaram à volta dos enleio e das molengas em que a vida da gente se transformou e da pouca rentabilidade que tanto trabalho dá.
Poisei há pouco, e para além da indignação dos trabalhadores da administração pública em Lisboa, nem sei muito bem o que se passou pelo mundo.
Sei apenas que o corpo não se cala a pedir descanso e eu a ver se ainda consigo olhar para os jornais de hoje.
Só lá para o fim de Janeiro, quando voltar ao lagar para buscar o azeite, com o ambiente quentinho das enormes salamandras que impede o azeite de coalhar e o cheirinho inconfundível do azeite novo é que me vou esquecer das agruras da apanha da azeitona que, aliás, ainda não terminou.
Prometo não me queixar mais.

ORGULHO PORTUGUÊS

O Presidente Cavaco Silva em visita aos Estados Unidos tem referido frequentemente o seu objectivo de transmitir uma imagem positiva de Portugal, de mostrar o orgulho português e expressar a sua profunda convicção de que a luta é dura mas a vitória é nossa e certa, venceremos a crise.
As referências à nossa percepção de nós próprios, a tão falada auto-estima, são comuns e, quase sempre, expressam a ideia de que temos uma baixa auto-estima. Há alguns meses a imprensa referia um estudo realizado em 33 países cujos dados mostravam que “portugueses têm mesmo uma auto-estima baixa” pois estão em 30º lugar no orgulho que sentem pelo país. Por curiosidade, os australianos são os que mais orgulho sentem e atrás de nós no orgulho pátrio, apenas Brasil, África do Sul e Japão.
Lamento, mas tenho algumas reservas sobre os recorrentes discursos e sobre as conclusões retiradas deste tipo de trabalho.
O povo português é justamente considerado um génio no “desenrasca”, “dá-se sempre um jeito, não há-de ser nada”, é assim uma espécie de Macgyver, resolve tudo e, maravilha, com poucos recursos. Gente desta tem uma enorme confiança nas suas capacidades.
É um povo que vira histérico atrás do Scolari, lembram-se certamente, exalta o Cristiano Rónaldo, o melhor do mundo e tem o Professor Doutor José Mourinho, o special one, a treinar o Real Madrid. Este povo até se dá ao luxo de ignorar o desempenho em áreas como ciência e cultura de outros milhares de portugueses que estão dentro e fora do país, mas essas coisas da cultura ou da ciência são minudências irrelevantes.
Somos um povo que dá cabo dos recursos e da paisagem do país sempre confiante de que, assim, é que se promove desenvolvimento, área em que Cavaco Silva tem fortes responsabilidades pois “betonizou” o país. Um povo desta têmpera não é um povo com baixa auto-estima.
Não, definitivamente não, os portugueses, de uma forma geral, gostam de si, têm uma excelente impressão de si próprios.
Não gostam é de Portugal, o país é que não está à altura dos portugueses.
Daí a falta de orgulho na lusa pátria. Daí a preocupação de Cavaco Silva.

A GENEROSIDADE DAS OLIVEIRAS

Nos tempos crispados em que todos os dias somos envolvidos nas dificuldades que modelos de desenvolvimento e sistemas de valores que torceram a ética nos estão a criar, ainda sabe melhor chegar aqui, ao Meu Alentejo. Lembro-me até da moda da terra que diz "Quando um homem está sozinho no seu monte, bem no meio da natureza, escutando a água a entoar na fonte, é dono de uma riqueza".
Vai começar a lida da azeitona, o lagar da vila já abriu. Este ano, mercê de umas semanas sem chuva, parece-me que a apanha vai ser menor que as dos últimos dois anos que foram de bom rendimento. Vêem-se algumas boas borlas, como lhes chama o Velho Marrafa, mas por dentro as árvores não têm tanta azeitona.
Sempre que olho para as oliveiras, árvores que considero das mais bonitas, especialmente aquelas com muitos séculos e que já levam um tronco que dois homens não abraçam, admiro a sua generosidade.
Começam por dar as azeitonas que se comem em três variantes, pisadas, retalhadas e de conserva, qual delas a mais saborosa. Depois dão o azeite, a alma do comer bom, e como tem alma o azeite do Meu Alentejo.
Para além da azeitona e do azeite, a oliveira ainda é a mais calorosa da árvores, sempre a aquecer-nos. Aquece-nos quando maldosamente lhe batemos para nos dar a azeitona, aquece-nos quando a limpamos de pés de burro e cortamos os ramos e troncos para assegurar a sua renovação e ainda nos aquece quando nas noites longas de inverno arde no lume de chão ou na salamandra.
Finalmente, esta generosa capacidade de dar vive numa escala inacessível para nós, dura séculos.
São tão bonitas e generosas as oliveiras.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

ESTE PAÍS TEM QUE SER, TAMBÉM, PARA VELHOS

Provavelmente em contracorrente, parece-me de considerar o princípio de que os apoios sociais devem ser administrados em função da necessidade e não em função da idade.
No caso dos descontos nos passes sociais aplicado automaticamente a pessoas com mais de 65 anos ou abaixo de 23, haverá certamente situações de cidadãos que apesar de rendimentos razoáveis poderão aceder aos descontos apenas pelo factor idade o que, obviamente, será injusto e injustificável.
No entanto, e esta é do meu ponto de vista a grande questão, a nossa população mais velha vive de uma forma genérica em condições muito precárias como também sabemos que a população mais jovem é a mais exposta ao risco de pobreza para além dos velhos.
Os mais velhos começam por ser desconsiderados pelo sistema de segurança social que com pensões miseráveis, transforma os velhos em pobres, dependentes e envolvidos numa luta diária pela sobrevivência. Continua com um sistema de saúde que deixa muitos milhares de velhos dependentes de medicação e apoio sem médico de família. Em muitas circunstâncias, as famílias, seja pelos valores, seja pelas suas próprias dificuldades, não se constituem como um porto de abrigo, sendo parte significativa do problema e não da solução.
Segundo o INE e reportando-se a 2009 a taxa de risco de pobreza em Portugal continua alta, tendo subido na população idosa, 20.1 % deste grupo etário vive esta situação. Se considerarmos os efeitos conjugados das dificuldades económicas e dos cortes em políticas sociais de 2010 e 2011, esta taxa tenderá seguramente a subir.
É também pertinente relembrar que dados do Eurobarómetro sobre os impactos sociais da crise, mostravam em Junho de 2010 que os portugueses tinham como preocupação fundamental a pobreza, 91% dos inquiridos, e a velhice, 69% dos inquiridos.
Se olharmos para conjunto de dados que vão sendo disponibilizados, verifica-se que as condições estruturais se mantêm sem alterações, estamos na mesma posição de pobreza há vários anos e, por outro lado, as condições conjunturais, a crise, acentuam a preocupação com a pobreza e com a velhice o que define um cenário altamente inquietante em termos de confiança no futuro e na desejada e necessária qualidade de vida.
Temos vindo a assistir a um acréscimo de dificuldades das organizações de solidariedade social no providenciar de apoios às dificuldades crescentes da população, sobretudo à mais idosa, e retorna a mendicidade ou o bater à porta das instituições, porventura de forma mais envergonhada e a atingir camadas diferentes.
Neste cenário, todas as medidas que de alguma forma atinjam os mais velhos devem ser objecto de uma extrema reflexão no sentido de evitar que se acentuem as dificuldades no (sobre)viver de uma parte significativa da população portuguesa.

PERFILADOS DE MEDO

Os tempos lembram-me as palavras de Alexandre O'Neill, Perfilados de medo, na voz e na música de José Mário Branco. Acho que não é bom.

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

FIZERAM OS DIAS ASSIM. Será fatalidade?

Três notas retiradas da imprensa de hoje dão-nos um excelente retrato da nossa forma de funcionamento.
Sem a preocupação de ordenar, pode ler-se no Público que o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, repito, o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, afirma em entrevista que Isaltino Morais já deveria estar preso para cumprir a pena a que foi condenado e cuja sentença já transitou em julgado. Como não será de estranhar, o Dr. Isaltino não está preso e, muito provavelmente, não faz tenção de vir a estar.
Também no Público se informa que os gestores do antigo Hospital de Cascais, encerrado há dois anos, repito, encerrado há dois anos, continuam a receber os seus miseráveis vencimentos pois estão há dois anos a proceder à liquidação do património, sendo ainda que alguns técnicos estiveram e estão também nestas condições extraordinárias..
Uma terceira nota ainda para referir a primeira página do JN dedicada à existência de muitos alunos do ensino superior que conseguem aceder às bolsas de estudo com valor mais elevado, apesar de pertencerem a famílias com rendimentos anuais de centenas de milhares de euros.
Como é evidente, sem demagogia ou populismo, não existem sociedades perfeitas e imunes a situações desta natureza, a natureza e a obra humana, exactamente pela sua condição de humanas, são susceptíveis de fraqueza e imperfeição, tanto quanto são capazes de nos surpreender pela excelência.
O que me parece inquietante é que qualquer de nós, bate com os olhos numa destas noticias, engole um pensamento ou um comentário rápido e passa sem um sobressalto à próxima notícia, sobre a crise, por exemplo.

AS TATUAGENS

Hoje em dia é com relativa frequência que os mais novos, às vezes muito cedo, se deixam seduzir pela realização de tatuagens. Estes processos  inscrevem-se no processo de construção da sua identidade embora, não é raro, mais tarde possam sentir que a tatuagem realizada já não lhes corresponde. É também conhecida a dificuldade de remoção dessas tatuagens bem como a existência de alguns riscos no próprio processo.
É por isso com enorme preocupação que, para além das escolhas que alguns miúdos, adolescentes e jovens fazem das tatuagens que querem colocar, ainda se verifica com muita frequência a acção de tatuadores que, independentemente da vontade dos destinatários, colocam em muitos miúdos "tatuagens" nas quais constam inscrições como, "incapaz", "anormal", "distraído", "deficiente", "sem futuro", "não aprende nada", "não vai a lado nenhum", etc., sendo que a criatividade dos tatuadores potenciará as possibilidades e os limites deste processo.
Como é reconhecido, estas tatuagens inscrevem-se de tal forma na pele dos miúdos que estes muito dificilmente conseguirão libertar-se delas, são extraordinariamente visíveis.
Alguns ainda tentam alguma forma de remoção mas este processo de tatuagem é tão forte e eficaz que essa remoção é, por vezes, uma batalha perdida. Quase sempre acabam por se acomodar e funcionar de acordo com a inscrição tatuada com consequências importantes na construção dos seus projectos de vida.
Nesse sentido, é sempre de chamar atenção dos profissionais e da comunidade em geral para estas matérias de modo a evitar marcar os miúdos com tatuagens de que eles tarde ou nunca se libertarão.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

OS DONOS DA HISTÓRIA

Na nossa sociedade, estou a pensar sobretudo entre nós portugueses, embora seja um fenómeno universal, existem umas figuras de maior ou menor relevo que quando olham para si e falam de si se colocam numa posição de extraordinária importância e imprescindibilidade, são os donos da história, julgam-se os donos da história.
Dito de outra maneira entendem e acreditam que determinam, determinaram ou podem determinar o rumo do mundo.
Na verdade, em todas as épocas existiram figuras que efectivamente marcaram a história, para o melhor ou para o pior mas, de uma forma geral, essas figuras têm o pudor de não o referir e deixar isso para o julgamento do tempo.
Vem esta introdução a propósito da notícia no Público envolvendo um dono da história em Portugal, Otelo Saraiva de Carvalho, figura associada ao papel, importante sublinhe-se, desempenhado no processo desencadeado com o 25 de Abril de 1974 e nos anos seguintes. Entre outras afirmações sobre a actual situação reafirma a expressão que utilizou há algum tempo numa entrevistas, "se soubesse como o Pais ia ficar, não fazia a revolução". Notável.
Ele, Otelo, a quem só faltam dotes de adivinhador teria decidido um dia ao acordar "é pá, assim não faço a revolução, não insistam que para isto não faço a revolução pá, vou antes tomar uma bica, se quiserem a revolução peçam a outro que a faça" e pronto pá, a história era outra.
O auto-centrismo de Otelo não o deixa perceber que apesar de todas as dificuldades que atravessamos, algumas muito graves e a atingir muita gente, o país de 1973 é, sem sombra de dúvida, um país pior que o de 2011. Se olharmos para todos os indicadores de desenvolvimento as mudanças são claras embora, repito, não invalidem nem façam esquecer as dramáticas condições que hoje afectam muitos milhares de portugueses.
Este tipo de discursos lembra-me aquela história do megalómano que tinha como sonho último ser Deus, para poder ser o único a afirmar "até amanhã se eu quiser". Aliás, Otelo admite novo golpe militar em Portugal que até seria "mais fácil" de realizar, claro, ele sabe destas coisas.
O velho e saudoso Mário Sénico, companheiro de viagens já desaparecido, diria de forma mais simples, "ai de mim se não for eu".

TUDO SE VENDE, TUDO SE COMPRA, ATÉ AS PESSOAS

Continua a ser estranhamente frequente, demasiado frequente, o surgimento de notícias relativas a situações de escravatura para trabalhos agrícolas em explorações espanholas que envolvem cidadãos portugueses. No Público de hoje é referido mais um episódio.
Este universo, o tráfico de seres humanos é, do meu ponto de vista, uma das questões que maior embaraço pode causar em sociedades actuais, a escravatura, algo de improvável no séc. XXI em países da Europa Ocidental.
Parece difícil de entender, mas são recorrentes as referências às situações de dezenas de portugueses, de pessoas, que são sequestradas e colocadas a trabalhar em estruturas agrícolas em Espanha. Como em todas as situações desta natureza, as autoridades estimam que os casos conhecidos sejam em número bastante inferior ao que na verdade se verifica. Sabemos também como no mundo inteiro o tráfico de pessoas se constitui como uma das áreas de mercado mais rentáveis, designadamente, no caso de mulheres para o universo da prostituição.
No entanto, a escravatura para trabalho agrícola parece algo “fora do tempo” e de impossível existência nos nossos países. Mas existe, e é sério o problema que, como não podia deixar de ser, atinge os mais vulneráveis.
Este negócio, o tráfico de pessoas, um dos mais florescentes e rentáveis em termos mundiais, alimenta-se da vulnerabilidade social, da pobreza e da exclusão o que, como sempre, recoloca a imperiosa necessidade de repensar modelos de desenvolvimento económico que promovam, de facto, o combate à pobreza e, caso evidente em Portugal, às escandalosas assimetrias na distribuição da riqueza.
As circunstâncias que atravessamos potenciam o risco e a vulnerabilidade, aliás, há poucos dias referia-se na imprensa o aumento da prostituição envolvendo mulheres em extrema dificuldade para assegurar meios de subsistência familiar.
As pessoas, muitas pessoas, apenas possuem como bem, a sua própria pessoa e o mercado aproveita tudo, por isso, compra e vende as pessoas dando-lhe a utilidade que as circunstâncias, a idade, e as necessidades de "consumo" exigirem.
O que parece ainda mais inquietante é o manto de silêncio e negligência que cai sobre este drama tornando transparentes as situações, não as vemos.

OS CARREGOS DOS MIÚDOS

No DN de há alguns dias fazia-se referência a um estudo realizado pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, coordenado pelo Professor Mário Cordeiro e envolvendo umas centenas de alunos entre os seis e os 13 anos de uma escola de Lisboa, sobre o peso das suas mochilas. Em síntese, sete em cada dez miúdos transportavam mochilas com excesso de peso, acima de 10% do peso corporal da criança é considerado peso excessivo. Hoje o Público refere, para além do peso das mochilas, os erros de postura no tabalho escolar como fontes de problemas de saúde.
Como é óbvio esta constatação, pelas suas implicações e riscos, imediatos e a prazo, para a saúde dos miúdos, deveria exigir a atenção de pais e educadores no sentido de a minimizar, embora o seu transporte configure um exercício físico que disfarça a ausência de espaços e equipamentos adequados em muitas das nossas escolas e combata uma infância sedentarizada, a troco, é certo, de uma coluna castigada.
Aproveitando a preocupação com o peso da mochila e, já agora, com a organização dos seus conteúdos, tarefa a que muitos pais se dedicam ajudando, sobretudo os miúdos mais pequenos, gostava de chamar a atenção para um conteúdo que muitas vezes anda na mochila, que pode pesar muito e que, se não estivermos atentos, poderá passar despercebido.
Estou a referir-me aos medos que os muitos gaiatos transportam.
O medo de não ser capaz de aprender, o medo de não corresponder às expectativas, por vezes demasiado altas, dos pais, o medo das comparações com os outros, o medo das brincadeiras que adultos ansiosos lhes incutem, o medo induzido por discursos ligeiros sobre os riscos e perigos que espreitam por todo lado. O medo de futuro que não controlam e não antecipam. Entre outros.
Parece-me, por isso, que os adultos andarão bem se estiverem atentos ao que os miúdos carregam nas suas mochilas, para além e isso é importante, do peso dos inúmeros materiais. Muitas crianças e adolescentes sentem uma enorme dificuldade em lidar com os medos, sobretudo quando se sentem sós. Por vezes, acabam por se juntar a outros tão assustados quanto eles.
Quase nunca dá bom resultado.

O ENVOLVIMENTO PARENTAL NA ESCOLARIDADE DOS FILHOS. Um exemplo

O Público de hoje relata um caso de ajuda técnica de uma mãe de um aluno de 10 anos de uma escola de Chaves que durante um teste de Português, através da troca de SMS, o auxiliava nas respostas.
Esta situação, razoavelmente inovadora, é, do meu ponto de vista paradigmática a vários níveis.
Desde logo por se constituir um exemplo fortíssimo do tão desejado envolvimento parental na escolaridade dos filhos, acho absolutamente notável. Esta mãe está a fazer história.
Em segundo lugar e mais a sério, episódios deste tipo ajudam-nos a compreender a desregulação de comportamentos e princípios em alguns contextos educativos. Não será, assim, estranho, que os miúdos assumam com naturalidade atitudes e comportamentos menos ajustados.
No que diz mais directamente respeito à fraude no universo escolar recordo algumas notas já aqui deixadas.
O Centro de Estudos Sociais da Faculdade Economia da U. de Coimbra está a desenvolver um estudo nacional sobre a questão da fraude académica. Nos dados preliminares surge um indicador de que 37.6% dos inquiridos aceita a fraude desde que “não prejudique ninguém”. A este dado, ainda que preliminar, pode acrescentar-se um estudo da Universidade do Minho há tempos divulgado referindo que as situações de “copianço” envolvem três em cada quatro estudantes.
Também há algum tempo, a propósito do acréscimo das situações de plágio que se verificam em todos os níveis de ensino, do básico à formação pós-graduada, doutoramentos incluídos, bem como artigos científicos, me referi à natureza da relação ética que estabelecemos com o conhecimento e que os alunos replicam. Aliás, no estudo da U. do Minho, dos alunos que admitem copiar, 90% afirmam fazê-lo desde sempre. Reparem que no exemplo de hoje estamos a falar de um aluno do 5º ano.
O conhecimento é entendido como algo que se deve mostrar para justificar nota ou estatuto, não para efectivamente deter, ou seja, importante mesmo é que a nota dê para passar, que o curso se finalize, que a tese fique feita e se seja doutorado ou que se possa acrescentar mais um artigo à produção científica num mundo altamente competitivo. Que tudo isto possa acontecer à custa da manhosice, do desenrasca mais ou menos sofisticado, são minudências com as quais não podemos perder tempo.
No entanto, é bom termos consciência que esta questão não é um exclusivo nosso, a experiência mostra isso com clareza. De qualquer forma, não deixa de ser uma preocupação e justifica que as escolas, do básico ao superior, se envolvam nesta tentativa de construção de relação com o conhecimento mais sólida em termos éticos.
O caminho passa pelo estabelecimento obrigatório de códigos de conduta com implicações sancionatórias severas e com uma atitude formativa e preventiva durante as aulas.
O trabalho será sempre difícil pois o contexto global ao nível dos valores e da ética dos comportamentos e funcionamento social é, só por si, um caldo de cultura onde o copianço e o plágio, por vezes, não passam de "peanuts", é a cultura do desenrascanço, não importa como.

O AJUDADOR

Um dia destes, num jornal televisivo ouvi alguém, num país africano de língua portuguesa, que se referiu a outro alguém que tinha falecido como sendo um ajudador, no sentido, claro, de que era alguém sempre preocupado com os outros e disponível para as suas necessidades.
Como gosto muito das palavras, de quase todas as palavras, achei também esta muito bonita sendo, para mim, desconhecida, aliás, no meu corrector é sinalizada como erro. Depois de uma rápida pesquisa verifiquei a sua existência e aí surpreendi-me pela sua pouca utilização.
De facto é um termo muito curioso. Dá para imaginar alguém a ser inquirido quanto à sua profissão e responder, “sou ajudador”, deve ser uma profissão muito interessante e obviamente necessária, muito necessária.
É certo que muito provavelmente, todos nós conhecemos, felizmente, alguns ajudadores, pessoas que estão à nossa beira e que, às vezes sem darem por isso, nos ajudam, estão atentas e, de diferentes maneiras, são os nossos ajudadores.
A referência ao ajudador lembrou-me um outro termo também pouco conhecido e desusado, o ouvidor, alguém que ouve, que escuta.
Na verdade, em tempos marcados pela conectividade, estamos sempre “ligados”, marcados pelas redes sociais, nem sempre as pessoas, miúdos por exemplo, têm ouvidores, quem as oiça, quem as escute.
Talvez fosse de reflectir sobre a dimensão ajudadora e ouvidora do nosso funcionamento.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A TOLERÂNCIA INTOLERÁVEL

A administração das designadas tolerâncias de ponto sempre foi uma excelente ferramenta de acção política, razão pela qual a tradição em Portugal sempre foi de alguma generosidade nessa matéria bem recebida, aliás, pela natureza da relação ética que muitos de nós estabelecemos com o trabalho.
A decisão de conceder hoje tolerância de ponto à administração central e em empresas públicas inscreve-se nessa acção política, nada como um tempinho de férias extra em tempos de crispação e dificuldade.
Bem podem os economistas chamar a atenção para a necessidade de produtividade e para o custo económico das tolerâncias de ponto ou o facto de o sector privado se manter a trabalhar bem como algumas autarquias que recusam a “benesse”.
A questão não tem nada ver com economia, tem a ver com política, pura e dura. Nunca nenhum governo geriu este processo de outra forma que não a busca de uns dividendos políticos graças à simpatia, por assim dizer, com que nós os portugueses olhamos os dias de descanso extra que nos são oferecidos.
Considerando os tempos conturbados que atravessa e a manhosice política de Alberto João, não surpreende que este tenha decido a atribuição de tolerância de ponto aos funcionários da administração regional, boa parte da população activa da Madeira é bom recordar, para assistirem pela televisão a algo de absolutamente transcendente e imperdível, a tomada de posse de um Governo Regional que, numa situação completamente inédita e inesperada, vai ser chefiado por, imaginem, Alberto João Jardim, “himself”.
A decisão não é obviamente uma surpresa, mas sublinha pela enésima vez a matéria de que é feita a política, esta política, a política pequenina do Portugal dos pequeninos.
Na verdade, mais do que tolerância de ponto, é necessária tolerância de espírito para esta choldra, como dizia Eça. Não há saco.

AS FACES OCULTAS. Até quando?

À medida que desfila aos nossos olhos o país político, o país social, o país económico, não consigo descrever com exactidão que sentimento me passa pela cabeça, vergonha, tristeza, revolta, indignação, indiferença resignada, etc. Provavelmente um pouco de tudo isto. Já não nos conseguimos surpreender com o que todos os dias nos entra em casa.
Do meu ponto de vista, já o tenho referido, a partidocracia que se instalou em Portugal levando a que os partidos, através dos respectivos aparelhos e consoante o calendário tomassem conta do país, minou dramaticamente a estrutura ética de uma democracia que estava ainda em maturação. A agenda dos partidos e os respectivos interesses, institucionais ou pessoais, sobrepõem-se despudoradamente ao bem comum.
Tal cenário não parece facilmente modificável pois, obviamente, os partidos capturaram o quadro normativo que regula a actividade política e, por isso, sendo parte do problema dificilmente serão parte da solução. Veja-se por exemplo a permanente e consistente falta de vontade política de promover o combate à corrupção.
Os sucessivos casos que têm vindo a público, de que o processo designado Face Oculta que hoje vai a julgamento é um bom exemplo, serão a face visível de tudo isto. As faces ocultas, muitas mais do que as conhecidas, permanecerão isso mesmo, ocultas, mas com muitos rabos de fora em todos os patamares e áreas da nossa sociedade.
Oiço os politólogos, espécie em proliferação e já quase praga que se juntou aos tudólogos, perorarem sobre o mal-estar da democracia de vários ângulos e com análises sempre muito interessantes mas sempre, do meu ponto de vista, ao lado, como se costuma dizer. Seria necessário um movimento forte da sociedade não alinhada nos aparelhos partidários a exigir mudanças e compromissos éticos às lideranças. É necessário uma militância activa no combate à partidocracia, denunciando, exigindo responsabilidades, a abstenção não chega. A imprensa teria aqui um papel fundamental, se parte dela não tivesse parte dela também um compromisso mais ou menos evidente com as agendas partidárias.
Quando penso que tudo isto já bateu no fundo, surge algo ainda pior. Até quando?

OS SILÊNCIOS RUIDOSOS

Existem muitos miúdos e adolescentes que passam boa parte da sua vida sitiados pelo silêncio. Paradoxalmente, muitas vezes os silêncios que rodeiam os miúdos são ensurdecedores, feitos de gritos e de falas sobre eles, não de falas com eles.
Para se fazer ouvir precisam de gritar ainda mais alto, agitar-se de forma ainda mais barulhenta ou, pelo contrário, calam-se e então é o seu silêncio que se torna insuportavelmente ruidoso.
Talvez não fosse má ideia, falar mais tempo com eles para diminuir os silêncios, falar um pouco mais baixo para diminuir o ruído.
Acho que se assim não fizermos, um mundo continuará cada vez mais ruidoso e as pessoas cada vez mais caladas.
É verdade que temos sempre as redes sociais, mas aí o ruído é ainda maior, digo eu em certamente despropositada consideração. Reparem quanto silêncios se esconderão por detrás do que lá se "fala" com os amigos, centenas de amigos.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

OS PILHA-GALINHAS

Quando nos começávamos a habituar ao roubo a sério, aos muitos milhões, protagonizado por gente "séria", administradores, políticos ou gestores, por exemplo, está em recuperação de novo um país de pilha galinhas, o do pequeno roubo.
O Público refere o exemplo extraordinário da Dona Filomena, moça dada às artes da burla.
Ao que dizem, é genial, leva para cima de 300 crimes tudo coisa de pouca monta, umas noites de pensão não pagas porque o corpo precisa de descansar, os abastecimentos de combustível e a respectiva "banhada" porque a Dona Filomena precisa de dar as suas voltas e a gasolina anda pela hora da morte, etc.
As pessoas que conhecem a Dona Filomena são unânimes na apreciação das "qualidades", dá sempre a volta às coisa, consegue tudo e ainda por cima ... não paga.
Estando nós mais habituados a uma actividade nesta área realizada na escala dos milhões, muitos, que voam da banca, de empresas em falências fraudulentas, em comissões mal explicadas, em inconsequentes derrapagens financeiras nas obras públicas sendo ainda que tudo isto se passa na maior das impunidades é, devo dizer, com algum constrangimento que soube da prisão da Dona Filomena enquanto os seus colegas de actividade mas noutra dimensão se passeiam por aí dedicando-se à sua lucrativa arte. À sitação da Dona Filomena pode juntar-se o caso, também referido no Público, do sem-abrigo que vai a julgamento pelo furto de seis chocolates num supermercado.
Deixámos de ser um país de pilha-galinhas mas, desculpem o desabafo, tenho alguma adolescente e romântica simpatia pelos pilha-galinhas.

O INFERNO NA SALA DE AULA

Seguindo uma "moda" em vigor, aparecem hoje na imprensa mais umas imagens de comportamentos filmados em sala de aula e divulgados através dos meios do costume, o YouTube. As imagens não acrescentam ao que se conhece do funcionamento de algumas salas de aula em algumas escolas. Mais uma vez, creio que se justificam algumas notas, necessariamente breves, sobre este (às vezes) pesadíssimo universo, a sala de aula, e os comportamentos desajustados.
Permitir, por exemplo, que um telemóvel toque na sala de aula é indisciplina, insultar, humilhar, confrontar fisicamente uma professora é um comportamento pré-delinquente ou delinquente, donde importa, do meu ponto de vista, clarificar a análise. Por isso anda mal o Ministro Nuno Crato ao falar apressadamente de indiscplina e vejamos porquê.
A indisciplina escolar é matéria de competência da escola e matéria de responsabilidade de toda a comunidade, incluindo os pais, naturalmente, e todas as figuras com relevância social, por exemplo, não se riam, políticos e jogadores de futebol.
A pré-delinquência e delinquência entre crianças e jovens são um problema da comunidade de que a escola é PARTE da solução mas não A solução.
O Estatuto do Aluno, qualquer que seja, é um regulador, melhor ou pior, mas nunca A solução e, pela mesma razão, nunca A causa.
Todas as figuras sociais a que se colam traços de autoridade por exemplo, pais, professores, médicos, polícias, idosos, etc. viram alterada a representação social sobre esses traços. Dito de outra maneira, o facto de ser velho, polícia, professor ou médico, já não basta, só por si, para inibir comportamentos de desrespeito.
Do anterior resulta que, falar da restauração da autoridade dos professores, tal como era percebida há décadas, é uma impossibilidade porque os tempos mudaram e não voltam para trás. Pela mesma razão, não se fala em restaurar a relação pais – filhos nos termos em que se processava antigamente.
Uma professor ganha tanta mais autoridade quanto mais competente se sentir. A grande questão da avaliação dos professores deveria ser entendida como ferramenta do seu desenvolvimento profissional. É também importante reajustar a formação de professores. As escolas de formação de professores não podem “ensinar” só o que sabem ensinar, mas o que é necessário ser aprendido pelos novos professores e pelos professores em serviço. Problemas "novos" carecem também de abordagens "novas".
Um professor ganha tanta mais autoridade quanto mais apoiado se sentir. O MEC não pode desenvolver políticas que socialmente deixem o professor desapoiado. As escolas devem poder usar a sua autonomia para desenvolver dispositivos de apoio, por exemplo, a existência de outros técnicos e a utilização regular de dois professores em sala de aula. Não é necessário aumentar o número de professores, é imprescindível que os recursos sejam geridos de outra maneira.
Escolas organizadas, com cultura institucional sólida traduzida na adequação e consistência dos seus projectos educativos e com lideranças eficazes são mais organizadoras dos comportamentos de quem nelas habita, como qualquer outra organização.
Os discursos demagógicos e populistas não são um bom serviço à minimização destes incidentes que minam a qualidade cívica da nossa vida.

A HISTÓRIA DO RAPAZ QUE NÃO ERA ESPERTO

O Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, ia passando pelo pátio da escola e reparou que o David, um rapaz já repetente no 5º ano, estava só, sentado num banco e de ar triste.
Olá David, estás zangado com os teus colegas? Por aqui sozinho, não é habitual.
Olá Velho, o que é uma pessoa esperta?
Porque perguntas isso?
Diz lá Velho, o que é uma pessoa esperta?
Bom, uma pessoa esperta é alguém que aprende e é capaz de fazer coisas e também ...
Velho, eu já aprendi muitas coisas e sei fazer também muitas coisas, não achas?
Claro que sim, mas porque perguntas isso?
Muitas pessoas dizem que eu não sou esperto, mas eu acho que sou porque aprendi e sei fazer muitas coisas.
David, pode acontecer que quando as pessoas dizem isso, estejam a referir-se ao facto de outros colegas teus terem já aprendido mais algumas coisas, mas claro que tu és um rapaz esperto.
Velho, tu achas que toda a gente sabe as mesmas coisas?
Claro que não David, é normal, as pessoas são todas muito diferentes.
Então se as pessoas são todas diferentes e não sabem todas o mesmo, porque é que só eu é que não sou esperto?
Vamos lá ver ...
Não percebo Velho, deve ser por isso que não sou esperto.

domingo, 6 de novembro de 2011

OLHEM QUE EXISTEM MIÚDOS COM FOME. A sério.

O Presidente da República, desta vez sem recorrer ao Facebook, referiu-se hoje aos "tempos insuportáveis" que estamos e vamos atravessar, referindo especificamente "insuficiência alimentar", (creio que isto quer dizer fome). Não certamente por coincidência, alguma imprensa de hoje refere a constatação por parte de vários responsáveis de escolas de que está a subir claramente o número de crianças e adolescentes que chega à escola com carências alimentares óbvias e significativas situação à qual, mercê dos seus limitados orçamentos e escassez dos recursos dos apoios sociais escolares, têm dificuldade em responder.
Não quero maçar-vos, mas este cenário leva-me a retomar notas antigas.
Há algum tempo atrás um estudo do ISEG apontava para que cerca de 40% das crianças e adolescentes vivessem em situação de pobreza, sendo que esse quadro de privação afecta sobretudo os padrões e a qualidade da alimentação. O estudo sublinhava também, entre ouros indicadores, que o grupo etário 0-17 anos é o mais vulnerável ao risco de pobreza tendo ultrapassado o dos mais velhos.
Sabe-se também que para além do desemprego existem milhares de pessoas que apesar de terem trabalho vivem encostadas ao limiar e pobreza.
Por outro lado, relembro um estudo de há uns meses realizado pelo I junto das autarquias dos distritos de Lisboa, Porto, Setúbal, Coimbra e Faro que revelou que quase metade dos alunos da educação pré-escolar e do 1º ciclo recebe apoios sociais sendo que em alguns concelhos a percentagem de crianças carenciadas atinge os 65%, número verdadeiramente impressionante. Acresce que em muitos concelhos a maioria das crianças apoiadas integram o escalão A dos apoios, o que se destina aos agregados com rendimentos mas baixos e ainda o ajustamento que se verificou, para baixo, nas prestações dos apoios sociais escolares.
Estes indicadores sobre as dificuldades que afectam a população mais nova são algo de assustador. Esta realidade não pode deixar de colocar um fortíssimo risco no que respeita ao desenvolvimento e sucesso educativo destes miúdos e adolescentes e portanto, à construção de projectos de vida bem sucedidos. Como é óbvio, em situações limite como a carência alimentar, estaremos certamente em presença de outras dimensões de vulnerabilidade que concorrerão para futuros preocupantes.
É por questões desta natureza que a contenção das despesas do estado, imprescindível, como sabemos, deveria ser feita com critérios de natureza sectorial e não de uma forma cega e apressada, naturalmente mais fácil, mas que, entre outras consequências, poderá empurrar milhares de crianças para situações de fragilidade e risco com implicações muito sérias.
Relembro a história que já aqui contei e que me aconteceu há uns anos em Inhambane, Moçambique, quando ao passar por uma escola para gaiatos pequenos o Velho Bata me dizer que se mandasse traria um camião de batata-doce para aquela escola. Perante a minha estranheza explicou que aqueles miúdos teriam de comer até se rir, “só aprende quem se ri”, rematou o Velho Bata.
Pois é Velho, putos com fome não aprendem e vão continuar pobres.

sábado, 5 de novembro de 2011

UMA MÁ FAMÍLIA, UMA BOA SEPARAÇÃO, UMA SEPARAÇÃO CONFLITUOSA. E os miúdos?

No Público de hoje, a propósito da Conferência sobre o Superior Interesse da Criança (em nome do qual se faz tudo e nada), aborda-se a questão do impacto que pode assumir nas crianças a separação conflituosa dos pais, dando especial relevo ao entendimento do Professor Emílio Salgueiro, um homem sério e genuinamente interessado no supremo interesse da criança. É de leitura recomendada.
A família, enquanto instituição, tem passado nos últimos anos por alterações em diferentes aspectos designadamente nos modelos de organização e prevalência desses modelos. Uma das alterações mais significativas é o aumento das situações de divórcio que, nem sempre, ocorrem de forma serena e tranquila.
De facto, com alguma frequência podem emergir nos adultos, ou num deles, situações de sofrimento, dor e/ou raiva, que “exigem” reparação e ajuda. Muitos pais lidam sós com estes sentimentos pelo que os filhos surgem frequentemente como “tudo o que ficou” e o que “não posso e tenho medo de também perder”. Poderemos assistir então a comportamentos de diabolização da figura do outro progenitor, manipulação das crianças tentando comprá-las (o seu afecto), ou, mais pesado, a utilização dos filhos como forma de agredir o outro.
Nestes cenários mais graves podem emergir quadros do chamado Síndrome de Alienação Parental que, apesar de alguma prudência requerida na sua análise, são susceptíveis de causar graves transtornos nas crianças, daí, naturalmente, a necessidade de suporte e ajuda. É obviamente imprescindível proteger o bem-estar das crianças mas não devemos esquecer que, em muitos casos, existem também adultos em enorme sofrimento e que a sua condenação, sem mais, não será seguramente a melhor forma de os ajudar. Ajudando-os, os miúdos serão ajudados. Quero por fim sublinhar que, por princípio, prefiro uma boa separação a uma má família.
Uma nota final que me parece positiva. À solicitação de desenhar a sua família, esta criança de seis anos desenha as suas duas famílias. Se repararmos bem, as duas famílias têm um Solzinho que as ilumina e aconchega. É o (quase) tudo que as crianças precisam.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

NÃO MEXAM MUITO NAS AUTARQUIAS, CUIDADO COM OS VOTOS

Lamentavelmente, parece que só a crise veio obrigar-nos a pensar na forma como o estado, aos seus diversos níveis e estruturas, se organiza para assumir as suas enormes competências e atribuições. Todos temos consciência do gigantismo da administração, da forma como esta é usada pelos aparelhos partidários, da irracionalidade de muitos dos modelos de organização e funcionamento e, sobretudo, dos enormes custos e níveis de desperdício envolvidos. Agora, com o clima económico em alerta vermelho tudo parece ser objecto de cortes e tentativas de poupança. A mais recente notícia vem da ideia em estudo da Câmara de Lisboa de encerrar parte dos seus serviços um dia por semana. Estará em avaliação o impacto financeiro da medida, para que o executivo municipal possa decidir, ou não, nesse sentido. Já agora, talvez fosse de incluir no estudo a análise do impacto para os munícipes.
Por outro lado, sabe-se que as autarquias são grandes empregadores sendo que em muitos concelhos serão mesmo o principal empregador. Modelos de desenvolvimento que levaram ao abando da agricultura, promoveram a desertificação e um movimento fortíssimo de litoralização levaram a que em muitas zonas as oportunidades de emprego escasseassem. Nessas circunstâncias, as autarquias assumiram uma espécie de programa social assegurando empregos que, naturalmente, não eram justificados pelas necessidades das câmaras e que se juntavam aos criados pelas necessidades das clientelas partidárias. Tudo isto assume ainda um resultado colateral, positivo, constitui um bom contributo para a contabilidade eleitoral pois, quer as admissões, quer a manutenção do emprego não estão, obviamente, fora da gestão dos interesses partidários presentes, muito presentes, na vida autárquica e este é um cenário de toda a administração autárquica.
Lembro-me com frequência de ter assistido numa praça de uma vila do interior a um espectáculo muito curioso e elucidativo da gestão da coisa pública. Um funcionário recolhia diligentemente as ervas que cresciam entre as pedras da calçada. Colocava as ervas colhidas num balde junto do qual aguardava um outro funcionário que, quando finalmente (era demorado) o balde estava cheio, o despejava para um veículo de transporte que perto e a trabalhar permanentemente, tinha o condutor sentado ao volante. Sintetizando, três funcionários, em simultâneo, desenvolviam uma actividade que seria um exemplo notável do que não deve acontecer em matéria de gestão e eficácia.
Mesmo em zonas urbanas e de grande densidade demográfica o desperdício e ineficácia são significativos. Na zona onde moro, Almada, assisto a situações quase anedóticas não fora estar o dinheiro dos contribuintes em jogo. Neste contexto, mais do que medidas como encerrar os serviços um dia por semana, importaria racionalizar a organização e procedimentos, eliminar estruturas e serviços que se atropelam e justificam a sua existência dando cabo da paciência do cidadão, alocar recursos humanos e meios de forma diferenciada consoante as necessidades etc., etc.
Temo, no entanto, que muito do que se vai fazendo e anunciando acabe por não tocar nas questões de fundo do poder autárquico, e assente, sobretudo, em cortes cegos nos recursos humanos e nos orçamentos, com impactos severos na área da educação, por exemplo, ou ainda em medidas de cosmética sem impacto significativo.

PSICOLOGIA E OUTSOURCING

O Paulo Guinote no seu A Educação do Meu Umbigo coloca uma referência a uma prática do MEC a que aqui já me tenho referido e que parece de retomar.
De há uns tempos para cá o Ministério tem permitido que as escolas contratem a prestação de serviços educativos a realizar aos seus alunos, a empresas, naturalmente, exteriores à escola que, aliás, têm florescido. Estes serviços envolvem trabalho de psicólogos bem como de outros técnicos, por exemplo terapeutas, e desempenham funções em diferentes áreas de trabalho da escola. No texto de Paulo Guinote refere-se o envolvimento do trabalho de psicólogos com turmas dos Curso de Educação Formação mas verificam-se também intervenções em outsourcing na área dos apoios educativos. A aquisição destes serviços, ao abrigo de Programas Operacionais, visa conseguir, cito de um exemplo, “mudanças comportamentais dos alunos”, “melhoria de atitudes face às tarefas escolares”, pretendendo-se o “sucesso educativo”. É delirante.
Não quero, nem devo, discutir aqui a natureza específica, quer em termos de adequação, quer de qualidade da intervenção dos técnicos, designadamente na área da psicologia. A minha questão é o modelo que a suporta e que me parece completamente errado, sendo mais uma entrega de serviço público aos mercados.
Como é que se pode esperar que alguém de fora da escola, fora da equipa, técnica e docente, fora dos circuitos e processos de envolvimento, planeamento e intervenção desenvolva um trabalho consistente, integrado e bem sucedido com os alunos e demais elementos da escola?
Das duas uma, ou se entende que os psicólogos sobretudo, mas não só, os que possuem formação na área da psicologia da educação podem ser úteis nas escolas como suporte a dificuldades de alunos, professores e pais, não substituindo ninguém, mas providenciando contributos específicos para os processos educativos e, portanto, devem fazer parte das equipas das escolas, base evidentemente necessária ao sucesso da sua intervenção, ou então, existe quem assim pense no próprio MEC (veja-se o atraso na colocação dos poucos que o sistema tem), os psicólogos não servem para coisa nenhuma, só atrapalham e, portanto, não são necessários.
A situação aceite e promovida pelo MEC parece-me, no mínimo, um enorme equívoco, que, além de correr sérios riscos de eficácia e ser um, mais um, desperdício (apesar do empenho e competência que os técnicos possam emprestar à sua intervenção), tem ainda o efeito colateral de alimentar uma percepção errada do trabalho dos psicólogos nas escolas.
No entanto, a reflexão sobre este trabalho merecia um outro espaço e oportunidade.
Apenas a nota final de que psicologia da educação, “outsourcing” e qualidade não me parecem ideias compatíveis.

NO MEIO DA TROVOADA

A lida de hoje permitiu-me uma corrida no Parque da Paz mesmo no final do dia, aproveitando a última claridade.
Mal comecei, o céu abriu-se e zangou-se, anda tudo zangado, o céu também. A chuva era forte e instalou-se uma trovoada das antigas. Como a gente dizia em miúdos, não é que tenha medo, é respeito. Afastei-me da zona com mais árvores e por lá andei uma hora com a água a cair bem, impressionado com os efeitos especiais dos relâmpagos e a banda sonora dos trovões que não estavam longe.
No passo rapidíssimo que me caracteriza, ia pensando como é complicada a vida no meio da trovoada. E já repararam como muita gente vive no meio da trovoada?
Muitos miúdos têm à sua volta tanta trovoada, tão barulhenta, e tanta ventania que se agitam e precisam de gritar mais alto que a trovoada para se fazerem ouvir e notar.
É também grande a tempestade que se abate sobre milhares de famílias com dificuldades fortíssimas para assegurarem, quando asseguram, patamares mínimos de qualidade de vida. Não existe pára-raios que as proteja.
É ainda a trovoada da desesperança sobre o nada que há-de vir continuar o nada que já chegou.
Sorte a minha, a esta hora já não oiço a trovoada e estou em frente ao computador a amanhar esta história ao som de Cymande.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

NÃO DESESPERE

É azar. Parece que coube ao Dr. Isaltino servir de “prova” de que a justiça funciona no Portugal dos Pequeninos. Mas ele que não desespere. O Tribunal Constitucional recusou o recurso do Dr. Isaltino pelo que, dizem alguns, a detenção já decidida consumar-se-á. No entanto, uma vez que existem ainda outros recursos pendentes e o processo tem-se desenrolado através de uma série de manobras, recursos e outros expedientes que o nosso sistema de justiça tão minuciosa e eficazmente tem desenhado para quem dele se sabe aproveitar o possa fazer em seu benefício, pode acontecer, dizem outros, que a coisa se prolongue mais uns tempos até à prescrição final.
Eu continuo convencido de que o caso virá a morrer por morte morrida, para usar as palavras de João Cabral de Melo Neto, ou seja, cairá por esgotamento. Assim, o Dr. Isaltino poderá ter uma reforma tranquila com a herança que receberá do sobrinho que tem na Suíça e os trocos miseráveis resultantes de uma vida dedicada à causa pública.
No meio do azar, coitado, até teve sorte, felizmente amealhou um bom pé de meia que nos tempos que correm não é coisa pouca.
A nós só nos calha o azar de ver como anda o Portugal dos Pequeninos.

HUMILHAÇÃO NÃO RIMA COM INTEGRAÇÃO. Embora pareça

O BE vai apresentar na Assembleia da República um projecto de normativo incentive o combate às praxes violentas. Esta questão, as praxes, mercê de alguns episódios de excessos que chegam à imprensa e de muitos outros apenas conhecidos nas respectivas comunidades académicas tem vindo a sofrer alguma discussão já fora do contexto académico. Já me referi aqui no Atenta Inquietude a esta questão e hoje retomo algumas notas.
Não sei se em resultado de alguns episódios lamentáveis, até com consequências graves do ponto de vista físico o que levou alguns estabelecimentos a "desencorajar" ou mesmo proibiras praxes, se em resultado das escolhas dos próprios estudantes ou em resultado dos esforços do MATA (Movimento Anti-Tradição Académica), parece que as “actividades” de praxe este ano estarão mais brandas do que em anos anteriores. Fico satisfeito, sobretudo se corresponder a decisões assumidas pelos estudantes no seu conjunto e não fruto de ameaças ou determinações da tutela ou da direcção das diferentes escolas, estamos a falar de gente crescida e, espera-se, auto-determinada.
Devo confessar que no universo das praxes académicas pouca coisa me pode surpreender. De forma aparentemente tranquila coexistem genuínas intenções de convivialidade, tradição e vida académica com boçalidade, humilhação e violência sobre o outro, no caso o caloiro.
Apesar dos discursos dos seus defensores, continuo a não conseguir entender como é que, a título de exemplo, humilhar rima com integrar, insultar rima com ajudar, boçalidade rima com universidade, abusar rima com brincar, ofender rima com acolher, violência rima com inteligência ou coacção rima com tradição. Devo, no entanto sublinhar que não simpatizo com estratégias de natureza proibicionista, sobretudo em matérias que claramente envolvem valores.
Talvez este discurso seja de um desintegrado, isolado, descurriculado, dessocializado e taciturno tipo que não acedeu ao privilégio e experiência sem igual de ser praxado ou praxar. Desculpem.

O PESO DAS MOCHILAS DOS MIÚDOS

No DN de hoje faz-se referência a um estudo realizado pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, coordenado pelo Professor Mário Cordeiro e envolvendo umas centenas de alunos entre os seis e os 13 anos de uma escola de Lisboa, sobre o peso das suas mochilas. Em síntese, sete em cada dez miúdos transportavam mochilas com excesso de peso, acima de 10% do peso corporal da criança é considerado peso excessivo.
Como é óbvio esta constatação, pelas suas implicações e riscos, imediatos e a prazo, para a saúde dos miúdos, deveria exigir a atenção de pais e educadores no sentido de a minimizar, embora o seu transporte configure um exercício físico que disfarça a ausência de espaços e equipamentos adequados em muitas das nossas escolas e combata uma infância sedentarizada, a troco, é certo, de uma coluna castigada.
Aproveitando a preocupação com o peso da mochila e, já agora, com a organização dos seus conteúdos, tarefa a que muitos pais se dedicam ajudando, sobretudo os miúdos mais pequenos, gostava de chamar a atenção para um conteúdo que muitas vezes anda na mochila, que pode pesar muito e que, se não estivermos atentos, poderá passar despercebido.
Estou a referir-me aos medos que os muitos gaiatos transportam.
O medo de não ser capaz de aprender, o medo de não corresponder às expectativas, por vezes demasiado altas, dos pais, o medo das comparações com os outros, o medo das brincadeiras que adultos ansiosos lhes incutem, o medo induzido por discursos ligeiros sobre os riscos e perigos que espreitam por todo lado. O medo de futuro que não controlam e não antecipam. Entre outros.
Parece-me, por isso, que os adultos andarão bem se estiverem atentos ao que os miúdos carregam nas suas mochilas, para além e isso é importante, do peso dos inúmeros materiais. Muitas crianças e adolescentes sentem uma enorme dificuldade em lidar com os medos, sobretudo quando se sentem sós. Por vezes, acabam por se juntar a outros tão assustados quanto eles.
Quase nunca dá bom resultado.

OS BICHOS DE CONTA

No tempo em que os miúdos podiam brincar na terra e conhecer bichos sem ser nos documentários da televisão ou em visitas aos Jardins Zoológicos ou às quintas pedagógicas (designação curiosa e engraçada) havia sempre um animalzinho que despertava a curiosidade e atraía a atenção da miudagem, os bichos de conta.
Era engraçada a forma hábil como o bichinho ao sentir a menor ameaça se enrolava e se transformava numa bolinha couraçada inacessível e, simultaneamente, tão frágil como estava antes, devido ao tamanho e leveza.
Muitas vezes pegávamos naquelas bolinhas e delicadamente ficávamos à espera que eles recuperassem a tranquilidade e se desenrolassem voltando ao aspecto normal. Coisas de outros tempos e que hoje muitos pais proibiriam certamente os seus filhos de fazer, a terra provoca doenças e os bichos são perigosos, dizem.
No entanto, estranhamente, lembrei-me como se encontram tantos miúdos que parecem bichos de conta. Ao menor sinal que percebam como ameaça ou risco, enrolam-se fecham-se sobre si mesmos e ficam inacessíveis, resistem ao contacto e ficam encapsulados.
A experiência mostra que, provavelmente, também neste caso deveremos agir como se fazia com os bichos de conta, tentar criar uma situação de serenidade à volta, devolver tranquilidade aos miúdos e levar a que eles voltem a sentir-se confiantes e não ameaçados pelo que está à sua beira.
Se bem repararmos existem muitos miúdos que assim agem.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

ÉS O QUE TENS, MESMO A CRÉDITO

Na imprensa de hoje aparecem referências ao aumento exponencial dos casos de falência de singulares, famílias, que tem vindo a verificar-se. Estas situações devastadoras para milhares de agregados familiares, decorrem mais frequentemente de cenários de sobre endividamento que as dificuldades actuais potenciaram gerando, por exemplo, níveis de desemprego, que impedem a regularização de créditos.
Este cenário é, creio e já o tenho afirmado, um dos mais preocupantes sinais dos tempos, quer no que respeita a valores, quer no que respeita a dificuldades económicas.
Segundo dados da DECO, no final do 1º semestre de 2011, pedidos de ajuda em casos de sobre endividamento já tinham aumentado 52%. As famílias em dificuldade que a si recorrem evidenciam frequentemente uma taxa de esforço cerca dos 90%, ou seja, ao receber 1000 €, 900 estão destinados ao pagamento de créditos e em média têm que gerir 8,6 créditos, um assombro. Como é óbvio, trata-se duma situação insustentável e mesmo com taxas de esforço mais baixas basta uma pequena perturbação ou algo de imprevisto, desemprego por exemplo, para que se rompa o equilíbrio e as famílias entrem em incumprimento, com as previsíveis e complicadas consequências. A DECO recomenda 40% como a taxa de esforço aceitável e prudente.
Parece-me claro que este cenário não decorre, como muitas vezes ouvimos, exclusivamente da situação de crise económica que atravessamos embora ela na maioria das vezes seja o gatilho que a despoleta. Radica, do meu ponto de vista, nos modelos económicos e sistema de valores que nos envolvem.
Como já tenho referido no Atenta Inquietude, instalou-se a ideia de que "és o que tens". Bem podemos afirmar que cada um de nós não olha assim para a vida mas na verdade é difícil resistir à pressão para o consumo e para a ostentação de alguns bens ou estilos de vida que "atestem" como "somos" gente. É o crédito da casa, do carro, da mobília, das férias, do casamento do filho, do plasma, etc. etc. Tudo bens a que obrigatoriamente temos de aceder como prova de que somos gente, embora se verifique ainda o recurso ao crédito até para tratar questões de saúde.
Por outro lado, as instituições financeiras que concedem crédito estiveram durante demasiado tempo bastantes bastante mais atentas aos seus próprios interesses que aos riscos das pessoas que a elas recorrem. Actualmente, revelam-se bastante mais selectivas e cautelosas devido à subida enorme do valor do crédito malparado e dos seus próprios custos de financiamento.
Este tipo de problemas é apenas mais um indicador de como se torna necessário repensar valores e modelos de organização e desenvolvimento. Eu sei que não é fácil e pode parecer ingénuo, mas se não falarmos e não nos inquietarmos com isto, então é que nada mudará. Nunca.

UMA HISTÓRIA ESQUISITA COM DUAS MÃES E DUAS ESCOLAS

Bom dia Maria, só agora?! Estava para lhe telefonar.
Desculpe Sra. Dra., atrasei-me porque me chamaram à escola do meu Luís, deu outra vez problemas e chamaram-me. Eu ia para lhe telefonar mas não tinha saldo, sabe como é, as coisas estão difíceis. Já não sei o que fazer com o meu Luís e a escola diz para eu tomar conta dele. A directora de turma ralha comigo e diz que tenho a culpa porque não lhe dou educação. Diz que a escola tem muitos alunos como ele e que não tem condições. Mas eu acho que lhe dou educação, trato bem dele e gosto dele. Mas sabe Sra. Dra., eu saio de casa todos os dias às seis e meia e ele fica a dormir, quando a minha Cátia o acorda, ele não liga e muitas vezes atrasa-se. Depois eu só chego à hora de jantar e já é tarde, ele diz-me que fez os trabalhos de casa, mas eu nem sei ver nem ajudá-lo se ele precisar, andei só na escola até à quarta classe, não sei mesmo o que fazer.
Desses problemas não me posso queixar Maria, felizmente. Os meninos, o Martin e a Francisca, andam num colégio fantástico e as coisas correm bem. Os professores são óptimos, tratam de tudo, não preciso de me preocupar. É verdade que cobram imenso mas também ficamos descansados. Nem eu nem o meu marido temos tempo para essas coisas. A escola resolve o que diz respeito aos meninos. Têm imensas actividades fantásticas para eles fazerem e eles gostam de lá estar. Os meninos, como a Maria sabe, são muito inteligentes mas se tiverem alguma dificuldade na escola os professores sabem como fazer não temos que nos preocupar.
Ainda bem Sra. Dra. que os meninos não lhe dão problemas e tudo corre bem na escola deles. Não podemos ser todos iguais, não é verdade. Cada um tem a sua sina.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

E A MOBILIDADE SOCIAL?

Desde o início tenho afirmado que o processo de reforma no ensino superior mais conhecido pela "Reforma de Bolonha" radicou mais em questões económicas que de natureza científica, curricular ou de mobilidade envolvendo estudantes e professores. O encurtamento do chamado grau de licenciatura para três anos e a criação do 2º ciclo, o grau de mestrado, possibilitou que na grande maioria dos cursos passassem a ser as propinas dos alunos a financiar o 2º ciclo.
Neste novo quadro, as instituições de ensino superior público adequaram a sua oferta de 2º ciclo, os mestrados, a esta realidade e entrámos naquilo a que alguns chamam o funcionamento do mercado, através da lei da oferta e da procura em que, acreditam outros, radica a qualidade. É conhecido o elevado custo dos mestrados que em algumas áreas e em algumas instituições podem atingir preços muito elevados.
Seria ingenuidade excessiva não perceber que as leis do mercado, sempre o mercado, teriam de chegar também ao ensino superior público e também entendo que compete a estudantes e famílias uma parte importante no investimento na formação e qualificação profissional.
No entanto, conhecendo o tecido social e cultural português, longe obviamente dos modelos americanos que alguns defendem, temo que esta entrega às leis do mercado e às capacidades das famílias, alimentem algo que é, ainda, uma característica do sistema educativo português e que os relatórios internacionais reconhecem, o baixo impacto da educação na mobilidade social. Dito de outra maneira, os indivíduos com origem em grupos sociais mais favorecidos são os que tendencialmente obtêm melhores níveis de qualificação e repete-se o ciclo. Neste quadro, o anúncio da redução significativa das bolsas e apoios, as dificuldades enormes das famílias e o desemprego mais elevado entre os jovens, que poderia constituir uma pressão para continuar os estudos, a que acrescem as elevadas propinas, designadamente no 2º ciclo, tornam ainda mais difícil a realização de percurso escolares que promovam mobilidade social.
Quando se espera e entende que a minimização das assimetrias possa, também, depender da educação e qualificação, o seu preço, longe de a favorecer, alimenta-a.

A HISTÓRIA DO RAPAZ QUE PARECIA ADULTO

Um dia destes lá na escola numa roda de gente, professores, comentava-se o comportamento do Zé Francisco que nem parecia, diziam, um rapaz deste tempo.
Várias das pessoas referiam-se ao Zé Francisco com expressões altamente elogiosas.
É tão responsável, parece mais adulto. Há muitos, bem mais velhos que não revelam a responsabilidade que ele mostra.
Nunca vi nele o menor deslize no comportamento, é extraordinário, com os alunos que normalmente temos.
Sempre com tudo super-organizado, trabalhos em dia e com excelentes resultados.
É verdade que os pais são muito exigentes com ele, mas hoje em dia em que tudo se facilita é importante ser-se exigente.
Uma coisa que acho fantástica no Zé Francisco é a sua permanente disponibilidade para ajudar, quer colegas, quer adultos. Para qualquer coisa está disposto a colaborar sempre com aquele ar compenetrado e eficaz.
Para além de tudo, sempre com boas notas, muito atento.
Às tantas, a Professora Joana, reparou no ar e no silêncio do Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, e interpelou-o.
Então Velho, estás muito calado, que achas do Zé Francisco, também o conheces bem, ele vai imensas vezes à biblioteca?
Sim, conheço-o bem, acho eu. É por isso que me parece que devemos estar atentos. Fico sempre um pouco receoso quando vejo miúdos que crescem depressa de mais, chegam muito cedo a adultos. Ele só tem 11 anos mas não age, em nada, como um miúdo da sua idade. E tem sido assim desde mais novo. Todos os tempos têm os seus disparates e todos os disparates têm o seu tempo. Pode acontecer que um dia o Zé Francisco vá à procura, queira conhecer todos os disparates que não fez. Mas nessa altura estará fora do tempo e pode dar-se mal. Esperemos que não, mas acho melhor quando os miúdos são miúdos e às vezes fingem de adultos e quando os adultos são adultos e às vezes brinquem como os miúdos.