terça-feira, 18 de outubro de 2011

QUANDO INTEGRAR RIMA COM HUMILHAR

O Público de hoje retoma a questão das praxes académicas a propósito de alguns episódios ocorridos na Universidade do Minho. Algumas notas requentadas sobre esta matéria. Nesta altura do ano, tal como nos movimentos migratórios, as cidades com ensino superior são invadidas por uma população curiosa, os caloiros. Andam aos bandos pelas ruas, com um ar patético, mascarado de divertido, e enquadrados por uma rapaziada de negro, trajada, como gostam de dizer. É o tempo das praxes aos que chegam ao ensino superior.
Não sei se em resultado de alguns episódios lamentáveis, até com consequências graves do ponto de vista físico o que levou alguns estabelecimentos a "desencorajar" ou mesmo proibiras praxes, se em resultado das escolhas dos próprios estudantes ou em resultado dos esforços do MATA (Movimento Anti-Tradição Académica), parece que as “actividades” de praxe estarão mais brandas do que em anos anteriores. Fico satisfeito, sobretudo se corresponder a decisões assumidas pelos estudantes no seu conjunto e não fruto de ameaças ou determinações da tutela ou da direcção das diferentes escolas, estamos a falar de gente crescida e, espera-se, auto-determinada.
Devo confessar que no universo das praxes académicas pouca coisa me pode surpreender. De forma aparentemente tranquila coexistem genuínas intenções de convivialidade, tradição e vida académica com boçalidade, humilhação e violência sobre o outro, no caso o caloiro.
Apesar dos discursos dos seus defensores, continuo a não conseguir entender como é que, a título de exemplo, humilhar rima com integrar, insultar rima com ajudar, boçalidade rima com universidade, abusar rima com brincar, ofender rima com acolher, violência rima com inteligência ou coacção rima com tradição.
Talvez este discurso seja de um desintegrado, isolado, descurriculado, dessocializado e taciturno tipo que não acedeu ao privilégio e experiência sem igual de ser praxado ou praxar. Desculpem.

A DESESPERANÇA

Em síntese.

Educação e Saúde as áreas mais castigadas no Orçamento para 2012, no CM.
Salários, pensões e IVA valem mais de metade da redução do défice, no JN.
Cortes em gastos sociais e função pública pagam 56% da austeridade, no I.
O orçamento que empobrece de forma brusca os portugueses, no Público.

Em resultado.

A indignação.
A perplexidade e a incerteza.
A pobreza.
A desesperança.

TUDO SE COMPRA, TUDO SE VENDE, ATÉ AS PESSOAS

Manda o calendário das consciências que hoje se cumpra o Dia Europeu contra o Tráfico de Seres Humanos. Assim sendo, umas notas breves.
Este universo, o tráfico de seres humanos é, do meu ponto de vista, uma das que maior embaraço pode causar em sociedades actuais, a escravatura, algo de improvável no séc. XXI em países da Europa Ocidental.
Parece difícil de entender, mas são recorrentes as referências às situações de dezenas de portugueses, de pessoas, que são sequestradas e colocadas a trabalhar em estruturas agrícolas em Espanha. Como em todas as situações desta natureza, as autoridades estimam que os casos conhecidos sejam em número bastante inferior ao que na verdade se verifica. Sabemos também como no mundo inteiro o tráfico de pessoas se constitui como uma das áreas de mercado mais rentáveis, designadamente, no caso de mulheres para o universo da prostituição. No CM de hoje refere-se que uma inspecção do SEF encontrou em apenas quatro estabelecimentos de uma zona do Algarve e em duas noites, 130 mulheres que se "dedicavam" ao chamado alterne.
Lamentavelmente, também em Portugal esta situação já não causa estranheza e as comunidades acabam por revelar alguma condescendência, pois as conhecidas casas de alterne têm existência bem visível e certamente frequência que as justifique não podendo, pois, desconhecer-se a provável situação de exploração a que muitas mulheres aí presentes estarão sujeitas.
No entanto, a escravatura para trabalho agrícola parece algo “fora do tempo” e de impossível existência nos nossos países. Mas existe, e é sério o problema que, como não podia deixar de ser, atinge os mais vulneráveis.
Este negócio, o tráfico de pessoas, um dos mais florescentes e rentáveis em termos mundiais, alimenta-se da vulnerabilidade social, da pobreza e da exclusão o que, como sempre, recoloca a imperiosa necessidade de repensar modelos de desenvolvimento económico que promovam, de facto, o combate à pobreza e, caso evidente em Portugal, às escandalosas assimetrias na distribuição da riqueza.
As circunstâncias que atravessamos potenciam o risco e a vulnerabilidade, aliás, há poucos dias referia-se na imprensa o aumento da prostituição envolvendo mulheres em extrema dificuldade para assegurar meios de subsistência familiar.
As pessoas, muitas pessoas, apenas possuem como bem, a sua própria pessoa e o mercado aproveita tudo, por isso, compra e vende as pessoas dando-lhe a utilidade que as circunstâncias, a idade, e as necessidades de "consumo" exigirem.
O que parece ainda mais inquietante é o manto de silêncio e negligência que cai sobre este drama tornando transparentes as situações, não as vemos.

SÃO TÃO MAL EDUCADOS. Outro diálogo improvável

Tenho estado a observar, o seu é muito calmo.
Parece, nem sei como é que ele hoje está assim. Quase sempre está a mexer de um lado para o outro, pronto para fazer disparates.
Nem me fale, o meu só está sossegado enquanto dorme. Às vez nem isso, até de noite faz barulho.
O meu não é que seja assim muito mal comportado, não é, mas quando está ao pé dos outros fica pior. Acho que são todos assim, mas este é uma desgraça.
Também lhe digo, toda a gente se porta mal que eles também acabam por ser assim. O meu às vezes até me deixa envergonhada. Não obedece, não faz nada do que lhe mando, é mesmo teimoso. Se me zango, ainda se volta.
O meu tem dias que não tenho mesmo paciência para o aturar. Outro dia, no parque, armou uma cena com mais uns que por lá andavam que até lhe bati, coisa que eu não gosto nada de fazer, mas já estava mesmo desorientada.
Ai o meu às vezes leva, ele já mesmo assim é como é, então se não lhe desse de vez em quando como é que tinha mão nele.
Pois é, a gente às vezes nem pensa bem. Devíamos estar é quietas.
Olhe, digo-lhe uma coisa, muitas vezes zango-me e perco a paciência, mas gosto muito dele.
Não é que ...

O Farol pode entrar, que tem o cãozito D. Teresa? Perguntou o Dr. Alfredo, o veterinário.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

VENHO DEVOLVER A CRIANÇA, NÃO É BEM O QUE ESTAVA À ESPERA

Num dia, mais um de muitos que aí virão, marcado pela austeridade, ler dificuldades, que nos esperam, resisto ao tema e trago uma referência do CM de natureza bem diversa.
Em cinco anos registaram-se 108 casos de crianças que foram devolvidas, isto é, viram o seu processo de adopção interrompido. Muitas destas situações deveram-se ao facto de as crianças "não corresponderem às expectativas" das famílias adoptantes.
Vejamos com mais atenção. Uma criança, por qualquer razão não tem uma família, está numa instituição, envolve-se num processo de adopção, entra numa família que entende passar a ser a SUA família, deve sentir-se num caminho bonito. Passado algum tempo é devolvida, provavelmente, sem perceber porquê e vive uma, certamente mais uma, experiência devastadora com efeitos que não podem deixar de ser significativos.
Como é evidente, admito que em circunstâncias excepcionais o processo possa ser interrompido mas, insisto, só mesmo numa situação limite.
A lei permite, creio que ainda não foi alterada, que durante seis meses a criança possa ser devolvida, trata-se de um período de adaptação, uma espécie de contrato à experiência. O Juiz Armando Leandro presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, reconhecia há algum tempo que a devolução não tem de ser baseada em "critérios necessariamente válidos". Também há uns meses num trabalho sobre o mesmo tema, o DN citava um caso em que uma criança foi devolvida e trocada por outra porque não se adaptava ao cão da família. Outros casos de devolução envolvem dificuldades de adaptação a outros elementos da família ou a questões económicas.
Como é de prever, os serviços procuram na fase pré-adopção prevenir situações deste tipo, embora eles continuem a ocorrer.
Voltando ao tão apregoado "supremo interesse a criança", é difícil imaginar o que se passará na cabeça de um miúdo que passa anos a construir uma ideia de família, a certa altura entra numa família a que chama sua e de repente dizem-lhe que volta a estar só, na instituição, porque ... não se dá bem com o cão ou não corresponde às expectativas. Que sentirá a criança?
Porquê? Não presta? Não a querem? ...

REPAREM BEM

Reparem bem. Trabalho todos os dias das nove às seis e meia.
Reparem bem. Alguns dias da semana faço horas extraordinárias noutro sítio.
Reparem bem. Trago todos os dias algum trabalho para fazer em casa.
Reparem bem. Todos os dias me obrigam a fazer mais algum trabalho depois de fazer o trabalho que me mandaram fazer em casa.
Reparem bem. Todos os fins-de-semana tenho que trabalhar algumas horas.
Reparem bem. Toda a gente diz que trabalho pouco e que o trabalho que faço não tem qualidade e que não me esforço.
Reparem bem. Tenho doze anos.

domingo, 16 de outubro de 2011

A POBREZA, DE NOVO, E SEMPRE

Lamentavelmente, a pobreza e o risco de pobreza em Portugal continuam na agenda, vieram para ficar, como diz o povo. Em antecipação ao calendário das consciências que determina para amanhã o Dia Internacional de Erradicação da Pobreza (parece humor negro), o Público cita dados disponibilizados pela Pordata sobre o universo da pobreza em Portugal, citando indicadores até 2009. Estes dados, tais como os divulgados pelo INE, mostram que em 2009, 21,4 % da população vive em condições de privação material. Isto quer dizer, por exemplo, dificuldade em pagar rendas sem atraso, manter a casa aquecida ou fazer uma refeição de carne ou de peixe pelo menos de dois em dois dias. Temos cerca de dois milhões de cidadãos em risco de pobreza, 300 000 dos quais crianças, 650 000 desempregados e um terço das famílias com orçamentos encostados ao limiar de pobreza.
Acresce que se forem apenas considerados os rendimentos do trabalho, de capital e transferências privadas, 41,5 % dos portugueses estaria em risco de pobreza sendo de registar que as transferências sociais atenuam em 6.5 % a população em risco de pobreza. Os dados mostram ainda a persistência da escandalosa assimetria, os rendimentos médios dos 20 % mais ricos são seis vezes superiores aos dos mais pobres.
Creio ainda ser de relembrar o impacto que as situações de pobreza familiar têm na qualidade de vida dos miúdos e a ameaça que representam na construção de projectos de vida viáveis e bem sucedidos traduzidos, por exemplo, na desejável quebra do ciclo de pobreza.
Não é novidade o baixo impacto que políticas centradas quase que exclusivamente no subsídio, obviamente necessário em muitas circunstâncias, têm no combate à pobreza e exclusão uma vez que não atingem o aspecto essencial que é autonomia na produção de recursos que minimizem as dificuldades económicas.
É óbvio que grupos sociais diferentes solicitam modelos e dispositivos de apoio social diferenciados. Acontece, no entanto, que essa oferta é, por vezes, desfasada das necessidades e particularidades contextuais, sendo ainda desvalorizada pelos próprios beneficiários que a encaram apenas como condição de acesso a apoios e não como oportunidades de desenvolvimento pessoal e reconstrução de projectos de vida. É pois fundamental que estas iniciativas sejam devidamente avaliadas e regulado o seu desenvolvimento.
Neste quadro importa ainda a coragem de, mais uma vez, ponderar os modelos de desenvolvimento económico e social, diminuir efectivamente o fosso intolerável entre os mais ricos e mas pobres, caminhar no sentido da construção de uma dimensão ética que seja reguladora da atribuição de privilégios incompreensíveis e obscenos para poucos e tolerância face a situações de exclusão extrema para bastantes outros.
Eu sei que escrever sobre estas questões em espaços desta natureza tem alcance zero, mas continuo convencido que é fundamental não deixar cair a preocupação, talvez seja melhor chamar-lhe a indignação, com a pobreza e exclusão. Por isso, a insistência.

E AGORA? QUE FAZER COM A INDIGNAÇÃO?

Ao olhar para dimensão genérica das manifestações de ontem sob a bandeira dos "Indignados", encontramos apreciações que, como é habitual, consideram o copo meio cheio e outras que o percebem meio vazio. Assim, alguns dirão que foram bastante significativas e que poderemos estar no começo de uma mudança. Outros dirão que apesar do número razoável de manifestantes o nível de descontentamento genérico permitiria esperar números mais significativos, designadamente, fora de Lisboa.
Como seria de prever, a partidocracia está bem atenta a este conjunto de iniciativas. A oposição exprimindo simpatia pela ideia da indignação e mesmo os que actualmente ocupam o poder exprimem a sua inteira "concordância" com o direito à indignação. Ninguém quer, como é óbvio, perder alguma forma de boleia na indignação dos cidadãos, dos que estiveram presentes e, sobretudo, dos ausentes mas que se sabe sentirem-se, só podem, indignados.
Do meu ponto de vista, as grandes e graves questões colocadas nas manifestações de ontem e que se ligam à de 12 de Março mais direccionada para os problemas de uma geração à rasca, dificilmente serão significativamente alteradas sem algo de estruturalmente diferente em matéria de organização do trabalho, modelos de desenvolvimento económico, refrescamento da organização política e alterações culturais e éticas entre as elites políticas, culturais e económicas. O problema é que, entre os que em Portugal plausivelmente podem ascender ao poder nos tempos mais próximos, não se vislumbra projectos e visões que alterem significativamente o quadro instalado, são, diria, mais do mesmo. A partidocracia instalada, designadamente a que se move no chamado arco do poder tem, basicamente, o mesmo entendimento sobre os modelos de desenvolvimento económico, político e social que nos fizeram chegar aqui. Quem fez parte do problema, dificilmente pode fazer parte da solução. Se fizeram como fizeram e defendem o que têm defendido porque milagre ou mistério farão diferente?
Neste cenário, podem estabelecer-se duas perspectivas de continuação a curto e médio prazo. Uma primeira hipótese assenta num progressivo e rápido fortalecimento do movimento de indignação e revolta que escape ao controle da partidocracia e dos seus dispositivos como por exemplo o movimento sindical organizado, potenciando e agregando mais zonas e franjas de descontentamento criando uma pressão incomportável para o sistema que o obrigaria a alterações significativas, uma espécie de arabização de brandos costumes. Nesta primeira hipótese importa ainda considerar as reacções no quadro da União Europeia.
Numa segunda hipótese, este movimento de indignação, nesta fase disperso, pouco estruturado, pode acabar engolido pelos meandros da partidocracia tendo representado apenas um sobressalto inconsequente e rapidamente acomodado, mantendo alguma actividade de contestação visível que o próprio "sistema" verá com bons olhos e"acarinhará", como forma de drenar o descontentamento e legitimar a "democracia" das suas decisões.
No fundo, também se trata de perceber se a nossa democracia evoluirá com os partidos, apesar dos partidos ou, perigosamente, contra os partidos.
De qualquer forma, com alguma dose de realismo e segurança, certo, certo, é o período de enormes dificuldades que boa parte de nós vive e a desesperança que parece instalar-se e que nos ameaça o futuro.

sábado, 15 de outubro de 2011

SERÁ INDIGNAÇÃO QUE CHEGUE?

Realizam-se hoje em diferentes paragens iniciativas de protesto sob a bandeira da indignação, ou seja, vão manifestar-se os chamados indignados. Não sei, quando estou a escrever estas notas qual a dimensão que em Portugal a jornada irá assumir pelo que me reporto ao que foi a manifestação de 12 de Março, a promovida pela designada “Geração à rasca” que, em termos sociológicos, me parece próxima dos promotores conhecidos das manifestações de hoje, em Portugal e noutros países. As graves circunstâncias sociais e económicas de hoje terão, eventualmente, um efeito potenciador do sentimento de indignação que derivará de múltiplas razões.
No entanto e do meu ponto de vista, parece interessante perceber a dimensão deste protesto que, tal como o de 12 de Março, emerge fora da tutela da partidocracia instalada e que capturou de forma quase exclusiva o envolvimento cívico das pessoas promovendo um nível de afastamento dos cidadãos muitíssimo significativo.
As progressivas taxas de abstenção nos últimos actos eleitorais são um bom exemplo desse afastamento e, importa salientar, não algo que envolva exclusivamente o eleitorado mais jovem. É minha convicção que algumas das mais importantes causas deste afastamento entre os cidadãos e a vida cívica, remetem para a degradação da qualidade dessa vida cívica, veja-se, só a título de exemplo todo o envolvimento e resultados das eleições regionais na Madeira ou a pouco edificante novela em torno de Isaltino Morais e para a praxis política da partidocracia instalada.
No actual quadro político administrativo é muito difícil a intervenção cívica fora da tutela dos aparelhos partidários. Verifica-se também que a capacidade de mobilização dos partidos se dirige a uma minoria de pessoas que se movimenta e sobe nos respectivos aparelhos podendo, assim, aceder a alguma forma de poder e a uma maioria que enche autocarros, recebe uns brindes e tem um almocinho de borla. A partidocracia não atrai porque os partidos se tornam donos da consciência política das pessoas, veja-se o espectáculo deprimente da Assembleia da República, vota-se o que o partido manda, independentemente da consciência.
Reconhece-se hoje que as camadas mais novas, mas não só, atravessam uma complexa situação envolvendo os valores, a confiança nos projectos de vida, os estilos de vida, etc. Neste quadro, a adesão à intervenção política, tal como se verifica genericamente em Portugal, parece mais uma parte do problema, é velha a partidocracia para responder a problemas novos, que um caminho para a solução.
De tudo isto resulta, como muitas vezes refiro, o afastamento das pessoas pelo que a construção de outras formas de participação cívica parece ser a única forma possível de reformar o quadro político que temos, ou seja, os partidos ou definham ou mudam, pela pressão do exterior.
Esperemos, portanto, para perceber a dimensão da indignação e, consequentemente, a pressão para a reforma na partidocracia. Será indignação que chegue?

RANKING ESCOLAR, UM PRODUTO SAZONAL

O Outono, entre outras coisas bem mais interessantes, traz-nos a sazonal divulgação das classificações das escolas mais conhecida pela questão dos rankings”. O Ministério divulga os resultados e dados relativos às escolas, não todos, alguma imprensa entretém-se a olhar para esses dados e produzem-se umas classificações “criteriosas”, com “indicadores ponderados”, utilizando “diferentes critérios”, etc. etc. Curiosamente, os estudos publicados concluem invariavelmente pela “supremacia das escolas privadas face às públicas”, que as escolas do litoral apresentam genericamente melhores indicadores que as do interior, como seria de esperar num país assimétrico e litoralizado, sendo ainda que os pólos de Lisboa, Coimbra, Porto e Braga acolhem as escolas que genericamente melhores resultados evidenciam, que as escolas das regiões autónomas mostram globalmente piores indicadores, etc. E assim foi este ano.
Parece-me claro que, para quem conhece minimamente o país, em particular o país educativo, estes dados são obviamente previsíveis. Embora entenda que os dados relativos aos resultados dos alunos possam e devam ser tratados e divulgados, a minha questão é “QUAL O CONTRIBUTO SIGNIFICATIVO QUE A ORGANIZAÇÃO E DIVULGAÇÃO DESTES “RANKINGS” OFERECE PARA A MELHORIA DA QUALIDADE DO SISTEMA?”. No meu entendimento a resposta é: “pouco relevante”, porque é possível antecipar os seus resultados sem grande margem de erro e porque não se traduzem em medidas de política educativa. E tanto mais relevante o será quanto menor é a qualidade de vida social, económica e cultural das populações, comprometendo de forma inaceitável princípios de equidade. Rankings? Uma ideia de teor liberal que alimenta a obsessão pela excelência que, sendo de promover, não pode transformar-se numa cruzada “neo-darwinista” que produz exclusão. Parece-me aliás e neste sentido, de leitura obrigatória a entrevista realizada pelo Público ao Professor Gert Biesta da Universidade Stirling de que aqui só cito o título, “Os rankings são muito antiquados e não devem ter lugar numa sociedade civilizada". É reconhecido que existem escolas, privadas e públicas que recusam matrículas para proteger a sua posição no ranking, como também se sabe que uma excessiva centração nos exames pode não ser o maior contributo para o sucesso como, aliás, alguns professores testemunham no trabalho do Público.
Acompanhando a publicação do “seu” ranking o Público apresenta alguns depoimentos relativos a escolas, públicas ou privadas, melhor situadas no ranking. A este propósito, cito o Padre Amadeu Pinto, director do Colégio S. João de Brito, escola habitualmente instalada nos primeiros lugares do ranking, que em 2008 afirmava como justificação, entre outros aspectos, para os bons resultados do Colégio. “As escolas privadas têm dono que sabem cuidar muito bem da sua casa”, “Só frequenta a instituição quem tem 460 euros para pagar a mensalidade do secundário”, ”Dos nossos 120 professores apenas mudaram dois”.
Sendo um defensor intransigente de uma cultura e prática de exigência, avaliação e qualidade, parece-me bem mais importante o aprofundamento dos mecanismos de autonomia e responsabilização e a constituição obrigatória em todos os agrupamentos ou escolas de Observatórios de Qualidade que integrem também elementos exteriores à escola. Existem capacidade técnica e recursos suficientes. O trabalho realizado por esses Observatórios, este sim, deveria ser divulgado e discutido em cada comunidade e passível de leituras cruzadas com os resultados nacionais.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

BRANDAS PALAVRAS

Existem palavras que pelo seu significado, significados, ou pela forma como nos soam parecem mais bonitas que outras. Não é estranho, embora, naturalmente, todas se escrevam com as mesmas letras.
Uma das palavras que mais gosto de ouvir é "brando", em diferentes variações de género, número e significado. Nos tempos ásperos que vivemos ainda mais gosto e preciso de brandas narrativas.
Acho engraçado o entendimento de que somos um país de brandos costumes. Não sei se de facto o somos, mas gosto da ideia de que temos costumes, fazem parte da nossa identidade, mas são brandos, nem duros nem inconsistentes.
Dá-me gozo conversar com quem usa palavras brandas de forma branda, ajuda-nos a pensar e a crescer, serenamente. No entanto, lamentavelmente, parece que usamos palavras cada vez mais duras e menos palavras.
Gosto das pessoas que têm um ar brando e também um olhar brando, são acolhedoras.
No meu Alentejo dizem de forma muito bonita que as noites de Primavera e do fim do Verão têm e trazem branduras, uma humidade que ainda permanece, na Primavera, ou que começa a formar-se, fim do Verão, como nesta noite, e que deixa as plantas mais frescas.
O Mestre Marrafa diz que o calor está brando quando não queima e que o frio é brando quando não enregela até aos ossos. Também fala de uma chuva branda, bem chovida, que encharca a terra sem estragar.
Já me começa a dar a lembrança de um lume brando na lareira.

OS TRABALHOS DAS MULHERES, PROSTITUIÇÃO E DIGNIDADE

No JN e no CM de hoje é referido o aumento embora não quantificado da prostituição feminina, acentuando-se a degradação das condições de exercício desta actividade no que parece ser mais um trágico efeito colateral das dificuldades económicas que atravessamos. De facto, segundo a referência de hoje, aumenta significativamente o número de mulheres que recorrem à prostituição para conseguir padrões mínimos de qualidade de vida para os seus filhos. Em Portugal temos cerca de 300 000 famílias só com um progenitor em casa e sabe-se que as famílias monoparentais são as mais vulneráveis ao risco de pobreza.
No Relatório Society at a Glance 2011 da OCDE, constava que Portugal é o quarto país dos 29 considerados com maior diferença entre homens e mulheres, no que se refere a trabalho não pago, sobretudo a tão portuguesa “lida da casa”, cozinhar, limpar, cuidar dos filhos, etc. Entre nós a diferença é de quase quatro horas.
No mesmo sentido, foi conhecido há algum tempo um estudo realizado pela Intersindical com base em dados do INE e do Ministério do Trabalho, segundo o qual, as mulheres portuguesas trabalham média 39 horas semanais e realizam mais 16 horas de trabalho não remunerado relacionado com a família o que me leva retomar algumas reflexões já aqui deixadas. Também há algum tempo um trabalho internacional revelava que as mulheres portuguesas são das que mais tempo trabalham fora de casa. Existem também indicadores sustentando que as mulheres portuguesas são de entre as europeias as que mais valorizam a carreira profissional e a família, a maternidade.
Este cenário mostra como na actual crise, as famílias monoparentais com a mãe estão numa situação particularmente em risco e quando afectadas por desemprego o recurso à prostituição pode ser uma trágica e incontornável opção colocando a mulher numa situação de perda do seu maior bem, a dignidade.
Uma sociedade em que valores como solidariedade, apoio ou dignidade tenham algum valor residual não pode deixar de atentar nestas realidade sem um, como agora se diz, sobressalto.
A questão mais grave é que, muito provavelmente, este problema vai passar para a categoria dos problemas transparentes, isto é, sabemos que existem, mas não os vemos (não os queremos ver).
E depois toda a gente enche a boca com a defesa do estado social, seja lá isso o que for. Tretas.

A NEGLIGÊNCIA É MAIS PERIGOSA QUE OS BRINQUEDOS

O Público de hoje faz referência a uma directiva da UE em vigor desde Julho e que aumenta os níveis de segurança dos brinquedos. Algumas das disposições têm vindo a a ser encaradas como excesso de zelo. Na peça de hoje refere-se o perigo dos vulgares balões e dos assobios conhecidos como "línguas da sogra".
É verdade que existem riscos em alguns brinquedos e que como há algum tempo a Associação para a Promoção da Segurança Infantil alertavam, o facto de estar no brinquedo o símbolo CE não é suficiente como garantia de segurança. Importa por isso sublinhar o papel dos pais como os "verdadeiros inspectores" da segurança dos brinquedos. No entanto, parece-me, como sempre, necessário usar de algum bom senso e evitar excessos de zelo que também não são positivos embora em matéria de segurança infantil o excesso é melhor que o defeito.
Esta referência à segurança nos brinquedos é interessante e oportuna, não estamos longe do espírito natalício, a preocupação com os brinquedos, mas gostava de reforçar o facto de continuarmos a ser um dos países da Europa com taxa mais alta de acidentes domésticos envolvendo crianças, de que as quedas de janelas ou varandas, os afogamentos e o contacto com materiais perigosos não devidamente acondicionados são exemplos.
O que me parece importante registar é que num tempo em que os discursos e as práticas sobre a protecção da criança estão sempre presentes, é, como se vê, recorrente a referência aos perigos dos brinquedos, também se verifica um número altíssimo de acidentes o que parece paradoxal. Por um lado, protegemos as crianças de forma que, do meu ponto de vista, me parece excessiva face às suas necessidades de autonomia e desenvolvimento e, por outro lado e em muitas circunstâncias, adoptamos atitudes e comportamentos altamente negligentes e facilitadoras de acidentes que, frequentemente, têm consequências trágicas.
E não vale a pena pensar que só acontece aos outros.

MENU ESTUDANTE 3.95€, MENU PROFESSOR 3.20€

A lida profissional levou-me um destes dias a uma lindíssima vila do interior centro do país. Ao fim da tarde, hora de lanche que ajudasse a esperar por um jantar tardio, entrei num café plantado em frente à escola do 2º e 3º ciclo da vila. Este café pareceu-me ser o único estabelecimento comercial ali pertinho, os mercados não dormem e um café em frente a uma escola parece uma boa iniciativa empresarial.
Quando ia a entrar o olhar bateu num cartaz que publicitava menus e respectivos preços, a estratégia comercial determina que se procurem "targets" (vejam como tenho aprendido) diferenciados com oferta diferenciada. Do que se publicitava tirei estes exemplos, não se esqueçam que estamos em frente a uma escola. O Menu do Dia custa 5.20€, o Menu Económico baixa para 3.90€ e depois a perplexidade, o Menu Professor com um custo de 3.20€ e o Menu Estudante por 3.95€, a sério, exactamente o que acabei de vos dizer. Antes de mais e como nota informativa, os menus são basicamente constituídos por salgados (excepção do Menu do Dia) e refrigerantes em diferentes combinações.
Uma análise simples permitirá perceber que o cliente normal acederá ao Menu do Dia enquanto o cliente em contenção ou vítima da austeridade se ficará por um Menu Económico, naturalmente mais acessível. Até aqui tudo bem, uma estratégia comercial que se percebe. No entanto, parece existir uma potencial clientela, mais numerosa, imagina-se, os estudantes da escola em frente, que não tendo a folga orçamental dos clientes do Menu do Dia, podem, ainda assim, pagar mais uns cêntimos que os remediados que se ficam pelo Menu Económico. No fim e como "target" mais desprotegido economicamente, com mais carências e já esmagado pela contenção e austeridade, temos os professores, para quem os salgadinhos e refrigerante custam menos que para os estudantes e para os remediados económicos.
Devo confessar que fiquei uns minutos a olhar para o cartaz, a tirar notas e a pensar como este empresário de restauração nos dá um excelente exemplo de responsabilidade social numa época difícil que produz dificuldades sem fim na vida das pessoas.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

CUIDADO AO RETIRAR OS FERIADOS. Podem cair as pontes

Somos reconhecidamente um dos países da Europa com o número mais alto de feriados. Para além dos feriados importa considerar, é essencial, as pontes que os feriados permitem. Como sabem a nossa história mostra que somos um país de pontes.
De vez em quando, por várias razões, surgem discursos ou tentativas de alterar a situação diminuindo os feriados. É curioso que sempre que se fala nestas questões se ouvem muitas vozes contra tantos feriados, designadamente contra as tolerâncias de ponto frequentemente decretadas, mas trata-se, do meu ponto de vista, de um fenómeno de dupla mensagem, ou seja, afirmamos que somos contra mas, na verdade, desejamos que a situação se mantenha. Esta situação no que respeita as feriados religiosos á ainda mais curiosa se nos lembramos que constitucionalmente nos definimos como uma república laica.
Os discursos consistentes e, provavelmente, menos hipócritas, contra o excesso de feriados, pontes e tolerâncias de ponto, são produzidos por uma minoria que entende que a situação económica e, ou, a laicidade do Estado não permitiriam suportar esta decisão. Uma parte significativa da população, cerca de 10%, os desempregados, ficarão, muitos, a pensar, que no “tempo em que tinha emprego tiveram situações destas" pelo que lhes é, actualmente, indiferente. A grande maioria da população no activo, fundamentada pela natureza da sua relação ética com o trabalho traduzida no velho paradigma “nunca mais me sai o euromilhões para deixar de trabalhar”, fica obviamente satisfeita com “uns diazinhos de folga” e ainda mais satisfeita se o tempo permitir umas idas até à praia ou à terra. Os miúdos, também vivem nesta cultura, pelo que não devem revelar-se particularmente incomodados com o fecho das escolas.
Por outro lado, temos um Governo que conhecendo bem a cultura predominante no cidadão comum e incomodado com a pressão que as incidências da crise, da aplicação do PEC e o exemplo da Grécia estão a ter e poderão acentuar-se no clima social, percebe que tem que ser cauteloso no cortar de “uns diazinhos de folga”. É também de considerar que interessa não deteriorar as relações com a hierarquia da Igreja que ainda estão fragilizadas desde a sequela da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo género, da despenalização da interrupção voluntária da gravidez, bem como dos cortes nos apoios às actividades de muitas instituições sob tutela da igreja.
Vamos ver o que dá.

UM DIA CANSAMO-NOS DE SER BONS RAPAZES

A generalidade das notícias sobre o próximo Orçamento de Estado que irá ser hoje aprovado em Conselho de Ministros, é encabeçada pela referência a que muitas das pedidas e políticas apresentadas, designadamente, em matéria da incontornável “austeridade” vão vai longe que o estabelecido no negócio realizado com a troika a que têm chamado “plano de ajuda”.
Ainda há poucos dias o Público referia que os cortes na educação são já o triplo do exigido pela troika. Como comentei na altura e sempre tenho afirmado, a troika procurou fazer um negócio com Portugal que acautelasse os interesses dos mercados, os deuses que nos regem e que têm andado nervosos e sem confiança. Se atentarmos nos juros que a “generosa ajuda” da troika cobra aos países em dificuldade e, por isso, “ajudados”, percebemos como a caridade desinteressada é tão cara.
A troika, para ter a certeza que os interesses dos seus representados não corre riscos cria uma série de exigências garantindo, assim, que voltaremos aos mercados, o supremo objectivo da ajuda, sempre os mercados.
Como é evidente não esqueço a imperiosa necessidade de combater desperdício e ineficácia independentemente da situação de crise mas parece-me absolutamente imprescindível que se não esqueça que as medidas políticas, o Orçamento é uma ferramenta de base para a gestão política, estão, devem estar, ao serviço das pessoas, ou seja e de outra maneira, a troika trata de mercados e a política trata de pessoas. Começa a ser difícil perceber como podem as pessoas suportar mais austeridade em nome de algo pouco tangível, indefinível para a maioria dos cidadãos, como confiança dos mercados, dívida soberana, etc.
Há alguns meses atrás, uma entidade basicamente desconhecida para a esmagadora maioria de nós, a Aon Risk Solutions, colocava-nos no lote dos países com algum risco de violência pública em consequência da crise e da austeridade. Esta entidade tem a mesma isenção que as famosas agências de rating pois é parte interessada na avaliação, ou seja, quanto maior for o risco, maiores serão os encargos com seguros e, portanto, a favor dos interesses das seguradoras que financiam a Aon Risk Solutions. A avaliação de risco assentou nos exemplos de outros países, designadamente da Grécia.
Na altura, o responsável pelo Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo afirmou que o risco de violência pública é baixo.
De facto, somos reconhecidamente um país de brandos costumes, dizem. Não abusamos da violência e quando o fazemos é no recato do lar, quando muito, no quintal ou num desaguisado de trânsito, nada que possa configurar violência pública ou convulsão social graves. A nossa violência, é uma violência de proximidade.
Somos mesmo um povo tranquilo e de brandos costumes, uma das apreciações que os estrangeiros quase sempre referem como característica dos portugueses.
A questão é que, como dizia Camões, todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. Um dia cansamo-nos de ser bons rapazes.

A SECA. Outro diálogo improvável

Francisco, a escola começou há pouco e gostava de te dizer algumas coisas.
Sim pai, vais dizer-me que é importante que a escola comece logo de início a correr bem, no fim já não vamos a tempo.
É verdade, é para te dizer isso.
E também me vais dizer que preciso de me aplicar, ser trabalhador, pois sem trabalho não se consegue ir a lado nenhum.
Tens razão, é assim mesmo.
E também me vais dizer que preciso de tomar atenção nas aulas pois é meio caminho para aprender.
Tal e qual.
E também me vais dizer para ter sempre o material organizado e não me esquecer de fazer o trabalho de casa.
Claro que isso é importante.
E também me vais dizer para me portar como deve ser nas aulas e não arranjar problemas como costumo fazer todos os anos.
É também para te dizer isso, com certeza.
Também me vais dizer para que tenha cuidado com as companhias, pois posso ser prejudicado se as coisas não correrem bem.
Na verdade é isso tudo que preciso de te dizer.
Está certo pai. Podes começar.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

JOVENS DELINQUENTES, QUE FUTURO?

A notícia hoje citada pelo JN da morte de um jovem internado num centro de acolhimento, presumivelmente por suicídio, ao que parece na sequência de castigo imposto pela escola que frequenta, leva-me a retomar algumas notas sobre a questão da institucionalização de jovens com problemas no foro do comportamento social ou mesmo de delinquência.
O Relatório apresentado há algum tempo na Assembleia da República elaborado pela Comissão de Avaliação dos Centros Educativos foi absolutamente arrasador para o desempenho destes Centros destinados aos jovens delinquentes. Falta de recursos, desajustamento das respostas educativas e dos processos e áreas de formação escolar e profissional, desarticulação entre as equipas de reinserção e a Segurança Social da área geográfica de residência dos menores envolvidos, etc., são algumas das falhas encontradas o que não surpreende quem minimamente conheça esta realidade.
Este Relatório fornece a base explicativa para o facto de os dados que há algum tempo atrás foram divulgados pela Direcção Geral de Reinserção evidenciarem que cerca de 40% dos adolescentes internados voltam aos Centros ou às prisões após os 16 anos. Esta altíssima taxa de reincidência, mostra a falência do Projecto Educativo obrigatoriamente definido para todos os adolescentes internados. Este Projecto Educativo assenta em dois eixos fundamentais, formação pessoal e formação escolar e profissional. É neste âmbito que o trabalho tem que ser optimizado. É imprescindível que os meios humanos e os recursos materiais sejam suficientes para que se minimize até ao possível os riscos de reincidência.
Fica certamente mais caro lidar com a delinquência em adultos do que investir na qualidade dos Centros Educativos para que sejam, de facto, educativos.
Como muitas vezes afirmo, existem áreas de problemas em que a poupança no presente pode implicar, demasiadas vezes, custos bastante maiores no futuro.

AS CRIANÇAS-AGENDA

Com o arranque do ano escolar as crianças e adolescentes retomam as suas rotinas, os trabalhos, um grupo mais pequeno, os do 1º ano, estão a iniciá-las. Com as alterações nos estilos de vida muitas famílias sentem um problema importante, a guarda das crianças nos períodos laborais, o sistema educativo tem procurado resolvê-lo da pior da maneira, prolongando inaceitavelmente a estadia das crianças na escola. Creio que nem toda a gente tem consciência de que, de acordo com a lei, uma criança, por exemplo do 5º ano, pode passar 11 horas por dia na escola, ou seja, 55 horas por semana. Esta overdose de estadia institucional na escola, com o tempo muitas vezes preenchido com actividades de duvidosa qualidade, não pode deixar de ter consequências na relação que os miúdos estabelecem com a escola e com as actividades da escola.
Por outro lado, muitos pais recorrem ao envolvimento dos filhos em múltiplas actividades transformando-as numa espécie de crianças-agenda. Todas estas actividades, a oferta é variadíssima, são percebidas como imprescindíveis à excelência, os miúdos devem ser educados para ser excelentes. Promovem níveis fantásticos de desenvolvimento intelectual e da linguagem, desenvolvimento motor, maturidade emocional, criatividade, interacção social, autonomia e certamente de mais alguns aspectos que agora não recordo. Assim, as crianças e adolescentes estão sempre envolvidos em qualquer actividade, a quase todas as horas.
Os pais, alguns pais, seduzidos pela sofisticação desta oferta, pressionados pelos estilos de vida que não conseguem ou podem ajustar e com a culpa que carregam pela falta de tempo para os filhos, aceitam sem vislumbrar alternativas que os trabalhos dos miúdos se desenvolvam para além do que seria desejável, eu diria saudável.
Vamos ter que repensar os trabalhos dos miúdos, de muitos miúdos. O consumo excessivo, mesmo de actividades fantásticas ou de actividades escolares, tem riscos.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

AS MANHAS DA (IN) JUSTIÇA

Muitas vezes tenho referido no Atenta Inquietude que uma das dimensões fundamentais para uma cidadania de qualidade é a confiança no sistema de justiça. É imprescindível que cada um de nós sinta confiança na administração equitativa, justa e célere da justiça. Assim sendo, a forma como é percebida a justiça em Portugal, forte com os fracos, fraca com os fortes, lenta, mergulhada em conflitualidade com origem nos interesses corporativos e nos equilíbrios da partidocracia vigente constitui uma das maiores fragilidades da nossa vida colectiva.
No Público de hoje noticia-se que em 2009, a prescrição evitou a condenação de 1489 arguidos já condenados em primeira instância. Não se estranha, são recorrentes a demora, a manha nos processos judiciais com a utilização de legislação complexa, ineficaz e cirurgicamente construída para ser manhosamente usada por quem a construiu que, com base em expedientes dilatórios, promove a injustiça, ou seja, é uma justiça manifestamente marcada pelas desigualdades de tratamento, etc.
Parece-me ainda de relembrar um relatório de há uns meses da Comissão Europeia para a Eficácia da Justiça no âmbito do Conselho da Europa com alguns dados interessantes e a não esquecer e de que recordo dois indicadores. A seguir à Itália somos o país com a justiça mais lenta entre os 45 países considerados. Um processo demora em média cerca de 430 dias a ser resolvido. Um outro dado significativo e muito curioso é que somos um dos países com um rácio maior de profissionais de justiça por 100 000 habitantes, 294,9, (envolve juízes, advogados, procuradores e notários). É notável, este facto transmite a ideia que esta gente toda se atropela, engarrafando processos e procedimentos.
Finalmente, a maior preocupação decorre da percepção de que ninguém parece verdadeiramente interessado em alterar este quadro. Sofrem os cidadãos individualmente e sofre a qualidade da vida cívica de um país que percebe o seu sistema de justiça como forte com os fracos, fraco com os fortes, moroso, ineficaz e, definitivamente injusto. É mau, muito mau.
A reforma do sistema de justiça é uma das componentes do programa estabelecido pela "troika". Pode ser que por imposição estrangeira, aí costumamos ser bons alunos, alguma mudança significativa possa ocorrer.
Oxalá.

O MEDO

Mãe, as coisas da escola vão ser difíceis?
Não Martim, para rapazes tão inteligentes como tu, a escola vai ser muito fácil. Vais ser o melhor aluno.
...
Mãe, e se eu não for capaz?
É impossível. Vais ser capaz, vais ser tão bom aluno como os teus irmãos, o Francisco e a Mariana, são. Eles são os melhores da escola.
...
Mãe, mas se não for?
Se não fores, vamos ter que encontrar algum professor que te ajude. Ninguém na nossa família é mau aluno. Tu também tens que ser muito bom. Só os melhores alunos é que são pessoas importantes quando são crescidos.

...
Mãe, mas é preciso ser mesmo o melhor, assim como o Francisco e Mariana?
Claro que é Martim. Quando não queremos ser os melhores nunca vamos ser bons. E tu tens que ser bom, vais tirar o mesmo curso do Pai e vais trabalhar com ele. E para isso tens que ser o melhor.
...
Nessa noite, o Martim sonhou que estava sozinho, no meio de uma enorme tempestade, numa noite muito escura, com muito vento e muita chuva. Acordou muito assustado e cheio de medo.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

SAÚDE MENTAL. Parente pobre nas políticas de saúde

A agenda das consciência marca para hoje a atenção ao Dia Mundial da Doença Mental. Por assim ser, duas notas.
A doença mental é algo que, obviamente, não constitui uma preocupação significativa em matéria de saúde em Portugal. Por outro lado e curiosamente, no discurso comum e, sobretudo no discurso político é muito frequente a utilização, que considero insultuosa, de terminologia própria à doença mental. Todos os dias ouvimos referências às posições ou discursos esquizofrénicos da oposição ou do governo, conforme os registos, às posições ou discursos que se consideram neuróticos ou obsessivos, a banalização do termo depressão, etc. Aliás, tal abuso já foi objecto de uma iniciativa na Assembleia da República no sentido de o combater.
Sabemos também que Portugal tem uma das mais altas taxas de consumo de psico-fármacos da Europa e diferentes estudos sugerem que um em cinco portugueses podem ter alguma forma de perturbação do foro da doença mental sendo que a perturbação da ansiedade parece ser a mais prevalente. É também conhecido o efeito que situações ameaçadoras ou de dificuldades podem ter no emergir de perturbações pelo que o cenário dos próximos tempos não se afigura animador.
O Público de hoje refere um trabalho apresentado pela Ordem dos Psicólogos sustentando a importância e o impacto que dispositivos de apoio às pessoas poderão ter na diminuição dos custos com a saúde, no bem-estar das pessoas e na diminuição do absentismo laboral.
Temos ainda um número excessivo de doentes mentais em situações de internamento quando o consenso terapêutico actual passa por um princípio de manutenção do doente mental em situação de integração social em situações variáveis desde a unidade residencial de pequena dimensão e funcionamento familiar com várias tipologias dirigida a problemáticas diversas, à unidade sócio-ocupacional, até às equipas de apoio familiar.
Pretende-se sobretudo evitar situações de internamento muito prolongado e, no caso de acrianças e jovens adequar as respostas aos quadros clínicos, sempre na perspectiva de manter um princípio de integração social e comunitária.
Eu gostava de ser optimista mas a experiência tem mostrado que a doença mental é, nas mais das vezes, um parente pobre no universo das políticas de saúde. Vamos ver.

OS NADADORES-SALVADORES

Com o fim da época balnear existem postos de trabalho, melhor dizendo, funções profissionais, que devido à sazonalidade entram em pousio até à próxima estação. Um exemplo desta situação é a dos "nadadores-salvadores".
Estes elementos que tão relevantes serviços prestam nas nossas praias marítimas e fluviais zelando pela segurança dos que, miúdos ou graúdos, correm riscos por negligência, acidente ou irresponsabilidade. Muita gente tem na sua história um aviso ou uma ajuda atempada deste pessoal que, curiosamente, não é raro ser incompreendido ou alvo de considerações injustas e que muitas vezes operam em condições bem difíceis.
Dada a situação de inactividade e considerando também a vantagem de manter empregos, sugiro que os "nadadores-salvadores" pudessem manter-se em funções ao longo do ano mas deslocando-se das praias para as escolas.
Pode certamente parecer-vos estranho mas penso que se justifica. São pessoas habituadas a estar atentos aos sinais que os outros emitem de que não estão bem e são capazes de perceber quem precisa de ajuda. Como sabem, muitas vezes nas escolas existem miúdos em risco de afogamento, no mal-estar que carregam, por exemplo, que se alguém atento aos sinais perceber pode evitar situações mais delicadas.
São pessoas que conhecem os mares e, por isso, podem ajudar a prevenir nos problemas que a agitação das ondas possa causar nos mais novos, mas não só, também nos mais velhos que estão na escola ou por lá passam, pais, funcionários e professores. Não é raro que em Portugal o mar da educação ande encapelado.
Os nadadores-salvadores são um exemplo de generosidade, correm riscos eles próprios para que a segurança dos outros possa ser preservada. Tal empenho e disponibilidade seriam muito úteis nas escolas, até como exemplo cívico.
Por estas razões parece-me perfeitamente pertinente a colocação dos nadadores-salvadores nas escolas. A sério.

domingo, 9 de outubro de 2011

DESPUDOR ÉTICO

Dois telegramas sobre o despudor ético em que vivemos, que me parece uma das faces mais devastadoras e preocupantes da chamada crise.
Durante a realização das eleições na Madeira, ao que foi reportado e confirmado, alguns eleitores são transportados às secções de voto em veículos pertencentes a empresas regionais acompanhados de autarcas, presumivelmente conduzidas por funcionários dessa empresas, abastecidos com o orçamento dessas empresas, etc.
Interrogado sobre se o facto da Comissão Nacional de Eleições considerar a situação grave não o incomodava, o Dr. Alberto João Jardim no seu jeito boçal, inimputável, arrogante e impune, disse que achava absolutamente normal, sempre assim se fez e que não se preocupava nem um bocadinho com o entendimento da Comissão Nacional de Eleições. Não comento.
No CM de hoje abordava-se o percurso de vida que a política permitiu a alguns cidadãos conhecidos , tendo chegado à acção política com parcos rendimentos, conseguiram uma extraordinária ascensão profissional, excelentemente remunerada, certamente devida aos seus méritos curriculares, ainda que desconhecidos. Recordavam-se os casos de Pina Moura, Armando Vara ou Dias Loureiro que, naturalmente, são apenas exemplos. Não comento.
Neste cenário de despudor, não é possível ouvir referências a austeridade ou sacrifícios sem um sobressalto de revolta e indignação que um dia, provavelmente, os nossos tão proclamados brandos costumes não serão capazes de segurar.

MÃES ADOLESCENTES QUE ABANDONAM OS BEBÉS

O Público de hoje apresenta um trabalho interessante sobre a situação do abandono de bebés por parte das mães. Os casos mais frequentes envolvem adolescentes, bebé resultante de ligação clandestina, questões económicas e situações de perturbação mental, não necessariamente por esta ordem.
Por ter sido a área menos abordada no trabalho, algumas notas sobre a maternidade em adolescentes. Embora se registe uma diminuição, Portugal continua a ser um dos países da Europa com mais alta taxa de gravidez na adolescência. Tal facto, evidencia a atenção que esta situação deveria receber. No entanto, ainda não há muito tempo tivemos uma enorme discussão pública sobre a distribuição de preservativos nas escolas e foi possível a perceber a grande disparidade e diferenças de ponto de vista sobre a questão. Parece oportuno relembrar que segundo os especialistas a diminuição do número de partos de adolescentes decorre da prevenção. Embora nestas matérias, como em todas as que dizem respeito à vida das pessoas, se deva considerar o universo de valores em presença, bem diferentes, é fundamental não esquecer as consequências devastadoras e dramáticas que a maternidade adolescente pode implicar, para a mães e para os bebés. A gravidez surge para muitas adolescentes e jovens como "um projecto de vida na ausência de outros" e num quadro de insucesso educativo.
Sabemos, a experiência mostra, que uma adolescente pode revelar-se uma excelente mãe, tanto quanto uma mulher madura pode ser uma péssima mãe ou, como hoje se referia, abandonar o bebé. Não podemos, nem devemos, promover avaliações prévias de competências maternais, a ética e a moral impedi-lo-iam, mas podemos combater discursos hipócritas sobre a educação em matéria de sexualidade e comportamentos de risco. Estes discursos alimentam a manutenção de situações que promovem em adolescentes, muitas vezes sem projecto de vida, um caminho e uma experiência para a qual não estão preparadas nem desejam, e promotora de sofrimento para todas as pessoas envolvidas, a começar, obviamente por uma criança, que sem ser ouvida, entra a sofrer neste mundo.

sábado, 8 de outubro de 2011

A "SUBSIDIODEPENDÊNCIA" É UM INSTRUMENTO DE PODER

Parece consensual a necessidade de protecção e apoios sociais a situações de risco de pobreza e exclusão. Estará sempre em aberto a discussão sobre montantes, critérios e regulação desses apoios, no fundo, as políticas sociais.
Como também parece natural, a situação de crise económica e o consequente aumento grave do desemprego potencia exponencialmente o risco de pobreza e contribui para um acréscimo das necessidades de apoio. Para complicar, as situações de crise fazem diminuir, a austeridade é a justificação, as disponibilidades de recursos para os apoios sociais. Fica, assim, instalada uma situação complicada e quase incompatível, aumento de necessidades e diminuição de recursos.
Do meu ponto de vista, este quadro decorre em larga medida de modelos assistencialistas que no que se refere a apoios a franjas sociais em situação e risco ou pobreza, assentam quase que exclusivamente na administração de subsídios a minimização de dificuldades. É certo que frequentemente esses subsídios são providenciados de forma mascarada, por exemplo promover nos desempregados a frequência sucessiva de acções de formação quase inúteis e sem impacto na obtenção de emprego, mas alimentam a cultura de "subsidiodependência". Um trabalho hoje divulgado no Público ilustra a falta de eficácia do Rendimento Social de Inserção pois um quarto dos que dele beneficiaram reincide na necessidade desse complemento e demonstra a dificuldade de quebrar o ciclo de pobreza.
No que respeita, por exemplo, ao subsídio de desemprego, creio que deveriam ser privilegiadas estratégias mais centradas na criação de emprego do que subsídio ao desemprego.. O universo da chamada economia social, a administração local, empresas participadas, programas no âmbito da designada responsabilidade social das empresas incluindo incentivos, por exemplo de natureza fiscal, poderiam acolher e criar de forma flexível bolsas de emprego, de duração variada ou mesmo permanente, deixando a atribuição do subsídio para situações minoritárias de incapacidade ou necessidade extrema.
A questão é que atribuir subsídios, criar "subsidiodependência" é uma forma muito significativa de criar e alimentar poder. E como sabem, o poder parece ser a razão última das políticas.

O MAL-EDUCADO. Outro diálogo improvável

És um cabeça no ar.
Antes no ar que enterrada no chão como a avestruz.
Estás sempre na Lua.
Quero ser astronauta.
Não vais ser ninguém na vida.
Óptimo, quero ser alguém, não quero ser ninguém.
Não passas de um cabeça de vento.
Estou numa de energias alternativas.
Só fazes coisas sem jeito.
Para isso tenho jeito.
Como é que queres que alguém goste de ti?
Gostando.
Estás sempre distraído.
Não, estou concentrado noutra coisa.
Fazes tudo ao contrário dos outros.
Sou original.
Dessa maneira não vais a lugar nenhum.
Melhor, assim vou a algum lugar em vez de nenhum.
Afinal, que vida vai ser a tua?
Esta, a minha.
Não sei mais o que te diga.
Estude um pouco mais.
Definitivamente, és um mal-educado.
Definitivamente, considerando que não me educo sozinho, de quem é a responsabilidade?

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

DOIS PAIS, DUAS MÃES

Em conferência realizada hoje em Lisboa debate-se a homoparentalidade, matéria que entra na agenda sempre que se discute a adopção por parte de casais homossexuais que em Portugal não é permitida. Esta questão é, na maior parte das vezes dirimida mais em torno dos valores que da racionalidade da argumentação. Sem querer, nem sequer consigo, trazer nada de novo para a discussão, apenas umas notas.
As três grandes preocupações ou obstáculos mais frequentemente aduzidas para impedir a adopção por casais homossexuais são a eventual dificuldade da criança em lidar com a sua orientação sexual, a vulnerabilidade psicológica e problemas de comportamento e o risco de discriminação nos contextos escolares. Uma revisão exaustiva de estudos sobre estas questões realizada pela Associação Americana de Psicologia não confirmou nenhuma destas preocupações o que também transparece em alguns testemunhos expressos num trabalho do Público.
Neste sentido, podemos também lembrar que a maioria das pessoas homossexuais terão sido educadas em famílias heterossexuais, que existem crianças com sérios problemas emocionais e vulnerabilidade psicológica a viverem situações familiares heterossexuais e, finalmente, que existem múltiplos casos de crianças discriminadas em contexto escolar o que não nos faz retirar de lá as crianças mas, pelo contrário, combater a discriminação.
Do meu ponto de vista e de uma forma propositadamente simplista, a questão central é o que faz mal às crianças é serem maltratadas e os maus tratos não decorrem do tipo de famílias mas do tipo e competência dos pais. Quando as crianças são bem tratadas e crescem com adultos que gostam delas, as protegem e as ajudam a crescer elas encontram caminhos para lidar com dois pais ou com duas mães.
O que as crianças quase sempre não sabem como resolver é quando têm por perto adultos, heterossexuais, que não gostam delas, que as maltratam, negligenciam, abandonam, etc. Isso é que faz mal às crianças.
O resto é uma discussão não conclusiva, assente em valores de que não discuto a legitimidade, mas que não podem ser confundidos com um discurso de defesa das crianças de males que estão por provar.
É mais importante defendê-las dos males comprovados e que todos os dias desfilam aos nossos olhos.

PERNAS PEQUENAS, PASSOS PEQUENOS

Um dia destes, numa roda de gente ligada às coisas dos miúdos e da educação, comentava-se como se assiste cada vez maior frequência a uma pressão, designadamente por parte das famílias para, por assim dizer, os meninos crescerem mais depressa, sobretudo em termos escolares.
Este crescer mais depressa não deve ser visto, felizmente, como a narrativa de Soeiro Pereira Gomes sobre os homens que nunca foram meninos por lhes ser roubada a infância, mas entendido no sentido de acelerar a progressão escolar dos miúdos.
Esta situação surge, por exemplo, em miúdos que entram para a escola com cinco anos deparando-se com solicitações que, por vezes, não estão em condições de responder, ou seja, são-lhes pedidos passos maiores do que as suas pernas pequenas permitem dar.
Como a escola, de uma forma geral, sente enorme dificuldade em gerir passadas, chama-lhes ritmos, diferentes, espera-se que estes miúdos acompanhem os seus pares mais velhos um ano, o que nestas idades é tempo significativo.
Alguns destes miúdos acabam por cumprir o 1º ciclo de forma periclitante e com insuficiências e ao transitar para o 2º ciclo deparam-se com mudanças significativas nos aspectos funcionais, de organização, número de professores, disciplinas, quantidade materiais e espaços, por exemplo, pelo que emerge a sua, digamos, imaturidade ou dificuldade de resposta a esta novo conjunto de exigências levando a que muitos deles desenvolvam quadros de reacção negativa à escola, falta de confiança nas suas capacidades, instabilidade emocional que os deixa em circunstâncias vulneráveis e provoca nos pais reacções de ajuda bem-intencionada como, por exemplo, “explicações”, aumentando, assim, a pressão sobre os miúdos pois, quando se tem “explicação” ainda menos se justificam as dificuldades.
A questão central não tem a ver com mais trabalho escolar, tem a ver com o tamanho das pernas dos miúdos. Como o povo costuma dizer, só podemos dar passos do tamanho das pernas. Deixemos, pois, os miúdos crescer no seu tempo e no seu passo, eles vão chegar lá, não precisam de crescer à pressa, como sabem, depressa e bem não há quem.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A TROIKA CUIDA DE MERCADOS, NÃO DE PESSOAS

Apesar de há dois dias ter deixado aqui algumas notas a propósito do anúncio do Ministro Nuno Crato de que o orçamento para a educação em 2012 teria um corte de 600 milhões de euros, hoje volto ao assunto.
Segundo o Público, os cortes na educação são já o triplo do exigido pela troika. Como sempre afirmei, a troika procurou fazer um negócio com Portugal que acautelasse os interesses dos mercados, os deuses que nos regem e que têm andado nervosos e sem confiança. Se atentarmos nos juros que a “generosa ajuda” da troika cobra aos países em dificuldade e, por isso, “ajudados”, percebemos como a caridade desinteressada é tão cara.
A troika, para ter a certeza que os interesses dos seus representados não corre riscos cria uma série de exigências garantindo, assim, que voltaremos aos mercados, o supremo objectivo da ajuda, sempre os mercados.
Neste contexto, quando o MEC cujo “core”, para falar a língua da gestão, é educação, ou seja pessoas, e não mercados, decide cortar, cortar, em muitos casos com óbvias consequências na qualidade da vida educativa de quem educa e de quem é educado, o caminho parece muito inquietante. Como é evidente, este discurso não esquece a necessidade óbvia de combater desperdício e ineficácia, mas sempre, sempre, com as pessoas no horizonte, não os mercados.
Curiosamente, na 1ª página do CM refere-se que os apoios sociais sofreram cortes de 1,3 mil milhões de euros. Lá estamos outra vez a falar de pessoas.
A educação, traduzida na qualificação bem sucedida dos alunos, é o garante do futuro e, se quiserem, até dos próprios mercados. Nesta perspectiva, que apesar de ser um lugar-comum é obviamente verdadeira, não podemos correr o risco de, para proteger os interesses dos nervosos mercados, criar recessão e exclusão e hipotecar de forma indesculpável o desenvolvimento e a qualidade educativa do trabalho com as gerações em formação.
O futuro custar-nos-á muito mais caro do que o presente e o Ministro que é especialista em contas deveria ser bastante mais cauteloso e menos troikista que a troika, o seu “core” é pessoas e não mercados, achava eu. Não teremos Novas Oportunidades, as que conhecemos levantam dúvidas sérias.

A HISTÓRIA DO ARTESÃO

Uma vez conheci um Artesão como não há muitos, era um homem de uma sabedoria e de um amor à sua arte que impressionava.
Desde miúdo que sonhava dedicar-se à arte que viria a ser a sua. Preparou-se bem e mesmo já a trabalhar sempre procurou compreender mais, falando com outros mestres e outras pessoas que o Artesão entendia que o podiam ajudar a ser melhor.
Mesmo sendo um Artesão muito experiente e trabalhando sempre com a mesma matéria, quando começava cada trabalho estudava e pensava em cada peça que iniciava. Muitas vezes fazia o mesmo tipo de trabalho mas sabia que os materiais nunca são exactamente iguais e por isso não podem ser sempre trabalhados da mesma maneira. O Artesão dizia muitas vezes que temos de respeitar as diferenças nos materiais, só assim conseguiremos que eles acabem por se transformar em peças valiosas e, na verdade, as peças que saíam das mãos do Artesão eram peças valiosas, muito valiosas.
O Artesão referia frequentemente que algumas das peças se tornavam muito fáceis de produzir, tinham características próprias que lhe facilitavam o trabalho, outras, como ele dizia, davam luta, resistiam ao trabalho, às vezes nem corria bem, mas, quase sempre conseguia algo de interessante e bonito.
Este Artesão tinha uma outra qualidade que o tornou conhecido, não guardava a sua arte só para si, gostava de falar dela, de ajudar os mestres que estavam a começar e que também apreciavam o seu trabalho e a sua ajuda.
Coisa estranha, agora que estou a acabar a história do Artesão reparei que não referi a arte a que se dedicava. Era Professor. A sério.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

DIA MUNDIAL DO PROFESSOR. Pensemos então nos professores

Há minutos assisti, via RTP, a um espectáculo deprimente, a inauguração da sede do Sindicato dos Professores da Madeira. Em campanha eleitoral, o inimputável Alberto João procedeu a uma das várias inaugurações do dia. O evento contou com a presença simpática de Mário Nogueira que, com um ar sério, disse que estava ali por ser o Dia Mundial do Professor, não tendo a sua presença a ver com o Dr. Alberto João. Este, certamente em agradecimento da presença de Mário Nogueira, achou por bem afirmar que era contra a avaliação de professores. Confesso que precisei de procurar com urgência um Vomidrine. Já estou melhor.
Na verdade, como lembrou Mário Nogueira, a agenda das consciências manda que a 5 de Outubro se assinale o Dia Mundial do Professor pelo que hoje é dia de pensar nos professores.
Pensemos então na importância essencial e na responsabilidade que o trabalho dos professores assume na construção do futuro. Tudo passa pela escola e pela educação.
Pensemos no que é ser professor hoje, em algumas escolas que décadas de incompetência na gestão urbanística e consequente guetização social produziram.
Pensemos em como os valores, padrões e estilos e vida das famílias se alteraram fazendo derivar para a escola, para os professores, parte do papel que compete à família.
Pensemos na forma como milhares de professores cumprem a sua carreira de poiso em poiso, sem poiso e sem condições, muitos deles sem a possibilidade de desenharem projectos de vida para si quando são os principais responsáveis por lançar projectos de vida para os miúdos com quem trabalham. E não nos esqueçamos também da imprescindível necessidade de que o seu trabalho seja avaliado com justiça, rigor e exigência.
Pensemos nos professores que nos ajudaram a chegar ao que hoje cada um de nós é, aqueles que carregamos bem guardadinhos na memória, pelas coisas boas, mas também pelas más, tudo contribuiu para sermos o que somos.
Pensemos em como os professores são injustiçados na apreciações de muita gente que no minuto a seguir a dizer uma ignorante barbaridade qualquer, vai numa espécie de exercício sadomasoquista entregar os filhos nas mãos daqueles que destrata, depreendendo-se assim que, ou quer mal aos filhos ou desconhece os professores e os seus problemas.
Pensemos como é imprescindível que a educação e os problemas dos professores não sejam objecto de luta política baixa e desrespeitadora dos interesses dos miúdos, mesmo por parte dos que se assumem como seus representantes.
Pensemos em como a forma como os miúdos, pequenos e maiores, vêem e se relacionam com os professores está directamente ligada à forma como os adultos os vêem e os discursos que fazem.
Pensemos, finalmente, como ser professor deve ser uma das funções mais bonitas do mundo, ver e ajudar os miúdos a ser gente.

A HISTÓRIA DO ATRASADO

Era uma vez um homem chamado Atrasado que é um nome estranho para alguém ter, mas era assim mesmo.
Quando o Atrasado chegou à escola percebeu-se logo como ele andava atrasado, os outros já sabiam muitas coisas que o Atrasado não sabia, por exemplo, o Atrasado nem sequer percebia muito bem para que servia a escola.
Como é sabido e acontece em todas as histórias, quando as coisas começam atrasadas fica mais difícil acertar o tempo. Também foi assim com o Atrasado, o que lhe ia acontecendo era sempre depois do tempo.
Não acertou com a escola, chegou atrasado, atrasado saiu. Não acertou com o trabalho porque o tempo do Atrasado não era o tempo das outras pessoas.
Não encontrou uma família, porque ninguém esperou por ele, as pessoas não gostam de esperar por Atrasados.
Por ironia do destino só numa coisa o Atrasado se adiantou, chegou muito cedo ao fim da vida.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

POUPAR NO PRESENTE, PODE SER PERDER O FUTURO

Creio que nenhum de nós, que conheça ou esteja minimamente atento ao funcionamento da administração pública nas suas mais variadas dimensões e áreas, duvida de que existe um volume significativo de desperdício e de ineficácia, quer ao nível da gestão e funcionamento, quer ao nível dos recursos mobilizados, humanos e materiais. Também no universo da educação se verifica esta situação.
Neste cenário, independentemente da conjuntura particularmente difícil em termos económicos e financeiros que atravessamos, é razoável e necessário um esforço de combate e contenção relativos ao desperdício e à ineficácia.
No entanto e pensando no caso particular do sistema educativo, este esforço não pode colocar em causa a qualidade e os apoios necessários ao trabalho bem sucedido dos alunos, dos professores, dos técnicos e funcionários, enfim, como se costuma dizer, da escola.
O ano lectivo que agora se iniciou ficou marcado por inúmeras dificuldades, boa parte derivada das implicações nos cortes orçamentais, caso da falta de professores e funcionários bem como atrasos no fornecimento dos manuais e materiais escolares. Como o povo costuma dizer o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita, numa outra versão, de pequenino é que se torce o pepino (destino).
Ao que relata o Público, o Ministro Nuno Crato terá anunciado num encontro com a imprensa estrangeira que o Ministério da Educação terá o seu orçamento para 2012 reduzido em mais de 600 milhões de euros. Parece-me preocupante.
A educação, traduzida na qualificação bem sucedida dos alunos, é o garante do futuro. Nesta perspectiva, que apesar de ser um lugar-comum é obviamente verdadeira, não podemos correr o risco de, ao combater em termos contabilísticos uma situação aflitiva imediata, hipotecar de forma indesculpável o desenvolvimento e a qualidade educativa do trabalho com as gerações em formação.
O futuro custar-nos-á muito mais caro do que o presente e o Ministro é especialista em contas. Não teremos novas oportunidades, as que conhecemos levantam dúvidas sérias.

A TEMPERATURA NÃO VAI BAIXAR

O país anda meio perplexo e encalorado com as temperaturas que Setembro e Outubro estão a proporcionar, o que na gíria da meteorologia se chama estar "acima da temperatura média para esta altura do ano".
Do ponto de vista meteorológico a coisa parece que irá acalmar a partir de 5ª mas temo que a temperatura continue elevada.
Uma rápida vista de olhos pela imprensa é elucidativa. Vejamos alguns exemplos, "Isaltino. Estratégia dos recursos pode evitar a pena", no I. No Público pode ler-se que "Isaltino pede afastamento da juíza".
No DN um trabalho mostra como sete famílias madeirenses tomaram conta do arquipélago há 30 anos à sombra de Alberto João e sublinha-se o pedido de Cavaco Silva para que os portugueses "não desistam". Ainda no que se refere à Madeira temos para saber as implicações para todos nós dos desvarios irresponsáveis a gestão de Alberto João Jardim que todos os dias continua imparável, a inaugurar e a insultar. No Diário Económico dizem-nos que desde 2009, o Fisco já constituiu arguidos 6.460 administradores e gestores de empresas que ficam com IRS dos trabalhadores e com IVA pago pelos clientes.
O CM coloca em primeira página que "Disparam queixas contra bancos". Nos últimos dias foi tornado público um documento interno da PSP sobre a prevenção de movimentos de contestação e revolta social a que o Primeiro-ministro já se tinha referido numa discutível estratégia antecipatória.
Pois é, estamos no Outono, daqui a pouco estaremos em cima do Natal e a temperatura não me parece que vá descer, antes pelo contrário.

OS JORNAIS SÃO COMO OS DIAS, NUNCA ACABAM

O Público de hoje volta a um recorrente assunto dos últimos anos, o futuro sempre discutido dos jornais face aos novos desenvolvimentos tecnológicos. Este tipo de discussões é frequente envolvendo também e por exemplo, os livros e a música.
Não me vou referir aos conteúdos do trabalho, apenas retomo o excelente texto de José Vítor Malheiros, como lhe é habitual, intitulado "Nenhum gadget vai salvar o jornalismo". O texto termina com "O jornalismo só sobreviverá, se o for realmente. E, se não for, que morra, Alguma coisa aparecerá".
De facto, apesar das mudanças em tecnologia e das incidências do mercado, acredito que os jornais, são como os dias, nunca acabam. Se forem jornais, bons jornais. Ao ler o texto, ao pensar nestas linhas, lembrei-me de jornais e jornalistas que me têm acompanhado ao longo da vida e que me fazem manter leitor diário de jornais em papel. Apesar de também consumir informação noutros suportes, não é a mesma coisa.
Sem a preocupação de ser exaustivo ou seguir qualquer ordem que não seja a memória, algumas referências que vão dentro da minha mochila.
Quando era miúdo aguardava com a maior das ansiedades que o meu pai chegasse do trabalho no Arsenal do Alfeite para trazer a Bola já lida por muitas mãos e onde se "aprendia" a ler com o Vítor Santos ou o Aurélio Márcio.
Lembro-me como a adolescência e juventude ficaram ligadas a títulos como o Comércio do Funchal com Vicente Jorge Silva, o Jornal do Fundão com o António Paulouro ou o Notícias da Amadora, janelas, frestas, por onde se espreitava a realidade um regime espesso e fechado teimava em esconder e censurar.
Recordo com saudade o Diário de Lisboa com o suplemento A Mosca com Luís Sttau Monteiro ou as ilustrações do Abel Manta ou o Diário Popular com o Baptista Bastos que ainda anda por aí. A circunspecção formal e competente do Diário de Notícias com Mário Mesquita e o outro Mário, o Bettencourt Resendes ou a inovação e agitação trazida pelo Independente de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas. Não esqueço a abertura possível verificada com a "ala liberal" de Pinto Balsemão ou Sá Carneiro ligada ao Expresso que mexeu seriamente com o jornalismo em Portugal.
Finalmente, o registo do aparecimento do Público, um companheiro com quem me zango tantas vezes mas que continua a entrar diariamente cá em casa na versão papel.
Pois é, meu caro José Vítor Malheiros, os jornais são como os dias, nunca acabam. Enquanto fizerem jornalismo.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

ATESTADOS DE BAIXA MÉDICA. Problema da medicina ou da ética e deontologia?

Segundo o Público, a Ordem dos Médicos irá apresentar em breve uma proposta ao Ministério da Saúde no sentido de dispensar a exigência de atestado médico impeditivo de trabalho em algumas circunstâncias clínicas, como casos de gripe ou enxaquecas. A proposta radica, de forma sintética em duas ordens de razões, a sobrecarga dos serviços com estes pedidos e a dificuldade que em alguns quadros clínicos o próprio médico terá em atestar a impossibilidade de trabalho. Assim, a proposta da Ordem remete para responsabilidade do cidadã ou seja, para sua consciência ética e deontológica. É aqui que, do meu ponto de vista reside a questão. A realidade não é a projecção dos meus desejos pelo que vejo com sérias reservas esta confiança depositada no cidadão.
Todos nós a temos mais profunda consciência que a utilização da baixa é apenas mais um dos muitos "esquemas" em que vivemos mergulhados. A baixa permite o biscate que compõe orçamentos familiares, liberta uns diazinhos de descanso, etc., e, é bom que se diga, trata-se de um fenómeno que atravessa várias estratos sociais. Ainda há pouco tempo, se noticiava a existências de milhares de casos de baixa médica que não resistiram a uma acção de fiscalização, trata-se da cultura instalada e da relação ética com o trabalho, trata-se do "porreirismo" e, finalmente, da impunidade e bonomia laxista com que tudo isto é encarado.
Por outro lado, apesar da dificuldade dos clínicos na avaliação de sintomas eventualmente impeditivos de trabalho, também todos conhecemos casos, muitos casos, de baixa consciência deontológica, para ser simpático, de médicos que de forma leviana assinam baixas médicas com a maior das facilidades. Em muitos locais se conhecem uns "doutores" a quem recorrer para arranjar um "atestadinho".
Eu ainda gostava de viver num tempo em que a proposta da Ordem do Médicos no sentido do cidadão avaliar as suas próprias condições para trabalhar, fosse a regra e aceite sem desconfiança. No entanto, como já disse, a realidade não é a projecção dos meus desejos.

AS BIRRAS SÃO NORMAIS. Não precisamos de super-pais

O JN de hoje chama a atenção para o mais recente livro do Professor Mário Cordeiro, homem sensato e conhecedor de miúdos, dedicados às birras e aos medos que, por vezes, afligem os mais novos e, sobretudo, os pais dos mais novos.
A perspectiva do livro, desdramatizando e "normalizando" a vida dos miúdos, parece-me muito interessante e importante.
De há uns tempos a esta parte parece que o mundo acordou para as dificuldades que os pais sentem no seu trabalho de pais, um dia conversaremos sobre eventuais razões para este movimento. Com regularidade são publicadas obras, de origem nacional ou de fora, escritas sob diferentes perspectivas mas todas elas procurando ensinar-nos o ofício de pai, como lidar com birras, com os problemas dos adolescentes, com a escola e os seus problemas, como lidar com os filhos e com os amigos dos filhos, como comunicar com eles, como gerir os seus gostos e as suas crises, como agir nas férias, como ocupar os fins-de-semana, como dialogar em família, como perceber a “cabeça” dos mais novos, como definir regras e disciplina, que alimentação e estilos de vida, como ocupar os tempos livres, que actividades fazem melhor a quê, etc. etc. tudo escrutinado e analisado de modo a fornecer-nos, crê-se, um manual de instruções. A imprensa, em diferentes registos, acompanha a onda, em variadíssimas secções, colaborações e colunas de aconselhamento providenciam-nos receitas, dicas, sugestões exactamente com o mesmo efeito mas em versão telegráfica.
Curiosamente, este frenesim assenta, parece, na melhor das intenções, tornar-nos bons pais. Pela avalanche de ajuda parece que não estamos a conseguir e a experiência mostra-me que muitos pais se sentem assustados com alguns dos discursos que lhes são dirigidos, tanto quanto com algumas das dificuldades que, por vezes, sentem com os miúdos.
Começo a sentir que está fazer falta alguma tranquilidade e serenidade que devolvam aos pais confiança em si e na sua capacidade para exercer bem o papel embora saiba que às vezes, não é fácil. Ser pai não é mobilizar de forma prescritiva um conjunto de “práticas” receitadas por tudo quanto é especialista. É melhor deixar que os pais falem e encontrem por si a forma de fazer. No fundo a maioria saberá como, precisa apenas de se sentir confiante e tranquilo. Os que verdadeiramente precisarão de ajuda serão bastante menos.
Não precisamos de super pais.

O CARTEIRO

Hoje, ao terminar a leitura do Expresso encontrei na Revista um trabalho muito interessante composto de fotografias tiradas pelos carteiros ao longo do país e de algum texto e informação a propósito. A beleza das fotografias e do trabalho em termos gerais, deixou-me a pensar na simpatia que tenho, de há muito, por estes profissionais.
Recordei que há algum tempo um estudo realizado em Portugal sobre os níveis de confiança dos portugueses em diferentes classes profissionais, mostrava que bombeiros, professores e carteiros são os profissionais em quem os portugueses mais parecem confiar. Na altura da divulgação achei interessante a confiança expressa por nós em quem cuida do nosso bem-estar e ajuda em caso de necessidade, os bombeiros, em quem nos constrói o futuro, os professores, cuidando do nosso mais precioso bem, os filhos, e em quem nos traz as notícias do mundo, os carteiros, provavelmente, com a secreta esperança de que sejam sempre boas notícias.
As cartas e postais de natureza pessoal, lamentavelmente em vias de extinção, são bastante mais inteligentes que os e-mails, não estão sujeitas a infecções virais, a "forwards" tontos e impessoais e à complementar praga de "junke" e-mail. São os carteiros que as trazem e que, em muitos locais, mais do que imaginamos quando vivemos em zonas urbanas, conhecem os destinatários e prestam um serviço que significa bem mais do que a entrega de correspondência.
Ainda me lembrei com alguma saudade do Sr. Gonçalves, o carteiro da minha zona quando eu era adolescente. O Sr. Gonçalves que já partiu há alguns anos, era um homem de grandes bigodes, forte, tinha que o ser para transportar aquele enorme saco de cabedal castanho, e amigo da gente nova. Era uma figura. Vou partilhar um segredo convosco, mas peço que mantenham a devida reserva. Durante algum tempo, o Sr. Gonçalves e eu tivemos um acordo. Ele mostrava-me os postais que vinham do liceu dirigidos ao meu pai com as notas e as faltas e eu, quando o encontrava à tarde de vez em quando, pagava-lhe uma cerveja na tasca do meu tio. Já vos tenho dito que não fui um aluno brilhante, longe disso, no que respeita ao comportamento, é melhor nem falar. A cumplicidade com o Sr. Gonçalves no sentido de, por amor filial que compreenderão, proteger o meu pai de notícias menos agradáveis, era conseguida, eu acho, porque ele, no fundo, acreditaria que talvez eu não fosse um caso perdido. E não era, ele entendia de miúdos.
E eu gostava do carteiro, do Sr. Gonçalves.

domingo, 2 de outubro de 2011

PRENDA-SE A MERITÍSSIMA JUÍZA

Ao que parece, diz-se cada coisa, a juíza que decidiu mandar executar a prisão de Isaltino Morais só está há um mês no Tribunal de Oeiras.
A notícia é omissa mas presumo que também não deve ter estado em Portugal nas últimas décadas. A meritíssima juíza esqueceu, ou não sabe, que apesar de várias decisões de condenação, ainda existem variadíssimos recursos, expedientes e manhas para usar até à prescrição final dos alegados (acho notável este termo) crimes alegadamente cometidos por Isaltino Morais.
A meritíssima juíza esqueceu também, ou não sabe, que o sistema de justiça em Portugal é isso mesmo, um sistema, e deveria saber que não se afronta um sistema de que Isaltino Morais é uma figura emblemática.
Estes enormes erros da meritíssima juíza irão custar certamente um pedido de indemnização altíssimo por parte de Isaltino Morais alegando danos morais e patrimoniais por ver a sua imagem lesada e, já é publico, um inquérito à meritíssima juíza que ela sim, será condenada.
É preciso de uma vez por todas colocar a justiça no bom caminho. Não se pode de ânimo leve e de forma impune dar cabo da impoluta imagem de um cidadão.
Prenda-se a juíza.
Pobre Portugal dos Pequeninos, entregue aos Isaltinos.