quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

A REVOLUÇÃO EM CURSO


Como sempre me interessam as boas práticas em educação não pude deixar de ler.
A introdução ao trabalho afirmava “A autonomia curricular tem produzido uma variedade inédita de métodos de ensino. A jornalista Filomena Abreu e o fotojornalista Artur Machado mostram a explosão da criatividade em seis escolas públicas e privadas, de norte a sul do país.”
A primeira experiência recolhida para ilustrar a revolução em curso através da explosão de criatividade envolvia uma turma do 6º ano e tratava-se da realização de uma … tcham, tacham (como diz o meu neto),  … Assembleia de Turma, isso mesmo, uma Assembleia de turma em que se analisavam os incidentes diários. Na continuação da leitura ainda pensei que iria conhecer integrar  mais artefactos explosivos inovadores, ainda me poderia deparar com um dispositivo x.0, a imprensa Freinet, por exemplo. O que se descreve são, de facto boas práticas, com gente empenhada e competente mas ... revolucionárias?!, uma explosão de criatividade?!
Talvez tenha acordado mal disposto, talvez o meu cansaço dos discursos sobre a “inovação”, “o novo paradigma” já me mine a paciência e a resiliência ressente-se. Desculpem.
Um dos mais badalados avanços do DL 54 foi definir um novo paradigma e acabar com a “categorização”. Nem mais uma vez referiríamos os “CEIs”, os “NEEs” ou os “redutores”. 
Ler ou ouvir que se trabalha com 5 “adicionais” e dois “selectivas” ou com 6 “universais” ilustra o novo paradigma que eliminou a categorização.
O mantra é a flexibilização mas parece continuar a azáfama “grelhadora” que burocratiza e desgasta sem que o benefício pareça compensar o custo.
Não precisam de me dizer, eu sei, há gente e escolas a realizar trabalhos notáveis como sempre aconteceu. Merecem divulgação e reconhecimento.
Mas, por favor, não me vendam que está tudo bem, que apenas se verificam pontuais incidentes próprios dos processos de mudança, não me digam que estamos na antecâmara da educação de qualidade para todos. Não é o mesmo que uma sala de aulas para todos.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

A PROVA DE OBSTÁCULOS QUE PARECE NÃO TER FIM


Recorrendo a opiniões de elementos de diversos partidos e do testemunho de pessoas com deficiência o Público faz num trabalho breve mas elucidativo o balança do que foi deito e e quanto está por fazer no respeito dos direitos, de todos os direitos, e bem-estar das pessoas com deficiência. São por demais evidentes as dificuldades em áreas como, educação, saúde, trabalho e emprego, segurança social, acessibilidades, autonomia, independência ou autodeterminação.
De facto, as crianças, jovens e adultos com necessidades especiais, as suas famílias e muitos professores e técnicos de diferentes áreas sabem, sobretudo sentem, um conjunto enorme de dificuldades para, no fundo, assegurar não mais do que algo básico e garantido constitucionalmente, os seus direitos. É assim que as comunidades estão organizadas, pelo que não representa nada de extraordinário e muito menos um privilégio.
Como também é evidente, as minorias são sempre mais vulneráveis, falta-lhes voz.
Como sempre afirmo, os níveis de desenvolvimento das comunidades também se aferem pela forma como cuidam das minorias. Lamentavelmente estamos num tempo em que desenvolvimento nem sempre significa bem-estar para todas as pessoas.


DOS TPC. DE NOVO


No período de dedicado ao espírito natalício em que as prioridades se reajustam surgiu uma notícia curiosa no DN  que não referi na altura mas qu agora retomo.
O Governo Autónomo de Valência, Espanha, estabeleceu uma Lei de Direitos e Garantias para Crianças e Adolescente que estabelece como orientação que os alunos entre os seis e os 16 anos devem realizar a maioria das actividades de aprendizagem durante o horário escolar. A lei que não é obrigatória pretende que sejam minimizados o recurso aos chamados “trabalhos de casa”.
Entende que crianças e adolescentes são "cidadãos de pleno direito" e estabelece que o brincar e as diferentes actividades de jogo devem fazer parte do seu quotidiano como dimensão essencial da sua no seu desenvolvimento, bem-estar e socialização.
Embora esta lei tenha um sentido de orientação e não de obrigação não simpatizo com legislação sobre esta questão, os trabalhos de casa, como, aliás existe noutros países. No entanto, como tantas vezes tenho escrito é uma questão que vale a pena reflectir até por outras razões não referidas na introdução em cima decorrente da Lei aprovada na comunidade autónoma de Valência.
Talvez fruto do clima de fortíssima crispação que nos últimos anos envolve a educação, os debates e as ideias também tendem a ser crispados, com opiniões definitivas e sem margem de entendimento. Também assim tende a acontecer quando se discute a questão dos TPC, ser contra ou ser a favor. Mais uma vez e sem qualquer visão fundamentalista fica um contributo para uma discussão e mudanças que me parecem necessárias, aliás, umas não vão sem a outra.
Segundo a OCDE num trabalho "Does homework perpetuate inequities in education?" produzido com base em dados recolhidos no âmbito do PISA nos anos de 2003 e 2012 os alunos portugueses de 15 anos, dados de 2012, gastam em média 4h semanais na realização de trabalhos de casa, menos uma hora que em 2003 e menos uma hora que a média dos 38 casos estudados pela OCDE.
Do meu ponto de vista, os dados mais relevantes deste relatório remetiam para o facto de que os alunos com famílias de meios sociais e económicos mais favorecidos gastarem mais 2 horas em trabalhos de casa que os seus colegas com famílias de estatuto mais baixo o que, sublinha a OCDE, poderá alimentar a falta de equidade.
Neste contexto, parece-me pertinente recordar que o nível de escolaridade dos pais, em Portugal conforme todos os estudos conhecidos é um fortíssimo preditor do sucesso escolar dos filhos.
Estes dados sustentam o entendimento de que os trabalhos de casa correm o sério risco de alimentar desigualdade de oportunidades e obriga-nos a reflectir sobre a sua utilização.
Parece-me também importante o facto de que no nosso sistema educativo os alunos do 1º, 2º e 3º ciclo podem passar 8 ou 10 horas diárias na escola considerando o tempo lectivo, as Actividades de Enriquecimento Curricular e a Componente de Apoio à família, (no limite algumas crianças poderão estar 55 horas semanais na escola, uma enormidade). Este tempo de permanência na escola é um dos mais longos dos países da OCDE. Acresce que em muitas circunstâncias, muitos alunos têm ainda Trabalhos Para Casa que, nas mais das vezes, são a continuação ou a réplica de trabalhos escolares, ou seja mais do mesmo.
Não tenho nenhuma posição fundamentalista, insisto, mas creio que deve distinguir-se com clareza o Trabalho Para Casa e o Trabalho Em Casa. O TPC é trabalho da escola feito em casa, o trabalho em casa será o que as crianças podem fazer em casa que, não sendo tarefas de natureza escolar, pode ser um bom contributo para as aprendizagens dos miúdos. O que acontece mais frequentemente é termos Trabalhos Para Casa e não Trabalho Em Casa.
Os TPC clássicos têm ainda o problema de colocar com frequência os pais em situações embaraçosas, querem ajudar os filhos mas não possuem habilitações para tal.
A propósito, numa reunião de pais em que participava e se discutia esta questão, dizia uma mãe, “o senhor, da maneira que fala, se calhar é capaz de ajudar o seu filho, mas na minha casa, chora a minha filha e choro eu, ela porque quer ajuda, eu porque não sou capaz de lha dar.” Colocar os pais nesta posição parece-me discutível, no mínimo.
Sim, eu sei, que é apenas uma situação, não é a floresta mas dá que pensar.
Torna-se, pois, necessário que professores e escolas se entendam sobre esta matéria, diferenciando trabalho de casa, igual ao da escola, de trabalho em casa, trabalho em que qualquer pai pode, deve, envolver-se e é útil ao trabalho que se realiza na escola.
Tudo isto considerado, o recurso ao TPC deveria avaliar se o aluno, cada aluno, tem capacidade e competência para o realizar autonomamente, por exemplo, o treino de competências adquiridas. Na verdade, porque milagre ou mistério, uma criança que tem dificuldade em realizar os seus trabalhos na sala de aula, onde poderá ter apoio de professores e colegas, será capaz de os realizar sozinha em casa? Naturalmente tal só acontecerá com a ajuda dos pais ou, eventualmente, de "explicadores" a que muitas famílias, sabemos quais, não conseguem aceder.
No entanto, do meu ponto de vista, sobretudo nas idades mais baixas, o bom trabalho na escola deveria dispensar o TPC. É uma questão de saúde e qualidade de vida.
Parece ainda de sublinhar que os estudos sugerem que "é sobretudo a qualidade das aulas, mais do que o tempo global de aprendizagem que está associado ao sucesso na aprendizagem. Aliás, no citado relatório da OCDE também se conclui que não há uma relação significativa entre o número médio de horas gastas nos TPC e os resultados escolares.
Andaríamos melhor se reflectíssemos sem preconceitos e juízos fechados sobre questões desta natureza. Não é uma questão de ser a favor ou contra os TPC, é reflectir sobre o que são? Como se utilizam? Que efeitos na generalidade dos alunos? Como se adaptam às circunstâncias e diferenças de contexto dos alunos como idade/ciclo de escolaridade, nível de escolarização familiar, etc.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

DOS AUXILIARES DE EDUCAÇÃO


Na imprensa de ontem referia-se a dificuldade que muitas escolas e agrupamentos estão a sentir com a falta de auxiliares de educação, recuso a designação de assistentes operacionais. Apesar do reforço que se terá verificado e por razões diversas algumas escolas sentem sérios constrangimentos no seu normal funcionamento.
Vou repetir-me mas nunca é demais enfatizar o papel essencial que estes profissionais desempenham nas escolas e a necessidade de rácios adequados, qualificação, segurança e carreira que minimizem problemas que têm vindo a ser regularmente colocados por pais, professores e directores.
Seria desejável que a gestão desta matéria considerasse as especificidades das comunidades educativas e não se seguissem critérios cegos de natureza administrativa que são parte do problema e não parte da solução.
Para além da variável óbvia, número de alunos, é necessário que se contemplem critérios como tipologia das escolas, ou seja, o número de pavilhões, a existência de cantinas, bares e bibliotecas e a extensão dos recreios ou a frequência de alunos com necessidades especiais.
Por outo lado a colocação de muitos destes profissionais através do Contrato Empego-Inserção para além das questões de precariedade, descontinuidade e salário levanta fortes problemas de perfil desadequado ao exercício de funções, pessoas sem qualquer tipo de motivação ou competência para estas funções e, pelo contrário, quem as revela não pode continuar.
Na verdade, os auxiliares de educação, insisto na designação, desempenham e devem desempenhar um importante papel educativo para além das funções de outra natureza que também assumem e que exige a adequação do seu efectivo, formação e reconhecimento. No caso mais particular de alunos com necessidades educativas especiais e em algumas situações os assistentes operacionais serão mesmo uma figura central no seu bem-estar educativo, ou seja, são efectivamente auxiliares de acção educativa.
A excessiva concentração de alunos em centros educativos ou escolas de maiores dimensões não tem sido acompanhada pelo ajustamento adequado do número de auxiliares de educação. Aliás, é justamente, também por isto, poupança nos recursos humanos, que a reorganização da rede, ainda que necessária, tem sido feita com sobressaltos e com a criação de problemas.
Os auxiliares educativos cumprem por várias razões um papel fundamental nas comunidades educativas que nem sempre é valorizado incluindo na estabilidade da sua contratação e formação.
Com frequência são elementos da comunidade próxima das escolas o que lhes permite o desempenho informal de mediação entre famílias e escola, têm uma informação útil nos processos educativos e uma proximidade com os alunos que pode ser capitalizada importando que a sua acção seja orientada, recebam formação e orientação e que se sintam úteis, valorizados e respeitados.
Os estudos mostram também que é nos recreios e noutros espaços fora da sala de aula que se regista um número muito significativo de episódios de bullying e de outros comportamentos socialmente desadequados. Neste contexto, a existência de recursos suficientes para que a supervisão e vigilância destes espaços seja presente e eficaz. Recordo que com muita frequência temos a coexistir nos mesmos espaços educativos alunos com idades bem diferentes o que pode constituir um factor de risco que a proximidade de auxiliares de educação minimizará.
Considerando tudo isto parece essencial e um contributo para a qualidade dos processos educativos a presença em número suficiente de auxiliares de educação que se mantenham nas escolas com estabilidade e que sejam orientados e valorizados na sua importante acção educativa.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

FORMAÇÃO E QUALIFICAÇÃO SÃO BENS DE PRIMEIRA NECESSIDADE. NÃO, NÃO SOMOS UM PAÍS DE DOUTORES


A propósito da realização da Convenção Nacional do Ensino Superior, esta segunda-feira, em Lisboa a imprensa refere uma das questões que julgo mais importantes em termos de desenvolvimento e que frequentemente é tratada através de alguns equívocos ou mesmo negligenciada, o nível baixo de frequência de ensino superior que ainda se verifica em Portugal.
De facto, se olharmos para o mais recente relatório da OCDE “Education at a Glance”, o de 2018, verificamos que no intervalo 15 – 19 anos, correspondente ao secundário, temos cerca de 89% a frequentar a escola o que é superior aos 85% média na OCDE embora seja de considerar que aos 18 anos o número de alunos a frequentar estabelecimentos de ensino seja de 54%. Considerando o intervalo 20 – 24, a idade de frequência habitual do superior temos 37% no ensino superior sendo a média da OCDE 42% e a europeia 43%. Verifica-se pois um nível de abandono ainda significativo e não compensado com qualificação profissional de nível não superior.
Um outro dado elucidativo dos desafios da qualificação refere na população que tem 25 a 34 anos apenas 34% tem formação superior face a 44% na OCDE.
Acrescentaria alguns outros indicadores que já aqui tenho comentado. Um Relatório também de 2018 da UE, “Retrato de Portugal”. No que se refere a indicadores de educação temos que mais de metade dos empregadores portugueses, 54,6%, não frequentou o ensino secundário ou superior face a 16.6% na UE. Por outro lado, perto de metade dos trabalhadores por conta de outrem, 43.3% não têm escolaridade superior ao 9º ano.
Mais uma vez se demonstra o quanto errada está a tão frequente afirmação de que somos um país de doutores. Sempre tal se afirma e se promove, implicitamente, que estudar não é importante, estamos a dar um tiro no pé e a comprometer o desenvolvimento do país e, fundamentalmente, das pessoas.
Talvez seja de recuperar o Relatório da OCDE, "Education at a Glance 2017" que mostrava que a diferença salarial de jovens com licenciatura para jovens com formação a nível do secundário, é de 69 %, um bom indicador para o impacto da qualificação. Para comparação a média na OCDE é de 54%.
Um trabalho divulgado em 2017 da iniciativa da  Fundação Francisco Manuel dos Santos, “Benefícios do Ensino Superior” evidencia como a qualificação de nível superior compensa sendo o impacto ainda mais significativo com o mestrado.
O trabalho abrangeu o período ente 2006 e 2015 e considerou a população mais jovem, dez ou menos anos de experiência profissional e é mais um contributo para uma questão que muitas vezes é tratada com alguns equívocos.
O primeiro, radica no discurso recorrentemente difundido, ampliado por alguma imprensa preguiçosa, de que, dada a elevada taxa de desemprego de jovens com qualificação superior, o investimento numa qualificação superior não compensa pois não existe mercado de trabalho, alguns empregos que surgem são precários e mal pagos e muita gente qualificada está tem sido empurrada para fora por falta de futuro cá.
Um outro equívoco remete para o estatuto salarial. Apesar da política de proletarização do mercado de trabalho, da precariedade e do manhoso recurso a estágios, nem sempre remunerados ou seguidos de emprego, a formação superior ainda compensa.
Aliás, de acordo com um estudo do Conselho Nacional de Educação divulgado em 2015 um indivíduo com formação universitária, ao longo da vida activa, ganhará mais cerca de 1,7 milhões de euros face a alguém com o 9º ano. Mesmo comparando com o 12º ano a diferença continua muito significativa.
É claro que não podemos esquecer o nível ainda significativo de desemprego entre os jovens, em particular entre os jovens com qualificação superior, obrigando tantos a partir à procura de um futuro que por cá não vislumbram mas esta questão decorre do baixo nível de desenvolvimento do nosso mercado de trabalho, de circunstâncias conjunturais e de erradas políticas de emprego e não da sua qualificação.
Neste cenário e como sempre afirmo, o discurso muitas vezes produzido no sentido de que "não adianta estudar" não colhe e não tem sustentação sendo “suicida” numa sociedade pouco qualificada como a nossa que, efectivamente e contrariamente à tão afirmada quanto errada ideia de que somos um país de doutores, continua, em termos europeus, com uma das mais baixas taxas de qualificação superior em todas as faixas etárias incluindo as mais jovens.
Conseguir níveis de qualificação compensa sempre e é imprescindível. Estudar e conseguir qualificação de nível superior compensa ainda mais. Temos pela frente o combate ao insucesso e ao abandono precoces, em que temos conseguido progressos de registar e temos o enorme desafio de promover a qualificação ao longo da vida para muitas pessoas que estão no mercado de trabalho sem qualificação.
Não podemos perder tempo, é o futuro com mais desenvolvimento e bem-estar que está em jogo.

domingo, 6 de janeiro de 2019

O FRIO DA INFÂNCIA


Segundo as previsões e conforme já sentimos o frio chegou à generalidade do país, nada de novo, estamos no Inverno, é tempo dele, do frio, como falam os antigos.
Como é habitual surgem os conselhos e o anúncio de medidas de protecção dirigidas aos grupos mais vulneráveis, crianças, idosos ou sem-abrigo.
Sempre que penso nesta questão, miúdos com frio, recordo-me, já aqui o escrevi, da narrativa de Juan José Millás em "O Mundo – O mundo é a rua da tua infância”" quando enuncia, “Quem teve frio em pequeno, terá frio para o resto da vida, porque o frio da infância nunca desaparece”.
Na verdade, no Inverno ou até no Verão, existem muitos miúdos que passam frio, às vezes muito frio, e nem sempre conseguimos dar por isso. Acontece até que alguns deles sentem frio em ambientes muito aquecidos ou mesmo no Verão, como disse. Não se trata do frio que vem de fora, daquele de que falam os alertas coloridos que que agora estão visíveis, seria “fácil” minimizar esse frio se assim se quisesse. É, antes, o frio que está à beira, um bloco de gelo disfarçado de família, de escola ou de instituição de acolhimento, é o frio que vem de dentro e deixa a alma congelada. Do frio que vem de fora, apesar de incomodar, acho que, quase sempre, nos conseguimos proteger e proteger os miúdos, mas dos frios que estão à beira e dos que vêm de dentro nem sempre o conseguimos fazer porque também nem sempre os entendemos e estamos atentos ao frio que tolhe muitas crianças e adolescentes.
Apesar de sentir confiança na resiliência dos miúdos, expressa em muitíssimas situações de gente que sofreu e resistiu a experiências dramáticas, uns mais que outros naturalmente, parece-me fundamental que estejamos atentos aos frios da infância.
Muitas vezes, como diz Millás, quem teve frio em pequeno terá mesmo frio no resto da vida.
Quando olhamos para muitos adultos à nossa volta parece claro o frio que terão passado na infância.

sábado, 5 de janeiro de 2019

OS NOMES QUE NOS DÃO

Num dia ainda de acomodação ao novo ano uma espécie de assunto.
É com alguma curiosidade que aguardo no final de cada ano a divulgação pelo Instituto dos Registos e do Notariado dos nomes que os pais entendem que devemos chamar aos que vão nascendo e também neste aspecto em 2018, sem surpresa, se registam algumas mudanças. Aliás, quem como eu lida todos os anos com sucessivas gerações de alunos são evidentes e curiosas as alterações que se registam.
Nas raparigas a tradição ainda é o que era, Maria é o nome mais atribuído, Leonor é o segundo e Matilde o terceiro. Mantêm-se bem colocados nomes Carolina, Beatriz ou Mariana. Nomes como Catarina, Diana, Daniela, Joana e Sara entraram claramente em perda e Ana vai resistindo depois de ter passado muito tempo no topo da escolha.
Nos rapazes João recuperou o primeiro lugar por troca com Santiago que passou a terceiro, mantendo-se Francisco em segundo.
Também existem nomes oferecidos apenas a uma criança como Odete, Vanda, Adélio ou Evaristo.
Devo dizer que tenho vindo a ficar um pouco inquieto com o rumo que a coisa tem vindo a tomar. Um mundo sem “Sónias Andreias”, sem “Cátias Vanessas”, sem “Sandras Cristinas”, sem “Tatianas”, sem “Fábios”, sem “Mauros”, vai ser certamente um mundo diferente. Também em trabalhos anteriores sobre esta matéria se registava já a tentativa de sofisticar um pouco as escolhas, mantém-se o popular João mas temos o Santiago, o Rodrigo, o Martim, o Tomás, o Santiago, o Afonso, a Mariana, a Matilde, a Beatriz, entre outras, que nos garantem, enfim, outra apresentação.
Mas o que me deixou mais apreensivo face a esta questão, é que, recordando um trabalho também sobre esta matéria há algum tempo divulgado, parece notar-se que o povo está mesmo a voltar as costas aos nossos mais gloriosos nomes, sobretudo nos rapazes, nomes como Manuel, António, José, Paulo, Carlos, etc. estão em queda. Será que vamos deixar de ter um Carlos Jorge, um António Manuel, um Manuel Carlos, um José Manuel, um António João, um Paulo Jorge, tudo nomes na nossa melhor tradição?
Para dar um exemplo, os meus nomes, José e António desapareceram dos vinte primeiros na lista deste ano.
Até nos nomes! A nossa identidade está em mudança.
É certo que existem uns nomes que todos os dias, em voz mais alta ou mas baixa, chamamos a alguém e que se mantêm e manterão, aí a tradição ainda é o que era, felizmente.
Por outro lado, existe um outro lado dos nomes que se chamam e de que as pessoas e de que as pessoas não gostam, uma pequena história que há tempos aqui deixei.
"Gosto quando me chamam. Às vezes, muitas vezes, não me chamam.
Outras vezes chamam-me nomes que não são meus. Os crescidos chamam-me preguiçoso, distraído, parvo, bebé, coitadinho e outros nomes, sempre nomes que não são meus.
Os outros miúdos chamam-me badocha, gordo, bolacha, caixa de óculos, def e outros nomes, sempre nomes que não são meus.
Eu acho que as pessoas, todas as pessoas, só deviam ter um nome, o seu.".
Seja ele qual for, acrescentaria eu.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

O OVO DA SERPENTE, TAKE 2


A 21 de Outubro, a propósito de um trabalho do DN sobre a forma como também em Portugal as redes de desinformação e intoxicação com as designadas “notícias falsas” estão activas, afirmei que estávamos a “incubar o ovo da serpente, os ovos da serpente, que vão eclodindo em múltiplas sociedades à escala global. A ameaça é séria, as consequências podem ser devastadoras e soltar-se a Besta.”
O recente episódio da presença de um conhecido fascista, condenado por crimes de ódio e de violência extrema para participar numa conversa sobre “Precisamos de um novo Salazar? É mais um passo nesta assustadora trajectória. 
A questão não é a discussão em torno da figura sinistra da nossa história, a questão é uma discussão em torno da negação da democracia, não é uma troca de ideias em matéria de opinião. A presença daquela figura é um insulto justamente à essência ética da democracia, o respeito pela diferença. Igualmente inquietante é o esforço de várias "opinadores" no sentido de branquearem a opção da TVI em nome da pluralidade opiniões e da "inofensiva" figura que consideram ser o "convidado" da TVI. Argumentam ainda com outros males de que sofre a democracia  o que sendo evidente, muitas vezes aqui temos conversado sobre matérias como corrupção ou atropelos à ética, não branqueia a defesa da prisão por delito de opinião, da censura, da tortura, etc. como modelo de social e político.
A verdade é que, lamentavelmente, já não nos conseguimos surpreender com alguma comunicação social e a despudorada forma como intoxica, manipula e produz opinião, já não em busca de audiência, mas ao serviço de agendas mais pesadas, por assim dizer.
Os tempos vão negros. Esta negrura exigiria mais do que nunca uma imprensa autónoma e independente. Cada vez se torna mais difícil destrinçar o que é jornalismo e informação do que não é, nem uma coisa nem outra.
Como é evidente não está de todo a causa a liberdade de informação e de opinião mas sim o papel insubstituível da imprensa e da comunicação social como pilares das sociedades abertas e democráticas. No entanto, todos os dias nos deparamos com práticas e discursos de um sentido ético e deontológico miserável, de um baixo nível de competência, frequentemente ao serviço de agendas mais ou menos explícitas e numa luta selvagem por audiências em que vale (quase) tudo.
E não, boa parte dos conteúdos jornalísticos na imprensa …não é jornalismo, por vezes é mesmo um insulto à inteligência e sensibilidade de muitos de nós embora, tenho que o admitir, possa ser do agrado de outros de nós.
Como sempre é uma questão de escolha, o que se serve, como se serve, quem se serve, por que razão se serve, entre outros critérios.
Que mundo estamos a construir para os nossos filhos e netos.

UMA FAMÍLIA É UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE. Pela enésima vez


Apenas 3% (246) das crianças sob tutela do estado vivem em famílias de acolhimento enquanto 87% estão em residências crianças. Conforme trabalho que se encontra no JN, a disparidade face à situação noutros países da Europa é significativa, em Espanha e Itália são mais de metade e Irlanda e Noruega têm 90% das crianças em famílias de acolhimento.
Dados do último Relatório CASA, divulgado em Novembro, revelam que existem 652 crianças até aos cinco anos em instituições generalistas e apenas 18 a viver em famílias.
Importa salientar que que em 2015 foi publicada legislação que estabelece o quadro das famílias de acolhimento para crianças em risco mas, três anos depois a lei continua por cumprir e na peça do JN se lê que “a secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes, declarou que o Governo não se sente seguro quanto a aumentar o número de crianças em acolhimento familiar, enquanto não tiver meios para fiscalizar”.
A lei pretende contrariar que a institucionalização seja a resposta mais frequente, sobretudo no caso das crianças mais novas, até aos seis anos pelo que os números são elucidativos. Aliás número de crianças nesta situação em famílias de acolhimento tem vindo a decrescer, em 2008 viviam com famílias 657 crianças.
Esta situação inibe o desenvolvimento de projectos que colocar em contextos familiares crianças que por situações de risco foram retiradas às famílias biológicas e ainda não estão em processo de adopção e vivem em instituições.
Não tenho conhecimento que a situação tenha sido alterada, a lei não foi regulamentada, e o quadro actual é ineficaz e incompreensível e muito pouco amigável para o acolhimento familiar. Uma família de acolhimento de uma criança recém-nascida não tem direito a licença de parentalidade. Não tem protecção no trabalho para faltas em caso de doença da criança e não a pode considerar em sede de IRS. A criança não recebe abono de família nem acede aos dispositivos da Acção Social Escolar.
No que respeita a apoios económicos, sim, as crianças são particularmente caras em Portugal, as famílias recém um subsídio mensal de 153.40€ e mais 176.89€ da Segurança Social, pouco mais de 330€ mensais. Ainda passa recibo verde e paga três prestações de 157.
Curiosamente, ou talvez não, e de forma inaceitável pela disparidade de tratamento as instituições que acolhem crianças recebem em média 700€ por cada e as crianças têm acesso à Acção Social Escolar e abono de família(?!).
Percebe-se também por isto o baixo número de crianças em famílias de acolhimento e o número excessivo das que se mantêm institucionalizadas.
Em nome do seu bem-estar seria desejável que se conseguisse até ao limite promover a desinstitucionalização das crianças por múltiplas e bem diversificadas razões. Uma entrevista de Robbie Gilligan, Professor de Serviço Social e Política Social no Trinity College, em Dublin, no Público quando há uns meses esteve em Portugal merece reflexão.
Um estudo de Paulo Delgado da ESSE do Porto também citado no JN mostra que as crianças evidenciam uma percepção de bem-estar significativamente diferente consoante estejam em família tradicional, 9.05 numa escala de 0 a 10, em famílias de acolhimento, 8.69 e em instituições, 7.61.
Recordo um estudo de há alguns anos da Universidade do Minho mostrando que as crianças institucionalizadas revelam, sem surpresa, mais dificuldade em estabelecer laços afectivos sólidos com os seus cuidadores nas instituições. Esta dificuldade pode implicar alguns riscos no desenvolvimento dos miúdos e no seu comportamento.
A conclusão não questiona, evidentemente, a competência dos técnicos cuidadores das instituições, mas as próprias condições de vida institucional e aponta no sentido da adopção ou outros dispositivos como forma de minimizar estes riscos e facilitar os importantes processos de vinculação afectiva dos miúdos. Também deve acentuar-se o trabalho de grande qualidade que muitas instituições procuram desenvolver. Além disso, sabemos todos, que existem contextos familiares que por razões de ordem variada não devem ter crianças no seu seio, fazem-lhes mal, pelo que a retirada pode ser uma necessidade justificada pelo superior interesse da criança, um princípio estruturante das decisões neste universo.
Uma família é, de facto, um bem de primeira necessidade.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

DOS DEPÓSITOS DE CRIANÇAS


De acordo com uma peça no JN a Associação de Creches e Pequenos Estabelecimentos de Ensino Particular recebeu cinquenta denúncias de creches ilegais ao longo de 2018.
No primeiro semestre do ano que passou a Segurança Social determinou o encerramento de oito estabelecimentos. Em 2017 encerraram 12 e em 2016 foram encerradas sete creches ilegais. É por demais conhecida a existência destes depósitos de crianças. Sabe-se também de situações em que após o encerramento os mesmos responsáveis reabrem rapidamente outros espaços para o exercício da sua actividade.
Portugal tem um dos mais elevados custos de equipamentos e serviços para crianças o que é, naturalmente, um forte constrangimento para projectos de vida que envolvam filhos. Sobretudo nas grandes áreas metropolitanas, existe uma falta significativa de respostas e recursos a preços acessíveis para o acolhimento a crianças dos 0 aos 3 anos é, como já disse, um dos grandes obstáculos a projectos familiares que incluam filhos, levando aos conhecidos e reconhecidos baixos níveis de natalidade entre nós, 30 % das mulheres portuguesas têm apenas um filho.
A alteração dos estilos de vida, a mobilidade e a litoralização do país, levam à dispersão da família alargada de modo a que os jovens casais dependem quase exclusivamente de respostas institucionais que, ou não existem, ou são demasiado caras.
Neste quadro, prolifera a oferta clandestina, tal como no caso dos idosos, onde, a preços bem mais acessíveis e sem controlo da qualidade, se depositam os miúdos.
É certo que não fica fácil a fiscalização dos serviços competentes porque a situação também serve às famílias, pelo custo e pela simples existência. Relembro que em casos de encerramento tornados públicos devido à qualidade e aos tratos dados às crianças alguns pais reagiram negativamente.
Sabemos todos como o desenvolvimento e crescimento equilibrado e positivo dos miúdos é fortemente influenciado pela qualidade das experiências educativas nos primeiros anos de vida, de pequenino é que ...
Assim, a eficiência da fiscalização e penalizações para este tipo de actividade mas, sobretudo, o aumento significativo da resposta ao nível da creche a custo acessível é, seguramente, uma aposta no futuro e, por isso, parece ser o caminho para minimizar a criação dos depósitos clandestinos de crianças.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

AGORA NO SEGUNDO PERÍODO


Inicia-se amanhã o segundo período escolar. Mais do que o terceiro creio que é este o período das decisões. Na verdade, embora falte o terceiro trimestre este que agora começa parece-me ser o mais importante no calendário escolar.
Quando o primeiro trimestre corre bem e o segundo decorre de forma igualmente positiva o sucesso do ano de trabalho escolar estará praticamente assegurado.
Se os dois primeiros períodos não se desenvolverem de forma positiva torna-se, obviamente, bem mais difícil a recuperação durante o terceiro período e o risco de reprovação é muito elevado.
Assim, o segundo período é um tempo em aberto, um tempo que permitirá manter bons resultados, recuperar de algumas dificuldades ou “certificar”, antecipando, o insucesso.
É neste aspecto que centro estas notas. De facto, alguns alunos devido aos seus resultados menos positivos no primeiro trimestre, à sua história escolar que poderá incluir eventuais dificuldades ou até pela imagem que deles foi construída, integrarão provavelmente um grupo, “ os que não vão lá”, para utilizar uma terminologia frequente no meio escolar.
Dito de outra maneira, a escola, algumas vezes sem se dar conta, outras por ausência de meios ou disponibilidade e outras ainda pela convicção de que é "normal" que nem todos aprendam apesar de possuírem capacidades para tal, constrói sobre alguns alunos uma baixa ou nula expectativa de sucesso que não é alheia ao “eles não vão lá” e cujos efeitos negativos estão estudados.
Neste cenário, a escola pode vir a desistir deles e eles podem vir a desistir da escola através de processos que nem sempre são conscientes, quer por parte da escola, quer por parte de alunos e pais.
Curiosamente, muitos destes alunos que “não vão lá” são reconhecidos como crianças ou adolescentes inteligentes, dotados, de tal maneira que "se eles quisessem" teriam sucesso. O problema é que com alguma frequência, por menor atenção, pelo número de alunos por turma e/ou por falta de recursos, não conseguimos que eles tenham sucesso, tal como eles não conseguem mobilizar eficazmente as suas capacidades para serem bem-sucedidos. Eu sei que a afirmação é forte e pode ser injusta em muitas situações, mas existem alunos de quem a escola, por várias razões, parece ter “desistido”.
Importa, pois, iniciar este segundo período com expectativas positivas face ao trabalho de alunos e de docentes. Por outro lado, é também importante que as expectativas positivas e confiança nas capacidades dos alunos lhes sejam claramente expressas por pais e professores. Finalmente é essencial que os apoios a eventuais dificuldades de alunos e professores estejam disponíveis, sejam suficientes, competentes e estruturados em tempo oportuno.
O risco de insucesso e exclusão na escola é também o primeiro grande risco, ou mesmo a primeira etapa, da exclusão social.
Eles vão lá. Bom trabalho e Bom Ano.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

E SE O ANO NOVO FOSSE MESMO ... NOVO?


Estamos no Ano Novo.
Acabaram os dias em que todas as falas e todos os escritos finalizavam num incontornável Bom Ano Novo. Muitos de nós fizemos mesmo questão de nos prepararmos a sério para recebermos o Ano Novo, de acordo com as posses de cada um, evidentemente. Desejo que as entradas tenham sido felizes.
O Ano que agora começou também virá de acordo com as posses de cada um.
É sempre assim. E se não fosse?
E se por uma vez, só por uma vez, o Ano Novo fosse mesmo Novo. Por exemplo:
Ser Novo no respeito efectivo pelos direitos básicos das pessoas e no combate sério e empenhado às desigualdades e à exclusão e pobreza.
Ser Novo na gestão da coisa pública com transparência, justiça e ao serviço das pessoas.
Ser Novo na definição de políticas dirigidas às pessoas e não ao sabor dos endeusados mercados e da agenda da partidocracia.
Ser Novo na assumpção definitiva que o caminho do nosso futuro passa pela sustentabilidade e pela dignidade.
Ser Novo no recentrar das grandes questões da educação na qualidade dos processos educativos, na tranquilidade, na valorização e no sucesso do trabalho de alunos e professores.
Ser Novo na construção de uma escola onde coubessem todos os alunos sem que o cumprimento de direitos e a qualidade da resposta pública a todos os que estão na idade de a frequentar pudesse, sequer, ser motivo de discussão.
Ser Novo no combate ao desperdício e à iniquidade de mordomias insustentáveis.
Ser Novo nos discursos e padrões éticos das lideranças políticas, económicas e sociais.
Ser mesmo Novo, estão a ver?
Que o Ano Novo vos (nos) seja leve.
Tão leve e tão novo quanto possível.
No final de 2017 coloquei umas notas parecidas com estas … não resultou. O Ano Novo que estava para chegar não foi tão novo assim. O mundo tornou-se um lugar ainda mais mal frequentado.
Será este?

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

COM VOTOS DE BOM ANO, PREVISÕES PARA 2019


Como é habitual, à entrada de um novo ano são mais do que muitas as tentativas de prever os dias que nos aguardam.
Apesar da dificuldade da tarefa, acotovelam-se "opinadores", comentadores, estudiosos, analistas, especialistas, politólogos, "pessoas conhecedoras" (uma espécie em levar em conta), enfim, uma infinidade de tudólogos que em tudo quanto é comunicação social se "engarrafam" na produção de infalíveis previsões.
Não tenho os dotes necessários nem a intenção de substituir quem quer que seja pelo que, como é habitual, deixo um modesto contributo no que respeita a previsões desejando que chegue um Ano à medida das vossas expectativas.
Diz-me a experiência que é sempre de grande e comprovada utilidade.
Bom Ano para Todos.


domingo, 30 de dezembro de 2018

A CAMINHO DE UM SONHO OLÍMPICO


Finalmente. Os prémios atribuídos a atletas paralímpicos por bons resultados em Jogos Paralímpicos, Campeonatos do Mundo ou Campeonatos da Europa estão equiparados aos dos outros atletas em competições da mesma natureza. Os prémios, para além de equiparados, também foram aumentados. A portaria que o determina foi publicada no dia 27 e é uma boa notícia neste final de ano.
No entanto, se bem se recordam, o apoio à preparação de atletas olímpicos é de geometria variável, ou seja, se forem atletas olímpicos têm acesso a um apoio social significativamente superior aos atletas olímpicos que são cidadãos com deficiência, chamam-lhes atletas paralímpicos. Recordo que na votação do OGE para 2018 a Assembleia da República chumbou com votos contra do PS e a abstenção do PSD um processo faseado de equiparação.
Ao que foi dito o brutal impacto financeiro da medida, 700 000 euros, torna a argumentação do “centrão” é patética, para ser simpático.
Também por estas razões insisto numa das minhas utopias, um dia teremos apenas Jogos Olímpicos em que todos as provas, de todos os desportistas, se realizem no mesmo espaço de tempo e nos mesmos espaços físicos de acordo, evidentemente, com as exigências específicas.
Não é impossível em termos de organização e assim como não consigo aceitar que uma piscina pública seja frequentada por um grupo de pessoas com deficiência em “horário próprio” com "pistas reservadas", também acho que as pessoas, todas as pessoas, podem competir num mesmo evento nas respectivas provas.
Lembro-me sempre da afirmação de Biesta, a história da inclusão é a história da democracia e, do meu ponto de vista, também passa por aqui.
Só depende de nós.
Sim, eu sei, é um sonho olímpico. Será, mas não é seguramente paralímpico.

OS RESULTADOS A MATEMÁTICA. SERÁ DESTINO?


Lê-se no Público que foi publicado sexta-feira o despacho que cria o Grupo de Trabalho anunciado em Março com o objectivo vai estudar o “fenómeno do insucesso” a Matemática no ensino básico e secundário e produzir um conjunto de recomendações no sentido de melhorar o ensino, aprendizagem e avaliação da Matemática.
O trabalho começará por analisar a evolução dos resultados a Matemática nas duas últimas décadas, o registo das taxas de sucesso, das taxas de recuperação, dos programas da disciplina, da eficácia de medidas de apoio e das metodologias de ensino, entre outras dimensões. Pretende-se aferir da eficácia e eficiência dos diferentes planos e medidas dirigidas à melhoria das aprendizagens e à promoção do sucesso escolar adaptados nos últimos anos. O Grupo produzirá um relatório que será colocado em consulta pública.
Recorde-se que dois grupos de trabalho criados em 2016 direccionados para o básico e para o secundário consideraram existirem “inúmeros constrangimentos” ao nível dos currículos nos currículos em vigor referindo entre outros aspectos, a extensão excessiva dos programas não susceptíveis de serem cumpridos no tempo disponível e as “metas curriculares demasiado ambiciosas” que impacto negativo na aprendizagem da generalidade dos alunos.
O Grupo de Trabalho é constituído por professores do ensino básico, secundário e superior e coordenado por Jaime Carvalho e Silva, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. O caderno de encargos é pesado, esperemos que resulte.
De facto, apesar de alguma melhoria nos resultados do PISA cujas provas diferem dos exames nacionais os resultados a Matemática continuam preocupantes, nota negativa superior a 50% no 9º ano e no 12º a média é acima do 10 mas as baixas notas a Matemática estão a condicionar seriamente a escolha de formação superior levando a uma distorção da procura.
Os resultados a Matemática ao longo da escolaridade obrigatória estarão associados, não numa relação de causa-efeito, a múltiplas variáveis incluindo variáveis de natureza sociodemográfica como a escolaridade dos pais.
Por outro lado e como os grupos de trabalho criados em 2016 importa considerar a dimensão modelo e conteúdos curriculares. Outras variáveis como o  número de alunos por turma, tipologia das turmas e das escolas, dispositivos de apoio às dificuldades de alunos e professores ou questões de natureza didáctica e pedagógica terão também algum peso e algumas vezes já aqui referimos estas questões.
É neste conjunto de variáveis e na intervenção adequada que julgo residir a chave para alterar e reconstruir a relação dos alunos com a Matemática e melhorar o seu desempenho.
No entanto, acresce a esta complexidade um conjunto de outras variáveis menos consideradas por vezes mas que a experiência e a evidência mostram ter também algum impacto.
São variáveis de natureza mais psicológica como, por exemplo, a percepção que os alunos têm de si próprios como capazes de ter sucesso, os alunos de meios menos carenciados percebem-se como mais capazes de aprender matemática.
Finalmente, uma referência a uma dimensão nem sempre considerada mas que julgo pertinente neste âmbito, a representação sobre a própria Matemática. Creio que ainda hoje existe uma percepção passada nos discursos de muita gente com diferentes níveis de qualificação de que matemática é uma “coisa difícil” e ainda de que só os mais “inteligentes” têm “jeito” para a Matemática. Esta ideia é tão presente que não é raro ouvir figuras públicas afirmar sem qualquer sobressalto e até com bonomia que “nunca tiveram jeito para a Matemática, para os números”. É claro que ninguém se atreve a confessar uma eventual “falta de jeito” para a Língua Portuguesa e às vezes bem que “parece”. A mudança deste cenário é uma tarefa para todos nós e não apenas para os professores e seria importante que acontecesse.
De facto, este tipo de discursos não pode deixar de contaminar os alunos logo desde o 1º ciclo convencendo-se alguns que a Matemática vai ser difícil, não vão conseguir ser “bons” e a desmotivar-se. Aliás, é conhecido que muitos alunos escolhem trajectos escolares tendo como critério “fugir” da Matemática.
Não fica fácil a tarefa dos professores mas no limite e como sempre será a escola a fazer a diferença. Não podemos falhar apesar da dificuldade do caderno de encargos. Não podemos estar condenados a ter maus resultados a Matemática.
Aguardemos as recomendações do Grupo de Trabalho agora criado.

sábado, 29 de dezembro de 2018

METEU-SE O NATAL, AGORA METE-SE O ANO NOVO

Como tanto gostamos de dizer, meteu-se o Natal e agora mete-se o Ano Novo.
Os dias que medeiam entre o Natal e o Ano Novo têm, do meu ponto de vista, um conjunto de características muito particulares. Fico sempre com a sensação de que os vivemos como não dias. Pode parecer uma ideia estranha mas vou tentar explicar.
Logo depois do Natal, ainda a recuperar do espírito natalício, entramos numa espécie de ressaca advinda da azáfama das prendas, dadas, recebidas ou sonhadas e da culpa resultante dos excessos. Acresce para muita gente o problema das trocas, ou porque já tinham o que receberam ou porque, por várias razões, não serve o que receberam.
Para que se não saia dos espaços comerciais o ânimo recupera-se entrando de imediato na época de saldos, descontos, promoções ou outra qualquer designação apelativa a mais umas compras. Trata-se do efeito terapêutico do mercado e do consumo.
Deste estado, passamos para os dias de aproximação ao Ano Novo que, independentemente do que de menos bom possamos racionalmente esperar, vivemos com a esperança de que seja mesmo novo e, sobretudo, Bom.
Iremos certamente trocar inúmeras mensagens e votos noutra azáfama que aparenta assentar numa ideia mágica dos tempos de miúdo que nos parece fazer acreditar em que se assim procedermos, o Ano Novo vai ser mesmo Novo e, repito, Bom. De tanto falarmos nele, ele vai convencer-se de que terá mesmo que ser assim.
É certo que de há uns tempos para cá, como devem ter dado por isso, foi desaparecendo o Próspero, basta que seja Bom, ou até mesmo que não seja pior do que este. Já era bem bom, por assim dizer.
É também muito provável que nos últimos dias do próximo Dezembro, o de 2019, estejamos com o mesmo sentimento a enunciar os mesmos discursos apesar das promessas optimistas de que ... a coisa está a mudar.
Alguns de nós tentarão de forma mais ou menos dispendiosa ou criativa encontrar uma maneira feliz e divertida, assim a entendemos, de entrar no Ano Novo. Pode até nem ser muito divertida mas vai parecer com toda a certeza. Este ano, talvez possa até já ser um pouco menos comedida nos custos, dizem que a coisa está um bocadinho melhor.
No entanto, como se sabe tristezas não pagam dívidas e haverá réveillons para todas as bolsas. Acresce que muitas autarquias no seu espírito de missão e de serviço ao cidadão proporcionarão fantásticos espectáculos de fogo-de-artifício e música para que toda agente possa receber o Ano Novo sem grande custo.
O problema mais sério é que a 2 de Janeiro está aí o Ano Novo que, para muita gente, vai continuar velho e para muita outra gente não será Bom, longe disso.
Mas para um povo sereno e de brandos costumes como nós, haja saúde que é o principal, no resto … Bom, no resto … algum jeito se há-de dar.
Bom Ano.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

FRONTEIRAS E MUROS


Por estes dias aqui no Alentejo e para descansar um pouco da lida no Monte, é sempre pesada, fomos dar uma volta por uma zona de que gostamos muito nas várias épocas do ano, os bosques de castanheiros na zona de Aracena e Aroche na estrada para Sevilha.
Entre Vila Verde Ficalho e Rosal de la Frontera ao passar pelo local da antiga fronteira a memória acendeu-se.
As minhas viagens ao estrangeiro começaram por volta dos meus 12 ou 13 anos com idas a Badajoz ou, bastante mais longe, a Sevilha, possibilitadas horas de costura da minha mãe e de um dinheiro extra vindo do trabalho a prémio do meu pai, serralheiro no Arsenal do Alfeite.
Nessas viagens a passagem das fronteiras do Caia ou de Ficalho eram sempre momentos tensos que se viviam em silêncio e com algum temor. Recordo que batíamos palmas quando passávamos a fronteira na vinda, a Guarda não descobriu ou não quis descobrir as garrafas de Coca-Cola que vinham escondidas na roupa. Sim, a Coca-Cola era proibida em Portugal.
Ainda durante vários anos e já mais velho passei por várias experiências pouco positivas em fronteiras, lembro-me, por exemplo, de revistas, demoras e dúvidas que me tocavam com frequência e de episódios complicados para entrar na Holanda, na Alemanha ou na antiga República Checa.  
Entretanto e aos poucos a Europa foi ficando sem fronteiras e em 2019 fará 30 anos que caiu uma das linhas de separação mais simbólicas na Europa, o Muro de Berlim.
No entanto e é esse o meu ponto, como diria Bob Dylan, The Times They Are A-Changin'.
Desde 2015 a quase totalidade da Europa assiste sem grandes sobressaltos das suas lideranças à decisão de outras e variadas lideranças de promover a construção de fronteiras, muros e barreiras de arame farpado ou invisíveis mas eficazes alimentando a vida de terror e drama de muitos milhares de pessoas a viver num inferno que, também, foi ateado pela incompetência de decisões políticas dessas mesmas lideranças.
Talvez a relativa tranquilidade com que se assiste à construção de muros e barreiras em diversos pontos acabe por não ser estranha. Creio que ainda não há muito tempo não anteciparíamos que um referendo no Reino Unido ditasse o Brexit cujos efeitos ainda não são conhecidos. Aliás, o próximo ano não se afigura que possa trazer mudanças positivas na Europa, as nuvens são negras. 
Os muros vão sendo construídos nas nossas vidas conduzindo no limite à construção de "condomínios de um homem só" rodeado de barreiras para que ninguém entre.
Alguns muros são menos visíveis mas também não são facilmente transponíveis..
Na verdade, existem muros que transformam a vida de muitas crianças, jovens e adultos, sobretudo e como sempre dos mais vulneráveis, numa permanente corrida de obstáculos em que são atropelados alguns dos seus direitos.
Estes muros são constituídos, por um lado, por constituído por dimensões mais tangíveis, falta de recursos humanos e técnicos, barreiras físicas e acessibilidade, insuficiência de apoios de natureza social, etc.
Por outro lado, boa parte deste muro é constituído por dimensões de outra natureza, desvalorização dos problemas das minorias, intolerância, o entendimento de que os direitos humanos são de geometria variável e dependentes da conjuntura, ou seja, se existir mais dinheiro, teremos mais direitos.
Muitas crianças, jovens e adultos estão ou sentem-se excluídos ou “tolerados” num canto das suas comunidades e são também eles refugiados de um quotidiano que os maltrata e é tantas vezes insuportável.
As comunidades, mais do que a mediocridade das suas lideranças, não podem deixar que estes muros se mantenham e, mais grave, que se construam novos muros e barreiras.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

UMA LUZ AO FIM DO APAGÃO


Sem surpresa o Presidente da República vetou o diploma do Governo relativo à contagem do tempo de serviço dos professores. A sustentação do seu veto assenta no recentemente aprovado OGE para 2019 que, tal como o de 2018, determina a negociação entre governo e professores, a questão deve “ser objecto de processo negocial”.
Desde o início de todo este processo parece claro que só mesmo negociando o conflito seria resolvido e os direitos cumpridos.
Para além da “obrigação de negociar” há ainda a considerar que o Parlamento deverá discutir votar a proposta da Iniciativa Legislativa de Cidadãos “visando a votação em plenário de uma proposta de lei destinada à “consideração integral do tempo de serviço docente prestado durante as suspensões de contagem anteriores a 2018, para efeitos de progressão e valorização remuneratória." Não foi fácil a sua aceitação pelos Serviços Da Assembleia mas irá ser discutida e votada.
Como há dias escrevi tenho alguma curiosidade sobre o que se irá seguir. Antecipo que as contas eleitorais e a caça ao voto dos professores serão mais determinantes que a apreciação da bondade da pretensão dos docentes que, aliás, não parece suscitar dúvidas, trata-se de cumprir o quadro legal. As diferentes bancadas farão discursos, alguns carregados de oportunismo e hipocrisia cheios de amor e compreensão pela justiça das posições esquecendo óbvias responsabilidades. Os deputados do PS ficarão, por assim dizer, "entalados" e será interessante perceber a sua posição. Se considerarmos que a iniciativa não mereceu o apoio das duas maiores estruturas de representação sindical dos docentes a expectativa sobre as contas a partidocracia aumenta.
O que me parece significativo é que o veto do Presidente e o resultado, qualquer que seja o sentido da votação na AR, influenciarão seguramente o conflito instalado entre ME e professores e sublinha a importância e urgência do inevitável processo negocial, única forma de o ultrapassar.
Creio que o Governo terá já percebido que nesta altura, o mal-estar, o cansaço, a indignação e desesperança que afectam os professores sustentam um clima e uma atitude de crítica que está para além da esfera de influência dos sindicatos e tem impacto no clima das escolas e no seu trabalho.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

A MEDIATIZAÇÃO DA POBREZA


Escrevi este texto no final da tarde de ontem mas apenas hoje que já não é Natal o divulgo, não queria atrapalhar o espírito natalício, seja lá isso o que for. Na verdade, o Natal não é quando um homem quiser.
A não ser num exercício romântico em torno da ideia do clochard francês que escolhe a rua como acto de resistência e projecto de vida, o sem-abrigo é, por natureza e condição, isso mesmo, um sem-abrigo.
Numa sociedade que procura e promove os níveis de bem-estar que já atingimos e que nunca nos satisfazem, a falta de um abrigo, é, creio, a mais despojada das condições sendo que modelos de desenvolvimento e políticas dirigidas a mercados e não a pessoas têm produzido legiões de desabrigados.
Um abrigo, uma casa, grande ou pequena, constitui uma espécie de céu protector para cada um de nós. É também verdade, que não basta o abrigo para ser protector, nas mais das vezes, para além da falta de abrigo existe um mais sério problema de abandono e solidão.
De vez em quando, por diferentes razões, agora porque é Natal e as consciências obrigam, descobre-se a existência de sem-abrigo e pessoas sós nas nossas cidades, Então, durante algum tempo, aparecem ad nauseam notícias e peças televisivas que "cobrem" iniciativas variadas, almoços, jantares, distribuição de bens, etc., muitas vezes de um nível intrusivo absolutamente inaceitável. Já perdi a conta às reportagens sobre os jantares de Natal que estão a ser "oferecidos" a "pobrezinhos" de Lisboa, do Porto e de outras cidades do País.
As entrevistas, de uma forma geral, são obscenas e insultam a dignidade dos entrevistados, "este senhor" ou "esta senhora" que têm uma refeição "muito boa", "estou muito contente", "está tudo muito bem", têm um aspecto lavadinho e composto e agradecem muito a quem lhes oferece tal experiência muito caridosa.
Não questiono, evidentemente, a genuína intenção das pessoas e instituições que se disponibilizam para minimizar dificuldades, muitas delas durante todo o ano, embora o problema não seja o cobertor mas, fundamentalmente, o abrigo e a solidão. As pessoas e as instituições desenvolvem um trabalho e um esforço notáveis. A minha questão é o lado voyeurista e quase predatório com que boa parte da comunicação social, sobretudo televisiva, trata pessoas a que poucas vezes dedica atenção. As perguntas e reportagens, sem decoro nem respeito, que esforçados e incompetentes “profissionais” realizam são quase insultuosas e atentatórias dos direitos das pessoas. Esta forma de mediatização da pobreza, sazonal como é evidente, é um verdadeiro escândalo que nos deveria envergonhar a todos, a começar pelos (ir)responsáveis editoriais.
As pessoas sem-abrigo, "só" não têm abrigo, não são adereços fornecidos por uma qualquer produção para montar espectáculos televisivos. Ainda lhes restará, acredito, o que ninguém pode perder, a dignidade.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

SONHOS DE NATAL

Hoje é dia de Natal. O Natal traz quase sempre algo de muito saboroso, os sonhos.
Amanhã já não é Natal. Não, o Natal não é quando um Homem quiser. Aliás, muitos homens não querem que seja Natal. Outros Homens, incluindo Homens pequenos não têm Natal.
E Sonhos? Amanhã haverá?
É necessário que sim. Em nome dos nossos Filhos, dos Filhos dos nossos Filhos, dos Filhos  dos ...
É um Sonho.
Bons Sonhos.
É bom não esquecer ainda que como disse Sebastião da Gama, pelo sonho é que vamos. E é na educação que começa o sonho.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

BOM NATAL


Bom Natal. Dos simples. Com Tempo, com Afecto.



POLÍTICAS DE FAMÍLIA. É POSITIVO MAS AINDA NÃO CHEGA


A secretária de Estado da Igualdade em entrevista ao DN e a propósito do programa para a conciliação família e trabalho apresentado pelo governo, referiu o aumento da oferta de creches em Lisboa e Porto onde, naturalmente, se verificam as maiores dificuldades. A secretária de estado inscreve esta e outras medidas na promoção da natalidade. Algumas notas.
Em 2016 Portugal o terceiro índice de fecundidade mais baixo da EU, 1,36 nascimentos por mulher, sendo que em 2017 também nasceram menos crianças. Acontece ainda que as mulheres são mães cada vez mais tarde e acentua-se a opção por apenas um filho.
As razões para este cenário preocupante serão múltiplas mas o custo dos filhos em Portugal e a ausência de verdadeiras políticas de família terão certamente um peso significativo.
Recordo entre outros trabalhos o relatório "Starting Strong 2017" da OCDE, que apesar de assentar em dados de 2013 reforça este entendimento. As famílias portuguesas são das que realizam mais esforço para assegurar educação pré-escolar. Dito de outra maneira, Portugal tem um dos mais elevados custos de equipamentos e serviços para a infância.
A falta de respostas e recursos a preços acessíveis para o acolhimento a crianças dos 0 aos 3, creches ou amas, e dos 3 aos 6 anos, a educação pré-escolar, constitui-se como um dos grandes obstáculos a projectos familiares que incluam filhos, levando aos conhecidos e preocupantes baixos níveis de natalidade.
A alteração dos estilos de vida, a mobilidade e a litoralização do país, levam à dispersão da família alargada de modo a que os jovens casais dependem quase exclusivamente de respostas institucionais que, ou não existem, ou são demasiado caras.
Neste quadro a intenção actual de garantir o acesso à educação pré-escolar aos três anos e criar de forma significativa respostas acessíveis, física e economicamente, às famílias para as crianças dos zero aos três anos é imprescindível e urgente.
Sabemos todos como o desenvolvimento e crescimento equilibrado e positivo dos miúdos é fortemente influenciado pela qualidade das experiências educativas nos primeiros anos de vida, de pequenino é que ...
Assim, existem áreas na vida das pessoas que exigem uma resposta e uma atenção que sendo insuficiente ou não existindo, se tornam uma ameaça muito séria ao futuro, a educação de qualidade para os mais pequenos é uma delas.
Este período, creche e educação pré-escolar, cumprido com qualidade e acessível a todas as crianças, será, de facto, um excelente começo da formação institucional de cidadãos. Esta formação é global e essencial para tudo que virão a ser e a fazer no resto da sua vida.
A promoção de projectos de vida familiar que incluam filhos implica também intervir nas políticas de emprego e protecção do emprego e da parentalidade, de forma séria, na discriminação e combate eficaz a abusos e a precariedade ilegal, na inversão do trajecto de proletarização com salários que não chegam para satisfazer as necessidades de uma família com filhos e custos elevados na educação apesar de uma escolaridade dita gratuita.

domingo, 23 de dezembro de 2018

BOM NATAL E UMA SUGESTÃO DE PRESENTE


Para muitas famílias a época de Natal traz uma questão, que oferecer aos miúdos. Eles já têm tudo, dizemos nós, os adultos. Eles acham que não, pedem tudo, aprenderam com a gente. A aproximação do Dia introduz a ansiedade da compra, do presente como preferimos designar, que ainda não fizemos. Provavelmente será hoje que é Domingo e todas as lojas esperam por nós. Tentando ajudar deixo uma sugestão.
Trata-se de um presente que apesar de nem sempre parecer fácil é sempre possível encontrar.
Trata-se um presente que pode ser usado de múltiplas formas e por isso é estimulante e fomenta a criatividade.
Trata-se de um presente que pode ser usado por várias pessoas.
Trata-se de um bem de primeira necessidade e que muitos miúdos não têm tanto quanto precisariam.
Trata-se, finalmente, de um presente objectivo, quantificável, como agora se pretende que tudo seja.
Porque não oferecer tempo aos mais novos?
E já agora. Porque não oferecer tempo também aos adultos que andam à nossa beira?
Bom Natal.

sábado, 22 de dezembro de 2018

E AGORA?

O conflito entre docentes e ME conheceu um novo desenvolvimento.
Como é do conhecimento público, foi desencadeada fora da esfera sindical uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos “visando a votação em plenário de uma proposta de lei destinada à “consideração integral do tempo de serviço docente prestado durante as suspensões de contagem anteriores a 2018, para efeitos de progressão e valorização remuneratória."
Depois de várias vicissitudes, para ser simpático, os serviços da Assembleia da República aceitaram finalmente a proposta que está agora na Comissão de Educação sendo discutida em Janeiro.
A iniciativa legislativa de cidadãos é um dispositivo legal que possibilita a grupos de cidadãos a apresentação de projectos de lei. É a primeira que se regista após a última alteração legal.
Tal como em outras iniciativas de âmbito legislativo os grupos parlamentares poderão apresentar as suas próprias propostas e será votada em plenário.
Tenho alguma curiosidade sobre o que se irá seguir. Antecipo que as contas eleitorais e a caça ao voto dos professores serão mais determinantes que a apreciação da bondade da pretensão dos docentes que, aliás, não parece suscitar dúvidas, trata-se de cumprir o quadro legal. As diferentes bancadas certamente farão juras de amor aos professores e à justiça das suas posições, esquecendo algumas responsabilidades. Os deputados do PS ficarão, por assim dizer, "entalados" e será interessante perceber a sua posição. Se considerarmos que a iniciativa não mereceu o apoio das duas maiores estruturas de representação sindical dos docentes a expectativa sobre as contas a partidocracia aumenta.
O que me parece significativo é que qualquer que seja o sentido da votação na AR o resultado influenciará seguramente o conflito instalado entre ME e professores e reforça a importância e urgência do inevitável processo negocial, única forma de o ultrapassar.

PARTIU CATALINA PESTANA

Partiu Catalina Pestana. Um trajecto de vida de uma dimensão cívica notável sempre na defesa intransigente do bem-estar de crianças e jovens.
Entre outras funções foi provedora da Casa Pia de Lisboa num tempo particularmente duro e exigente face ao processos relativos aos abusos sobre os alunos.
A sua advocacia dos direitos e da dignidade de tantas crianças maltratadas deixou um exemplo.
Descansa em paz Catalina.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

DOS COLETES AMARELOS


Estava convicto que as manifestações convocadas para hoje não teriam a adesão de que alguns falavam. Não temos na nossa história recente movimentos desta natureza com impacto e a suscitar adesão significativa. As manifestações com mais gente, salvo algumas excepções, recordo a manifestação dos professores em 8 de Março de 2008, ocorrem ligadas às máquinas sindicais ou partidárias que, em muitos casos, não se dissociam.
No entanto, também é minha convicção que muita gente sentirá, não digo uma raiva, mas uma grande inquietação a crescer nos dentes. Esta inquietação decorre de mal-estar no presente e parece também associada a angústias, perplexidades e dúvidas face ao futuro. Neste contexto creio que apesar da forma como correu hoje esta iniciativa voltará.
O quadro internacional é assustador, os movimentos populistas, extremistas e xenófobos ganham espaço e capitalizam com a criação de “responsáveis” essa inquietação e mal-estar. Já conhecemos esta narrativa e os seus efeitos trágicos. A mediocridade das lideranças, a manipulação e desinformação através das redes sociais e da mais despudorada e criminosa campanha de produção de “realidade” a que muita gente adere é mais um poderoso ingrediente.
Julgo que o caminho terá necessariamente de passar pelo recentrar do desenvolvimento no bem-estar das pessoas que liderará o funcionamento das economias e dos mercados abertos. Não podemos aceitar o aumento da concentração da riqueza e das disparidades em escala global ou nacional, a insustentabilidade do ambiente, a exclusão e a pobreza alimentados com os mercados a liderar.
Urge um regresso à política no sentido mais robusto e ético do termo, a promoção do bem- estar das pessoas.
Há pouco cruzei-me com umas dezenas de “coletes amarelos”. Três grupos de crianças do pré-escolar bem arrumadas no passeio de regresso à escola todas equipadas de colete amarelo e acompanhadas por adultos também identificados. Terão mostrado que existem e esperam um presente e, sobretudo, um futuro sustentados e sustentáveis.
Não podemos falhar.

PS – Verdadeiramente deplorável e vergonhoso foi o acompanhamento das manifestações por parte da imprensa televisiva. Quase que exigiam aos manifestantes que se tornassem violentos, agredissem alguém, insultassem quem quer que fosse para que o “directo” fosse estimulante. Boa parte do trabalho da imprensa é parte do problema mas, tem que se dizer, a imprensa tem de obrigatoriamente fazer parte da solução.

DAR PRESENTES E CONSTRUIR FUTUROS

O espírito natalício é incontornavelmente marcado pelos presentes oferecidos sobretudo aos mais pequenos.
A imprensa já incorporou o tema na sua abordagem ao “espírito natalício” e surgem inúmeros trabalhos com sugestões e conselhos aos pais.
Por outro lado e como acontece todos os anos a publicidade direcciona-se em força para os miúdos  recorrendo a todos os suportes e fórmulas estimulando o consumo, os pedidos, a que os pais dificilmente resistem.
Será ingénuo pensar que quem produz e promove produtos para crianças e quem gere os ecrãs, assuma uma preocupação com o equilíbrio entre o natural interesse das crianças por brinquedos e a natural vontade dos pais de proporcionarem prendas aos filhos, sobretudo numa época, o Natal, que está transformada num centro comercial decorado a vermelho e com barbas e num tempo em que cada vez mais “só se é o que se tem” e “ter mais é ser mais”.
No entanto, acredito que podemos fazer alguma coisa junto dos pais e dos mais novos para tentar atenuar os efeitos deste cenário.
As escolas poderiam ter um trabalho interessante debatendo com os miúdos, de todas as idades e de forma adequada, o papel da publicidade nas escolhas e nos gostos deles promovendo uma atitude mais consciente e crítica destes processos. É uma questão de formação e cidadania.
Poderia também ser interessante conversar com os pais sobre o papel dos “presentes” nas relações familiares, isto é, mais prendas não é igual a gostar mais e também não dever ser um modo de aquietar a sua própria consciência por uma menor atenção ou disponibilidade, sobre o papel da publicidade e a forma de lidar com a pressão desencadeada pelos filhos depois de verem os ecrãs e toda a restante e imensa publicidade.
Pode não ser claro, mas a minha ideia não é estragar o Natal, é ter um Natal por medida em vez de um Natal pronto a consumir
Aliás, apesar do significado óbvio que os presentes assumem como sinal de afecto, em particular nesta altura, continuo convencido que a questão essencial não tem a ver com os presentes que podemos ou queremos dar aos miúdos mas com os futuros que com eles preparamos, esses sim, verdadeiramente importantes.
Bom Natal.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

SEM FIM À VISTA


A cada dia que passa e com os discursos produzidos parece cada vez mais difícil a resolução de forma equilibrada do conflito entre Governo e professores. Em cada reunião realizada as posições parecem ficar mais longe. Agora surgem representantes dos pais e encarregados de educação manifestando a sua preocupação, legítima sublinhe-se, com as consequências do prolongamento do conflito mas estranhamente “pedindo bom senso aos professores” pois "a recuperação de parte do tempo de serviço proposta pelo governo já é maior do que a que se registou noutras profissões". O presidente da Confap ter-se-á esquecido de pedir “bom senso” ao ME que tem também é parte envolvida.
Insisto em algumas notas a propósito dos 9A, 4M e 2D mais conhecidos nos últimos tempos com tanta informação, "des”informação, "fake news", "factos alternativos" e "habilidades discursivas".
Julgo que toda esta questão, sobretudo para quem conhece o que é e tem sido o cenário político e as opções em matéria de economia e finanças, por exemplo, em Portugal nos últimos anos, já não é uma questão de euros no OGE para 2019, está para além disso.
Creio que o Governo não percebeu ou não quer perceber que nesta altura, o mal-estar, o cansaço, a indignação e desesperança que afectam os professores sustentam um clima e uma atitude de crítica que está para além da esfera de influência dos sindicatos e tem impacto no climas das escolas e no seu trabalho. Por outro lado, pode acontecer que a tutela espere justamente que o cansaço acabe por sair vencedor de um conflito que, como a generalidade das situações de conflito, deveria ser resolvido numa perspectiva de concertação entre os envolvidos. Quando assim não acontece, os efeitos podem ser pesados mas, naturalmente, será uma questão de opção.
Parece-me claro. Imaginemos que qualquer de nós no desempenho da sua profissão não vê considerado para os efeitos previstos no quadro legal que a regula parte do tempo. Defender que tal decisão não é adequada não é uma “exigência” é a expressão de um direito.
No entanto, a recorrente afirmação da “exigência” e da falta de “bom senso”  dos professores contribui, implícita ou explicitamente, para criar ruído e diabolizar a classe docente o que, lamentavelmente, não é raro como repetidamente tenho escrito. Recorrentes intervenções públicas de que Miguel Sousa Tavares, Correia de Campos ou Paulo Trigo Pereira ou agora o presidente da Confap são apenas exemplos de uma dimensão ética inaceitável. Nada de estranho ou fora de algumas agendas.
Se a estrutura da carreira, do acesso, dos mecanismos de progressão e os efeitos no estatuto salarial não são adequados, justos, claros, etc. então que se desencadeiem os processos conducentes à sua eventual alteração, mas não misturemos tudo para criar confusão.
O quadro legal em vigor, gostemos ou não, é o que deve ser cumprido, é uma questão de direito. Entender o contrário é um risco embora saibamos que em Portugal existe alguma tendência para entender a lei como indicativa e não como imperativa, ou seja, é de geometria variável.
O que deveria estar em causa é o modo e o faseamento no cumprimento da lei. E isto, mais uma vez, só se consegue negociando. Ponto.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

DO MAL-ESTAR DOS MAIS NOVOS


É hoje divulgado o mais recente estudo "A Saúde dos adolescentes Portugueses", o de 2018, que integra o estudo internacional Health Behaviour in School-aged Children, da responsabilidade da OMS, realizado de quatro em quatro anos e coordenado em Portugal pela excelente equipa da Professora Margarida Gaspar de Matos, Aventura Social. Será de leitura obrigatória para compreensão do universo dos adolescentes e jovens portugueses. Lamentavelmente não posso assistir à sua apresentação hoje em Lisboa.
Dado o volume e natureza dos dados, 6997 jovens de Portugal continental, do 6º, 8º e 10º ano, por agora e do que é conhecido uma referência a um dos dados mais preocupantes apesar de não se ter agravado desde a última edição do estudo (2014), o mal causado a si próprio, a automutilação.
Os dados de 2018 referem que 19,6% dos alunos do 8º e do 10º ano assumiram ter-se magoado de propósito pelo menos uma vez nos 12 meses anteriores à resposta ao inquérito. Os dados de 2014 estavam em 20,3%.
Alguns estudos internacionais apontam para cerca de 10% da população em idade escolar com comportamentos de automutilação pelo que os dados encontrados em Portugal são, de facto, preocupantes.
Na verdade, os comportamentos de automutilação em adolescentes são mais frequentes do que muitas vezes pensamos e devem ser encarados com preocupação. E os casos que vão sendo conhecidos são apenas isso, os conhecidos, a ponta do iceberg.
Também um estudo da Universidade de Coimbra, creio que divulgado em 2017, que envolveu 2.863 adolescentes, entre os 12 e os 19 anos, a frequentar o 3.º ciclo e o ensino secundário em escolas do distrito de Coimbra refere que cerca de 20% afirma já ter desencadeado comportamentos autolesivos pelo menos uma vez na vida. Recordemos ainda o recente episódio conhecido por “Baleia Azul” e outros da mesma natureza.
É justamente por esta dimensão e as suas potenciais consequências que me parece fundamental entender tudo isto como um sinal muito forte do mal-estar que muitos adolescentes e jovens sentem e a verdade é que em muitas situações não conseguimos estar suficientemente atentos. Este mal-estar e o que daí pode emergir decorrem de situações de sofrimento com as mais diversas origens, relações entre colegas, bullying por exemplo nas suas diferentes formas ou relações degradadas na família que facilitam a instalação de sentimentos de rejeição, ausência de suporte social que serão indutoras de comportamentos autodestrutivos.
Começa também a surgir como causa deste mal-estar a dificuldade que algumas crianças e adolescentes sentem em lidar com situações de insucesso escolar. Estas dificuldades são frequentemente potenciadas pela pressão das famílias e pelo nível de competição que por vezes se instala.
Os tempos estão difíceis e crispados para muitos adultos e também para os miúdos a estrada não está fácil de percorrer.
Como disse, alguns vivem, sobrevivem, em ambientes familiares disfuncionais que comprometem o aconchego do porto de abrigo, afinal o que se espera de uma família.
Alguns percebem, sentem, que o mundo deles não parece deste reino, o mundo deles é um espaço, nem sempre um espaço físico, insustentável que, conforme as circunstâncias, é o inferno onde vivem ou o paraíso onde se acolhem e se sentem protegidos mas perdidos.
Alguns sentem que o amanhã está longe de mais e que um projecto para a vida é apenas mantê-la ou que nem isso vale a pena.
Alguns convencem-se ou sentem que a escola não está feita para que nela caibam e onde podem ser vitimizados.
Alguns sentem que podem fazer o que quiserem porque não têm nada a perder e muito menos acreditam no que têm a ganhar fazendo diferente.
Alguns transportam diariamente um fardo excessivamente pesado e que os torna vulneráveis.
Depois das ocorrências torna-se sempre mais fácil dizer qualquer coisa mas é necessário pois muitos destes adolescentes e jovens terão evidenciado no seu dia-a-dia sinais de mal-estar a que, por vezes, não damos atenção, seja em casa ou na escola, espaço onde passam boa parte do seu tempo. Aliás, alguns testemunhos ouvidos no âmbito dos recentes e mediatizados casos mostram isso mesmo.
De facto, em muitos casos, designadamente, em comportamentos de automutilação ou estados mais persistentes de tristeza e isolamento, pode ser possível perceber sinais e comportamentos indiciadores de mal-estar. Estes sinais não podem, não devem, ser ignorados ou desvalorizados. É também importante que pais e professores atentos não hesitem nos pedidos de ajuda ou apoio para lidar com este tipo de situações.
O sofrimento e mal-estar induzem uma espiral de comportamentos em que os adolescentes causam sofrimento a si próprios o que promove mais sofrimento num ciclo insuportável e com níveis de perplexidade, impotência e sofrimento para as famílias também extraordinariamente significativos.
Não, não tenho nenhuma visão idealizada dos mais novos nem acho que tudo lhes deve ser permitido ou desculpado. Também sei que alguns fazem coisas inaceitáveis e, portanto, não toleráveis. Só estou a dizer que muitas vezes a alma dói tanto que a cabeça e o corpo se perdem e fogem para a frente atrás do nada que se esconde na adrenalina dos limites.
Alguns destes miúdos carregam diariamente uma dor de alma que sentem mas nem sempre entendem ou têm medo de entender.
Espreitem a alma dos miúdos, sem medo, com vontade de perceber porque dói e surpreender-se-ão com a fragilidade e vulnerabilidade de alguns que se mascaram de heróis para uns ou bandidos para outros, procurando todos os dias enganar a dor da alma.
Eles não sabem, eu também não, o que é a alma. Um adolescente dizia-me uma vez, “dói-me aqui dentro, não sei onde”.
Muitos pais, mostra-me a experiência, sentem-se de tal forma assustados que inibem um pedido de ajuda por se sentirem impotentes e perplexos.
O resultado de tudo isto pode ser trágico e obriga-nos a uma atenção redobrada aos discursos e comportamentos dos adolescentes e dos jovens."
Desculpem a insistência nestas questões, para mais neste tempo de Natal, mas é necessário.