quinta-feira, 1 de outubro de 2026

QUEM QUER SER PROFESSOR(A)

 Sem surpresa, a edição de 2026 do relatório Education at a Glance elaborado pela OCDE mostra um quadro preocupante e global relativamente à perspectiva dos professores sobre a sua profissão e a dificuldade em atrair novos profissionais. Ainda menos surpreendente é verificar a forma com a profissão é percepcionada pelos nossos docentes.

Alguns indicadores como exemplo. No que respeita á sempre relevante questão salarial, no início da carreira, entre 2015 e 2025, o salário inicial dos nossos professores baixou 10%. No mesmo período e nos países da OCDE subiu em média 20%.

Apenas 13% dos nossos docentes afirmam estar satisfeitos com o salário e 39% com as condições de trabalho. As médias na OCDE são de 38,7% e 68,4%, respectivamente. Apenas o Japão tem mais docentes insatisfeitos com as condições de trabalho.

 O relatório recupera dados do Teaching and Learning International Survey (TALIS), uma avaliação internacional sobre as escolas e as condições de trabalho dos docentes e directores  que, citando, "Em toda a OCDE, mais de metade dos professores (51,7%) afirma que o excesso de trabalho administrativo é uma fonte de stress 'bastante significativa'" sendo que Portugal é um dos países em que os professores mais se queixam de o trabalho burocrático ser uma fonte de stress no seu dia-a-dia, 79,3%, próximo da Austrália, 69%, Comunidade Flamenga da Bélgica 75,5%, de Espanha, 64,3% ou da África do Sul, 66,1%.

Considerando uma outra variável crítica, o reconhecimento social da profissão, em média, apenas 22% dos docentes de escolas públicas e privadas afirmam que "concorda" ou "concorda plenamente" que o ensino é valorizado na sociedade. Portugal é um dos países em que os docentes menos entendem que a profissão é valorizada pela sociedade, apenas só 9% dos docentes.

Esta curta síntese ilustra o quadro geral do mal-estar na profissão docente e a enorme dificuldade em reverter este cenário.

Abusando do espaço julgo interessante retomar outros dados de um trabalho realizado em Portugal.

No final de Julho, em pleno “inferno” da classificação dos exames foram divulgados os dados de uma consulta nacional realizada pela Federação Nacional da Educação (FNE) e pela Associação para a Formação e Investigação em Educação e Trabalho (AFIET) realizada entre 12 e 26 Junho com a participação de 3174 docentes.

Com a prudência devida consideremos alguns dos dados, 95,3% respondem gostar da profissão e 78,6% sentem-se realizados no exercício profissional. No entanto, mais de 90% dos inquiridos afirmam trabalhar muito considerando o que recebem e entendem que os salários não estão ao nível das qualificações e competências exigidas.

Mais de 70% afirmam que a profissão não é atractiva e sentem-se constantemente avaliados e julgados. Assim, ainda que gostem do que fazem, 71% não incentivaria um jovem a escolher a carreira docente

Durante o último, perto de 40% dos inquiridos referiram dificuldades financeiras associadas à necessidade de se deslocar para a escola em que trabalham e mais de 20% sentiram necessidade para arrendar casa para poder trabalhar.

Como avaliação global, a ordenação dos desafios sentidos profissionalmente os maiores desafios é encimada pelo trabalho administrativo, dificuldades de resposta à diversidade dos alunos, conciliação entre vida profissional e pessoal e a indisciplina em sala de aula.

Considerando necessidades de investimento e de forma ordenada é referido reforço do pessoal de apoio educativo, 20,4%, apoio a alunos com necessidades específicas, 20,0%, e reforço do pessoal docente, 23,4%.

Apesar da prudência necessária os dados conhecidos são indicadores que merecem reflexão. Naturalmente, que o MECI dirá que, exceptuando alguns irrelevantes pormenores que os mal-intencionados potenciam, o mundo da escola está feliz e em paz.

Recupero ainda alguns dados do Estado da Educação 2024 divulgado pelo Conselho Nacional de Educação, no que respeita aos professores.

Comecemos por referir 20% dos docentes participantes admitem o abandono da carreira de professor.

Acresce que considerando o grupo abaixo dos 30 anos sobe para metade os que admitem o abandono da profissão. São dados que sublinham o alerta vermelho em que a educação está mergulhada há já algum tempo criando um contexto de mal-estar para os profissionais e de pouco capacidade atracção de novos docentes.

O estudo do CNE estima que na próxima década será necessário contratar em média 3800 docentes por ano o que configura um problema sério para as próximas gerações de alunos e para todos nós, sociedade.

Como muitas vezes aqui abordei, há décadas que a falta de docentes estava escrita nas estrelas e sucessivas equipas ministeriais, para além de más políticas públicas que afastaram milhares de professores das escolas negavam a evidência, ouvia-se o mantra dos “professores a mais”. Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato foram dois exemplos de incompetência e irresponsabilidade nesta matéria e nem um rasgo de seriedade no assumir do que é óbvio, falharam. Continuam serenos e de consciência tranquila, provavelmente, também com uma outra percepção, está na moda, do que é consciência tranquila.

O resultado está à vista, o atropelo a um direito fundamental, o direito à educação, e o desempenho escolar de muitos alunos prejudicado pela falta de docentes.

Apesar de algumas iniciativas recentes na tentativa de em muito curto prazo minimizar os problemas só uma abordagem estrutural pode ter potencial de mudança sustentada.

Nesta perspectiva, julgo absolutamente necessário que as políticas públicas de educação assumissem como um eixo nuclear a valorização da carreira docente, valorização dos professores.

É claro que mudanças estruturais têm custos pelo que será de considerar a necessidade de investimento sério em educação, 6% do Produto Interno Bruto o que está definido pela UNESCO como meta para 2030. Estamos perto.

Só esta valorização pode tornar a carreira docente atractiva e com um potencial de retenção e satisfação dos que nela se integram.

Esta valorização passa, evidentemente, pela valorização salarial, mas importa considerar também dimensões como a definição de modelos de carreira e de avaliação justos, simplificados e transparentes e promotores de estabilidade.

Importa que a valorização dos professores resista ao risco de “deskilling” ou “desprofissionalização” através de mudanças nas exigências da habilitação para a docência. O que está a ser divulgado em matéria de formação de professores é preocupante.

Importa que se definam dispositivos de apoio ao exercício profissional em contextos mais exigentes que, por várias razões, se tornam pouco atractivos para profissionais em início da carreira ou para uma eventual mudança para quem já está integrado.

Importa que se desburocratize o exercício da docência com gastos brutais de tempo e esforço sem retorno pertinente. Sim eu sei, como dizia João dos Santos, que “mais difícil em educação é trabalhar de uma forma simples”, mas desburocratizar não é promover “facilitismo” é uma medida com impacto positivo em termos profissionais e pessoais.

Considerando o que acontece em muitos territórios educativos á necessário ajustar seriamente sobre o modelo de governança das escolas e agrupamentos que parece excessivamente dependente da competência de cada direcção criando assimetrias profissionais e climas institucionais menos favoráveis ao trabalho de alunos, professores e técnicos de que, regularmente conhecemos exemplos.

Julgo claro que mudanças neste sentido não são fáceis e que será sempre difícil um caminho de concordância generalizado, mas também tenho a convicção de que medidas conjunturais, mais positivas ou menos ajustadas, concebidas por ciclos políticos continuarão, apesar, de alguns ajustamentos, a “mexer” na conjuntura e a não alterar substantivamente a estrutura que alimenta … as conjunturas.