Sem surpresa, a edição de 2026 do relatório Education at a Glance elaborado pela OCDE mostra um quadro preocupante e global relativamente à perspectiva dos professores sobre a sua profissão e a dificuldade em atrair novos profissionais. Ainda menos surpreendente é verificar a forma com a profissão é percepcionada pelos nossos docentes.
Alguns indicadores como exemplo.
No que respeita á sempre relevante questão salarial, no início da carreira,
entre 2015 e 2025, o salário inicial dos nossos professores baixou 10%. No
mesmo período e nos países da OCDE subiu em média 20%.
Apenas 13% dos nossos docentes afirmam
estar satisfeitos com o salário e 39% com as condições de trabalho. As médias
na OCDE são de 38,7% e 68,4%, respectivamente. Apenas o Japão tem mais docentes
insatisfeitos com as condições de trabalho.
O relatório recupera dados do Teaching and
Learning International Survey (TALIS), uma avaliação internacional sobre as
escolas e as condições de trabalho dos docentes e directores que, citando, "Em toda a OCDE, mais de
metade dos professores (51,7%) afirma que o excesso de trabalho administrativo
é uma fonte de stress 'bastante significativa'" sendo que Portugal é um
dos países em que os professores mais se queixam de o trabalho burocrático ser
uma fonte de stress no seu dia-a-dia, 79,3%, próximo da Austrália, 69%, Comunidade
Flamenga da Bélgica 75,5%, de Espanha, 64,3% ou da África do Sul, 66,1%.
Considerando uma outra variável
crítica, o reconhecimento social da profissão, em média, apenas 22% dos docentes
de escolas públicas e privadas afirmam que "concorda" ou
"concorda plenamente" que o ensino é valorizado na sociedade. Portugal
é um dos países em que os docentes menos entendem que a profissão é valorizada
pela sociedade, apenas só 9% dos docentes.
Esta curta síntese ilustra o
quadro geral do mal-estar na profissão docente e a enorme dificuldade em
reverter este cenário.
Abusando do espaço julgo
interessante retomar outros dados de um trabalho realizado em Portugal.
No final de Julho, em pleno
“inferno” da classificação dos exames foram divulgados os dados de uma consulta
nacional realizada pela Federação Nacional da Educação (FNE) e pela Associação
para a Formação e Investigação em Educação e Trabalho (AFIET) realizada entre
12 e 26 Junho com a participação de 3174 docentes.
Com a prudência devida
consideremos alguns dos dados, 95,3% respondem gostar da profissão e 78,6%
sentem-se realizados no exercício profissional. No entanto, mais de 90% dos
inquiridos afirmam trabalhar muito considerando o que recebem e entendem que os
salários não estão ao nível das qualificações e competências exigidas.
Mais de 70% afirmam que a
profissão não é atractiva e sentem-se constantemente avaliados e julgados.
Assim, ainda que gostem do que fazem, 71% não incentivaria um jovem a escolher
a carreira docente
Durante o último, perto de 40%
dos inquiridos referiram dificuldades financeiras associadas à necessidade de
se deslocar para a escola em que trabalham e mais de 20% sentiram necessidade
para arrendar casa para poder trabalhar.
Como avaliação global, a
ordenação dos desafios sentidos profissionalmente os maiores desafios é
encimada pelo trabalho administrativo, dificuldades de resposta à diversidade
dos alunos, conciliação entre vida profissional e pessoal e a indisciplina em sala
de aula.
Considerando necessidades de
investimento e de forma ordenada é referido reforço do pessoal de apoio
educativo, 20,4%, apoio a alunos com necessidades específicas, 20,0%, e reforço
do pessoal docente, 23,4%.
Apesar da prudência necessária os
dados conhecidos são indicadores que merecem reflexão. Naturalmente, que o MECI
dirá que, exceptuando alguns irrelevantes pormenores que os mal-intencionados
potenciam, o mundo da escola está feliz e em paz.
Recupero ainda alguns dados do
Estado da Educação 2024 divulgado pelo Conselho Nacional de Educação, no que
respeita aos professores.
Comecemos por referir 20% dos
docentes participantes admitem o abandono da carreira de professor.
Acresce que considerando o grupo
abaixo dos 30 anos sobe para metade os que admitem o abandono da profissão. São
dados que sublinham o alerta vermelho em que a educação está mergulhada há já
algum tempo criando um contexto de mal-estar para os profissionais e de pouco
capacidade atracção de novos docentes.
O estudo do CNE estima que na
próxima década será necessário contratar em média 3800 docentes por ano o que
configura um problema sério para as próximas gerações de alunos e para todos
nós, sociedade.
Como muitas vezes aqui abordei,
há décadas que a falta de docentes estava escrita nas estrelas e sucessivas
equipas ministeriais, para além de más políticas públicas que afastaram
milhares de professores das escolas negavam a evidência, ouvia-se o mantra dos
“professores a mais”. Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato foram dois
exemplos de incompetência e irresponsabilidade nesta matéria e nem um rasgo de
seriedade no assumir do que é óbvio, falharam. Continuam serenos e de
consciência tranquila, provavelmente, também com uma outra percepção, está na
moda, do que é consciência tranquila.
O resultado está à vista, o
atropelo a um direito fundamental, o direito à educação, e o desempenho escolar
de muitos alunos prejudicado pela falta de docentes.
Apesar de algumas iniciativas
recentes na tentativa de em muito curto prazo minimizar os problemas só uma
abordagem estrutural pode ter potencial de mudança sustentada.
Nesta perspectiva, julgo
absolutamente necessário que as políticas públicas de educação assumissem como
um eixo nuclear a valorização da carreira docente, valorização dos professores.
É claro que mudanças estruturais
têm custos pelo que será de considerar a necessidade de investimento sério em
educação, 6% do Produto Interno Bruto o que está definido pela UNESCO como meta
para 2030. Estamos perto.
Só esta valorização pode tornar a
carreira docente atractiva e com um potencial de retenção e satisfação dos que
nela se integram.
Esta valorização passa,
evidentemente, pela valorização salarial, mas importa considerar também
dimensões como a definição de modelos de carreira e de avaliação justos,
simplificados e transparentes e promotores de estabilidade.
Importa que a valorização dos
professores resista ao risco de “deskilling” ou “desprofissionalização” através
de mudanças nas exigências da habilitação para a docência. O que está a ser
divulgado em matéria de formação de professores é preocupante.
Importa que se definam
dispositivos de apoio ao exercício profissional em contextos mais exigentes
que, por várias razões, se tornam pouco atractivos para profissionais em início
da carreira ou para uma eventual mudança para quem já está integrado.
Importa que se desburocratize o
exercício da docência com gastos brutais de tempo e esforço sem retorno
pertinente. Sim eu sei, como dizia João dos Santos, que “mais difícil em
educação é trabalhar de uma forma simples”, mas desburocratizar não é promover
“facilitismo” é uma medida com impacto positivo em termos profissionais e
pessoais.
Considerando o que acontece em
muitos territórios educativos á necessário ajustar seriamente sobre o modelo de
governança das escolas e agrupamentos que parece excessivamente dependente da
competência de cada direcção criando assimetrias profissionais e climas
institucionais menos favoráveis ao trabalho de alunos, professores e técnicos
de que, regularmente conhecemos exemplos.
Julgo claro que mudanças neste
sentido não são fáceis e que será sempre difícil um caminho de concordância
generalizado, mas também tenho a convicção de que medidas conjunturais, mais
positivas ou menos ajustadas, concebidas por ciclos políticos continuarão,
apesar, de alguns ajustamentos, a “mexer” na conjuntura e a não alterar
substantivamente a estrutura que alimenta … as conjunturas.
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