sábado, 26 de setembro de 2026

ANDAR DE BINA

 Para fugir a um quotidiano que, inpirado nas notáveis e criativas palavras do MECI, continua a densificar-se e a assustar, uma nota diferente.

Há uns dias lia-se no Público que o Governo irá aprovar em breve a Estratégia Nacional para a Mobilidade Activa 2026-2036. Um dos objectivos finais da sua aplicação é que 20% das deslocações pendulares sejam realizadas a pé e 2% de bicicleta. No entanto, não está prevista a atribuição de recursos financeiros ou técnicos para a sua execução.

É, certamente, mais uma medida que pretende densificar a utilização da bicicleta e do andar a pé. Trata-se de uma decisão oportuna dada a densificação do preço dos combustíveis que não sabemos como e quando se alterará.

Mais a sério, seria desejável caminhar neste sentido, a utilização da bicicleta, mas para que a segurança e adequação das vias de circulação estejam minimamente asseguradas é necessário ainda um longo caminho.

Ao pensar nisto acabei por viajar no tempo, e não de bicicleta, e recordar com ternura e nostalgia a minha bicicleta de adolescente, lá muito para trás no tempo numa estória que já por aqui passou.

Tive a sorte de ter uma bicicleta desde gaiato pequeno, oferta de tios generosos, por isso sempre me habituei a bicicletas até porque foi o veículo de transporte familiar até à adolescência, altura em que o orçamento lá de casa possibilitou a aquisição de uma motorizada para a família e na qual todos nos revíamos embevecidos, continuávamos em duas rodas é certo, mas sempre tinha motor.

Já mais crescido, a economia familiar tinha limites apertados e não chegava para uma bicicleta nova de roda 28 pelo que desenvolvi um empreendedor plano. Recolhia cobre de fios velhos de instalações eléctricas e latão, sobretudo dos casquilhos das lâmpadas, que trocava no ferro-velho do Gato Bravo por peças para a minha bicicleta. O quadro, as rodas, selim, o guiador, os travões, o dispositivo de iluminação com o dínamo na roda e a minha bicicleta foi crescendo, linda, através do que se poderia designar por um modelo pioneiro de “assembling”, com a ajuda sabedora e companheira do meu pai, um conhecedor de bicicletas e, sobretudo, um especialista em gente miúda. Não vos posso dizer a cor da minha bicicleta porque teve várias, era uma bicicleta personalizada.

De vez em quando, conseguia outro guiador, outro selim e a minha amada e invejada bicicleta sofria um “restyling”, até mudanças ganhou. Grandes voltas percorremos nós, quase sempre com o Zé Padiola e outros companheiros, tantas idas à Costa da Caparica e à Fonte da Telha, sempre por estradas que há sessenta anos ainda nos permitiam andar de bicicleta sem os riscos actuais.

É certo que eu e ela também testámos o chão, mas éramos solidários e amigos, quando eu caía, ela acompanhava-me sem um queixume ou ponta de revolta.

Era uma diversão a sério. Que saudades da minha bicicleta.

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