Para fugir a um quotidiano que, inpirado nas notáveis e criativas palavras do MECI, continua a densificar-se e a assustar, uma nota diferente.
Há uns dias lia-se no Público que o Governo irá aprovar em breve a Estratégia Nacional para a Mobilidade Activa 2026-2036. Um dos objectivos finais da sua aplicação é que 20% das deslocações pendulares sejam realizadas a pé e 2% de bicicleta. No entanto, não está prevista a atribuição de recursos financeiros ou técnicos para a sua execução.
É, certamente, mais uma medida que pretende
densificar a utilização da bicicleta e do andar a pé. Trata-se de uma decisão
oportuna dada a densificação do preço dos combustíveis que não sabemos como e quando se alterará.
Mais a sério, seria desejável
caminhar neste sentido, a utilização da bicicleta, mas para que a segurança e adequação
das vias de circulação estejam minimamente asseguradas é necessário ainda um
longo caminho.
Ao pensar nisto acabei por viajar
no tempo, e não de bicicleta, e recordar com ternura e nostalgia a minha
bicicleta de adolescente, lá muito para trás no tempo numa estória que já por
aqui passou.
Tive a sorte de ter uma bicicleta
desde gaiato pequeno, oferta de tios generosos, por isso sempre me habituei a
bicicletas até porque foi o veículo de transporte familiar até à adolescência,
altura em que o orçamento lá de casa possibilitou a aquisição de uma motorizada
para a família e na qual todos nos revíamos embevecidos, continuávamos em duas
rodas é certo, mas sempre tinha motor.
Já mais crescido, a economia
familiar tinha limites apertados e não chegava para uma bicicleta nova de roda
28 pelo que desenvolvi um empreendedor plano. Recolhia cobre de fios velhos de
instalações eléctricas e latão, sobretudo dos casquilhos das lâmpadas, que
trocava no ferro-velho do Gato Bravo por peças para a minha bicicleta. O
quadro, as rodas, selim, o guiador, os travões, o dispositivo de iluminação com
o dínamo na roda e a minha bicicleta foi crescendo, linda, através do que se
poderia designar por um modelo pioneiro de “assembling”, com a ajuda sabedora e
companheira do meu pai, um conhecedor de bicicletas e, sobretudo, um
especialista em gente miúda. Não vos posso dizer a cor da minha bicicleta
porque teve várias, era uma bicicleta personalizada.
De vez em quando, conseguia outro
guiador, outro selim e a minha amada e invejada bicicleta sofria um
“restyling”, até mudanças ganhou. Grandes voltas percorremos nós, quase sempre
com o Zé Padiola e outros companheiros, tantas idas à Costa da Caparica e à
Fonte da Telha, sempre por estradas que há sessenta anos ainda nos permitiam
andar de bicicleta sem os riscos actuais.
É certo que eu e ela também
testámos o chão, mas éramos solidários e amigos, quando eu caía, ela
acompanhava-me sem um queixume ou ponta de revolta.
Era uma diversão a sério. Que
saudades da minha bicicleta.
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