O MECI, sem surpresa, tem vindo a criar “factos” ou “notícias” que ajudem a desviar o foco para a sucessão de decisões e problemas que a irresponsabilidade e incompetência tem sustentado.
Uma das “questões” levantadas
prende-se com o número de docentes em baixa médica, sugerindo, a existência de um número
particularmente elevado que, como habitualmente, os dados não sustentam em
termos comparativos.
A questão que importa sublinhar é
que o exercício da profissão docente é algo de difícil e pesado que talvez não
fosse má ideia que alguns dos responsáveis e opinadores experimentassem a pesar
do risco de danos aos alunos por manifesta incompetência.
De facto, múltiplos estudos,
realizados em Portugal e noutras paragens mostram níveis altíssimos de stress e
risco de burnout no grupo profissional dos professores portugueses que estão em
linha com a realidade de outros países, sobretudo no que concerne ao burnout.
Os factores identificados como
mais contributivos para este quadro são a indisciplina, desmotivação dos alunos
e a pressão para o sucesso e depois insatisfação com as condições de
desempenho, carga horária e burocrática, falta de trabalho em equipa, falta de
apoio e suporte das lideranças da escola. O cenário agrava-se no ensino
secundário.
Na verdade, os dados só podem
surpreender quem não conhece o universo das escolas, como acontece com boa
parte dos opinadores que pululam pelos media perorando sobre educação.
É fácil avaliar a importância e
consequências das situações de mal-estar envolvendo os professores. Alguns dos
discursos que de forma ligeira e muitas vezes ignorante ocupam tempo de antena
na imprensa, parecem esquecer a importância deste trabalho e das circunstâncias
em que se desenvolve.
É complicada a tarefa de
professor em algumas escolas que décadas de incompetência na gestão urbanística
e consequente guetização social produziram.
Os valores, padrões e estilos e
vida das famílias alteraram-se significativamente fazendo derivar para a
escola, para os professores, parte do papel que competia(e) à família. Este
trabalho é realizado, muitas vezes, sem qualquer tipo de apoio ou suporte, com
cada professor entregue a si mesmo.
Importa ainda considerar as
variáveis relativas à estabilidade e segurança profissional com milhares de
professores a cumprir a sua carreira de poiso em poiso, sem poiso e sem
condições e com milhares em mudanças inesperadas ou mesmo perda de segurança na
relação laboral. E não nos esqueçamos também da imprescindível necessidade de
que o seu trabalho seja avaliado através de dispositivos sólidos, eficazes e
justos de forma a proteger a própria classe, os miúdos e as famílias.
Também deve ser ponderada a
deriva política a que o universo da educação tem estado exposto nas últimas
décadas, criando instabilidade e ruído permanente sem que se perceba um rumo,
um desígnio que potencie o trabalho de alunos, pais e professores. O arranque e
funcionamento deste ano lectivo tem sido particularmente elucidativo.
Com muita frequência os
professores são injustiçados nas apreciações de muita gente que no minuto a
seguir à afirmação de uma qualquer ignorante barbaridade, vai, numa espécie de
exercício sadomasoquista, entregar os filhos nas mãos daqueles que destrata,
depreendendo-se assim que, ou quer mal aos filhos ou desconhece os professores
e os seus problemas. Também são conhecidos os casos sucessivos de agressão e
insulto por parte de alunos e famílias.
A forma como os miúdos, pequenos
e maiores, vêem e se relacionam com os professores está directamente ligada à
forma como os adultos os vêem e os discursos que fazem e isto contamina a
serenidade do processo de trabalho.
É também é imprescindível que a
educação e os problemas dos professores não sejam objecto de luta política
baixa e desrespeitadora dos interesses dos miúdos, mesmo por parte dos que se
assumem como seus representantes.
Na verdade, ser professor é uma
das funções mais bonitas do mundo, ver e ajudar os miúdos a ser gente, mas é
seguramente uma das mais difíceis e que mais respeito deveria merecer.
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