segunda-feira, 31 de agosto de 2026

OS TROCA-TINTAS

 Na leitura da imprensa tentei acompanhar o que no Público se referia a propósito da situação de psicólogos, educadores sociais, mediadores e terapeutas da fala vinculados às escolas pelo Programa de Regularização Extraordinária dos Vínculos Precários na Administração Pública (PREVPAP) e que agora estão a ser intimados a devolver algum do dinheiro recebido. O MECI decidiu retirar das suas carreiras os pontos de avaliação do biénio 2017-2018 entendendo que não deveriam ter sido considerados. No entanto, já existiram decisões judiciais em sentido contrário.

Lamentavelmente, já não me surpreendo. Apenas recordo a avó Leonor, vou tentar explicar.

Nos meus tempos de gaiato, a avó Leonor, uma das mulheres mais extraordinárias que conheci, com a mais-valia de ser minha, a minha avó, quando nós caíamos em alguma asneira e tentávamos as esfarrapadas desculpas que a imaginação, ou a falta dela, ditavam ou ainda, quando as pequenas ou grandes mentiras não saíam bem, tentava compor um ar severo, desmentido por uns olhos claros infinitamente doces, e dizia, “não sejam troca-tintas”.

Não me lembro se alguma vez lhe perguntei se sabia a origem da expressão, mas nestes tempos que vamos vivendo e de recorrentes episódios desta natureza, lembrei-me da avó Leonor e dos troca-tintas.

É grande a preocupação, o cansaço e o desânimo que o contexto social e político dos dias que correm provocam. O acompanhamento regular dos discursos, comportamentos e decisões de boa parte das lideranças políticas, sociais ou económicas são elucidativos do “troca-tintismo” que os informa, vale tudo sem limites éticos ou o respeito mínimo pela verdade. Insultam-nos com a desconsideração com que somos percebidos. Haverá certamente excepções, mas são isso mesmo, excepções.

É neste “troca-tintismo” que se sustenta e promove a eclosão do ovo da servente, dos ovos da serpente.

Vão feios os tempos.

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