domingo, 23 de agosto de 2026

MAIS ALUNOS NO SUPERIOR, E AGORA?

 Conhecidos os resultados da candidatura ao ensino superior vejamos alguns indicadores. O número de candidaturas válidas aumentou substantivamente, 60 513, mais 11795 que em 2025. Nesta fase ficaram colocados 49 991, mais 13,9% em relação a 2025, sendo que 26 819 alunos, 53,6%, conseguiram ficar na sua 1.ª opção.

Estes resultados para além de uma desejável maior motivação, estarão associados a alterações no dispositivo de acesso que terá levado a candidaturas de alunos que no ano anterior não conseguiram o acesso e, provavelmente, reflectir o elevado número de reapreciações nos exames finais que com frequência levam à subida da nota.

Uma primeira nota para registar este aumento de alunos no superior, a qualificação e formação são ferramentas indispensáveis de realização e desenvolvimento, mas … há sempre um mas, vejamos algumas questões.

Se consideramos a o contexto social familiar apenas 3% dos alunos apenas 1625 alunos beneficiários do escalão A da Acção Social, incluindo o contingente especial, ficaram colocados.

Nada de novo, sabemos a fortíssima associação entre o estatuto económico e o nível de escolarização familiar na frequência do ensino superior. Os alunos com famílias mais favorecidas acedem aos cursos com mais prestígio, preferencialmente universitário e também com maiores dificuldades no acesso que, como é sabido e julgo merecer reflexão, assenta quase que exclusivamente nas notas obtidas no secundário.

Acresce que a frequência do ensino superior é muito cara em Portugal. Os rendimentos das famílias portuguesas não são do mesmo patamar que a generalidade da UE, o que torna particularmente difícil a continuação de estudos para o superior. As famílias suportam 30% dos custos da frequência do ensino superior, mais do dobro dos custos médios da UE, 13% sem incluir o elevado custo do alojamento.

Os alunos do interior e com baixos rendimentos sentem fortemente condicionado a frequência bem-sucedida do ensino superior que acontece logo na escolha do percurso, a oferta é ela própria condicionada, sobretudo nas regiões do interior. Para além de um eventual cenário de desencanto ou ausência em muitos jovens de uma imagem criadora de futuro associada a qualificação de nível superior, os custos de frequência do ensino superior entre propinas, materiais, vida diária e necessidades de deslocação e alojamento difíceis de suportar para muitos jovens e famílias e um dispositivo de bolsas insuficiente são um conjunto de obstáculos sérios à formação no ensino superior.

Creio também que um número elevado de alunos não colocados na sua primeira opção pode gerar números significativos de desistência e as dificuldades próprias a um processo de transição, do secundário para o superior, colocarão desafios que as instituições de ensino superior, universitário e politécnico, poderão ter alguma dificuldade em responder com sucesso assim como nos recursos alocados a dispositivos de apoio de natureza diferenciada.

Embora já afastado do trabalho universitário creio que se têm acentuado as dificuldades sentidas pelas instituições face a apoios a alunos nos primeiros anos no que respeita ao seu desempenho académico, preparação e motivação para estudo e qualificação.

Espero bem que este aumento da procura por formação de nível superior seja bem-sucedido para todos os que agora irão iniciar o seu percurso de estudantes do ensino superior.

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