Ontem, 28 de Setembro, assinalou-se o Dia Mundial do Jornalismo. Creio que nunca como agora o jornalismo, a imprensa, nos seus diferentes formatos, tem um imprescindível papel de alicerce das sociedades democráticas que vão sentindo os valores democráticos revistos em baixa.
Na verdade, os tempos vão negros.
Esta negrura exige mais do que alguma vez na história uma imprensa autónoma e
independente que na luta pela verdade combata … a imprensa e todos os que
trabalham e se alimentam de “fake news”, “factos alternativos” ou da fabricação
da “pós-verdade”. Há uns anos numa entrevista ao Público, Tom Rosenstiel, especialista
em comunicação, afirmava que se o jornalismo, (os jornais), deixar de ser
rentável e, como tal, corra o risco de desaparecimento, as democracias poderão
sofrer um "cataclismo cívico".
É este o risco quando falham os
“guardiões na luta contra a verdade”.
No entanto, a imprensa tem de cumprir
o seu papel, terá de ser proactiva e não reactiva. Acresce que boa parte do que
na imprensa surge, não é trabalho de jornalistas, é uma missão encomendada a “papagaios”,
“vendedores de agendas”, “fazedores de opinião”, operacionais de interesses e
corporações sem ética nem deontologia
Se analisarmos o nosso quotidiano
nesta matéria creio que boa parte da imprensa é, frequentemente complacente com
as lideranças económicas e políticas, mas também frequentemente esta
complacência assenta no seu próprio alinhamento. Em qualquer dos casos um mau
serviço prestado à cidadania.
Acho deplorável que muitos
profissionais da imprensa aceitem a forma como algumas figuras reagem ao ser
abordadas pela imprensa sobre assuntos sobre os quais, por várias razões, não
lhes interessa discorrer. Surgem então as afirmações patéticas, “não tenho nada
a acrescentar”, “desculpem, não comento”, “não estou aqui para falar dessas
matérias,” etc., etc. Desenvolvem assim uma espécie de surdez selectiva, só
ouvem o que lhes convém, de mutismo selectivo, só falam do que lhes convém, de
cognição selectiva, só conhecem o que lhes convém.
As mesmas figuras que
directamente ou através de terceiros, lambem as botas às redacções e aos
jornalistas (quanto mais influentes melhor) e pedem, exigem, tempo de antena
quando tal serve os seus diferentes interesses.
Algumas dessas figuras quando,
quase sempre fruto do alpinismo partidário, ascendem a alguma forma de poder
conseguem ainda ir mais longe nessa relação com a imprensa, se não lhes agrada
calam-na ou atacam-na como também não é raro. É um método velho e intemporal.
Neste cenário, profundamente
irritante e patético, sinto que nos insultam, que nos consideram destituídos,
como se por não abordarem as diferentes matérias, elas não existam ou, noutros
processos, que somos manipulados de forma nem sempre perceptível pela opacidade
das situações.
É grave a existência de uma
comunicação social, boa parte dela, passiva e resignada, que não confronte as
figuras públicas com estes comportamentos, não os denuncie, e que acorram
solícitos quando essas figuras entendem que têm algo a dizer, as mais das vezes,
irrelevante. Também lhes convém esta subserviência interesseira que alguns
mantêm, também têm as suas agendas. Às vezes são recompensados.
Recordo que já em 2017 o
Sindicato dos Jornalistas apelou a que a classe "boicote" as
conferências de imprensa ou declarações em que não sejam permitidas questões. A
situação continua a repetir-se e recorrentemente assistimos a estas deploráveis
situações.
Levada a sério e posta em prática
poderia ser um forte contributo para combater o modo como muitas lideranças
entendem o papel da imprensa, serve para divulgar apenas a mensagem que lhes
interessa mostrando-se indisponíveis para responder a questões. A imprensa é
apenas um veículo publicitário dos seus produtos ou “verdades”.
Para além desta atitude seria
ainda desejável que quando colocam questões, os jornalistas façam as perguntas
adequadas e não uma encenação de diálogo que mais não é que um monólogo a dois,
ou seja, independentemente das perguntas, o inquirido fala do que quer sem que
isso lhe seja cobrado. É importante o movimento de “fact check” que vai
emergindo, mas é preciso mais.
Sei que não é fácil, todavia
também tenho a convicção de que seria uma forma de proteger a própria imprensa
e o seu papel insubstituível como um dos pilares das sociedades abertas e
democráticas.
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