quinta-feira, 31 de maio de 2007

PORTUGAL - AFINAL NÃO É O INFERNO

Finalmente uma notícia interessante. De acordo com um estudo publicado em The Economist, em 121 países considerados, Portugal coloca-se na nona posição como país seguro e pacífico. Curiosamente, aparece mais bem colocado que os Estados Unidos, os polícias do mundo contemporâneo.

Como já aqui tenho referido, estou longe de considerar que o país seja o inferno que o tratamento leviano e demagógico dispensado por alguma comunicação aos incidentes que lamentavelmente ocorrem, leva a entender. Esta abordagem acaba por sustentar discursos, a meu ver, perigosos por parte de alguns “opinion makers” e de uma franja política que, por diferentes razões, afirmam uma paranóia securitária que, de forma estranha e certamente coincidente, se direcciona para minorias que, assim, ficam genericamente associadas ao mundo “extremamente inseguro e violento” em que vivemos. Atente-se, por exemplo, no discurso do PNR e de algumas figuras da direita portuguesa.

Temos, como todas as sociedades actuais, problemas de segurança mas só a lucidez na análise desses problemas facilitará a sua gestão e prevenção mais eficazes. Sem demagogia e populismo, sem preconceito, sem sobrevalorizar a repressão, pois, estes podem ser caminhos que, sabendo como começam, também sabemos como podem acabar.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

GREVE GERAL - ganharam todos

Considerando a turbulência política que caracteriza o nosso quotidiano, sabem-me sempre bem os relaxantes momentos proporcionados pela análise do que acontece nos dias de eleições, seja de que natureza for, e nos dias com greves agendadas, seja qual for o seu âmbito.

Esta tranquilidade advém do facto de nestes dias se estabelecerem verdadeiros consensos entre os interesses em conflito. O mais estimulante é que o consenso se estabelece em torno da ideia de que… ganharam todos. Ele há coisas fantásticas não há? Foi o caso verificado com a greve geral de hoje, ou parcial, ou total, ou o que acharem por bem. As entidades representantes dos empregadores, incluindo a administração, afirmam que se registou um bom resultado pois a iniciativa não teve a adesão referida e ou esperada, não teve impacto significativo na vida das comunidades, que fica evidente a aceitação das políticas seguidas, etc. Por outro lado, as estruturas representativas dos trabalhadores informam-nos que a adesão correspondeu às expectativas, que os trabalhadores mostraram o seu descontentamento, que o movimento sindical obteve mais uma retumbante vitória, etc.

É. As histórias ficam sempre mais bonitas quando todos se sentem bem, quanto mais não seja… até amanhã.

terça-feira, 29 de maio de 2007

PERPLEXIDADES QUE JUNTAM SÓCRATES E O SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Duas perplexidades daquelas que nos recordam Eça. Choldra de país.

Um acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, reduz em um terço a pena de prisão aplicada a um sujeito que, comprovadamente, abusou de forma continuada entre 2000 e 2004 de um rapaz agora com 13 anos, sendo ainda que se apuraram mais 4 situações de abuso que não foram a julgamento porque os pais das crianças envolvidas não apresentaram queixa. A fundamentação da decisão sobre o recurso da defesa, assenta em aspectos como “não é certamente a mesma coisa abusar de uma criança com 5,6, ou 7 anos ou de um jovem com 13”, ou que “a imagem social do arguido foi prejudicada com o processo”. O douto acórdão entende ainda que o silêncio da criança, devido a ameaças, propiciou o comportamento do arguido e, finalmente, que a pena de 7 anos e 5 meses, já confirmada na Relação, sendo “excessiva e desproporcionada” deverá ser reduzida para 5 anos. Para que conste os nomes destes escribas de direito que se clamam de juízes de um tribunal supremo são RODRIGUES DA COSTA, ARMÉNIO SOTTOMAYOR, REINO PIRES E CARMONA DA MOTA. Como se não bastasse, num ímpeto corporativista acéfalo, o Vice-presidente do Supremo, ANTÓNIO HENRIQUES GASPAR, achou o acórdão excelentemente fundamentado. Amigos, vergonha e tristeza.

Segunda perplexidade. O Primeiro-ministro José Sócrates em visita oficial à Rússia, aceita que a Praça Vermelha em Moscovo seja encerrada para a realização do seu jogging matinal. Claro que a ideia de encerrar não foi sua (o despudor tem limites) mas não a recusou. Vergonha destes umbigos deslumbrados.


CANDIDATOS A LISBOA - PRIMEIRAS MEDIDAS

Num exercício de antecipação, procurámos imaginar a primeira medida que os candidatos já conhecidos à Câmara de Lisboa tomariam caso fossem eleitos. Ficou como segue.

António Costa – PS – Estabelecer, por decreto municipal, a sua rigorosa independência e distância face à política governamental do PS
Helena Roseta – o outro PS – Criar um movimento de cidadãos e cidadãs para saber a sua opinião sobre o que fazer
Sá Fernandes – BE – Embargar qualquer obra em curso
Carmona Rodrigues – o outro PSD – Convidar Santana Lopes para assessor só para chatear Marques Mendes
Fernando Negrão – PSD – Substituir a estátua de Sá Carneiro por uma de Marques Mendes
Ruben de Carvalho – CDU – Oferecer um lugar na vereação ao Partido "Os Verdes"
Gonçalo da Câmara Pereira – PPM – Determinar o seu tratamento por Marquês
Manuel Monteiro – ND – Disponibilizar um T0 para sede do seu partido
Telmo Correia – CDS-PP – Proibir Teresa Caeiro de realizar qualquer intervenção perto de um microfone
Pinto Coelho – PNR – Realizar uma visita de cortesia ao bairro da Cova da Moura

Não morasse eu na famosa margem sul e estaria preocupado.


sexta-feira, 25 de maio de 2007

DIA INTERNACIONAL DA CRIANÇA DESAPARECIDA - à vossa consciência

Hoje, 25 de Maio, segundo o calendário que serve de agenda para as consciências, passa o Dia Internacional da Criança Desaparecida.

O problema é exactamente este. Em muitas circunstâncias e por variadas razões, parece que a criança desapareceu das nossas consciências. Provavelmente por isso, de vez em quando, precisamos que uma tragédia, o desaparecimento da Madeleine por exemplo, se transforme num episódio histérico-mediático que nos convença de uma genuína preocupação com o estafado “supremo interesse da criança” e do seu entendimento como princípio fundador das nossas comunidades. Preocupemo-nos então com o desaparecimento das crianças.

Amanhã, será outro dia.
(Foto de José Pinto)

quinta-feira, 24 de maio de 2007

SENHOR MINISTRO MÁRIO LINO

Excelência,

Apelando à sua generosidade apresento-lhe a seguinte situação.

Por azares da fortuna acabei por nascer e viver no Deserto da Sara, como sabe o petit nom da margem sul do Tejo. Estou num trágico inferno Senhor Ministro. Os meus filhos engrossam as estatísticas que envergonham o nosso país e a sua colega Ministra da Educação pois, por falta de escolas, estão condenados ao analfabetismo. Todos os dias temos alguém conhecido ou familiar que falece por falta de assistência pois hospitais… não existem O seu colega Ministro da Saúde tem aqui a tarefa facilitada pois não se pode fechar o que nunca abriu. Como sabe, não temos indústria e comércio e, no deserto, a agricultura é residual pelo que poucos trabalham aqui no Deserto da Sara. Mesmo assim, os poucos que o fazem têm de percorrer longuíssimas distâncias até chegar ao Portugal rico e desenvolvido da margem Norte. Até estas viagens são infernais pois, como muito bem sabe Vossa Excelência como Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, não temos estradas, as carroças são lentas e a travessia do Tejo torna-se difícil porque os barcos não ajudam. O nosso ordenamento territorial obedece às leis do deserto pelo que não temos cidades, apenas aldeias e tão dispersas que nem as grandes superfícies chamadas Centros Comerciais aqui se instalam. Embaraça-nos muito, também, o isolamento em que vivemos pois quando, por milagre, alguém se lembra de vir ao Deserto da Sara não pode ficar devido à inexistência de hotéis, embora tenhamos numa aldeia chamada Costa da Caparica, uns parques de campismo muito jeitosos que Vossa Excelência já visitou num safari que fez pelo Deserto da Sara, aquando da revolta do mar.

Como vê Excelência, é o inferno. Quando, com a ajuda de um familiar rico ou com algum subsidiozinho dado pelo governo a que Vossa Excelência pertence, oferecemos um presente aos nossos filhos, quase sempre optamos por “kits de sobrevivência”. É por isso que me dirijo ao Senhor Ministro no sentido de me ajudar. Um primo da cunhada do tio da minha mulher falou-me que existe uma terra chamada Ota que fica situada numa região chamada Éden onde existe tudo, mas mesmo tudo, o que pode fazer feliz uma família preocupada com o bem-estar dos seus filhos. Parece que só falta mesmo um aeroporto mas, disse-me esse familiar, o Senhor comprometeu-se pessoalmente a construí-lo. Só lhe pedia então um emprego para sair aqui do Deserto da Sara e dar à minha família o que merece. Ajeito-me em qualquer coisinha e, se tiver dificuldade, peço ajuda a um ucraniano daqueles que são doutores e sabem fazer de tudo e que agora vêm para as nossas obras. Como vê peço pouca coisa. Em troca prometo o meu voto e o da família, prometo rir-me das graças sobre a sua inscrição na Ordem dos Engenheiros, e, muito importante, não farei queixa dessas graças.

Queira Senhor Ministro aceitar os meus agradecimentos pela atenção que possa dispensar a esta trágica situação.

Seu, José Marques
Almada

quarta-feira, 23 de maio de 2007

DO "NÃO DEVO" EM FALÊNCIA AO "QUANDO QUISER SERÁ ASSIM" ADIADO - As mães adolescentes

Segundo dados da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, um quarto dos responsáveis pelos menores envolvidos nos processos instaurados em 2006, 25209, têm menos de 18 anos. A estes dados creio ser interessante juntar um indicador retirado do Estudo HBSC – A Saúde dos Adolescentes Portugueses divulgado em 2006. Na população adolescente inquirida, 18,2 % afirmam-se sexualmente activos e, de entre estes, 82% das raparigas referem os 14 anos ou mais para o estabelecimento da primeira relação sexual.

Esta realidade mostra o enorme desafio social que constitui a saúde dos adolescentes, neste caso, relativa à sexualidade e risco acrescido de maternidade.

A expectativa de um comportamento sexual regulado em função do “não devo” associado ao pecado, parece em falência. A expectativa de um comportamento regulado em função do “não quero”, pode parecer ingénua actualmente. A expectativa de um comportamento regulado pelo “quando quiser, será assim” parece adiada e carece de auto-regulação e (in)formação. Cremos que a minimização deste quadro, aliás como em outros aspectos relativos a comportamentos saudáveis dos adolescentes e jovens, reside exactamente nestes dois eixos, autonomia e (in)formação, isto é, jovens que decidem sobre os seus comportamentos tendo acesso e dominando os recursos necessários à decisão. Já não é o tempo de discursos mais ou menos conservadores, mais ou menos liberais, mais ou menos demagógicos, mais ou menos paternalistas e desculpabilizantes, mais ou menos etc. É o tempo urgente da educação assente na auto-determinação, cujas bases são a formação e a informação.

terça-feira, 22 de maio de 2007

PROVAS DE AFERIÇÃO

Voltaram as provas de aferição. Desta vez envolvendo todos os alunos dos 4º e 6º anos do Ensino Básico e com os resultados devolvidos a cada escola e a cada professor.

Levantam-se as vozes. As estruturas representativas dos professores entendem que as provas, ainda que destinadas a avaliar o sistema, são, isso sim, uma forma encapotada de avaliar os professores. O ME, pela voz do Secretário de Estado, Jorge Pedreira, afirma que não se trata de avaliar os professores porque se fosse essa a intenção, afirmá-lo-ia. Nada de novo, uma vez que em qualquer área de funcionamento das comunidades, se estabelece uma natural conflitualidade de interesses que, umas vezes será base de desenvolvimento e, outras tantas, um retrato do lado mais negativo dos corporativismos e um inibidor de mudança. A existência de provas aferidas não parece, de momento, merecer grande contestação ganhando até maior pertinência se considerarmos o desejável avanço da autonomia das escolas. Por outro lado, parece também consensual que qualquer dispositivo de avaliação no interior de um sistema, implica de alguma forma os diferentes elementos desse sistema porque…é um sistema. Concordarão que, tanto a administração educativa como os professores, fazendo parte do sistema educativo estarão, naturalmente, sob escrutínio quando esse sistema está em avaliação.

Do meu ponto de vista a questão mais interessante passa por clarificar aspectos como: As provas avaliam exactamente o quê? A administração educativa crê que são “os objectivos e as competências essenciais de cada ciclo”. Será? Tratando-se de anos de transição, 4º e 6º, e de resultados individuais, o que fará cada professor, cada escola com os resultados de alunos que já não acompanham? Certamente, se o entender, poderá reajustar processos, mas em que direcção se a prova evidencia produtos? Será que alguma escola ou professor se surpreenderá com os resultados, bons ou maus, dos seus alunos? Se acontecer é porque não os conhece e, então, não há prova de aferição que lhes valha. Que farão pois com os dados?

Daqui a algum tempo, quando os resultados chegarem às escolas, veremos se encontramos algo que nos ajude nestas, e noutras, dúvidas. Sem equívocos.

domingo, 20 de maio de 2007

HIS MASTER'S VOICE - O caso da Directora Regional de Educação do Norte

Apesar de já muita coisa ter sido dita sobre este episódio creio que ainda merece comentário. A Directora Regional de Educação do Norte, Dra. Margarida Moreira, desencadeou um processo disciplinar a um professor em serviço na Direcção Regional. O funcionário terá produzido “um insulto no interior do serviço em horário de trabalho” tendo como alvo o Eng. (reparou Sra. Dra. que não coloquei aspas) José Sócrates. Na versão do funcionário, ter-se-á tratado de um comentário jocoso dirigido a um colega dentro de um gabinete. Independentemente (o "independente" aqui referido, não foi piada) da versão, a coisa é grave.

O Governo já tinha avançado com a ideia de que os funcionários públicos poderiam agir como delatores relativamente a casos de corrupção. Mas a diligente funcionária, como todos os caninos seguidores do chefe (este é um comentário um bocadinho insultuoso, o meu cão não faz tudo o que lhe digo), alarga esta ideia e denuncia tudo o que lhe cheire (não é insulto) não ser favorável ao chefe. Distraiu-se com o comentário do Ministro Mário Lino. Poder-se-ia afirmar que a Dra. Margarida revela uma atitude de comissária de costumes que faz queixinhas ao chefe. Poder-se-ia pensar que esperará a recompensa de mais uma comissãozinha. Poder-se-ia achar que o facto de o funcionário ser de outro partido é irrelevante e não mais do que uma coincidência. Não vale a pena. A atitude da senhora parece mesmo um insulto.

Os tempos vão feios.

sábado, 19 de maio de 2007

ESCOLAS DE REFERÊNCIA, DIZ VALTER LEMOS

Segundo a imprensa de hoje, o Ministério da Educação tem em preparação a reorganização da resposta aos alunos com necessidades educativas especiais (NEE). O Secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, afirma, citado pelo JN, “não é possível ter um discurso sobre inclusão e uma prática de exclusão”. Certo, não podemos estar mais de acordo. Mas…

O ME com este Secretário de Estado, criou um quadro para professores de educação especial com 2155 lugares para apoiar 44 640 alunos com NEE (números do ME em 04/05 e que, no mínimo, não se alteraram pois trata-se de necessidades de carácter prolongado), o que estabelece um ratio de 1 docente para mais de 20 alunos. Inclusão?

A aplicação à população escolar portuguesa das taxas internacionalmente aceites relativas à incidência de necessidades educativas especiais, porá em evidência a situação de milhares de crianças e jovens sem apoio adequado às suas necessidades educativas. Aliás, ao longo do ano apareceram na comunicação social muitas referências a este quadro. Tem razão o Secretário de Estado. São práticas de exclusão desenvolvidas sob a sua responsabilidade.

A partir deste ano lectivo, o ME determinou que fosse utilizada a Classificação Internacional de Funcionalidade elaborada pela Organização Mundial de Saúde para escolher os alunos que beneficiam de apoio educativo. Esta utilização, que nem a OMS aconselha (para este efeito), foi contestada por especialistas em Educação Especial ligados a 18 instituições de ensino superior, pois “a CIF é uma classificação da funcionalidade e da incapacidade do Homem. Ela agrupa, de maneira sistemática, os domínios da saúde e os domínios relacionados com a saúde”, p.22. A generalidade dos países utiliza avaliações de natureza educativa para aferir das necessidades educativas o que não parece estranho. A utilização inadequada e gravosa em termos educativos da CIF é também, naturalmente, da responsabilidade do Secretário de Estado, Valter Lemos.

Num aspecto concordamos. É preciso criar escolas de referência, mas com um pequeno ajustamento. Que todas as escolas sejam de referência, para todos os alunos e não só para os que passarem pelo errado filtro da CIF. Trata-se de um direito que lhes assiste. A todos.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

PRAXES. E NÃO SE PODE EXTERMINÁ-LAS?

Nos últimos dias apareceu na comunicação social a referência a mais um episódio da triste realidade designada por praxe académica. Agora foi na Universidade de Coimbra. Ao que parece, durante um “tribunal de praxe”, estudantes de Medicina terão provocado algumas lesões em dois caloiros do mesmo curso.

Parece também que o Conselho de Veteranos (gente que se arrasta pela universidade à custa dos nossos impostos), ficou de “apurar os factos” e, de acordo com o seu mais destacado membro, o dux veteranorum, o senhor João Luís de Jesus, caso se confirmem abusos, os senhores prevaricadores correm o risco de “perda de graus hierárquicos” ou, até, pena das penas, castigo dos castigos, tortura das torturas, apanhar com “suspensão do exercício da praxe”, o que representará, seguramente, o fim trágico de uma brilhante carreira académica. No entanto, apurados os factos, podem concluir que este incidente não passou de um trabalho de grupo sobre traumatologia e nível de sensibilidade à dor. Terá corrido mal por falta de colaboração e qualidade do “material didáctico” (os caloiros) e os pobres e esforçados estudantes ainda podem ser prejudicados na avaliação, injustamente.

Numa altura em que, pelas piores (ou melhores) das razões, o ensino superior está sob escrutínio, não seria tempo das academias reflectirem sobre comportamentos e culturas que, de integração e valores académicos, têm nada. Além disso, as “tradições” não têm que ser boas só por serem, dizem, “tradições”.

COMPRO O QUE É NOSSO

Hoje no JN aparecia uma referência à campanha “COMPRO O QUE É NOSSO”, iniciada há alguns meses no âmbito das actividades da Associação Empresarial de Portugal. De acordo com a peça, admite-se que a campanha possa ter um impacto de 800 milhões de euros na nossa balança comercial, levando a que o défice comercial possa baixar 4.32%.

Gosto da ideia. Num tempo de liberalismo mais “neo” e mais “ultra” do que alguns nos querem fazer crer, com uma fortíssima pressão globalizante em todas as áreas, que procura “normalizar” e “calibrar” tudo e, já agora e se possível, todos, creio que faz sentido direccionar o nosso consumo para aquilo que produzimos, muitas vezes, em condições vantajosas em termos de qualidade e preço. Haverá certamente quem entenda como proteccionismo este tipo de iniciativa. Não concordo pois o proteccionismo esconde-se em quadros normativos, muitas vezes injustos e discriminatórios. Nesta situação procura-se sensibilizar o cidadão para que, num acto soberano de auto-determinação, decida consumir preferencialmente aquilo que produzimos. Acho bem, sempre recusei comer laranjas com ar engraxado e de estufas estrangeiras, enquanto os produtores algarvios deitam fora laranja de excelente qualidade e sabor mas “descalibrada”, seja lá isso o que for.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

OS NÚMEROS DA EDUCAÇÃO À PROVA DE PROTESTOS

Excerto do Editorial de hoje do Diário de Notícias intitulado “Os números da educação à prova de protestos”.

“No ano passado, a população escolar cresceu pela primeira vez em quase uma década: ganhou mais de 21 mil alunos, o equivalente a 1,3%. O funcionamento das escolas públicas até às 17.30 generalizou-se: é uma realidade em 78% dos jardins-de-infância e em 89% das escolas do 1.º ciclo. As escolas com menos de dez alunos foram reduzidas a um quinto: os alunos estão reagrupados em menos 2463 estabelecimentos. Os chamados "furos" praticamente deixaram de existir: as aulas de substituição preenchem os tempos livres dos estudantes causados pelas faltas dos professores. E tudo isto foi feito com menos 8329 professores.

… foi a primeira a dar resposta a Cavaco Silva, que pediu ao Governo resultados nas reformas em curso. Mais do que um caso raro em política, a ministra da Educação pode ser um case study de eficácia”.

Este excerto do editorial do DN de hoje ilustra, creio, o fenómeno dos “tudólogos” a que já me tenho referido neste espaço. Com efeito, a partir de um conjunto de números, certamente merecedores de análise, e com dimensões positivas, o iluminado editorialista retira conclusões que os números não permitem. Vejamos. Dizer que 78% de Jardins de Infância e 69% das escolas do 1º ciclo estão abertos até às 17.30 apenas permite afirmar que um problema social, a guarda das crianças em horários laborais está mais acautelado, mas NÃO PERMITE AFIRMAR QUE OS RESULTADOS ESCOLARES (EDUCATIVOS) SEJAM MELHORES, ou seja, é preciso verificar se a uma resposta positiva em termos de logística familiar e social, corresponde, de facto, melhor educação. Aliás, o editorialista poderia ter verificado na mesma fonte, o relatório da Inspecção-Geral da Educação, que, por exemplo, apenas 37% das crianças de 3 anos tem acesso à rede pública de educação pré-escolar na Direcção Regional de Educação do Algarve ou que, de 2004 até agora a taxa de cobertura nacional subiu de 74% para 76% em toda a educação pré-escolar. Estes dados elucidam, sem ambiguidades interpretativas, sobre a eficácia da prestação de serviços educativos e não são à prova de protestos.

Quanto à redução de escolas e de professores, parece importante diferenciar dois aspectos. Em primeiro lugar, é óbvio que racionalizar custos e optimizar a gestão de recursos constitui um aspecto positivo. No entanto, lamentavelmente meu caro editorialista, não é suficiente para se dizer, eis “os resultados das reformas em curso” porque em educação os grandes indicadores de sucesso assentam fundamentalmente no nível atingido pelos alunos em avaliações rigorosas, credíveis e consistentes no tempo. De resto, o que temos são factores contributivos obviamente importantes mas, qualquer manual de gestão o dirá, gerir bem não é só poupar muito, é, também e sobretudo, melhor qualidade no serviço prestado. E nisso o editorialista tem razão, se esta Ministra é um “case study” os resultados (não indicadores de gestão) terão, esses sim, de ser objecto de “study” e em muitas áreas. Para se saber do que se fala. No entanto, compreendo que um editorial não seja um editorial e seja uma declaração de fervor político. Sinais dos tempos.

terça-feira, 15 de maio de 2007

A ASAE

Nos últimos tempos, sobretudo durante a presidência de António Nunes, a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, ASAE, tem-se destacado na forma como, em acções com forte cobertura mediática, tem procurado combater a contrafacção nas mais diversas áreas, sempre no supremo interesse da “defesa do consumidor”. Assumindo, como qualquer de nós, esta condição, não posso estar mais de acordo com esta atitude, embora possa discutir a mediatização e aparato de que se revestem muitas das acções desenvolvidas.

Considerando fundamental este objectivo, “defesa do consumidor”, solicito que a ASAE se debruce sobre a óbvia presença de produtos de contrafacção na nossa vida política o que, obviamente, compromete a sua qualidade. Assim, espero que os inúmeros políticos, de diferentes quadrantes, que são obviamente produtos contrafeitos e de uma falta de qualidade ameaçadora, sejam detectados e recolhidos pela ASAE para que os eleitores, quando procuram “adquirir”, através do voto, representantes de qualidade certificada e de boas marcas, não tomem gato por lebre. Peço.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

FÁTIMA, FUTEBOL E FADO


É reconfortante um fim-de-semana que se passou de acordo com a tradição que, de vez em quando, volta a ser o que era.

Durante estes dois dias foi-nos oferecida uma forte dose de Fátima, Futebol e Fado, o da menina desaparecida.

Certamente inspirados por este clima, amanhã acordaremos com a esperança num Milagre, que nos permita dar um Pontapé no Destino que carregamos.
(Foto de Leonardo Pinheiro)

quinta-feira, 10 de maio de 2007

POR UM MINISTÉRIO DA ATURAÇÃO

A experiência quotidiana mostra que uma das constantes no discurso dos portugueses remete para o problema do “aturar” ou, inventando, a “aturação”. De facto, a referência ao aturar e à dificuldade ou falta de paciência para aturar, constituem uma das mais recorrentes fórmulas de descrição ou retrato da realidade diária. Vejamos alguns exemplos.

“Ando com uma falta de paciência para aturar os miúdos, que eu sei lá!”. D. Esmeralda, empregada administrativa e mãe, entre o jantar, a novela e a cama, de duas adoráveis crianças que só se acalmam quando dormem, à pressa.
“Quem devia aturá-los era a Ministra!”. Setôra Lina, tenta ser professora de inglês numa escola do 2º ciclo.
“Então uma pessoa tem que aturar esta bicha de 5 horas para marcar uma consulta só para pedir os remédios?!” – D. Maria, reformada e “graças a Deus vou andando” em part-time.
“Meu, a cena é secante bué, não dá p’aturar tás a ver!”. Tójó, escolante, isto é, aluno de 8º ano que só vai à escola mas não vai às aulas.
“Quando aparecem os políticos, mudo logo de canal. Um gajo já não pode aturá-los!”. Sr. Santos, empregado de café, usa o comando da TV na bandeja.
“Ainda tenho que aturar mais 2!” Dr. Marques Cansado, médico de um Centro de Saúde suburbano, ao fim da 37ª consulta.
“Já não os posso aturar com esta coisa da Ota, não acha?!”. D. Celeste, cabeleireira de bairro, admiradora do Sr. Manuel Luís Goucha.
“Agora ainda tenho que aturar o chefe com mais calminha por causa da avaliação!” Sr. Silva, funcionário da repartição onde se compra o papel e se põe o selo.
“Tou farta de os aturar, agora o meu pai quer que eu esteja em casa antes das 9 da matina!”. Geninha, 14 anos, amiga do Tójó e da Kátia. Também é escolante.
“Estas medidas põem em causa os objectivos da empresa, não é possível aturar tanta falta de visão estratégica! Assim, dificultam-nos o acesso aos prémios de gestão”. Eng. Tranquilo da Cunha, gestor de uma empresa pública deficitária.
“Não dá para aturar. Estes gajos agora querem que passe facturas!” Zé Manel, mecânico de biscates na oficina de tunning do Licas.
E os exemplos poderiam multiplicar-se infinitamente.

Neste quadro e porque entendo que o modelo de organização administrativa deve estar ao serviço dos cidadãos, proponho que, numa próxima reorganização do Estado, seja criado o Ministério da Aturação com o objectivo central de implementar (tinha que ser) medidas de combate à falta de paciência e que estimulem e desenvolvam a nossa capacidade de aturar, seja o que for.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

MADELEINE E ROSETA - sinais dos tempos

Breve comentário a dois dos mais impressivos pontos da agenda de hoje.

No Algarve, no país, no Reino Unido, como a totalidade da imprensa sublinha, agitam-se as pessoas, as instituições de todas as áreas e as consciências a propósito do desaparecimento da pequena Madeleine. Desejamos todos que a situação se resolva de uma forma não mais devastadora para a criança e para os pais do que já está a ser. No entanto, creio que, para além das reacções emocionadas, do exaustivo acompanhamento mediático e do empenho em solucionar positivamente o problema, os problemas, importaria promover de forma também empenhada, persistente e com meios adequados, uma cultura de protecção da criança, a que aqui já me tenho referido. As sociedades e os valores mudam, as circunstâncias de vida das famílias e das crianças e os riscos potencialmente existentes alteram-se, pelo que, para problemas diferentes exigem-se atitudes e respostas diferentes. Mais atenção e prevenção antes da reacção.

A arquitecta Helena Roseta veio a público anunciar a sua disponibilidade para se candidatar, como independente, à presidência da Câmara de Lisboa. Não sendo eleitor em Lisboa e, portanto, não envolvido neste processo eleitoral, parece-me positiva uma candidatura fora do âmbito partidário, e não sustentada em razões como as envolvidas nas situações de Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro e Isaltino Morais. Os partidos constituem-se como um dos pilares da democracia, não como os donos da democracia, ou seja, uma democracia assente numa encapotada partidocracia, é uma democracia mais frágil e com menos qualidade na cidadania.

PROGRAMAS E MANUAIS ESCOLARES



Segundo o DN a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, admite que “pode acontecer que nem sempre a qualidade dos programas e dos instrumentos de ensino esteja assegurada e pode acontecer também que alguns programas não tenham a dimensão adequada”. A esta afirmação, proferida durante a Conferência Internacional sobre o Ensino do Português, a ministra acrescentou estar em curso a revisão dos programas, designadamente de Português e de Matemática. Mais informou estar em preparação legislação sobre o processo de certificação dos manuais escolares, já contemplando as eventuais alterações de conteúdo e/ou de estrutura dos programas.

Para quem conhece a realidade do sistema educativo português no que respeita a programas e manuais, esta parece ser uma boa notícia. No entanto, considerando que esta equipa nos tem habituado à produção de mudanças a um ritmo inimigo da qualidade e da ponderação, frequentemente de forma avulsa e desarticulada, definidas sem que se vislumbre solidez ou sustentação científica e, ao que parece, obsessivamente orientadas para resultados, sem que tenhamos ideias claras sobre o seu entendimento sobre o que serão os resultados, é bom estar atento.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

DIA DA MÃE, DIA DE MÃE

DIA DA MÃE
(excerto de “Deolinda de Jesus” de António Rodrigues Ribeiro, António Variações)

A minha mãe.
É a mãe mais bonita,
Desculpem, mas é a maior,
Não admira, foi por mim escolhida,
E o meu gosto, é o melhor,
E esta é a canção mais feliz,
Feliz eu que a posso cantar,
É o meu maior grito de vida
Foi o seu grito, o meu despertar
Canção de mãe é sorrir,
Canção de berço de embalar,
Melodia de dormir,
Mãe ternura a aconchegar,
Canção de mãe é sorrir,
Gosto de ver e ouvir,
Voz imagem de sonhar
Imagem viva lembrança,
Que faz de mim a criança,
Que gosta de recordar

DIA DE MÃE
(excerto de “Calçada de Carriche” de António Gedeão)

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
(Foto de Artur Franco)

sexta-feira, 4 de maio de 2007

O BOM EXEMPLO DA MADEIRA


Com a prepotência e arrogância que por aí vai, nunca o “já chegámos à Madeira, ou quê?” esteve tão perto!!!
A inimputabilidade política, o populismo demagogo e uma elasticidade ética verdadeiramente assombrosa parecem querer fazer escola.
Esta escola tem bons mestres e bons alunos. Temos que promover melhor cidadania.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

CEDE-SE EXPLORAÇÃO DE CIDADE - LISBOA

Pelos motivos do costume, retirada (de confiança em quem a tem governado), cede-se exploração de cidade.
Urbe muito bem situada, apenas a 200 km da Europa, com “espectaculares vistas” de rio, mar e serra e com excelente clima. É, aliás hábito ouvir-se: “o que existe é Lisboa, o resto é paisagem”.
Com história e muitas histórias.
Bem equipada mas a precisar de restauro.
Com sete colinas, zonas verdes, muitas cinzentas e algumas bem negras, embora seja conhecida pela cidade branca.
Possui um casino rentável, um castelo, um oceanário, um túnel do Marquês, três grandes estádios de futebol e o Eusébio.
Bem servida de museus que, por vezes, encerram por falta de pessoal.
Sólida experiência como capital.
Possibilidade de especulação imobiliária.
Com música própria, o fado, e uma festa popular, muito bonita, onde nas ruas se come peixe cru com cheiro a carvão e em que um grupo de casais se casa ao mesmo tempo com um ar de “tu e eu, felizes para sempre”.
Muito visitada por estrangeiros, que parecem apreciá-la mais do que muitos dos seus habitantes.
É possível chegar de automóvel praticamente a todos os cantos, incluindo passeios e calçadas.
Estacionamento facilitado e alargado, desde que caiba.
Servida em breve por um novo Aeroporto Internacional apenas a 55 km e por linha de TGV.
Cede-se com os seus habitantes, os carros dos seus habitantes e os cães que os seus habitantes passeiam, aproveitando para adubar os espaços urbanos.
Propostas de exploração a enviar, em envelope fechado, para Praça do Município, Lisboa.

Post Scriptum - Possibilidade de condições especiais a quem prometa não a deslocalizar.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

O OPTIMISMO DO PROFESSOR MARÇAL GRILO

O Professor Marçal Grilo, num interessante trabalho apresentado hoje no Público, vem reclamar um maior optimismo no olhar que com que apreciamos o nosso país. Para sustentar essa atitude positiva e optimista, enuncia um exaustivo conjunto de aspectos que, em sua opinião, serão ilustrativos da nossa qualidade de vida, do desenvolvimento económico, social, cultural, científico, desportivo, etc. Parece-me importante a afirmação de uma atitude positiva e optimista, ingrediente imprescindível ao investimento e à vontade de ser e de fazer. Esta atitude opõe-se a uma visão hipercrítica, pessimista e descrente, mãe do conformismo resignado ou, pelo contrário, da agitação improdutiva, tão inúteis, uma como outra. Também me parece relevante que essa atitude seja subscrita por figuras que, como o Professor Marçal Grilo, nos merecem respeito e atenção.

Mas Professor, num País onde a distância entre o rendimento dos 20 % mais ricos e o rendimento dos 20% mais pobres é das maiores, senão a maior, da União Europeia haverá muita gente, demasiada gente, a achar que o copo está meio vazio e muito pouca gente, demasiado pouca gente, a achar que o copo está meio cheio. Justamente.

terça-feira, 1 de maio de 2007

CRIANÇAS, JOVENS E ECRÃS

Duas notícias da imprensa de hoje referem-se a aspectos que, sendo de natureza diferente, têm um denominador comum.

O primeiro trabalho, no DN, enuncia os potenciais efeitos negativos que a exposição excessiva à televisão de crianças com menos de três anos pode provocar. A peça, citando os estudos de um psicólogo britânico, refere que uma hora e meia de televisão diária, compromete o desenvolvimento saudável envolvendo sérios riscos, por exemplo, de “défice de concentração, autismo e obesidade”. De acordo com o mesmo autor a tabela ajustada seria: sem televisão até aos três anos, meia hora até aos sete, uma hora até aos doze, hora e meia até aos quinze e nunca mais de duas horas por dia.

Variadíssimos estudos em Portugal e noutros países, mostram que estes indicadores são substantivamente ultrapassados pelas crianças e jovens, sobretudo nos países mais desenvolvidos.

A outra notícia, no Público, refere que, nos últimos dois anos, se registaram em Portugal 50 explosões provocadas por adolescentes com base em receitas retiradas da net. Destes incidentes não têm resultado, parece, consequências de maior.

O denominador comum é o ecrã, os vários ecrãs (tv, computador, consola, etc) presentes na vida das crianças e jovens. Creio que diabolizar, como é frequente, este tipo de dispositivos não ajudará a equilibrar o seu “consumo”. A questão central, creio, remete para a situação de solidão, por vezes acompanhada, em que muitas crianças e jovens vivem, facilitando a sua ligação excessiva ao tal ecrã que funciona como “baby-sitter”. Não é raro ouvir pais afirmando que, enquanto estão ao computador, os filhos não andam em ”más companhias”. É neste quadro que me parece residir o verdadeiro problema, isto é, como é que nas sociedades actuais, com os estilos de vida actuais, poderemos estruturar mecanismos de apoio e supervisão aos tempos não escolares da crianças e jovens que promovam uma sã concorrência com algo que sendo muito importante e útil, não pode ser o tudo da vida delas.

domingo, 29 de abril de 2007

EDUCAÇÃO NO ALENTEJO E OS PROJECTOS ESTRUTURANTES

De acordo com dados divulgados recentemente pela Direcção Regional de Educação do Alentejo, apenas 40 % dos alunos conseguem concluir o 9º sem experimentar a reprovação. Se consideramos o ensino secundário a situação é ainda mais devastadora pois apenas 20 % da totalidade dos alunos o concluem em 12 anos. São também conhecidos os números trágicos do abandono.

Este quadro é, seguramente, extensivo às outras regiões do país ainda que com ligeiras variações nos indicadores.

Há décadas que sucessivos governos nos acenam com modelos de desenvolvimento do nosso país assentes em “projectos estruturantes”. Para não variar, o Primeiro-ministro, em declarações proferidas neste sábado no Alentejo, enunciou os mais recentes “projectos estruturantes" para a região, a saber, o Alqueva (claro! sempre!) e o Aeroporto Internacional de Beja que será rapidamente posto em operação e que se espera poder funcionar como placa giratória e distribuidora das rotas de migração das aves que nos sobrevoam, um hub como se chama em linguagem própria do choque tecnológico e de um país “high tech”, mas com números que, em matéria de educação, nos envergonham.

O único projecto verdadeiramente estruturante e criador de futuro é a correcção inadiável da situação referente ao sucesso educativo. Exigir isto é um acto de cidadania e projectar a única estrada com saída, qualificar as pessoas. À primeira oportunidade.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

AZNAR E O MULTICULTURALISMO

Numa conferência apresentada no Palácio da Bolsa, no Porto, José Maria Aznar, antigo chefe do governo espanhol discorreu sobre os malefícios de sociedades multiculturais. Duas afirmações veiculadas pela imprensa que cobriu o evento. “O multiculturalismo é a negação da sociedade democrática” e “sociedades multiculturais são sociedades divididas”.

Estranhamente estas afirmações são proferidas num contexto de defesa da ideia de União Europeia. É extraordinário como, alguém que conhece, por exemplo, a própria Espanha, um exemplo de sociedade multicultural constituída por várias comunidades com culturas bem diversas, pode sustentar essa condição como negação do seu estatuto de democracia. Se atentarmos no contexto mais vasto de cada país, e da própria União Europeia, as afirmações de Aznar parecem disparatadas. Mas só parecem.

São das afirmações de natureza mais xenófoba e racista jamais proferidas por um responsável político com estatuto de (ex) chefe de governo de um país da Europa Ocidental nos tempos mais recentes. O cartaz do PNR ao pé desta intervenção não passa de “trocos”.

MENINOS PARA UM LADO; MENINAS PARA O OUTRO

Nos últimos dias fomos visitados pelo Professor Cornelius Riordan, sociólogo, que apresentou uma conferência no Instituto de Defesa Nacional sobre as vantagens das escolas só para rapazes ou só para raparigas.

Como nota prévia ao comentário que quero fazer, importa esclarecer que não discuto a legitimidade que informa a decisão de pais e encarregados de educação sobre as escolas que desejam para os seus filhos. Sendo certo que a liberdade de escolha é condicionada por múltiplos factores, também é certo que essa escolha pode assentar em critérios como público ou privado, dimensão, classe social predominante, laica ou religiosa, com farda obrigatória ou não, com formação de natureza militar ou não, com co-educação ou com separação de géneros, etc. Num esforço de alargamento de opções poderá colocar-se até a possibilidade de se desejarem escolas para alunos com excesso de peso que terão, naturalmente, um plano curricular reforçado no âmbito da actividade física e cuidados redobrados na alimentação ou escolas para qualquer forma de minoria para que, ideia peregrina, fiquem mais protegidas dos excessos da maioria, etc. Estas escolhas assentarão, necessariamente, no conjunto de valores, cultura, representações, expectativas, etc. assumidos pelos pais. Trata-se de algo que lhes assiste.

A questão mais substantiva e que justifica o comentário é a afirmação de que escolas separadas por género são melhores e alguma da sustentação aduzida. O Professor Riordan refere que mais de metade dos estudos não são conclusivos sobre os efeitos positivos, mas crê nas vantagens das escolas separadas. Uma outra justificação prende-se com a questão do assédio sexual que, segundo ele, terá estado na base da recente tragédia na Universidade Virgínia Tech !!! Para demagogia não está mal. Parece também que as políticas educativas promotoras da equidade nos géneros faliram porque o eminente Professor acha que o facto de as raparigas terem actualmente um maior acesso por exemplo ao ensino superior e, frequentemente, melhor rendimento académico, implicou a transformação dos rapazes “num grupo claramente em desvantagem” o que só se resolve se forem para escolas separadas. Não lhe ocorre um momento pensar na organização, qualidade e modelos dos processos educativos, certamente um pormenor. Parece ainda que a Senhora Hillary Clinton deve a sua bem-sucedida carreira à frequência de uma escola só para raparigas. Fantástico.

Do que tive acesso não me ficou claro como é que separando os géneros na sua formação se fomentam valores e modelos positivos e respeitadores das diferenças na relação entre ambos. Não me ficou claro quando deve começar e qual o eventual limite de educação separada. Começar no jardim-de-infância? Até ao ensino superior? Basta até ao secundário? Chega o básico? Não será melhor começarmos a pensar em mercado de trabalho também “diferenciado” como lhe chama o Professor Riordan? E que tal contar com consultoria afegã?

Não há saco para tanto reaccionarismo, mascarado de ciência.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

AQUELE 25 DE ABRIL

A 25 de Abril, para as pessoas da minha geração, é impossível não falar do 25 de Abril, daquele 25 de Abril, do nosso 25 de Abril, do meu 25 de Abril.

Há umas semanas atrás, numa conversa informal com alunos, jovens, do ensino superior, alguns questionavam-me sobre como era a vida académica, e não só, antes daquele 25 de Abril. Ao procurar dar-lhes um retrato desse tempo e do que era a nossa vivência diária, deu para perceber alguma perplexidade nos jovens não tanto pelas referências às grandes questões, mas, sobretudo, pelas pequenas histórias do dia-a-dia.

Histórias de um clima de desconfiança e suspeição, até sobre a pessoa do lado, que nos prendia dentro da gente; do livro que se não tinha; do filme que se não podia ver; do disco que se contrabandeava; do teatro que não se podia fazer; da conversa que se não podia ter; do professor de quem não se podia discordar; da ideia que se não podia discutir; da repressão visível e, mais pesada, invisível; do beijo que não se podia dar em público; do livro único para formar um pensamento único; de tantas outras histórias com que se tecia um mundo pequeno que nos queria pequenos. E também das histórias pequeninas da resistência a tudo isto.

Aquela conversa foi muito estimulante. É certo que me deixou a doce amargura da idade mas, mais interessante, fiquei convencido que aquele pessoal não permitirá nunca que se possa voltar a ter histórias daquelas para contar a gente mais nova. Gosto de acreditar nisto. Por causa daquele 25 de Abril.

terça-feira, 24 de abril de 2007

AI ESTÁ O DR. PORTAS, O PAULO.

O Dr. Portas, o Paulo, is back. Um frémito de excitação e de, há que reconhecer, algum medo percorre o país quando se fixa aquele dedinho apontado e aquele ar de “pose de estado”.
Que trema Sócrates, o Engenheiro. Agora é que vai ver o que é oposição.
Que trema o Dr. Mendes, o Marques. Vai mudar de posição, deixando de ser o “chefe” da oposição.
Que trema o Dr. Ribeiro e Castro, o Zé. Tanto levou que se apagou.
Que trema o Dr. Lopes, o Santana. Vai deixar de andar por aí, para ter que aparecer por aqui.
Que trema o Dr. Louçã, o Francisco. Vai haver disputa na catequese pois há mais um catequista.
Que trema o Sr. Sousa, o Jerónimo. Não, um comunista não treme. Nunca.
Que trema o Prof. Cavaco, o Presidente. O trajecto entre S. Bento e a linha passa por Belém.
Que trema o Dr. Barroso, o Zé Manel. Lá por estar em Bruxelas que se cuide, pois não se abandona o Dr. Portas, o Paulo, ao leme de uma fragata sob o comando de um cata-vento, o Dr. Lopes, o Santana.
Que tremam as feirantes, o povo. O Dr. Portas, o Paulo, virá mais fogoso que nunca.
Que trema o Dr. Pereira, o Pacheco. O Dr. Portas, o Paulo, é católico mas não perdoa.
Que tremam os pequenos e grandes delinquentes. O Dr. Portas, o Paulo, está de olho neles.
Que tremam... “tutti quanti”.

Numa bem-sucedida operação apoiada por uma conhecida empresa da área dos plásticos utilitários e uma marca de pasta dentífrica, que envolveu um espectacular re-styling, eis que temos de volta ao seu esplendor o Dr. Portas, o Paulo. Ele é um permanente e alvo sorriso! Ele é aquela camisa aberta, brr!! até arrepia! Ele é aquele cabelo à f…-se! Ele é aquela frase, curta, fina, que encerra todo um mundo de clarividência, agilidade, acção, promessa e assertividade! Ele é… não há palavras! E no fim de cada frenética jornada, enquanto o espírito vagueia entre os campos da nossa lavoura e as brancas montanhas de Aspen, o Dr. Portas, o Paulo, pensa num encanto doce e com um sorriso calmo, “gosto tanto de mim, só me apetece dar-me beijinhos”. E, finalmente, poisa de mansinho no sono dos justos e iluminados, o Dr. Portas, o Paulo.

DIA MUNDIAL DO LIVRO

Hoje, 2ª feira, de acordo com o comemorativo calendário que organiza as nossas preocupações, cumpre-se o Dia Mundial do Livro.

Um estudo hoje publicado, afirma que menos de metade da população continental com mais de 15 anos, leu um livro no mês anterior à data de realização do inquérito. Em 1996, a percentagem era de 23% o que representa um aumento de 58 %. Como referência comparativa, 79% dos britânicos acham a leitura uma actividade essencial.

Uma quadra do cancioneiro alentejano.

É tão triste não saber ler
Como é triste não ter pão
Quem não conhece uma letra
Vive numa escuridão.

E Marguerite Yourcenar em “As Memórias de Adriano”

A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

ALERTA AMARELO FACE À PRECIPITAÇÃO

Segundo a imprensa de hoje o País, está em alerta amarelo devido, também, à precipitação.
Acho muito bem. Por vezes precipitamo-nos e, por isso, corremos riscos. Assim, ao olhar para a imprensa de hoje.

Não nos precipitemos a analisar as relações entre extrema-direita e claques organizadas do futebol.
Não nos precipitemos ao analisar o interessantíssimo trajecto do Dr. Pina Moura.
Não nos precipitemos ao analisar as decisões sobre o Metro no Porto.
Não nos precipitemos ao analisar a recusa do PS em legislar sobre o chamado “enriquecimento ilícito”.
Não nos precipitemos no juízo sobre o que se está a passar na Universidade Independente.
Não nos precipitemos ao analisar novas referências sobre o processo Apito Dourado.
NÃO NOS PRECIPITEMOS.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

DE ÁFRICA E DO ENTRONCAMENTO - bons ventos

Contrariando o registo mais negativo de muito do que aqui tenho referido, hoje creio justificar-se um outro tom devido a dois acontecimentos que, sendo de natureza bem diferente, contribuem ambos para que a gente, alguma gente, se sinta melhor.

O primeiro acontecimento é a atribuição a Mia Couto do prémio da União Latina de Literaturas Românicas, o que acontece pela primeira vez a um escritor africano. Em tempos de escrita “light” o reconhecimento de um trabalho que está dentro de uma terra e dentro de uma cultura é um bom sinal.



O segundo acontecimento que quero sublinhar é a condenação, pelo Tribunal do Entroncamento, dos pais que bateram no seu filho de 10 anos motivando o recurso ao hospital. É ainda relevante saber que a queixa foi apresentada por um irmão mais velho. Esta condenação, que creio inédita, constituirá um primeiro sinal de que os tempos estarão em mudança. É certo que numa peça apresentada por uma estação televisiva, foram ouvidas várias pessoas que não percebiam (discordavam) o porquê da condenação. Afirmavam a sua posição com base no velho paradigma “quem dá o pão, dá a razão/educação”. Naturalmente que a educação e a razão se dão à estalada com o auxílio reparador do hospital se, porventura, alguma razão ou educação for dada em excesso. Como sabem, ninguém é perfeito.

NOTÍCIAS EXPLOSIVAS E BOMBÁSTICAS

Boa noite. Em Portugal o dia foi excepcionalmente tranquilo. Contrariamente ao que se esperava e tinha sido anunciado, não tivemos notícias bombásticas e explosivas. Em todo caso não é coisa que estranhemos, o não cumprimento de promessas.

Assim, atentando às primeiras páginas da imprensa generalista, apenas será de realçar.

“O peso dos impostos bate recorde” e “Beja quer ser Cidade Cinema (CM). Por outro lado, “As Universidades resistem à custa de estudantes sem o secundário” enquanto alguém “Andou na A3 em contramão, bateu em dois carros e tentou fugir a pé” e “Uma mulher regou companheiro com álcool e deitou-lhe fogo” (JN). Finalmente, o “Banco de Portugal pede alteração à lei laboral para maior produção” (Público) e “Só um acesso à Ota não terá portagem” (DN).

Assim sim! Um dia tranquilo e que não nos inquieta.

PS – Última hora. Afinal deve mesmo ter acontecido alguma coisa. Acabo de ver o Dr. Jorge Coelho muito “exalterado” com o Dr. Pacheco Pereira. Vou tentar perceber o que se passa.

terça-feira, 17 de abril de 2007

AGORA NA VIRGINIA TECH. Tragédia em (mais) um acto

Naturalmente. Noticia-se mais uma tragédia em estabelecimentos de educação nos Estados Unidos. Desta vez na Universidade mais conhecida por Virgínia Tech. Resultado, 33 pessoas mortas. Apenas mais um episódio de uma série negra. Ao que se sabe, o jovem estudante sul-coreano responsável pelo tiroteio terá comprado recentemente as armas utilizadas no incidente.

Como é possível que se mantenha o acesso quase indiscriminado às armas de fogo e ao seu uso na sociedade americana, direito aliás garantido pela constituição? A influência da poderosíssima National Rifle Association, com ecos e apoios, não gratuitos, na administração Bush, continua a ser eficaz impedindo um maior controlo deste quase livre acesso e utilização de armas. Para esta gente a tradição ainda é o que era, ou seja, um cowboy não pode andar desarmado, pois nunca se sabe onde pode aparecer um índio. E como temos visto, o mundo está cheio de índios, por isso… valha-nos as armas dos cowboys.

Deve ser isto (também) a que Pacheco Pereira, numa das suas mais criativas análises, designa por ingenuidade das políticas americanas.

NOVAS OPORTUNIDADES - cuidado com as tentações

Segundo a imprensa de hoje existem cerca de 75 000 inscritos visando o processo de reconhecimento, validação e certificação de competências de nível secundário no âmbito do Programa Novas Oportunidades. Ainda de acordo com a notícia, mais de três meses depois do previsto, este processo ainda não teve início fundamentalmente devido ao atraso na formação dos técnicos que reconhecerão, validarão e certificarão as competências. Uma pequena nota. Referir três meses de atraso quando o Programa foi apresentado em 2005 estabelecendo, aliás, como meta para 2006 a certificação de ensino secundário para 15 000 indivíduos conforme expresso em brochura editada e publicitada conjuntamente pelo Ministério da Educação e do trabalho e Solidariedade Social em Dezembro de 2005 (2ª edição) é um excesso de simpatia.

Mas a questão que me parece de sublinhar prende-se, sobretudo, com a natureza do Programa destinado a pessoas com mais de 17 anos e que tenham no mínimo três anos de experiência profissional ou frequentado o Secundário há mais de 3 anos sem o concluir. Portugal tem uma das mais baixas taxas de escolarização de nível secundário de toda a União Europeia o que obviamente exige um enorme esforço de qualificação da população que se traduz no objectivo de em 2010 ter cerca de 650 000 pessoas com certificação de Ensino Básico e Secundário em 500 Centros de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (CRVCC). Se este objectivo parece importante, torna-se igualmente necessário que o processo seja efectivamente regulado na certificação pois, três anos de experiência profissional eventualmente não qualificada podem ser manifestamente insuficientes para atribuição de equivalências o que descredibilizaria todo o Programa e, mais grave, os próprios sujeitos envolvidos e a sua competência.
Como dizia Miguel Torga, a carne é fraca e a pressa de mostrar resultados pode ser uma tentação.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

UMA OBSCENIDADE (com uma pitada de demagogia)

Duas referências da imprensa de fim-de-semana.

Cristiano Ronaldo estabelece novo contrato com seu clube, Manchester United, até 2012. Ao que se refere, o clube terá aceitado a exigência do jogador no sentido de se tornar o futebolista mais bem pago de Inglaterra pelo que lhe pagará 190 000 € (CENTO E NOVENTA MIL EUROS) por semana!!!

Na Conferência promovida pela Presidência da República no âmbito do Roteiro para a Inclusão, Carlos Farinha Rodrigues apresentou um estudo sobre distribuição do rendimento, desigualdade e pobreza em Portugal. De acordo com a investigação e com base no Eurostat, a “distância que separa o rendimento médio dos 20% mais pobres do rendimento médio dos 20% mais ricos está bastante acima da média comunitária”, ou seja, “o rendimento superior é 8,2 vezes mais alto que o rendimento inferior enquanto na União Europeia é 4,9”, (Público, 15/04/07).

Juntar estas duas notícias pode ser um pouco demagógico, mas há aqui qualquer coisa com que não lido bem.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

ENGENHEIRICES, DOUTORICES E OUTRAS SALOIAS ESQUISITICES

A polémica em torno da formação de José Sócrates e, sobretudo, da forma como deve ser referido, para além de um triste sinal de pequenez poderia ser um pretexto para reflectirmos sobre o modo curioso e diverso como encaramos e lidamos com figuras com alguma visibilidade social. Proponho-vos alguns exemplos. Estão agrupados pela forma como essas figuras são mais habitualmente tratadas seguindo-se alguma informação.


Professor Neca – Treinador de futebol com formação superior na área do Desporto;
Professor Marcelo (Rebelo de Sousa) – Catedrático de Direito, professor universitário, entertainer político e estratega do Plano Nacional de Leitura;
Professor Karamba – Reputado e poderoso médium vidente, especialista em todos os trabalhos ocultos;

José Alberto Carvalho – Jornalista com formação superior na área da Comunicação Social;
José Rodrigues dos Santos – Jornalista, professor universitário, doutorado em Ciências da Comunicação;

José Mourinho – Treinador de futebol com formação superior na área do Desporto;
Carlos Carvalhal – Treinador de futebol com formação superior na área do Desporto;

Engenheiro Fernando Santos – Treinador de futebol com formação superior em engenharia electrotécnica;
Engenheiro José Sócrates – Primeiro-ministro com formação superior em engenharia civil;
Engenheiro Belmiro de Azevedo – Empresário com formação superior em engenharia química;

Senhor Presidente Cavaco Silva – Presidente da República, doutorado em Economia;
Senhor Presidente Luís Filipe Vieira – Presidente de um clube de futebol;

Já viram o que isto tudo tem de bizarro e ridículo? Tanto que fazer e a gente assim se entretém.
(Foto de Jomar)

quinta-feira, 12 de abril de 2007

À PROCURA DE UMA CRÓNICA POSITIVA


Hoje, durante a corrida que habitualmente marca o início das minhas manhãs, um dos companheiros, o meu amigo Oliveira, expressava a sua ideia de que estes textos têm andado por tons excessivamente pessimistas e direccionados para a nossa realidade social e política. Tem razão, mas quando se juntam estas duas dimensões da nossa vida actual, parece-me difícil um discurso optimista, ainda por cima, no dia a seguir a um dos mais patéticos episódios a que ultimamente assisti, a entrevista com o Primeiro-ministro.

Pensei, então, que hoje procuraria um registo mais simpático. A leitura da imprensa diária não ajudou em particular. Bom, é importante uma visão positiva sobre a evolução da nossa economia expressa pelo FMI. Posso sempre acreditar num bom desempenho do meu Benfica na Taça UEFA frente ao Espanhol de Barcelona. A ver vamos.

Com esta preocupação de procurar um solzinho que nos aqueça encostada a um canto, comecei a preparar um trabalho que tenho de fazer na próxima sexta, uma conversa com pais de crianças em idade de Jardim de Infância, dos três aos seis, sobre isso mesmo, ser pai, mãe, de gente nestas idades.

De repente percebi que, por hoje, estava aqui um excelente pretexto e contexto para uma ideia simpática. De facto, poder ajudar alguém que vai crescendo à nossa beira a ser gente, boa gente, é das experiências mais bonitas que nos pode acontecer e importa que corra bem. Os miúdos precisam de gente optimista à sua volta. Pais mais bem-dispostos têm filhos mais bem-dispostos e as relações entre eles ficam mais fáceis, mais positivas e mais contributivas para o bem-estar de todos. É disto que irei falar, de optimismo.
(Foto de Céu Guitart)

quarta-feira, 11 de abril de 2007

ENTREVISTA OU JULGAMENTO?

Acabei de assistir à entrevista do Primeiro-ministro à RTP. Como era esperado e anunciado, parte da entrevista centrou-se na polémica em torno da formação académica e, mais importante, aproveitar a sua presença para análise da actividade governativa. Alguns comentários com uma nota prévia.
A nota prévia, não votei no partido do governo.
A formação académica do Primeiro-ministro não é relevante do ponto de vista político, é uma questão provinciana. Eventualmente pode ser relevante, em termos processuais e administrativos, saber com que regras e eficácia funciona o sistema de ensino superior, público e privado.
O que me deixou extremamente embaraçado foi a patética prestação de dois jornalistas manifestamente mal preparados, cuja ignorância, como é habitual em Portugal é mascarada com arrogância e com um comportamento agressivo e julgador do entrevistado. Não sou jornalista, sou apenas um cidadão que procura estar atento e acho que foi um péssimo serviço prestado à informação.
Quanto aos factos... Portugal no seu melhor.

Post scriptum – O comentário agora produzido por Marques Mendes veio confirmar a ideia de que mal irá quem pensa que assim se faz oposição e se representa uma credível alternativa. Diminuiu-o na tentativa de assim se apresentar.

O DESENVOLVIMENTO SUSTENTADO - O exemplo do metro do Porto

Hoje, 11 de Abril de 2007, na primeira página do Diário Económico lê-se, “DÍVIDA DO METRO SOBE 800 000 € POR DIA”. A notícia refere-se ao Metro do Porto e ao exercício de 2006.

Hoje, 11 de Abril de 2007, na primeira página do Jornal de Notícias lê-se, “MÁRIO LINO CEDE E FECHA ACORDO PARA O METRO DO PORTO”. A notícia refere-se ao prolongamento da linha do metro do Porto até Laborim e Gondomar, cuja realização, de acordo com o inevitável Valentim Loureiro, terá sido aceite pelo Governo.

Lê-se e não se acredita! O mais grave é a nossa acostumada e triste ideia de normalidade face a este tipo de situações. Nem desassossego! Nem perplexidade! Nem inquietação! Nem indignação! Nem nada!!

terça-feira, 10 de abril de 2007

TAMBÉM QUERO UMA PROVIDÊNCIA CAUTELAR

Parece ter-se instalado na sociedade portuguesa um comportamento recorrente sempre que algo não vai ao encontro dos interesses de alguém ou de algum grupo. Refiro-me à febre das providências cautelares. Como acredito em princípios de equidade decidi que TAMBÉM QUERO UMA PROVIDÊNCIA CAUTELAR. A partir da decisão instalou-se a dúvida sobre o objecto da minha providência cautelar. É que pode ser:

Relativamente à existência de políticos carreiristas e incompetentes que enchem os aparelhos partidários, sobram para as instituições públicas e são um atentado político;
Relativamente à arrogância da ignorância evidenciada por muita gente que fala, escreve, sobre o que não sabe;
Relativamente aos atentados à qualidade vida e ao ambiente em nome da ideia de há que “cimentar” o progresso(!!);
Relativamente à falta de políticas sociais dirigidas, de facto, às pessoas, dos putos aos velhos;
Relativamente a uma justiça, nas mais das vezes, entupida, ineficaz e injusta;
Relativamente à falta de responsabilização de gestores públicos pela incompetência na gestão do que lhes confiamos;
Relativamente aos densos e generalizados fumos de corrupção causadores de uma insuportável poluição ética;
Relativamente à substituição do substantivo pelo “light”, do que se conhece e estuda pelo que parece e se acha;
Relativamente à ditadura do politicamente correcto asséptico;
Relativamente a … etc.

Com tantas dúvidas creio que devo acautelar as providências que vou tomar.