quarta-feira, 18 de novembro de 2015

QUERIDA FAMÍLIA, AMIGOS E PROTECTORES

O calendário da consciência determina para hoje o Dia Europeu sobre a Protecção de Crianças contra a Exploração Sexual e o Abuso Sexual. Assim sendo, algumas notas.
Creio ser consensual o entendimento de que a "explosão" do chamado caso Casa Pia colocou uma luz mais forte sobre este universo negro, os abusos sexuais sobre crianças, pelo que a comunidade parece ter ficado mais atenta o que tem sido, aliás, salientado pelo Juiz-conselheiro Armando Leandro, presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco. A prova desta maior atenção pode encontrar-se no facto de desde o início do processo em 2002 ter subido exponencialmente o volume de denúncias. No entanto, quem conhece este tipo de problemáticas sabe que o volume de denúncias é apenas uma parte das situações de abuso.
Continua com uma regularidade impressionante a revelação casos de abusos sexuais sobre crianças e adolescentes, a maioria em situações envolvendo familiares, amigos ou conhecidos da crianças ou famílias e também instituições que lidam com as menores como é o caso mais recente de instituições de natureza religiosa ou estruturas que lidam com crianças.
Esta circunstância decorre de um aspecto que me parece fundamental não esquecer, nunca e que os dados agora divulgados sublinham de forma muito nítida. A maioria dos abusos sexuais sobre crianças ocorre nos contextos familiares e envolve família e amigos, não em instituições que, provavelmente na sequência do caso Casa Pia, até se terão tornado mais atentas e eficazes na prevenção de abusos, embora continuem, evidentemente, a acontecer com tem sido divulgado. Entre 70 a 80% das situações de abuso a responsabilidade é de alguém que a criança conhece e em quem confia.
Apesar das mudanças verificadas em termos legais e processuais, a fragilidade ainda verificada, na criação de uma verdadeira cultura de protecção dos miúdos leva a que muitos estejam expostos a sistemas de valores familiares que toleram e mascaram abusos com base num sentimento de posse e usufruto quase medieval. Muitas crianças em situação de abuso no universo familiar ou por pessoas conhecidas ainda sentem a culpa da denúncia das pessoas da família ou amigos, a dificuldade em gerir o facto de que pessoas que cuidam delas lhes façam mal e a falta de credibilidade eventual das suas queixas bem como das consequências para si próprias, uma vez que se sentem quase sempre abandonadas e sem interlocutores em que possam confiar ou ainda o medo das consequências da denúncia.
A este cenário acrescem os riscos que as novas tecnologias vieram introduzir, sendo conhecidos cada vez mais casos em que a internet é a ferramenta utilizada para construir o crime.
Neste quadro, para além da eficiência do sistema de justiça, continua a ser absolutamente necessário que as pessoas que lidam com crianças, designadamente na área da saúde e da educação, sejam capazes de “ler” os miúdos e os sinais que emitem de que algo se passa com eles.
Esta atitude de permanente, informada e intencional atenção aos comportamentos e discursos dos miúdos é, do meu ponto de vista, uma peça chave para minimizar a tragédia dos abusos sobre as crianças e o enorme sofrimento provocado.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

NÓS, OS PORTUGUESES SOMOS DANADOS PARA O CONVÍVIO

É sempre importante registar o progresso da nossa comunidade. Segundo relatório recente do INE, 65 % das famílias portuguesas já acedem à net em casa, um indicador em crescimento relativamente a anos anteriores mas ainda abaixo da média europeia, 78%.
No entanto, no que se refere ao acesso a redes sociais estamos francamente acima da média europeia, 70% dos utilizadores portugueses de net acede às redes sociais face aos 58% da média europeia.
Mais uma vez se prova, nós portugueses somos danados para o convívio.
Se associarmos estes dados à frenética e enorme adesão aos dispositivos de comunicação, telemóveis e smartphones, dificilmente teremos um minuto em que não estejamos em contacto com alguém ou algo, algures.
Só não percebo a razão por que me parece que as pessoas vivem, de uma forma geral, cada vez mais sós no meio de tão sofisticada tecnologia.

O AUTO DESIGNADO ESTADO DA PACIÊNCIA

Prossegue o período sabático definido por Cavaco Silva para a tomada de decisão sobre o futuro Governo e o futuro do Governo.
Até lá, não se sabe quando, está instalado o auto designado estado da Paciência, ou seja, tenham paciência, qual é a pressa, sim, qual é a pressa, como diria António José Seguro que impacientemente António Costa substituiu à frente do PS.
Como sabem, o Presidente sempre alerta para isso, os mercados são impacientes. Neste caso, o Cvaco Silva não se preocupa com a impaciência dos mercados, que tenham paciência.
E assim, pacientemente, o Presidente da Repúbliva vai criando e alimentando o cenário da decisão que quer tomar.
Acabará por dizer, é minha convicção, tenham paciência mas governará a minoria parlamentar.

DOS MEDOS

A propósito de um trabalho no Público sobre o medo nas crianças lembrei-me de uma conversa que mantive há pouco tempo com pais de gente ainda miúda, passageiros de creche e jardim-de-infância.
De uma forma geral e apesar das preocupações que sempre emergem, as falas dos pais dos gaiatos mais pequenos parecem um pouco mais serenas que as que oiço a pais de gente um pouco mais velha, adolescentes, por exemplo. Na verdade, por várias razões, os pais dos adolescentes, parecem, quase sempre, um pouco mais assustados, por assim dizer.
No entanto, esta última conversa deixou-me algumas inquietações. Vários pais expressaram forte inquietação com os medos que acham que os seus filhos revelam e, logo de seguida, dos muitos medos que eles próprios parecem sentir, seja pelos medos dos filhos seja pelos seus próprios medos.
Costumo dizer que os que de nós, e somos muitos, lidamos com miúdos e o seu universo, quer como "amadores", quer como "profissionais, temos a responsabilidade de manter o optimismo necessário e suficiente para acreditar que somos capazes de com eles construir um mundo onde caibam os seus, nossos, projectos, apesar de saber, aprendi há muito, que muitos percorrerão uma estrada difícil, cheia de curvas e de riscos a que alguns, esperemos que poucos, terão grande dificuldade em sobreviver sem dificuldades sérias.
Apesar de sentir nas falas daqueles pais os medos, muitos medos, dos dias de chumbo que vivemos e dos dias que nos esperam, também me pareceu que não querem mesmo desistir do futuro dos miúdos.
Vão chegar lá, tenho a certeza.
Por nós, pelos nossos filhos, pelos filhos dos nossos filhos.

DOS TRABALHOS DE CASA

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segunda-feira, 16 de novembro de 2015

EM GESTÃO

"Eu estive cinco meses em gestão", lembra Cavaco Silva

Lá do seu retiro na Madeira, desta vez, felizmente, sem incomodar as cagarras, o Professor Cavaco Silva recordou hoje que "Eu estive cinco meses em gestão".
Certamente por distracção não referiu os vários anos que tem passado em hibernação.
No fim do sono logo havia de acontecer um pesadelo, a ameaça de um Governo de esquerda por si nomeado. 
Antevejo que possa decidir agora fazer hibernar a realidade e manter a posse dada ao seu sonho, um Governo amigo, ainda que sem maioria parlamentar.

UM MIÚDO CHAMADO PENSADOR

Era uma vez um miúdo chamado Pensador. Tinha uns treze anos e a sua vida não andava fácil. Tinha um comportamento que lhe criava algumas dificuldades. Não havia assunto ou circunstância em que estivesse envolvido que não fizesse uma enorme quantidade de perguntas. Pensava algum tempo nas respostas, voltava às perguntas e, por vezes, algum tempo depois, ainda tornava à mesma questão sempre iniciando as suas frases por um “Estive a pensar e …”. 
Já trazia esta forma de funcionar desde pequeno mas os adultos, usando a sua adulta autoridade, mandavam-no calar quando faltava a paciência para tanto pensar, os colegas, às tantas já nem lhe ligavam e diziam lá está o Pensador.
Agora mais crescido e com uma sólida capacidade de argumentação, já não era tão fácil que se calasse por indicação dos adultos e, por outro lado, os colegas, apesar de o acharem chato, até achavam graça à sua permanente inquietação e às discussões que desencadeava, quando se cansavam voltavam costas. O Pensador não desistia e continuava com o seu “Estive a pensar e …” mas, aos poucos, percebeu que as pessoas iam deixando de falar com ele e, até, responder às questões que colocava.
Os professores, quase todos, agiam como se ele não estivesse na turma e fugiam de qualquer diálogo, os colegas deixavam-no só.
O Pensador começou a pensar que a sua vida ficava complicada, assim só arranjava problemas e tentava encontrar forma de resolver esta situação. De tanto pensar encontrou a solução, deixou de pensar.
Passou a ter uma vida muito mais tranquila. Até já gostavam dele, chamavam-lhe Pensador Certinho.
Ninguém deu por isso, mas o Pensador aprendeu a pensar só para si.
Existem mais miúdos pensadores só para si do que imaginamos.

A INCUBAÇÃO DO MAL

Embora a escrita que vou deixando no Atenta Inquietude quase sempre remeta para a realidade nacional, alguns episódios ocorridos fora de portas têm merecido referência esporádica pelas suas implicações, mesmo para nós. É o caso da tragédia ocorrida em França à qual volto e a partir da qual gostava de deixar algumas notas.
A barbaridade agora acontecida em Paris, tal como a tragédia que envolveu o Charlie Hebdo e tantos outros episódios, são analisados quase sempre num pressuposto de motivação fanática, bárbara, enquadrada por valores de natureza religiosa aliados ao cortejo de horrores que o chamado Estado Islâmico vem mostrando na imprensa mundial. Neste aspecto queria ainda chamar a atenção da atracção que este tipo de iniciativas ou ideias têm produzido em alguns milhares de jovens europeus, designadamente franceses e belgas, mas de variadas nacionalidades incluindo portugueses, que aderem a este tipo de actuação.
A minha questão é que, não desvalorizando, antes pelo contrário, o papel da forma como as crenças religiosas são vividas, estas barbaridades, de que os acontecimentos de Paris são mais um exemplo extremo, julgo que também importa reflectir no contexto, nos contextos, que levam muitos jovens, muitos deles com educação europeia a envolverem-se em acções de uma gravidade que ultrapassam a nossa capacidade de compreensão racional.
O meu ponto, discutível evidentemente, é que o se passa neste universo já não tem a ver com religião. Aliás, a insistência nesta visão contribui para alimentar um enorme e perigosíssimo barril de pólvora, reparemos em alguns discursos e acontecimentos que se têm sucedido.
Deixem-me recordar-vos apenas alguns episódios mais próximo e também trágicos. Temos tido recentes episódios de tiroteios em escolas americanas com muitas crianças mortas, recordo que em 2012 um indivíduo de 20 anos, aumenta a perplexidade, terá assassinado dezenas de pessoas na maioria crianças numa escola primária.
Estaremos ainda todos bem lembrados de uma outra tragédia em Oslo, um indivíduo, jovem, aparentemente discreto, matou friamente umas dezenas de jovens participantes num encontro partidário. Na altura, para além do sentimento de dor e perda, creio que perplexidade terá sido o que melhor caracterizou a sociedade norueguesa, aliás, patente nos testemunhos ouvidos na imprensa. Porquê? Porquê na Noruega, comunidade aberta, tolerante e segura? Porquê um norueguês e não um terrorista associado a redes conhecidas? Porquê? Porquê? As mesmas perguntas colocadas quase sempre que se verificam estas tragédias, porquê tanto mal, tanta crueldade?
A dificuldade de responder a estas questões é da mesma ordem da dificuldade de encontrar meios seguros de evitar tragédias deste tipo. O episódio, com contornos semelhantes ao protagonizado por Timothy McVeigh que em Oklaoma, em 1995, causou 180 mortos e mais de 600 feridos, assumido por uma só pessoa, inteligente, socialmente integrada, numa sociedade aberta é, de facto, muito difícil de prevenir.
Lembram-se também dos distúrbios graves ocorridos 2011 em Inglaterra protagonizados fundamentalmente por jovens, que também deixou a sociedade surpreendida e sem saber muito bem como reagir ou intervir perante o envolvimento de crianças e adolescentes em comportamentos surpreendentes pelo grau de destruição e pela ausência de controlo.
Também em França, antes destas tragédias recentes têm ocorrido episódios de extrema violência num dos quais, há algum tempo, um jovem de 24 anos executou várias pessoas, algumas das quais crianças.
Em Portugal têm ocorrido vários casos de violência extrema envolvendo jovens levando-nos questionar os nossos valores, códigos e leis pela perplexidade que nos causam.
Todos estes episódios têm como característica comum a juventude genérica dos autores. Os comportamentos observados assemelham-se, grotesca e horrorosamente, a um videojogo violento com personagens reais.
A questão que me leva a estas notas é mais no sentido de tentarmos perceber um processo que designo como "incubação do mal" que se instala nas pessoas, por vezes ainda antes da adolescência, a partir de situações de mal-estar que podem passar relativamente despercebidas mas que, devagarinho, insidiosamente, começam interiormente a ganhar contornos que identificam os alvos, por vezes difusos, sentidos, percebidos ou induzidos com os causadores desse mal-estar. A religião aqui pode aparecer como o "grupo" que acolhe e onde se partilha esse mal-estar. Não é causa nem é efeito, é "apenas" circunstância.
A fase seguinte pode passar por duas vias, uma mais optimista em que alguma actividade, socialmente positiva, possa drenar esse mal-estar, nessa altura já ódio e agressividade, ou, a outra via, aumenta exponencialmente o risco de um pico que pode ser um tiroteio numa escola, a bomba ou o atentado mortífero meticulosamente e obsessivamente preparado dirigido ao "representante do mal" ou a vinda para a rua numa espiral de violência cheia de "adrenalina", em nome de coisa nenhuma a não ser de um "mal-estar" que destrói valores e gente.
Por mais policiada que seja uma sociedade é extraordinariamente difícil prevenir processos desta natureza em que o mal se vai incubando e em que as ferramentas de acção são acessíveis. Provavelmente, a questão não é abdicar da abertura e da tolerância que caracteriza a nossa sociedade elevando o policiamento das comunidades a níveis asfixiantes. A questão, este tipo de questões, a iniciativa individual de natureza terrorista, ou os movimentos grupais descontrolados e reactivos, passará sobretudo por uma permanente atenção às pessoas, ao seu bem-estar, tentando detectar, tanto quanto possível, sinais que indiciem o risco de enveredar por um caminho que se percebe como começa, mas nunca se sabe como acaba.
Importa ainda estratégias mais proactivas e eficientes de minimizar a guetização e "quase total" desocupação de, em Portugal, centenas de milhares de elementos da geração "nem, nem" nem estuda, nem trabalha. Para esta gente, o futuro passa por onde, por quem e porquê?
Na França, Noruega, na Inglaterra, nos Estados Unidos, ou em Portugal.
Dada disto branqueia ou contradiz uma dimensão essencial, a mediocridade e falta de visão das lideranças políticas, o peso dos negócios e a deriva dos interesses políticos regionais e mundiais. 

domingo, 15 de novembro de 2015

GOSTEI DE LER, CAVACO O PENSADOR

Não é conhecida a decisão que o Presidente da República tomará relativamente ao Governo do País. Nos termos constitucionais, face ao quadro parlamentar e à rejeição do programa do Governo, parece claro que António Costa deveria ser indigitado para formar Governo face ao acordo com maioria parlamentar estabelecido entre PS, BE e PCP.
No entanto, Cavaco Silva poderá tomar outra decisão que lhe permita evitar ficar com uma montanha de sapos a caminho do estômago e desagrade ao seu grupo político.
A este propósito gostei de ler o texto de Nicolau Santos no Expresso deste fim-de-semana.


DUAS MÃES, DOIS PAIS. DE NOVO

Ao que parece vai voltar ao Parlamento a discussão sobre a adopção de criança por parte de casais homossexuais. Trata-se de uma questão que regularmente entra na agenda. Aliás aborda-se hoje no Público apresentando também uma peça sobre dois casais de duas mães e de dois pais que partilham a sua experiência.
Dada a relevância deste universo, retomo notas já por aqui deixadas e fá-lo-ei enquanto for uma questão por resolver, não será fácil, é um bom exemplo do tipo de temas que estarão permanentemente em aberto na medida em que mais do que considerações de natureza científica envolvem valores.
De facto, para além dos discursos anónimos ou identificados, mais ou menos equilibrados, mais ou menos boçais, mais ou menos ignorantes ou conhecedores, mais ou menos sofisticados e assentes, de forma aparente ou efectiva, em ciência, ficarão sempre os valores e a forma como se olha o mundo. Não é grave, pelo contrário, parece-me normal e legítimo mas importa assumir que se trata de valores e não de ciência.
Aliás, há algum tempo atrás numa peça do I sobre o mesmo tema eram referidas as opiniões de Mário Cordeiro e Rita Jonet tornando-se bastante claro o que é um discurso que parte do bem-estar dos miúdos e das pessoas e do que se sabe sobre isso e outro discurso que assenta em convicções, “acho que” e “duvida dos estudos”, é legítimo mas não é ciência.
Se estão recordados, também há algum tempo a Ordem dos Advogados, era Marinho Pinto o bastonário, divulgou um parecer contra a proposta de permitir a co-adopção  e adopção fundamentando na ideia de "família natural" o que faz pressupor para a Ordem dos Advogados que numa situação em que uma mãe jovem fique viúva e decida viver com a sua mãe, ficando assim a sua filha ou filho a viver com duas mulheres, teremos uma família "não natural" que, eventualmente, colocará a criança em risco. É fraco o argumento que aliás motivou uma tomada de posição de alguns advogados pouco confortáveis com a pobreza da argumentação e posição da Ordem. Um artigo do de Marinho Pinto posteriormente divulgado no JN tornou-se uma peça antológica no que respeita a preconceito e desinformação.
Também há já bastante tempo foi referenciado por alguma imprensa em Portugal uma decisão do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos que entendeu que a Áustria violou a Convenção Europeia dos Direitos do Homem por não ter permitido a adopção co-parental a um casal homossexual. Na sua decisão, o Tribunal citou Portugal como um dos países com o mesmo entendimento que a Áustria.
Parece-me de referir que o Tribunal Europeu considerou que o Governo austríaco não apresentou provas sólidas de que seria “prejudicial para uma criança ser adoptada por um casal homossexual ou ter legalmente duas mães ou dois pais”.
Vale a pena retomar o argumentário contra a adopção e que se organiza em torno de três grandes ideias, e que são a eventual dificuldade da criança em lidar com a sua orientação sexual, a vulnerabilidade psicológica e o risco de problemas de comportamento e também o risco acrescido de serem alvo de discriminação, por exemplo, em contextos escolares.
Como foi afirmado numa conferência realizada em Lisboa sobre a homoparentalidade, uma revisão de algumas dezenas de estudos sobre este conjunto de razões realizada pela Associação Americana de Psicologia, motivou uma resolução da Associação, em 2004, que não confirma nenhuma destas preocupações o que também transpareceu em alguns testemunhos expressos num trabalho que o Público realizou na altura.
Parece ainda de registar que em 2010, a Associação Americana de Psiquiatria afirmava "apoiar as iniciativas que permitam a casais do mesmo sexo adoptar e co-educar crianças".
Também em 2014 a Ordem dos Psicólogos de Portugal referiu em parecer que "os resultados das investigações psicológicas apoiam a possibilidade de co-adopção por parte de casais homossexuais, uma vez que não encontram diferenças relativamente ao impacto da orientação sexual no desenvolvimento da criança e nas competências parentais". Na mesma linha foi divulgada mais recentemente uma outra revisão de estudos sobre esta matéria mostrando que a homoparentalidade não afecta o desenvolvimento das crianças.
Podemos também lembrar que a maioria das pessoas homossexuais terá sido educada em famílias heterossexuais, que existem muitas crianças com sérios problemas emocionais e vulnerabilidade psicológica, a experimentarem condições de mal-estar devastador integrando situações familiares heterossexuais ou, finalmente, que existem múltiplos casos de crianças discriminadas por variadas razões em contexto escolar o que não nos faz retirar, por princípio, as crianças da escola mas, pelo contrário, combater a discriminação, sejam quais forem as circunstâncias.
Do meu ponto de vista e de uma forma propositadamente simples, a questão central é que o que faz com toda a certeza mal às crianças, é serem maltratadas e os maus tratos não decorrem do tipo de famílias, mas da competência humana e educativa, por assim dizer, de quem delas cuida, pais, mães ou educadores.
Quando as crianças são bem tratadas e crescem com adultos que gostam delas, as protegem e as ajudam a crescer, elas encontram caminhos para lidar com dois pais ou com duas mães.
Insisto, o que as crianças terão dificuldade em resolver é ter por perto adultos, heterossexuais ou homossexuais, que não gostam delas, que as maltratam, negligenciam, abandonam, etc. Isso é que faz mal às crianças.
O resto é uma discussão não conclusiva, assente em valores de que não discuto a legitimidade, mas que não podem ser confundidos com ciência ou com um discurso de defesa das crianças de males que estão por provar.
Parece bem mais importante defendê-las dos males comprovados e que todos os dias desfilam aos nossos olhos.
Como disse este texto não é novo, já o divulguei mesmo como artigo de opinião no Público. Enquanto for necessário e porque não julgo que mereça alteração, voltarei, insistindo.

TESTES DE STRESSE? SIM, A VIDA DE MUITAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Nos últimos anos com a crise financeira e económica que nos esmaga tornou-se conhecida uma expressão que não me recordo de ver utilizada antes, testes de stresse aos bancos. A propósito da crise nos mercados financeiros realizam-se regularmente aos bancos europeus os tais testes de stresse, também chamados de resistência, para aferir da sua capacidade de resposta.
Os resultados da última bateria de testes de stresse mostraram que o Novo Banco, o BES bom, não terá aguentado o stresse e precisa de suplementos que o fortifiquem. Veremos quem vai financiar o processo.
No entanto, sendo algo de novo, para mim, os testes de stresse neste universo, a banca, estes testes são mais do que frequentes e conhecidos. A vida de muitas famílias é um contínuo teste de stresse. Julgo que seria, aliás essencial, que as lideranças, na sua maioria medíocres, também se inquietassem com o stresse que afecta a vida de muitos milhões de pessoas, designadamente de crianças e adolescentes.
Muitas crianças e adolescentes passam o dia a saltitar entre actividades e a correr de espaço para espaço sem tempo para respirar.
Muitas crianças e adolescentes vivem em famílias que experimentam tremendas dificuldades em assegurar patamares mínimos de bem-estar e qualidade de vida.
Muitas crianças são vítimas de maus-tratos e negligência que transforma a sua vida num inferno inaceitável.
Muitas crianças e adolescentes com necessidades especiais vêem atropelados os seus direitos a dimensões básicas da qualidade de vida, a educação, por exemplo.
Muitas crianças e adolescentes são fortemente pressionados pelas famílias para a excelência do desempenho vivendo angustiadamente perante o risco do fracasso e de se sentirem responsáveis por expectativas familiares defraudadas.
Muitas crianças e adolescentes vivem em ambientes afectivamente hostis, ameaçadores da sua auto-estima e confiança quando não vitimizados pela fragilidade que demonstram.
Muitos adolescentes e jovens sentem-se perdidos e incapazes de construir um projecto de vida viável capaz de os rebocar até ao futuro.
Os exemplos poderiam crescer, mas parecem suficientes para mostrar o nível de especialização que muitas crianças, adolescentes e jovens já atingiram em testes de stresse.
E só falei dos mais novos. No fundo e relativamente à banca, creio que sempre viveu, vive e viverá sem grande stresse.

ALUNOS EXCELENTES


A educação em Portugal é um universo em permanente escrutínio e com as escolas a viverem quase permanentemente num clima de instabilidade e de alterações constantes numa deriva de mudança sem avaliação e de acordo com agendas de natureza diversa.
Neste quadro, nem sempre amigável para o trabalho de alunos e professores, merece registo o desempenho de muitos estudantes portugueses em competições internacionais dedicadas a áreas específicas de conhecimento como Matemática, Física ou Ciências.

sábado, 14 de novembro de 2015

DA QUALIDADE DA EDUCAÇÃO, DA QUALIDADE DOS PROFESSORES

Retomo o trabalho do Público sobre o Relatório da Comissão Europeia, “Educationand Training Monitor 2015” agora a propósito de, cito, “No geral considera que a qualidade dos professores é indispensável para garantir uma melhor educação”.
Julgo que ninguém terá qualquer dúvida sobre a importância da qualidade dos docentes na promoção de “melhor educação” qualquer que seja o conteúdo desta ideia como também não se discute a importância dos currículos e programas ou das políticas educativas apenas como exemplo.
Nesta perspectiva parece também clara a importância da formação dos professores e da regulação e avaliação do seu desempenho. Neste contexto compreende-se mal o recurso à sinistra Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades que, evidentemente, não avalia nada de substantivo no que é ser Professor.
Cito com frequência uma afirmação de 2000 do Council for Exceptional Children, "O factor individual mais contributivo para a qualidade da educação é a existência de um professor qualificado e empenhado".
No entanto, julgo que para além da formação e da avaliação dos docentes como base para a qualidade do seu desempenho parece-me fundamental a sua valorização, algo que nos últimos anos de políticas educativas em Portugal, designadamente a partir da passagem de Maria de Lurdes Rodrigues pela 5 de Outubro e com Nuno Crato mais recentemente, esteve bem longe de se verificar.
Aliás, tem-se passado o contrário, desvalorização social e profissional dos professores e da sua carreira.
Na verdade, a valorização social e profissional dos professores, em diferentes dimensões, é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade.
Aliás, uma das características dos sistemas educativos melhor considerados é, justamente, a valorização dos professores.

ENSINO SUPERIOR E MERCADO DE TRABALHO

No Público de hoje encontra-se uma peça sobre o Relatório da Comissão Europeia, “Education and Training Monitor 2015” do qual também ontem comentei alguns aspectos. Umas notas relativas a, cito, “Comissão Europeia quer que as instituições do superior olhem mais para o mercado de trabalho”.
É evidente que as instituições de ensino superior não podem esquecer o mercado de trabalho mas não podem ter o “mercado de trabalho” como único determinante da sua oferta.
Recordo uma entrevista também ao Público em Janeiro do ano passado de Devon Jensen, professor universitário com trabalho desenvolvido sobre o papel das universidades, a sua relação com os governos e o mundo económico e empresarial, que esteve a Lisboa para uma conferência com a estimulante interrogação como título, Is Higher Education Merely a Servant of the Economy?  .
Da extensa entrevista cuja leitura na altura recomendei retomo alguns apontamentos.
Em primeiro lugar parece-me de a importância crucial atribuída ao investimento em formação de nível superior ainda que em diferentes formatos e extensão. Esta afirmação contraria a lógica actualmente seguida em Portugal de desinvestimento no ensino superior e investigação.
Quanto ao entendimento, cito as várias referências de Pires de Lima ou Nuno Crato, de que a definição da oferta formativa de ensino superior deve ter como critério quase exclusivamo a “empregabilidade”, Devon Jensen chamava a atenção para a volatilidade e mudança no mercado de trabalho, bem como para o papel de liderança que as instituições devem assumir na definição da sua oferta, ou seja e como já tenho referido, o ensino superior não deve ignorar o marcado de trabalho mas não pode andar “a reboque” desse mercado que, aliás, muda a uma velocidade enorme.
Existem cursos que apesar de alguma menor empregabilidade se inscrevem em áreas científicas de que não podemos prescindir com o fundamento exclusivo no mercado de emprego, existem sempre áreas ou nichos de formação e investigação que são imprescindíveis num tecido universitário moderno e que são imprescindíveis ao progresso das sociedades.
Neste âmbito considero, por exemplo, a formação e investigação em Ciências Sociais que tão maltratadas têm sido nos últimos tempos.

CHOQUE E HORROR

Faltam as palavras para falar do horror e da barbaridade que no mar e em terra vai acontecendo cada vez mais perto de nós, que, provavelmente, acreditávamos estar a salvo de tamanhas tragédias.
A merda de lideranças actuais da generalidade dos países que põem e dispõem no xadrez do poder mundial e de tantos outros subservientes e submissos que, em muitos casos, de pessoas não sabe nem quer saber, permite, sem um sobressalto e com palavras que de inócuas são um insulto, que se assista à barbaridade que as imagens, os relatos mostram e o muito que se imagina mas não se vê.
Apesar da complexidade é evidente para toda a gente com um pouco de senso que nada disto se resolve com muros ou vedações, manipulando emoções e interesses de circunstância ou combatendo alguns e depois apoiar esses alguns ao sabor dos movimentos da luta pelo poder
Crescem muros, a barbaridade estende-se, o horror é imenso e, por vezes, nem a retórica da condenação é convincente e muitos menos, evidentemente, eficaz.
A questão é séria, os ventos sempre semeiam tempestades e as tempestades num mundo global não ficam confinadas nos epicentros.
Não existe terror mau e terror bom. Não existe horror mau e horror bom. Não existe terrorismo bom e terrorismo mau.
Como é possível que tal horror aconteça e tanta gente com responsabilidades assobie para o ar e se fique pelas palavras de circunstância.
Estou a lembrar-me de Rafael Alberti e o seu "Nocturno".
(...)
Las palabras entonces no sirven, son palabras...
Siento esta noche heridas de muerte las palabras.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

FAMÍLIA PRECISA-SE, URGENTE


O bem estar das crianças é uma matéria que está permanentemente na agenda.
Em Portugal verifica-se um dos mais elevados índices europeus de institucionalização. No mesmo sentido Portugal tem um dos mais baixos valores no que respeita a colocação de crianças em acolhimento familiar, 4,5 % face aos 30% verificados em Espanha ou 66% em França. No Reino Unido a taxa de acolhimento familiar é ainda mais elevada, 77%, mas este indicador, do meu ponto de vista, deverá ser analisado à luz de algumas particularidades que estes processos apresentam e que têm sido objecto de algumas reservas.
Apesar da evolução que se tem constatado, continuamos com uma elevada quantidade de crianças institucionalizadas, muitas das quais sem projectos de vida viáveis pese o empenho dos técnicos e insttuições. Seria desejável que se conseguisse até ao limite promover a sua desinstitucionalização das crianças por múltiplas e bem diversificadas razões.
Recordo um estudo da Universidade do Minho mostrando que as crianças institucionalizadas revelam, sem surpresa, mais dificuldade em estabelecer laços afectivos sólidos com os seus cuidadores nas instituições. Esta dificuldade pode implicar alguns riscos no desenvolvimento dos miúdos e no seu comportamento.
A conclusão não questiona, evidentemente, a competência dos técnicos cuidadores das instituições, mas as próprias condições de vida institucional e aponta no sentido da adopção ou outros dispositivos como forma de minimizar estes riscos e facilitar os importantes processos de vinculação afectiva dos miúdos. Também deve acentuar-se o trabalho de grande qualidade que muitas instituições procuram desenvolver. Além disso, sabemos todos, que existem contextos familiares que por razões de ordem variada não devem ter crianças no seu seio, fazem-lhes mal, pelo que a retirada pode ser uma necessidade justificada pelo supremo interesse da criança, um princípio estruturante das decisões neste universo.
Acontece ainda que se verifica uma enorme dificuldade de algumas crianças em ser adoptadas devido a situações como doença, deficiência, existência de irmãos ou uma idade já elevada. Assim, muitas crianças estarão mesmo condenadas a não ter uma família. Existem casos de famílias interessadas na adopção de bebés que esperam até cinco anos porque entre os mais pequeninos passíveis de adopção, o número é menor, situação que se mantém, os candidatos à adopção preferem as crianças abaixo dos 3 anos.
Quando penso nestas situações recordo sempre de uma expressão que várias vezes aqui tenho citado e que ouvi a Laborinho Lúcio num dos encontros que tenho tido o privilégio de manter com ele.
Dizia Laborinho Lúcio que "só as crianças adoptadas são felizes, felizmente a maioria das crianças são adoptadas pelos seus pais”. Na verdade, muitas crianças não chegam a ser adoptadas pelos seus pais, crescem sós e abandonadas.
Termino com uma afirmação de um autor muito conhecido na área da educação e do desenvolvimento, Bronfrenbrenner, "Para se desenvolver bem todas as crianças precisam que alguém esteja louco por elas".

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

MENOS ABANDONO, MENOS RETENÇÃO, MAIS SUCESSO. SERÁ?

O Relatório "Education and Training Monitor 2015” da responsabilidade da Comissão Europeia, evidencia progressos importantes realizados em Portugal no que concerne ao abandono escolar. Apesar destes progressos, que se devem registar, a taxa de abandono escolar em Portugal continua a quarta mais alta da União Europeia.
De acordo com o Relatório o abandono escolar precoce em Portugal passou de 30,9% em 2009 para 17,4% em 2014. A média na Comunidade é 11,1% e importa recordar que para 2020 está estabelecido a nível europeu o objectivo de atingir 10%
Na verdade, os estudos comparativos internacionais têm vindo a registar os progressos dos alunos portugueses. No entanto de 2009 para 2012 a situação inverteu-se.
Sabe-se também que de 2011, depois de um período de melhoria de resultados escolares, os níveis de retenção voltaram a agravar-se em todos os anos de escolaridade. Em média chumbam por ano cerca de 150 000 alunos dos ensinos básico e secundário como referiu o CNE em Relatório deste ano. É evidente também que os alunos com insucesso escolar são os que correm maior risco de abandono escolar precoce.
Por outro lado, importa analisar o impacto que nestes resultados tem a forma como é gerida a avaliação interna nas escolas e a avaliação externa do MEC designadamente com a definição da dificuldade dos exames. Veja-se a oscilação de médias dos exames nacionais ao longo dos anos.
Também me parece necessário ponderar o impacto que tem o “encaminhamento” de muitos alunos para vias vocacionais ou profissionais, que minimiza os níveis de abandono, minimiza os números das retenções mas não é garantido que faça subir os números do sucesso educativos e escolar.
Neste contexto, julgo que importa alguma prudência no olhar para o significado real do abaixamento do abandono.

ACABAR COM OS EXAMES NACIONAIS DO 4º ANO. PRUDÊNCIA

Ao que parece e embora não se saibam os contornos da proposta ou propostas o PS, BE e PCP subscreverão o fim dos exames finais do 1º ciclo.
Quem acompanha o que por aqui vou escrevendo sabe que a minha posição não é favorável à exisência de exames nacionais, obrigatórios e com impacto no trajecto dos alunos ao fim de quatro anos de escolaridade, realizando-se ainda uma avaliação no 2º ano.
Não vou repetir a argumentação, recordo apenas que a esmagadora maioria dos países da OCDE não tem exame nacional tão cedo e que organizações como a OCDE e UNESCO alertam para os riscos de sobrevalorização da avaliação externa que tem cracterizado a política educativa mais recente.
Nesta conformidade, parece-me aceitável que se elimine o exame nacional do 4ºano.
No entanto, é imprescindível que se não fique por aqui, a simples eliminação. Seria uma medida de natureza simbólica mas quase irrelevante.
 A questão mais importante é definir é de forma adequada e com os recursos necessários que apoios estão disponíveis para as dificuldades experimentadas por alunos e professores ao longo de todo ciclo.
Convém também não esquecer o impacto que turmas sobrelotadas, metas curriculares excessivas e burocratizadas que inibem a acomodação das diferenças entre os alunos, insuficiência de apoios às dificuldades de alunos e professores durantes todos os anos do ciclo, entre outros aspectos, podem assumir nestes resultados e não constituir o melhor contexto para sustentar a evolução pretendida.
Quem conhece minimamente as escolas sabe que o terceiro período dos anos finais de ciclo se transformou num período de preparação obsessiva para os exames que deixa insatisfeitos professores e alunos. Os resultados escolares no 1º e 2º ciclo, nas condições de funcionamento e características das nossas escolas, também não melhoravam significativamente com uma explicação intensiva realizada no 3º período e no período suplementar de explicações por maior empenho que seja colocado pelos professores e escolas.
É tudo isto que deve ser considerado ao decidir “acabar” com o exame do 4º ano.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

QUENTES E BOAS

Hoje é o dia de S. Martinho, um dia em que quando era miúdo se tornava obrigatório comer castanhas assadas. Os mais velhos acompanhavam-nas com água-pé. Coisas de outros tempos, é claro.
Agora, temos umas referências rápidas nas escolas, uma chamada de atenção nas superfícies comerciais, sempre se vendem umas castanhas, e pouco mais.
No entanto, em algumas ruas de Lisboa, e não só evidentemente, nestes dias ainda não muito frios, estamos no Verão de S. Martinho, com a noite a chegar mais cedo ainda sentimos o perfume das castanhas assadas pelos vendedores ambulantes que persistem na actividade. Sim, acho mesmo bom o cheiro das castanhas assadas na rua.
Apesar dos orçamentos se apertarem dramaticamente julgo que ainda faremos um esforço para aceder às castanhas assadas, mesmo que meia dúzia. É a única coisa que nos chega embrulhada num agradável "quentes e boas" o que na verdade merece saudação.
Em tempos amargos e frios como os que vivemos, apesar do Verão que Santo nos mandou, é bom chegarem as castanhas assadas, "quentes e boas". Se calhar é isso que lhes dá o valor e daí serem caras.
Agora já não se vendem embrulhadas em jornal ou nas infindáveis páginas das listas telefónicas. Coisas da segurança alimentar, ao que disseram, mas não é a mesma coisa. Castanhas assadas que se prezem vêm num funil feito de uma página de lista telefónica ou, vá lá, num papel de jornal.
Podemos tentar produzir em casa com equipamentos mais sofisticados umas castanhas assadas mas nunca ficam ou eu nunca consegui que ficassem ... quentes e boas, como as que se vendem na rua.
Nem com o mesmo cheiro a Inverno.
Hoje, quando voltei da lida trouxe umas castanhas assadas que fizeram companhia a um copo de água-pé que mão amiga e generosa me fez chegar. Souberam … a pouco.
À vossa saúde.

NÃO PODEM FALHAR. A HISTÓRIA NÃO VOS ABSOLVERÁ

Não é conhecida a decisão que o Presidente da República tomará relativamente ao Governo do País. Nos termos constitucionais parece claro que António Costa deveria ser indigitado para formar Governo face ao acordo com maioria parlamentar estabelecido entre PS, BE e PCP.
No entanto, Cavaco Silva poderá tomar outra decisão que lhe permita evitar ficar com uma montanha de sapos a caminho do estômago. A ver vamos.
Como muita gente diz, são tempos históricos e, do meu ponto de vista, uma oportunidade única para recolocar a política aos serviço das pessoas. Uma nota. Não sou simpatizante fidelizado de nenhum dos partidos signatários do acordo o que não obsta a que tenha um posicionamento de natureza ideológica, sim ideológica, que me faça assumir a esperança num tempo diferente.
Para isso é preciso que, por uma vez, se coloquem interesses nacionais acima de interesses partidários, característica persistente do nosso universo político.
Para isso é preciso que uma agenda para as pessoas, para todas as pessoas, se sobreponha a uma agenda para algumas pessoas, os aparelhos partidários e a corporação de interesses que envolve. Estamos todos bem cientes do que têm sido décadas de partidocracia instalada e das suas consequências.
É também claro, basta ler e ouvir muitos opinadores e os títulos de parte da imprensa para perceber como um eventual Governo de esquerda vai ser recebido, será o caos, a catástrofe. Este discurso tem autores, individuais e institucionais, nacionais e, evidentemente, internacionais, estamos na era da globalização. O dilúvio que estes profetas anunciam vai surgir logo agora que estávamos à beira do paraíso. Foi coincidência e nem se percebe porque é que a maioria absoluta das pessoas que votaram não votaram na continuidade das políticas mesmo tendo sido prometido algum alívio na "intensidade" da austeridade.
Para o cenário de catástrofe ser completo, dirão alguns, faltará a eleição presidencial de Sampaio da Nóvoa, também um perigoso pensador posicionado à esquerda do espectro político. As hesitações e deriva do PS nesta matéria podem dar uma "ajuda" a Marcelo Rebelo de Sousa uma vez que a inócua e fabricada candidatura de Maria de Belém, é isso mesmo, inócua do ponto de vista da esquerda e um "favorzinho" ao mediático "entertainer político". Também aqui, por razões que já tenho referido me parece essencial que em Belém resida alguém que cuja candidatura emerge da cidadania e não da partidocracia sem que isso signifique a hostilização dos partidos, instrumentos essenciais da democracia nos termos da Constituição.
De tudo isto resulta que, se como espero, o Governo com o apoio da esquerda vier a tomar posse os signatários estão condenados a não falhar na criação de condições que o viabilizem e sustentem num horizonte temporal de legislatura e com estabilidade.
As dificuldades internas e externas serão imensas, veja-se o trajecto da Grécia, os mercados e e os seus servidores desejam um falanço que devolva o poder a quem os serve. Podemos, aliás, ter a certeza de que se esforçarão nesse sentido.
Para isso é fundamental que o PS não cometa erros crassos cometidos em anteriores experiências governativas. É preciso que BE e PCP, independentemente dos seus programas, sustentem entendimentos comuns em matérias que assegurem governabilidade e estabilidade. Vai ser requerida uma lucidez e um escrutínio de equilíbrios e prioridades como nunca sentimos.
Como não estávamos num paraíso construído pelo PSD e CDS-PP também não vamos entrar num paraíso construído pelo PS, BE e PCP. As dificuldades continuarão imensas. O caminho vai ser difícil, os obstáculos e armadilhas vão ser muitos e grandes, a margem de erro é estreita, mas não podem falhar na construção e manutenção de uma outra via mais amigável para as pessoas. É esse o sentido da mudança que desejamos.
Não podem falhar por responsabilidade vossa. A história não vos absolverá.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

A MENSAGEM E O MENSAGEIRO, UM CLÁSSICO

Governo corta verbas a Observatório por ter revelado números da emigração

A maldita realidade teima em não estar de acordo com os discursos em que alguns insistem. Não é por torturar dados e acreditar que a realidade é a projecção dos meus desejos que esta muda. Lamentavelmente para todos nós a realidade não muda assim, muda com políticas dirigidas às pessoas.
Também não adianta calar ou eliminar o mensageiro, a mensagem não muda de conteúdo.
No entanto, calar ou eliminar o mensageiro quando não se gosta da mensagem … é uma mensagem muito clara.

PROFESSORES BEM COMPORTADOS

As alterações ao Código Penal implementadas em agosto pelo anterior Governo, para controlo das atividades que envolvam contacto regular com menores, passaram a obrigar todos os docentes a apresentar anualmente o certificado de registo criminal. 

Já a propósito da realização da sinistra PACC e dada argumentação de Nuno Crato, a exigência, o rigor, a qualidade, blá, blá, que obrigam a escolher os melhores professores entendi que dado o relevo das funções exercidas e as consequências potenciais da suas decisões também os candidatos a políticos se deveriam submeter a provas de avaliação de conhecimentos e capacidades.
Ainda com argumentação de que importa escolher, não só os mais preparados e competentes mas também os bem comportados, é exigido anualmente aos professores, mas não só, um certificado de registo criminal que ateste o seu bom comportamento e "idoneidade para o exercício de funções".
É certo que se dirá que mais vale prevenir que remediar e temos que proteger as crianças e jovens apesar de sabermos que a maioria dos abusos são responsabilidade de familiares, amigos e pessoas próximas.
No entanto, uma prova anual de bom comportamento parece um exagero.
No entanto e considerando que também a acção política é uma actividade que envolve riscos de abuso talvez fosse oportuno exigir anualmente uma certidão de bom comportamento que ateste a idoneidade para o exercício de funções dos que exercem o poder político, central e local.
É verdade que corremos o risco de também termos um certificado de idoneidade da mesma natureza que Ricardo Salgado recebeu do actual Ministro da Administração Interna.
Eu sei que este texto tem alguma demagogia mas a burocracia e a desconfiança alimentadas por parte de quem decide cansa. Mesmo.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

E É ESCREVER ASSIM DESACORDADAMENTE. De novo

Eu sei que estes dias são marcados pelo quadro político, pelas questões da governação e pela emergência de um Acordo que alguns aplaudem e outros contestam. Mas também sei que a Língua Portuguesa é um bem e um património que enquanto for possível merece ser defendida do atentado que está ligado a um outro Acordo, o Acordo Ortográfico de 1990.
Hoje e amanhã em Lisboa, com a participação de diversos especialistas e por iniciativa da Academia das Ciências, a Língua Portuguesa estará em debate, incluindo matérias respeitantes ao AO.
Repetindo notas que já aqui deixei e enquanto for tempo de evitar este atropelo à Língua Portuguesa que o Acordo Ortográfico representa vale a pena insistir, importa que não nos resignemos. Não vou repetir os motivos pelos quais, do meu ponto de vista de leigo nestas matérias, o Acordo deveria ser repensado, muitas vezes aqui os enuncio.
É também verdade que as explicações que os defensores, especialistas ou não, adiantam não me convencem da sua bondade, antes pelo contrário, acentuam a ideia de que esta iniciativa não defende a Língua Portuguesa. O seu grande defensor Malaca Casteleiro refere até "incongruências" o que me parece curioso, desencadeamos um acordo com esta amplitude e implicações para manter "incongruências e imperfeições" que transformam a ortografia da Língua Portuguesa numa mixórdia.
Entendo, evidentemente, que as línguas são estruturas vivas, em mutação, pelo que requerem ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras, o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma.
Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence pois não me parece que o inglês e o castelhano/espanhol que têm algumas diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, experimentem particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for.
De facto, não tenho conhecimento de alguma perturbação ou drama com origem nas diferenças entre o inglês escrito e falado na Inglaterra ou nos Estados Unidos, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas. O mesmo se passa entre a comunidade dos países com o castelhano/espanhol como língua oficial.
O que vamos conhecendo com exemplos extraordinários é a transformação da Língua Portuguesa numa mixórdia abastardada.

DAS MÃES E DOS PAIS QUE CUIDAM E QUE BRINCAM

Gostei de ler “Mães que brincam e pais que cuidam têm vínculos mais fortes com os filhos”, uma peça referente a um estudo realizado pela Universidade do Porto.
Partindo da importância de há muito concedida aos laços entre crianças e pais e o seu impacto no desenvolvimento o estudo analisa a forma como essa relação é operacionalizada.
Os resultados sugerem que laços mais seguros e de confiança são estabelecidos com mães que para além de cuidadoras, dediquem tempo a brincar com os filhos assim como sugere a importância de que os pais possam ser também cuidadores e não apenas parceiros de brincadeira.
Dito de outra maneira, a alteração dos papéis que mais habitualmente estão atribuídos a pai e mãe pode ser um facto positivo para o desenvolvimento das crianças.
De há muito que afirmo que brincar é actividade mais séria que as crianças realizam, em que põem tudo o que são e constroem tudo o que virão a ser. Daí a minha preocupação com o pouco tempo para brincar que muitas crianças têm, mesmo em contexto familiar.
O estudo também refere que mais do que o tempo disponível dos pais importa o conteúdo, o uso, dado a esse tempo. No entanto, para que se diversifiquem conteúdos é preciso … tempo.
Recordo ainda que num estudo divulgado em 2014 realizado na Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Grécia, Itália, Holanda, Espanha, Suécia, Suíça, Portugal, Espanha Itália e Roménia, Portugal é o país as mães de crianças até aos seis anos, mais trabalham a tempo inteiro fora de casa.
O nível de competição e precariedade nas relações laborais são também pouco favoráveis a que as pessoas, mães ou pais, possam solicitar horários e condições que lhes permitam estar mais tempo com os filhos e serem, à vez ou simultaneamente, cuidadores e parceiros de brincadeira.
Torna-se clara a importância crescente de políticas amigas das famílias e se o forem contribuirão certamente para minimizar o problema sério de natalidade que enfrentamos e proporcionarão melhores ambientes educativos.

UM NOVO CICLO POLÍTICO. E NA EDUCAÇÃO COMO SERÁ?

Integro-me no grupo dos que entendem que pode ser positivo uma mudança política que altere o conjunto de políticas que têm vindo a ser seguidas.
Acredito que sem colocar em causa os equilíbrios necessários é possível levar a cabo políticas que sejam mais amigáveis para as pessoas e para as famílias, designadamente, as mais vulneráveis e frágeis socialmente.
O slogan TINA – There Is No Alternative , não passou de uma fórmula repetida até à náusea para nos convencer da inevitabilidade das políticas seguidas. Mas existe alternativa e tem que ser possível criar essa alternativa com o ciclo político que parece estar a desenhar-se.
Esta alternativa em construção contemplará necessariamente todas as dimensões da actividade política. No entanto, apesar da esperança global confesso que na área em que me movo, a educação, não estou particularmente optimista mas gostava de estar enganado.
Nem o Programa do PS apresentado às eleições de 4 de Outubro nem o que se conhece do programa que estará a ser negociado entre PS, BE e PCP me parece particularmente entusiasmante e capaz de fazer esquecer o que representou a última passagem do PS pela 5 de Outubro, sobretudo durante o consulado de Maria de Lurdes Rodrigues.
Existem, é verdade, alguns aspectos que são importantes, curiosamente também inscritos no programa da PàF como o aumento da cobertura da educação de infância ou a alteração nas políticas relativas aos manuais escolares, mas outras matérias sendo importantes, são mais pelo que representam do que pela mudança que indiciam, refiro-me ao fim dos exames finais do 1º ciclo, ao fim da sinistra PAAC (uma ideia do PS embora operacionalizada por Nuno Crato) ou ao progressivo abaixamento do número de alunos por turma.
Sempre defendi que os exames só por existirem não melhoram o trabalho de alunos e professores mas o que me parece substantivo é saber como conseguir esta melhoria pois também não existirá pela simples abolição dos exames o que não parece referido no que se conhece do programa.
Quanto aos professores, o que será a política em matéria de qualificação, avaliação e carreira dos professores? Acabar com a sinistra PAAC é simbólico curto e o que se diz é vago.
O número de alunos por turma é uma variável importante mas ligada a outras variáveis sobretudo de natureza contextual. Sendo certo que se pode baixar o número máximo de alunos por turma o mais importante, do meu ponto de vista, é atribuir verdadeira autonomia às escolas para que possam de acordo com as suas especificidades construir as turmas com o efectivo que pareça ser favorável ao sucesso de alunos e professores. Para isso é necessário que o MEC confie nas escolas e nos professores o que há muito que acontece. Recordo a glória de Maria de Lurdes Rodrigues quando proclamou “Perdi os professores, mas ganhei a opinião pública”.
Ao que parece continua previsto o caminho de “municipalização” embora se afirme que não diminuirá a autonomia das escolas. Isto quer dizer exactamente o quê? E a relação com o subsistema do ensino privado? Que perspectivas?
Continuo a afirmar a convicção de que o novo ciclo político que parece desenhar-se pode representar uma oportunidade histórica para fazer diferente do que têm sido os últimos anos e nos tornarmos um país melhor, mais solidário, menos assimétrico socialmente, mais inclusivo. Também no universo da educação seria necessário que assim fosse.
Será?
Como diz o Velho Marrafa lá no Alentejo, “deixem lá ver”.

domingo, 8 de novembro de 2015

SR. PRESIDENTE, WE HAVE A PROBLEM, THE TIMES THEY ARE A-CHANGIN'

Sr. Presidente, we have a problem, the times they are a-changin'
Eles, a esquerda, a perigosa esquerda, vem aí.
Será melhor telefonar ao Mercados e avisar de imediato a Chefe, eles vêm aí, entenderam-se e já são mais que nós.
Os nossos parecem desorientados e estão em pânico, o povo por enquanto parece sereno mas torna-se necessário a ser mais incisivo para ver se se assusta mesmo.
Aguardamos instruções.

Desta vez parece.


MÃES E PAIS A TEMPO INTEIRO

No Observador, para além da parte tóxica, a agenda política de opinadores e cronistas, surgem algumas peças que merecem reflexão. Hoje, por exemplo, referia-se a situação de mulheres que optam por deixar de trabalhar para assegurarem a maternidade, são designadas como “MATI”, Mãe a Tempo Inteiro.
Para além da questão relativa à situação económica que permita ou obrigue a tal situação e que não comento, umas notas breve começando por uma história que a leitura da peça me fez recordar.
Há já alguns anos numa conversa com pais e mães de crianças a frequentar creche jardim-de-infância uma mãe levantou uma questão começando por afirmar com ar muito assertivo que “sou mãe a tempo inteiro”, significando, tal como na peça do Observador, que não trabalhava, apenas era … mãe.
Tal como quando ouvi aquela mãe também hoje acho desadequada a designação. Qualquer mãe que seja Mãe, qualquer pai que seja Pai, são Mãe e Pai a tempo inteiro, independentemente do tempo com que lidam com os filhos.
Não existem Mães e Pais a “tempo parcial”, serão apenas pessoas com filhos, provavelmente, todos conheceremos algumas.
Não se trata de uma birra da minha parte, trata-se de evitar uma designação que é injusta para quem, por múltiplas razões não pode estar sempre junto dos filhos. Não é por isso que não podem ser consideradas Mães ou Pais a tempo inteiro ou, pior ainda, sentirem-se culpadas por não o poder ser. Parece-me importante que se afirme este entendimento junto de muitos pais.
Aliás, as crianças, mesmo muito novas, também precisam de “respirar” e de autonomia e nada garante que uma permanente proximidade seja positiva só por acontecer, pode ser asfixiante e não saudável.
Nunca interrompi a minha carreira profissional para ser pai a tempo inteiro, a minha mulher não interrompeu a carreira profissional para ser mãe a tempo inteiro mas, desculpem lá, ainda hoje, passados trinta e quatro anos de parentalidade, nos consideramos Pais a tempo inteiro. Até sempre.

REDES SOCIAIS E SOLIDÃO

Algumas notas sobre esta questão aparentemente paradoxal, redes que se definem como sociais induzem … solidão.
Segundo dados do INE relativos a 2013, 70% dos portugueses utilizadores da Internet usavam as redes sociais, um valor significativamente acima de 57%, a média para a União Europeia. Noutras dimensões de utilização da net as diferenças são mais próximas.
Como utilizador deste universo, por isso estão a ler-me, a aparente apetência dos portugueses pelas redes sociais vem ao encontro da minha experiência, aliás, estimulante. Algumas linhas de agradecimento pessoal e um pequeníssimo alerta.
Na verdade, é entusiasmante a quantidade de pessoas que se me dirigem convidando-me para amigo e propondo-me a integração numa rede social. De facto, numa época em que nos referimos, aqui no Atenta Inquietude tenho-o feito com frequência, ao isolamento em que muita gente parece estar, surpreende-me a disponibilidade solidária com que tanta gente encara o risco de eu estar sem, ou com poucos amigos.
A surpresa é tanto maior quando verifico que um número significativo dos convites vem de pessoas que não tenho ideia de conhecer de lado algum. E mais surpreendido fico com a generosidade com que somos presenteados com toda a espécie de informação sobre a vida dos nossos amigos num esforço notável para que nos sintamos próximos e por dentro, às vezes parece que estamos mesmo ali a partilhar o jantar ou a viagem. É bonito.
Já pensei que será gente que assumiu uma espécie de missão em regime de voluntariado na qual se empenham em oferecer amizade a eventuais necessitados. É bonito e cria uma ilusão de esperança na humanidade, afinal as pessoas continuam a empenhar-se na relação com o outro e a preocupar-se com a amizade, o lema é sempre ligados, sempre amigos.
Por outro lado, uma das fórmulas divulgadas "gostava de te adicionar como amigo" é particularmente feliz, eu acho. A ideia de ir somando amigos, chegando a centenas ou, quem sabe, a milhares, permite sonhos de popularidade e amizade nunca antes imaginados. Estou completamente rendido.
Por favor, não desistam de enviar a toda a gente, a mim também, as fantásticas mensagens que contêm os criativos e solidários "gostava de te adicionar como amigo". Também aprecio variantes como "tituxa enviou-te um Pedido de Amizade" ou até mesmo algumas mais “aconchegantes” que começam com qualquer coisa como “Meu bem, me chamo … e quero muito te conhecer”.
Um mundo assim, é um mundo diferente.
Bem-haja pela atenção.
Já agora, talvez fosse bom lembrar que esta atracção pelas redes sociais e pela promoção da amizade contém riscos importantes para crianças e adolescentes, o cyberbullying ou o isolamento, são apenas dois dos mais frequentes. É também razoavelmente claro que a presença assídua nas redes sociais por parte de muitos adultos pode esconder uma enorme solidão que se "mascara" relações sociais ... virtuais.
Também é interessante recordar que alguns estudos mostram o peso excessivo que estes comportamentos têm na vida de muitas pessoas e famílias, inibindo a relação interpessoal e criando constrangimentos à acção educativa. Curiosamente, crianças e adolescentes referem justamente estes aspectos face ao comportamento dos seus pais, como mostrou um estudo divulgado há pouco tempo nos EUA e que, aliás, aqui citei.
Na verdade e finalmente, em algumas circunstâncias, as redes sociais são tudo menos ... sociais.

sábado, 7 de novembro de 2015

LÉRIAS

E pronto, por este ano a azeitona está colhida e entregue no lagar. Resta terminar a limpeza das oliveiras, traçar e carregar a lenha para aquecer o Inverno e queimar a rama sobrante. Foi bem melhor do que prevíamos, com as últimas chuvas a azeitona engrossou e aguentou-se sem gafar e cair.
Lá para Janeiro será tempo de voltar ao lagar em busca do azeite novo.
Este ano o tempo de espera no lagar não foi muito mas estamos no Alentejo, qualquer pedaço de tempo e mais do que um alentejano presente é cenário suficiente para umas lérias.
A certa altura, sem estranheza nos tempos que atravessamos, lá se ia falando das dificuldades e alguém referiu como daria jeito aquele “moitão” de dinheiro do “jackpot” do Euromilhões.
Toda a gente desatou a “sonhar” com o “moitão” de dinheiro e para o que ele chegaria. No meio das falas ouve-se a voz de um companheiro o Ricardo, moço ainda novo, que afirmou convicto, “Com esse “moitão” de dinheiro nunca mais dava os bons dias a ninguém”.
Ficámos surpreendidos, o Ricardo é moço simpático, conversador, não era de esperar que lá por ser rico deixasse de dar a salvação às pessoas. Perante a estranheza, o Ricardo esclareceu.
“Vocês pensam que eu com esse “moitão” de dinheiro mais alguma vez me levantava antes do almoço? Só me levantava a essa hora e depois já só dava as boas tardes ou boas noites”.
Está certo Ricardo, mesmo com dinheiro deve dar-se a salvação, coisa que, aliás, vai caindo em desuso.
Entretanto chegou a minha vez de despejar a azeitona para ser pesada. Foi ainda menos do que esperava.
Definitivamente, a azeitona … depende dos anos, mas lérias, aqui no Alentejo, temos sempre.
Fiquem com outra, durante a tarde a equipa de limpeza das oliveiras estava a funcionar em pleno, o Velho Marrafa e o Marrafa mais novo nas motosserras, eu no tractor a carregar e aquilo era sempre a “bombar”. Comentei que assim o trabalho rendia e Velho Marrafa respondeu “Atão nunca ouviu dizer que o melhor é muitos para trabalhar e poucos para comer”.
Bom, no fim os “muitos” que trabalharam ainda beberam umas cervejas. Já merecíamos.

OS PROFESSORES NUNCA SE REFORMAM NEM VÃO DE FÉRIAS

Entre 2012 e 2015 aposentaram-se cerca de 10 000 professores para além de 1340 rescisões. Dado que entraram 4740 regista-se um bom negócio para a política contabilística do MEC, os novos professores entram para fase inicial da carreira e ficam, portanto, bastante mais barato.
Esta situação, a aposentação, que muita gente relativiza não só às alterações salariais e económicas mas também ao clima de desânimo que se tem vindo a instalar nas escolas, fruto de políticas que têm mais de contabilísticas que de educativas, recorda-me um estudo realizado no Porto envolvendo professores que mostrou que a maioria dos inquiridos revelava uma enorme dificuldade em desligar-se dos problemas de natureza profissional mesmo quando está fora da escola, em casa, por exemplo.
Não me lembro dos contornos específicos do estudo, mas os seus resultados inscrevem-se no conhecimento já adquirido de que a profissão docente é uma das mais sujeitas a stresse como, aliás, o são todas as que envolvem interacção social agudizando-se quando o contacto envolve tensão ou sofrimento, daí o stresse em docentes e em pessoal da área da saúde.
Esta expressa dificuldade dos professores em se abstrairem dos problemas de natureza profissional, recorda-me sempre algo que ouvi já há alguns anos a um Professor velho que quando comentei que a situação de reforma lhe dava descanso, se riu e disse que “professores e pais nunca se reformam ou vão de férias”.
Embora com uma pontinha de excesso que se desculpa, a dimensão ética e afectiva das funções, para além das questões profissionais no caso dos professores, é tão significativa que dificilmente se consegue “escapar” ainda que transitoriamente, e muito menos definitivamente, à condição de pai ou de professor.
É bom de ver que este quadro está naturalmente mais presente nos bons professores, a esmagadora maioria. Os bons professores, tal como os pais, têm sempre os alunos, os filhos, “perto” de si, ou seja, não lhes é fácil libertarem-se da inquietação que sentem com o bem-estar dos miúdos e com a qualidade do trabalho.
Em situações informais em que algum ou alguns professores estejam presentes é muito frequente que a conversa, mais ou menos rapidamente, se direccione para as questões da vida dos miúdos e da escola.
Não raramente, este envolvimento de muitos professores, horas extraordinárias por assim dizer, tem implicações na sua vida pessoal e familiar que muitos entendem ser “ossos do ofício” e ajudam a explicar os resultados do estudo que referi.
O Professor velho tem mesmo razão, os professores e os pais não se reformam nem vão de férias, estão sempre a tempo inteiro.
Muita desta gente que agora está a sair da escola, muitos dos quais a contragosto, na verdade não vai mesmo reformar-se da sua condição de professores, serão sempre professores, obrigado por isso.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

DO PROGRAMA DO GOVERNO. UMA ESCOLA INCLUSIVA



Excerto do Programa do Governo na referência a “uma Escola Inclusiva”. Os programas de Governo bem como as obras divulgadas por ex-ministros são sempre uma leitura estimulante. As últimas porque os ex-ministros sabem sempre que políticas deveriam ter seguido nos sectores de que foram responsáveis. Enquanto lá estiveram não souberam ou não conseguiram levá-las a cabo.
Os Programas de Governo, sobretudo de Governos de continuidade, porque colocam quase sempre uma pequeníssima questão exemplificada neste excerto bem como em vários outros conteúdos.
Não passará pela cabeça desta gente que aquilo que agora enunciam em matéria de “escola inclusiva”, exceptuando o envolvimento de entidades privadas na prestação de apoios educativos em escolas públicas que desenvolveram e se propõem incrementar, tem pouco a ver com o que foi a sua política durante os últimos quatro anos?
Estiveram distraídos?
Trata-se de um acto de contrição? Um julgamento da política de Nuno Crato?
Acreditam mesmo no que estão a afirmar?
Mas é curioso.

O RECEIO DOS 100 EMPRESÁRIOS

100 empresários altamente representativos do tecido empresarial português, uns enormes 0,2% do universo de empresas e também uma percentagem bastante baixa do mercado de emprego, divulgaram um manifesto expressando o seu receio com a eventualidade de um Governo da esquerda.
O seu receio decorre do que risco de instabilidade que tal situação pode causar.
Compreendo perfeitamente o medo destes empresários.
Podem perder a estabilidade que as relações laborais conheceram com as políticas dos últimos anos.
Podem perder a estabilidade que as famílias conheceram  com as políticas dos últimos anos.
Podem perder a estabilidade de uma política fiscal amiga dos seus interesses.
Podem perder a estabilidade que conheceram e que as médias, pequenas e micro empresas não conheceram levando à falência de muitos milhares de pequenos e médios empresário. Esta situação ainda hoje foi referida pelo Secretário-geral da Confederação das Micro, Pequenas e Médias Empresas referia isso mesmo, percebia o receio dos grandes empresários pois foram os grandes protegidos pelas políticas dos últimos anos.
Podem perder a estabilidade favorável aos seus interesses promovida pelas políticas económicas dos últimos.
Podem perder a estabilidade que as políticas amigas dos últimos anos proporcionaram aos seus negócios em parcerias e apoios de diferente natureza que lhes foram disponibilizados.
Talvez pudessem perceber, embora não queiram ou não sejam capazes, a instabilidade criada na vida de tantos milhões de portugueses pela estabilidade que receiam perder.
É evidente que o manifesto não tem rigorosamente a ver com economia, é política, pura e dura. Não é grave, podia ser mais transparente, mas transparência é coisa que boa parte daquela gente usa com muita parcimónia.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

SÓ SE APRENDE E SE GOSTA DE LER ... LENDO

Realizou-se hoje em Lisboa mais uma iniciativa do Plano Nacional de Leitura, iniciado em 2006 com o objectivo global de promover a literacia e hábitos de leitura designadamente em população mais novas. Apesar dos progressos registados, voltou a concluir-se que muito está por fazer nesta matéria e sabendo-se que o PNL acabará no próximo ano seria desejável a importância dos objectivos fosse devidamente considerada. Algumas notas.
Diversos estudos ao longo dos últimos anos têm vindo a evidenciar hábitos insuficientes de leitura e escrita entre os alunos ao longo da escolaridade, lêem e escrevem pouco, o que acentua as dificuldades que, mesmo em processos de escolarização longos incluindo formação universitária, acabam por não ser corrigidos de forma significativa em muitas situações, tal como a permanência de baixos níveis de leitura.
De facto, independentemente de questões relacionadas com as metodologias que foram sendo utilizadas pelos professores, das suas opções e competências na didáctica da Língua portuguesa, certamente passíveis de melhorar através de formação consistente, a grande questão e que parece simples de enunciar será, os alunos, de uma forma geral, lêem e escrevem pouco.
Podemos aduzir uma série de razões para que isto aconteça, questões que decorrem da concorrência da actividade de leitura e escrita com outras actividades ou meios percebidas aos olhos dos alunos como mais apelativas, poucos hábitos de leitura no ambiente familiar, alguns equívocos nas concepções sobre práticas pedagógicas que levaram a que durante algum tempo, sobretudo nos primeiros anos de escolaridade, se descurasse, mesmo quando tal era possível, a actividade de leitura individual e à escrita na sala de aula por parecer “conservador” ou “pouco activo”, etc.
Por outro lado, actualmente, estamos num tempo em que desde o 1º ciclo, a pressão sobre a escola, a natureza e extensão dos conteúdos curriculares e a visão que os informa, o estabelecimento de metas curriculares de forma excessiva e burocratizada, além de outra variáveis como o tempo passado na escola, criam algumas dificuldades a professores e alunos no sentido de se estruturarem espaços e tempo de leitura e escrita que não sejam no cumprimento estrito das metas e dos manuais ou, naturalmente, fora das actividades lectivas.
Com o pouco tempo disponível e com a concorrência fortíssima de outras actividades a tarefa não é fácil.
Muitos professores, designadamente no 1º ciclo e os de Português nos anos seguintes, referem justamente que seria desejável que os alunos tivessem mais tempo para ler e escrever em contextos e actividades "livres" dos manuais ou das obras prescritas pelo programa. Os mais novos, e não só, lêem e escrevem pouco e esses hábitos são persistentes. Apesar de alguns ganhos observados no âmbito do Plano Nacional de Leitura.
Mas mais do que as razões, e todas contribuirão para a situação que temos, é importante, diria imprescindível, que nos convencêssemos todos, professores, pais e outros actores, que só se aprende a ler, lendo, só se aprende a escrever, escrevendo, só se aprende a andar, andando, só se aprende a falar, falando, etc., etc.

A COMUNICAR É QUE A GENTE SE ENTENDE


“Todo o mundo é composto de mudanças, tomando sempre novas qualidades”, escreveu Camões.
É verdade quem nem sempre muda no sentido que desejamos, veja-se a tragédia dos refugiados apenas como exemplo, e nem sempre tão depressa quanto gostaríamos.
Em todo o caso, uma mudança no caminho certo é sempre de saudar.
Possibilitar que a comunidade surda que recorre à língua gestual possa encontrar interlocutores sem a dependência habitual de um intérprete é uma ferramenta fundamental para a promoção de equidade e inclusão. 
Recordo ainda que em Portugal, desde 1997, a Língua Gestual Portuguesa tem consagração na Constituição, Artº 74º, h).
É verdade que existe um longo e difícil caminho a percorrer mas, como sempre, onde alguns verão um “quase nada”, outros poderão ver um “quase tudo”.
Também como sempre, o caminho faz-se caminhando, para finalizar com outro poeta, António Machado.

LEGALIDADE E MUDANÇA

Quase metade dos desempregados sem subsídio nem rendimento social de inserção

É uma situação legal que levanta apenas uma ligeira dúvida, a gente (sobre)vive de quê?

90 000 euros mensais de pensão é uma situação legal que me recorda um outro dado. Em 2013, 78.6% dos pensionistas por velhice ou invalidez tinha um rendimento inferior ao salário mínimo, situação que não se alterou, antes pelo contrário e é, evidentemente, outra situação perfeitamente legal.
Confesso a minha dificuldade em entender, primeiro, a necessidade de mudar, segundo, o medo da mudança.


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

M'ESPANTO ÀS VEZES, OUTRAS M'AVERGONHO

Antigo líder do Banco Espírito Santo vai passar a receber uma pensão mensal de 90 mil euros, o triplo do que recebe hoje. Mais dez antigos gestores do grupo falido vão também ser beneficiados pela mesma medida
Por decisão de Vítor Bento durante a sua breve passagem pelo Novo Banco foi estabelecido um tecto de pensões que fixou a pensão de Ricardo Salgado nuns miseráveis 29 000€ mensais, ainda assim acima dos 10 000€ que tanto assustam Cavaco Silva.
No entanto, o Instituto de Seguros de Portugal, a entidade reguladora(?!) dos fundos de pensões veio agora decidir que não existe fundamento legal para tal prejuízo ao Dr. Ricardo Salgado e a outros administradores e aumentou para o triplo a pensão com efeitos retroactivos. A pensão do Sr. Dr. passa, assim, para os 90 000€ mês o que, digamos, já permite umas florzinhas sem exageros
Fez-se justiça a pelo menos um dos lesados do BES, não era justo que se mexesse em pensões tão baixas de quem tanto lutou para as conseguir.
Já basta o Governo a mexer cortar nas pensões.
Assim se fez justiça.
É claro que isto é, por assim dizer, um tudo nada imoral, obsceno, eticamente delinquente inaceitável face à situação em que vive a esmagadora maioria dos pensionistas portugueses mas não se pode perder tempo com minudências.
Ao regulador o que é do regulador, a Ricardo Salgado o que é de Ricardo Salgado.
Como diria Sá de Miranda, "...M'espanto às vezes, outras m'avergonho ".