quinta-feira, 11 de novembro de 2021

UM DIA PERFEITO

 Estranhamente, porque não era hábito, levantou-se com a melhor das disposições para enfrentar mais um dia.

A mulher, já a pé a despachar os filhos para a escola, sorriu para ele. Estranhou, não era hábito. A torrada não queimou, como era hábito, e saiu de casa estranhamente bem-disposto, mas com a vaga sensação de que se tinha esquecido de algo.

O Luís, o do café, para sua surpresa, não gozou com o seu Benfica enquanto tomava a bica, como era hábito. Mantinha a sensação de que se tinha esquecido de alguma coisa.

A manhã de trabalho no banco foi perfeita, só clientes simpáticos e com problemas simples. Estranhou, não era hábito, a si sempre lhe tocavam os chatos que só percebem o que se lhes explica à décima vez. Continuou com a sensação de que se tinha esquecido de algo.

O almoço foi excelente no sítio do costume. Até, contra o que era hábito, o seu prato preferido ainda não tinha esgotado. Ainda deu para dar uma volta no centro comercial e cruzar-se com duas mulheres, lindíssimas, que lhe retribuíram o sorriso. Mas a sensação de que se tinha esquecido de algo continuava.

O resto do dia de trabalho correu lindamente. O Chefe, o Dr. Lopes, em vez de o chatear ao fim do dia com algum processo para despachar com urgência, como era hábito, teve quase uma hora de conversa sobre banalidades e namoradas.

Quando voltou para casa, sempre com a sensação de que se tinha esquecido de alguma coisa, os miúdos estavam entretidos a brincar, quietinhos, sem a algazarra do costume e sem o obrigarem a deitar-se no chão para os levar às cavalitas, como era hábito. A mulher, que o recebeu com um beijo daqueles de que já não se lembrava, tinha preparado um petisco de se lhe tirar o chapéu, não era hábito. A sensação de que se tinha esquecido de algo continuava.

Já tarde, contra o que era hábito, recordou com a mulher as primeiras noites de paixão. Quando, depois do dia perfeito e longo, se preparava para dormir, lembrou-se, finalmente, do que se tinha esquecido logo de manhã.

Tinha-se esquecido de acordar. Não era hábito.

PS - Estava a precisar de um dia perfeito, nem que fosse emprestado e sonhado.

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