sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

O INSUCESSO NÃO É UMA FATALIDADE


Segundo dados divulgados através do portal InfoEscolas produzidos pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, apesar de algum progresso, continua preocupante o nível ainda elevado de alunos do 1º ciclo que não o terminam em quatro anos, passando, pelo menos, por uma retenção.
Faro e Beja apresentam os indicadores mais elevados, 22%, o Braga o distrito com melhor resultado ainda apresenta 11% de alunos que não cumpre o 1º ciclo sem retenção. Por curiosidade, Lisboa tem uma taxa de 13%.
Os números ilustram uma situação que, lamentavelmente, não tem nada de novo. Algumas notas.
Já sabemos que continua a verificar-se um nível importante de insucesso escolar no 1º ciclo desde logo no 2º ano, o primeiro em que a retenção, o chumbo, é possível.
Também sabemos que muitas escolas são espaços de sucesso e que o insucesso é mais elevado em escolas de periferia que servem territórios mais vulneráveis em termos sociais e económicos e em escolas de concelhos do interior mais desertificado, embora, sublinhe-se, mesmo nesses contextos existem escolas que conseguem fazer a diferença.
Também sabemos no âmbito do insucesso identifica-se como questão crítica a aprendizagem da leitura, da escrita e da matemática num quadro curricular que carece de ajustamento para além da “mágica” flexibilidade.
Sabemos a atribuição de causalidade face ao insucesso privilegia o “contexto familiar” e o meio socioeconómico desfavorecido mais do que questões de natureza curricular ou de recursos físicos, humanos ou espaços.
Sabemos e não é de agora que o chumbo, a retenção, não transforma o insucesso em sucesso, repetir só por repetir não produz sucesso, aliás gera mais insucesso conforme os estudos mostram quer se queira, quer não. Aquilo a que alguns chamam de “cultura de retenção” existe e marca de forma importante alguns dos dados divulgados. Recordo que já no relatório relativo ao PISA de 2012 a OCDE afirmava que a retenção, é para os alunos portugueses o principal factor de risco para os resultados na avaliação posterior, dito de outra maneira, os alunos chumbam … mas não melhoram.
Também sabemos que para promover mais sucesso e não empurrar os alunos para os anos seguintes sem nenhuma melhoria nas suas competências ou saberes é essencial promover e tornar acessíveis a alunos, professores e famílias apoios e recursos adequados e competentes de forma a evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo.
Sabemos também que a escola pode e deve fazer a diferença, em muitas escolas isso acontece. Mas para que isto seja consistente e não localizado também sabemos que o sucesso se constrói identificando e prevenindo dificuldades de forma precoce, com a definição de currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio eficazes, competentes e suficientes a alunos e professores, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados e reais de autonomia, organização e funcionamento das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, com a valorização do trabalho dos professores, com práticas de diferenciação e expectativas positivas face ao trabalho e face aos alunos, com melhores níveis de trabalho cooperativo e tutorial, quer para professores quer para alunos, etc.
Sabemos tudo isto. Nada é novo.
Só falta um pequeno passo.
Construir para todos os miúdos trajectórias de sucesso. Não, não é uma utopia. Tal como o insucesso não é uma fatalidade do destino.

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