segunda-feira, 26 de agosto de 2013

OS FOGOS COMBATEM-SE NO INVERNO, NÃO NO INFERNO

Com mais uma morte, a quinta nesta época de incêndios, o número elevado de feridos e com a devastação decorrente é impossível olhar para esta situação sem um sobressalto de indignação e preocupação, um cenário que se repete anualmente e, por isso mesmo, mais difícil de entender apesar da imprevisibilidade de algumas situações.
Este ano, um Inverno que se prolongou e foi chuvoso deixou as zonas não habitadas com uma enorme cobertura vegetal que se constitui como uma enorme quantidade de combustível a que só falta um gesto criminoso, um comportamento negligente ou um qualquer incidente para se transformar em potenciais tragédias.
Todos os anos, como sempre de resto, se anunciam novas estruturas de resposta rápida e meios de combate, designadamente meios aéreos mais sofisticados e somos informados de melhorias nos dispositivos de prevenção e combate, no aumento de meios à disposição, na racionalização da gestão dos recursos, etc. etc.
Entretanto, quando se começa a verificar a ocorrência mais frequente de fogos surge o costume, a comunicação social, sobretudo a televisiva, de forma frequentemente desajeitada, a mostrar o "terreno", o "cenário dantesco", a ouvir "moradores que passaram uma noite em branco", a ouvir o "senhor comandante dos bombeiros", a referir os "meios aéreos, dois Canadairs e um Kamov", a ouvir os "responsáveis locais ou regionais da protecção civil", a gravar despudoradamente imagens de dor, sofrimento e perda de gente anónima que tendo quase nada, vê arder o quase tudo. Um filme sempre visto e sem surpresas.
Este ano acresce a tragédia da morte dos bombeiros com as tão intermináveis quanto inconsequentes análises e lamentações.
É evidente que temperaturas muito altas e vento que nos caracterizam durante os meses de Verão são condições desfavoráveis, mas a falta de prevenção, a negligência e delinquência dão um contributo fortíssimo ao inferno que sobressalta cada Verão.
Sem nenhuma espécie de conhecimento destas matérias, para além do interesse e preocupação de um cidadão minimamente atento e preocupado com os custos enormes destes cenários de destruição, tenho alguma dificuldade, considerando a dimensão do nosso país, em compreender a inevitabilidade destes cenários. É recorrente a referência à falta de limpeza dos terrenos. Os espanhóis têm por uso afirmar que os incêndios se combatem no inverno, nós combatemo-los no inferno, opção obviamente mais cara, cerca de quatro vezes mais cara segundo trabalho no Público.
Trata-se de um destino que não pode ser evitado? Trata-se de uma área de negócios, a fileira do fogo, que, pelos muitos milhões que envolve, importa manter e fazer funcionar sazonalmente? Trata-se "só" de incompetência na decisão política e técnica em termos de resposta e prevenção? Trata-se da falência de modelos de desenvolvimento facilitadores de desertificação e abandono, designadamente das áreas rurais?
O poeta falava de um fogo que arde sem se ver, é bonita a imagem. Mas quando um fogo arde e se vêem os seus efeitos devastadores e dramáticos, quando rouba a vida a pessoas, dói mais e não se perdoa.
Acresce que em Portugal passamos o ano todo a apagar fogos de diferentes naturezas e implicações.

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