segunda-feira, 12 de junho de 2017

DA CONDIÇÃO DOCENTE

Por alguma razão que me escapa um trabalho publicado em 9 de Junho de 2016 sobre a Recomendação aprovada nesse dia pelo Conselho Nacional de Educação, “A condição docente e as políticas educativas”, encontra-se actualmente entre as peças mais lidas na página online do Público. Sinto curiosidade sobre a razão desta reactualização.
De qualquer forma ainda bem que se assim é pois alguns dos problemas respeitantes às condições de exercício da função docente são também problemas nossos pois têm um impacto significativo na qualidade do trabalho de alunos e professores. Burocracia excessiva, número de alunos por turma, efeitos dos mega-agrupamentos  e dispersão por demasiadas turmas e espaços, etc. são alguns dos exemplos.
Será útil a leitura da recomendação e deixo umas notas dessa altura. Também me parecem ainda actuais.
Sem novidade, tenho para mim que miúdos e professores são os dois grupos em que assenta qualquer comunidade nas sociedades contemporâneas. Os miúdos porque são o futuro e os professores porque, naturalmente, o preparam, tudo passa pela escola e pela educação.
Raramente a profissão professor tem estado tanto em foco como nos últimos anos bem como a necessidade de defender a qualidade da escola pública sob ameaça significativa. Desencadearam-se múltiplas acções políticas que contribuíram para degradar a sua função, a sua imagem social e o clima e a qualidade do trabalho desenvolvido nas escolas.
Opções políticas assumidas e em curso têm contribuído para uma atenção continuadamente dirigida para a educação e para os professores. Essa atenção advém de boas e más razões. Não cabe aqui um balanço alargado o, e entendo que, tal como os miúdos, os professores não têm sempre razão, ninguém tem. No entanto, gostava de deixar algumas notas.
Em primeiro lugar importa desde logo sublinhar que ser professor no ensino básico e secundário por razões conhecidas e por vezes esquecidas, é hoje uma tarefa de extrema dificuldade e exigência que social e politicamente justifica o maior reconhecimento que nem sempre é evidente. Vejamos.
Pensemos no que é ser professor em algumas escolas que décadas de incompetência na gestão urbanística e consequente guetização social produziram.
Pensemos ainda na forma como milhares de professores cumprem a sua carreira, muitos deles sem a possibilidade de desenharem projectos de vida para si quando são os principais responsáveis por lançar projectos de vida para os miúdos com quem trabalham. Nos últimos anos milhares de professores, de bons professores e professores necessários, foram constrangidos à reforma e muitos ao desemprego por uma política de contabilidade inimiga da educação pública e da qualidade. Veja-se os sucessivos processos de colocação de professores e as situações dramáticas que a incompetência e a arrogância de diferentes equipas na 5 de Outubro produziram.
Pensemos em como os professores são injustiçados na apreciações de muita gente que no minuto a seguir a dizer uma ignorante barbaridade qualquer, vai numa espécie de exercício sadomasoquista entregar os filhos nas mãos daqueles que destrata, depreendendo-se assim que, ou quer mal aos filhos ou desconhece os professores e os seus problemas.
Pensemos como é imprescindível que a educação e os problemas dos professores não sejam objecto de luta política baixa e desrespeitadora dos interesses dos miúdos, mesmo por parte dos que se assumem como seus representantes.
Pensemos em como a forma como os miúdos, pequenos e maiores, vêem e se relacionam com os professores está directamente ligada à forma como os adultos os vêem e os discursos que fazem.
Pensemos finalmente nos professores que nos ajudaram a chegar ao que hoje cada um de nós é, aqueles que carregamos bem guardadinhos na memória, pelas coisas boas, mas também pelas más, tudo contribuiu para sermos o que somos.
A valorização social e profissional dos professores, em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade. Aliás, uma das características dos sistemas educativos melhor considerados é, justamente, a valorização dos professores.
Gostava ainda de deixar uma ideia do enorme João dos Santos, “O Professor João, foi meu professor porque foi meu amigo” e uma convicção pessoal que a idade cada vez mais cimenta, qualquer professor ou educador, tanto ou mais do que aquilo que sabe, ensina aquilo que é.
A prova é que de todos os professores que connosco se cruzaram os que mais nos marcaram positivamente foi sobretudo pelo que eram e menos pelo que nos ensinaram.

NEM AS MOSCAS VARIAM

Duas notícias estimulantes.
A primeira referente às nomeações para a administração da TAP envolvendo o pessoal do costume na dança das cadeiras e sempre por critérios que decorrem da mais alta competência, foram nomeados três autênticos “aviadores” com larguíssima experiência no universo simples do transporte aéreo.
A segunda referência, divulgada no Sol sobre a alegada alteração por parte do ME dos mapas geográficos que sustentam o estabelecimento dos contratos de associação. Esta alteração, realizada depois do concurso em desenvolvimento terá permitido que um colégio com as ligações certas, agora ao PS, aceda a financiamento até 2020. Que eu saiba a notícia não foi desmentida, dou-a como confirmada. 
Como diz o povo “os amigos são para as ocasiões” e este pessoal que vai passando pelo poder político é amigo do seu amigo e favores com favores se pagam.
Ele há coisas que são estrutura, não são conjuntura, nem as moscas, às vezes, variam.
São assim as contas da partidocracia. Em alternância pois claro. Aliás, é absolutamente espantoso e um insulto à inteligência e memória ouvir as reacções de Passos Coelho e Assunção Cristas a estas duas notícias
Sim, eu sei que este enunciado tem uma ponta de demagogia mas não me parece ilegítima.

domingo, 11 de junho de 2017

ESTAS CRIANÇAS NÃO PÁRAM! ERRADO, ESTAS CRIANÇAS NÃO SE MEXEM

No Público surge uma referência a um estudo desenvolvido no âmbito de um projecto internacional, A Aliança “Active Healthy Kids”, que analisa o nível de desenvolvimento em matéria de estilos de vida saudáveis, designadamente no que respeita à actividade física de crianças e adolescentes.
O projecto decorre dos níveis de sedentarismo e obesidade preocupantes revelados por crianças e jovens e pretende estimular a definição nos diferentes países de políticas públicas mais favoráveis.
Sem estranheza face aos dados conhecidos de outros estudos, as crianças e jovens portugueses em nenhum dos nove domínios considerados atingem os indicadores mais positivos.
Apesar disto é curioso que uma das mais frequentes afirmações dirigidas ao comportamento das crianças e adolescentes é “Estas crianças não param”, ou algo no mesmo sentido. Na verdade, apesar da frequência da sua utilização, parece-me desajustada pois, de facto, as crianças não se mexem e, também por isso provavelmente ... "não páram". Este estudo vem mais uma vez comprovar isso mesmo. Mais alguma informação.
Segundo o Relatório “Health at a Glance: Europe 2016” em Portugal mais de uma em cada quatro crianças tem excesso de peso. Nas raparigas ultrapassa os 30% e nos rapazes temos 25%.
Acresce que no que respeita à actividade física e considerando a recomendação da OMS de uma hora diária de actividade física aos 11 anos só 16% das raparigas e 26% dos rapazes cumprem e aos 15 anos temos 5% das raparigas e 18% dos rapazes.
Creio ainda de sublinhar que estudos realizados em Portugal mostram que a obesidade infantil é já um problema de saúde pública, implicando por exemplo o disparar de casos de diabete tipo II em crianças.
Apesar de parecer uma birra ou teimosia acho sempre importante sublinhar a importância que deve merecer a questão dos hábitos alimentares e o combate ao sedentarismo, sobretudo nos mais novos.
Ainda no que respeita à actividade física, um trabalho da Universidade de Coimbra divulgado em 2013 sublinhava, mais uma vez, o impacto que o sedentarismo tem na saúde das crianças. Este estudo envolveu 17424 crianças entre os 3 e os 11 anos e mostrou a forte relação entre hábitos fortemente sedentários, ver televisão por exemplo, e obesidade infantil e óbvias consequências na saúde e bem-estar dos miúdos.
Um outro trabalho de 2012 da Faculdade de Motricidade Humana envolvendo cerca de 3000 alunos que evidenciava o efeito positivo da actividade física no rendimento escolar para além dos benefícios óbvios na saúde.
De registar ainda que apesar da simpatia do clima somos um dos países com menor prática de actividades de ar livre.
De facto, o quotidiano de crianças e adolescentes está excessivamente preenchido com actividades que solicitam pouca actividade física, numa escola a tempo inteiro em que, apesar de boas práticas que existem, passam horas sem fim em salas com actividades “fantásticas” sempre sentados ou, quase, parados.
Em casa, o cenário é do mesmo tipo só que em frente de um ecrã. Os estudos comprovam que o nível de actividade física de crianças e adolescentes está francamente abaixo do desejável para a sua faixa etária sendo, aliás, mais satisfatório em adultos e também baixo para os idosos. Por outro lado, este é o equívoco a que me referia, instalou-se a “ideia” de que as crianças e adolescentes não param, são muito activas, até mesmo hiperactivas” pelo que os desejos de muitos pais e professores é que estejam mais “calmas”, mais “sossegadas” e não tão “activas”, às vezes até se medicam para que se aquietem.
Por isso e de uma vez por todas, que crianças e adolescentes não parem, que as não envolvam e incentivem a actividade sedentária tantas horas por dia e que ajudemos todos pais e comunidades a construir alternativas que sejam atractivas para os tempos dos mais novos.
É uma questão de saúde, física e mental, para crianças e adolescentes e, também, para os adultos que lidam com eles.

MEDITAR NA ESCOLA

Por aqui no Alentejo assisto a uma peça na RTP sobre um projecto europeu que estuda o impacto do recurso à meditação nas salas de aula. Este projecto também envolve escolas e investigadores portugueses.
Ao que fomos ouvindo a investigação, sustentada nos fundamentos da psicologia positiva, parece repercutir-se no rendimento escolar, nos comportamentos, na saúde mental e, globalmente, no desempenho de alunos e professores.
Aguardo os resultados com expectativa também ela positiva pois creio que estamos no bom caminho.
Desde há muito que entendo que é fundamental meditar na escola.

sábado, 10 de junho de 2017

DAS VIDAS JOVENS SEM PROJECTO, SEM FUTURO

O Relatório da Comissão de Acompanhamento e Fiscalização dos Centros Educativos volta a sublinhar os problemas sérios destas instituições que recebem jovens com penas de internamento por comportamentos de delinquência cometidos antes dos 16 anos.
Um dos dados mais preocupantes é o agravamento significativo do número de jovens com problemas de saúde mental sem o diagnóstico e acompanhamento adequados.
Segundo o Relatório, 73,5% do total de rapazes e raparigas entre os 12 e os 16 anos que estão nos Centros Educativos apresentam estas problemáticas. Considerando os números temos 100 entre os 136 enquanto no ano de 2015 se contavam 82 em 186 jovens internados, 44%.
Algumas notas.
Parece importante considerar que conforme dados da Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais diminuiu em 8.6% o número de jovens internados em centros educativos em Dezembro de 2016 face ao número de Dezembro de 2015, 186 para 136.
Este abaixamento, pode dever-se a uma alteração na administração da medida de internamento pois no mesmo período foram registados 1920 pedidos de apoio a medidas tutelares educativas na comunidade, representando um crescimento de 40,14% face a 2015. Assim, o abaixamento do número de internamentos não será explicado apenas pela diminuição dos comportamentos de delinquência entre jovens.
Na verdade, a experiência e os estudos relativos à reincidência mostram que apenas prender, ou internar no caso dos jovens, é muitas vezes insuficiente para alterar trajectos de delinquência o que o Relatório deste ano volta a sublinhar.
Considerando os 186 jovens que em Fevereiro de 2015 cumpriam medidas tutelares nos Centros Educativos, 144 estavam já sinalizados, referenciados, por processos de promoção e protecção. Dito de outra maneira, trata-se de jovens com um processo longo e conhecido de problemas e circunstâncias de vida bem adversas.
Recordo também que resultados do Projecto Reincidências – Avaliação da Reincidência dos Jovens Ofensores e Prevenção da Delinquência, da responsabilidade da Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, e realizado entre Janeiro de 2013 e Janeiro de 2015 mostram que 33.2% dos jovens inquiridos e que já passaram por uma medida tutelar educativa que pode incluir internamento em Centro Educativo reincidem na prática de delitos.
Acresce que os Centros Educativos sentem ainda forte constrangimento em matéria de recursos humanos pelo que mais dificilmente cumprem o seu papel fundamental de reabilitação através da construção de programas de educação e formação profissional.
Ainda de acordo com um estudo divulgado há algum tempo realizado no âmbito do Programa de Avaliação e Intervenção Psicoterapêutica no Âmbito da Justiça Juvenil, promovido pela Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais e co-financiado pela Comissão Europeia, a população que está nos Centros Educativos acumula, em geral, mais de três anos de chumbos na escola e em 80% dos casos é oriunda de famílias de baixo estatuto socioeconómico.
Sempre que estas matérias são discutidas, os especialistas acentuam a importância da prevenção e da integração comunitária como eixos centrais na resposta a este problema sério das sociedades actuais pelo que a resposta recentemente criada, (mas creio que ainda só no papel) “casas de autonomização” pode constituir-se como um contributo se dotada de recursos adequados.
As Comissões de Protecção de Crianças e Jovens sentem-se incapazes de acompanhar o volume de casos das respectivas comunidades, gerando situações, muitas conhecidas, com fim grave de crianças que depois ficamos a saber, os dados de hoje confirmam-no, que estavam “sinalizadas” ou “referenciadas”, mas sem resposta.
Sabemos que educação, prevenção e programas comunitários e de integração têm custos, no entanto, importa ponderar entre o que custa prevenir e cuidar e os custos posteriores do mal-estar e da pré-delinquência ou da delinquência continuada e da insegurança.
Parece ser cada vez mais consensual que mobilizar quase que exclusivamente dispositivos de punição, designadamente a prisão, parece insuficiente para travar este problema e, sobretudo, inflectir as trajectórias de marginalização de muitos dos envolvidos mais novos em episódios de delinquência.
No entanto a discussão sobre estas matérias é inquinada por discursos e posições frequentemente de natureza demagógica e populista alimentados por narrativas sobre a insegurança e delinquência percebida, alimentadora de teses securitárias.
Apesar de, repito, a punição e a detenção constituírem um importante sinal de combate à sensação de impunidade instalada, é minha forte convicção de que só punir e prender não basta.
É em todo este caldo de cultura que nascem e se desenvolvem as sementes de mal-estar que geram os os episódios que regularmente nos assustam e inquietam e com consequências sérias.
É urgente que nos questionemos e questionemos as instituições, em nome dos nossos filhos e dos filhos dos nossos filhos.
Recordo Brecht, "Do rio que tudo arrasta diz-se que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem".

MEU CARO PORTUGAL

Meu caro Portugal,

Neste 10 de Junho, dia em que te comemoras, aqui estou a escrever-te, de novo. Ainda sou do tempo em que se escreviam cartas aos amigos.
Se bem te recordas, a carta que te enviei o ano passado não era particularmente optimista. Apesar de algumas mudanças para melhor o ano foi complicado para muita gente. Tem vindo a registar-se alguma melhoria, muitos de nós temos mais confiança mas o mundo lá por fora também não está de forma a descansarmos, antes pelo contrário.
Como sabes, conhecemo-nos há umas décadas. Quando te conheci eras um tipo tristonho, cinzento, com a gente calada e com medo de quem em ti mandava. A partir de certa altura, entraste em guerra e a nossa relação complicou-se, assim como a situação de toda a gente. Nesses tempos, o resto do mundo vivia longe e todos nós, que te habitávamos, nos sentíamos distantes de tudo e tudo era difícil de conseguir.
Um dia, tu mudaste. De repente, ficaste a cores, o longe ficou perto, a tristeza ficou alegre, o impossível parecia possível. Foram os tempos da brasa, dizíamos. Tudo era depressa, tudo era ontem, até a guerra. Foi um tempo para descobrir, transgredir, aprender e progredir. Para a democracia, finalmente. Lembras-te? Fizemos as pazes.
Meu caro Portugal, a poeira entretanto começou a assentar e entrámos na chamada normalidade democrática, campanhas, eleições, mudanças de governo, desenvolvimento, etc. Apesar de alguns solavancos fomos mantendo uma relação tranquila. Então, juntaste-te a outros mais desenvolvidos, a União Europeia, e perdeste um bocado a voz que gostávamos de ouvir, por nós. Para um tipo pequeno como tu, pode ter sido boa ideia, embora, é preciso dizê-lo, a entrada na "CEE" também tenha estado associada a uma devastadora e irresponsável destruição nas áreas das pescas, agricultura e indústria de que ninguém assume a responsabilidade.
E aqui estamos meu caro, mais velhos, sabes que entretanto passei à condição mágica de avô, e vamos mantendo uma relação como a que os velhos amigos têm. Zangamo-nos, fazemos as pazes, zangamo-nos de novo e, de novo nos entendemos. Quando me afasto de ti sinto saudades, quando estou contigo aborreces-me e vamos andando nisto.
Nos últimos anos tenho-te sentido diferente. Tornaste-te mais desalentado, triste e com muita desesperança nos rostos. É certo que a situação à tua volta também não ajudava e não ajuda e contigo as coisas não vão bem, mas é importante que te sintas com futuro. Isso para nós é fundamental, para nos sentirmos bem contigo. Embora nos tenham dito para partir, é contigo que gostamos de estar. Por ti, pelos nossos filhos e pelos filhos dos nossos filhos. Felizmente agora pareces um pouco melhor, mais animado e mais confiante, esperemos que te mantenhas assim.
Se bem te lembras na carta que te enviei o ano passado já te dizia que não te sentia bem, achava-te em baixo, como diz o teu povo.
Nestes últimos anos continuou instalada por todo o mundo uma complicada situação a que tu também não tens conseguido fugir e que piorou. Muita gente sem trabalho, vamos envelhecendo sem esperança em dias melhores. Os tempos vão crispados, feios, marcados pela indignidade da pobreza. É verdade que mais recentemente se notam sinais positivos mas as pessoas ainda não sentem.
Com a mudança de cenário político em 2015 alguns, é o meu caso, criaram alguma em mudanças que em alguns aspectos já se verificam e noutros tardam. Para outra gente este novo cenário político não agrada e anunciam permanentemente a desgraça. Oxalá se enganem.
O problema, meu caro Portugal, é que boa parte das lideranças que acolhes, em diferentes áreas também não têm sido capazes de promover a esperança, parecem mais parte do problema que parte da solução. Aliás, poder-se-á dizer que muita desta gente que nos tem governado não tem currículo, tem cadastro.
Entretêm-se nos jogos da política pequenina, provavelmente por falta de competência para a política grande.
Como se não bastasse a crise instalada ainda foi aparecendo uma rapaziada, todos bons amigos, a gerir estruturas e empresas públicas que acumulam tantos prejuízos como essa rapaziada acumula prémios que, em decisões difíceis de entender, terão de ser pagos com o dinheiro e sacrifícios do cidadão, prejuízos e prémios. Na banca, como sabes, continuaram a acumular-se situações de delinquência e incompetência dos que a administram com as consequências habituais, pagamos nós.
Os casos de corrupção e manhosices dos pequenos e grandes poderes não têm fim e ninguém parece seriamente empenhado em contribuir para que terminem. Cada ano traz um caso novo, agora é a EDP.
Ao que nos foram vendendo, para colocarem as tuas contas em ordem, colocaram a nossa vida em desordem, chamaram-lhe austeridade e tinha que ser assim, custe o que custar, dizem. Disseram e insistiram que vivíamos acima das nossas possibilidades mas de há algum tempo para cá muitos portugueses vivem abaixo das suas necessidades.
A gente que agora chegou ao poder está a tentar fazer diferente, esperemos que consigam, por nós e por ti.
Como sabes, falámos disso na carta do ano passado, temos um Presidente da República novo, o conhecido Professor Marcelo. O homem não pára e não se cala. A coisa parece correr bem e eu até nem tinha grande expectativa. A verdade é que Cavaco Silva não me deixou saudades.
Pois é meu caro e velho Portugal, alguns com responsabilidade mas sem visão foram sugerindo que talvez fosse melhor ir embora de ti. Na verdade, é o que aconteceu a muita gente nova, procurar a sorte noutras paragens, noutras aragens, como cantava o Manuel Freire. O futuro aqui parece inacessível mas, como já te disse, é aqui que gostamos de ser gente.
Que está a acontecer meu velho? Podemos ter esperança? Com a tua história temos que ter confiança embora também não dependa só de nós.
Temos que dar a volta a isto. Apesar de pequeno tens que protestar, não podemos ser apenas uma feitoria de quem não considera as pessoas mas os mercados. Não podemos aceitar não ter futuro meu caro, temos que nos organizar para um projecto de futuro, temos que ser soberanos no nosso destino ainda que solidários com a outra gente. Para que te cumpras meu caro Portugal.
Espero que para o próximo ano te possa encontrar em melhor estado. Até lá recebe um abraço de confiança.

10 de Junho de 2017

sexta-feira, 9 de junho de 2017

AS NOVAS QUALIDADES DAS FAMÍLIAS

O Expresso de ontem apresentava uma interessante peça em vídeo que de forma muito simples evidenciava as mudanças muito significativas que a configuração das famílias tem vindo a acomodar.
São, aliás, frequentes as referências na imprensa às emergentes e diferentes dinâmicas de constituição, organização e funcionamento dos “novos” agregados familiares acentuando as alterações observadas, algumas das quais desencadeando enorme discussão, como é o exemplo da co-adopção por casais homossexuais em que se misturam valores e ciência para sustentar diferentes entendimentos.
No entanto, do meu ponto de vista, quase sempre me parece que as diferentes abordagens não valorizam, por vezes nem referem, um aspecto que entendo relevante e que considero dos mais complexos desafios sociais que actualmente enfrentamos, a educação familiar, ou seja, o que é, o que deve ser, como deve ser a educação familiar em contextos altamente diferenciados e em mudanças permanentes.
Esta minha questão releva do entendimento de que independentemente da configuração a família, a educação familiar, é um bem de primeira necessidade para todas as crianças.
A verdade é que as enormes alterações que temos vindo a constatar no universo das famílias implicam uma séria reflexão sobre as suas implicações e impacto na educação familiar. O paradigma clássico, a família educativa e a escola instrutiva, mudou substantivamente o que não significa, obviamente, a alienação do papel educativo da família, mas sim atentar nas novas qualidades que esse papel vai assumindo, parafraseando Camões.
Desde logo porque, por questões de logística e funcionalidade, o tempo familiar para as crianças encolheu de forma dramática, os miúdos passam tempos infindos na escola sob um princípio a que até o MEC se lembrou de chamar de forma infeliz “Escola a tempo inteiro”. As famílias expressam uma enorme dificuldade em compatibilizar o que ainda entendem ser o seu papel educativo com a pressa e o pouco tempo que assumem ter para o realizar. Tenho conhecido dezenas de pais que se sentem culpados e fragilizados por entenderem que não têm a disponibilidade de tempo e atitude que julgam necessária para os filhos. Esta culpa e fragilidade é, com frequência, a base inconsciente que impede alguns pais de serem consistentes e firmes na definição de regras e limites imprescindíveis às crianças, pois “temem estragar” o pouco tempo que têm com elas devido a um eventual conflito.
Uma outra questão prende-se com o modo e a dificuldade que muitos pais me referem sentir quando lidam com as crianças em situação de “duas famílias” mesmo em separações não litigiosas e com níveis de agressividade por vezes inquietantes. Mais uma vez, as inseguranças e algum sentimento de culpa estão presentes e contribuem para embaraços que levam os pais a pedir alguma ajuda. Como sempre digo, é preferível uma boa separação a uma má família, mas alguns pais sentem-se inseguros para construir cenários de educação familiar com qualidade quando têm a guarda das crianças repartida.
Tem vindo a crescer o número de situações de casais que apesar de separados continuam a coabitar o mesmo espaço ou que nem sequer assumem a separação, criando uma situação de "casados por fora" e "descasados por dentro", poderá implicar, quando existem filhos, algumas ansiedades e inquietações nos pais sobre a forma de lidar com um contexto em que aparentemente existe uma família, quando na verdade já são duas com uma ou mais crianças entre elas.
As crianças são resilientes e acomodam melhor eventuais dificuldades quando estão com adultos que delas cuidam e lhes dedicam afecto
A experiência mostra, como referi acima, que a educação familiar se constitui como uma área extremamente complexa, não existem dois contextos familiares iguais sendo que, para além de tudo, se trata de um universo extremamente sensível a valores e convicções.
Assim sendo, importa estarmos atentos e procurar disponibilizar apoios e orientações nas situações em que os pais revelam e exprimem mais insegurança e dificuldades e que muitas vezes são fonte de grande sofrimento para todos os envolvidos. Estas situações são bem mais frequentes e graves do que julgamos.
E envolvem famílias de diferentes configurações.

DEFINITIVAMENTE, NÃO SOMOS UM PAÍS DE DOUTORES

A imprensa divulga algo que julgo constituir uma boa notícia no universo da educação. Existem mais alunos inscritos na próxima época de exames nacionais do secundário e também aumenta, ainda que ligeiramente, a percentagem de alunos que na altura da inscrição nos exames revela intenção de se candidatar ao ensino superior, de 55 para 56%, ainda assim baixa. Depois de alguns anos em se verificaram descidas é importante registar este aumento que esperemos ver confirmado e aumentado nos próximos anos.
A abordagem às razões para este cenário de preocupante desinvestimento na formação superior, politécnica ou universitária, remete quase sempre para as dificuldades económicas das famílias.
Dados disponíveis têm sustentado este entendimento mas, do meu ponto de vista, há ainda que considerar os eventuais efeitos de um discurso recorrentemente difundido de que, dada a enorme taxa de desemprego de jovens com qualificação superior, o investimento numa qualificação superior não compensa pois não existe mercado de trabalho, alguns empregos que surgem são precários e mal pagos e muita gente qualificada está a ser empurrada para fora por falta de futuro cá.
Por partes. Na verdade, Portugal, conforme alguns estudos demonstram, tem comparativamente a muitos outros países da Europa, um dos mais altos custos para as famílias a situação de um filho a estudar no ensino superior, ou seja, as famílias portuguesas fazem um esforço bem maior, em termos de orçamento familiar, para que os seus filhos acedam a formação superior. Se considerarmos a frequência de ensino superior privado o esforço é ainda maior. Tem vindo a ser regularmente noticiada a desistência da frequência dos cursos por muitos alunos que, por si, ou os respectivos agregados familiares não suportam os encargos com o estudo.
Estas dificuldades são, do meu ponto de vista, considerados frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo pelo que ... quem não tem dinheiro não tem vícios.
Neste contexto, o abaixamento na intenção de prosseguir estudos superiores pode estar associado às dificuldades enormes que muitas famílias atravessam e o desemprego mais elevado entre os jovens, que poderia constituir uma pressão para continuar os estudos a que acresce a redução significativa das bolsas e apoios, tornam ainda mais difícil a realização de percursos escolares que promovam mobilidade social e que se traduz, por exemplo, no aumento das desistências ou mesmo na intenção e disponibilidade para estudar.
Relativamente aos discursos sobre “estudar não compensa”, o futuro é o desemprego, umas notas.
Como muitas vezes aqui tenho afirmado Portugal é o país da OCDE em que estudar mais compensa ao nível do estatuto salarial, segundo o Relatório da OCDE, "Education at a Glance 2012", a diferença salarial de jovens com licenciatura para jovens com formação a nível do secundário é de 69 %.
Não esqueço o altíssimo e inaceitável nível de desemprego entre os jovens, em particular entre os jovens com qualificação superior, mas esta questão decorre do baixo nível de desenvolvimento do nosso mercado de trabalho, de circunstâncias conjunturais e de erradas políticas de emprego e não da sua qualificação.
Neste cenário e como sempre afirmo, o discurso muitas vezes produzido no sentido de que "não adianta estudar" não colhe e não tem sustentação sendo, um autêntico tiro no pé de uma sociedade pouco qualificada como a nossa que, efectivamente e contrariamente à tão afirmada quanto errada ideia de que somos um país de doutores, continua, em termos europeus, com uma das mais baixas taxas de qualificação superior em todas as faixas etárias incluindo as mais jovens. Aliás, estamos longe de poder vir a cumprir a meta a que nos comprometemos com a UE para 2020, 40% de pessoas licenciadas entre os 30 e os 34 anos.
Conseguir níveis de qualificação compensa sempre e é imprescindível. Estudar e conseguir qualificação de nível superior compensa ainda mais.
O que acontece verdadeiramente é termos desenvolvimento a menos, não é qualificação a mais, temos um mercado de trabalho que a cegueira da austeridade e do empobrecimento tem vindo a proletarizar e que não absorve a mão-de-obra qualificada. Não podemos passar a mensagem de que a qualificação não é uma mais-valia.
É um tiro no pé.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

ESTUDA MIÚDO

Estuda miúdo, estuda muito.
Tens que estudar mais. Assim não irás a lado nenhum.
Estuda miúdo, estuda muito.
O mundo não é para gente com notas baixas, o mundo é para os bons.
Estuda miúdo, estuda muito.
Não te distraias, olha os exames.
Estuda miúdo, estuda muito.
Lê com atenção, tira apontamentos, faz exercícios.
Estuda miúdo, estuda muito.
Não te atrases para a explicação, põe as dúvidas todas.
Estuda miúdo, estuda muito.
Agora não tens tempo para essas coisas, agora é para estudar, estão aí os exames.
Estuda miúdo, estuda muito.
Já fizeste os exercícios todos? Procura na net, existem muitos, de todas as disciplinas.
Estuda miúdo, estuda muito.
Já sabes como é importante estudar e ser excelente. Só assim terás uma vida boa e serás alguém.
Estuda miúdo, estuda muito.
Estás cansado? Deixa-te de pieguices, é preciso sofrer para atingirmos o que queremos, para sermos alguém.
Estuda miúdo, estuda muito.
Brincar? Não miúdo, brincar é perder tempo. Os melhores não perdem tempo a brincar.
Estuda miúdo, estuda muito.
Não aguentas? Aguentas sim, tens que aguentar, só os fortes é que chegam lá cima, não podes desistir.
Estuda miúdo, estuda muito.
Não páres, não penses, não vivas …
Estuda miúdo, estuda muito.

PS - Boa sorte miúdo

AS PROVAS DE AFERIÇÃO

Depois do arranque com alguns sobressaltos da realização das provas de aferição no Ensino Básico, em Maio com as áreas das Expressões Artísticas e Expressões Físico-Motoras no 2º ano, realizam-se hoje provas de aferição do 5º e do 8º ano.
Como já aqui tenho escrito, este processo, reintrodução das provas de aferição, desenvolveu-se com vicissitudes dispensáveis e com conteúdos que me levantam alguma reserva embora considere genericamente que as provas de aferição são uma opção correcta.
A eliminação dos exames e a sua substituição pelas provas de aferição não ocorreu com o calendário e metodologia mais aconselhável, depressa e bem não há quem.
Como também tenho afirmado, continuo com muitas dúvidas sobre a realização das provas de aferição em anos intermédios dos ciclos, 2º. 5º e 8º. Uma aferição, creio, deverá ser realizada no final de um período de aprendizagem. Só nessa altura será possível “aferir” os resultados que se encontram face aos resultados que se esperam e ter uma visão global comparativa.
Uma avaliação durante um período de trabalho com o objectivo de detectar dificuldades e corrigir trajectórias é evidentemente um requisito de qualidade mas é, do meu ponto de vista, uma avaliação de diagnóstico, de regulação, não de aferição.
Por outro lado, no seu desenho e conteúdo, estas provas de aferição são mais completas que o modelo antigo o que me parece de sublinhar incluindo as áreas curriculares “Estudo do Meio” e Expressões. Estas já se realizaram em Maio com alguma perturbação noticiada.
No 5º e 8º também começam a ser avaliadas outras áreas curriculares para além de Português e Matemática. Aliás, realizam-se hoje as provas de História e Geografia de Portugal do 5º ano e de Ciências Naturais e Físico-Química do 8º.
É ainda relevante que em Português será também avaliada a componente da oralidade.
Uma outra questão que também já referi em textos anteriores é a disponibilização para pais e encarregados de educação de um Relatório detalhado do desempenho dos seus educandos nas provas de aferição. As escolas, terão também, naturalmente, a informação completa.
Entendo, claro, que os pais e encarregados de educação devem ser, tanto quanto possível, envolvidos e informados sobre o trajecto escolar dos seus educandos. No entanto, também sei das dificuldades sentidas neste envolvimento e o nível de literacia e qualificação escolar dos pais e encarregados de educação, factor que continua, aliás, a ser uma das variáveis mais fortemente associada ao desempenho escolar dos filhos.
Sendo provável que os alunos com desempenho mais baixo terão os pais com menor nível de qualificação escolar coloca-se uma questão em termos de educação familiar. Que farão os pais destes alunos com o “relatório” que receberão sobre o desempenho dos filhos nas provas de aferição? Partindo do pressuposto da sua dificuldade em os ajudar e da impossibilidade de recorrer a ajudas externas à escola fica a eterna questão, que fará a escola com estes resultados que, aliás, serão certamente coerentes com os resultados das avaliações realizadas em sala de aula pelos professores no âmbito do seu regular processo de trabalho?
Aqui surgem algumas dúvidas pois, defendendo as provas de aferição como instrumento regulador e imprescindível como ferramenta contributiva para o trabalho de alunos e professores, coloca-se uma questão, terá a generalidade das escolas recursos (tempo, docentes e técnicos) e autonomia para organizar dispositivos de correcção de trajectórias escolares de insucesso ou em risco detectadas nestas provas de aferição?
Gostava de ser optimista, quero ser optimista mas … espero para ver.

"CARTA AOS ALUNOS DO SECUNDÁRIO", UMAS NOTAS NA VISÃO

Umas notas na Visão online, "Carta aos alunos do Secundário", sobre a próxima época de exames nacionais.

Meus caros,

Tinham de chegar. Estão quase à porta os exames nacionais e durante algum tempo o programa está assegurado, exames e mais exames.
O trabalho realizado durante os últimos anos vai ser testado. Alguns de vós sentir-se-ão relativamente tranquilos enquanto outros, a maioria, vão começar a sentir a ansiedade a subir. É normal, afinal trata-se de realizar um exame e alguma ansiedade ajuda-nos a estar mais atentos.
Para alguns de vocês os resultados serão muito importantes pois permitirão aceder ao ensino superior e na escola e no curso que vos interessam mas para todos significa cumprir uma tarefa da vossa vida escolar o que é sempre relevante.
(...)

quarta-feira, 7 de junho de 2017

GREVE BOA, GREVE MÁ

Como não podia deixar de ser o anúncio de uma greve de professores subscrita pelas suas maiores associações sindicais para o mesmo dia e dia de exames nacionais está a causar alguma perturbação. Não é estranho evidentemente.
Acredito que não venha a realizar-se, caso aconteça, a definição de serviços mínimos atenuará os seus efeitos e os alunos terão alguma estabilidade para a realização dos exames.
No entanto … a luta continua.
Não me pronuncio sobre a bondade ou justificação dos protestos no plano estritamente profissional dos professores, mas também afirmo que alguns dos problemas que sentem são também problemas nossos na medida em algumas das medidas de política que os envolvem também têm consequências na qualidade do seu trabalho, na qualidade da escola pública e, portanto, no bem-estar e futuro dos alunos.
Também não esqueço a sempre presente componente de luta partidária e como o universo da educação é um palco privilegiado desta luta.
O que me parece de facto curioso é a proliferação de discursos sobre os efeitos da greve dos docentes, designadamente no que respeita a perturbações envolvendo os alunos e que são proferidos pelas mais diversas vozes e em diferentes tons.
Como já escrevi noutras ocasiões, creio que a maioria dos professores não quereria sentir motivos para realizar a greve com os constrangimentos que dela poderão resultar. O que tenho alguma dificuldade em perceber é como pode uma greve de professores não ter impacto nos alunos. Provavelmente só mesmo realizada nas férias o que parece uma hipótese remota. O recurso à greve assenta, justamente no impacto que ela tem, não há volta a dar.
No que se refere à instabilidade e considerando experiências anteriores os discursos produzidos por parte da tutela, por umas razões, por parte dos representantes dos professores e dos próprios professores (nem sempre coincidem), por outras razões e ainda pelos pais ou seus representantes, ainda por outro conjunto de razões, talvez sejam mais susceptíveis de criar instabilidade nos alunos. No entanto, acredito que quando for o tempo os alunos apresentar-se-ão nas provas apenas com a ansiedade que releva, naturalmente, de uma situação de avaliação.
Parece-me importante afirmar esta confiança nos alunos e nas suas competências e capacidades.
O que parece menos positivo é o constante discurso de diabolização dos professores que também recebe um fortíssimo contributo por parte de algumas afirmações dos que os representam e que degradam, enfraquecem, a imagem social dos docentes com reflexos sérios e negativos na relação que a comunidade estabelece com eles.
Entregamos todos os dias os nossos filhos nas mãos de uma classe que para cumprir o seu enorme e insubstituível papel na construção do futuro, precisa, para além da competência, de ter a confiança da comunidade.
Finalmente, repito, estou convicto que a esmagadora maioria dos alunos vai apresentar-se nas provas com a ansiedade que ajuda e não com a instabilidade que inibe. Assim nós, todos, façamos a nossa parte.

OS PROBLEMAS DAS MINORIAS SÃO, EVIDENTEMENTE, PROBLEMAS MENORES OU MESMO ... NÃO PROBLEMAS

A Associação Ilga Portugal — Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo apresentou ontem um projecto com o objectivo de minimizar os comportamentos de bullying homofóbico e transfóbico. O projecto, “Aliança Da Diversidade” tem como destinatários estudantes a frequentar escolas do norte e centro sendo intenção a sua extensão a todo o país.
São frequentes os discursos ou comportamentos discriminatórios face à orientação sexual ou identidade de género em contexto escolar. De acordo com dados da Agência para os Direitos Fundamentais da União Europeia, 94% dos jovens LGBT ouvem ou testemunham comentários e comportamentos negativos em contexto escolar em Portugal", lê-se no Público. Acresce que a apresentação de queixa por parte das vítimas é rara o que é também um dado significativo.
Com demasiada frequência os problemas das minorias são eles próprios percebidos como problemas menores ou mesmo como não problemas.
Em 2014 foi divulgado um estudo referindo as dificuldades das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens em lidar com crianças e jovens com orientações sexuais diferentes, um problema que raramente é abordado mas que é fonte de sofrimento para muitas crianças, adolescentes famílias.
Um Relatório da Rede Ex-Aequo referia que no ano de 2012 se registaram 37 denúncias de homofobia e transfobia, sendo que 42 % da juventude lésbica, gay ou homossexual afirmou ter sido vítima de bullying homofóbico, 67% dos jovens declarou tê-lo presenciado e 85% afirmou já ter ouvido comentários homofóbicos na escola que frequenta. Em muitas situações desta natureza emergem quadros “baixa auto-estima, isolamento, depressões e ideação e tentativas de suicídio”, contribuindo ainda para o insucesso e para o abandono escolar de muitos jovens. O mesmo relatório referia ainda episódios recorrentes de bullying homofóbico em contextos de praxes académicas, situação que já aqui também comentei.
Recordo que em Novembro de 2011, dados da UNESCO referiam que cerca de 70 % de alunos homossexuais afirma ser vítima de bullying e ainda que também no início de 2011, dois serviços do ME recusaram apoiar a distribuição pelas escolas de material produzido no âmbito do Programa Inclusão apoiado e financiado pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género. Estes materiais destinavam-se a apoiar uma campanha de combate a atitudes e comportamentos discriminatórios relativamente à orientação sexual.
A justificação, segundo a imprensa na altura, para que a Direcção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular e o Núcleo de Educação para a Saúde, Acção Social e Apoios Educativos recusassem o apoio uma iniciativa envolvendo uma outra estrutura pública foi o "cariz ideológico" das matérias.
Para além da óbvia confusão entre ideologia e valores, ficou estranho, no mínimo, o entendimento de que a prevenção e combate à atitudes de discriminação face a minorias que tem uma incidência fortíssima e que os dados hoje divulgados só confirmam, se possa recusar por se tratar de ideologia. Pela mesma ordem de razões, não devem ser incentivadas e muito menos apoiadas pelo ME, acções que, por exemplo, combatam a xenofobia ou o racismo, terão certamente um "cariz ideológico".
Este tipo de decisões, para além da evidente incompetência, é revelador de uma assustadora irresponsabilidade. É reconhecida a presença de comportamentos discriminatórios face a minorias de diferente natureza. Sabe-se que tanto como na remediação, importa apostar na prevenção, parece claro que em matéria de prevenção o público mais jovem terá de ser sempre ser um alvo privilegiado, é de "pequenino que se torce o pepino", e foi o Ministério da Educação que se opôs a iniciativas que outros organismos públicos julgaram relevantes. A titular da pasta da educação ainda veio alguns dias depois apresentar umas desculpas irrelevantes e que não alteraram a substância da primeira decisão.
É claro que face à dimensão dos incidentes de bullying, de discriminação ou de má abordagem, que continuam a verificar-se, e dirigidos a um alvo em particular a que acrescem os outros comportamentos da mesma natureza, esta questão se transforme numa preocupação não ideológica mas de direitos e de natureza civilizacional no contexto das políticas e processos educativos.
Neste contexto percebe-se as dificuldades de resposta das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens a crianças e adolescentes com orientação sexual diferente. Juntam-se, aliás, às dificuldades que também sentem por várias razões, meios e volume e complexidade de casos, por exemplo, em dar resposta a outras situações.
Veremos a adesão e o alcance do projecto agora anunciado.

terça-feira, 6 de junho de 2017

DO SUCESSO ESCOLAR ENQUANTO NICHO DE MERCADO

O JN aborda hoje com chamada a primeira página a questão dos centros de estudo, de “explicações” na designação mais corrente, e a desregulação da sua actividade que é contestada por directores de escolas e agrupamentos que vêem instalar-se nas imediações estabelecimentos escolares uma enorme oferta. O mercado está sempre atento.
Desde o início do ano lectivo mas sobretudo a partir das férias da Páscoa é frequente há já muito tempo o recurso significativo aos centros de explicações visando a “recuperação” para o terceiro período e, sobretudo, a preparação para os exames.
Face à reversão, como agora se diz, na realização de exames do 1º e 2º ciclo e a reintrodução das provas de aferição ter-se-á verificado já o ano passado um abaixamento da procura deste tipo de apoios mas que ainda assim e apesar das dificuldades das famílias se mantém em alta.
Apesar de nada ter contra a iniciativa privada desde que regulada e com enquadramento legal, várias vezes tenho insistido no sentido de entender como desejável que os apoios e ajudas de que os alunos necessitam fossem encontrados dentro das escolas e agrupamentos. O impacto no sucesso dos alunos minimizaria, certamente, eventuais custos em recursos que, aliás, em alguns casos já existem dentro do sistema.
Esta minha posição radica no entendimento de que a procura “externa” de apoios, legítima por parte das famílias, tem também como efeito o alimentar da desigualdade de oportunidades e da falta de equidade.
Recordo o estudo recente do CNE e da Fundação Francisco Manuel dos Santos que evidencia algo de muito significativo apesar de bem conhecido e reconhecido, nove em cada dez alunos com insucesso escolar são de famílias pobres.
A ajuda externa ao estudo como ferramenta promotora do sucesso não está ao alcance de todas as famílias pelo que é fundamental que as escolas possam dispor dos dispositivos de apoio suficientes e qualificados para que se possa garantir, tanto quanto possível, a equidade de oportunidades e a protecção dos direitos dos miúdos, de todos os miúdos.
A substituição dos exames pelas provas de aferição não altera esta necessidade imperiosa, antes pelo contrário, torna-a ainda mais pertinente para que se possam corrigir e apoiar ao longo dos vários ciclos as dificuldades de alunos e professores.
O abaixamento verificado na procura que alguma imprensa divulga talvez traduza a menor importância atribuída pelas famílias às provas de aferição e às suas próprias dificuldades económicas.
As necessidades dos alunos poderiam ser atenuadas com o recurso a professores que já estão no quadro ou com contratos sucessivos.
De uma vez por todas, é necessário contenção e combate ao desperdício, mas em educação não há despesa há investimento.

OS PILHA-GALINHAS

O JN noticia a detenção e ida a tribunal de um homem desempregado que foi a apanhado com morangos no valor de dois euros e meio roubados de uma exploração.
Está certo, roubar é feio, está tipificado como crime e não depende do montante envolvido.
No entanto, recordo que o insuspeito Eng. Belmiro de Azevedo, em 20/06/2010 numa palestra no ISG, defendeu a legitimidade do roubo quando se tem fome. Neste sentido até se estranha a regularidade com que os grupos económicos processam pessoas que roubam alimentos de valor insignificante. Certamente que a marca Continente e as outras insígnias do grupo Sonae assim não procedem.
Por outro lado, estamos mais habituados a uma actividade nesta área realizada numa outra escala, a escala dos milhões, muitos. Empreendedores de outra envergadura e preparação fazem voar da banca, de empresas em falências fraudulentas, em comissões mal explicadas, em inconsequentes derrapagens financeiras nas obras públicas, em negócios ruinosos muitos milhões, mas mesmo muitos milhões. Acresce que, como sabemos, tudo isto se passa na maior das impunidades e sem grandes sobressaltos.
É sempre estimulante perceber como a justiça actua, recebe a queixa, prende e leva a julgamento estes pilha-galinhas, bandidos saqueadores e perigosos, enquanto os seus colegas de actividade, mas de outra dimensão, de outra escala e de outro patamar social, se passeiam por aí dedicando-se à sua lucrativa arte e vivem tranquilamente à sombra dos rendimentos.
É importante que estes casos de actividade delinquente cheguem a julgamento e sejam severamente condenados para, por um lado, alimentar a ideia de que a justiça funciona e, por outro lado, devolver-nos um sentimento de confiança nessa justiça e de que percepção de impunidade instalada é, evidentemente, falsa.
Com a actividade dos pilha-galinhas damos mais um passo na desejada democratização da nossa economia, roubam todos, é apenas uma questão de escala.
Numa nota final, apesar de “roubar ser feio” confesso que sinto uma adolescente e romântica simpatia pelos pilha-galinhas.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

O PARADIGMA

Meus Senhores, como sabem a reunião tem como ponto único a questão central do paradigma que nos deve orientar. Precisamos de definir com clareza se mudamos de paradigma, e se mudamos de paradigma, qual o paradigma. Espero naturalmente que tenham alguma reflexão sobre esta matéria que é crítica na política contemporânea.
Sr. Ministro, julgo que temos um paradigma esgotado e creio que será adequado, até em termos estratégicos e de comunicação, que anunciemos um novo paradigma.
Mais alguma opinião?
Sr. Ministro, também me inclino para a necessidade de um novo paradigma. Os tempos são de mudança e voláteis. Não parece ajustado que mantenhamos o mesmo paradigma por demasiado tempo, corremos o risco de passar uma imagem de imobilismo conservador.
Sr. Ministro, do meu ponto de vista existe uma outra razão que aconselha uma mudança de paradigma, temos que criar uma pegada, uma identidade que sublinhe a nossa passagem por estes lugares, que caracterize o nosso ímpeto reformista.
Meus senhores, obrigado pela vossa iluminada reflexão. Não me decepcionaram, antes pelo contrário, sublinho o vosso espírito de mudança e inovação. Podemos então anunciar que a nossa acção passa a ter um novo paradigma. O gabinete de imprensa e comunicação fará a divulgação nos moldes habituais mas creio que deveremos começar por uma conferência de imprensa com a presença de toda a equipa. Muito obrigado.
Sr. Ministro, uma pequena dúvida, qual será o novo paradigma que anunciamos?
Meus caros, continuamos com as políticas que temos definidas e constam do nosso programa e solicitamos à equipa de consultores que elabore uma nova estratégia de comunicação e mudanças legislativas sobre essas políticas. Como sabem, existe pouco por onde inventar na nossa área.
Se me permite, Sr. Ministro, genial.
Obrigado, trata-se apenas de cumprir a missão que nos confiaram. Boa tarde e obrigado pela presença.

DEMASIADO PERTO OS OLHOS NÃO VÊEM

Era uma vez uma Mãe de um Rapaz. Era o seu primeiro filho e toda a vida sonhara ser mãe. Não havia no mundo mãe que gostasse mais de um filho que esta Mãe. Não havia no mundo mãe mais preocupada que esta Mãe. Não havia no mundo mãe mais atenta que esta Mãe. Não havia no mundo mãe mais presente que esta Mãe. Não havia no mundo mãe mais disponível que esta Mãe. Não havia no mundo mãe mais próxima do filho que esta Mãe.
Só que o Rapaz parecia desconfortável e às vezes, cada vez mais vezes, reagia mal a tanta mãe. A Mãe começou a ficar perplexa e perdida, e com o tempo, ainda mais perplexa e perdida. Um dia encontrou no parque aquele Velho que sabia ler as pessoas que, quando a ouviu, pensou alto.
"Por mais que a gente goste dos filhos, eles não podem ser usados e guardados só no coração. Também têm de ser usados e guardados na cabeça e nos olhos. Demasiado perto os olhos não conseguem ver bem e, por isso, a cabeça não entende”.
Naquela noite ao jantar, a Mãe, ao ver o Rapaz do outro lado da mesa, reparou como ele estava crescido e tinha uns olhos bonitos. Como os dela, que já viam.
Na verdade, o Velho sabia que não existe afecto a mais, existe mau afecto. Este afecto é tóxico, não por ser muito mas porque não deixa respirar.

domingo, 4 de junho de 2017

PODE A ESCOLA CONTINUAR A ENGORDAR?

Através do blogue do Paulo Guinote encontrei uma notícia que merece reflexão. A Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN) em Portugal, Jardim Moreira divulgou a assinatura de um protocolo com o ME visando o “combate à pobreza em Portugal, a partir das escolas”.
A iniciativa procurará chegar progressivamente a toas as escolas com o desenvolvimento de projectos e o envolvimento de alunos e docentes. Claro.
Não está, evidentemente, em discussão a importância de que a educação de crianças e jovens envolva as grandes questões das comunidades, antes pelo contrário, é importante. No entanto, umas notas breves.
Por diversas ocasiões tenho aqui manifestado a minha reserva face ao entendimento de que tudo o que possa de alguma forma dizer envolver os mais novos deve ser ensinado/trabalhado na escola. Esta visão obesa da escola não funciona, nem tudo pode ou deve ser transformado em disciplinas, conteúdos escolares, projectos, … para além de que a escola tem um conjunto de funções incontornáveis que tornam finita a sua capacidade de responder.
Por outro lado, foi-se instalando em Portugal, não só em Portugal mas também em Portugal, a ideia de uma educação, de uma escola, fundamentalmente centrada em competências instrumentais, em saberes “úteis”, "essenciais" como lhes chamava Nuno Crato, destinada sobretudo a formar “técnicos” e não “cidadãos” qualificados. Os currículos são progressivamente aliviados de conteúdos que não sejam “práticos”, promotores de “produtividade”, “domínio de técnicas” como seja toda a área da formação cívica, da educação para a saúde, dos valores, das expressões e conteúdos artísticos, etc.
A escola deve formar empresários, poucos, e técnicos qualificados e de formação estreita, muitos. Estas ideias traduziram-se, traduzem-se apesar de algumas mudanças indiciadas e afirmadas, nos conteúdos curriculares, nos modelos de avaliação, nas concepções do que deve ser o trabalho dos professores, na organização do sistema educativo, selectivo, prescritivo e incapaz de acomodar diferenças entre os alunos, etc.
Entretanto, com a mudança no ME e a definição do Perfil dedo Aluno para o Séc. XXI reabriu-se a mudanças em matéria de currículo, agora em modo flexibilidade mas ainda pouco claro.
Sabemos que, independentemente das opções e visões ideológicas, uma das questões que no universo a educação estarão sempre em aberto é a que envolve os conteúdos e organização curricular. De facto, a velocidade de produção e acesso ao conhecimento e ao desenvolvimento, as mudanças nos sistemas e no quadro de valores das comunidades determinam a regular reflexão e ajustamento sobre o que a escola deve ensinar e trabalhar, sobretudo durante a escolaridade obrigatória.
Por outro lado, o tempo da escola e a competência da escola são finitos, isto é, a escola não tem tempo nem pode ou deve ensinar tudo. Lembram-se certamente das discussões sobre se matérias como educação sexual, educação cívica, literacia financeira, educação para a saúde, para citar apenas alguns exemplos, deverão, ou não, constituir-se como "disciplinas", conteúdos ou mesmo se devem integrar os currículos escolares.
Em princípio, independentemente dos conteúdos poderem ser mais ou menos pertinente, vejo sempre com alguma reserva as propostas de introdução de mais uma disciplina, mais conteúdos, mais um manual, mais umas orientações, mais um programa de formação de professores, como se a escola, o currículo escolar, os conteúdos, as suas competências, pudessem continuar a engordar indefinidamente. E não se trata de um problema de recursos ainda que seja de considerar.
Como é evidente, pode dizer-se sempre que muitas destas questões podem integrar o trabalho escolar considerando até que os alunos passam um tempo imenso, diria excessivo, nas escolas. Aliás, tal acontece em muitas escolas e agrupamentos.
A questão central, do meu ponto de vista, é que as competências da escola, os conteúdos que nela são trabalhados, integrando ou não formalmente os currículos, não podem mesmo aumentar continuamente. Urge uma reflexão serena, participada e com tempo sobre o ajustamento dos conteúdos, a sua integração e organização, a forma como podem acomodar a diversidade dos alunos e a necessidade de diferenciação dos professores, a formação global dos alunos e não exclusivamente a promoção de competências instrumentais, etc.
Somar conteúdos e competências à escola sem ajustamento dos conteúdos e organização existentes, pode promover problemas e não soluções, de tanto que lhe exigem corre risco de não providenciar o que lhe compete.
Na verdade, nem tudo o pode ser interessante saber terá de caber numa disciplina da escola ou num conteúdo escolar formal e nem tudo o que se pode saber se aprende na escola. A dificuldade é que os alunos estão muito tempo na escola e a tentação é óbvia, a escola que faça.

A PEGADA ECOLÓGICA. E A PEGADA ÉTICA?

Segundo o Público apesar de alguns progressos Portugal ainda tem uma pegada ecológica demasiado pesada. Com o nosso padrão nesta matéria e de acordo com uma análise divulgada pela Zero baseada em dados da organização Global Footprint Network, "seriam necessários 2,3 planetas" para responder ao consumo.
A verdade é que apesar da lentidão da mudança o despertar das consciências para as questões do ambiente e da qualidade de vida colocou na agenda a questão das pegadas, das marcas, que imprimimos no mundo através dos nossos comportamentos. Este novo sentido dado às pegadas tornou secundárias e ultrapassadas as míticas pegadas dos dinossauros e as românticas pegadas que os pares de namorados deixam na areia da praia.
Fomo-nos habituando a ouvir referências às várias pegadas que produzimos com nomes e sentidos mais próximos ou mais distantes mas, sobretudo, tem-se acentuado a grande preocupação com a diminuição do peso, isto é, do impacto das nossas pegadas. Conhecemos a pegada ecológica numa perspectiva mais global ou, em entendimentos mais direccionados, a pegada hídrica, a pegada energética, a pegada verde, a pegada do papel, a pegada do carbono, etc.
No entanto, do meu ponto de vista e também preocupado com o ambiente, com a qualidade de vida e com a herança que deixaremos a quem nos continuar, vejo poucas referências e muito menos inquietações sérias com a pegada ética, isso mesmo, a pegada ética.
Os comportamentos e valores que genericamente mobilizamos têm, obviamente, uma consequência na qualidade ética da nossa vida que não é despicienda. Os maus-tratos e negligência que dedicamos aos princípios éticos mais substantivos provocam um empobrecimento e degradação do ambiente e da qualidade de vida das quais cada vez parece mais difícil recuperar.
As lideranças, as várias lideranças de diferentes áreas, hipotecando a sua condição de promotores de mudanças positivas são fortemente responsáveis pelo peso e impacto que esta pegada ética está a assumir. Não passa semana que não tenhamos mais um episódio ilustrativo desta pantanosa pátria nossa amada. Nos últimos dias tivemos o caso Mexia e hoje a habilidade manhosa dos estágios promovidos pelo grupo Pingo Doce que, aliás, é useiro e vezeiro nestes atropelos à ética.
Vai sendo tempo de incluir a pegada ética no universo da luta pelo ambiente, pela qualidade de vida, pela sustentabilidade do planeta ou pelo futuro, o que quiserem.
Em termos mais pragmáticos e face aos numerosos e despudorados incidentes que regularmente surgem, talvez fosse de considerar a instalação urgente de uma ETAR – Estação de Tratamento do Ambiente da República.
Gostava de acreditar que ainda estaremos a tempo de recuperar o ambiente da República. Haverá ETAR que responda?

UM DIA

(Foto de Zé Pedro)

Um dia.
Um dia,
Vou subir até ao cimo do mundo.
E então,
Vão ver-me.

sábado, 3 de junho de 2017

GOSTEI DE LER, "A APOLOGIA DA CIÊNCIA E A INUTILIDADE DAS ARTES E DAS HUMANIDADES"

Gostei de ler o texto de João Paiva, "A apologia da ciência e a inutilidade das artes e das humanidades".
Uma reflexão pertinente face à visão que se instalou nos últimos anos no universo do ensino superior e investigação científica pressionado pela ditadura da bibliometria e da hipercompetição e com a desvalorização das ciências sociais.

O PÂNTANO

Nada de surpreendente. Lamentavelmente estas notícias já são lidas por nós sem um sobressalto, talvez um trocadilho triste, afinal o Mexia também … mexia.
Na verdade, a roda livre de impunidade e incumprimento dos mais elementares princípios éticos quando não da lei, produziu nas últimas décadas uma família alargada que, à sombra dos aparelhos partidários e através de percursos políticos, se movimentam num tráfego intenso entre cargos, entidades e empresas públicas e entidades privadas, promovendo frequentemente negócios que nos insultam e empobrecem.
Esta família alargada envolve gente de vários quadrantes sociais e políticos com uma característica comum, os negócios, alguns obscuros, de natureza multifacetada e de escala variável, desde o jeitinho para o emprego para o amigo até aos negócios de muitos milhões.
Acontece ainda e isto tem tido efeitos devastadores que muitos dos negócios que esta família vai realizando envolve com frequência dinheiros públicos e com pesados encargos para os contribuintes.
Esta família conta ainda com a cooperação de um sistema de justiça talhado à sua medida pelo que raramente se assiste a alguma consequência decorrente dos negócios da família.
Curiosamente mas sem surpresa, todos os membros desta família, quando questionados sobre os seus negócios ou envolvimento em algo, afirmam, invariavelmente que tudo é feito tudo dentro da lei, nada de incorrecto e, portanto, estão sempre de consciência tranquila.
Veremos o que dará mais este episódio. Como de costume, uns incómodos com a imprensa e com as idas a tribunal e depois os escritórios de advogados, sempre os mesmos, assegurarão os expedientes suficientes para que nada aconteça.
Para a próxima terão cuidados redobrados e coisa compõe-se.
Alguém poderia explicar a esta gente que, primeiro, não somos parvos e, segundo, o que quer dizer consciência.
Esta é a pantanosa pátria nossa amada.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

DOS BRANDOS COSTUMES

Portugal entrou definitivamente em estado de graça.
Imaginem que a 11ª edição do estudo Global Peace Index realizado  pelo Instituto para a Economia e Paz Portugal coloca Portugal como terceiro país mais pacífico do mundo, depois da Nova Zelândia e Islândia e entre 163 países. É obra. Merecia mais destaque.
Entre os critérios para esta classificação contam-se instabilidade política, conflitos internos, níveis de violência e militarização são alguns dos 23 indicadores que contribuem para ordenar na tabela os 163 países que participaram no estudo.
Desde há cinco anos, em 16º lugar, temos sempre subido, no ano passado estávamos em quinto e agora … o pódio. aguardo com alguma expectativa a luta pela paternidade deste resultado.
A verdade é que somos reconhecidamente um país de brandos costumes, somos um povo discreto. Não abusamos da violência e quando o fazemos é no recato do lar ou, quando muito, no quintal.
A nossa violência, é uma violência de proximidade, violência doméstica em números muito elevados, umas tareias nos miúdos a ver se eles aprendem, uma sacholada ou tiro num vizinho por causa de uma partilha ou de uma pinga de água, pouco mais do que isso. Por vezes, lá trocamos uns sopapos ou coisa pior por causa de um desaguisado de trânsito, mas nada que possa configurar violência pública ou convulsão social graves.
Somos mesmo um povo tranquilo e de brandos costumes, algo que os estrangeiros, quase sempre, referem como característica dos portugueses.
Ainda assim e apesar do conformismo agora confirmado, a questão é que, como dizia Camões, todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.
Um dia cansamo-nos de ser bons rapazes.

DA CONVERSÃO

Como assinalei em texto de há pouco tempo registo com agrado a trajectória de Alexandre Homem Cristo, um dos falcões do Observador, nos seus "ensaios" sobre educação.
Depois de um “ensaio” sobre questões curriculares em que exprime uma visão globalmente positiva do conjunto de alterações que em matéria de currículo o ME propõe colocar em período experimental no próximo ano lectivo assentes no Perfil do Aluno para o Séc XXI e que serão inspiradas na visão e modelo finlandês produziu um novo ensaio sobre o número de professores no qual desmontou os argumentos que têm servido de base à promoção da “grande marcha de professores para fora do sistema”, o abaixamento do número de alunos e a sempre presente afirmação de que o rácio entre professores e alunos estava na média europeia.
Agora Alexandre Homem Cristo debruça-se sobre os exames nacionais no secundário e levanta três questões essenciais, “Os exames nacionais (quase) só medem a memorização”, “Os exames nacionais estão a medir as aprendizagens de forma fiável? E, finalmente, “O acesso ao ensino superior está a estrangular os exames e o ensino secundário”. O trabalho do Público também sobre os exames ilustra algumas destas dúvvidas.
Estas questões, nomeadamente as duas primeiras sempre se levantaram, designadamente no regime educativo examocrata instituído por Nuno Crato tão incensado por Alexandre Homem Cristo.
É, no entanto verdade que num texto de 2105 Alexandre Homem Cristo se referia criticamente aos exames mas culpando os professores pela seu mau uso.
Quanto à utilização dos exames nacionais como critério exclusivo (quase) para o acesso ao superior de há muito defendo a separação deste processo, finalização e certificação de conclusão do secundário e acesso ao superior. Aliás coloquei há já algum tempo um artigo no Público defendendo isso mesmo.
Um dia destes Alexandre Homem Cristo estará convertido e transformado num “facilitista” “eduquês” negando veementemente tudo o que escreveu durante o consulado de Nuno Crato.
No entanto, gosto de o ver a viajar por estas ideias (algumas) meu caro, mudar é um sinal de inteligência.

O TRUMPISMO PODE SER UMA (A ÚLTIMA) JANELA DE OPORTUNIDADE

A deriva que a política dos Estados Unidos atravessa com o trumpismo atingiu um novo pico com a saída do Acordo de Paris relativo às alterações climáticas.
Nunca como agora estarão em causa a visão e qualidade das lideranças da União Europeia, em particular, mas também das outras potências políticas e económicas mundiais.
Os últimos anos não foram animadores e a emergência séria de movimentos xenófobos e populistas com peso eleitoral em países como a França, Alemanha, Holanda, Áustria, etc., são consequência disso mesmo, a mediocridade das lideranças que se hipotecaram ao diktat dos mercados esquecendo as pessoas.
No entanto, preciso de sentir algum optimismo e acreditar que o tempo actual pode representar uma janela de oportunidade, (a última?) para reconstruir uma visão para a Europa e para o Mundo.
Não podem, não podemos, falhar, percebem? Trata-se do futuro dos nossos filhos, dos filhos dos nossos filhos, dos …

quinta-feira, 1 de junho de 2017

ERA PARA DEVOLVER A CRIANÇA, SE FAZ FAVOR.

Ainda a propósito do Dia Mundial da criança, por assim dizer.
Segundo informação do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social em cerca de um ano foram devolvidas às instituições ou famílias de acolhimento 43 crianças que tinham iniciado o processo de adopção. Destas crianças, duas têm problemas graves de saúde, seis revelam “problemas ligeiros” e as restantes sem problemas desta natureza. Das 43 crianças, 20 tinham até dois anos de idade.
Já aqui tenho abordado esta questão. Na verdade, os casos de “devolução" de crianças em processo de adopção são mais numerosos do que se imagina e por vezes em processos incompreensíveis, sobretudo se escrutinadas pelo “superior interesse da criança”.
Nos últimos anos registaram-se mais de 100 casos de crianças que foram devolvidas, isto é, viram o seu processo de adopção interrompido. Muitas destas situações deveram-se ao facto de as crianças "não corresponderem às expectativas" das famílias adoptantes.
Vejamos com mais atenção. Uma criança, por qualquer razão não tem uma família, está numa instituição, envolve-se num processo de adopção, entra numa família que entende passar a ser a SUA família, deve sentir-se num caminho bonito. Passado algum tempo é devolvida, provavelmente, sem perceber porquê e vive uma, certamente mais uma, experiência devastadora com efeitos que não podem deixar de ser significativos.
Como é evidente, admito que em circunstâncias excepcionais o processo possa ser interrompido mas, insisto, só mesmo numa situação limite depois de esgotados os dispositivos de apoio às famílias adoptantes.
A lei permite, não sei se terá sido alterada, que durante seis meses a criança possa ser devolvida, trata-se de um período de adaptação, uma espécie de contrato à experiência. O Juiz Armando Leandro presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, reconhecia há algum tempo que a devolução não tem de ser baseada em "critérios necessariamente válidos". Também há algum tempo num trabalho sobre o mesmo tema, o DN citava um caso em que uma criança foi devolvida e trocada por outra porque não se adaptava ao cão da família. Outros casos de devolução envolvem dificuldades de adaptação a outros elementos da família ou a questões económicas.
Como é de prever, os serviços procuram de diferentes formas na fase pré-adopção prevenir situações deste tipo, embora eles continuem a ocorrer.
Voltando ao tão apregoado "superior interesse a criança", é difícil imaginar o que se passará na cabeça de um miúdo que passa anos a construir uma ideia de família, a certa altura entra numa família a que chama sua e de repente dizem-lhe que volta a estar só, na instituição, porque ... não se dá bem com o cão ou não corresponde às expectativas. Que sentirá a criança?
Porquê? Não presta? Não a querem? ...
Mas as crianças, Senhores?

O DIA DOS MIÚDOS

A agenda das consciências determinou para hoje o Dia da Criança. A liturgia variada associada à efeméride vai acontecer, como de costume. As visitas, os passeios, as festas, etc., as idas a espectáculos de todas as naturezas mostrarão uma comunidade preocupada em fazer as crianças felizes, muitas até parecem, outras terão de passar por um dia calorento e cansativo.
A imprensa fará eco dos múltiplos eventos dirigidos às crianças, ouvirá por uma vez as crianças e produzir-se-ão, certamente, muitos discursos dirigidos aos miúdos e ao seu mundo.
Claro, neste dia, ouvi-las sobre o que pensam do mundo, do seu mundo e da vida das pessoas, é "giro". É verdade que passa depressa, amanhã já não as ouvimos sobre o que as inquieta e lá voltam os miúdos, muitos, a gritar e a agitar-se para se fazerem ouvir.
Tudo bem, pois que seja. Este tipo de efemérides serve também para isso mesmo, a encenação, sempre bem-intencionada da preocupação que descansa as consciências
É verdade, felizmente, que muitas crianças vivem felizes, por assim dizer, adoptadas pelos pais, acolhidas pela escola e pela comunidade, são o futuro a crescer.
No entanto e nestas alturas lembro-me com frequência do Mestre Almada que na Cena do Ódio falava sobre, "a Pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões". De facto, apesar da vaga de discursos e iniciativas em nome das crianças, muitos passam mal, muito mal, todos sabemos. Não cabem no Dia da Criança.
Não cabem os que diariamente são vítimas de crimes e maus-tratos.
Não cabem muitos dos que vivem numa instituição esperando por uma família que nunca virá.
Não cabem os que, por várias razões, são alvo de discriminação e a quem são negados direitos básicos.
Não cabem os que vivem em famílias que os não desejam e mal os suportam.
Não cabem os que apenas comem o que refeição única na escola lhes possibilita.
Não cabem os que vivem em famílias a quem roubaram a dignidade do trabalho e que, por isso, sobrevivem envergonhadamente na pobreza que nos deveria envergonhar a nós.
Não cabem os que a escola não consegue ajudar a construir um futuro a que valha a pena aceder e sofrem políticas educativas pouco amigáveis para os miúdos.
Não cabem os que sofrem de solidão e isolamento sem que se perceba como não estão bem.
Na verdade, estes miúdos de que acabei e falar por vezes parece que não existem, são transparentes, nem os vemos. Por isso, comemora-se o Dia Mundial da Criança com a convicção ingénua ou voluntarista de que, como dizia Pessoa, "o melhor do mundo são as crianças" e que elas são felizes, todas.
O que, obviamente, não corresponde à realidade mas os poetas ... são uns fingidores.
E sabem o que é mais inquietante?
Para o ano posso voltar escrever isto, não prescreve.

SÓ PODE SER UM MAL-ENTENDIDO. SERIA DEMASIADO GRAVE SE ASSIM NÃO FOR

Li mas achei que estava a perceber mal. Reli e era mesmo. Segundo o JN o ME terá a intenção de atribuir a professores com “horário zero”, uma indignidade num sistema educativo como o nosso, e a professores colocados em mobilidade por doença os horários de intervenção precoce junto de crianças com necessidades educativas especiais.
Não é possível.
Deixem-me recordar que de acordo com o Sistema Nacional de Intervenção Precoce na Infância esta intervenção é desenvolvida por Equipas Locais de Intervenção constituídas por equipas pluridisciplinares envolvendo vários profissionais, educadores de infância de Intervenção precoce, enfermeiros, médicos, técnicos de serviço social, psicólogos terapeutas, etc.
Estes profissionais têm como funções, identificar as crianças e famílias imediatamente elegíveis para o Serviço Nacional de Intervenção Precoce na Infância, assegurar a vigilância às crianças e famílias que, embora não imediatamente elegíveis, requeiram avaliação periódica, devido à natureza dos seus factores de risco e probabilidade de evolução, encaminhar crianças e famílias não elegíveis, mas carenciadas de apoio social, elaborar e executar o Plano Individual de Intervenção Precoce em função do diagnóstico da situação, identificar necessidades e recursos das comunidades da sua área de intervenção, dinamizando redes formais e informais de apoio social, articular, sempre que se justifique, com as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens, com os núcleos da saúde de crianças e jovens em risco ou outras entidades com actividade na área da protecção infantil, assegurar, para cada criança, processos de transição adequados para outros programas, serviços ou contextos educativos, articular com os docentes das creches e jardins-de-infância em que se encontrem colocadas as crianças integradas em IPI.
Como é que é possível que se admita que professores de qualquer grau de ensino e sem formação específica ou professores em situação de doença comprovado possam desempenhar este quadro de funções?
Acresce que como para todas as crianças, a qualidade dos serviços e cuidados educativos nos primeiros anos de vida é um aspecto crítico para o desenvolvimento bem-estar das crianças com necessidades educativas especiais.  
Não posso aceitar que o ME, apesar de toda a experiência e conhecimento acumulados entenda que para trabalhar em intervenção precoce com crianças com problemáticas muitas vezes severas e com idades maioritariamente compreendidas entre os 0 e os 6 anos qualquer formação serve. Este entendimento vai ao arrepio das práticas e orientações nessa matéria. Aliás, existem múltiplas formações de nível diferenciado nesta área, incluindo doutoramentos que não podem agora ser consideradas como indiferentes.
Desejo muito que tudo isto não passe de um equívoco, de um mal-entendido, seria demasiado grave se assim não for.

PS - Quando há algumas horas escrevi este texto pareceu-me desnecessário referir que nada do seu conteúdo tem a ver com os professores em "horário zero", uma indignidade como escrevi no texto e, muito menos, com a protecção devida a docentes com condições de saúde fragilizadas. Tem apenas a ver com o direito de crianças e famílias à qualidade dos serviços e à ideia inquietante e contra tudo o que está definido de a formação para uma função, uma exigência de qualidade, é irrelevante. Fica a referência.

PS 2 - Segundo o JN, a Secretária de Estado-Adjunta da Educação afirmou ao final do dia que o ME assumiu "um enorme e lamentável equívoco". No entanto, o que li não me pareceu completamente claro pois entendo, veremos se mal, que continua aberta a possibilidade de alguns horários no âmbito do Serviço Nacional de Intervenção Precoce serem atribuídos a docentes com "horário zero" e a docentes em mobilidade por doença, o que continuo a considerar um erro tremendo.