sábado, 20 de junho de 2026

OS TRATOS DOS VELHOS

 Há dias o JN referenciava um comunicado da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) relativo à violência contra idosos. Os episódios de agressão dirigidos a idosos ocorrem na maioria dos casos em contexto familiar e genericamente os agressores são filha ou filho da vítima, 32,3%, seguida do cônjuge, 21,5%.

Ainda de acordo com a APAV a maioria das vítimas apoiadas, 53,6%, está em situação de vitimização continuada e 46,6% das vítimas não apresentou queixa nem teve a sua situação denunciada.

É um cenário inquietante no meio de mundo em estado inquietante. Quer no seio das famílias, quer em instituições para onde alguns velhos são enviados compulsivamente como tem sido denunciado pela APAV, algumas encerradas por determinação legal, tal é a gravidade das situações, multiplicam-se as referências à forma inaceitável como os velhos estão a ser tratados.

Começam por ser desconsiderados pelo sistema de segurança social que com pensões miseráveis, transforma os velhos em pobres, dependentes e envolvidos numa luta diária pela sobrevivência.

Continua com um sistema de saúde que deixa muitos milhares de velhos dependentes de medicação e apoio sem médico de família.

Em muitas circunstâncias, as famílias, seja pelos valores, seja pelas suas próprias dificuldades ou alterações nos estilos de vida, não se constituem como um porto de abrigo, sendo parte significativa do problema e não da solução. As situações muito complicadas em que milhares de famílias estão envolvidas com o retornar de várias gerações à mesma casa e a tentação de aproveitar os baixos rendimentos dos velhos potenciam o risco de maus tratos.

Finalmente, as instituições, muitas delas, subordinam-se ao lucro e escudam-se numa insuficiente fiscalização além de que, com frequência, os equipamentos de qualidade são inacessíveis aos rendimentos de boa parte dos nossos velhos.

Lamentavelmente, boa parte dos velhos, sofreu para chegar a velho e sofre a velhice.

Não é um fim bonito para nenhuma narrativa, entende o velho que escreve estas letras.

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