segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

DA ESCOLA

 Acabei de ler que o Secretário de Estado Adjunto e da Saúde afirmou que as aulas se irão mesmo iniciar a 10 de Janeiro. Parece-me importante que assim seja.

Na sequência fiquei a pensar na escola. A verdade é que, a educação em geral e a educação escolar mais em particular, foram e continuam a ser o meu universo profissional e a minha paixão, é difícil não “pensar” na escola.

Talvez por isso a preocupação seja maior.

O olhar para a escola, enquanto instituição, não nos (me) sugere a tranquilidade que desejaria e julgo ser necessária e não estou a considerar o impacto da situação pandémica embora, naturalmente, também não o possa esquecer.

Creio que muitos de nós ligados à educação e à escola continuamos a ter um olhar encantado sobre a sala de aula e sobre o estar com alunos, mas um olhar muito desencantado com a escola ainda que não queira produzir generalizações abusivas. Também é verdade que este olhar desencantado coexiste com uma visão e discursos que parecem assentes num exercício de “wishful thinking”, particularmente promovidos pelo ME em que (quase) tudo parece estar bem e no bom caminho.

Não vou considerar aqui os aspectos críticos ligados às questões de natureza profissional do maior grupo que está na escola, os docentes, como a sua valorização, as questões ligadas à carreira, aos modelos e impactos da sua avaliação, o estatuto salarial, as características demográficas, o cansaço e as consequências que daí advêm, entre outros. São muito importantes e exigem uma acção que tarda.

Estas notas dirigem-se mais para a escola enquanto instituição e o desencanto que parece estar a produzir. São múltiplas as dimensões contributivas para algum mal-estar.

Muitas vezes aqui tenho abordado algumas dessas questões e sem ordenar por qualquer critério creio que o modelo de governança da escola, a esmagadora carga de burocracia que consome esforço e tempo por docentes e técnicos, uma narrativa assente numa permanente ideia de inovação e mudança de paradigma que produz uma chuva de projectos e de iniciativas, muitas vezes, vindas do exterior quer em programas de intervenção, quer em programas de formação que consomem recursos (tempo, materiais e humanos) com avaliações que nem sempre são suficientemente sólidas, são alguns exemplos.

Apesar de algum aumento continua a sentir-se falta de técnicos e docentes que sobrecarregam os profissionais que existem e ainda assim continuamos ter alunos demasiado tempo sem professores a algumas disciplinas. A escola carece de dispositivos de apoio suficientes e competentes para alunos e professores bem como de recursos que sempre se anunciam, mas sempre se atrasam, meios digitais, por exemplo.

A autonomia das escolas e dos profissionais que estão na escola associada a caminhos nem sempre claros de municipalização e regionalização também são varáveis desta equação.

Como disse, não tenho qualquer intenção de produzir discursos negativos e muito menos catastrofistas, confio na escola, mas para que assim seja importa que tenhamos uma perspectiva realista dos problemas, a única maneira de poder procurar um caminho mais positivo.

Como contributo para a reflexão sobre este caminho, parece-me interessante o texto de Paulo Prudêncio no Público, “Mude-se a escola para que regressem os professores”.

Vamos ter eleições legislativas que darão início a um novo ciclo governativo. Que pensa sobre estas matérias (e outras respeitantes à educação”, quem se propõe governar?

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