Neste início de aulas gostava de
vos chamar a atenção para um trabalho interessante do I sobre "ser
professor nestes tempos de cólera". São contadas sete histórias muito interessantes de
professores que dão um sentido extremo à profissão em tempos de grande
turbulência.
Há algum tempo um estudo
coordenado pela Universidade do Minho sugeria que cerca de dois terços dos
professores sentem a sua desmotivação profissional a crescer embora a maioria
mantenha o empenho no trabalho com os alunos terços dos professores.
Como já aqui tenho referido, o
clima vivido nas escolas nos últimos anos, sobretudo a partir da passagem de
Maria de Lourdes Rodrigues pela 5 de Outubro, tem vindo a degradar-se
produzindo desânimo, desmotivação, cansaço e a saída antecipada de milhares de
professores mesmo implicando a perda significativa de condições económicas que,
aliás, afectaram todos os docentes.
Uma primeira nota importante e de
carácter genérico relativa ao desgaste da imagem social dos professores. Como
muitas vezes tenho afirmado, os ataques, intencionais ou não, à imagem dos
professores, incluindo parte do discurso de responsáveis da tutela, anteriores
ou actuais, algum do discurso produzido pelos próprios representantes dos
professores e também o discurso que muitos opinadores profissionais, mais
ou menos ignorantes, produzem sobre os professores e a escola, contribuíram
para uma desvalorização significativa da imagem social dos professores,
fragilizando-a seriamente aos olhos da comunidade educativa, designadamente de
alunos e pais. Este cenário não pode deixar de se repercutir no trabalho diário
nas escolas.
Quando ouvimos discursos de
professores, faço-o regularmente e não me refiro aos discursos previsíveis de
dirigentes sindicais os testemunhos do clima vivido em muitas escolas pode ser
sintetizado em duas palavras referidas sem ordem de importância, desesperança e
indignação que resumem o ano agora a terminar e que tomaram conta das escolas
nas palavras faladas, choradas, por muitos professores, estou a falar de
Professores, não de "técnicos de educação" que sentem a dignidade
atropelada.
Para além das ignorantes e
demagógicas apreciações por parte de opinadores que por isso mesmo, ignorância
e demagogia, ou por agendas implícitas, os últimos anos anos lectivos por
questões decorrentes das PECs - Políticas Educativas em Curso criou-se
um ambiente extraordinariamente pesado e pouco amigável para o bom
trabalho de direcções, professores, funcionários, alunos e pais.
O arranque do ano lectivo e o
inenarrável e arrastado processo de colocação de professores, com a definição
dos descartáveis "horários zero", as incompetências, as injustiças
conhecidas tem sido infernal e repete anos anteriores.
O constante discurso ameaçador da
dispensa dos docentes alicerçada numa demagógica utilização dos números da
demografia, instalou um clima de apreensão e insegurança devastadores, com
milhares de professores a ficar de fora e muitos outros a sentirem-se
intimidados, não porque não sejam competentes, a maioria é, não porque não
sejam necessários, muitos são, mas porque é preciso cortar, custe o que custar.
A unidade de gestão do sistema educativo passou a ser a "hora
docente" pelo que a política educativa se transformou num exercício
contabilístico.
O aumento do número de alunos por
turma criou turmas quase sempre lotadas ou mesmo sobrelotadas, professores com
muitas turmas e centenas de alunos, sendo que alguns ainda se deslocam entre as
várias escolas do agrupamento ou ainda uma reforma curricular que como
preocupação central parece ter tido cortar nas necessidades de professores.
Assustador.
Num trabalho ainda altamente
burocratizado em que escasseiam apoios suficientes e competentes às
dificuldades de professores e alunos, o país educativo transformou-se todo ele
num imenso TEIP - Território Educativo em que se faz a Intervenção Possível.
O desencadear da extensão aos
professores da mobilidade especial, chamada de requalificação, um insulto
quando estamos a falar da classe profissional mais qualificada do país, as
rescisões "amigáveis", a perda substantiva verificada no estatuto
salarial, a expectativa sobre o aumento da carga horária, a deriva do MEC e os
discursos de alguns responsáveis que afirmam algo e seu contrário com o maior
despudor, são outros contributos para a indignação e desânimo que caracterizam
o universo escolar destes dias de chumbo.
É verdade que Nuno Crato afirmou
que os professores “têm a profissão mais linda do mundo” e ainda que ser
professor “é um privilégio”, assente na possibilidade de transmitir saber às
crianças.
Em muitas escolas, muitos
professores, apesar dos imperativos ético-deontológicos, dificilmente sentirão
o “privilégio” da profissão “mais linda do mundo”, lidam com um clima pouco
positivo que compromete o seu trabalho de professores, o dos alunos, dos
funcionários e dos pais e, no limite, o direito a uma educação pública de
qualidade.
No entanto e apesar deste cenário
"de cólera" como lhe chamou o I, a esmagadora maioria dos professores
vai entrar na sala de aula todos os dias, olhar para os alunos e reinventar-se
como Professor.
Ainda bem para nós e para os
nossos miúdos.
1 comentário:
Vejamos contudo o testemunho, na primeira pessoa, da esterilidade do solo em que se semeou uma parte significativa do ensino superior público.
http://www.omirante.pt/index.asp?idEdicao=54&id=73715&idSeccao=544&Action=noticia#.U6GnUChXhfU
Desde logo, pelo que um Sr. Professor não refere…
Vejamos pois, o que não refere.
Não refere preparar as aulas, nem atender os alunos.
Mais, não refere ter publicações de natureza científica. Com uma já longa carreira no ensino superior, não refere a publicação de nem 1 artigo científico…
Também, não refere a sua participação em congressos científicos, nem em conferências da mesma natureza.
Igualmente, não refere a orientação de teses, a participação em júris conferentes de grau académico, nem ser titular do grau académico de doutor.
Por outro lado, é significante que refira que fez o mestrado há 22 anos porque tinha um horário lectivo de meia dúzia de horas por semana, e assim progrediu na carreira…
Cerca de duas décadas volvidas, a descrição que faz da actividade docente é assaz cruel, horário lectivo por volta das 14 horas semanais, reuniões, elaboração e correção de testes e a investigação.
Mas, não referindo ter publicado uma linha científica, ter participado numa conferência científica ou num congresso, o que investiga então este Sr. Professor? E, qual a relevância dessa sua investigação para o conhecimento científico, onde são absolutamente irrelevantes investigações desconhecidas…
Entre o que refere, e o que não refere, estará a explicação porque trabalhava mais na actividade privada…
Ainda que, eventualmente, então auferisse um salário mais elevado na actividade privada, por 10 horas de trabalho diário, por demostrar está que ganhasse mais na actividade privada.
Será que a actividade privada remunerava um licenciado pela docência no ensino superior, a meio tempo, de forma tão generosa como certamente o ensino superior público o remunerou.
Aliás, é notável - com o currículo académico que refere - que tenha uma carreira no ensino superior público, onde aufere remuneração equivalente à de professor universitário, sem sequer ter obtido o Doutoramento, grau académico habilitante do ingresso na carreira docente universitária.
Acresce, perfilhar que o ensino superior (politécnico) não carece de professores doutorados, ou seja, dos mais habilitados academicamente. Ao que diz, ser uma “prevalência” do tempo de “António Guterres como primeiro-ministro”. À qual, defendendo a bondade das contratações de não doutorados, enquanto esteve no Conselho Directivo desta Escola, não terá dado grande acolhimento. Tal o desconchavo, que confessa a reserva da disciplina de fiscalidade para inspetores de finanças…
O que não deixando de ser extraordinário, segue a orientação do Governo, em funções, que já na recta final do seu mandato, continua a tratar o ensino superior público, como se o mesmo qualitativamente fosse todo igual…
Embora, na campanha eleitoral o Sr. Dr. Passos Coelho tenha prometido cortar nas gorduras do Estado, alcançada a chefia do executivo prontamente esqueceu a tão necessária reforma do Estado, avançando para cortes indiscriminados, sem cuidar se corta músculo, osso, ou mesmo órgão vital.
Assim, não racionalizando a rede de estabelecimentos de ensino superior público, cortou as verbas às universidades públicas de referência, como a Universidade de Lisboa, a do Porto ou de Coimbra.
Mas, como compreender que a opção deste Governo tenha sido a de asfixiar as universidades públicas de referência, e de não racionalização da rede de estabelecimentos de ensino superior público…
Nesta matéria, quem viu claro foi o Sr. Reitor da Universidade de Lisboa
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=675024
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