No Público encontra-se um texto de Inês Ferraz em defesa da utilização da escrita manual na aprendizagem da escrita, "A importância de escrever à mão para o desenvolvimento da escrita". É bom que se insista e, por aqui, muitas vezes o tenho feito.
Parece que, felizmente e de há
algum tempo para cá se tem desacelerado o impacto do “deslumbramento digital”
nos processos iniciais de aprendizagem, designadamente, na escrita e leitura.
Ainda há pouco tempo aqui escrevi
sobre esta matéria a propósito de uma entrevista ao Público de Johan Pehrson,
ex-ministro da Educação da Suécia sustentando o recuo inevitável na utilização
dos dispositivos digitais na educação escolar, designadamente, nos alunos mais
novos.
Na entrevista, Pehrson reconhece
erros cometidos com a introdução destes recursos e assiste-se à necessidade de
“regressar ao essencial”, “voltar ao papel e à caneta” nas suas palavras. Nas
actuais políticas educativas da Suécia e de outros países este movimento de desaceleração
digital ganha consistência e reflecte-se nas práticas educativas.
Por cá continuamos à acelerar
ainda “deslumbrados digitalmente”. Se assim continuarmos, o futuro não será
risonho em matéria de aprendizagem como alguns estudos vão sustentando.
Muitas vezes, durante a minha
carreira profissional e em vários textos que aqui divulguei me referi à
necessidade de prudência e oportunidade no recurso excessivo às ferramentas
digitais.
Por curiosidade recordo uma
história escrita em 2010, vai para 16 anos, a que chamei “As mãos que ensinam”
e que peço desculpa por retomar.
"Um dia destes a Sara, professora
de gente pequena, encontrou-se no refeitório da escola com o Professor Velho, o
que está na biblioteca e fala com os livros. A conversa, para não variar, foi
sobre o trabalho de ensinar e aprender.
Estava a lembrar-me da reunião
que ontem tivemos. Velho, que me dizes à polémica que vai por aí sobre a
utilização dos computadores com os gaiatos pequenos? Estás contra ou a favor?
Na minha idade já nem sempre
consigo estar de forma definitiva, contra ou favor de muitas coisas. A questão
dos computadores na sala de aula com os miúdos pequenos é um exemplo, acho que
não se pode discutir assim.
Então?
Como é evidente os computadores
fazem cada vez mais parte da nossa vida em múltiplas dimensões. Assim sendo,
considerando que a escola deve lidar e colocar os miúdos a lidar com as coisas
da vida, o computador poderá aparecer e integrar-se, no trabalho "sério"
ou nas brincadeiras, é uma questão de bom senso. Por outro lado, quando se
começa a mexer nas letras, a juntá-las e a escrever, parece-me muito importante
que as mãos escrevam, desenhem as letras, construam as histórias. Às vezes
dizem que os miúdos se motivam mais porque os computadores são inovadores. É um
equívoco, os miúdos motivam-se por aquilo que gostam e aprendem a gostar. E
para aprender a gostar também é preciso saber fazer. Repito, parece-me
essencial que as mãos conheçam as letras, como elas se desenham, como elas se
juntam e o que elas são capazes de dizer. Utilizar o computador será útil para
algumas outras tarefas ou actividades que não substituem escrever e construir
textos com as mãos.
Sabes que tanto como a cabeça
ensina as mãos, as mãos ensinam a cabeça. Quando as mãos e a cabeça aprendem e
sabem, então o computador também já pode ser uma caneta. Dá para entender Sara?
É por isso que estou contra e a favor do uso dos computadores pelo gaiatos
pequenos ou, se preferires, a favor e contra.
Parece simples Velho, porque se
discute tanto?"
Esperemos que o conhecimento
adquirido pela investigação e experiência regulem estes processos nas salas de
aula.
Sem comentários:
Enviar um comentário