Foi divulgado pelo Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências o relatório anual relativo ao consumo de drogas e toxicodependências e álcool referente a 2023.
Lê-se no DN que, analisando dados
de 2022 e 2023, ““verificaram-se agravamentos ao nível das idades de início
dos consumos, das prevalências do consumo recente e actual, das de embriaguez
severa e dos consumos de risco elevado/nocivo e da dependência", o que
reforça "a tendência de aumento da dependência desde 2012, que quase
quadruplicou em dez anos"”.
Mais preocupante é sabermos que
estes indicadores estão longe de reflectir o consumo de álcool nestas idades.
Trata-se, de facto, de um cenário
que merece atenção e retomo algumas notas envolvendo os consumos de
adolescentes e jovens.
O consumo de diferentes
substâncias, em quantidade e em grupo por adolescentes e jovens, sobretudo ao
fim-de-semana, é muitas vezes entendido e sentido como o factor de pertença ao
grupo, potenciando a escalada desse consumo. Juntos bebemos ou fumamos mais do
que estando sós, como é óbvio, e o "estado" que se atinge é sentido
como um "facilitador" relacional.
Por outro lado, a acessibilidade
aos diferentes produtos não é complicada, antes pelo contrário, processa-se com
a maior das facilidades apesar de algumas alterações legais. Muitos
adolescentes ou jovens, ouvidos em estudos nesta matéria, referem ainda a
ausência de regulação dos pais sobre os gastos, sobre os consumos ou sobre as
horas de entrada em casa, que muitas vezes tem que ser discreta e directa ao
quarto devido ao “mau estado” do protagonista.
Como é evidente, já muitas vezes
aqui o tenho referido com base na experiência de contacto com pais de
adolescentes, não estamos a falar de pais negligentes. Podem acontecer
situações de negligência, mas, na maioria dos casos, trata-se de pais que sabem
o que se passa, “apenas fingem” não perceber desejando que o tempo “cure”
porque se sentem tremendamente assustados, sem saber muito bem o que fazer e
como lidar com a questão.
De fora parece fácil produzir
discursos sobre soluções, mas para os pais que estão “por dentro” a situação é
muitas vezes sentida como maior que eles.
É preciso que a comunidade esteja
atenta a estes adolescentes que, por vezes ainda antes dos 13 ou 14 anos
começam a “aceder” às “litrosas”, aos shots, a qualquer outro produto para
fumar ou consumir e também aos seus pais que estão tão perdidos quanto eles.
Apesar das alterações na
legislação de natureza proibicionista, parecem-me imprescindíveis,
evidentemente, a adequada fiscalização e, sobretudo a criação de programas
envolvendo pais e aos adolescentes que minimizem o risco do consumo excessivo
das diferentes substâncias.
É mais uma das áreas,
comportamentos e saúde, que podem ser abordadas nas escolas com todos os alunos
e sem que tenham de se constituir como “disciplinas” apesar de manifestos e
discursos insustentáveis face a indicadores desta natureza.
Acresce que a proibição, como
sempre, não basta e se prevenir e cuidar é caro que se façam as contas aos
resultados do descuidar.
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