quarta-feira, 30 de abril de 2014

E QUEM AGORA, QUEM NOS ANUNCIA PREVISÕES CERTAS?

"Meteorologistas deixam de nos dizer na televisão se faz sol ou chuva"

Como utilizador de moto para travessia da Ponte 25 de Abril e como interessado nos fenómenos do tempo pois a horta do Monte no Meu Alentejo assim o exige, sou um consumidor das previsões metereológicas que logo cedinho os técnicos do Instituto Português do Mar e da Atmosfera apresentavam na RTP. 
É certo que as consultava também no site mas gostava de as ver apresentadas de forma mais "explicada".
Eram das poucas previsões anunciadas na televisão que se confirmavam quase sempre. Parece que os modelos usados nas previsões metereológicas são mais sólidos que os modelos usados para outras previsões que teimam em falhar, lamentavelmente.
Assim sendo, lamento a decisão de acabar com a apresentação das previsões por parte dos técnicos do Instituto, gente que me merecia confiança.
Terei, teremos, que continuar a ouvir previsões que nunca se cumprem por gente que as anuncia e reformula sem um mínimo de sobressalto ou pudor.

A AUSTERIDADE NÃO É COMO O SOL, NÃO NASCE PARA TODOS

"Portugal foi dos países onde o peso do rendimento dos 1% mais ricos mais cresceu"


Recordo também que:


Eu sei, sou estúpido, que é a economia, mas este cenário não pode deixar de ter um enorme valor simbólico face à retórica sempre presente da equilibrada repartição de sacrifícios, da equidade na austeridade que, como é óbvio, é falsa.
Relembro um estudo da Comissão Europeia, de final de 2011, que analisou a distribuição dos efeitos dos programas de austeridade os países que experimentam maiores dificuldades, Portugal, Grécia, Espanha, Irlanda, Estónia e Reino Unido.
Segundo o relatório, Portugal "é o único país com uma distribuição claramente regressiva", traduzindo, os pobres estão a pagar mais do que os ricos quando se aplica a austeridade. Pode ainda ler-se que nos escalões mais pobres, o orçamento de uma família com crianças sofreu um corte de 9%, ao passo que uma família rica nas mesmas condições perdeu 3% do rendimento disponível.
Portugal é ainda de acordo com o estudo o único país analisado em que "a percentagem do corte (devido às medidas de austeridade) é maior nos dois escalões mais pobres da sociedade do que nos restantes". A Grécia, que tem tido repetidos pacotes de austeridade, apresenta uma maior equidade nos sacrifícios implementados.
Este quadro genérico tem sido referido noutros estudos e avaliações como agora a OCDE confirma.
É evidente que não existe equidade na repartição dos sacrifícios. Para além de contrariar o discurso oficial de que existe justiça social nas medidas de austeridade, o que as notícias têm de mais preocupante é a constatação de que as políticas assumidas, por escolha de quem decide, estão a aumentar as assimetrias sociais, a produzir mais exclusão e pobreza e, simultaneamente, mais riqueza para muito poucos embora seja um grupo em crescimento. Na verdade, a austeridade, contrariamente ao Sol, quando nasce não é para todos.
Aliás, o Documento de Estratégia Orçamental, hoje conhecido, insiste no trajecto de empobrecimento e cortes nos rendimentos das famílias. Ainda que se refira a ideia da reposição de uma parte do corte dos salários da administração pública, (o "que se lixem as eleições" era, evidentemente, uma piada), tal generosidade é "compensada" com o aumento do IVA, o aumento nos descontos dos trabalhadores e, como de costume, com mais cortes nas pensões.
Também sei, sabemos todos, que os mercados não têm alma nem ética mas a liderança que transforma é uma liderança com responsabilidade social e com sentido ético. Não basta proclamar equidade e justiça, é preciso promovê-las.

DIA MUNDIAL DO JAZZ

Por acaso ouvi a referência de que hoje, no na calendário das consciências se assinala o Dia Mundial do Jazz.
Ainda no rescaldo dos 40 anos do 25 de Abril, relembro a importância que assumiu a realização do "velho" Cascais Jazz iniciado em 1971 pela mão do enorme Luís Villas-Boas e também me lembro dos sucessivos problemas que a PIDE criou a vários dos melhores músicos que visitaram o Cascais Jazz onde os esperávamos ansiosamente, num dos maiores eventos culturais a que tínhamos acesso.
Também por isto se deve recordar Abril.
Uma memória relativa ao que, provavelmente, será um dos temas mais conhecidos do mundo na área do Jazz, o mítico "Take five" de Paul Desmond que intergrava o Quarteto de Dave Brubeck que também ouvimos em 1972 no Cascais Jazz, claro.


O EXAME DE INGLÊS EM MODO PPP

"O teste de Cambridge vai hoje às escolas, mas o certificado pode não valer de muito"

Realiza-se hoje o exame de Inglês obrigatório para o 9º ano e facultativo para outros anos de escolaridade. Este exame tem a particularidade de se desenvolver numa espécie de PPP - Parceria Público Privada, tem a supervisão da Universidade de Cambridge através do Cambridge English Language Assessment e com o apoio desinteressado de algumas empresas, Porto Editora, BPI, Connexall, Fundação Bissaya Barreto e Novabase,
A operação de montagem destes exames tem sido fértil em incidentes sempre, evidentemente, dentro da ideia de "normalidade" do MEC.
Os professores avaliadores deverão realizar voluntariamente este trabalho mas o voluntarismo da classe terá insuficiente para assegurar a realização dos exames pelo que em muitas escolas os professores de inglês foram forçadamente voluntários para a tarefa recorrendo a formas de pressão contestadas por directores e docentes.
Toda esta história constitui um exemplo, mais um, da deriva em que se tem tornado boa parte da PEC – Política Educativa em Curso. Um exame nacional imposto e obrigatório, independentemente da bondade da medida e do modelo escolhido, não pode assentar no voluntariado dos docentes. Devem ser previstas e acauteladas as condições para que essa tarefa se possa, ou não, inscrever na actividade profissional regular. No caso de exceder o que está definido terá, necessariamente, de ser considerada a forma e compensações que permitam a realização da tarefa suplementar. O MEC não tem que promover o voluntariado dos professores para que desempenhem as tarefas que entende atribuir-lhes.
Acontece ainda que o exame a realizar hoje não assenta no nível esperado, B1, correspondente ao 9º ano, mas o nível A2, que corresponde ao 7º ano. O Instituto de Avaliação Educativa afirmou que será assim por uma questão de prudência, justificação que me fez recordar as recorrentes afirmações de Nuno Crato quando era opinador e se insurgia contra "o facilitismo" dos exames para promover estatísticas com melhor aspecto, por assim dizer. Agora, o MEC reconhece que não pode esperar que os alunos tenham as competências que deviam e ... baixa a exigência do exame em vez de tentar, tentarmos, criar as condições para que as aprendizagens esperadas aconteçam.
Por outro lado, a Associação dos Professores de Inglês também entende o nível mais baixo do exame pois com as condições de ensino actual, carga horária da disciplina  de inglês e número de alunos por sala, as aprendizagens esperadas não têm condições de se realizar.
Finalmente e ao que parece, muitas famílias não terão solicitado o certificado do exame, uma outra perplexidade. O MEC institui um exame obrigatório, com um nível "facilitado" durante a escolaridade obrigatória. Se o aluno quiser o respectivo certificado deverá pagar a módica quantia de 25 €, considerada pelo IAVE uma "oportunidade única para obter um certificado reconhecido internacionalmente a um preço simbólico”, pois no mercado “o preço normal deste certificado é de cerca de 75/80 euros”, embora, como é habitual entre nós, faz-se uma atençãozinha, os beneficiários do escalão de acção social mais elevado ficam isentos de qualquer pagamento, os do segundo escalão pagam apenas metade do valor.
Tenho umas dúvidas pequeninas, este exame, assim, serve para quê? Para aferir se os resultados em Inglês dos alunos do 9º ano ou de anos posteriores atingiram as competências do 7º ano? Qual o valor desta certificação? 
Porque é será que tudo isto deixa uma enorme sensação de desconforto e estranheza?

terça-feira, 29 de abril de 2014

ANDAR NA LINHA


(Foto de Lúcia Pedro)


Só os pássaros são capazes de não andar na linha.
Felizmente ...
... algumas pessoas voam.

A BRUTAL AUSTERIDADE NOS NASCIMENTOS

Segundo o INE, os dados de 2013 relativos aos nascimentos em Portugal vão na linha do que se verifica desde 2007, menor número de nascimentos, cerca de 83 000 crianças, que de óbitos, perto de 107 000 pessoas, mantendo-se, assim, o País em crescimento negativo e a atravessar um longo inverno demográfico.
A cada ano que passa o número de nascimento vai sendo revisto em baixa. Relembro um estudo de 2013 realizado pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa em que se evidenciava um dado já conhecido, as famílias portuguesas estão a adiar o nascimento do primeiro filho e também o adiamento do segundo ou mesmo a ausência de outros filhos por razões de natureza económica. Aliás, Portugal tem uma das mais altas taxas de filho único na Europa.
Nada de surpreendente, segundo dados da Comissão Europeia, em 2011 Portugal registou a quarta mais baixa taxa de fecundidade da União Europeia. Esta tendência que se acentua é mais uma preocupação emergente. A renovação de gerações exige 2,1 filhos por mulher sendo que desde 1982 que em Portugal não se atinge tal valor. Em 2011 tivemos 1,35 como índice sintético de fecundidade manifestamente insuficiente.
É ainda de registar que em 2010, um pouco mais de 10% dos nascimentos são crianças de mães estrangeiras, quando curiosamente temos discursos de governantes que nos aconselham, sobretudo aos mais novos, a emigrar e assim, lá longe, construir um projecto de vida. Os dados mais recentes sobre a emigração confirmam este fenómeno, a saída de muitos jovens.
Estes indicadores comprometem, obviamente, a renovação geracional, potenciando o envelhecimento populacional e o desequilíbrio demográfico que se tem acentuado fortemente a partir de 2003.
É ainda interessante sublinhar que trabalhos recentes evidenciam que as mulheres portuguesas são de entre as europeias as que mais valorizam a carreira profissional e a família. Também é sabido de outros estudos que as mulheres portuguesas são das que mais tempo trabalham fora de casa, aliás, são também das que mais tempo trabalham em casa.
Como parece claro, este cenário, menos filhos quando se desejava fortemente compatibilizar maternidade e carreira, exige, já o tenho referido, a urgência do repensar das políticas de apoio à família. Os salários baixos ou o desemprego são uma das razões que “obrigam” a que as famílias revejam em baixa, como agora se diz, os projectos relativos a filhos. Por outro lado, Portugal tem um dos mais elevados custos de equipamentos e serviços para crianças o que, naturalmente, é mais um obstáculo para projectos de vida que envolvam filhos.
Não pode ainda esquecer-se a discriminação salarial de que muitas mulheres, sobretudo em áreas de menor qualificação, são ainda alvo e a forma como a legislação laboral e a sua “flexibilização” as deixam mais desprotegidas. São conhecidas muitas histórias sobre casos de entrevistas de selecção em que se inquirirem as mulheres sobre a intenção de ter filhos, sobre casos de implicações laborais negativas por gravidez e maternidade, sobre situações em que as mulheres são pressionadas para não usarem a licença de maternidade até ao limite, etc.
Toda esta situação torna urgente a definição de políticas de apoio à família com impactos a curto e médio prazo como, por exemplo, a acessibilidade aos equipamentos e serviços para a infância com o alargamento da resposta pública de creche e educação pré-escolar, cuja oferta está abaixo da meta estabelecida bem como combater a discriminação salarial e de condições de trabalho através de qualificação e fiscalização adequadas.
Seria ainda importante, à semelhança do que se passa noutros países, a introdução de ajustamentos na organização social do trabalho, nos horários, por exemplo, que tornassem mais amigáveis e compatíveis para famílias com filhos os desempenhos profissionais. Os custos destas medidas seriam certamente compensados em várias dimensões. 
Só com uma abordagem global e multi-direccionada me parece possível promover a recuperação demográfica indispensável.

MAS AS CRIANÇAS, SENHORES ...

"Até as crianças percebem que o país empobreceu"

Mais do que perceber, as crianças sentem.
Sabe-se que entre 2009 e 2012 cerca de 500 000 crianças e jovens perderam o abono de família. Em Portugal, 28,6% das crianças estavam em situação de risco de pobreza ou de exclusão em 2011. Dados disponíveis sugerem um aumento.
Neste contexto e considerando as dificuldades genéricas das famílias massacradas por situações de desemprego e abaixamento dos rendimentos, via cortes ou ausência de apoios sociais não é difícil imaginar o enorme risco de recurso às crianças e adolescentes, mas também dos adultos, para situações de mendicidade e prostituição.
Apesar deste cenário, temos pela frente a insistência insensível e insensata num caminho de cortes nas áreas sociais e da educação, no corte insustentável no rendimento das famílias produzindo diariamente novos pobres que já nem envergonhados se conseguem sentir, tamanha é a desesperança que faz aparecer de mão estendida na escola, nas instituições ou nas ruas. 
Face a este drama dizem-nos não haver alternativa. É mentira porque existem alternativas e é crime porque se condena miúdos a passar a carências graves.
As dificuldades das famílias e o que dessas dificuldades penaliza e ameaça os mais pequenos, é demasiado importante para que não insistamos nestas questões. Todos os estudos e indicadores identificam os mais novos como o grupo mais vulnerável ao risco de pobreza que, aliás, tem vindo a aumentar.
As dificuldades que afectam directamente a população mais nova são algo de assustador. Esta realidade não pode deixar de colocar um fortíssimo risco no que respeita ao desenvolvimento e ao sucesso educativo destes miúdos e adolescentes e portanto, à construção de projectos de vida bem sucedidos. Como é óbvio, em situações limite como a carência alimentar, exploração sexual, mendicidade, insucesso educativo, estaremos certamente em presença de outras dimensões de vulnerabilidade que concorrerão para futuros preocupantes
É por questões desta natureza que a contenção das despesas do estado, imprescindível, como sabemos, deveria ser feita com critérios de natureza sectorial e não de uma forma cega e apressada, custe o que custar, naturalmente mais fácil mas que, entre outras consequências, poderá empurrar milhares de crianças para situações de fragilidade e risco com implicações muito sérias.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

COMO É QUE SE FAZ PARA SONHAR?

Professor Velho, há muita gente que fala dos sonhos que tem. Eu nunca sonho. Às vezes quando vou dormir, penso, vou sonhar. Depois adormeço e, quando acordo, ponho-me a ver se sonhei e não me lembro de nada. Gostava de sonhar também. Como é que se faz para sonhar?
Manel, eu acho que sonhar não é difícil. E podemos sonhar sem estar a dormir. Quando estamos a dormir, estamos tão distraídos que nem reparamos nos sonhos. Queres sonhar um bocado?
Claro, Velho, mas acho que não sou capaz.
És Manel. Pensa num bocadinho do mundo que tu já conheceste e de que gostaste muito.
O monte que o meu avô Xico tinha no Alentejo.
Então vamos ao monte do avô Xico. Que pessoas é que tu gostavas de encontrar lá?
O meu pai António, que já morreu, e a minha amiga Joana.
Já estou a vê-los lá no monte, tu, o teu pai António e a tua amiga Joana. E que estão a fazer?
O meu pai está a contar à gente umas histórias muito engraçadas que ele inventava. E a gente está a rir-se muito, porque ele está contar aquela história do mecânico trapalhão que avariava ainda mais os carros em vez de os arranjar.
Manel, reparaste que, sem sair daqui, fomos ao monte do teu avô Xico, encontrámos a Joana e o teu pai António que contou a história do mecânico trapalhão que nos divertiu.
Sonho bonito não achas?
Tens razão, Velho. Agora que já percebi como é, não vou parar de sonhar. Depois conto-te.

PREVISÕES, PREVISÕES, PREVISÕES. E AS PESSOAS PÁ?

"Austeridade de 30 mil milhões não chegou para cumprir meta do défice"


30 000 milhões de euros em austeridade depois, mais 12 000 milhões que o previsto, o défice público baixou mas longe das previsões e a dívida pública subiu muito significativamente, também contra as previsões.
A este "pequenino" desvio das previsões relativas ao objectivo dos objectivos, reduzir o défice e a dívida pública, acresce que o desemprego, a exclusão e pobreza, a assimetria social, o abaixamento do rendimento das famílias através de uma brutal subida de impostos e de cortes em salários, pensões e reformas também não corresponderam às previsões, teimosa e deselegantemente, subiram a níveis inaceitáveis.
A realidade, sempre a realidade, que teima em não caber na folha de Excel na qual assentam os modelos, vai promovendo o falhanço de sucessivas previsões globais.
Lembro-me de um trabalho já de há alguns meses no I sobre o que designou por o "mundo delirante das previsões da troika" centrado, naturalmente na falha clamorosa de todas as previsões elaboradas pelos especializados e geniais técnicos que administram o país exemplificando com dados relativos ao défice, ao crescimento ou ao desemprego.
Sabemos da falibilidade da obra humana mas é demasiado grave que estes gurus acompanhados, pelos seus adjuntos internos, definam um conjunto de políticas gravosas, promotoras de exclusão e pobreza assentes em falhas inaceitáveis dos seus modelos de análise e que de tal processo não se extraia uma conclusão óbvia, é necessário e urgente redefinir modelos e políticas mas na qual, como parece óbvio, os adjuntos internos da troika não estão minimamente interessados.
O resultado de tudo isto é uma persistência cega e surda e uma inabalável fé nos seus falíveis modelos, traduzidas no “custe o que custar", no cumprimento dos objectivos do negócio com a troika e mesmo na definição de objectivos de uma política "over troika", atingindo claramente o limite do suportável afectando gravemente as condições de vida de milhões. Estamos a falar de pessoas, não de políticas, ou melhor, estamos a falar do efeito das políticas na vida das pessoas.
Este "mundo delirante das previsões" da troika e dos feitores portugueses, seria um bom exemplo da conhecida metáfora do burro meteorologista, não fora a tragédia que causa na vida de milhões de pessoas.
Ao que parece, os deuses mercados têm dados sinais positivos nos últimos tempos sustentando enunciados como "o País está melhor" embora as pessoas ainda não notem. Vamos então esperar que os deuses mercados se acalmem, andaram muito nervosos e instáveis, se tornem misericordiosos e tenham piedade de nós.

Nós portámo-nos bem, empobrecemos mesmo, já merecíamos uma atençãozinha. 

OBRIGADO SENHORES ...

... por tanta generosidade.

"Governo afasta descida das indemnizações por despedimento ilegal"

Assim sendo, um processo de despedimento ilegal, ilegal, repito, não é premiado com uma descida da indemnização devida. Dito de outra maneira, resistiram à ideia de recompensar o crime.
Bem haja, pela vossa compreensão e solidariedade.
PS - Vamos ter agora eleições europeias e em 2015 realizam-se as legislativas. Honi soit qui mal y pense.

domingo, 27 de abril de 2014

VASCO GRAÇA MOURA

Partiu um Homem que sempre escreveu desacordadamente, Vasco Graça Moura.


O PAÍS ESTÁ MELHOR ...

... uns notam,


Outros não.


A FESTA DA PARQUE ESCOLAR. Os convites não chegaram para todos

Mais de 5 mil alunos ainda têm aulas em contentores


De acordo com o DN, cerca de 5000 alunos ainda têm as suas aulas em contentores, por atrasos ou suspensões nas obras de recuperação dos edifícios escolares. Retomo algumas notas.
Era, é, reconhecido por toda a gente a necessidade de modernização do parque escolar, em algumas situações inaceitavelmente degradado, pelo que o processo desencadeado sob a responsabilidade da Parque Escolar merecia concordância, independentemente da agenda político-partidária que gere os discursos das lideranças políticas.
A verificada derrapagem nas contas de muitas das obras relacionadas, que se não estranha em Portugal, têm sido apenas e lamentavelmente a "rotina" das obras geridas por capitais públicos. No caso particular da recuperação e modernização de edifícios escolares, a avaliação do que foi realizado foi mostrando algo que muitas pessoas que conhecem as escolas tinham como claro, o desajustamento de algumas soluções técnicas, o novo-riquismo saloio de alguns equipamentos e materiais, o custo exorbitante de manutenção que as soluções adoptadas implicam, etc. Estas opções, a “Festa” como lhe chamou Maria de Lourdes Rodrigues, comprometeram o desenvolvimento do programa com consequências muito negativas em várias escolas que ainda continuam em eternas obras.
Sublinho que a recuperação do parque escolar e o equipamento moderno das escolas era, é, uma exigência no sentido de dotar alunos, professores e funcionários de condições de trabalho que sustentem a qualidade que todos desejamos, não é um privilégio que se concede à comunidade escolar.
No entanto e como sempre, esse é o meu ponto, para além dos recursos e equipamentos que por direito dos miúdos devem estar disponibilizados em cada momento com a melhor qualidade possível, no fim temos as pessoas. E de facto, a escola, mais do que equipamentos e meios que se desejam de qualidade, é feita pelas pessoas, todas as pessoas, que na sua função específica lhe dão sentido e qualidade e os últimos tempos têm sido particularmente gravosos para uma parte das pessoas da escola, os professores, maltratados de forma inaceitável por várias medidas da política educativa dos últimos anos.
Desde o aparelho do MEC, na definição das políticas educativas adequadas nas mais variadas dimensões, ao trabalho das direcções das escolas e agrupamentos, ao trabalho dos professores nas suas diferentes funções, ao trabalho dos alunos e dos pais através do nada fácil trabalho educativo familiar, o exercício da responsabilidade e a intervenção individual são os mais sólidos instrumentos de qualidade ao serviço do sistema.
É nesta dimensão que me parece necessário insistir. A comunidade deve ser mais exigente face ao desempenho e à qualidade no que respeita a políticas educativas, na organização e funcionamento das escolas, no que respeita ao trabalho com os miúdos e dos miúdos, no que respeita à responsabilização e envolvimento das famílias, etc. Os meios e os recursos sendo fundamentais, só por si não garantem sucesso e qualidade.
A questão é que a actual PEC – Política Educativa em Curso, apesar de já não apostar nos edifícios, também não aposta nas pessoas e na qualidade do seu trabalho, corta custos de forma cega e está cada vez mais claramente assente numa agenda de desinvestimento na escola pública.
Essa é que é a questão, está para lá da melhor ou pior qualidade dos edifícios escolares.

sábado, 26 de abril de 2014

PERDIDO

Nascer perdido, do acaso.
Crescer perdido, do abandono.
Viver perdido, do rumo.

Amor perdido, da ausência.
Tempo perdido, do vazio.
Pensamento perdido, da descrença.
Sentido perdido, da vida.
Corpo perdido, do cansaço.
Perdido, de só.
Perdido, de sempre.

OS CUSTO ESTADO SOCIAL, OS EQUÍVOCOS

"COMISSÃO EUROPEIA

Portugal gasta menos que zona euro em despesa social"


Não sendo surpresa, evidentemente, os números são conhecidos, Portugal, considerando o PIB, tem um gasto com despesa social abaixo da média da zona euro e a situação assim continuará.
Os discursos sobre a reforma do estado, sempre entendida como cortes no chamado estado social, sutentados pela dimensão insustentável dos seus custos tentam criar uma ideia contrária na comunidade de modo a viabilizar uma agenda que, mais do que por questões de sutentabilidade e recursos, importantes de considerar, obviamente, é informada por modelos ideológicos.
Só por curiosidade e também sem estranheza, os países que mais nos "mandam" reduzir as despesas sociais, obedecidos caninamente pelos feitores que nos administram, não se encontram entre os que gastam eles próprios uma percentagem menor do PIB em despesas social com os seus cidadãos. Claro, eles são habitados por gente de primeira.
A hipocrisia de boa parte dos políticos e o endeusamento dos mercados. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

UM DIA PERFEITO

Estranhamente, porque não era hábito, levantou-se com a melhor das disposições para enfrentar mais um dia.
A mulher, já a pé a despachar os filhos para a escola, sorriu para ele. Estranhou, não era hábito. A torrada não queimou, como era hábito, e saiu de casa estranhamente bem-disposto, mas com a vaga sensação de que se tinha esquecido de algo. 
O Luís, o do café, para sua surpresa, não gozou com o seu Sporting enquanto tomava a bica, como era hábito. Mantinha a sensação de que se tinha esquecido de alguma coisa. 
A manhã de trabalho no banco foi perfeita, só clientes simpáticos e com problemas simples. Estranhou, não era hábito, a si sempre lhe tocavam os chatos que só percebem o que se lhes explica à décima vez. Continuou com a sensação de que se tinha esquecido de algo.
O almoço foi excelente no sítio do costume. Até, contra o que era hábito, o seu prato preferido ainda não tinha esgotado. Ainda deu para dar uma volta no centro comercial e cruzar-se com duas mulheres, lindíssimas, que lhe retribuíram o sorriso. Mas a sensação de que se tinha esquecido de algo continuava.
O resto do dia de trabalho correu lindamente. O Chefe, o Dr. Lopes, em vez de o chatear ao fim do dia com algum processo para despachar com urgência, como era hábito, teve quase uma hora de conversa sobre banalidades e namoradas.
Quando voltou para casa, sempre com a sensação de que se tinha esquecido de alguma coisa, os miúdos estavam entretidos a brincar, quietinhos, sem a algazarra do costume e sem o obrigarem a deitar-se no chão para os levar às cavalitas, como era hábito. A mulher, que o recebeu com um beijo daqueles de que já não se lembrava, tinha preparado um petisco de se lhe tirar o chapéu, não era hábito. A sensação de que se tinha esquecido de algo continuava.
Já tarde, contra o que era hábito, recordou com a mulher as primeiras noites de paixão. Quando, depois do dia perfeito e longo, se preparava para dormir, lembrou-se, finalmente, do que se tinha esquecido logo de manhã.
Tinha-se esquecido de acordar. Não era hábito.

O JARDINEIRO DO REINO

"Passos Coelho diz que democracia e liberdade têm de ser regadas todos os dias"

O Jardineiro do Reino esqueceu-se de referir que também é muito importante que a democracia e a liberdade sejam podadas regularmente. Assim, apesar de não o ter referido prepara mais uns cortes. 




UMA ESCOLA LÁ PARA TRÁS NO TEMPO

Nos últimos tempos, por razões que todos conhecemos e muitos sofrem não são raros os discursos de descrença e desesperança ouvindo-se enunciados como, "afinal o 25 de Abril ...", e ... "estamos como estamos".
Devo dizer que não simpatizo com este tipo de afirmações. Sendo certo que estamos atravessar tempos de chumbo e com a confiança em baixo, também é verdade que não é sequer possível comparar o país de hoje com o país de 1973. Para refrescar algumas memórias ou contar alguma história aos mais novos, deixem que vos fale da escola do meu tempo, o tempo dos anos cinquenta e sessenta. Escolho falar da escola porque é uma área que conheço um pouco melhor, mas poderia fazer o mesmo exercício em muitas outras áreas de funcionamento da nossa sociedade.
Não me esqueço, antes pelo contrário, que a nossa educação, a escola, como tudo o resto, atravessa um período complicado e com problemas muito sérios, mas só a falta de memória ou o desconhecimento sustentam o “antigamente era melhor”. Vejamos, pois, um pouco da escola do meu tempo, conversa de velho, já se vê.
A escola que havia lá para trás no tempo não era grande, nem pequena, era triste. A maioria das pessoas que por lá andavam era, naturalmente, triste.
As pessoas que mandavam na escola estabeleciam o que toda a gente tinha de aprender, fazer, dizer e pensar. Quem pensasse, dissesse ou fizesse diferente podia até sofrer algum castigo, mesmo os professores, não eram só os alunos. Não se podia inventar histórias, as pessoas contavam só histórias já inventadas. Às vezes, os miúdos e os professores, às escondidas, inventavam histórias novas. 
Eu andei nesta escola lá para trás no tempo. 
E na escola do meu tempo nem todos lá entravam e muitos dos que o conseguiam saíam ao fim de pouco tempo, ficando com a segunda ou terceira classe, como então se chamava. Chegava.
E na escola do meu tempo os rapazes estavam separados das raparigas.
E na escola do meu tempo havia um só livro e toda a gente aprendia apenas o que aquele livro trazia.
E na escola do meu tempo levavam-se muitas reguadas, basicamente por dois motivos, por tudo e por nada.
E na escola do meu tempo ensinavam-nos a ser pequeninos, acríticos e a não discutir, o que quer que fosse.
E na escola do meu tempo eu era “obrigado” a ter catequese, religiosa e política.
E na escola do meu tempo aprendia-se que os homens trabalham fora de casa e as mulheres cuidam do lar e dos filhos.
E na escola do meu tempo não aprender não era um problema, quem não “tinha jeito para a escola, ia para o campo”.
E na escola do meu tempo não se falava do lado de fora de Portugal. Do lado de dentro só se falava do Portugal cinzento e pequenino. Na escola do meu tempo eu era avisado em casa para não falar de certas coisas na escola, era perigoso.
Quem mandava no país achava que muita escola não fazia bem às pessoas, só a algumas. Ao meu pai perguntaram porque me tinha posto a estudar depois da quarta classe, não era frequente naquele meio, para ser serralheiro como ele não precisava de estudar mais.
Sim, eu sei, não precisam de me dizer que a escola deste tempo tem coisas que nos recordam a escola do meu tempo.  Mas o caminho é melhorar a escola deste tempo não é, não pode ser, querer a escola do meu tempo.
Eu andei naquela escola lá para trás no tempo. 
Por isso, quando falam da escola hoje, penso, nunca mais voltarei a andar naquela escola. E não quero que o meu neto e os outros miúdos andem numa escola como aquela, a minha escola, lá para trás no tempo.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

UMA VISÃO DA HISTÓRIA

A tentação de elaborar leituras diferentes da história é algo que dificilmente se consegue contrariar.
Em tempo de lembrar Abril, aquele Abril, aqui fica uma pequena nota de uma experiência sobre história vivida por uma amiga educadora de infância no Meu Alentejo e que já aconteceu há alguns anos.
Por alturas de um 25 de Abril lembrou-se de perguntar à miudagem que se alguém tinha uma ideia do que era o 25 de Abril.
Um dos gaiatos, cinco anos de vivacidade e experiência de vida, sempre o mais participativo e falador do grupo, explicou com toda a convicção “foi quando a tropa matou o Salazar, um velho d’um cabrão que havia aí e era ruim c´mas cobras”.
É apenas uma visão da história, há tantas.

OS VELHOS PROBLEMAS DAS VELHAS PRAXES. De novo.

Ao que parece, a tragédia envolvendo estudantes da Universidade do Minho poderá estar relacionada com uma situação de praxe académica.
Apesar de o fazer com toda a reserva que o desconhecimento dos factos impõe, a sucessão de acontecimentos com consequências muito pesadas associados a praxes académicas leva-me a retomar a questão.
Creio que no final de 2012 ou já em 2013, estruturas estudantis ligadas às praxes de nove universidades e institutos acordaram na elaboração de um documento comum que estabeleça um conjunto de princípios que permita regular os comportamentos de praxe e tentar pôr fim aos abusos que regularmente têm vindo a acontecer, alguns com consequências particularmente graves que, aliás, já motivaram a tomada de posições proibitivas por parte de algumas reitorias e direcções de escola. Esta iniciativa revela por parte dos próprios estudantes a aceitação de situações que devem ser evitadas, daí o esforço de regulação pois, apesar da argumentação sistemática com a existência dos Códigos de praxe e da possibilidade recusa ou do recurso ao Tribunal de praxe, na verdade, muitas situações ultrapassam claramente limites de diferente natureza.
Como várias vezes já aqui afirmei partindo de um conhecimento razoavelmente próximo deste universo, a regulação, mais do que a regulamentação, dos comportamento nas praxes parece-me absolutamente indispensável. Parece-me ainda importante que este movimento de regulação integre o respeito por posições diferentes por parte dos estudantes sem que daí advenham consequências implícitas ou explícitas. Estamos a falar de gente crescida e, espera-se, autodeterminada, seja numa posição favorável ou desfavorável.
Na verdade, de forma aparentemente tranquila coexistem genuínas intenções de convivialidade, tradição e vida académica com boçalidade, humilhação e violência sobre o outro, no caso o caloiro. Tenho assistido e tido conhecimento de cenas absolutamente deploráveis por mais que os envolvidos lhes encontrem virtudes.
Apesar dos discursos dos seus defensores, continuo a não conseguir entender como é que, a título de exemplo, humilhar rima com integrar, insultar rima com ajudar, boçalidade rima com universidade, abusar rima com brincar, ofender rima com acolher, violência rima com inteligência ou coacção rima com tradição. Devo, no entanto sublinhar que não simpatizo com estratégias de natureza proibicionista, sobretudo em matérias que claramente envolvem valores. Nesta perspectiva, parece-me um passo positivo a anunciada iniciativa de regulação que envolverá diferentes academias.
Quando me refiro a esta questão, surgem naturalmente comentários de pessoas que passaram por experiências de praxe que não entendem como negativas, antes pelo contrário, afirmam-nas como algo de positivo na vida universitária. Acredito e obviamente não discuto as experiências individuais, falo do que assisto.
A minha experiência como aluno  universitário, dada a época, as praxes tinham entrado em licença sabática, por assim dizer, foi a de alguém desintegrado, isolado, descurriculado, dessocializado e taciturno porque não acedeu ao privilégio e experiência sem igual de ser praxado ou praxar.
Provavelmente, advém daí a minha reserva.

EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E DESENVOLVIMENTO

"“Não conheço país nenhum que tenha conseguido o feito de Portugal”, diz Mariano Gago"

Sendo certo que importa racionalizar custos e optimizar recursos combatendo desperdício e ineficácia, o caminho que temos vindo a percorrer é justamente o contrário, o desinvestimento na educação, do básico ao superior e à investigação com custos que o futuro se encarregará de evidenciar.
Está estudada e reconhecida de há muito a associação fortíssima entre o investimento em educação e investigação e o desenvolvimento das comunidades, seja por via directa, qualificação e produção de conhecimento, seja por via indirecta, condições económicas, qualidade de vida e condições de saúde, por exemplo.
Corremos o sério risco de ver ameaçados os excelentes resultados que a investigação e as instituições de ensino superior têm vindo a alcançar.
Como em quase tudo é uma questão de escolhas e prioridades de quem lidera. O problema como referia o Professor Sobrinho Simões num entrevista sobre estas questões é que "os nossos políticos têm um problema ... alguns não se apercebem do valor do ensino superior e da investigação".

O empobrecimento e o desinvestimento em educação e conhecimento nunca poderão ser factores de desenvolvimento.

25 DE ABRIL. Traz outro amigo também

Por estes dias, para as pessoas da minha geração é impossível não falar  do 25 de Abril, daquele 25 de Abril, do nosso 25 de Abril, do meu 25 de Abril. Este ano, vai sendo hábito, o dia parece marcado por uma polémica, do meu ponto de vista inconsequente, sobre a presença de instituições ou figuras na sessão comemorativa oficial na Assembleia da República. A História tem actores, principais e secundários,  heróis ou vilões, e figurantes, mais ou menos anónimos, mas não tem donos. Tenho pena, mas não estranho. Também como nunca nos nossos dias, atravessamos tantas dificuldades, com tantos milhares de pessoas a sofrer a luta pela sobrevivência. Também por isso, voltemos à substância, o nosso 25 de Abril.
Há algum tempo, numa conversa informal com alunos, jovens, do ensino superior, alguns questionavam-me sobre como era a vida académica, e não só, antes desse 25 de Abril. Ao procurar dar-lhes um retrato desse tempo e do que era a nossa vivência diária, deu para perceber alguma perplexidade nos jovens não tanto pelas referências às grandes questões, mas, sobretudo, pelas pequenas histórias do dia-a-dia.
Histórias do clima de desconfiança e suspeição sobre a pessoa do lado que nos prendia dentro da gente; do livro que se não tinha; do filme que se não podia ver; do disco que se contrabandeava; do teatro que não se podia fazer; da conversa que se não podia ter; do professor de quem não se podia discordar; da ideia que se não podia discutir; da repressão visível e, mais pesada, invisível; do beijo que não se podia dar em público; do livro único para formar um pensamento único; de tantas outras histórias com que se tecia um mundo pequeno que nos queria pequenos.
Aquela conversa foi muito estimulante. É certo que me deixou a doce amargura da idade mas, mais interessante, fiquei convencido que aquele pessoal não permitirá nunca que se possa voltar a ter histórias daquelas para contar a gente mais nova.
Acho até que esta gente, apesar das enormes dificuldades que enfrentam para construir um projecto de vida viável e sustentado, não vai mesmo estudar para ser escrava, esta gente vai, apesar de por vezes se sentir à rasca, chegar ao futuro.
Gosto de acreditar nisto. Também por causa daquele 25 de Abril.
E porque é mais fácil e mais bonito, "Traz outro amigo também".


quarta-feira, 23 de abril de 2014

NECESSIDADES DE SAÚDE ESPECIAIS, NECESSIDADES EDUCATIVAS ESPECIAIS

"DGS propõe Plano de Saúde Individual para crianças com necessidades especiais"

Quando está a decorrer um processo de análise e eventual revisão do enquadramento legal da chamada educação especial sob a responsabilidade de um Grupo de Trabalho Interministerial e ainda uma análise no âmbito do Conselho Nacional de Educação sobre a mesma matéria, estranhamente, é colocado em discussão pública pela Direcção Geral de Saúde o Plano Nacional de Saúde Escolar prevendo a obrigatoriedade de todas as crianças e jovens com necessidades especiais de saúde terem um "Plano de Saúde Individual que dê resposta a todas as necessidades identificadas".
Mais se propõe, que este Plano decorra e assente na Classificação Internacional de Funcionalidade, um instrumento da Organização Mundial de Saúde que, numa péssima de decisão, é desde 2008 a base para determinar a elegibilidade de crianças e jovens para a educação especial. É aliás de registar que a utilização da CIF é justamente, creio, pois participei em audições com a o Grupo de Trabalho e com o CNE, uma das matérias em discussão e, eventualmente, a alterar, embora não esteja particularmente optimista ainda que fosse uma medida adequada.
No Plano agora em discussão, estabelece-se a situação de Necessidades de Saúde Especiais, identificadas por referência à CIF que se considera como a "que resulta de problema de saúde com impacto na funcionalidade e necessidade de intervenção em meio escolar, como sejam, irregularidade ou necessidade de condições especiais na frequência escolar e impacto negativo no processo de aprendizagem ou no desenvolvimento individual" (Pág. 15 da proposta).
Parecem-me claro os objectivos e o quadro estabelecido, partindo do princípio que as equipas de Saúdes Escolar e demais estruturas de saúde possuirão os meios e recursos necessários à resposta adequada, oportuna e próxima.
No entanto, esta proposta coloca-me algumas questões. Se os problemas de saúde são identificados por referência à CIF e incluem as situações que envolvem "irregularidade ou necessidade de condições especiais na frequência escolar e impacto negativo no processo de aprendizagem ou no desenvolvimento individual",  estas implicam Necessidades EDUCATIVAS especiais, portanto, quem procede à avaliação das questões que do ponto de vista da educação, repito da educação, estão envolvidas? Os técnicos da saúde? Continuamos com os equívocos actuais e que alimentam enormes ambiguidades e modelos desajustados de resposta embora se constituam como interessante nicho de mercado.
Por outro lado, baseando-se a definição das Necessidades Especiais de Saúde na CIF, sem estranheza uma vez que se trata de um instrumento criado e desenvolvido para se aplicar no universo da saúde, continuará a CIF a ser utilizada para definir elegibilidade de crianças e jovens para EDUCAÇÂO, repito, EDUCAÇÃO, especial, algo que nunca deveria ter acontecido, sobretudo na idade escolaridade obrigatória?
Estando em estudo a revisão do actual quadro, envolvendo um grupo interministerial, não seria avisado clarificar e articular conceitos, legislação e modelos de resposta?
As questões no âmbito da saúde que envolvem as pessoas são, creio que ninguém tem grandes dúvidas, matéria de competência e conhecimento dos profissionais do universo da saúde, tal como as questões sobre educação, ensino e aprendizagem são matéria de competência dos profissionais da educação. Parece-me razoavelmente claro.
Vejamos o que daqui vai resultar.

UM HOMEM CHAMADO NÃO SE SABE O QUÊ

Era uma vez um homem chamado Não Se Sabe O Quê.
Tinha vindo de algures e vivia não se sabe onde. Teria, ou não, uma família que não se conhecia e de quem não falava. Aliás, o homem, praticamente, não falava, apenas trabalhava, fazendo tudo o que lhe pedissem sem a menor reserva.
Fora do trabalho, estava não se sabe onde, fazendo não se sabe o quê. Quando se conseguia olhar nos seus olhos, o que era raro, eles parecia sempre olhar para longe, não se sabe para onde.
Nos intervalos do trabalho ficava num canto, com ar de quem estava a pensar, não se sabe em quê. Alguns colegas disseram que, às vezes, parecia que chorava, não se sabe porquê.
Um dia, levaram-no, não se sabe para onde.
O seu verdadeiro nome era Clandestino.

EXAMES, EXAMES, MAIS EXAMES. A poção mágica

"Matemática e Português vão ser provas de ingresso no superior para futuros professores"

Como tinha sido anunciado e na senda da profissão de fé do Ministro Nuno Crato nos exames como a poção mágica que promove qualidade, os candidatos a professores do ensino básico terão de realizar exames em Português e Matemática para ingressar no ensino superior. O MEC afirma que estes exames visam garantir a "a sólida formação" dos futuros professores. A sério?! Será que alguém acredita mesmo neste efeito?
Como salienta o Presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, nenhum estudo sustenta que esta prova à entrada seja o garante da qualidade da formação à saída.
Sendo certo que importa promover a qualidade da formação de professores, a regulação dessa qualidade deve assentar no período da formação e não no seu acesso com um exame a Português e Matemática. A qualidade da formação dos docentes regula-se através dos planos e conteúdos curriculares, da qualificação dos corpos docentes das instituições de formação, das metodologias de formação utilizadas, entre outras dimensões.
À semelhança do que existe noutros países e em Portugal já tivemos, poderá instituir-se como forma de acesso à profissão, à carreira, não no acesso à formação, um dispositivo como um ano probatório, experimental, etc., durante o qual se possam avaliar as competências e capacidades para o exercício da docência.
Um dispositivo desta natureza pode, de facto, ser um contributo para promover a qualidade e preparação de quem se propõe iniciar a sua carreira de professor.
A realização de um exame de Português e Matemática para definir a entrada na formação  de professores do Ensino Básico é uma peça avulsa, sem sustentação que não seja a convicção misteriosa que o Professor Nuno Crato expressa recorrentemente de que se medir muitas vezes a febre, a febre acabará por baixar.
Não é verdade.

DIA MUNDIAL DO LIVRO. As letras nunca se acabam

Porque hoje o calendário das consciências determina que se reconheça o Dia Mundial do Livro, aqui fica uma história velha com livros dentro.
Um dia destes a Ana entrou na biblioteca da escola para entregar uns livros ao Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros. A Ana ia muito concentrada e sentia-se importante na tarefa de responsabilidade que a professora lhe tinha encomendado, a devolução de uns livros.
O Professor Velho aproveitou e como estava arrumar alguns que tinham chegado, mostrou um novo à Ana que começou a folheá-lo e a tentar a leitura, a Ana está a iniciar-se nessa tarefa e ainda tropeça um pouco, é o seu primeiro ano de escola.
De repente, ficou com um ar apreensivo e interroga o Professor Velho.
Velho, as letras podem acabar?
Como assim Ana? Não estou a perceber o que queres dizer com isso.
Todos os livros têm palavras e as palavras têm letras. Eu estou a perguntar se as letras se podem acabar.
Já percebi. Não Ana, as letras não se acabam. Tu já sabes escrever letras?
Já e também já sei escrever palavras com as letras.
Então, se tu és capaz de fazer letras e todas as pessoas que sabem escrever também são capazes de fazer letras, as letras nunca vão acabar. A gente escreve sempre mais para tudo o que precisar.
Ainda bem que as letras não se acabam, assim vamos sempre ter livros novos para ler.
Tens toda a razão. E propósito de livros novos, faz-me um favor, leva estes para a tua professora ver e vos mostrar.
Adeus Velho, o primeiro é para eu ler.
Claro.

A REALIDADE ESTÁ ENGANADA

"“A política que foi seguida foi a que o realismo impunha”, defende-se Passos Coelho"

Como repetidamente tenho escrito, torna-se muito difícil entender a persistência insensível e insensata, cega e surda, neste caminho de “custe o que custar", no cumprimento dos objectivos do negócio com a troika e dos objectivos de uma política "over troika", atingindo claramente o limite do suportável e afectando gravemente as condições de vida de milhões de milhões. Estamos a falar de pessoas, não de políticas ou números, ou melhor, estamos a falar do efeito das políticas na vida das pessoas.
Com uma cumplicidade e fidelidade canina que embaraçam, os feitores e os donos dos destinos conceberam, concebem, uma devastadora situação da qual releva o aumento brutal de situações de pobreza, bem acima das estatísticas oficiais, o aumento fortíssimo do desemprego e do número de pessoas desempregadas sem subsídio de desemprego, o abaixamento dos apoios sociais, a pobreza a afectar crianças e idosos, sempre os grupos mais vulneráveis, a manutenção de simetrias gritantes na distribuição da riqueza, enfim, um inferno para milhões de portugueses.
Creio que já ninguém consegue sustentar a insistência neste caminho. Aliás, até mesmo do FMI se ouviram vozes contestando o "excesso de austeridade" e são conhecidas as falhas nas previsões e modelos econométricos que iluminam as políticas seguidas.
Na verdade, o caminho decidido, por escolha de quem o faz, é bom registar que existem alternativas, está a aumentar assimetrias sociais e obviamente a produzir mais exclusão e pobreza mas, insisto, mais preocupante é a insensibilidade da persistência neste caminho.
Com este terramoto social e económico ainda se insiste no discurso do “bom caminho”, do "único caminho". Isto indigna até à raiva, nós estamos pobres e vamos continuar pobres.
Nós precisamos de combater a assimetria da distribuição da riqueza e produzir mais riqueza, precisamos de combater mordomias e desperdício de recursos e meios ineficientes e muitas vezes injustificados que alimentam clientelas e interesses outros. Nós precisamos de combater a teia de protecção legal e política aos interesses dos mercados e dos seus empregados que conflituam com os interesses das pessoas.
O que precisamos é de coragem e visão sem subserviência ao ditado dos mercados e dos seus agentes para definir modelos económicos, sociais e políticos destinados a pessoas e não a mercados ou a grupos minoritários de interesses.

terça-feira, 22 de abril de 2014

DESALINHADA MENTE

Desencontrada mente.
Inesperada mente.
Activa mente.
Inoportuna mente.
Desalinhada mente.
Surpreendente mente.
Viva mente.
Simples mente.
Feliz mente.
Nós,
Os Miúdos.

A PEGADA ÉTICA

"Cavaco contra faits divers, intrigas, agressividades, crispações e insultos na política"

O Presidente da República entendeu por bem referir-se hoje ao mau ambiente e comportamento que vai por Portugal na vida pública. No seu jeito de Mestre Escola antigo, lembro-me dos ralhetes do Reitor do Liceu, ralhou com os meninos mal comportados e afirmou que temos de ser "amiguinhos", temos que nos portar bem, o mau ambiente o mau comportamento não nos deixam ter boas notas e progredir.
Cavaco Silva fez muito bem ao expressar a sua preocupação com o ambiente da República. No entanto, há um irrelevante pormenor, Cavaco Silva é o político em actividade com mais tempo de poder político, ou seja, Cavaco Silva é parte do problema, não é parte da solução para os problemas de ambiente na cena política portuguesa. De há muito que me refiro a esta questão, a dimensão ética da nossa vida cívica e política.
Como todos sabemos, o despertar das consciências para as questões do ambiente e da qualidade de vida colocou na agenda a questão das pegadas, das marcas, que imprimimos no mundo através dos nossos comportamentos. Este novo sentido dado às pegadas tornou secundárias e ultrapassadas as míticas pegadas dos dinossauros e as românticas pegadas que os pares de namorados deixam na areia da praia.
Fomo-nos habituando a ouvir referências às várias pegadas que produzimos com nomes e sentidos mais próximos ou mais distantes mas, sobretudo, tem-se acentuado a grande preocupação com a diminuição do peso, isto é, do impacto das nossas pegadas. Conhecemos a pegada ecológica numa perspectiva mais global ou, em entendimentos mais direccionados, a pegada hídrica, a pegada energética, a pegada verde, a pegada do papel, a pegada do carbono, etc.
No entanto, do meu ponto de vista e sempre preocupado com o ambiente, com a qualidade de vida e com a herança que deixaremos a quem nos segue, nunca encontro referências e muito menos inquietações sérias com a pegada ética, isso mesmo, a pegada ética.
Os comportamentos e valores que genericamente mobilizamos têm, obviamente, uma consequência na qualidade ética da nossa vida que não é despicienda. Os maus-tratos e negligência que dedicamos aos princípios éticos mais substantivos provocam um empobrecimento e degradação do ambiente e da qualidade de vida das quais cada vez parece mais difícil recuperar.
As lideranças, as várias lideranças de diferentes áreas, hipotecando a sua condição de promotores de mudanças positivas são fortemente responsáveis pelo peso e impacto que esta pegada ética está a assumir.
Vai sendo tempo de incluir a pegada ética no universo da luta pelo ambiente, pela qualidade vida e pelo futuro.
Em termos mais pragmáticos e face aos numerosos e despudorados incidentes que regularmente surgem, talvez fosse de considerar a instalação urgente de uma ETAR – Estação de Tratamento do Ambiente da República.
Gostava de acreditara que ainda estaremos a tempo de recuperar o ambiente da República. Haverá ETAR que responda?

O TERCEIRO PERÍODO, O DAS EXPLICAÇÕES.

"Terceiro período, o tempo das "explicações""

Umas notas minhas no Público sobre o período escolar que agora começa.
Bom trabalho.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A EXPLICAÇÃO. Outro diálogo improvável

Um destes dias, no início das aulas do terceiro período, andava o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, pelo recreio quando se cruzou com o Diogo um miúdo reguila e atento que sempre que se encontram tem alguma inquietação a partilhar com o Velho.
Olá Diogo, tudo bem?
Não Velho está tudo mal, já estou cansado. Tu que és Professor e Velho explica-me uma coisa. Porque é que é preciso explicação?
Explicação?! Não percebo.
No segundo período tive negativa a Inglês e a Matemática O meu pai explicou-me que eu precisava de uma explicação. Eu expliquei ao meu pai que estando um bocado mais atento, se estudasse mais e se falasse com os setores, talvez não precisasse de explicação. O meu pai explicou-me que eu não posso chumbar ou mesmo passar com notas muito baixas, por isso era melhor a explicação. Expliquei ao meu pai que muitas pessoas estudam e fazem os cursos sem ter sempre notas altas e mesmo, às vezes, até chumbam, mas depois ficam bons nas profissões. Expliquei ao meu pai que na escola, a seguir às aulas tenho apoio ao estudo e a DT disse que vamos ter ajuda nas disciplinas mais fracas. O meu pai explicou-me que pode não chegar porque somos muitos e, portanto, era melhor uma explicação fora da escola com menos miúdos. Expliquei ao meu pai que saio da escola já tarde, a seguir ia para a explicação, ele disse três dias por semana, e depois ainda tenho que fazer o TPC das outras disciplinas. Ele explicou-me que é preciso muito trabalho para se ser alguém na vida e eu expliquei-lhe que tenho a certeza que vou ser alguém na vida, ser um Diogo é já ser alguém, mas ele explicou-me que ele é que sabe o que é melhor para mim. Velho, estás a ver como já estou cansado. Conheces alguma explicação para pais que não percebem a explicação dos filhos?
Bem, ...

A LER ... SOBRE A DIFERENÇA

"Para onde está a olhar?"


Como sempre afirmo, os níveis de desenvolvimento das comunidades também se aferem pela forma como cuidam das minorias.
No entanto, também nesta matéria sopram ventos adversos.

VOLTEMOS À REALIDADE

"Empresas não vão mexer nos salários e mostram vontade de aumentar pessoal"


"CGTP e CCP exigem que Governo clarifique cortes nas pensões e na função pública"

Pronto, o benfiquismo comemorou o campeonato, a poeira está a assentar e a vida continua. 
Para que não tenhamos surpresas, o trajecto de empobrecimento e proletarização que nos levará à salvação e aos amanhãs que cantam, continua a cumprir-se.
Que siga, pois, ... a vida, melhor, a sobrevivência. 

domingo, 20 de abril de 2014

A CHAMA IMENSA

Ser benfiquista é ter na alma a chama imensa.


Eu estive lá.

OS CUSTOS DA ESCOLARIDADE OBRIGATÓRIA GRATUITA

"Escolas pedem dinheiro para material e visitas de estudo"


A propósito dos custos de frequência da escolaridade obrigatória, recordo um estudo da Nielsen segundo o qual as famílias portuguesas iriam em média 525 euros no início das aulas. Estes custos têm vindo a aumentar sendo que em 2010, a média foi de 499 euros, em 2012 foi 507 euros e agora atingirá 525 euros.
Como é sabido no quadro constitucional vigente, lê-se no Artº 74º (Ensino), “Na realização da política de ensino incumbe ao Estado: a) Assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito; 
Desta leitura resulta de forma que creio clara a veiculação do Estado ao providenciar a escolaridade obrigatória de forma gratuita.
Acontece que, como é conhecido e reconhecido, o ensino obrigatório nunca foi gratuito nem universal, veja-se as taxas de abandono e os custos incomportáveis para muitas famílias dos manuais e materiais escolares num quadro em que a acção social escolar é insuficiente e tem vindo a promover sucessivos ajustamentos nos volumes de apoio disponibilizados
Num tempo em que a Constituição está sob escrutínio e é vista como bloqueio a iniciativas, sobretudo no âmbito dos direitos e garantias, e também num tempo em que o estado social e a escola pública estão sob ameaça e sabendo-se que somos um dos países europeus com maior assimetria na distribuição da riqueza, importa prevenir o risco acrescido de potenciar a instalação de condições de insucesso escolar, abandono e, finalmente, da dificuldade de acesso à qualificação que alimenta a mobilidade social, discriminação nas oportunidades estando assim comprometido o direito à educação.

A FALHA DO ARTISTA NO TEMPO DAS MARMITAS

A peça do Público sobre o abaixamento das refeições consumidas nos refeItórios universitários e o regresso da "marmita"  com o almoço trazido de casa, outro sinal  dos tempos, recordou-me um longínquo episódio que carrego num cantinho da mochila e de que não me orgulho particularmente.
Tendo terminado a 4ª classe e não havendo liceu oficial na margem sul, o Externato Frei Luís de Sousa era inacessível, os meus pais entenderam que com 9 anos era complicado ir para Lisboa, não havia ainda a ponte sobre o Tejo e a escola mais perto dos barcos era o velho Passos Manuel. Assim, com ajuda de uns familiares mais “letrados”, encontraram uma antiga professora que fazia “ensino doméstico” em Almada com um grupo pequeno que estava oficialmente matriculado no Liceu Camões, onde fomos fazer os exames do 1º ciclo do liceu como alunos externos onde, curiosamente, estive há pouco tempo num encontro com professores.
Mesmo assim era uma experiência. Apanhava um autocarro para Cacilhas e um outro para Almada descendo na zona “nobre”, mesmo à beira do mítico Café Central onde viria a fazer boa parte do meu percurso estudantil. Acontece ainda que essa paragem era das mais frequentadas de Almada tendo sempre gente.
Quase à porta do Central, com público garantido, estavam reunidos os ingredientes necessários para uma bela exibição da rapaziada em crescimento no corpo e no juízo, descer dos autocarros com estes ainda em andamento.
Com alguma imodéstia, não era mau na performance e a adrenalina da assistência fazia desafiar a velocidade do desempenho.
Claro que a coisa um dia correu mal. Como de costume, abri a porta dos velhos autocarros da Piedense, olhei para a potencial plateia, antecipei o aplauso e lancei-me. Faltou velocidade e cumprimento nas pernas e o resultado foi lastimável. Espalhei-me ao comprido. Quando olhei para o meu lado estava o saco donde escorria a sopa que levava para o almoço, comer fora era um luxo. Usava uma daquelas marmitas antigas de “dois andares” encaixados, um para a sopa e outro para o “conduto”, também ele a sair do saco misturado com a sopa e eu com as calças rasgadas, joelhos e mãos a sangrar, a olhar de soslaio para a assistência, esperando ouvir a todo o momento um monumental assobio pela actuação desastrada.
Juntos os cacos do almoço e da minha auto-estima estilhaçada e reprimindo as lágrimas que as esfoladelas sérias de joelhos e mãos pediam, afastei-me com um ar que, quero acreditar, convenceu aquela a gente a não patear o infortunado artista.
Embora actualmente não passe com regularidade por ali, quando o faço, sinto ainda que estão a olhar para mim e para a minha marmita e aberta com o meu almoço espalhado pelo chão.
Inconscientemente, ando um bocadinho mais depressa.

sábado, 19 de abril de 2014

AS FACES OCULTAS

"Imunidades dos deputados e governantes da Madeira bloqueiam mais de 60 processos nos tribunais"

Outra vez e sempre, as vezes que forem necessárias.  
A roda livre de impunidade e incumprimento dos mais elementares princípios éticos quando não da lei, produziu nas últimas décadas uma verdadeira família que, à sombra dos aparelhos partidários e através de percursos políticos, se movimentam num tráfego intenso entre entidades e empresas públicas e entidades privadas, envolvendo-se frequentemente em negócios que insultam os cidadãos. 
Esta família alargada envolve gente de vários quadrantes sociais e políticos com uma característica comum, os negócios obscuros, e tem membros destacados como Oliveira e Costa, Jardim Gonçalves, Dias Loureiro, Duarte Lima, Isaltino Morais, Penedos, Vara e tantas outras faces mais ou menos ocultas, mais ou menos mediatizadas, mais ou menos discretas na função ou no comportamento.
Acontece ainda e isto tem efeitos devastadores, que muitos dos negócios que esta família vai realizando, envolvendo com frequência dinheiros públicos e com pesados encargos para os contribuintes.
Entretanto, do outro lado desta família que se protege e apoia, com a cooperação estratégica de um sistema de justiça forte com os fracos e fraca com os fortes, temos milhões de portugueses em situações de pobreza e exclusão e a esmagadora maioria da população esmagada por políticas de austeridade que sacrificam a dignidade e ameaçam a sobrevivência.
Todos os membros desta família, quando questionados sobre os seus negócios ou envolvimento em algo, afirmam, invariavelmente que tudo é feito tudo dentro da lei, nada de incorrecto e, portanto, estão sempre de consciência tranquila.
Alguém poderia explicar a esta gente que, primeiro, não somos parvos e, segundo, o que quer dizer consciência.
Esta é a pantanosa pátria, nossa amada. 

A SÉRIO?

"Jardim Gonçalves. "Quem domina os bancos chega a todo o lado""

O Eng. Jardim Gonçalves é um homem reconhecidamente competente nesta matéria. E noutras, evidentemente.

NÃO. DEFINITIVAMENTE, NÃO SOMOS UM PAÍS DE DOUTORES

"Há menos estudantes do secundário a querer tirar um curso superior"


O preocupante abaixamento do número de alunos que terminado o 12º ano pretende continuar a estudar parece ter como causa mais provável as dificuldades económicas das famílias que também explica o abandono de muitos alunos já durante a frequência do curso.
No entanto, temo que o número relativamente baixo de alunos com a intenção de adquirir formação de nível superior possa também estar ligado à perversa e errada ideia do “país de doutores” que, muitas vezes com o auxílio de uma imprensa preguiçosa e negligente, se foi instalando a propósito do número de jovens licenciados no desemprego e da conclusão de que “não vale a pena estudar”, um verdadeiro tiro no pé e que não corresponde de todo à verdade. Desculpem a insistência mas é preciso.
Em primeiro lugar, os jovens licenciados não estão no desemprego por serem licenciados, estão no desemprego porque temos um mercado pouco desenvolvido e ainda insuficientemente exigente de mão-de-obra qualificada e muitos estão no desemprego porque, por desresponsabilização da tutela, a oferta de formação do ensino superior é completamente enviesada distorcendo o equilíbrio entre a oferta e a procura.
A qualificação profissional, de nível superior ou não, é essencial, continuamos com taxas de formação superior abaixo das médias europeias, como também é essencial a racionalidade e regulação da oferta do ensino superior e, naturalmente, a regulação eficaz do mercado de trabalho minimizando o abuso do recurso à precariedade. É ainda de sublinhar que conforme um estudo recente, "Empregabilidade e Ensino Superior em Portugal", da responsabilidade da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior a qualificação de nível superior compensa em termos de estatuto salarial e empregabilidade, como aliás estudos internacionais, por exemplo da OCDE, também demonstram. Embora como recentemente foi divulgado os vencimentos médios estejam em quebra a situação ainda se verifica.
Por outro lado, parece oportuno recordar que, de acordo com o Relatório da OCDE, Education at a glance 2013, Portugal é um dos países europeus em que a frequência de ensino superior mais depende do financiamento das famílias, cerca de 31% dos gastos de universidades e politécnicos. A média da OCDE é 32% e a da União Europeia (UE) 23,6%.
Esta informação não é nova. Na verdade e como é do conhecimento das pessoas mais perto deste universo, o ensino superior, Portugal, contrariamente ao que muitos afirmam, tem um dos mais altos custos de propinas da Europa. Conforme dados de 2011/2012 da rede Eurydice, Portugal tem o 10º valor mais alto de propinas na Europa, mas se se considerarem as excepções criadas em cada país, temos na prática o terceiro custo mais alto no valor das propinas.
Em 2012 foi divulgado um estudo realizado pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa que contribui para desmontar um equívoco que creio instalado na sociedade portuguesa. Comparativamente a muitos outros países da Europa, Portugal tem um dos mais altos custos para as famílias para um filho a estudar no ensino superior, ou seja, as famílias portuguesas fazem um esforço bem maior, em termos de orçamento familiar, para que os seus filhos acedam a formação superior. Neste cenário, o número de desistências da frequência tem vindo a aumentar pois muitos alunos ou famílias não suportam os encargos com o estudo. Sabe-se também dos constrangimentos na atribuição de bolsas de estudo.
Como sempre que abordo estas matérias, finalizo com a necessidade de, uma vez por todas, evitar o discurso "populista" do país de doutores, continuamos com uma enorme probabilidade não cumprir a meta europeia para 2020 de 40% de licenciados no escalão etário 30-34 anos.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

NOTA BIOGRÁFICA

"Trabalhadores de call centers criam sindicato para dignificar profissão"

A propósito da iniciativa de trabalhadores de "call center" no sentido de criar um sindicato que contribua para mais e melhor protecção laboral, justificada, aliás, como algumas referência na imprensa têm mostrado retomo um texto antigo. Confesso que o conhecimento deste mundo me levou a ter uma atitude diferente, mais paciente e tranquila com quem me aparece do outro lado da linha em múltiplas circunstâncias.

Nome: Um Número
Idade: 32
Habilitações Académicas: Licenciatura em Gestão Integrada de Contextos Profissionais; Pós-graduação em Promoção de Oportunidades
Morada: Casa dos pais
Profissão: Procurador de emprego
Experiência profissional: Funcionário de Call-center em variados contextos de operação; Experiência de Empregado de Balcão em grandes superfícies comerciais
Competências adquiridas: Elaboração diversificada de currículos; Ocupação criativa dos  tempos de espera em filas do Centro de Emprego; Preparação de entrevistas de emprego; Técnicas de sobrevivência e adaptação a contextos profissionais de exploração e sem dignidade; técnicas de sobrevivência económica
Projecto a curto prazo: Encontrar alguma forma de subsistência que não a generosidade familiar
Projecto a médio prazo: Um trabalho na área de qualificação
Projecto a longo prazo: Uma vida decente
Projecto quase perdido: Esperança

VERDES SÃO OS CAMPOS

Uma pausa nas lidas, a do Monte e a profissional, desafiou-nos para um limpar de alma numa deambulação pelo Meu Alentejo, o Alto, desta vez.
Uma viagem em dois cenários.
Primeiro, o dos verdes campos, que a generosidade de um Inverno com água bem chovida e estes dias criadores enchem de um verde salpicado de branco e de amarelo dos malmequeres, com um volume e uma intensidade que nos deixa a olhar sem tempo.

                                 

O segundo cenário, mais alto, mais perto do céu, a Serra de S. Mamede, com o rosmaninho, a giesta de um amarelo que compete com o Sol e, sobretudo, um dos milagres da natureza, a flor das estevas, uma peça de filigrana delicada.

Foi bonita a festa.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

PARTIU GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ





Partiu Gabriel García Márquez, outro dos Homens que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando.
A morte não paga fraquezas mas também não fará esquecer grandezas, era apenas um Homem.

O DESTINO



(Foto de Adriane)

O destino,
de quem por destino tem,
andar sem destino,
à procura de um destino,
que destinado está.

E VAI FAZER O QUÊ?

"Cavaco defende que chegou o momento de corrigir injustiças sociais"

Talvez seja de esperar que realize o que tem realizado até aqui, aquela coisa chamada de magistratura de influência que ... não influencia nada. Ou quase.
O Presidente da República pode também insistir no apelo aos consensos, aos compromissos, aos pactos, etc. que todos sabemos impossíveis face à conflitualidade de interesses da partidocracia em que a democracia se transformou. Ou quase.
Também pode, de vez em quando, dizer isto mesmo ou repetir com fórmulas diferentes, de nada adiantae. Ou quase.
O efeito é zero. Ou quase