Ainda à boleia do Dia da Criança e da atenção ao seu bem-estar. Há uns dias encontrava-se no Público uma peça impressionante sobre o número de crianças que sofrem queimaduras em acidentes domésticos. A unidade de queimados do Hospital de S. João sublinha a preocupação com estes acidentes, na sua grande maioria evitáveis e que continuam a acontecer. Em 2025, 80 crianças precisaram de internamento devido a queimaduras, em 2024 tinham sido 100, em 2023 registaram 93 e em 2022 foram 97.
No caso do Hospital de S. João a
maioria das situações de queimadura acontece com crianças com menos de 5 anos,
cerca de 60 casos por ano, seguindo o grupo etário dos 5 aos 9.
De acordo com Miguel Campos,
director do serviço de cirurgia pediátrica do São João, tem subido o número de casos no grupo 10 a 14
anos e de 2018 a 2023, registaram-se 1552 atendimentos na urgência por
queimaduras a que acresce a realização de 1258 primeiras consultas, a que podem
recorrer doentes que já estiveram internados no passado ou crianças com
queimaduras que não necessitem de internamento.
A questão crítica é que continuamos
a ser um dos países europeus em que acontece maior número de acidentes
domésticos com crianças. Nas mais das vezes verifica-se alguma negligência ou
excesso de confiança da nossa parte, adultos, na vigilância dos miúdos e no
acautelar dos riscos a que se junta a inexperiência e a curiosidade activa própria
dos mais pequenos.
A dor e a culpa que alguém pode
carregar depois de episódios desta natureza serão, creio, suficientemente
fortes para que deixemos de lado o aspecto da culpabilização que aqui nada
acrescenta.
O que me parece importante
sublinhar é que num tempo em que os discursos e as práticas sobre a protecção
da criança estão sempre presentes, também se verifica um número altíssimo de
acidentes, o que parece paradoxal. Por um lado, protegemos as crianças de forma
e em circunstâncias que, do meu ponto de vista, me parecem excessivas e, por
outro lado, em muitas situações adoptamos atitudes e comportamentos altamente
negligentes e facilitadoras de acidentes que, com demasiada frequência, têm
consequências trágicas.
E não adianta pensar que só
acontece aos outros.
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