É claro que não é por muito falar
dos problemas que eles se resolvem ou minimizam. No entanto, também me parece
que não insistir pode contribuir para uma menor atenção a situações muito séria
e atentatórias dos direitos das pessoas. É o caso das pessoas em situação de
sem-abrigo, uma situação que nos deveria envergonhar como comunidade, sendo o
desemprego e a precariedade laboral as principais causas. Talvez este dado seja
de ter em conta na discussão em aberto relativa à alteração das leis laborais.
Assim, a propósito da notícia de
que o coordenador da Nova Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em
Situação de Sem Abrigo 2025-2030 pediu para sair, voltemos a insistir.
Dados da Estratégia Nacional para
a Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA), referem a
existência de mais 14.400 pessoas estavam em situação de sem-abrigo no final de
2024. Verifica-se um aumento 1348 casos de pessoas nesta situação.
Em Lisboa e no Porto a situação
mais prevalente é situação de sem-abrigo entre um ano e menos de cinco. No
Algarve 36% das pessoas vivem nesta situação há um ano ou menos e em 29% dos
casos este período é desconhecido o tempo em que estão sem-abrigo.
É relevante que 345 pessoas
tenham deixado a situação de sem-abrigo em 2024, a maioria na região Norte,
444, e na Área Metropolitana de Lisboa, 314. É uma subida relativamente aos
dados de 2023, 987 pessoas que deixaram de estar na situação de sem-abrigo.
No entanto, parece-me que não
devemos esquecer que continua a ser muito grande o mundo dos sem-abrigo. São
muitos, demasiados, os sem-abrigo do mundo, boa parte integra aquela
percentagem que a sondagem nunca mostra de que fala Sam The Kid.
São muitos, os sem-abrigo num
porto que os acolha, uma casa, uma família, um espaço a que dêem vida e que
lhes apoie a vida.
São muitos, os sem-abrigo, mesmo
com família ou em instituições.
São muitos, os sem-abrigo no
afecto, nos afectos, sem um coração que os abrigue.
São muitos os sem-abrigo em
escolas onde não cabem.
São muitos, os sem-abrigo em
mundos que não são seus. São muitos, os sem-abrigo em culturas que não entendem
e que não querem entendê-los.
São muitos, os sem-abrigo num
corpo que seja aconchego para o seu corpo.
São muitos, os sem-abrigo em
valores que cada vez mais parecem predominar e que não os reconhecem.
São muitos, os sem-abrigo em
vidas que lhes não pertencem, mas carregam. São muitos, os sem-abrigo no aceder
e no gostar das coisas de que a vida também se tece.
Como referi, muitos destes sem
abrigo vivem à nossa beira, sem-abrigo, não contabilizados, nem
contabilizáveis.
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