Desta vez na Maia, um menino de três
anos faleceu em consequência da queda de um 4.º andar, como em Julho uma menina
de seis anos ficou ferida nas Caldas da Rainha e em Fevereiro faleceu uma
criança de seis anos em Vila Franca de Xira.
O povo costuma dizer que “ao
menino e ao borracho, põe Deus a mão por baixo". Desta vez não, a tragédia
foi definitiva. Dada a regularidade destes episódios retomo algumas notas.
De acordo com a Associação para a
Promoção da Segurança Infantil, as quedas são a quarta causa de morte acidental
e a primeira razão para recurso ao número de emergência 112 e necessidade de
internamentos. Num relatório produzido pela APSI (não encontrei dados mais
recentes) em 2022 referia-se que em Portugal, entre 1992 e 2020, mais de 6500
crianças e jovens morreram na sequência de um traumatismo e lesão não
intencional ou acidente. Acresce que, entre 2000 e 2021, quase 150 mil crianças
e jovens foram internados na sequência de um acidente. Realizaram-se cerca de
200 mil chamadas de emergência por causa de acidentes nesse mesmo período.
Continuamos a ser um dos países
europeus em que acontecem maior número de acidentes domésticos com crianças.
Nas mais das vezes verifica-se alguma negligência ou excesso de confiança da
nossa parte, adultos, na vigilância dos miúdos a que se junta a inexperiência e
o à-vontade próprios dos mais pequenos. Também as piscinas continuam anualmente
a ser palco de acidentes com alguma gravidade ou fatais.
No caso particular das varandas é
inaceitável a quantidade de varandas que se continuam a ver com gradeamentos
construídos na horizontal, uma escada convidativa para a escalada de crianças
pequenas como acontece com qualquer aparelho de um parque infantil. Importa uma
regulação mais eficiente (e cumprida) da construção, em particular no que
respeita a varandas e gradeamentos
A dor e a culpa que alguém pode
carregar depois de episódios desta natureza serão, creio, suficientemente
fortes para que deixemos de lado o aspecto da culpabilização que aqui nada
acrescenta.
O que me parece importante
sublinhar é que num tempo em que os discursos e as práticas sobre a protecção
da criança estão sempre presentes, também se verifica um número altíssimo de
acidentes, por vezes mortais, o que parece paradoxal. Por um lado, protegemos
as crianças de forma e em circunstâncias que, do meu ponto de vista, me parecem
excessivas e, por outro lado, em muitas situações adoptamos atitudes e
comportamentos altamente negligentes e facilitadoras de acidentes que,
frequentemente, têm consequências trágicas.
E não adianta pensar que só
acontece aos outros.
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