terça-feira, 8 de setembro de 2026

A PROPÓSITO DO PISA 2025

A existência de avaliação externa nos sistemas educativos é uma ferramenta imprescindível de regulação e promoção da sua qualidade embora, só por si, não a garanta. Esta avaliação externa pode ser realizada em diferentes patamares e dispositivos de que exames, provas de aferição ou estudos comparativos internacionais de desempenho dos alunos como o PISA ou o TIMSS são exemplos.

Nesta perspectiva, é sempre com interesse que se aguardam resultados destes dispositivos.

Vem esta introdução a propósito da divulgação dos resultados do PISA 2025. Em síntese telegráfica, globalmente um abaixamento dos níveis de desempenho nas áreas em avaliação que também acontece nos países da OCDE fazendo com que as médias dos alunos portugueses estejam próximas das médias da UE

Mais preocupante é a manutenção do peso da “mochila” sociodemográfica dos alunos no seu desempenho, ou seja, os alunos de famílias com menos recursos e qualificação continuam com desempenho médio muito baixo.

Como também é habitual quando se divulgam resultados e no âmbito da sempre presente conflitualidade de interesses da partidocracia na educação verifica-se uma corrida na tentativa de explicação ou justificação dos resultados e uma atribuição de responsabilidade que nunca é própria nos menos positivos. Emergem também comentadores, especialistas ou não que, por vezes, e em função de agendas mais ou menos explícitas “vêem” relações de causa/efeito onde apenas se poderão encontrar associações ou correlações. Nada de novo, lamentavelmente, a discussão estará condenada à esterilidade e à retórica inconsequente.

É verdade que o volume de resultados permitirá análises úteis e importantes em termo de acção mas não nos termos em que mais frequentemente se desenrola a discussão.

Do que se conhece e de outros sistemas educativos, nada autoriza a sustentar a existência de uma relação de causa-efeito isolando variáveis como o número de exames ou mudanças curriculares a definição de Aprendizagens Essenciais numa perspectiva mais aberta ou as metas curriculares numa abordagem mais prescritiva, com a definição, por exemplo, de 998 metas curriculares em Português no Ensino Básico.

Por outro lado, também importa considerar ainda sem relação de causa-efeito, variáveis como clima de escola, qualidade da direcção escolar, falta e formação de docentes, falta de técnicos e recursos humanos ou materiais, envolvimento familiar, etc.

Estas notas não servem para um exercício gratuito de “contrismo”, estar contra tudo o que foi feito, designadamente, por Maria de Lurdes Rodrigues, Nuno Crato ou Tiago Brandão Rodrigues, não se trata disso. Trata-se se sublinhar que como muitas vezes afirmo, os professores e os alunos vão cumprindo a sua parte, apesar de muitos aspectos negativos das políticas educativas cujos responsáveis se querem tornar donos de resultados positivos e enjeitar responsabilidades no que de menos bom acontece.

Quando a poeira assentar volto a deixar um convite para gastar uns minutos de leitura de uma carta que me parece de recuperar e que foi publicada no The Guardian em 6 de Maio de 2014 dirigida a Andreas Schleicher, director do PISA, por um grupo alargado, significativo e de vários países de académicos e especialistas em educação ou representantes de entidades a operar neste universo. No documento é apresentada uma leitura muito interessante do PISA e também avançadas algumas sugestões de desenvolvimento.

Um pequeno excerto para apelar à leitura e, sobretudo, à reflexão.

"(…) By emphasising a narrow range of measurable aspects of education, Pisa takes attention away from the less measurable or immeasurable educational objectives like physical, moral, civic and artistic development, thereby dangerously narrowing our collective imagination regarding what education is and ought to be about. (…)"

Precisamos de não esquecer que existe educação para além do PISA.


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