segunda-feira, 18 de maio de 2015

OS VAMPIROS

FMI considera que ainda há professores a mais em Portugal

Estou cansado destes vampiros do FMI. Já não me apetece tentar demonstrar pela enésima vez que os cortes em professores e em escolas realizados nos últimos anos não são proporcionais às oscilações da demografia escolar. O Governo sempre utilizou habilidosamente os números para justificar os cortes. 
Já não me apetece afirmar pela enésima vez que o investimento na educação é o único caminho para o desenvolvimento.
Já não me apetece afirmar pela enésima vez que o empobrecimento não traz desenvolvimento.
Os vampiros sabem disto tudo, mas o seu negócio não tem a ver com pessoas, tem a ver com mercados. Não têm alma nem ética.
Estou cansado destes vampiros.


DA MUNICIPALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO

Segundo o parecer arrasador do Conselho de Escolas o contrato a estabelecer com as autarquias irá possibilitar que serviços, atividades e/ou projetos, nomeadamente de administração escolar, papelaria, refeitório, biblioteca, bem como serviços de apoio educativo, incluindo psicologia ou desporto escolar, possam ser subcontratados a operadores privados.
O Conselho de Escolas e as associações de directores acusam ainda o MEC "desprezar as escolas", ou seja, ter actuado em modo Crato, não as ter ouvido neste processo que, no seu entendimento, diminui a autonomia apesar da retórica do Governo.
De novo algumas notas. Em primeiro lugar expressar alguma reserva face ao entendimento que o MEC tem de “projectos-piloto”. Se consideramos, por exemplo a generalização dos cursos vocacionais sem que as “experiências piloto” fossem avaliadas ou as mudanças curriculares sem avaliação do currículos que estavam em vigor, a municipalização nestes moldes é um caminho já traçado e corresponde, evidentemente, à visão do Ministro.
Mais uma vez e enquanto for possível, insisto na necessidade de se considerarem com atenção os resultados de experiências de "municipalização" realizadas noutros países nos termos em que Nuno Crato se vai referindo a este movimento, e cujos resultados estão longe de ser convincentes. A Suécia, por exemplo, está assistir-se justamente a um movimento de "recentralização" considerando os resultados, maus, obtidos com a experiência de municipalização.
Por outro lado, o que se vai passando no sistema educativo português no que respeita ao envolvimento das autarquias nas escolas e agrupamentos, designadamente em matérias como as direcções escolares, os Conselhos gerais ou a colocação de funcionários e docentes (nas AECs, por exemplo) dá para ilustrar variadíssimos exemplos de caciquismo, tentativas de controlo político, amiguismo face a interesses locais, etc. O controlo das escolas é uma enorme tentação. Podemos ainda recordar as práticas de muitas autarquias na contratação de pessoal, valorizando as fidelidades ajustadas e a gestão dos interesses do poder.
Assim sendo, talvez seja mesmo recomendável alguma prudência embora, confesse, não acredite pois não se trata de imprudência, trata-se de uma visão, de uma agenda.
Ainda nesta matéria e dados os recursos económicos que se anunciam através das verbas comunitárias para além dos dinheiros públicos, parece clara a intenção política de aumentar o "outsourcing", a intervenção de entidades e estruturas privadas que já existem nas escolas, muitas vezes com resultados pouco positivos, caso de apoios educativos e do recurso a empresas de prestação de serviços, (de novo o exemplo das AECs).
Está expressa nos Projectos de contrato a intenção de contratar a privados a prestação destes serviços nas escolas, incluindo no universo da inclusão, um modelo ineficaz pois a intervenção de qualidade e adequada dos técnicos, designadamente de educação ou psicólogos, depende, evidentemente, da sua pertença às equipas das escolas  e não é compatível com a prestação de serviços por técnicos de fora em regime de "consulta".
Um modelo deste tipo, estruturas e entidades privadas a intervir em escolas públicas, só é garantidamente bom para as entidades a contratar, não, muito provavelmente, para alunos, professores e escolas. Mas acontece, claro, que a visão de municipalização do MEC é justamente esta, o incremento e apoio a um nicho de mercado.
Finalmente, uma referência ao equívoco habitual entre autonomia das escolas e municipalização. De acordo com o modelo proposto e conforme os directores têm referido recorrentemente a autonomia da escola não sai reforçada, antes pelo contrário, passa para as autarquias por delegação de competências do MEC. O imprescindível reforço da autonomia das escolas e agrupamentos não depende da municipalização como muitas vezes se pretende fazer crer.
Confundir autonomia das escolas com municipalização é criar um equívoco perigoso e frequentemente não passa de uma cortina de fumo para mascarar os caminhos dos negócios da educação.

DA ABSURDIDADE DO MEC

A narrativa que se vai construindo a propósito dos exames de 4º e 6º anos do Básico mostra, mais uma vez o absurdo entendimento de "normalidade" da equipa da 5 de Outubro que, do meu ponto de vista, remete mais para a absurdidade.
Deslocalizam-se os miúdos para que não realizem os exames na sua escola, estabelecem-se regras rigorosas para enfrentar os potenciais delinquentes que se apresentam a exame, desconfia-se dos professores impedindo-os de acompanhar os seus alunos, no passado foi assim, os exames não podiam ser vigiados por professores das disciplinas em exame.
Claro que boa parte destas regras não se aplicam aos estabelecimentos de ensino privado pois estes são frequentados por pessoas de bem, entidades proprietárias, directores, professores, pais e alunos
Realizam-se a meio do período torpedeando completamente o trabalho de aprendizagem pois o período é muito curto e todo o trabalho é centrado nos exames, sendo que os que alunos que tenham insucesso terão aulas de compensação e uma "Nova Oportunidade" cuja eficácia está, evidentemente, por provar.
Fecham-se as escolas aos alunos dos outros anos de escolaridade, obrigando os pais a aceitarem a excepcionalidade da situação sob pena de ficarem responsáveis por perturbar o que já nasceu perturbado.
Determina-se que os professores que avaliam os exames sejam dispensados das aulas mas que os seus alunos deverão tê-las, não sabendo boa parte das escolas como providenciar aulas sem professores disponíveis. A situação implica também que muitos alunos com necessidades educativas especiais fiquem estes dias sem os apoios habituais porque os seus professores são deslocados para o serviço de exames.
O Conselho de Escolas afirma que o MEC, negligenciando a realidade das escolas, decide de forma a lançar a perturbação nas escolas.
No entanto, como sempre, o Ministro da Educação virá dizer que tudo decorreu com a maior normalidade e que no quadro de autonomia(?) das escolas todas as situações estão e foram devidamente acauteladas.
Na verdade tem razão, já nos habituámos a esta normalidade, uma espécie de absurdidade.

POLÍTICAS DE FAMÍLIA

Como é evidente, os custos da oferta privada de creches e jardins de infância e a sua inexistência em comunidades pouco atractivas em termos de rentabilidade agravam a situação para as famílias que desejam projectos de vida com filhos.
Como aqui escrevia há dias, Portugal integra o grupo com menores apoios sociais para que os pais fiquem mais tempo em casa com filhos pequenos sendo que sobretudo nas zonas mais urbanas, (o interior desertifica-se o que também contribui para a baixa natalidade), a oferta de estruturas formais de acolhimento de bebés e crianças é insuficiente. Acresce ainda e é preciso sublinhar que Portugal tem um dos mais elevados custos de equipamentos e serviços para crianças.
Vivemos com uma taxa de desemprego que, oficialmente, ronda agora os 15% mas que sabemos atingir bastante mais gente. Muitas destas pessoas são sobretudo jovens ou mais idosos, o que, por razões diferentes, uns não podem assumir o encargo com filhos, os outros porque não têm recursos para ajudar os seus filhos, torna difícil a promoção da natalidade.
Em tempos altamente competitivos com a proletarização do trabalho com cortes sucessivos nos salários e nas prestações sociais, as pessoas hipotecam os projectos de vida em troca das migalhas que permitam a sobrevivência o que lhes retira margem negocial ou liberdade de escolha.
A fiscalização e regulação são insuficientes, uso e abuso de estágios não remunerados ou miseravelmente pagos e que não asseguram continuidade, condições de trabalho degradantes cuja não aceitação implica a perda do lugar em troca por alguém ainda mais necessitado e, portanto, calado. Veja-seo caso hoje noticiado no Público de um enfermeiro que terá sido despedido por ter gozado a licença de paternidade.
A promoção de projectos de vida familiar que incluam filhos implica, necessariamente, intervir nas políticas de emprego e protecção do emprego e da parentalidade, na discriminação e combate eficaz a abusos e a precariedade ilegal, na inversão do trajecto de proletarização com salários que não chegam para satisfazer as necessidades de uma família com filhos e custos elevados na educação apesar de uma escolaridade dita gratuita, na fiscalidade, por exemplo. A questão é que a política que tem vindo a ser seguida não permite acreditar que existam alterações.
Por outro lado, é urgente a acessibilidade real (na distância e nos custos) aos equipamentos e serviços para a infância com o alargamento da resposta pública de creche e educação pré-escolar, cuja oferta está abaixo da meta estabelecida.
É uma questão de futuro.

domingo, 17 de maio de 2015

A CHAMA IMENSA

BENFICA BICAMPEÃO NACIONAL

A alma benfiquista acendeu de novo a chama imensa.
Bicampeões.





AOS VOSSOS LUGARES. VAI ABRIR A ÉPOCA DE EXAMES

Continuo pouco convencido de que a insistência obsessiva nos exames, muitos exames, sem que outras mudanças substantivas ocorram, verdadeiras alterações curriculares, efectiva autonomia das escolas e recursos suficientes para apoio ao trabalho de alunos e professores, só para citar alguns exemplos, contribuam de forma significativa para a qualidade da educação.
A introdução dos exames como panaceia da qualidade promove, do meu ponto de vista, o risco do trabalho escolar se organizar centrado na preparação dos alunos para a multiplicidade de exames que realizam como muitos professores têm vindo a alertar e é reconhecido, por exemplo pela OCDE em relatório de há algum tempo sobre a avaliação no sistema educativo português.
Acresce que com um calendário escolar desequilibrado levando a um terceiro período curtíssimo com a realização insustentável dos exames do 4º e do 6º a meio do período para permitir aulas de compensação aos alunos que obtenham resultados baixos, a situação é ainda mais complexa.
Atente-se nos testemunhos de pais, professores e directores sobre o funcionamento das escolas durante o curtíssimo terceiro período, sobretudo nos anos que têm exames nacionais, em particular os do 4º e 6º. O trabalho consiste, fundamentalmente, em preparar os alunos para exame, tarefa que está longe se constituir como "único" objectivo da educação escolar. Há ainda que considerar factores como a dimensão das turmas, as metas curriculares excessivas e burocratizadas que inibem a acomodação das diferenças entre os alunos ou a insuficiência de apoios às dificuldades de alunos e professores que terão certamente influência nos processos educativos e nos seus resultados.
Na verdade, quem conheça as escolas sabe que o terceiro período se transformou num período de preparação intensiva para os exames que deixa insatisfeitos professores e alunos, questão também associada ao aumento exponencial do recurso aos centros de explicações desde as férias da Páscoa e apenas acessível, naturalmente a algumas famílias.
Importa ainda não esquecer o início catastrófico deste ano lectivo com milhares de alunos sem aulas durante quase dois meses e que nada do que foi feito pode eliminar totalmente os efeitos.
Os resultados escolares no 4º ano e no 6º ano, nas condições de funcionamento e características das nossas escolas, não se melhoram com uma explicação intensiva realizada no 3º período do 4º ano e no período suplementar de aulas. Aliás, recordo, que no ano em que se introduziu para o 4º ano o período de compensação os resultados foram baixos, apenas 20% dos alunos recuperaram o que mostra a pouca eficácia do modelo. Os exames, a realizarem-se deveriam acontecer no final do período e, caso se entendesse a necessidade de uma "Nova Oportunidade ", o novo exame seria realizado algum tempo depois.
Julgo que deve ainda merecer referência o conjunto de implicações logísticas e funcionais da realização destes exames com a inaceitável "deslocalização" dos miúdos para realizarem exames fora das escolas que frequentam, vigiados por professores que não conhecem numa situação que traduz a desconfianças do MEC nos professores das escolas públicas, pois no ensino particular a situação não se verifica. Acresce ainda a necessidade de que os alunos dos outros anos de escolaridade não tenham aulas, situação que deixa as famílias com mais uma dificuldade.
Ainda a propósito dos exames e das condições de realização, algumas opiniões referem o stresse que isto poderá causar nas crianças. Não me parece que isto possa ser significativo ainda que em casos pontuais possa acontecer. O que verdadeiramente poderá causar stress nos alunos é o discurso dos adultos, pais e professores, sobretudo, sobre os exames. O clima que se cria decorrente da política educativa assente nos exames, a pressão para a excelência e para o alto desempenho é que podem ser factores promotores de ansiedade. No entanto, estou convicto de que a maioria dos miúdos vai lidar com os exames com "tranquilidade", para citar Paulo Bento.
Como tantas vezes afirmo, a qualidade promove-se, é certo e deve sublinhar-se, com a avaliação rigorosa e regular das aprendizagens, naturalmente, mas também com a avaliação do trabalho dos professores, com a definição de currículos adequados e de vias diferenciadas de percurso educativo para os alunos sempre com a finalidade de promover qualificação profissional, com a estruturação de dispositivos de apoio a alunos e professores eficazes e suficientes, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados de organização e funcionamento das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, etc. O problema é que de há muitos anos a educação anda à deriva das agendas políticas.
A insistência obsessiva nos corre o risco de sustentar um discurso demagógico, as referências a exigência e a rigor vendem bem, que deixa de lado os aspectos mais essenciais, a necessidade de promover qualificação para todos, sublinho todos, os alunos e, insisto, a disponibilização de apoios a alunos e professores.

EXAMES FÁCEIS, EXAMES DIFÍCEIS? DEPENDE.

A propósito do alarido causado pela intervenção do Presidente do Conselho Científico do IAVE sobre a gestão política da dificuldade dos exames, uma reedição da velha história "O Rei vai nu", algo que toda a gente percebe e ninguém refere, deixo aqui umas notas que coloquei em Julho do ano passado a propósito da dificuldade do exame de Matemática da segunda fase do 12º.

"Quando era aluno do Básico e do Secundário não me lembro de achar que um teste ou exame era fácil. No entanto, sempre havia um adulto por perto que fazia questão de afirmar que para quem sabe, os testes e exames não são difíceis, só para quem não sabe. Ouvia e seguia o meu caminho num tempo em que a pressão para a excelência como condição de sucesso ainda não tinha sido inventada ou, pelos menos, não era muito generalizada, o que me permitiu ir fazendo um trajecto sem rasgos mas bem sucedido até ao final do Secundário e entrar no superior para cumprir a paixão que se mantém até hoje.
Vem esta introdução, provavelmente, estranha, a propósito de uma questão que me parece sempre curiosa, as apreciações divergentes sobre a dificuldade dos exames realizadas pelos especialistas, ou seja, por gente que sabe.
De facto e por exemplo, é sempre com curiosidade que vejo a divergência frequente entre a Associação dos Professores de Matemática e a Sociedade de Matemática na apreciação ao grau de dificuldade dos exames nacionais da disciplina. Desta vez trata-se do exame da segunda fase do 12º e, para não variar, a Associação dos Professores de Matemática acha o exame “demasiado extenso” e “não respeitou o programa” pelo que  os alunos com médias do secundário entre os 10 e os 12 valores “não têm hipótese nenhuma no exame”. No meu tempo estaria liquidado.
Ao contrário a Sociedade Portuguesa de Matemática considera que o exame conforme os programas e o exame de ontem “permite que o aluno médio, que se tenha preparado devidamente, possa obter uma classificação que reflita adequadamente o seu nível de conhecimentos e preparação”.
Como se explica esta recorrente divergência?
Volto à minha questão, os exames constituem-se, do meu ponto de vista, como uma arma privilegiada da gestão política do universo da educação. Sempre o foram. Como é sabido, umas médias um bocadinho mais altas vêm a calhar, os alunos e professores "corresponderam" com o seu trabalho ratificando a bondade das medidas de política educativa em curso. Por outro lado, resultados mais baixos mostram a falência das políticas dos que nos antecederam. Acresce a insustentável decisão do MEC de atribuir créditos às escolas que diminuam a diferença entre avaliação interna e externa o que introduz um factor de distorção dos dispositivos de avaliação.
Neste contexto, através da "modulação", por assim dizer, da sua dificuldade, poder-se-á influenciar os resultados no sentido esperado e mais favorável a interesses de circunstância. Da mesma forma, acreditando na competência científica dos elementos de diferentes entidades que se pronunciam sobre a dificuldade ou ajustamento das provas, as divergências tão significativas estarão certamente contaminadas por outros factores como visão da educação, o papel dos exames, a conflitualidade partidária, etc.
Não é que não possa acontecer e ser legítima a diferença. Apenas me parece que tudo devia ser mais claro e transparente."

PS - Ainda só tivemos um exame, Português do 4º ano, e já surgiu a discordância sobre o grau de dificuldade. É o destino

sábado, 16 de maio de 2015

DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA E O FUTURO

Como vos disse ontem fui até Viseu participar num encontro sobre a "Educação inclusiva, o desafio do futuro".
Quem por aqui passou terá reparado nas minhas dúvidas sobre o que dizer num tempo tão pouco amigável para os princípios da educação inclusiva, ou seja, amigáveis para todos os miúdos e jovens. Existem razões para algum optimismo ou devemos preparar-nos para o acentuar da guetização, seja em espaços curriculares, seja em espaços físicos, dentro ou fora das escolas, que os empurram para níveis de participação nas actividades das comunidades educativas a que por direito pertencem?
De volta, devo dizer que encontrei umas dezenas de pessoas preocupadas com o rumo da educação e escola públicas em Portugal, dispostas a bater-se por uma escola para todos.
No entanto, a experiência e a atenção ao que vai emergindo e acontecendo, o que se desenha no sentido de atribuir as responsabilidades de apoios e serviços educativos em plena escolaridade obrigatória a estruturas e entidades exteriores às escolas continua a ser para mim uma fonte importante de preocupação com o rumo que a educação está tomar e irá tomar nos próximos tempos.
De um aspecto não tenho a menor dúvida, aconteça o que acontecer tudo será feito em nome da inclusão, sempre em nome da inclusão.
Volto a Almada Negreiros,  e à "Cena do Ódio" onde se encontra a referência "a Pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões".
Assim se vai passando com a Inclusão, retórica.

O FUTURO NÃO MORA AQUI

Parece ainda relevante que 57,3% dos jovens entre os 15 e os 24 não se interessa “nada” por política e quando colocados perante a afirmação “daqui a dois anos, a crise terá terminado e a situação do emprego em Portugal será melhor do que hoje”, a maioria discordou, 60,8% entre os 15 e os 24 e 66,5% entre os 25 e os 34.
Acresce que os dados sugerem que a proporção de jovens sem trabalho há mais de um ano é “muito significativa”. Entre os inquiridos, dos 15 aos 24 anos, 38,2% estão sem emprego há mais de um ano; entre os 25 e os 34 anos a percentagem chega aos 52,8%.
Este conjunto de dados parece profundamente elucidativo e inquietante reflectindo a falta de confiança num futuro por cá, o insustentável nível de desemprego jovem e, simultaneamente, a falta de interesse e motivação pela acção política, justamente, a forma de em democracia promover mudanças.
Talvez se recordem de há algum tempo a Ministra das Finanças ter afirmado que devemos relativizar o fenómeno da emigração jovem, "Se quiserem fazer opções lá fora devem fazê-lo", acrescentou.
Não é nada disto, a maioria dos jovens que parte, conforme os estudos apontam, não o faz porque quer “fazer opções lá fora”, partem porque não têm opções cá dentro e este êxodo não pode ser “relativizado” ou desvalorizado, é um drama para o país e um drama para muitas famílias.
Na verdade, a emigração parece estar a constituir-se como via quase exclusiva para aceder a um futuro onde caiba um projecto de vida positivo e viável, algo que por cá não é fácil de definir. Aliás, vários outros inquéritos a estudantes universitários mostram como muitos admitem emigrar em busca de melhores condições de realização pessoal e profissional apesar de muitos afirmarem que pretendem voltar.
Somos um país de emigrantes de há séculos pelo que este movimento de partida, só por si, não será de estranhar. No entanto, creio que é preocupante constatarmos que durante muitos anos a emigração se realizava na busca de melhores condições de vida, a agora a emigração realiza-se à procura da própria vida, muita gente, sobretudo jovens não tem condições de vida, tem nada e parte à procura, não de melhor, mas de qualquer coisa. Este vazio que aqui se sente é angustiante, sobretudo para quem está começar, se sente qualifica e com o desejo de construção de um projecto de vida viável e bem sucedido.
Por outro lado e como é reconhecido, de uma forma geral, o ensino superior e a investigação em Portugal têm uma qualidade que internamente nem sempre é reconhecida e que se evidencia na frequência com que em diversas áreas se assiste à contratação de jovens que estudaram em Portugal para trabalho em empresas ou em investigação em diferentes países, onde se incluem, por exemplo, a Inglaterra, a Alemanha ou os Estados Unidos que não são propriamente países com baixo nível de desenvolvimento científico.
Neste quadro, torna-se ainda mais preocupante a partida para o estrangeiro de muitos milhares de jovens, com formação superior de elevada qualidade, porque em Portugal um projecto de vida viável e com sucesso é uma miragem. Este êxodo tem, obviamente, com profundas consequências para um país como Portugal.
Em primeiro lugar, porque sendo um país com uma fortíssima necessidade de qualificação nas empresas, vê partir os que mais preparados estariam o que terá, evidentemente, um impacto económico significativo. Aliás e curiosamente, este entendimento é recorrentemente afirmado por um Governo com forte responsabilidade pela emigração forçada de milhares de jovens com formação superior, designadamente trabalhadores na área científica, que não vislumbram o futuro em Portugal.
Em segundo lugar, porque importa não esquecer que os custos da formação dos jovens qualificados em Portugal são suportados por todos os nós no caso do ensino público e das famílias ou dos próprios na formação em estabelecimentos privados embora, considerando também o ensino público, os custos para as famílias na frequência de ensino superior em Portugal seja dos mais altos na Europa. Isto significa que Portugal, o estado e as famílias, suportam os custos da formação e os outros países aproveitam essa qualificação uma vez que os jovens não conseguem desenvolver o seu trabalho em Portugal.
E o futuro? O futuro não mora aqui.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA. QUE PODEREI DIZER?

Daqui a pouco vou fazer-me à estrada até Viseu para responder a um convite simpático da Fenprof para participar amanhã numa conferência na ESE de Viseu dedicada ao tema "Inclusão, o grande desafio do futuro".
Tenho a certeza de que o convite decorre de uma genuína vontade de reflectir sobre esta questão, educação e escola inclusiva. Confesso, no entanto, que estou aflito e preciso da vossa ajuda.
Que poderei dizer sobre educação inclusiva e futuro num tempo presente em que a Educação, no sentido mais nobre e vasto do termo, está revista em baixa, transformando-se cada vez mais em Aprendizagem de competências instrumentais normalizadas, sujeitas a uma febre de medida que passa a ser o tudo da educação e que de Inclusiva tem muito pouco?
Logo de muito novos os miúdos começam a passar por sucessivos crivos, exames escolares ou Classificações de outra natureza. Muitos são identificados por etiquetas, "repetentes", "dificuldades de aprendizagem", "necessidades educativas especiais permanentes", "hiperactivos" "autistas", etc., agrupam-se os miúdos com base nessas etiquetas, do ensino vocacional, às unidades ou escolas de referência e guetizam-se por espaços, entre a escola e as instituições, de novo e cada vez mais.
É verdade que também temos excelentes exemplos de trabalho em comunidades educativas que, tanto quanto possível e com os recursos de que dispõem, se empenham em estruturar até ao limite ambientes educativos mais inclusivos em que todos, mesmo todos, participem. Como sempre afirmo, a participação é um critério essencial de inclusão.
Devo falar do copo meio cheio ou do copo meio vazio?
Existem miúdos que não estão ou não se sentem a fazer parte da comunidade educativa em que estão, não “integrados” mas “entregados”, por várias razões e nem sempre por dificuldades próprias.
Existem pais que não estão ou não se sentem a fazer parte da comunidade educativa em que os seus filhos cumprem os dias.
Existem professores que não estão ou não se sentem a fazer parte da comunidade educativa onde se empenham e querem trabalhar apesar dos meios e recursos tantas vezes insuficientes e desadequados.
Existem orientações normativas e políticas que, sempre em nome da inclusão, acabam por promover ou facilitar a exclusão.
Existem direcções escolares, poucas quero acreditar, que gostariam de ver as suas escolas ou agrupamentos mais “bem frequentadas”, alguns miúdos só criam dificuldades e atrapalham os resultados das escolas.
Será a nossa escola inclusiva? Passará o futuro da nossa escola pública pelos princípios da educação inclusiva?
Que devo ou posso responder?
Eu quero acreditar que sim.

DO BULLYING E DA VIOLÊNCIA ENTRE JOVENS. DE NOVO

Os episódios recentes e muito mediatizados envolvendo violência entre adolescentes e jovens ou situações de bullying nas suas diferentes formas, alguns destes episódios com resultados trágicos, não retiram da agenda de preocupações estas matérias pelo que retomo algumas notas.
Esta constatação e o conhecimento de que, caso de Portugal,  diferentes estudos sugerem cerca de um terço dos adolescentes entre os 13 e os 15 anos é vítima de bullying sublinham a particular importância deste fenómeno com uma particular preocupação com a subida significativa do cyberbullying.
Sabemos todos que a ocorrência de situações de bullying é bem superior ao número de casos que são relatados. Uma das características do fenómeno, nas suas diferentes formas, incluindo o emergente cyberbullying, é justamente o medo e a ameaça de represálias a vítimas e assistentes que, evidentemente, inibem a queixa pelo que ainda mais se justifica a atenção proactiva e preventiva de adultos, pais, professores ou funcionários.
Neste cenário, a mediatização dos casos pode ter um efeito, esperemos, de tornar a comunidade mais atenta ao fenómeno e mais empenhada e disponível para intervir das diferentes formas possíveis e necessárias.
Dada a gravidade e frequência com que ocorrem estes episódios é, pois,  imprescindível que lhes dediquemos atenção ajustada, nem sobrevalorizando, nem tudo é bullying, o que promove insegurança e ansiedade, nem desvalorizando, o que pode  negligenciar riscos e sofrimento.
Neste universo importa considerar dois eixos fundamentais de intervenção por demais conhecidos, a prevenção e a intervenção depois dos problemas ocorrerem. Esta intervenção pode, por sua vez e de forma simplista, assumir uma componente mais de apoio e correcção ou repressão e punição, sendo que podem coexistir. Com alguma demagogia e ligeireza a propósito do bullying, as vozes a clamar por castigo têm do meu ponto de vista falado mais alto que as vozes que reclamam por dispositivos de prevenção, intervenção e apoio para além da óbvia punição, quando for caso disso.
Relembro que o Portal sobre o bullying teve durante o seu primeiro ano de funcionamento cerca de 650 000 visitas e respondeu a 700 solicitações.
Esta utilização mostra a necessidade de dispositivos de apoio e orientação absolutamente fundamentais para que pais, professores e alunos possam obter informação e apoio. Lamentavelmente, este serviço é exterior às escolas e ilustra a falta de resposta estruturada e global do sistema educativo, para além das insuficiências na formação de técnicos e de professores sobre esta complexa questão, desde logo para o seu reconhecimento.
A existência de dispositivos de apoio sediados nas escolas, com recursos qualificados e suficientes, designadamente no que respeita aos assistentes operacionais com funções de supervisão dos espaços escolares, é, a par de ajustamentos nos modelos de organização e funcionamento das escolas e de uma séria reestruturação curricular, uma tarefa urgente. No entanto, não é possível considerar-se que a escola é mágica e omnipotente pelo que tudo resolverá. Tudo pode envolver a escola, mas nem tudo é da exclusiva responsabilidade da escola, família e outros actores da comunidade devem assumir responsabilidades.
Do meu ponto de vista, o argumento custos não é aceitável porque as consequências de não mudar são incomparavelmente mais caras. Depois das ocorrências torna-se sempre mais fácil dizer qualquer coisa mas é necessário. Muitas crianças e adolescentes evidenciam no seu dia-a-dia sinais de mal estar a que, por vezes, não damos atenção, seja em casa, ou na escola, espaço onde passam um tempo enorme. Estou a falar tanto de vítimas como de agressores. A preocupação e intervenção deve envolver uns e outros.
Estes sinais não podem, não devem, ser ignorados ou desvalorizados. O resultado pode ser grave. Como nos últimos tempos temos verificado.

PARTIU B. B. KING

Partiu mais uma presença de sempre na banda sonora da minha vida, o enorme B. B. King. No mítico Cascais Jazz, em 1973, B. B. King foi impressionante. É uma memória.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

HÁ VIDA PARA ALÉM DA AVALIAÇÃO

E pronto, não há volta dar, a febre da medida está incontrolável e é já, do meu ponto de vista, um problema de saúde educativa.
Os testes serão construídos com base na “aplicabilidade na vida real” dos conhecimentos escolares. Desculpem lá o disparate mas não é esta uma a função dos conhecimentos escolares, ajudarem-nos a relacionar com a vida real? Talvez seja o reconhecimento, finalmente, que muito do que professores e alunos são obrigados a cumprir, incluindo a avaliação, não tem “aplicabilidade na vida real”.
Para estimular a adesão, sem custos, diz-se, dos alunos as provas decorrem segundo um campeonato nacional através de patamares sucessivos de excelência. 
Dir-se-á que a competição é sempre estimulante e quanto mais competição melhor. O mundo é dos mais fortes e é preciso saber quem são, evidentemente.
Sim, eu sei, afirmo-o sempre, que a avaliação é uma ferramenta imprescindível na promoção e regulação da qualidade do trabalho de alunos e professores.
No entanto, talvez fosse de lembrar que existe vida educativa e pedagógica para além da avaliação e, sobretudo, dos testes ou exames.
Questões como adequação dos currículos e repensar das metas curriculares, número de alunos por turma, dispositivos de apoio ao trabalho e dificuldades de alunos e professores, desburocratização do trabalho dos docentes optimizando o tempo dedicado ao ensinar e ao trabalho com alunos, etc. são alguns dos aspectos que poderiam contribuir para a qualidade e sucesso do trabalho de ensino e aprendizagem. E destes aspectos, quem de direito, diz nada.
No entanto, lá virá o Literacia 3D embrulhado em realidade virtual que de virtual tem pouco.

O DIA DA ESPIGA

Como dizia Camões o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.
Hoje passa o Dia da Espiga, como se dizia quando era pequeno para referir a Quinta-feira da Ascensão.
Acho que já muito pouca gente repara no Dia da Espiga, como já nenhuns miúdos aparecem a pedir "Pão por Deus" no 1º de Novembro, o Dia de Todos os Santos. Na verdade, surpreendi-me porque no último ano bateu-me à porta um grupo e não era à conta do Halloween, importação recente que se tornou moda, era mesmo a pedir Pão por Deus. Fiquei contente.
Voltando ao Dia da Espiga e a umas dezenas de anos atrás, na minha casa íamos sempre buscar a sorte prometida no ramo da Espiga. Com o meu pai, pegávamos nas bicicletas, na altura o meio de transporte familiar e íamos à quinta onde vivia a Avó Leonor apanhar o ramo da Espiga, papoilas, flores silvestres, sobretudo malmequeres amarelos e brancos, o que se encontrasse de espigas de cereais e o ramo de oliveira.
Fazia-se o ramo atado com ráfia, arranjávamos sempre mais do que um para oferecer aos vizinhos e colocava-se pendurado lá em casa por cima da mesa do jantar como chamariz da sorte. Saía apenas quando era substituído pelo novo ramo da Espiga. Nunca me lembro de termos conseguido associar a presença do ramo ao que de bom nos ia acontecendo, mas o ramo da Espiga lá estava e a tradição era sempre cumprida.
Nas novas qualidades que o mundo vem tomando, não parece que possam caber minudências como andar no campo, se houver campo, à cata de flores, espigas e um raminho de oliveira. Não sei se é bom, ou se é mau, mas eu gostava de ir à Espiga, mesmo se não confiava muito na sorte.

PROFESSOR, UMA PROFISSÃO DE RISCO

Os professores mais velhos, do ensino secundário ou os que lidam com alunos com necessidades educativas especiais apresentam níveis mais levados de burnout e sentem mais a falta de reconhecimento profissional.
Como causas mais contributivas para este cenário são identificadas turmas com elevado número de alunos, o comportamento indisciplinado e desmotivação dos alunos, a pressão para o sucesso, insatisfação com as condições de desempenho, carga horária e burocrática, falta de trabalho em equipa, falta de apoio e suporte das lideranças da escola.
Na verdade, os dados só podem surpreender quem não conhece o universo das escolas, como acontece com boa parte dos opinadores que pululam pelos media perorando sobre educação e sobre os professores.
É fácil avaliar a importância e consequências das situações de mal-estar envolvendo os docentes. Alguns dos discursos que de forma ligeira e muitas vezes ignorante ocupam tempo de antena na imprensa, parecem esquecer a importância deste trabalho e das circunstâncias em que se desenvolve.
É complicada a tarefa de professor em algumas escolas que décadas de incompetência na gestão urbanística e consequente guetização social produziram.
Os valores, padrões e estilos e vida das famílias alteraram-se significativamente fazendo derivar para a escola, para os professores, parte do papel que competia(e) à família. Este trabalho é realizado, muitas vezes, sem qualquer tipo de apoio ou suporte, com cada professor entregue a si mesmo.
Importa ainda considerar o impacto de variáveis relativas à estabilidade e segurança profissional.
Também deve ser ponderada a deriva política a que o universo da educação tem estado exposto nas últimas décadas, criando instabilidade e ruído permanente sem que se perceba um rumo, um desígnio que potencie o trabalho de alunos, pais e professores.
O arranque e funcionamento deste ano lectivo foi particularmente elucidativo.
Com muita frequência os professores são injustiçados na apreciações de muita gente que no minuto a seguir à afirmação de uma qualquer ignorante barbaridade, vai, numa espécie de exercício sadomasoquista, entregar os filhos nas mãos daqueles que destrata, depreendendo-se assim que, ou quer mal aos filhos ou desconhece os professores e os seus problemas. Também são conhecidos os casos sucessivos de agressão e insulto por parte de alunos e famílias.
A forma como os miúdos, pequenos e maiores, vêem e se relacionam com os professores está directamente ligada à forma como os adultos os vêem e os discursos que fazem e isto contamina a serenidade do processo de trabalho.
É também é imprescindível que a educação e os problemas dos professores não sejam objecto de luta política baixa e desrespeitadora dos interesses dos miúdos, mesmo por parte dos que se assumem como seus representantes.
Na verdade, ser professor é uma das funções mais bonitas do mundo, ver e ajudar os miúdos a ser gente, mas é seguramente uma das mais difíceis e que mais respeito deveria merecer.
Os sistemas educativos com melhores resultados são, justamente, os sistemas em que os professores são mais valorizados e reconhecidos.
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quarta-feira, 13 de maio de 2015

CURRÍCULOS, AUTONOMIA E DIVERSIDADE

Realizou-se hoje na Assembleia da República uma Conferência com o tema "Currículos e Autonomia" organizada pela Comissão Parlamentar de Educação, Ciência e Cultura que teve a gentileza de me convidar a apresentar uma comunicação a que dei o título de "Currículos, autonomia e diversidade".
Não sendo especialista em questões curriculares a minha abordagem centrou-se na reflexão sobre a forma como os actuais modelos e conteúdos curriculares contribuem, ou não, para acomodar a diversidade dos alunos, a característica mais evidente de qualquer sala de aula.
Em síntese e do meu ponto de vista, a actual organização e conteúdos curriculares, extensos, demasiado prescritivos e normativos, operacionalizados através de centenas de metas curriculares são pouco amigáveis para responder aos desafios da diversidade, qualidade e qualidade para todos, ou seja, uma educação de natureza inclusiva.
De uma forma mais específica, tornam difíceis o exercício da autonomia de alunos, professores e escolas, comprometem o desenvolvimento de abordagens curriculares integradas e a possibilidade dos professores introduzirem dispositivos de diferenciação pedagógica, a única forma de acolher as diferenças entre os alunos.
Acresce que, sem surpresa, estes modelos e conteúdos curriculares estão associados a uma sobrevalorização da avaliação externa que determina o que em boa parte do tempo é realizado pelos professores e alunos, a preparação para exames, minimizando uma maior flexibilidade de metodologias e actividades didáctico-pedagógicas.
É ainda de registar que esta visão de educação e escola está a chegar à educação pré-escolar recorrendo a horários fixos de áreas curriculares e medida das aprendizagens das crianças com as mesmas características das metas curriculares.
Neste contexto, sucessivos grupos de alunos são "empurrados" através dos crivos da medida, os exames, para espaços curriculares diferenciados, pouco qualificados, com recursos insuficientes.
Finalmente, minimiza-se o abandono escolar mas não se promove o sucesso educativo que é mais do que o sucesso escolar.

O ACORDO ORTOGRÁFICO. PARA MEMÓRIA FUTURA

Apesar de se considerar que hoje seria o dia em que estaríamos condenados a substituir o Português pelo acordês, um texto de natureza jurídica hoje divulgado no Público sustenta que apenas em 22 de Setembro de 2016 acaba o período de transição.
Não sei o que irá acontecer agora e até esse eventual novo prazo.
Sei, no entanto e para que conste como memória futura, que continuarei a escrever desacordadamente.
Já várias vezes exprimi neste espaço uma opinião, não mais o que isso, não sou especialista sobre este atentado à Língua Portugesa.
Também já referi que as opiniões dos especialistas que defendem o acordês não me convencem. Não vou repetir o que já disse muitas vezes e o que já ouvi ou li outras tantas.
Apenas reafirmo, vou continuar a escrever desacordadamente.

VIOLÊNCIA ENTRE JOVENS, NOVO EPISÓDIO

A comunidade está em sobressalto com o vídeo chocante da agressão de um adolescente por um grupo também de adolescentes que ocorreu na Figueira da Foz, ao que parece, há mais de um ano mas só agora conhecido por ter “caído” nas redes sociais.
Como é habitual as autoridades, a escola de pertença do agredido, a Comissão de Protecção já estão a acompanhar o caso. Algumas notas.
Os comportamentos agressivos e abusos entre jovens em contexto escolar, bullying por exemplo, ou fora deles são de sempre ainda que os estudos destes fenómenos sejam mais recentes. O volume e a gravidade de alguns episódios e, sobretudo, a sua mediatização através das redes sociais dão também uma maior visibilidade ao fenómeno.
Na verdade e com alguma preocupação, em vários estudos muito recentes constata-se que os adolescentes tendem a encarar a violência entre si e de uma forma geral, como normal o que não surpreenderá os mais atentos. A sociedade da informação e os sistemas de valores actuais banalizaram a violência, não são os adolescentes que a banalizaram.
Por outro lado, a escola e o meio circundante, por serem os espaços onde os adolescentes e jovens passam a maior parte do seu tempo são, naturalmente, os espaços onde emergem e se tornam visíveis os problemas e inquietações que os alunos carregam. No entanto, não é possível considerar-se que a escola é mágica e omnipotente pelo que tudo resolverá. Tudo pode envolver a escola, mas nem tudo é da exclusiva responsabilidade da escola, família e outros actores da comunidade dm assumir responsabilidades.
No entanto, sem desresponsabilizar as famílias importa não esquecer que alguns pais se sentem tão perdidos quanto os filhos, têm elas próprias dificuldades e disfuncionalidades que são parte do problema e não da solução pelo que também elas precisam de apoio, só responsabilizá-las não chega.
No que respeita à violência entre jovens, um fenómeno complexo, existem ainda duas questões que me parecem essenciais e contributivas para lidar com a situação. Em primeiro lugar é importante criar nos alunos, ou adultos, vitimizados a convicção de que se podem queixar e denunciar as situações e encontrar dispositivos de apoio que garantam a protecção da vítima pois o medo de represálias é o principal motivo da não apresentação da queixa, sobretudo entre os mais novos. É importante também que os actores da escola e da comunidade saibam detectar nos alunos sinais que indiciem vitimização.
Em segundo lugar, é preciso contrariar no limite do possível a ideia de impunidade, de que não acontece nada ao agressor. As escolas, tal como a comunidade em geral podem e devem assumir atitudes, discursos e montar dispositivos que, visivelmente, mostrem um sinal de que não existe tolerância para determinados comportamentos.
É também importante que famílias e escolas estejam atentas e que estas possam ser dotadas de meios e recursos que permitam o desenvolvimento de iniciativas no plano da formação e apoio aos adolescentes e jovens, integrados ou não nos conteúdos curriculares que, tanto quanto possível, minimizem o risco de incidentes como o que agora conhecemos.
Os discursos demagógicos e populistas, ainda que bem-intencionados, não são um bom serviço à minimização destes incidentes que minam a qualidade cívica da nossa vida.

GOSTEI DE LER, "EDUCAR PARA UM FUTURO PIOR"

o texto de Raquel Matos, "Educar para um futuro pior",  no Público de hoje. Merece leitura e reflexão atentas.
Vem ao encontro das minhas inquietações patentes num texto que aqui coloquei há dias "A pressa de aprender".

terça-feira, 12 de maio de 2015

HISTÓRIAS DA POLÍTICA EDUCATIVA

"Senhor Professor, quando for preciso, se ele se portar mal, dê-lhe".
Lá para os idos do início da década de 60, o meu tempo de escola, primária como se chamava na altura, uma altura triste, sublinhe-se, este tipo de frases dirigidas por pais aos professores eram, creio, recorrentes.
Com as muitas mudanças que fomos vivendo foram desaparecendo, felizmente, digo eu, infelizmente dirão outros.
Hoje ocorreu-me esta lembrança ao ler que o IAVE enviou às escolas e agrupamentos uma comunicação na qual se pedia aos directores que perante os professores que se portaram mal deveriam "agir em conformidade". Referia-se aos professores que alegando a realização de greve não participaram nas acções de formação da PPP que dá pelo nome de PET - Preliminary English Test.
Nem mais, portam-se mal castigam-se. Temendo que os Directores tenham uma mão branda para com professores grevistas relembra-lhes a necessidade de "agir em conformidade". Grande Educador é o IAVE.
No mesmo comunicado acena com a oferta de uns trocos suplementares e não previstos aos professores bem comportados e que revelem mais produtividade, ou seja, se realizarem mais de seis provas orais do PET terão um bónus em euros.
Esta edificante história é o que considero um muito elucidativo exemplo de política educativa.

O ABANDONO ESCOLAR NO ENSINO SUPERIOR

Através da comparação das taxas de abandono dos alunos com bolsa ou candidatos a bolsa com os números globais, os autores minimizam as carências económicas familiares enquanto variável contributiva de forma significativapara o abandono sublinhando o papel preditor da média de entrada e na necessidade das instituições de ensino superior desenvolverem programas de apoio e acolhimento aos alunos que entram no 1º ano.
Julgo que esta questão merece uma reflexão mais fina na medida em que em Portugal temos um efeito ainda muito presente de ligação significativa do rendimento escolar dos filhos ao nível de escolaridade dos pais e, potencialmente, ao seu nível social, cultural e económico. Isto pode significar que, provavelmente, os alunos que se candidatam com médias mais baixas são oriundos predominantemente de famílias com mais baixos níveis de escolarização.
Como também se reconhecerá, este nível não tem que ser necessariamente associado a candidaturas a bolsa pois muitas famílias de rendimentos mais baixos e de nível de escolaridade mais curto em muitas situações não são elegíveis para atribuição de bolsa.
Aliás, são conhecidas as dificuldades de promoção de mobilidade social que o sistema educativo português, e não só, atravessa registando ainda níveis baixos de qualificação e perto de 300 000 jovens que não estudam nem trabalham.
Por outro lado, talvez seja de recordar no que respeita aos custo de frequência do ensino superior que muitos jovens portugueses estão a emigrar para realizar os seus estudos superiores em países em que as propinas são mais baratas que em Portugal, não existem de todo ou são financiadas, casos da Dinamarca, Reino Unido ou o Canadá e a Austrália fora da Europa.
Lembrando ainda o episódio das disparatadas afirmações de Angela Merkel sobre os licenciados a mais que Portugal apresentará, vale a pena recordar algo que nem todos saberão também. Na Alemanha não existem propinas nas universidades. Há uns meses, a Baixa Saxónia foi o último estado alemão a abolir as propinas. Deixem-me partilhar a afirmação da Ministra da Ciência e da Cultura deste estado que justificou a decisão de tornar gratuito a frequência do ensino superior “Livramo-nos das propinas porque não queremos que o Ensino Superior dependa da riqueza dos pais”. Elucidativo da forma como é vista a qualificação de nível superior.
Mais algumas notas. Segundo o Relatório "Sistemas Nacionais de Propinas no Ensino Superior Europeu", divulgado em Outubro de 2014  pela Comissão Europeia, Portugal é um dos cinco países, entre os 28 Estados membros da União Europeia, que cobram propinas a todos os alunos do ensino superior. Integra também o grupo de países em que menos de metade acede a bolsas de estudo.
Recordo que também em 2014 um estudo patrocinado pela Comissão Europeia em oito países da Europa revelava, sem surpresa, que Portugal apresenta uma das mais altas percentagens, 38%, de jovens que gostava de prosseguir estudos mas não tem meios para os pagar.
Importa ainda acrescentar que estamos desde há anos com um abaixamento significativo da procura de ensino superior apesar deste ano se ter registado uma pequena subida. As dificuldades económicas são a principal razão para não continuar.
É também de acentuar que, de acordo com o Relatório da OCDE, Education at a glance 2013, Portugal é um dos países europeus em que a frequência de ensino superior mais depende do financiamento das famílias, cerca de 31% dos gastos de universidades e politécnicos. A média da OCDE é 32% e a da União Europeia, 23,6%.
Como a atribuição de apoios sociais a estudantes em dificuldades aos estudos tem sido revista em baixa é fácil perceber a opção de muito jovens portugueses que, dificilmente, voltarão a Portugal de depois de terminada a sua formação inicial pois as possibilidades de formação pós-graduada são também, como sabemos, bastante mais acessíveis e diversificados na diversidade e na qualidade.
A qualificação é a melhor forma de promover desenvolvimento e cidadania de qualidade pelo que apesar de ser um bem caro é imprescindível. 
O abandono que se verifica a par da baixa da procura por formação superior são comprometedores do futuro.

DE PEQUENINO É QUE SE TORCE O DESTINO

A imprensa de hoje faz referência a um Programa da responsabilidade da Universidade de Coimbra, “Anos Incríveis”, que envolverá 60 jardins-de-infância implantados em meios sociais desfavorecidos e que, através do envolvimento dos pais, educadores e técnicos de saúde, visa prevenir problemas de comportamento e promover competências sociais nas crianças.
Assenta na chamada parentalidade positiva, disponibilidade e tempo para os pais interagirem com os filhos, privilegiar o elogio em detrimento da crítica, definição consistente de regras e limites, envolvimento dos educadores e técnicos de saúde no trabalho com as famílias, etc.
O Programa, já ensaiado em Portugal e com origem nos Estados Unidos revela bons resultados na prevenção do “mau comportamento” das crianças bem como no minimizar de “problemas de comportamento” já instalados.
Este tipo de iniciativas é essencial, deve ser estudado e, desejavelmente generalizado, a grande falha de múltiplas acções que oferecem bons resultados mas que só se mantêm enquanto dura o “Projecto” ou o “programa”.
Algumas notas sobre pais e crianças pequenas.
Acontece com razoável frequência quando se assiste ou se comentam alguns comportamentos dos miúdos, sobretudo quando se trata de birras ou a imposição de desejos ou vontades aos adultos, quase sempre os pais, surgirem explicações como “é dos mimos”. Neste tipo de diálogos, “mimos” é entendido quase como sinónimo de “afecto”, “amor”, “gostar”, etc.
Tal justificação costuma depois servir para se afirmar a ideia de que as crianças hoje em dia têm muitos mimos que as estragam, dito de outra maneira, têm “afecto” a mais ou ainda “gosta-se de mais” das crianças. Estes discursos parecem-me sempre muito curiosos estes discursos pois assentam, do meu ponto de vista, num enorme equívoco.
As crianças, de uma forma geral, não terão afecto ou elogios a mais, pode existir “afecto a mais” "elogio excessivo" mas se for excessivo é mau afecto é mau elogio. Não é mau por ser muito, é mau porque asfixia, oprime, não deixa que os miúdos cresçam, distorce a percepção da criança de si própria. Mas não é este o tipo de situações que leva as pessoas a falar dos mimos ou dos elogios a mais.
Insisto, as crianças não têm elogios ou mimos a mais, têm nãos de menos, os adultos sendo quase sempre capazes de dar os mimos e os elogios, muitas vezes mostram-se incapazes de dar os nãos, de estabelecer os limites e as regras que, como sempre digo, são tão necessárias às crianças como respirar e alimentar-se.
Esta dificuldade dos adultos em oferecer os nãos aos miúdos, decorre muitas vezes de alguma desconforto culpabilizante sentido com as circunstâncias e estilos de vida que inibem o tempo e a disponibilidade que desejariam ter para os filhos. Ficando sem nãos, muitas crianças, a coberto do afecto ou dos elogios dos pais, transformam-se em pequenos ditadores que infernizam a vida de toda a gente, a começar por si próprios.
Mas não têm mimos, afecto, elogios a mais. Têm, repito, nãos a menos.
Por outro lado, também é muito frequente falar dos comportamentos das crianças constatando que “não páram”, são “agitadas”, “só gritam”, etc.
Por vezes digo que as crianças gritam muito e agitam-se porque nós, por várias razões, ficamos mais surdos, só quando gritam as ouvimos e só quando se agitam” reparamos nelas. E os miúdos são inteligentes, percebem que assim é e agem em conformidade.
Neste contexto fomentar e ajudar os pais a desenvolverem comportamentos de disponibilidade escuta dos miúdos, a assumirem com firmeza e sem culpa a necessidade de definir regras e limites, de elogiar mostrar afecto sem que se sintam a dar “mimos” a mais e que “estragam” as crianças só pode ser um bom trabalho.
De pequenino é que se torce o destino.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

OS PROBLEMAS ESPECIAIS DAS PESSOAS COM NECESSIDADES ESPECIAIS

Famílias carenciadas estão a ficar com o subsídio de ensino especial para pagar despesas básicas. Há terapeutas sem receber e crianças que já deixaram de ser acompanhadas.
De há muito que venho a defender a pertinência de repensar todo o modelo dos subsídios de educação especial atribuídos às famílias para apoios especializados a crianças com necessidades especiais.
Entretanto e ao que se noticia muitas famílias estão a usar os subsídios para assegurar despesas básicas. Os técnicos e centros de prestação dos serviços deixam de os prestar e, ao que parece, existem crianças já  sem apoio.
Mais uma razão para repensar o modelo e para evitar que se possam criar situações em que crianças com necessidades reais deixam de ter resposta.
Não é nada de novo, os mais vulneráveis são sempre os que sofrem mais.
Mas não é uma fatalidade, fazemos os dias assim, como cantam os Trovante.

A VOZ DAS MINORIAS

No ranking que mede como são respeitados os direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transgénero, o Reino Unido continua a ocupar o 1.º lugar. Malta é dos que mais sobe na Europa — era 11.º em 2014 e passou este ano para 8.º. E Portugal desce quatro posições — é 10.º, numa lista de 49 países.
Às minorias, de uma forma geral, falta voz, ouvem-se pouco e mal.
Acresce que os níveis de desenvolvimento das comunidades também se afere pela forma como lidam com as suas minorias.

                                              (Foto de Mico)

Para onde foram todos?
Sabem que não gosto de ficar só.

Mas quando estão todos,
também me sinto só.

A PRESSA DE APRENDER

No Observador encontra-se um trabalho interessante e pertinente sobre o universo das crianças. Reflecte-se sobre os conhecimentos e competências que muitas crianças revelam precocemente e se esta situação é positiva e, portanto, de incentivar ou se, pelo contrário, deve ser encarada com alguma prudência  e atenção. Parece-me de sublinhar pela sua habitual qualidade e bom senso a colaboração dos Professores Gomes Pedro e Mário Cordeiro.
Uma pequena história a propósito desta matéria, as crianças que aprendem cedo.
Um dia destes, estava um grupo pequeno de volta de um café na sala de professores a aproveitar uns, poucos, minutos de paragem, quando alguém se referiu ao cansaço que nesta altura se começa a sentir nos miúdos, tornando-os dificilmente mobilizáveis para o trabalho.
No grupo estava o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros. No seu jeito de sempre, tranquilo e sem levantar muito a voz disse “é da pressa”. Os colegas estranharam e o Velho acrescentou: “Acho mesmo que é da pressa, muitas famílias logo que os miúdos nascem, mas sobretudo quando entram na escola, começam a entender os próximos anos como sendo fundamentalmente a preparação para ser adultos. Então, muitas vezes sem se dar conta pressionam os miúdos para crescer rapidamente e bem preparados para enfrentar a idade adulta.
Dão-lhes escola até os intoxicar, é preciso aprender muito e depressa. Enviam-nos para actividades sem fim que lhes desenvolvem imensas capacidades e competências que são fundamentais, dizem, para que se transformem em adultos realizados, ou como mais frequentemente afirmam, em pessoas com sucesso. Estimula-nos ao máximo para que aprendam o mais que puderem.
Estes pais não toleram a falha, exigem a excelência, detestam a brincadeira que entendem como uma perda de tempo.
Esquecem-se ou nunca perceberam que a infância é um tempo que vale por si só, irrepetível e imprescindível. Miúdos a quem roubam a infância, um dia vão querê-la de volta e nessa altura vão fazer asneiras que já podem ser complicadas, o tempo e a idade já serão outros. É certo que a infância também é um tempo em que se enche a mochila que nos vai acompanhar em adultos, mas é preciso não esquecer, é fundamental que a infância seja vivida enquanto infância, sem pressa.
Depressa e bem não há quem diz o povo."
Entretanto acabou o intervalo, sem tempo para mais conversas, é sempre à pressa.

domingo, 10 de maio de 2015

GOSTEI DE LER A ENTREVISTA DE SAMPAIO DA NÓVOA

ao Público. Do meu ponto de vista, a entrevista de Sampaio da Nóvoa representa um olhar diferente, estimulante e lúcido sobre o cenário político em Portugal e sobre a função presidencial. A lucidez que também revela ao perceber como os defensores do status quo estão a reagir e, sobretudo, vão reagir à medida que a candidatura ganhe consistência e apoio. Será difícil, mas é possível.
Sublinho a leitura de natureza proactiva dos poderes presidenciais que não pode ser um mero espectador mumificado quando não cúmplice de interesses partidário como estamos mais habituados.
É neste ponto que julgo importante reflectir também a propósito da entrevista de Sampaio da Nóvoa. De facto, à questão "Quando vier a ter apoios partidários como é que vai ser? Vão integrar-se nessa forma de fazer campanha que defende?" responde "Fico contente por utilizar o “quando”, eu teria tendência a utilizar o “se” [Risos]. Se vier a ter, as pessoas terão de funcionar no interior destas dinâmicas. É uma característica pessoal: a pior coisa que me podem fazer é tentar encostar-me à parede. Há muita arrogância no poder em Portugal. As pessoas a mim levam-me por bem, mas constrangendo-me é impossível. Eu vou fazer o possível dos impossíveis. Com uma entrega total. Mas quem vai fazer isto são os portugueses.".
E ainda à questão, "Diz-se um homem de esquerda. Nunca houve maiorias de coligação à esquerda. Acha que o sistema político está demasiado inclinado ao centro?"
Acho que mais do que inclinado ao centro, criou-se uma convicção de que só se podia governar ao centro. É o famoso “arco da governação”, que eu acho uma coisa verdadeiramente insuportável, até porque é um conceito que logo à partida exclui 20% dos portugueses. A inevitabilidade do centro é a inevitabilidade de certas políticas. Sou completamente contrário a isso."
Estas duas respostas parecem-me de profundo significado e são particularmente estimulantes. Será difícil mas é possível.
Em Portugal, como Sampaio da Nóvoa tem salientado, as presidenciais resultam de uma iniciativa individual de candidatura e, evidentemente, os partidos são uma trave mestra da democracia tal como a entendemos embora, na minha perspectiva, as praxis partidárias, centradas nos aparelhos e na luta pelo poder, fechada, tenha capturado a intervenção cívica dos cidadãos tornando- quase impossível fora da sua tutela, criando, assim, uma partidocracia que tem vindo a corroer a saúde ética da nossa democracia.
No entanto, também sabemos que uma iniciativa individual fora do espectro partidário e sem o apoio das máquinas partidárias parece inviável.
Neste contexto a candidatura de Sampaio da Nóvoa precisará do apoio do PS e de, eventualmente de outros, partidos mais à esquerda para ser bem sucedida. Acontece que apesar da recusa de António Guterres, a opção de sempre do PS, ainda não é linear que o apoio seja dirigido a Sampaio da Nóvoa, vejam-se as posições públicas de várias figuras do partido.
Por outro lado, se esse apoio se concretizar e como "em política não há almoços grátis" o PS quererá, evidentemente, capturar a candidatura e o projecto político de Sampaio da Nóvoa que, já dá para perceber, não é coincidente em várias dimensões com o PS actual, desde logo na questão identificada por Nóvoa como central "O meu ponto de partida é o da crítica das políticas de austeridadee também na opção por um claro posicionamento à esquerda e contrário ao alternante sem alternativa "arco da governação".
Conseguirá Sampaio da Nóvoa resistir a esta tentativa de "colonização" do PS caso se venha a verificar o apoio do partido à candidatura?
Conseguirá Sampaio da Nóvoa emergir e ser bem sucedido num cenário sem apoio partidário dos partidos do "arco da governação"?
Acredito que as respostas podem ser em qualquer dos casos, sim é difícil mas vai ser possível.

MÃES PRECOCES, PROBLEMAS MADUROS

Embora se registe uma diminuição Portugal continua a ser um dos países da Europa com mais alta taxa de gravidez na adolescência. Nos últimos anos quatro anos nasceram em Portugal 212 crianças de mães com menos de 15 anos o que indicia o número elevado de mães muito novas sendo que a mairoria não decorre desituações de violação. Tal facto, evidencia a atenção que esta situação deveria receber.
Parece oportuno relembrar que segundo os especialistas a diminuição do número de partos de adolescentes decorre da prevenção. Embora nestas matérias, como em todas as que dizem respeito à vida das pessoas, se deva considerar o universo de valores em presença, bem diferentes, é fundamental não esquecer as consequências devastadoras e dramáticas que a maternidade adolescente pode implicar. Recordo que há algum tempo desencadeou-se algua discussão pública sobre a distribuição de preservativos nas escolas e foi possível a perceber a grande disparidade e diferenças de ponto de vista sobre a questão.
Como referem vários dos técnicos a gravidez surge para muitas adolescentes e jovens como "um projecto de vida na ausência de outros" e num quadro de insucesso educativo.
Sabemos, a experiência mostra, que uma adolescente pode revelar-se uma excelente mãe, tanto quanto uma mulher madura pode ser uma péssima mãe. Não podemos, nem devemos, promover avaliações prévias de competências maternais, a ética e a moral impedi-lo-iam, mas podemos combater discursos hipócritas sobre a educação em matéria de sexualidade e comportamentos de risco.
Estes discursos alimentam a manutenção de situações que promovem em adolescentes, muitas vezes sem projecto de vida, um caminho e uma experiência para a qual não estão preparadas nem desejam, e com o risco sério de implicar sofrimento para todas as pessoas envolvidas, a começar, obviamente por uma criança, que sem ser ouvida, entra a sofrer neste mundo.

GOSTEI DE LER, "A ORQUESTRA GERAÇÃO"

Na Venezuela diz-se que quem pega num instrumento não pega numa arma. A Orquestra Geração adaptou o exemplo à realidade portuguesa e centenas de miúdos de bairros difíceis agarram-se à escola para aprender música e ganhar um futuro. 
Como muitas vezes refiro, estamos num tempo em que a educação e a escola tendem a ser pensadas em torno de saberes "essenciais" levando a que, de mansinho, se vão desvalorizando ou mesmo expurgando do currículo um conjunto de contúdos fundamentais à construção de cidadãos globalmente bem formados e qualificados.
Conteúdos relativos a formação cívica, actividade física e desporto, actividades expressivas ou artísticas, por exemplo, desaparecem ou são desvalorizados sendo que, de uma forma geral, todo o universo das ciências sociais é depreciado, do ensino básico ao superior e investigação.
O Projecto da Orquestra Geração é apenas mais um exemplo, um bom exemplo, da importância de diferentes abordagens para promover a adesão dos miúdos à vida escolar mostrando que podem ser um enorme contributo para o seu desenvolvimento e para contrução de um projecto de vida viável e positivo.

A REALIDADE ESTÁ ENGANADA

Um dia, talvez eu que sou um crente optimista nas qualidades do ser humano ainda consiga perceber a estranha convicção que boa parte da classe política com diferentes origens assume, sobretudo quando chega ao poder. Todo o seu discurso passa a assentar na ideia de que, “a realidade está errada, eu é que estou certo, ou seja, a realidade passa a ser a projecção dos meus desejos”. Dito de outra maneira, assumem que a realidade está enganada, o que eles pensam e o que afirmam é que está certo. Sempre.
Na verdade, esta gente, com mais ou menos habilidade, torturam dados, conhecimentos, informação e experiência e bombardeiam-nos sistematicamente até que, por exaustão ou acomodação, se convencem de que nos convencem. A realidade, acreditam, rendeu-se, passou a ser exactamente aquilo que eles querem que seja.
O problema é que a maldita realidade teima em desmenti-los.
Vem esta introdução a propósito da afirmação ontem produzida pelo Primeiro-ministro num comício do PSD no Algarve,
O Governo "não falhou em matéria social" e, mesmo nos períodos de maior dificuldade, conseguiu prestar apoio às franjas mais carenciadas da população.

Só para citar alguns dados, segundo a Cáritas Europa Portugal foi o país em que o risco de pobreza mais subiu em 2014 sendo que cerca de 25% de crianças estão nesta situação.
Mais de metade dos desempregados não acede a subsídio de desemprego. Foram cortados milhares de subsídios de abono de família e de outras prestações sociais como o rendimento social de inserção. Milhares de famílias caíram na insolvência sobretudo em consequência do desemprego brutal que as esmagou.
Maldita realidade, sem ela tudo estaria tão bem.

sábado, 9 de maio de 2015

IMPRENSA E PODER

Do meu ponto de vista foi positiva a reacção das empresas de comunicação social à tentativa, ao que parece de geração espontânea, de um grupo de deputados do centrão, CDS-PP, PSD e PS, que sem surpresa são capazes de estabelecer consensos, de instituir um visto prévio na cobertura da campanha eleitoral.
Essa proposta caiu e o CDS-PP e PSD apresentam nova proposta de cobertura das campanhas eleitorais que está a merecer as críticas de duas dezenas de responsáveis editoriais de órgãos de comunicação social.
Algumas notas sobre este universo, a relação dos poderes, designadamente do poder político, com a comunicação social que tem algumas particularidades interessantes.
Se estivermos atentos, reparamos como todos se procuram servir da comunicação social para a defesa dos seus interesses pessoais, partidários, institucionais, económicos, etc. Nada de novo, sabemos o peso que a comunicação social tem nas sociedades actuais e nos últimos tempos também temos tido sucessivos episódios ilustrativos dessas nebulosas relações.
Nesta matéria, para além das consequências óbvias destes comportamentos, parece-me particularmente irritante a forma quase infantil, está um pouco na moda este tipo de infeliz comparação mas não resisto, como algumas figuras reagem ao ser abordadas pela imprensa sobre assuntos sobre os quais, por várias razões, não lhes interessa discorrer. Surgem então as afirmações patéticas, “não tenho nada a acrescentar”, “desculpem, não comento”, “não estou aqui para falar dessas matérias,” “no estrangeiro não comento questões nacionais”, etc., etc. Este pessoal desenvolve assim uma espécie de surdez selectiva, só ouve o que lhe convém, de mutismo selectivo, só fala do que lhe convém, de cognição selectiva, só conhece o que lhe convém.
No entanto, são também estas as figuras que directamente ou através de terceiros, lambem as botas às redacções e aos jornalistas (quanto mais influentes melhor) e pedem, exigem, tempo de antena quando tal serve os seus diferentes interesses.
Algumas dessas figuras quando, quase sempre fruto do alpinismo partidário, ascendem a alguma forma de poder conseguem ainda ir mais longe nessa relação com a imprensa, se não lhes agrada calam-na como também não é raro. É um método velho e intemporal.
Devo confessar que tal cenário é, para mim, profundamente irritante e patético, sinto que nos insultam, que nos consideram destituídos, como se por não abordarem as diferentes matérias, elas não se passassem ou não existissem ou, noutros processos, que somos manipulados de forma nem sempre perceptível pela opacidade das situações.
Finalmente, incomoda-me também uma comunicação social, boa parte dela, passiva e resignada, que não confronta as figuras públicas com estes comportamentos, não os denuncia, e que acorre solícita quando essas figuras entendem que têm algo a dizer, as mais das vezes, irrelevante. Também lhe convém esta subserviência interesseira que alguns profissionais mantêm, também têm as suas agendas. Às vezes são recompensados.
É, quase, tudo farinha do mesmo saco como dizia a minha Avó Leonor.

E SE FABRICÁSSEMOS DIAS LOUREIROS?

Por diversas ocasiões tenho aqui manifestado a minha reserva face ao entendimento de que tudo o que possa de alguma forma dizer envolver os mais novos deve ser ensinado na escola. Esta visão obesa da escola não funciona, nem tudo deve ser transformado em disciplinas escolares, para além de que a escola tem um conjunto de funções incontornáveis que tornam finita a sua capacidade de responder.
Uma primeira nota para sublinhar que, ao que parece, os pais não são informados da realização destas acções de formação, sendo que alguns pais não autorizam a participação dos filhos pela discordância com as perspectivas e conteúdos que as informam.
Para ilustrar, cito do Público, “Aos seis anos, os alunos deverão reconhecer por exemplo, “como os membros de uma família dependem de várias empresas para satisfazer as suas necessidades e desejos”. E descobrir num mapa onde é que os membros da família os poderão satisfazer. Entre os 10 e os 12 anos já deverão avaliar “as etapas de valor acrescentado para a produção de um determinado produto e discutir as vantagens de escolher um país em vez de outro para a produção.
No 3.º ciclo os alunos são incentivados “ a usar o pensamento crítico para aprender algumas competências empreendedoras que suportem atitudes positivas, enquanto exploram as suas aspirações de carreira”. E chegados ao secundário podem ter acesso ao “ programa bandeira da Junior Achievement”: “A Empresa”. No seu âmbito os alunos criam uma mini-empresa e depois, ao longo de um ano lectivo, “reúne, capital através da venda de títulos de participação, criam um produto ou serviço, colocam-no no mercado e, por último, liquidam a operação e pagam os dividendos aos titulares”.
Como síntese parece elucidativa. Sem surpresa e como também é referido na peça o programa tem apoiantes. Não me parece estranho nos tempos que correm.
Na verdade, tem vindo a desenhar-se, não só em Portugal mas também em Portugal, a ideia de uma educação, de uma escola, fundamentalmente centrada em competências instrumentais, em saberes “úteis”, "essenciais" como lhes chama Nuno Crato, que forme “técnicos” e não “cidadãos” qualificados. Os currículos são progressivamente aliviados de conteúdos que não sejam “práticos”, promotores de “produtividade”, “domínio de técnicas” como seja toda a área da formação cívica, dos valores, das expressões e conteúdos artísticos, etc.
A escola deve formar empresários, poucos e técnicos qualificados e de formação estreita, muitos.
Estas ideias traduzem-se nos conteúdos curriculares, nos modelos de avaliação, nas concepções do que deve ser o trabalho dos professores, na organização do sistema educativo, selectivo, prescritivo e incapaz de acomodar diferenças entre os alunos, etc.
Estas ideias traduzem-se também na forma como o Primeiro-ministro mostra repetidamente que Dias Loureiro, um empreendedor, é um exemplo paradigmático do que deve ser o sucesso.
Como de há algum tempo afirmo, não é bem esta a escola, a educação, que desejo para o meu neto.

TELELIXO

A indigna situação a que se assistiu no Programa Ídolos da SIC em que um jovem foi tratado de uma forma inaceitável em termos éticos e morais desencadeou um conjunto de reacções levando a que a estação venha agora oferecer apoio ao jovem maltratado que, ao que parece, tem tido reacções de sofrimento pela situação em que foi irresponsavelmente envolvido.
Talvez o episódio do jovem maltratado possa contribuir para que a própria opinião pública se torne mais exigente e não tão acriticamente consumidora de produtos, boa parte dos chamados reality shows por exemplo, que alimentam audiências, justamente, através de indecorosos produtos em que, genericamente, as pessoas são tratadas de forma absolutamente inaceitável e atentatória da sua dignidade. Não colhe o argumento de que são adultos e autodeterminados pelo que a escolha é sua. É mesmo mau..
É claro que as lágrimas de crocodilo da SIC são irrelevantes e logo que a poeira assentar, ou mesmo antes, o vale tudo para garantir audiência vai regressar.
Não vale a pena acreditar que as estações televisivas se preocupam com valores, ética, etc. As estações vendem os produtos que os consumidores querem consumir. É o mercado.
A questão é connosco, não é com eles. Eles só nos dão o quisermos ver.
É preciso dizer que lixo é para reciclar, não é para passar na televisão.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

OS RESULTADOS DA SINISTRA PROVA

O IAVE divulgou ontem os resultados da componente específica da sinistra Prova de Avaliação de Capacidades e Conhecimentos para aceder à carreira de professor. Dos resultados obtidos nas diferentes áreas científicas está a merecer destaque  a percentagem de "chumbos" que em Português e Física atingiu mais de metade dos docentes. 
Provavelmente não será a última vez que o farei mas mais umas notas telegráficas.
Em primeiro lugar parece-me absolutamente necessário afirmar que estes resultados não branqueiam nem justificam a existência da sinistra PACC. 
Qualquer pessoa minimimamente conhecedora destas matérias e que não embarque na agenda e demagogia do Ministro Nuno Crato entende que os conhecimentos e as capacidades para se ser professor não são de todo avaliáveis por um dispositivo deste tipo. A única forma séria de avaliar as Capacidades e Conhecimentos para o exercício da função docente é o desempenho em sala de aula. É assim que acontece na generalidade dos países, a existência, aliás, já prevista em Portugal de um período probatório. Ponto.
Crato também sabe disso, evidentemente, mas a manha e a agenda determinam este caminho. Nuno Crato aproveitou a sua existência legal, está prevista desde 2007, para num exercício, mais um de, de desbaste nos professores e candidatos a professores eliminar uns quantos.
Por outro lado e tendo-se realizado, creio que os resultados obtidos, designadamente em Física e em Português deveriam merecer alguma reflexão e uma análise mais fina procurando perceber, por exemplo, se existe alguma relação entre os resultados agora conhecidos e as escolas de formação dos docentes. As próprias instituições, politécnicas e universitárias, teriam interesse nessa análise.
Uma nota final para o discurso do IAVE e certamente do MEC que cavalgam estes resultados construindo um discurso demagógico e manhoso sobre competência, rigor e exigência sobre os professores que é mais um contributo para a degradação da sua imagem. Convido-vos a passar os olhos pelas caixas de comentários da imprensa online sobre esta matéria. Dá para ficar inquieto.
Esta degradação não pode, evidentemente, deixar de se ligar à forma como alunos e pais se rlacionam com os professores e como a sua percepção de autoridade e função ficam fragilizadas. Se alguns dos 
responsáveis do MEC e ou do IAVE fossem mais competentes perceberiam que nos países com melhores sistemas educativos os professores são prestigiados, discriminados positivamente e apoiados pelas estruturas de tutela.
O contrário do que por cá se verifica com resultados preocupantes.