terça-feira, 23 de julho de 2013

LITURGIA POLÍTICA

O Governo, tal como anunciou o Presidente da República, em mais uma estranheza da nossa cena política, vai apresentar uma moção de confiança na Assembleia da República. A discussão far-se-á na próxima terça-feira no último plenário da plenário da actual sessão legislativa.
Como é evidente a discussão da moção de confiança e a previsibilidade dos resultados e do seu impacto, transforma este tipo de acontecimentos num acto litúrgico inconsequente a que a generalidade dos cidadãos fica indiferente. Mais um de muitos em que a nossa realidade política é fértil.
Nos dias de chumbo que atravessamos e como a realidade e os estudos sobre a realidade mostram, a confiança é um bem escasso a que poucos acedem, pelo que não deveria ser invocado o seu nome em vão.

A COLOCAÇÃO DE PROFESSORES. Capítulo final

Os resultados dos concursos para a colocação dos professores não teve surpresas face ao que tem sido a PEC - Política Educativa em Curso.
O MEC sempre defendeu que as necessidades de professores e as vagas disponibilizadas resultam “da actual conjuntura económica e financeira” pelo que promove “a empregabilidade possível”, sendo que as “vagas colocadas a concurso foram definidas em função das necessidades reais e futuras do sistema”.
Como já tenho referido, parece-me claro que a questão do número de professores necessário ao funcionamento do sistema é uma matéria bastante complexa que, por isso mesmo, exige serenidade, seriedade, rigor e competência na sua análise e gestão, exactamente tudo o que tem faltado neste processo, incluindo a alguns discursos de representantes dos professores.
Para além da questão da demografia escolar que, aliás, o MEC tratou de forma incompetente e demagógica, importa não esquecer que existem muitos professores deslocados de funções docentes, boa parte em funções técnicas e administrativas que em muitos casos seriam dispensáveis pois fazem parte de estruturas do Ministério pesadas, burocráticas e ineficazes que, aliás, o ministro Nuno Crato achou que deveriam implodir. Para já, o risco de implosão ameaça mais a escola pública que o Ministério.
Por outro lado, os modelos de organização e funcionamento das escolas, com uma série infindável de estruturas intermédias e com um excesso insuportável de burocratização, retiram muitas horas docentes ao trabalho dos professores que estão nas escolas.
No entanto e do meu ponto de vista, o “excesso” de professores no sistema e sem trabalho deve ser também analisado à luz das medidas da PEC – Política Educativa em Curso. Vejamos alguns exemplos.
Em primeiro lugar, a mudança no número de professores necessário decorre do aumento do número de alunos por turma que, conjugado com a constituição de mega-agrupamentos e agrupamentos leva que em muitas escolas as turmas funcionem com o número máximo de alunos permitido e, evidentemente, com a as implicações negativas que daí decorrem.
As mudanças curriculares com a eliminação das áreas não curriculares que, carecendo de alterações registe-se, também produzem um desejado e significativo “corte” no número de professores, a que acrescem outras alterações no mesmo sentido. É ainda de referir a gestão de uma oferta educativa que não servindo os alunos e a diferenciação de trajectos resulta na "dispensa" de professores.
O Ministro “esquece-se” obviamente destes “pormenores”, apenas se refere à demografia, em termos errados e habilidosos, e aos recursos disponíveis para, afirma, definir as necessidades do sistema, processo obviamente desajustado.
Este conjunto de medidas, além de outras, sairão, gostava de me enganar, muito mais caras do que aquilo que o MEC poupará na diminuição do número de docentes, que ficarão no desemprego, muitos deles tendo servido o sistema durante anos.
Ficarão sem trabalhar, não porque sejam incompetentes, a maioria não o é, não porque não sejam necessários, a maioria é, mas “apenas” porque é preciso cortar, custe o que custar.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

A ESCOLHA DO CURSO

Umas notas minhas no Público sobre as escolhas dos cursos na entrada para o ensino superior.

SE A MODA PEGA ...

O Ministro da Economia e a Ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (uff!) foram condenados pelo Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja a pagar multas diárias de 43,65 euros até que se definam medidas que garantam a segurança dos que usam a auto-estrada Sines-Beja, cuja construção está parada há meses.
A aplicação da multa tem efeitos imediatos sendo que os recursos já anunciados não têm efeitos suspensivos.
Esta sentença, responsabilização directa dos responsáveis políticos, é raríssima entre nós e pode desencadear réplicas e exemplos que levem o país à implosão.
Em Portugal vive-se de há muito uma cultura de não responsabilização e impunidade dos responsáveis políticos mesmo quando as suas decisões ou decisões tomadas por serviços sob sua tutela são manifestamente lesivos dos interesses públicos e muitas vezes são mesmo negócios absolutamente ruinosos. Veja-se a título de exemplo o mundo negro das PPPs, dos agora tão conhecidos contratos envolvendo SWAPS, a venda do BPN, etc.
O interesse público tem sido lesado em muitos milhões sem que algum tipo de responsabilidade seja imputada a quem tomou as decisões por negligência, incompetência ou mesmo com dolo.
Merece assim registo esta sentença do Tribunal alentejano.
Se a moda pega ... 

domingo, 21 de julho de 2013

A HISTÓRIA DO IMAGINADOR

Era uma vez um rapaz chamado Imaginador. Desde que chegou à escola, ainda pequeno, que se notou a sua capacidade para contar histórias que ninguém tinha ouvido. As pessoas apressavam-se a aconselhá-lo a não inventar coisas, algumas até o achavam mentiroso. O Imaginador não se importava muito e continuava a inventar mais histórias que deixavam os seus coleguinhas de ouvidos abertos e os adultos mais preocupados.
Quando mudou de escola e como já sabia ler e escrever, coisas de que gostava muito, mais do que dos números, começou a escrever as suas histórias fantásticas. As pessoas bem lhe pediam para não inventar porque já não era um miúdo pequeno e não podia acreditar naquelas coisas estranhas que punha nas histórias, às quais, aliás, o Imaginador se referia como se fossem bem reais.
Mais crescido, o Imaginador, para além das histórias que continuava a produzir, começou também a pintar coisas que surpreendiam as pessoas que, como sempre, lhe sugeriam que fizesse trabalhos mais bonitos e mais parecidos com os que toda a gente fazia.
Tantas vezes e tanta gente pressionou o Imaginador que ele acabou, em adulto, por deixar de contar histórias e pintar coisas fantásticas.
Agora, faz como toda a gente, envia alucinadamente SMS e tira fotografias com o telemóvel.

A AGITAÇÃO IMPRODUTIVA

Todos nós conhecemos pessoas e instituições que têm um estilo de funcionamento tão curioso quanto evidente, ostensivo. Mostram um comportamento altamente dinâmico, parecem sempre em movimento, sempre focadas em algo de super-importante, sempre envolvidas em complexos processos de decisão, sempre a congeminar projectos fundamentais. Quando procuramos perceber o resultado desta hiper-actividade, chegamos com alguma perplexidade à conclusão de que é pouco mais que zero.
Todo o movimento e dinâmica que observamos não produz resultados, é ineficaz embora mascarada com um enorme volume de trabalho, preocupações, discursos, etc.
Costumo descrever este cenário como uma "agitação improdutiva", ou seja, vemos pessoas permanentemente a agitarem-se de um lado para o outro, em discursos e reuniões contínuas, com imensos dossiers de baixo do braço, mas nada de produtividade.
Serve esta introdução para me referir ao que tem sido os últimos dias da cena política portuguesa, um cenário claro de agitação improdutiva. Aliás, como também já disse, dada a cultura e praxis existente dificilmente poderia ser de outra forma.
Em Portugal é habitual que a actuação dos partidos se organize mais em função dos seus interesses e de interesses corporativos do que a pensar no bem comum. A partidocracia é dona, ou quer ser dona, da vida cívica, económica, social e cultural do país. A decisão do Presidente da República estava, pois, condenada ao fracasso.
Assim sendo, após este período de intensa agitação, é previsível que o Presidente da República venha a comunicar o óbvio, vamos ter mais do mesmo.
Provavelmente, poderemos assistir a uma remodelação do Governo se Cavaco Silva se dispuser a engolir um sapo, a subida de Paulo Portas a Vice-Primeiro-ministro, e lá virá a retórica da estabilidade, da cautela com o nervosismo dos mercados, da proclamada coesão da coligação (até ao próximo sobressalto). A agitação destes dias foi rigorosamente inconsequente, improdutiva. Como já disse, paradoxalmente, em nome da estabilidade prolonga-se a instabilidade.
Entretanto, no chamado mundo real, as pessoas assistem sem surpresa a estes jogos agitados e continuam a luta diária pela sobrevivência envolvidos na desesperança.
No entanto, mantendo algum optimismo, quero que acreditar que por uma vez a agitação seja produtiva. Depende  de quem se agite e da forma como se agite.

PS - O PS apresentou à Procuradoria-geral da República um pedido de investigação pois tem "dúvidas fundadas" de que estará a ser alvo de escutas. Acho estranho, pois creio que, como escrevi acima, nos últimos tempos todos os partidos têm estado sob escuta, embora sem "fundadas esperanças" de que tivessem algo de substantivo para dizer. Como se verificou, as nossas "fundadas dúvidas" confirmaram-se.

sábado, 20 de julho de 2013

QUANTO MAIOR É A TURMA, MAIOR É A TORMENTA

O Ministro Nuno Crato afirmou ontem no Parlamento que para o próximo ano lectivo o número médio de alunos por turma irá subir. Esclareceu ainda que em todas as regiões educativas do País existem turmas com mais de 26 alunos, sendo que a região de Lisboa e Vale do Tejo é que apresenta maior número, 10% do total.
Com razoável frequência aqui tenho abordado a questão do número de alunos por turma no nosso sistema educativo e no seu impacto, considerando as características dos diferentes territórios educativos. Aliás seria interessante perceber qual o efectivo médio das turmas dos alunos com notas mais baixas nos últimos exames nacionais nos diferentes ciclos do Ensino Básico.
Recordo que o relatório anual “Education at a Glance 2012” da OCDE, assinalava que apesar de Portugal ter investido no sentido de proporcionar mais tempo de trabalho aos alunos, foi o país em que o número de alunos por turma mais cresceu o que degrada a qualidade do ensino. A decisão de subir o número máximo de alunos por turma no 1º ciclo será de 26 alunos e do 5º ano ao 12º será de 30 conjugada com a criação dos agrupamentos e mega-agrupamentos, gerando a uma excessiva concentração de alunos, levará inevitavelmente a que na generalidade das situações seja atingido o número máximo de alunos. Assim, apesar da média nacional, segundo o MEC, passar de 21 para 22 alunos, boa parte das escolas ficará com turmas com um número de alunos bem superior.
Sabemos todo que a discussão em torno do número de alunos por turma que se entende como razoável é complexa e muitas vezes sujeita a equívocos. Lembro-me de há algum tempo, o Ministro Nuno Crato, a propósito da decisão de aumentar o efectivo das turmas no E. Básico e Secundário, ter argumentado que os estudos não evidenciam relação directa entre o número de alunos por turma e os resultados escolares, uma afirmação que evidentemente deve ser desmontada, pois o número de alunos por turma é apenas uma das variáveis componentes de um processo complexo e, só por si, insuficiente para explicar os resultados.
Por princípio, turmas menores, dentro de parâmetros razoáveis, favorecem a qualidade do trabalho dos professores e dos alunos com naturais consequências nos resultados escolares e no comportamento. No entanto, é também necessário considerar as diferenças de contexto, isto é, a população servida por cada escola, as características da escola, a constituição do corpo docente, os recursos disponíveis, etc. sendo ainda de sublinhar que a qualidade e sucesso do trabalho de professores e alunos depende de múltiplos factores, sendo que a dimensão do grupo é apenas um, ou seja, importa considerar, vejam-se relatórios e estudos nesta área, as práticas pedagógicas, os processos de organização e funcionamento da sala de aula e da escola, bem como o nível de autonomia de cada escola ou agrupamento. Neste quadro e considerando o sistema educativo português, o aumento do número de alunos por turma parece ser um mau contributo para a qualidade dos resultados escolares.
Em termos mais concretos, em algumas escolas, mesmo no sistema público, uma turma de 25 alunos ou mais pode ser ingerível e o sucesso dificilmente alcançável, enquanto noutras escolas a realidade pode ser bem diferente, com contornos mais tranquilos.
Como já tenho afirmado, a diminuição de alunos por turma, libertando horários de professores, o que parece ter-se tornado no eixo central da PEC - Política Educativa em Curso, pode tornar-se uma fonte de problemas, dificultando melhorias na qualidade de trabalho de alunos e professores.
Lembro-me do tempo em que o opinador Nuno Crato se servia das publicações da OCDE para evidenciar e sustentar fragilidades nas políticas educativas da altura.
Actualmente, o Ministro Nuno Crato, bom aluno, aprendeu depressa, desvaloriza as sucessivas publicações da OCDE que têm vindo revelar o caminho errado que alguma da política de que é responsável vem percorrendo.
Poderia dizer que fico surpreendido. Lamentavelmente, não fico, apenas se mantém uma enorme preocupação.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

ESTAVA ESCRITO NAS ESTRELAS. E agora Senhor Presidente?

Estava escrito nas estrelas. O impossível compromisso, como lhe chamei quando Cavaco Silva, numa não decisão e em nome da estabilidade, prolongou a instabilidade, revelou-se isso mesmo, impossível, o PS não aceita estabelecer um acordo e não tardarão as responsabilizações recíprocas. Aliás, o PSD já veio a terreiro responsabilizar o PS, que já tinha responsabilizado o PSD e o CDS-PP, que irá responsabilizar o PS, que ...
Disse na altura o Presidente da República que responsabilizava as lideranças políticas e que se o “compromisso de salvação nacional” falhasse os portugueses seriam capazes de tirar ilações dessas responsabilidades.
É verdade, os portugueses vão tirar ilações como têm vindo a tirar ilações, veja os índices de confiança na classe política, os índices de abstenção e a desesperança instaladas.
Creio que quem deve tirar ilações é o Presidente da República.
Contrariamente ao que a maioria das lideranças parece acreditar, incluindo o Senhor, a realidade não é a projecção dos nossos desejos, diariamente ouvimos discursos dizendo-nos, por exemplo, que estamos no bom caminho e o desemprego continua a crescer. E o Senhor sabe bem, sim não vale a pena dizer que não é político, que na cultura e na praxis política que temos, “consenso” ou variantes como “pacto de regime”, “desígnio”, “grande projecto”, etc., fazem parte do núcleo duro da retórica política e constituem referências obviamente inconsequentes.
A partidocracia instalada leva a que, na generalidade das matérias, os interesses partidários se sobreponham aos interesses gerais, a conflitualidade que sendo importante e muitas vezes estimulante e promotora de mudança, é assente em corporações de interesses e clientelas que inibem a definição de rumos e de perspectivas que visem o interesse geral. O Presidente, o Primeiro-ministro, os parceiros sociais, as lideranças partidárias e sociais sabem-no bem, fazem parte do sistema, pelo que os seus discursos se inscrevem no próprio funcionamento do sistema e que conduz ao que temos, sendo que as alternativas prováveis não são particularmente animadoras.
A conflitualidade inerente aos interesses da partidocracia tornariam obviamente impossível o estabelecimento formal do tal entendimento alargado ou consenso.
O que a história a autoriza a considerar como plausível, seria a definição de uma cenário de mudança com base numa "negociação" mais ou menos discreta e não ameaçada pela alternância de governo entre os chamados partidos do arco do poder pois, em substância, a questão é justamente o poder. As experiências governativas envolvendo "entendimentos" entre PS e PSD mostram isso mesmo, morrem, pois acabam por não "servir" a nenhum deles.
Assim sendo, os partidos, movimentos ou cidadãos que não têm voz nos corredores do poder, ficarão sempre de fora do entendimento ou do consenso pelo que o poder mesmo que em alternância, é a democracia a funcionar, dirão, acaba por estar basicamente nas mesmas mãos, sendo que estes que não "chegam" a estar representados no poder são a maioria. Aliás e curiosamente, já se fala em possíveis "entendimentos" entre PS e CDS-PP num cenário de governação pós-Passos Coelho.
Como referi num texto anterior, a manutenção desta solução governativa tem sido justificada com a ideia de uma imprescindível estabilidade política. Como é óbvio, não creio que exista alguém que sustente a instabilidade política como um bem. Mas a questão central, do meu ponto de vista, é que a estabilidade assenta em políticas sólidas, claras e transparentes, sérias e credíveis, com visão, viradas para as pessoas. Estas características, entre outras é que dão estabilidade, segurança, confiança, às pessoas.
Por outro lado, a estabilidade não é a manutenção de pessoas e de políticas que têm falhado, nacional e internacionalmente, como alguns dos autores principais reconhecem e os resultados conhecidos atestam, não é a falha sucessiva de previsões e objectivos, não é um permanente jogo de interesses e de gestão dos poderes pessoais e partidários. A estabilidade não pode assentar na pobreza, exclusão e desemprego crescentes. A estabilidade não se alimenta da desesperança que nos invade. Tudo isto é que verdadeiramente constitui a instabilidade.
Assim, paradoxalmente, em nome da estabilidade prolongou-se e sustenta-se a instabilidade acreditando num salvífico compromisso que era previsivelmente impossível.
E agora Senhor Presidente da República, que ilação tira?

AS IRRITAÇÕES. A culpa não é das microalgas

Segundo a imprensa, Duarte Lima pediu ao tribunal a extinção da indemnização de quase 54 milhões de euros que lhe é exigida no âmbito do processo de burla em quem está envolvido.
Também soubemos que o mártir da justiça portuguesa (a par de Vale e Azevedo), o Dr. Isaltino Morais, ainda preso por condenação por fraude e branqueamento de capitais, se vai candidatar a Presidente da Assembleia Municipal de Oeiras nas próximas autárquicas.
Começo a pensar que este tipo de situações e o conjunto de circunstâncias muito difíceis em que a nossa vida mergulhou poderão ter alguma relação com as irritações e reacções alérgicas que muitas pessoas andam a sentir e que estão a ser injustamente atribuídas a umas microalgas que, provavelmente e tal como as pessoas, só queriam um tempinho de sol e mar descansado e retemperador das irritações e das dificuldades.
Na verdade, por mais resistentes que possamos ser é difícil suportar tanta destemperança.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O MERCADO DA EDUCAÇÃO

Ao que se lê no Público, professores que integram o movimento Em Defesa da Escola Pública do Oeste apresentaram queixa às autoridades acusando o Colégio Rainha D. Leonor de acesso indevido a dados pessoais de encarregados de educação e de técnicos que são encarregados de educação de crianças institucionalizadas. Esses dados foram utilizados para os convidar a assistir a acções de divulgação da oferta educativa do Colégio e, assim, captar clientes.
O Colégio Rainha D. Leonor integra o grupo GPS que tem sido acusado práticas e políticas de financiamento fora dos contornos legais, por assim dizer e que nega qualquer ilegalidade na obtenção dos dados pessoais. Claro, que haveria de dizer?
A competição é forte, o mercado está em retracção,  as leis em Portugal apenas são indicativas, não são imperativas pelo que vale tudo no sentido de angariar clientes. Por outro lado, várias das dimensões da PEC - Política Educativa em Curso ameaçam seriamente a escola pública que atravessa momentos difíceis, vejam-se os resultados dos exames nacionais dos vários anos em que aconteceram, pelo que se vão reunindo condições para que alguns dos empresários do ensino privado vendam o seu produto da forma que melhor possa servir os seus interesses.
Os interesses e direitos das famílias e dos miúdos, os problemas dos professores, as questões legais, a defesa da qualidade da escola pública, bom, isso é um outro tipo de matérias que vão ficando fora da agenda.
Vamos indo e vamos vendo.

SÓ APRENDE QUEM SE RI E SÓ SE RI QUEM NÃO TEM FOME

O MEC divulgou hoje alguns dados relativos ao Programa PERA - Programa Escolar de Reforço Alimentar através do qual milhares de crianças acederam ao pequeno-almoço providenciado nas escolas.
Apesar dos impactos positivos, os níveis de aproveitamento das crianças envolvidas são mais baixos que a média, 21% reprovaram. No entanto, cerca de 50% das 10816 crianças melhoraram o seu rendimento escolar e em 37% não se registaram melhorias. No que respeita ao comportamento, 42% das crianças melhoraram-no face a 49% que não evidenciaram alterações significativas.
Estes dados não podem deixar de ser lidos sem um sobressalto de indignação. Que raio de mundo e de vida construímos onde isto cabe? Onde, sem demagogia, coexistem miúdos com fome e gente com rendimentos e estilos de vida obscenos e revoltantes no excesso.
O impacto das circunstâncias de vida no bem estar das crianças e em aspectos mais particulares no rendimento escolar e comportamento é por demais conhecido e essas circunstâncias constituem, aliás, um dos mais potentes preditores de insucesso e abandono quando são particularmente negativas, como é o caso de carências significativas ao nível das necessidades básicas.
É também reconhecido que as crianças constituem um dos grupos mais vulneráveis e que sofrem maiores consequências das dificuldades sentidas nas suas comunidades e famílias.
Em Maio, um Relatório, "Food for Thought", da organização Save the Children, afirmava que 25% das crianças do terão o seu desempenho escolar em risco devido à malnutrição com as óbvias e pesadas consequências em termos de qualificação e qualidade de vida de que a educação é uma ferramenta essencial.
Em qualquer parte do mundo, miúdos com fome, com carências, não aprendem e vão continuar pobres. Manteremos as estatísticas internacionais referentes a assimetrias, insucesso e incapacidade de proporcionar mobilidade social através da educação. Não estranhamos. Dói mas é “normal”, é o destino.
Quando penso nestas matérias sempre me lembro da história que já contei várias vezes e que me aconteceu há uns anos em Inhambane, Moçambique, quando ao passar por uma escola para gaiatos pequenos o Velho Bata, um homem velho e sem cursos, meu anjo da guarda durante a estadia por lá, me dizer que se mandasse traria um camião de batata-doce para aquela escola. Perante a minha estranheza, explicou que aqueles miúdos teriam de comer até se rir, “só aprende quem se ri”, rematou o Velho Bata.
Pois é Velho, putos com fome não aprendem e vão continuar pobres.

BOM SENSO, UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE

Na sequência de uma providência cautelar interposta por um grupo de cidadãos, o Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa decidiu travar o fecho da Maternidade Alfredo da Costa e determinou que o Ministério da Saúde reponha num prazo de quinze dias os serviços entretanto já transferidos para o Hospital Dona Estefânia. O Ministério da Saúde vai recorrer da sentença.
Os cidadãos pretenderam com a sua acção conseguir que o encerramento da MAC apenas acontecesse quando estivesse construído o projectado  Hospital de Todos-os-Santos que acomodaria as equipas e os recursos da MAC, não os dispersando e potenciando o seu funcionamento integrado, como acontece há anos com a competência reconhecida por muitos milhares de famílias, nas quais a minha se inclui.
Apesar de não ser especialista, parece-me clara a necessidade de reorganizar a oferta dos serviços no âmbito do SNS, no caso das maternidades também pelo abaixamento fortíssimo do número de nascimentos e pela necessidade óbvia de criar respostas mais eficazes e melhor dotadas em vez de alimentar mais unidades menos equipadas de meios e recursos humanos e, portanto, menos eficientes.
No entanto e justamente por estas razões, parece razoável que, no caso da maior Maternidade do País, com uma polivalência de respostas de qualidade, quer nos equipamentos, quer na qualificação e número de recursos humanos especializados e experientes, se acautelasse a manutenção integrada desta estrutura até que pudesse transitar para um novo edifício.
Quanto nos custa a todos, em valores tangíveis e não tangíveis este tipo de procedimentos? Será que algum bom senso não teria evitado esta estranha situação de mudança de serviços que tornam a mudar, mas que o recurso pode fazer mudar de novo numa deriva sem vencedores, só com vencidos?

À DERIVA

O Presidente da República a anilhar cagarras nas Ilhas Selvagens depois de ter dito aos partidos do arco da governação que "têm de ser amiguinhos" e construir um "compromisso de salvação nacional", tarefa que até pode resultar na aparência mas que provavelmente falhará na substância.
A Assembleia da República num espectáculo cacofónico em que cada um fala para os seus fingindo que fala para os outros, num alinhamento de interesses, os da partidocracia e a gestão dos poderes, por demais conhecido e que fazendo parte do problema, dificilmente poderá fazer parte da solução. A democracia política precisa imprescindivelmente dos partidos, mas a praxis dos partidos pode fragilizar a democracia política. A nossa vida cívica e política está com uma saúde débil, não inspira confiança, não mobiliza, afasta os cidadãos como mostra o nível crescente de abstenção e os estudos de opinião. 
O Governo a insistir em soluções velhas, reconhecidamente ineficazes no que às pessoas diz respeito e recusando obstinadamente a mudança, confundindo persistência com teimosia e insensibilidade.
Entretanto, cá fora, no que alguns chamam o "país real", vive-se uma agonia de desesperança que mina o presente e o futuro.
E a jangada de pedra vai-se movendo, à deriva.


PRECÁRIA DE VIDA

O Ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schauble, sustenta a maior flexibilização do mercado de trabalho dos países em crise para combater o desemprego jovem. Vejamos alguns indicadores.
Em Portugal o desemprego jovem atingiu o devastador nível de 42,5% sendo que a média na UE em 2012 é de 22,9%. Em Janeiro e segundo EUROSTAT, Portugal era o quinto país europeu, dos 21 considerados, em que mais jovens entre os 25 e os 24 vivem com os pais, 46 %. Para comparação, Dinamarca, Suécia e Finlândia têm percentagens inferiores a 5 %.
Na verdade e em termos gerais, os mais jovens estão numa situação particularmente difícil. Segundo um Relatório da Comissão Europeia, há meses divulgado, Portugal terá cerca de 260 000 jovens entre os 15 e 29 anos que não estudam, não trabalham e nem estão a receber formação, a designada situação “nem, nem”. No entanto, dados da mesma altura vindos do INE referiam 314 000 jovens nesta situação. Este cenário não é mais grave porque 100 000 jovens, sobretudo qualificados, estão a sair do país, emigrando para outras paragens e tem um custo brutal, cerca de 2 700 milhões de euros, 1,57 % do PIB. A emigração parece assim constituir-se como via quase exclusiva para aceder a um futuro onde caiba um projecto de vida positivo e viável como tem vindo a verificar-se.
Acresce que de acordo com um Relatório da Organização Internacional do Trabalho em 2011, 56 % dos jovens portugueses com trabalho têm contratos a prazo. Há algum tempo uma informação do Banco de Portugal referia que em cada dez empregos novos para jovens, nove são precários. Por outro lado, a taxa de desemprego entre os mais novos ronda os 36 %, a terceira taxa mais alta da UE.
Segundo um estudo da CGTP, 51% dos jovens com menos de 25 anos ganha menos de 500 € e 24,5% dos jovens entre os 25 e os 35 recebe também menos de 500 €. Este cenário evidencia a enorme precariedade do trabalho e baixa qualificação do mesmo.
A precariedade nas relações laborais quase duplicou na última década. Portugal é o segundo país da Europa, a seguir à Polónia, com maior nível de contratos a prazo. Por outro lado, as políticas de emprego em curso incluem maior flexibilização das relações laborais o que, naturalmente, é coerente com o endeusamento do mercado, coerente com a posição do Ministro das Finanças alemão, que tudo permite, incluindo roubar a dignidade às pessoas e promover exclusão.
Deste cenário e dos números do desemprego, resulta que os mais novos à entrada no mercado de trabalho são os mais vulneráveis ao desemprego e à precariedade quando, apesar das dificuldades, acedem a algum emprego.
Esta situação complexa e de difícil ultrapassagem tem, obviamente, sérias repercussões nos projectos de vida das gerações que estão a bater à porta da vida activa. Entre outras, contar-se-ão, os dados conhecidos mostram-no, o retardar da saída de casa dos pais por dificuldade no acesso a condições de aquisição ou aluguer de habitação própria ou o adiar de projectos de paternidade e maternidade que por sua vez se repercutem no inverno demográfico que atravessamos e que é uma forte preocupação no que respeita à sustentabilidade dos sistemas sociais. As gerações mais novas que experimentam enormes dificuldades na entrada sustentada na vida activa, vão também, muito provavelmente, conhecer sérias dificuldades no fim da sua carreira profissional.
No entanto, um efeito muito significativo mas menos tangível desta precariedade no emprego, é a promoção de uma dimensão psicológica de precariedade face à própria vida no seu todo e que, com alguma frequência, os discursos das lideranças políticas acentuam. Dito de outra maneira, pode instalar-se, está a instalar-se, uma desesperança que desmotiva e faz desistir da luta por um projecto de vida de que se não vislumbra saída motivadora e que recompense.
Este problema que não é um exclusivo português, longe disso, exige uma visão e um conjunto de políticas que não se vislumbram e cuja ausência compromete a construção sustentável do futuro.  
Podemos estar perante a tragédia das gerações perdidas de que há algum tempo se falava.

A ESCOLHA ACERTADA

"Governo trava privatização dos Correios", 1ª página do CM.
Se assim for, do ponto de vista dos cidadãos consumidores parece a Escolha Acertada.

A DIGNIDADE AMEAÇADA

Segundo um estudo de mercado divulgado no Público, as famílias portuguesas, em termos de consumo, entraram em "modo de sobrevivência". Quer isto dizer que depois de uma fase em que as famílias começaram por optar por produtos mais baratos, entraram já na fase de comprar menos, mesmo dos que são produtos essenciais. Nada de surpreendente, estas dados vão no mesmo sentido  dos divulgados pelo INE evidenciando o aumento do risco de pobreza e exclusão e das assimetrias nos rendimentos familiares, Os dados divulgados hoje são da mesma natureza dos verificados na Grécia na sua fase mais complicada.
A adaptação e contenção dos consumos familiares são, de uma forma geral, acomodadas pelas famílias desde que sintam a capacidade de ver supridas as suas necessidades fundamentais. A questão mais grave coloca-se quando as famílias, muitas famílias, já não conseguem aceder ao consumo dos bens básicos como os indicadores divulgados vão mostrando.
Nessa fase, para além da importante questão da sobrevivência instala-se algo que me parece mais grave e que muitas vezes aqui tenho referido, a dignidade ameaçada.
Na verdade a mais ameaçadora das consequências das dificuldades é o roubo da dignidade às pessoas atropeladas por problemas maiores que a sua capacidade para lhes responder. Trata-se da linha que não pode ser ultrapassada, quando a sobrevivência fica ameaçada e só se torna acessível pela  “mão estendida” que envergonha, exactamente por uma questão de dignidade roubada.
Como sabemos, a questão da pobreza é um terreno que se presta a discursos fáceis de natureza populista e ou demagógica, sem dúvida. Mas também não tenho dúvidas de que os problemas gravíssimos de pobreza que perto de três milhões de portugueses conhecem, de acordo com a Cáritas, exigem uma recentração de prioridades e políticas que tarda. Na verdade, apesar da retórica oficial, as políticas assumidas, por escolha de quem decide, estão a aumentar as assimetrias sociais, a produzir mais exclusão e pobreza. Mais preocupante é a insensibilidade da persistência neste caminho que um "compromisso de salvação nacional" em negociação por quem nos governa e quer governar, que aliás parece impossível de atingir, provavelmente não alterará de forma substantiva.
Como sempre afirmo, a pobreza e a exclusão deveriam envergonhar-nos a todos, a começar por quem lidera, representam o maior falhanço das sociedades actuais. 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O MEU AMIGO CAJÓ E A CRISE

Um dias destes pelo fim da tarde e dado o calor marquei encontro com uma "imperial" bem fresca no café do costume. Ao entrar deparei com o meu amigo Cajó que tinha tido a mesma ideia. Já vos tenho falado do Cajó, um rapaz amigo que é mecânico e tem uma paixão pelo "chunning", o "tunning" de quem não tem muito dinheiro. É o caso do Cajó, que apesar das dificuldades tem um Punto kitado que é a menina dos seus olhos e cujo som é o terror dos meus ouvidos.
Olhó amigo Zé, chegue-lhe que tão mesmo fresquinhas, disse à laia de cumprimento apontando para duas "mines" que estavam à sua frente.
Tudo bem Cajó, foi para isso que entrei, mas você já leva avanço, tenho que recuperar. Tudo bem consigo.
Pá, vai-se vivendo, tá uma cena mesmo tramada. Lá em casa a minha Odete já não tem subsídio de desemprego e agora os bacanos lá do Centro de Emprego dizem que não há guito para umas cenas de formação, assim tipo cursos, que ela ia fazendo e sempre davam algum. Não tá fácil, c'os miúdos na escola, material que nunca mais acaba. Tive sorte que lá na escola ainda deram uma ajuda nos livros mas é tudo caro e um tipo quer ajudar os putos, tá a ver. Aqui na oficina, o patrão tá também arrasca para fazer algum que dê para pagar à gente. O pessoal corta-se, deixam as pastilhas chegar ao ferro, só querem dar um jeito carros para tipo, safarem-se na inspecção, alguns ainda ficam a dever e o patrão tem que andar atrás deles. Não há biscates nenhuns p'ra me safar, ainda sacava algum guito assim para umas cenas tipo fixe para meter no carro. Quase não ando com ele para não gastar gasolina. Tamos feitos amigo Zé, tamos feitos.
É verdade Cajó, a coisa não está fácil mas temos que ser optimistas.
Isso é tanga amigo Zé, os gajos tiram sempre aos mesmos, os gajos pensam tipo, sacar mais impostos é fácil, fica logo lá. Dizem que é aquela cena da troika que manda mas é os gajos é que decidem. Depois ainda arranjam um granel do caraças, com cenas, depois vêm outros e fazem a mesma coisa. Isto não muda. Há bocado, ao almoço, tava a ouvir na televisão os gajos andam lá na conversa a ver se arranjam assim tipo um acordo para se entenderem. Os gajos entendem-se sempre, a gente é que se lixa. Sabe o que lhe digo?
Diga lá.
A gente é que se devia entender para correr com estes bacanos.
Paguei as quatro "mines" e saí a pensar no "compromisso de salvação nacional" proposto pelo Cajó.

E É ESCREVER ASSIM, DESACORDADAMENTE (continuação)

Uma boa notícia, um bem de primeira necessidade nos tempos que correm.
A petição “Pela desvinculação de Portugal ao ‘Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa’ de 1990”, vai ser discutida em plenário na Assembleia da República . A Comissão Parlamentar de Educação, Ciência e Cultura aprovou um relatório nesse sentido.
Felizmente, a questão do Acordo Ortográfico permanece viva e enquanto assim for continuarei a afirmar a minha discordância. Gostava de acreditar que esta decisão constituísse um passo decisivo para que se pudesse reconsiderar este processo incompreensível e para muita gente insustentável.
Neste quadro, enquanto a questão não estiver definitivamente encerrada retomo, e retomarei, a minha breve e não técnica reflexão sobre o que me parece estar em causa e expresso teimosamente o meu profundo desacordo com o Acordo. Embora já o tenha feito várias vezes, entendo que a defesa da Língua Portuguesa, nas suas várias e importantes variações, o justifica.
Do que tenho lido e ouvido, nada me tem convencido da sua bondade ou necessidade. Entendo que as línguas são estruturas vivas, em mutação e isso é importante. Neste cenário, é clara a necessidade de ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma. Já estou cansado do argumento da “pharmácia”quando se pode verificar que em todos os países, e são muitos, em que o termo tem a mesma raiz, a grafia é com “ph” e nada de muito grave acontece. A introdução ou mudança na grafia tem acontecido em todas as latitudes e não tem sido necessário um Acordo com os conteúdos bizarros, alguns, que este contém.
Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence pois não me parece que o inglês e o castelhano que têm algumas diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, experimentem particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for. De facto não tenho conhecimento da perturbação e do drama com origem nas diferenças entre o inglês escrito e falado na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas. O mesmo se passa entre a comunidade dos países com o castelhano como língua oficial.
Por outro lado, a opinião dos especialistas não é consensual, longe disso, temos regularmente exemplos disso mesmo, e eu sou dos que entendem que em todas as matérias é importante conhecer a opinião de quem sabe. Aliás, é interessante analisar a natureza da argumentação dos especialistas favoráveis ao Acordo. Algumas vezes assenta, sobretudo, no porque sim, porque é novo. É pobre.
Neste quadro e como sou teimoso vou continuar a escrever em desacordo até que o teclado me corrija. Nessa altura desinstalo o corrector que venha com o acordo e vou correr o risco de regressar à primária, ou seja, ver os meus textos com riscos vermelhos por baixo de algumas palavras, os erros.
Não é grave, errar é humano.
No entanto, como toda gente, não gosto de errar, pelo que preferia continuar a escrever desacordadamente.

AVÓS E NETOS

Umas notas minhas no Público sobre este mundo encantado.

PSICOLOGIA EM OUTSOURCING

Segundo a Ordem dos Psicólogos seriam necessários mais 750 profissionais para, em conjunto com os já existentes, suprirem as carências do sistema educativo no que respeita à intervenção destes profissionais.
Desde 1999 que não contratados psicólogos em regime permanente para as escolas portuguesas. Existe um número, perto de 200, que são anualmente contratados, muitas vezes com atrasos, o que implica óbvias consequências em termos de instabilidade, suficiência e qualidade.
O número avançado pela Ordem radica na utilização de um rácio, um profissional por cada mil alunos, que está ainda acima do cenário existente em muitos países que usam rácios mais baixos. Conheço muitas situações em que existe, quando existe, um psicólogo para um agrupamento com várias escolas e que envolve um universo de 3000 alunos ou mais. Como em vários outros campos, é um fingimento de resposta.
Nos últimos tempos e nesta matéria tem-se verificado que o MEC tem permitido que as escolas contratem a prestação de serviços educativos a realizar aos seus alunos, a empresas, naturalmente, exteriores à escola que, aliás, têm florescido. Estes serviços envolvem trabalho de psicólogos bem como de outros técnicos, por exemplo terapeutas, e desempenham funções em diferentes áreas de trabalho da escola.
Esta contratação de serviços de psicologia, ao abrigo de Programas Operacionais visa cito exemplos, “mudanças comportamentais dos alunos”, “melhoria de atitudes face às tarefas escolares”, pretendendo-se o “sucesso educativo”. É delirante.
Não quero, nem devo, discutir aqui a natureza específica, quer em termos de adequação, quer de qualidade da intervenção dos técnicos, designadamente na área da psicologia. A minha questão é o modelo que a suporta e os recursos necessários. A situação existente assume um modelo errado, ineficaz, independentemente do esforço e competência dos profissionais envolvidos. Trata-se, também aqui, de mais uma entrega de serviço público aos mercados.
Como é que se pode esperar que alguém de fora da escola, fora da equipa, técnica e docente, fora dos circuitos e processos de envolvimento, planeamento e intervenção desenvolva um trabalho consistente, integrado e bem sucedido com os alunos e demais elementos da escola?
Das duas uma, ou se entende que os psicólogos sobretudo, mas não só, os que possuem formação na área da psicologia da educação podem ser úteis nas escolas como suporte a dificuldades de alunos, professores e pais, em diversos áreas, não substituindo ninguém, mas providenciando contributos específicos para os processos educativos e, portanto, devem fazer parte das equipas das escolas, base evidentemente necessária ao sucesso da sua intervenção, ou então, existirá quem assim pense no próprio MEC (veja-se o atraso na colocação dos poucos que o sistema tem), os psicólogos não servem para coisa nenhuma, só atrapalham e, portanto, não são necessários. Este entendimento contraria o que a experiência e o conhecimento da realidade de outros países aconselha.
A situação aceite e promovida pelo MEC parece-me, no mínimo, um enorme equívoco, que, além de correr sérios riscos de eficácia e ser um, mais um, desperdício (apesar do empenho e competência que os técnicos possam emprestar à sua intervenção), tem ainda o efeito colateral de alimentar uma percepção errada do trabalho dos psicólogos nas escolas.
No entanto, a reflexão sobre este trabalho merecia um outro espaço e oportunidade.
Apenas a nota final de que psicologia da educação com qualidade e utilidade e “outsourcing” não me parecem ideias compatíveis. No entanto, nos tempos que correm, a retórica centra-se na qualidade, no rigor e na excelência, enquanto a prática é dirigida para o corte de recursos e meios e a normalização de processos em que apenas sobrevivem os mais aptos.  

terça-feira, 16 de julho de 2013

AS FÉRIAS. Outro diálogo improvável

Vá lá Tiago, despacha-te, já te chamei tantas vezes, olha que fica tarde.
Pai, estou de férias, porque é vou para a escola?
Tiago, sabes bem que não vais para a escola para ficar lá. Vais logo para a praia.
Mas pai, já estou cansado de ir para a praia, o autocarro vai muito cheio, apanham-se filas grandes, demora muito tempo, faz muito calor e o autocarro fica longe da praia. É preciso andar um grande bocado a pé e depois é preciso voltar e é a mesma coisa.
Mas Tiago, depois descansas um bocado quando voltam da praia, depois de almoço.
Mas pai, a seguir ao almoço vamos para as salas fazer trabalhos, todos dias são os mesmos trabalhos, já estou cansado, estou de férias.
É verdade que estás de férias mas não podes ficar sozinho em casa e, por isso, vais para a tua escola.
Eu sei pai, mas tu quando estás de férias não vais para o teu trabalho.
Tens razão, mas acho que podes divertir-te com os teus amigos, fazer jogos.
A gente não tem tempo para fazer jogos, temos sempre muitas actividades para fazer e as monitoras querem que a gente faça todas, estou cansado.
Bom, acaba de te vestires, senão chegamos e os autocarros já foram embora para a praia, sabes que eles não esperam.
Pai.
Sim Tiago.
Quando é que começam as férias?

E A PROTECÇÃO AMBIENTAL?

Ao que parece o Dr. Alberto João Jardim acompanha o Presidente Cavaco Silva na sua oportuna visita às Ilhas Selvagens.
Estranhei a notícia pois é sabido que as Ilhas Selvagens são uma reserva natural e, portanto, com normas restritivas em termos de protecção ambiental.
Terão avisado as cagarras?

A SALVAÇÃO NACIONAL

Os representantes dos partidos do arco da governação, justamente, a governação que, conjuntamente com o contexto mundial, que nos conduziu à situação que vivemos, continuam a tratar da nossa salvação por imposição de uma peregrina decisão do Presidente da República. Os trabalhos decorrem acompanhados por um observador da Presidência certamente com a função de tomar conta da rapaziada que trata da salvação. É gente com comportamentos imprevisíveis e que, portanto, solicita supervisão.
Na verdade, creio que eles estarão, como será previsível a tratar da sua salvação, acautelando os seus interesses e a forma de que a partidocracia funcione como tem funcionado.
Por falar em interesses, os banqueiros portugueses continuam a ser dos mais bem remunerados da Europa, certamente para compensar os salários baixíssimos da esmagadora maioria da população que ainda consegue manter o trabalho. Claro que a banca é apoiada justamente com o dinheiro dos contribuintes de acordo com o velho aforismo, "temos que ser uns para os outros".
Ainda por falar em salvação nacional, o recente relatório do INE sobre Rendimento das Famílias e Condições de Vida, com dados até 2012, mostra um retrato devastador da tragédia que muitas famílias vivem. Apenas alguns indicadores, cerca de dois milhões de portugueses vivem com menos de 416 € mensais, o actual valor do limiar de pobreza, 25.3% da população portuguesa está em risco de pobreza e exclusão, sem as transferências sociais o risco de pobreza atingiria 4,5 milhões de portugueses e a assimetria nos rendimentos depois de um decréscimo volta a aumentar desde 2009 sendo que os grupos sociais mais atingidos são as crianças e velhos e as famílias com filhos.
Olhar para estes dados e imaginar o grupo que trata da "salvação nacional" causa uma apreensão que aparece disfarçada de um sorriso amarelo face a uma piada de mau gosto.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

OS RESULTADOS DOS EXAMES NACIONAIS REVISTOS EM BAIXA

Foram conhecidos os resultados dos exames nacionais do 2º e 3º ciclo. O perfil de resultados é semelhante, sem surpresa, ao perfil verificado a Português e Matemática A no secundário. Em síntese, no 9º ano a Português verificou-se o pior resultado de sempre com uma média de 47%, a segunda vez que é negativa, e em Matemática 43%, a terceira mais baixa em nove anos de exames nacionais, baixando 10 pontos relativamente ao ano passado.
No 6º ano, embora com médias ligeiramente superiores, também se verificou um abaixamento das médias em Português de 59% para 51% e em Matemática de 54% para 49% relativamente a 2012.
Por me parecer que as questões envolvidas são da mesma natureza, algumas notas na mesma linha do que escrevi quando se conheceram as notas do secundário.
Não me parece particularmente relevante o valor próprio dos resultados a não ser a indicação geral de que, mesmo quando positivas, as médias são baixas e, naturalmente, o registo das médias negativas. Afirmo esta “menorização” dos resultados porque de há muito os exames, independentemente dos resultados, melhores ou piores, funcionam como arma de gestão política do sistema o que, do meu ponto de vista, relativizam os seus resultados e também desencadeiam a inconclusiva discussão sobre o seu grau de dificuldade com apreciações de geometria variável por agora se diz e sem real impacto no que está em verdadeiramente em causa.
O que me parece mais pertinente é a discussão em torno do que fazemos com os resultados dos exames.
Estes resultados são consequência e não causa o que, obviamente, é um lugar-comum. São, naturalmente, consequência dos processos de ensino e aprendizagem prévios ao momento do exame.
No entanto, do meu ponto de vista, este entendimento não é tão óbvio quando olhamos para algumas das medidas da PEC – Política Educativa em Curso que não me parecem contributivas para melhorias nos processos de ensino e aprendizagem que conduziriam a melhores resultados em situação de exame. Alguns exemplos que julgo significativos.
Quem conhece de forma razoavelmente próxima os territórios educativos portugueses, dificilmente compreenderá como o aumento do número de alunos para 30 por turma possa contribuir para melhorar resultados. Com a insistência na política de agrupamentos e mega-agrupamentos o número máximo foi facilmente atingido designadamente nas disciplinas mais concorridas, justamente as que apresentam médias mais baixas.
Também me parece difícil entender que na fórmula de cálculo de crédito de horas das escolas  para, por exemplo, actividades de apoio extra curricular apoio, um dos factores seja justamente as notas dos respectivos alunos em exames nacionais, ou seja, uma perversa forma de ter mais apoios para os melhores e menos apoios para os que experimentam dificuldades.
Finalmente, os cortes de recursos docentes que já se verificaram e continuam criarão certamente constrangimentos ao trabalho de apoio e ensino nas escolas que ajudem a ultrapassar dificuldades de alunos e professores.
Curiosamente, ou talvez não, o Ministro Nuno Crato entende que estes resultados mostram a necessidade de uma "avaliação externa rigorosa", mais uma avaliação. Na verdade, a questão é de trabalho interno, não é de avaliação externa que, sendo importante em algumas matérias, não é central para o efeito de melhorar o trabalho de alunos e professores.
Temo que a discussão em torno dos resultados continue sobretudo centrada em questões como a maior ou menor dificuldade dos mesmos ou no estabelecimento dos rankings que fatalmente aparecerão e não nos aspectos fundamentais, como melhorar a qualidade e as condições dos processos de ensino e aprendizagem que, por aqui sim, promoverão melhores saberes e competências traduzidas em exames.

A IRREVOGÁVEL INSTABILIDADE, INSENSIBILIDADE E MEDIOCRIDADE

O PS anunciou que votará favoravelmente a moção de censura que os Verdes apresentarão no Parlamento e que claramente vem dar uma ajuda ... ao Governo. Não parece estranho para quem tem exigido eleições antecipadas e já apresentou a sua própria moção de censura ao Governo que considera incompetente, falhado nos objectivos e nas políticas e esgotado na capacidade de minimizar os problemas do País.
Acontece que, por outro lado, o PS envolve-se nas negociações conducentes ... à continuidade do Governo. Estranho, não, Carlos Zorrinho explicou que não apoiam o Governo e por isso o censuram, mas estão a negociar com os partidos, PSD e CDS-PP e não com o Governo. Claro, como é não me ocorreu logo, PSD e CDS-PP são algo de diferente de um Governo PSD /CDS-PP como é evidente.
Estas negociações impostas por uma bizarra decisão do Presidente Cavaco Silva e condenadas ao fracasso ou a serem coisa nenhuma, levam a episódios deste tipo e tudo isto seria algo de alucinado mas no fundo, é apenas mais um bom exemplo dos fios de que se tece a trama da partidocracia em Portugal.
Creio que qualquer de nós consegue perceber que uma classe política, que salvo honrosas excepções é medíocre, vive e mantém-se com base num complexo jogo de interesses e equilíbrios na gestão e distribuição dos poderes, desde logo nos aparelhos partidários, a incubadora ideológica e ética desta gente, e, naturalmente, no aparelho político do país que assim está capturado pela partidocracia. Esta mediocridade é que parece irrevogável.
 O que esta gente parece incapaz de compreender é o efeito devastador que o seu comportamento e os seus discursos têm numa população massacrada a viver num mar de dificuldades, a viver um momento de desesperança.
É inquietante a falta de lucidez e insensibilidade para perceber os prejuízos causados por estes jogos, cujos participantes continuam absolutamente indiferentes usando uma retórica que, boa parte das vezes, é um insulto à inteligência e à ética.
O drama é que, de quem é parte do problema não podemos esperar que seja parte da solução.
Com muita frequência ouvimos dizer que temos o que merecemos. Não concordo, não merecíamos tal sorte.
O problema é que as alternativas não são animadoras.

ESTA GENTE VAI (SOBRE)VIVER DE QUÊ?

Segundo o INE, mais de 38% dos desempregados em Portugal estava em risco de pobreza em 2011, sendo que também as famílias com crianças dependentes constituem outro grupo em que a taxa de risco de pobreza subiu no mesmo período. Por coincidência, é hoje também divulgada uma chamada de atenção do Conselho Nacional de Educação para a "elevada percentagem de estudantes numa situação de debilidade económica grave" reafirmando a necessidade de recursos no âmbito dos apoios sociais aos mais vulneráveis.
Há pouco tempo o Instituto de Emprego e Formação Profissional definiu que os desempregados de longa duração sem subsídio de desemprego apenas devem preencher 20% das vagas dos cursos de formação dos Centros de Emprego. A maioria das vagas deve ser destinada a desempregados com subsídio ou a pessoas beneficiárias do Rendimento Social de Inserção.
As previsões da OCDE apontam para uma taxa de desemprego de 18.2% em 2013 e 18.5% para 2014 sendo que actualmente e em termos reais, a situação atingirá cerca de milhão e meio de portugueses.
Sabe-se também que mais de metade dos desempregados não têm subsídio de desemprego e que as alterações verificadas levarão a que os montantes e os prazos de atribuição vão baixando como também tem vindo a baixar o número de beneficiários do RSI, num movimento algo estranho, aumenta desemprego e pobreza e diminui o número de beneficiários.
Este cenário impressionante, que pode agravar-se com a anunciada reforma do Estado, isto é, cortes nas suas funções sociais, coloca uma terrível e angustiante questão. Os milhares, muitos, de pessoas envolvidas vão (sobre)viver de quê?
Sendo de esperar a continuação de um período recessivo e, portanto, sem crescimento, torna-se impossível criar a riqueza necessária e redistribuí-la de forma socialmente mais justa para minimizar esta tragédia. Aliás, as previsões do Banco de Portugal são precupantes, sobretudo para 2014.
É certo que em Portugal a chamada economia paralela corresponde a cerca de 25% do PIB e muita gente e muitas actividades estão envolvidas neste universo, de qualquer forma o potencial impacto social destes números é, no mínimo, inquietante.
Afirmo com frequência que uma das consequências menos quantificável das dificuldades económicas, sobretudo do desemprego, em particular o de longa duração e de situações em que o tempo obriga a perder o subsídio, é o roubo da dignidade às pessoas envolvidas. Sabemos que se verifica oportunismo e fraude no acesso aos apoios sociais, mas a esmagadora maioria das pessoas sentem a sua dignidade ameaçada quando está em causa a sobrevivência a que só se acede pela “mão estendida” que envergonha, exactamente por uma questão de dignidade roubada.
A questão da pobreza é um terreno que se presta a discursos fáceis de natureza populista e ou demagógica, sem dúvida. Mas também não tenho dúvidas de que os problemas gravíssimos de pobreza que perto de três milhões de portugueses conhecem, de acordo com a Cáritas, exigem uma recentração de prioridades e políticas que não se vislumbra. Na verdade, apesar da retórica oficial de que existe justiça social nas medidas de austeridade, o que é verdadeiramente insustentável é que as políticas assumidas, por escolha de quem decide, estão a aumentar as assimetrias sociais, a produzir mais exclusão e pobreza. Mais preocupante a insensibilidade da persistência neste caminho.
Quando nos dizem que não há alternativa, é interessante registar que alguns analistas, incluindo ironicamente o próprio FMI, atribuem a rápida recuperação da Islândia à manutenção do estado social e dos apoios sociais, ou seja, privilegiou-se as pessoas e não os mercados, a banca, o contrário do diktat que nos é imposto e que o compromisso de "salvação nacional" pretende salvar..
A pobreza e a exclusão deveriam envergonhar-nos a todos, a começar por quem lidera, representam o maior falhanço das sociedades actuais. 

CIÊNCIA EM PORTUGUÊS

No últimos tempos têm sido frequentes as notícias respeitantes a prémios ou fundos atribuídos a investigadores portugueses de diferentes instituições. Hoje soube-se que a Fundação do actor Michael J. Fox atribuiu 250 mil dólares a uma equipa da Universidade de Coimbra que desenvolve trabalho sobre o papel do sistema imunitário na doença de Parkinson.
Estas sucessivas referências, que muitas vezes passam quase despercebidas no meio da bruma envolvente destes dias de chumbo, atestam o esforço e a competência da comunidade científica portuguesas e o trabalho realizado no âmbito do ensino superior e investigação traduzido pelo reconhecimento internacional das nossas instituições.
No entanto, também nesta matéria o futuro próximo não é animador. Há pouco, o Professor Sobrinho Simões, reconhecido investigador e director do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular do Porto, uma das mais prestigiadas instituições portuguesas de investigação, alertava hoje para os efeitos graves dos cortes cegos no financiamento da investigação. Diz Sobrinho Simões que “a frágil formação superior dos políticos” e os cortes financeiros impostos pela troika são um “cocktail perigoso” para  o universo da investigação em Portugal.
Relembro ainda que em Outubro de 2012 um grupo muito significativo de bolseiros de investigação, cerca de 3200, assinou uma carta aberta dirigida ao Ministro da Educação e da Ciência contestando o novo Estatuto do Bolseiro que, do seu ponto de vista, alimenta a precariedade e diminui a qualidade das condições gerais para o seu trabalho de produção científica.
Conheço pessoalmente muitos casos de jovens (e não só), altamente qualificados, que têm como expectativa de vida saltitar pela sobrevivência de projecto em projecto, gerindo os atrasos e as alterações, desempenhando muitas vezes tarefas que não deveriam ser suas, ou, como acontece com muitos, integrarem o contingente dos 100 000 jovens que anualmente “fogem” do país correndo atrás de um futuro que aqui lhes é negado.
Curiosamente esta posição dos bolseiros e as recorrentes preocupações com a asfixia do ensino superior também coincidiu uma tomada de posição de 42 personalidades com Prémios Nobel, alertando as autoridades da Comissão Europeia para os riscos do desinvestimento na ciência.
Está estudada e reconhecida de há muito a associação fortíssima entre o investimento em educação e investigação e o desenvolvimento das comunidades, seja por via directa, qualificação e produção de conhecimento, seja por via indirecta, condições económicas, qualidade de vida e condições de saúde, por exemplo.
Como em quase tudo é uma questão de escolhas e prioridades de quem lidera. O problema como referia o Professor Sobrinho Simões é que "os nossos políticos têm um problema ... alguns não se apercebem do valor do ensino superior e da investigação".
Vamos ser optimistas. 

SINTO-ME ROUBADO

Como era previsível, os efeitos do ruinoso negócio de venda do BPN ao BIC ainda não cessaram.
O BIC Portugal exige ao Estado o reembolso no valor de cerca de 100 milhões de euros, relativo ao BPN, ainda decorrente dos termos do negócio da privatização e venda do banco, processo liderado pela actual Ministra das Finanças.
É de sublinhar que o montante da agora exigida dívida do Estado ao BIC é de 100 milhões  de euros, enquanto a privatização e venda do BPN foi realizada por 40 milhões.
No universo dos processos de negociação costuma afirmar-se que um bom negócio obedece à fórmula ganhar-ganhar, ou seja, todos os intervenientes no negócio acham que "ganharam", fizeram um bom negócio ou, pelo menos, o melhor negócio possível. A alternativa é traduzida na fórmula "ganhar-perder" em que algum ou alguns dos intervenientes admitem ter feito um mau negócio.
O negócio de privatização e venda do BPN ao BIC é, obviamente, um negócio ruinoso.
De facto, os contornos conhecidos, preço de venda por 40 milhões, responsabilização do estado pelo despedimento de metade dos funcionários do BPN e por parte das dívidas além dos custos de recapitalização sugerem um excelente negócio que nos custará qualquer coisa como 2,4 mil milhões de euros, no mínimo.
Os 100 milhões agora exigidos pelo BIC inscrevem-se neste processo.
É certo que está prometido um pagamento suplementar por parte do BIC sobre eventuais lucros dentro de cinco anos que, muito provavelmente, não acontecerão.
Este excelente negócio, na linha dos muitos que têm sido realizados, lembremos os agora tão falados contratos que envolvem "swaps", recordou-me de novo, uma afirmação de Nuno Brederode dos Santos numa antiga crónica no Expresso, “Os Negócios Estrangeiros em Portugal raramente são bons negócios mas, quando o são, então são, de facto, estrangeiros”.
Sinto-me roubado.

domingo, 14 de julho de 2013

O TEMPO DO SOBREIRO

Este fim de semana, entre o que lida no monte exigia que se fizesse, reguei uma dúzia de sobreiros que há uns três ou quatro anos plantei com o Mestre Marrafa e que ainda continuam bem pequenos.
Enquanto a água os refrescava do calor que estava bem mais brando que na semana anterior, pensava no tempo e na vida, a nossa e a dos sobreiros.
O sobreiro é uma árvore lenta e calma como o Meu Alentejo. Dá a primeira cortiça aos 25 anos e tem uma expectativa de vida entre os 170 e os 200, podendo chegar aos trezentos anos, ainda assim um jovem ao pé de algumas oliveiras que lá temos.
É uma dimensão de tempo que não tem nada a ver com os tempos de hoje.
Os tempos actuais são os tempos da urgência, os tempos da pressa, os tempos do para já, ou mesmo para ontem.
São os tempos dos resultados, resultados imediatos. São tempos sem espera, só espera quem não pode comprar o tempo.
Os tempos de hoje fazem do tempo um bem que ninguém tem, antes tínhamos tempo, agora temos pressa. Os tempos de hoje não são os dias, são os segundos. Por tudo isto, eu, que já deixei os cinquenta para trás há algum tempo, dei por mim a rir-me desta tarefa, cuidar de sobreiros pequenos.
Um dia destes, está decidido, vou sentar-me perto deles a vê-los crescer, pelo menos, pelo menos, até à primeira cortiça.

E AGORA O ENSINO SUPERIOR. QUE CURSO ESCOLHER?

Aproximando-se o início do processo de candidatura ao ensino superior a questão em torno da escolha do curso reentra na agenda. A imprensa dedica a esta matéria um espaço significativo sublinhando a diminuição das vagas disponíveis, sobretudo no politécnico, embora se mantenha ainda uma enorme e diversificada oferta.
O MEC decidiu assumir finalmente um papel  regulador da oferta procurando  corrigir, embora não o fizesse da melhor maneira, os fortíssimos enviesamentos verificados, com consequências quer ao nível da qualidade da formação, quantidade é pouco compatível com qualidade, quer da empregabilidade. Um relatório da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior mostra, dados de 2011, uma taxa de 69.79% de preenchimento de vagas e da análise a 71 áreas de estudo conclui-se que em 80% existe excesso de oferta. O Relatório, encomendado pelo Conselho de Reitores, aponta a óbvia necessidade de racionalização da rede. De há muito que defendo este entendimento. Na verdade, o ensino superior em Portugal tem como questão estrutural o sobredimensionamento da rede que para este ano já passou por alguns ajustamentos.
No entanto, do meu ponto de vista, para além da imprescindível racionalização da rede, envolvendo ensino superior universitário e politécnico e público e privado coloca-se sempre o problema da escolha e dos critérios a considerar em caso de dúvidas. Algumas notas sublinhando desde logo a importância da formação qualificada.
A questão mais colocada pode assim ser enunciada, os jovens deverão seguir a sua motivação e interesse, ou a escolha deve obedecer ao que se conhece do mercado de trabalho, isto é, nível de empregabilidade e saídas profissionais?
Para muitos de nós, provavelmente, a resposta será fácil, seja num sentido ou no outro. Alguns dirão que cada jovem deve, obviamente, seguir o seu desejo, o seu gosto, só assim se realizará. Ideia romântica e sem noção da realidade que corre o sério risco de desembocar no desemprego, dirão outros para os quais a escolha deve ser racional, pragmática, realista, o jovem deve procurar uma formação que lhe garanta, tanto quanto possível, saída profissional e para isso deve "estudar" o mercado e assim proceder à escolha. Os primeiros acharão que este entendimento pode levar a um risco de frustração e desencanto que podem instalar-se em quem "faz o que não gosta".
Na verdade não será fácil a escolha para muitos jovens a que acresce, frequentemente, a pressão familiar ou de outras pessoas para a "escolha acertada".
Dito isto, sou dos que entendem que cada um de nós deve poder escrever, tanto quanto as circunstâncias o permitirem, a sua narrativa, cumprir o seu sonho. Por outro lado, a vida também nos ensina que é preciso estar atento aos contextos e às condições que os influenciam, sabendo ainda a volatilidade e rapidez com que hoje em dia a vida acontece.
Nesta perspectiva, parece-me importante que um jovem, sabendo o que a sua escolha representa, ou pode representar, nas actuais, sublinho actuais, condições do mercado de trabalho, faça a sua escolha assente na sua motivação ou no projecto de vida que gostava de viver e, então, informar-se sobre opções, sobre as escolas e respectivos níveis de qualidade.
Finalmente, do meu ponto de vista, boa parte da questão da empregabilidade, mesmo em situações de maior constrangimento, relativiza-se à competência, este é o ponto fulcral.
Na verdade, o que frequentemente me inquieta é a ligeireza com que algumas pessoas parecem encarar a sua formação superior, assumindo logo aqui uma atitude pouco "profissional", cumprem-se os serviços mínimos e depois logo se vê. O caso de Miguel Relvas é apenas um exemplo extremo deste entendimento, a formação não é um conjunto de saberes e competências, é um título que se cola ao nome.
Mesmo em áreas de mais baixa empregabilidade, ou assim entendida, continuo a acreditar que, apesar dos maus exemplos que todos conhecemos, a competência e a qualidade da formação e preparação para o desempenho profissional, são a melhor ferramenta para entrar nesse "longínquo" mercado de trabalho.
Dito de outra maneira, maus profissionais terão sempre mais dificuldades, esteja o mercado mais aberto ou mais fechado.
Boa sorte e boa viagem para todos os que vão iniciar agora esta fase fundamental nas suas vidas.

sábado, 13 de julho de 2013

O AR TAMBÉM É CONDICIONADO

Vivemos num país completamente condicionado a factores de natureza extremamente diversificada.
Vivemos condicionados por uma política imposta por uma entidade estrangeira que, em nome dos mercados e com a despudorada designação de "programa de assistência," nos transformou a vida num inferno que, dizem, é a antecâmara da salvação que não se vislumbra,
Vivemos condicionados por um conjunto de lideranças políticas que colocam os interesses da partidocracia acima dos interesses e bem estar das pessoas.
Vivemos condicionados pelos cortes, austeridade, empobrecimento, precariedade nas relações laborais, etc. etc.
Assim sendo, viver num mundo condicionado, estranho as referências frequentes que a imprensa produziu sobre instalações hospitalares sem ar condicionado em plena onda de calor e em serviços com elevado risco de complicações,  e hoje surge a notícia sobre um esquisito protesto pelo facto de que o serviço de comboios para Beja se realizar na parte final do percurso em equipamentos sem ar condicionado, de janelas fechas e com uma temperatura exterior de 40º, o Alentejo e não só, viveram uns dias ásperos a semana passada.
A CP que já tinha acabado com o Intercidades directo para Beja na sua política de servir o interior e melhorar o serviço às populações, não esclareceu a situação que gerou protestos, injustos, evidentemente.
Parece-me estranha a insistência na falta de ar condicionado quando, na verdade, como tudo o resto o ar também é condicionado, condicionado à temperatura ambiente, ou seja, quando lá fora está frio o ar está frio, quando lá fora o calor aperta, o ar é uma abafura.
A questão que preocupa é que por aí anda um inferno que abrasa e continuamos com o ar condicionado, muito condicionado que nos fazem respirar, mal.

OBRAS PÚBLICAS E DISCRETOS INTERESSES

Realizou-se hoje mais uma iniciativa de protesto contra a intenção de construção do terminal de contentores na Trafaria, devido às consequências de natureza diferenciada que tal empreendimento terá na zona e nas envolventes, dada a necessidade de acessos ferroviários e rodoviários.
Quem tem vivido em Portugal nas últimas décadas, sabe com segurança que as grandes obras públicas realizadas ou idealizadas sempre tiveram, têm, por base muitos outros critérios que não o da racionalização dos custos ou justificação pela necessidade.
A torneira aberta pela integração na União Europeia e um fluxo de dinheiro que parecia não ter fim permitiu alimentar realizações e sonhos que serviram interesses da mais variada natureza a começar pelos jogos políticos, os interesses dos grupos económicos amigos dos sucessivos governos, os narcisismos megalómanos de muitos dirigentes autárquicos, etc. É certo que de todo este desvario alguma herança ficou ao nível de infra-estruturas e equipamentos para as populações mas muito, mesmo muito, se desperdiçou em elefantes brancos e inutilidades cuja manutenção actual nos sai caríssima. Mesmos "sonhos" que nunca viram a luz do dia como o TGV ou o novo Aeroporto de Lisboa são excelentes exemplos da deriva incompetente e irresponsável na gestão dos interesses públicos. Duas obras que não aconteceram mas que já absorveram muitos milhões de euros sem que exista ou se preveja a identificação de alguma responsabilidade imputada a quem sucessivamente foi alimentando estes processos.
Serve esta introdução para me referir ao custo astronómico, já divulgado, previsto para a construção de um ramal ferroviário entre a Trafaria e o Pragal, que a proposta de passar o terminal de contentores de Lisboa para a margem sul, na Trafaria, tornaria necessário. Este custo é bastante superior ao custo por km do TGV.
Sou suspeito, vivo na margem certa do Tejo, a sul, e não simpatizo de todo com a destruição da Trafaria e da zona envolvente de arriba para a construção do terminal de contentores e do ramal ferroviário para além de outros equipamentos ou vias.
A questão que me preocupa é que o que venha a ser decidido esteja bem para lá da análise racional dos custos, das necessidades e do impacto para ambiente e pessoas. Talvez seja de tentar perceber o que vai acontecer aos terrenos libertados pelos contentores em Lisboa, quem ganha com as obras e com a deslocação para a Trafaria deste terminal.
As autarquias da margem sul, sobretudo a de Almada, já se manifestaram abertamente contra o projecto, tal como o fizeram hoje, mas seria de ouvir as populações através, por exemplo, de um referendo. No entanto, propositadamente ou não, continua a faltar muita informação.
O custo previsto por quilómetro da construção da ferrovia que já é conhecido, sendo importante é apenas um dado, nem sequer o mais importante.
Aguardemos por novos desenvolvimentos.

E O MUNDO LÁ FORA?

Fazem-se cálculos e antecipam-se movimentos. Quem ganha poder, quem perde poder. Quem cede, quem vence.
Quem sai menos chamuscado do incêndio que os pirómanos políticos atearam. Quem dissimula melhor intenções e estratégias.
Quem produz mais demagogia e disfarça mediocridade. Quem manda em quem.
Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto parece fado.
E o mundo lá fora?
Lá fora a vida continua em modo trágico. Os despedimentos colectivos aumentaram 47%  até Maio face a igual período do ano passado, cerca de 32 pessoas por dia. É grave? Não. É importante? Não. Trata-se do ajustamento necessário que os mercados exigem. Claro.
 
 
PS - Não seria melhor lançar uma petição para deixar o Dr. Portas ser Vice-Primeiro-ministro? A ver se o miúdo se aquieta e isto sossega um bocado.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

UM RAPAZ CHAMADO TÍMIDO

Era uma vez um rapaz chamado Tímido. Desde miúdo pequeno que era uma pessoa discreta, sem grandes falas, apenas o necessário, sempre no seu canto, umas vezes a observar, outras entretido com desenhos ou com letras. Mostrando-se pouco disposto para as brincadeiras, os colegas do Tímido também se habituaram ao seu jeito, estava por perto mas sem grandes diálogos. Como se sabe, os Tímidos são assim.
Cumpria as suas tarefas de forma tranquila e voltava ao mundo das letras e dos desenhos.
Um dia, encontrou um amigo de quem gostou a sério. Era tão calmo quanto o Tímido quisesse, falava quando o Tímido queria que falasse, mostrava o que o Tímido queria ver, ensinava o que o Tímido queria saber, sempre que o Tímido queria o seu amigo estava por perto, o amigo não inquiria permanentemente o Tímido sobre o porquê dos seus comportamentos, enfim, o Tímido tinha encontrado o amigo ideal.
Todo o tempo que podia passava-o junto dele, do amigo ideal.
Chamava-se Computador.

A CACOFONIA E O CORO DOS ESCRAVOS

A cacofonia continua com mudanças e rotação nas intervenções a solo e de acordo com uma partitura escrita de improviso e completamente à deriva. Os solistas, claramente de segunda na sua maioria, oferecem sucessivos exemplos de mediocridade e impreparação para intervenções tão exigentes.
O ruído é ensurdecedor e insustentável.
Em fundo, ouve-se uma peça conhecida, o Coro dos Escravos.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

QUANDO EU FOR GRANDE

Um dia destes encontrei-me com aquele meu amigo que vocês conhecem, o Professor Velho, aquele que já não dá aulas, está na biblioteca da escola e fala com os livros.
Ainda bem que te encontro, tenho uma história que me aconteceu há tempos, boa para o teu blogue, não é assim que se chama?
Conta, Velho.
Estive numa turma, gente de sete, oito anos, a falar com a miudagem sobre o passado e sobre o futuro e para poder falar sobre o futuro lembrei-me de lhes pedir uma originalidade, o que gostavam de fazer quando crescessem e porquê. Apareceram-me umas respostas que me deixaram a pensar. Não consegui fixar todas, a seguir tivemos uma bela conversa, mas vou dizer-te algumas.
O Manel quer ser Leitor de Livros porque adora ler, agora não tem tempo, está todo o dia na escola sempre a fazer coisas e à noite tem trabalho de casa, janta e dorme. Ao fim de semana os pais levam-no o tempo todo para o Centro Comercial.
A Maria acha que vai ser Brincadora porque, pelas mesmas razões do Manel, não tem tempo para brincar.
A Joana diz que vai ser Faladora, gosta de falar com as pessoas e as pessoas falam pouco com os miúdos.
O Francisco disse que gostava de ser Neto para poder ter um avô.
O Mário quer ser Espectador para poder ver as coisas que agora ninguém o leva a ver.
A Cláudia gostava de ser Pequena porque agora, diz ela, tem uma vida com mais trabalho que os grandes.
O Zé disse que vai ser Relógio para mandar no tempo.
Que achas do futuro que escolhem?
Está muito longe, Velho.

COM AMIGOS ASSIM ... QUEM PRECISA DE INIMIGOS

No meio do nevoeiro no qual se esconde a "personalidade de reconhecido prestígio" que virá mediar o impossível "compromisso de salvação nacional", solicitado por uma não decisão de Cavaco Silva, passarão certamente despercebidas duas referências que julgo importantes. A primeira é a aprovação na AR da legislação de suporte ao aumento da carga horária e do "sistema de requalificação", um eufemismo para o plano de despedimentos na administração, duas medidas que contribuem significativamente para o empobrecimento e desemprego.
A outra nota é anda mais relevante e refere-se aos deuses mercados.
Conforme se pode ler no I, os grupos empresariais franceses e alemães são os que mais beneficiam das políticas de ajuda do BCE sendo prejudicadas as empresas espanholas e portuguesas. As taxas de juro do BCE agora decididas como medidas de apoio à economia e a forma como os bancos gerem as taxas de juro nos empréstimos às empresas, leva a que, de acordo com a Comissão Europeia as pequenas e médias empresas portuguesas, gregas, espanholas e cipriotas as que mais são penalizadas pagando taxas de juro por empréstimos bancários entre os 6% e os 7% sendo que as alemãs e as francesas beneficiam de uns mais simpáticos 2% a 3%. Muito interessante e elucidativo.
Aliás, segundo o "Financial Times", com base em dados do Banco Central Europeu estima-se uma diminuição de cerca de 42 mil milhões de euros em pagamentos de dívida pelas empresas europeias nos próximos cinco anos. Acontece que esta diminuição envolve sobretudo os grandes grupos empresariais alemães e franceses admitindo-se uma poupança de 14 e 9 mil milhões de euros, respectivamente e a Itália, com uma diminuição de 2,3 mil milhões. No entanto e curiosamente, Portugal e Espanha verão as suas empresas ainda mais penalizadas do que já estão com o aumento do pagamento.
Nada de novo, dados de Junho do Eurostat mostravam como de 2009 para 2012 os países do Centro e Norte da Europa ficaram mais ricos e os do Sul mais pobres, ou seja e como sempre, a crise tornou os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. Para exemplificar, Portugal em 2009 tinha Portugal um PIB per capita 80% da média da EU27 para em 2012 passar para 75% sendo agora um dos quatro países com menor poder de compra.
A análise dos dados mostra como os países envolvidos em programas de austeridade impostos pela "ajuda" estão a afundar-se em dificuldades e os países que generosamente "ajudam" vão enriquecendo.  Deve ser a isto que chama solidariedade e coesão europeias.
Parece claro que para além das enormes responsabilidades políticas internas, importa considerar como, sem surpresa face a muitos dados já conhecidos, que os países mais ricos têm beneficiado fortemente com os pacotes de "ajuda solidária" dirigidos, impostos, aos países mais pobres com os resultados conhecidos. Esta desinteressada ajuda acontece mediante a cobrança de juros altíssimos. Mais um exemplo, Portugal paga por ano 4,4% do seu PIB em juros, 7,2 mil milhões de euros, valor que voa dos nossos bolsos para "dezenas de cofres de Estados e bancos europeus".
Por outro lado e como também se sabe,  as economias fortes do norte da Europa financiam-se a taxa zero ou mesmo, estranhamente a taxas negativas, enquanto nós, as economias do sul e a Irlanda pagamos juros altos cujo montante seria um excelente contributo para a redução dos nossos problemas de equilíbrio. Está certo, somos pobres, temos o dinheiro mais caro, os mais ricos têm o dinheiro mais barato. Deve ser isto a que chamam os mercados a funcionar.
Eu sei que sou estúpido, a economia e finanças constituem uma matéria inacessível ao cidadão comum, mas parece-me, certamente de forma errada, que assim se torna mais difícil que os países em dificuldades deixem de ser pobres e que haja maior equidade e coesão económica e política na União Europeia.
Que não me levem a mal os nossos generosos amigos, mas às vezes até penso que é justamente isso que pretendem com a ajuda desinteressada que nos dão, que, naturalmente, temos de pagar mas que nos vai deixando pobres.
Tenho até medo de estar a ser injusto para com os nossos generosos amigos e para com os feitores que em seu nome nos administram e estão de forma tão empenhada e eficaz a promover o nosso empobrecimento.