terça-feira, 6 de abril de 2010

CORROSÃO ÉTICA

Nos últimos anos tem vindo a agravar-se um fenómeno preocupante e de consequências graves para as famílias, o sobre endividamento. Este fenómeno que sendo, naturalmente, um sério problema de natureza económica, radica, do meu ponto de vista, no sistema de valores e padrões éticos que vão caracterizando os tempos. Por um lado, a pressão ao consumo, só és o que tens, e, por outro lado, o incentivo desregulado ao consumo decorrente do endeusamento do mercado. Também conhecemos a astronómica dívida do estado e também das empresas, de há muito que vivemos acima das nossas possibilidades, e as consequências gravíssimas que daí decorrem, está aí o PEC a atestá-lo.
Sem surpresas e para mostrar como coerente é a sociedade em que vivemos, o trabalho de hoje no Público mostra como os donos da democracia em Portugal, os partidos, também eles, estão fortemente endividados. Em termos gerais e em 2008, o PSD devia mais que todos os outros 15 partidos juntos, qualquer coisa como 10,1 milhões de euros, sendo ainda, e isto é notável, que dos partidos representados no Parlamento, apenas o PCP declarou prejuízo, todos os outros, num milagre de gestão, do mesmo tipo que realizam quando governam o país, apresentam lucro, isso mesmo, lucro.
De facto, maior coerência é difícil, deve o estado, devem os cidadãos e devem as estruturas que se propõem ser governo.
Não sei muito bem como tudo isto pode ser avaliado, ou até mesmo se é susceptível de avaliação, mas esta continuada corrosão de natureza ética causa danos nas nossas comunidades dificilmente reparáveis nos tempos mais próximos.

A PROMESSA, MAIS UM DIÁLOGO IMPROVÁVEL

Bom, Fábio, estamos quase a acabar as férias da Páscoa, tiveste quatro negativas o que estás a pensar para o terceiro período?
Pai, não comeces já com secas ainda estou de férias.
Eu sei, mas estou preocupado, tenho medo que chumbes o ano.
Não te preocupes, se melhorar a alguma disciplina os setores depois dão-me notas para passar.
O problema não é só passares, é ficares a saber o que é preciso para estudares mais à frente. Se calhar seria melhor arranjar umas horas de explicação para te ajudar nas disciplinas mais difíceis.
Pai, já estou na escola bué de tempo, ainda queres que vá para a explicação, ganda seca.
O meu colega, o Francisco, disse-me que a filha anda numa explicadora muito boa, é um bocadinho cara, mas a filha já subiu as notas no fim do segundo período.
Eu acho que sou capaz de me safar sozinho, podíamos fazer um negócio, se eu passar dás-me um telemóvel novo.
Sabes que não gosto muito desse tipo de negócios, deves sempre tentar fazer o melhor possível, porque é bom para ti, não porque vais ter um prémio.
Sim, mas ter um prémio também é bom para mim.
Todos nós temos obrigações e responsabilidades e não podemos cumpri-las só quando nos prometem prémios.
Pai, tás mesmo armado em menino. Toda a gente faz alguma coisa sempre a pensar no que vai ganhar com isso.
Certo, se te esforçares e passares de ano ganhas com isso.
Mas se ganhar também um telemóvel é melhor. No teu trabalho se te pagarem mais ficas mais contente, ou não?
Como sempre não desistes. Então vamos combinar o seguinte, se passares o ano, sem negativas, compro-te o telemóvel.
E se for só com uma negativa?

segunda-feira, 5 de abril de 2010

ENSINO PÚBLICO E ENSINO PRIVADO

Como muitas vezes aqui tenho referido a existência de um subsistema educativo de ensino privado é absolutamente necessário para, por um lado permitir alguma liberdade de escolha, ainda que condicionada, por parte das famílias e, por outro lado, como forma de pressão sobre a qualidade do ensino público. Também já tenho referido que a chamada liberdade de educação, a escolha livre por parte dos pais dos estabelecimentos, públicos ou privados, em que querem os seus filhos educados é demagógica e ineficaz. Para ultrapassar as dificuldades económicas do acesso a escolas privadas defendem alguns a utilização, por exemplo, do cheque educação. Todos sabemos que muitos colégios não receberão nunca alguns alunos independentemente de os pais terem no fim de cada mês um cheque do ME para pagarem a mensalidade. Não adianta tapar o sol com uma peneira.
Uma outra realidade é a situação em que, não existindo resposta pública numa determinada área, o ME financie, através de contratos de associação o funcionamento de estabelecimentos privados para que assegurem o direito à educação de todos os alunos naquela área. No entanto, esta medida que se entende e justifica é, com frequência e com conhecimento de toda a gente envolvida, utilizada como financiamento encapotado do sistema privado. Conhecem-se muitas situações da mesma natureza das que hoje são referidas no Público, escolas privadas que recebem verbas de contratos de associação quando na zona em que operam existem escolas públicas.
Insisto, de há muito, que a melhor forma de proteger a liberdade de educação é uma fortíssima cultura de qualidade e exigência na escola pública e uma acção social escolar eficaz e oportuna. Assim teremos mais facilmente boas escolas, públicas ou privadas.

OS RAPAZES QUE NÃO ACOMPANHAVAM O RITMO

Era uma vez dois Rapazes que não acompanhavam o ritmo. Nunca se sabe muito bem qual é o ritmo, deve entender-se que seria o ritmo dos outros rapazes, mas eles não acompanhavam o ritmo.
Desde pequeno que achavam que o ritmo do Primeiro Rapaz era diferente e por várias razões, ou porque mostrava algumas habilidades antes do que esperavam ou, pelo contrário, depois do que esperavam. Na escola continuou a mostrar-se não conforme os outros, falava a destempo, comportava-se, por vezes, de forma estranha, não porque fosse indisciplinado, mas discutia com frequência sobre as matérias e notícias utilizando uma argumentação e ideias que não pareciam ajustadas à idade. Tinha interesses não muito habituais no seu grupo, tinha, por exemplo, uma paixão por fotografia. No final da adolescência, no tempo das escolhas, decidiu-se por estudar arquitectura e desenvolveu outra paixão, enamorou-se por uma bailarina. O Primeiro Rapaz que não acompanhava o ritmo acabou por se tornar num fotógrafo de reconhecidos méritos, o mais sublinhado dos quais foi a inovação.
O Segundo Rapaz que não acompanhava o ritmo teve uma história que começou da mesma maneira que a do Primeiro Rapaz mas foi mais breve. Por não acompanhar o ritmo acabou por sair da escola ainda adolescente, entrou no alucinado ritmo da vida na rua e ainda e sempre sem acompanhar o ritmo morreu num acidente depois de um assalto que correu mal.
É sempre complicada a narrativa dos rapazes que não acompanham o ritmo, umas vezes acaba bem, outras, nem tanto..

domingo, 4 de abril de 2010

O INGLÊS NO 1º CICLO

Um inquérito, de que não conheço os pormenores, realizado pelo Observatório dos Recursos Educativos e hoje referido pelo DN providencia alguns dados interessantes sobre uma matéria que passa frequentemente pelo Atenta Inquietude, as Actividades de Enriquecimento Curricular no 1º ciclo do Ensino Básico.
O inquérito realizado a professores de inglês do 5º ano refere que, na sua grande maioria, os inquiridos acham positivo o ensino do inglês no 1º ciclo, 63% afirmam as crianças mais motivadas e 70% dizem que promove nas crianças competências interculturais. Como maiores fragilidades identificam as assimetrias que decorrem da não obrigatoriedade de frequência e o trabalho desenvolvido que, frequentemente, não tem qualidade e é realizado em condições precárias. Parece ainda interessante que 82% afirmem que nada se alterou nas escolas de 2º ciclo decorrente da oferta de inglês no 1º e que 80% defendam que os manuais deveriam ser revistos e adaptados a essa realidade.
Estes dados evidenciam, do meu ponto de vista, alguns equívocos no âmbito das Actividades de Enriquecimento Curricular. A oferta do inglês no 1º ciclo que radica no Plano de Generalização do Ensino do Inglês, não parece estranha, antes pelo contrário, creio que é consensual. Assim, não se entende que o inglês se mantenha no âmbito do "enriquecimento curricular", facultativo, que, em muitos estabelecimentos, é pouco mais que um mau espaço de ocupação de tempos livres para cumprir uma enormidade chamada escola a tempo inteiro, meninos mais de dez horas por dia dentro da escola. Acresce que, se o princípio é disponibilizar oferta educativa curricular universal, a responsabilidade deveria ser da escola, tal como as outras áreas curriculares, que não dependem das autarquias ou de outras estruturas. Aliás, nos currículos em vigor até constam as outras actividades que se consideram de "enriquecimento", actividades expressivas. Não tendo sido alterados os currículos não é claro porque é que o que está no currículo é dado fora do currículo e sem a responsabilidade da escola.
Este quadro sustenta alguma das fragilidades referidas no inquérito, falta de formação adequada, precariedade da condições, desarticulação entre o que se faz nas escolas do1º ciclo e o que se realiza no 5ºano, etc.
O equívoco decorrente de confundir educação a tempo inteiro com escola a tempo inteiro tem destas consequências.

MODELOS DE DESENVOLVIMENTO

O Público de hoje traz um trabalho interessante sobre o estado da arte relativo aos Objectivos do Milénio estabelecidos para 2015 pela ONU em 2000. Sem surpresa o mundo está bem longe de poder ver cumpridos os objectivos em 2015, para todos os indicadores identificados não parece provável que atinjam as metas definidas.
No que respeita a Portugal, analisando os indicadores considerados, erradicar pobreza extrema fome, assegurar ensino primário universal, promover igualdade de géneros e competências das mulheres, reduzir a mortalidade infantil, melhorar a saúde materna, combater o VIH/sida, promover sustentabilidade ambiental e desenvolver a pareceria para o desenvolvimento, pode afirmar-se genericamente que se verificaram alguns progressos, sobretudo, no que respeita à universalidade do ensino e a redução da mortalidade infantil, mas nos restantes indicadores a situação e bem complicada.
Pode sempre considerar-se se as metas estabelecidas foram demasiado ambiciosas, se factores imprevistos criaram dificuldades acrescidas ou se, pura e simplesmente, os Objectivos do Milénio, foram mais um exercício de retórica política na linha do que assistimos cada vez com mais frequência em termos internacionais, ou seja, apesar a retórica da cooperação e do desenvolvimento global, os interesses nacionais, é fácil adivinhar de quem, sobrepõem-se aos interesses globais.
Entre nós, a existência de cerca de 2 milhões de cidadãos em risco de pobreza, o escandaloso fosso entre os mais ricos e os mais pobres representam, para além dos efeitos directos e indirectos da crise económica, atestam a necessidade profunda de repensar os modelos de desenvolvimento que deveriam sustentar os Objectivos do Milénio.

sábado, 3 de abril de 2010

A PARTIDOCRACIA

O Público de hoje apresenta um trabalho sobre o afastamento que progressivamente se tem vindo a instalar entre os mais novos e a vida política.
Em primeiro lugar, deve registar-se que este afastamento não envolve apenas os mais novos. As taxas crescentes de abstenção são um bom exemplo de que tal fenómeno não é um exclusivo da juventude. Na peça jornalística abordam-se algumas das eventuais causas mas, do meu ponto de vista, não se toca na questão essencial, a praxis política da partidocracia instalada.
No actual quadro político administrativo é muito difícil a intervenção cívica, no sentido político, fora da tutela dos aparelhos partidários. Verifica-se também que a capacidade de mobilização dos partidos se dirige a uma minoria de pessoas que emerge dos respectivos aparelhos que, assim, podem aceder a alguma forma de poder e a uma maioria que enche autocarros, recebe uns brindes e tem um almocinho de borla. A partidocracia não atrai porque os partidos se tornam donos da consciência política das pessoas, veja-se o espectáculo deprimente da Assembleia da República, vota-se o que o partido manda, independentemente da consciência.
Reconhece-se hoje que as camadas mais novas, sobretudo mas não só, atravessam uma complexa situação envolvendo os valores, a confiança nos projectos de vida, os estilos de vida, etc. Neste quadro, a adesão à intervenção política, tal como se verifica genericamente em Portugal, parece mais uma parte do problema, é velha a partidocracia para responder a problemas novos, que um caminho para a solução.
De tudo isto resulta, como muitas vezes refiro, o afastamento das pessoas pelo que a construção de outras formas de participação cívica parece ser a única forma possível de reformar o quadro político que temos, ou seja, os partidos ou definham ou mudam, pela pressão do exterior.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

FINALISTAS, UM ESPÍRITO E UM MERCADO

De há uns anos para cá emergiu, sinais dos tempos, um grupo social extremamente importante e organizado por camadas etárias. Estou a falar dos finalistas. Assim que me lembre e tanto quanto consigo acompanhar, temos finalistas da educação pré-escolar, os finalistas do ensino básico, no 9º ano, os finalistas do ensino secundário, os finalistas do 1º ciclo do ensino superior, a licenciatura inventada pela bolonhesa ideia e os finalistas do 2º ciclo do ensino superior, os que abandonam o superior após cinco anos de estadia.
Os finalistas transformaram-se num nicho de mercado apetecível e rentável. Realizam-se festas e viagens de finalistas em todas as faixas etárias, iniciativas que as instituições acarinham e às quais os pais não sabem como resistir, é o espírito da escola, o convívio, a juventude, o divertimento, etc. etc.
Esta introdução, como será de antecipar, decorre da tragédia da morte de um jovem em Lloret de Mar. Quero sublinhar que esta reflexão não tem qualquer intenção moralista e também gostava de dizer que o meu filho fez parte, provavelmente, das primeiras gerações de estudantes do secundário que rumaram a Lloret de Mar, há uns dez anos.
A oferta na naquela estância olha para este nicho de mercado, os estudantes portugueses, como uma fonte extremamente significativa de receitas em época baixa no turismo com destino praia. Nesse sentido, de forma mais ou menos explícita, toda a estrutura, hotelaria, restauração, divertimento nocturno ou lazer, esmeram-se no sentido de criar a apetência por uma “histérica” e desregulada “desbunda” cheia de pica e adrenalina, o famoso espírito de Lloret. No espírito de Lloret tudo cabe, os jovens soltam-se e apesar de causarem uns estragos, uns distúrbios e alguns excessos, no final das contas, a operação compensa, aliás segundo os empresários locais os ingleses são piores.
Talvez fosse interessante perceber como é feita a fiscalização da oferta em Lloret, por exemplo das campanhas indutoras do consumo de álcool.
Para não variar, isto é conversa de velho, a malta precisa de se divertir, depois de uma ano de árduo estudo e antes da dura recta final dos exames.
Para o ano há mais.

PROTECÇÃO

De há muito e a propósito de várias questões que afirmo que em Portugal, apesar de existirem vários dispositivos de apoio e protecção às crianças e jovens e de existir legislação no mesmo sentido, sempre assente no incontornável “supremo interesse da criança, não existe o que me parece mais importante, uma cultura sólida de protecção das crianças e jovens. Poderíamos citar a insuficiência e falta de formação de juízes que se verifica nos tribunais de Família, as frequentemente incompreensíveis decisões em casos de regulação do poder parental, etc. No entanto, considerando a forma estranha, no mínimo, como está a decorrer o processo de contratação de técnicos para as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens e que a confirmar-se o que relata o Público, parece grave, umas notas sobre as Comissões de Protecção.
Na sua grande maioria as Comissões têm responsabilidades sobre um número de situações de risco ou comprovadas que transcendem a sua capacidade de resposta. A parte mais operacional das Comissões, a designada Comissão restrita, tem muitos técnicos a tempo parcial. Tal dificuldade repercute-se, como é óbvio, na eficácia e qualidade do trabalho desenvolvido, independentemente do esforço e empenho dos profissionais que as integram.
Este cenário permite que ocorram situações, frequentemente com contornos dramáticos, envolvendo crianças e jovens que, sendo conhecida a sua vulnerável condição não tinham, ou não tiveram, o apoio e os procedimentos necessários. Ouve-se então uma das expressões que me deixam mais incomodado, a criança estava “sinalizada” ou “referenciada” o que foi insuficiente para a adequada intervenção. Em Portugal sinalizamos e referenciamos com relativa facilidade, a grande dificuldade é minimizar ou resolver os problemas referenciados ou sinalizados.
A forma como, parece, se está a desperdiçar a experiência destes técnicos já em funções nas Comissões, mostra como falta essa cultura de protecção.

OS MEUS PADRINHOS DO BURKINA FASO

Um dia destes aceito mesmo. Até aqui tenho dado uma de bem colocado na vida e recusado as ofertas, mas a situação não há meio de melhorar, antes pelo contrário, já começo a estar cansado de tanta expectativa positiva ser revista em baixa pelo que a coisa não parece bem encaminhada e, portanto, vou aceitar.
Tenho recebido ultimamente, através do correio electrónico uma generosa quantidade de propostas e de informações sobre ganhos na lotaria, heranças e dádivas que padrinhos desconhecidos, mas que pensam em mim e no meu bem-estar, me têm feito chegar.
Ele é gente do Burkina Faso, da Nigéria, do Senegal, da Irlanda, da Inglaterra, sei lá, de uma diversidade que me deixa desconcertado.
Eu, que frequentemente aqui expresso algum cepticismo face às qualidades que o mundo vai tomando, até dou comigo, devo confessá-lo, emocionado com a generosidade desinteressada de tantas comunicações. Imaginem o trabalho que estas pessoas devem ter tido só para descobrir o meu endereço.
Quando confesso aos meus amigos esta minha emoção e satisfação por tanta gente se lembrar de mim e o facto de um pudor bizarro me levar a recusar a aceitar bens desta forma, eles, discretamente, riem-se. Não percebo, fui educado no princípio de que riqueza justa é a que se obtém pelo trabalho e não por caprichos da fortuna ou generosidade de benfeitores desconhecidos.
No entanto, como dizia no início, estou muito inclinado a aceitar a próxima oferta e, finalmente, entrar no mundo inacessível e distante das pessoas ricas. Depois quero ver a cara dos meus amigos quando virem o que a generosidade dos meus padrinhos do Burkina Faso me irá proporcionar. Vou ter que lhes lembrar que a inveja é uma coisa feia, mas, no fundo, eles sabem disso, ainda vou partilhar com eles alguma coisa. Eu sou assim, a culpa é do meu pai.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

MERECEM NOVAS OPORTUNIDADES

O INE procedeu á divulgação de um conjunto de dados que, não sendo novos, suscitam alguma reflexão no seguimento do que há uns meses aqui tinha referido sobre esta matéria.
Os empregadores portugueses têm um nível de qualificação médio abaixo dos seus empregados. Parece estranho mas não surpreende quando escrutinamos com algum cuidado a realidade.
Por outro lado, as micro, pequenas e médias empresas representam cerca de 95% do tecido empresarial, sendo que as micro, de natureza familiar, pesam cerca de 80%. Este conjunto de empresas representa cerca de 80% do emprego no país. Também sabemos que os trabalhadores portugueses, apesar do esforço dos últimos anos, designadamente através de um equívoco chamado Novas Oportunidades, apresentam um dos níveis mais baixos de qualificação da União Europeia.
Este quadro ilustra uma das razões estruturais para as dificuldades portuguesas, sobretudo quando consideramos aspectos como, eficácia, modernização, investigação, mudança, produtividade que são obviamente essenciais nas sociedades modernas e envolvidas em movimentos de globalização. Os nossos empregadores, designadamente, nas micro, pequenas e médias empresas, as grandes responsáveis pelo emprego em Portugal, assumem-se, numa fórmula clássica, mais como patrões que como empresários. Conhecem-se aliás muitas histórias, algumas anedóticas, de resistência a oferecer emprego a pessoas mais qualificadas por receio dos efeitos negativos que possa ter na “firma”.
De facto, também na área dos empregadores, que tem sido menos referida, a qualificação é crucial e indispensável ao desenvolvimento.
No entanto, temo que, fundamentado nestes números, o Governo redireccione o programa Novas Oportunidades desencadeando um frenesim de certificação, que transforme em pouco tempo uma classe de patrões sem qualificação académica, nuns milhares de engenheiros e gestores de aviário com diploma entregue em mediáticas aparições.

PAI E FILHO, OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL

Pai, hoje posso ir ao cinema à sessão da meia noite?
Francisco, à sessão da meia noite? Tens doze anos, está fora de questão.
Mas pai, o filme é para doze anos.
Tudo bem, o filme pode ser para doze anos mas a sessão da meia noite não é seguramente para gente de doze anos.
Pai, mas a gente tá de férias e a turma combinou ir toda.
Certo, no entanto, parece-me que foi uma combinação apressada. Acho que a turma terá de ir ao cinema sem ti.
Já te disse que vão todos.
E eu já te disse que poderão ir todos menos tu.
Aqui a coisa começa a ficar complicada a sério, o Francisco percebe que o pai parece mesmo determinado e lança o plano B.
Tens alguma razão para não me deixares ir ao cinema com a minha turma? Eu porto-me bem, quase sempre.
Francisco como certamente compreendes não é por causa do teu comportamento que não vais ao cinema à meia noite. É mais simples a razão. A meia noite não é uma hora adequada para tu andares na rua só e ir ao cinema.
Nesta altura, o Francisco, põe uma cara de sofrimento e desconsolo e suspira um martelado "pois, percebo porque é que os meu amigos se dão bem com os pais deles e gostam deles".
Esta apreciação bateu em cheio no desconforto culpabilizante que o pai do Francisco sente pelo pouco tempo (face ao que ele desejaria) que uma vida profissional muito pesada lhe permite dedicar à família. Ainda sentiu a tentação de um "está bem, vais desta vez porque estão de férias e eu vou lá pôr-te e buscar" mas, decidiu-se.
Francisco, é exactamente para me dar bem contigo e porque gosto muito de ti que não vais ao cinema à meia noite.
Na linha de mais alguns que por aqui têm aparecido, este será mais um diálogo improvável.

quarta-feira, 31 de março de 2010

E NÃO SE PODE DAR UM JEITINHO?

Há coincidências curiosas. No dia em que no Parlamento João Cravinho afirma que a "corrupção política está à solta" são divulgados na Alemanha alguns dados sobre o chamado negócio dos submarinos que não parecem propriamente um exemplo de lisura política e económica.
Diversas vezes aqui tenho me referido a essa espécie de traço da nossa cultura cívica "a atençãozinha" ou a sua variante "dar um jeito". Trata-se de um fenómeno, um comportamento, profundamente enraizado na nossa cultura e com o qual parecemos ter uma relação ambivalente, uma retórica de condenação, uma pontinha de inveja dos dividendos que se conseguem e a tentação quotidiana de receber ou providenciar uma "atençãozinha", de pedir ou dar um jeito, sempre "desinteressadamente", é claro.
João Cravinho sublinha o óbvio, não existe vontade política de combater a corrupção. A teia de interesses que ao longo de décadas se construiu envolvendo o poder político, a administração pública, central e autárquica, o poder económico, o poder cultural, a área da justiça e segurança, parte substantiva da comunicação social e toda a relação do dia a dia com a "atençãozinha" à recepcionista que nos passa para a frente na lista de espera ou ao funcionário de quem esperamos que possa dar um "jeito", dificulta seriamente um combate eficaz. Este combate passará, naturalmente, por meios e legislação adequada, ainda ontem Maria José Morgado se queixava das enormes dificuldades sentidas nesta área, mas passa sobretudo pela formação cívica que promova uma outra cidadania. Estarão lembrados que há algum tempo atrás foram divulgados estudos evidenciando a nossa atitude tolerante para com a corrupção.
Por tudo isto, prevalece o meu cepticismo face a iniciativas como as comissões de inquérito e, por exemplo, face ao discurso de João Cravinho cujo pacote de combate à corrupção foi chumbado pelo seu próprio partido.
Certamente que poderíamos viver sem a "atençãozinha", mas não era a mesma coisa.

A ESCURIDÃO

Estava em luta com a imaginação para tentar escrever um texto para aqui partilhar quando faltou a energia eléctrica por aqui. A vida moderna e, sobretudo, a bateria do portátil permite continuar a trabalhar, embora com alguma dificuldade de encontrar as letras, pois a máquina entrou em modo de poupança e é melhor que assim fique, não sei o tempo que demorará.
Nesta procura pelas letras lembrei-me da moda do cancioneiro alentejano que diz "é tão triste não saber ler, como é triste não ter pão, quem não conhece uma letra, vive numa escuridão".
De facto, esta escuridão que dificulta o reconhecimento das letras é tão difícil de entender como de ultrapassar. É por isso que não é possível aceitar que alguns miúdos possam passar pela escola e, tendo capacidades para aprender, dela saiam sem "conhecer uma letra", ou seja, sem ferramentas que lhes permitam construir um mundo, o seu mundo, de forma positiva e saudável. Provavelmente, restar-lhes-á a escuridão, para eles, e a sombra que a sua escuridão projecta sobre nós.
O que mais me incomoda, por estranho que possa parecer, não é tanto que alguns miúdos "nasçam e vivam" condenados à escuridão, não somos e não seremos perfeitos, é que alguns de nós achem que isso é normal.
Entretanto voltou a luz, felizmente, já não estou na escuridão.

terça-feira, 30 de março de 2010

À DERIVA

No seu estilo voluntarista sorridente, a Senhora Ministra foi à Assembleia da República anunciar mais um pacote de medidas ou intenções em matéria de política educativa.
Depois de quatros anos de arrogante inflexibilidade fico com a progressiva sensação de que a actual equipa entrou num processo de navegação à vista com muita vontade de "fazer coisas" e, sobretudo, uma enorme preocupação de ir respondendo pela agenda. Pode ser um caminho complicado.
Das várias intenções e medidas a desenvolver hoje divulgadas e que tive acesso, algumas vão, creio, no caminho ajustado. Mudanças na estrutura e conteúdos curriculares, agilização e desburocratização nos procedimentos de natureza disciplinar, reforço da autonomia pedagógica das escolas, por exemplo, são medidas que me parecem acertadas. Por outro lado e também como exemplo, a aplicação de medidas correctivas por parte de funcionários (se bem percebi) e a criminalização do bullying com a ligeireza de que se fala levantam-me sérias reservas.
Esta forma de funcionar parece-me a arriscada. Lembrar-se-ão que depois de anunciar uma desejada e imprescindível mudança curricular, a Ministra veio posteriormente dizer que essa mudança seria apenas um ajuste e agora fala na possibilidade da existência de disciplinas que ocupem metade de um ano lectivo que se organiza em três períodos, o que, no mínimo, levanta dificuldades de gestão. Sugere a prudência que esperemos pelas próximas intervenções que, como nos vamos habituando, corrigirão algo do que agora foi anunciado de forma avulsa e num ímpeto de voluntarismo reactivo.
Parece-me que continuamos numa indesejável situação de dúvida e falta de equilíbrio entre fazer certas as coisas e fazer as coisas certas.

A TENTAÇÃO

Como tenho vindo a referir aqui no Atenta Inquietude, quando a mediatização das questões de interesse para a comunidade decorre de incidentes e, sobretudo de incidentes graves, caso agora do bullying e da violência em espaços escolares, existe um aspecto imediato e de natureza positiva, a visibilidade e a atenção ganha pelos fenómenos, mas também se correm alguns riscos.
Nesta perspectiva e face às tragédias que envolveram a morte do Leandro, um aluno, e do Luís, um professor, as reacções, naturais aliás, podem promover uma deriva perigosa de "policialização" dos espaços educativos. Para além de algumas vozes que defendem apoios, recursos e formação, que envolvam alunos, professores e pais, e entre as quais me incluo, mas que soam baixinho, ouvem-se de forma bastante mais nítida e amplificada por uma comunicação social nem sempre atenta e preparada, as vozes que clamam, quase que exclusivamente, por mais repressão e dispositivos punitivos. É evidente, sublinho para que não restem dúvidas, que é necessário que se punam e responsabilizem comportamentos desadequados, mas tenho a maior das dúvidas de como se criminaliza o bullying proposta, ao que parece, em estudo pelo ME. Tratando-se o bullying de um fenómeno multi-dimensionado e complexo como se escrutina e quem escrutina comportamentos que, dependendo das circunstâncias, dos envolvidos, da regularidade e das consequências, tanto podem configurar bullying como um banal incidente que espelha o crescimento dos miúdos e a cultura e valores do mundo em que vivemos. Estamos a falar de uma decisão, considerar crime ou não, que é de uma enorme responsabilidade e que a experiência de quem conhece o meio mostra que nem sempre é fácil. No entanto, ceder à deriva populista da repressão em busca da autoridade perdida é uma enorme tentação.
Continuo convencido que estruturas de mediação entre a escola e a família, dispositivos de apoio a alunos, pais e professores, modelos mais eficazes de organização e funcionamento das escolas, supervisão dos intervalos por parte de professores por exemplo, formação nestas matérias, etc. para além, naturalmente, de formas eficazes e ágeis de aplicação de sanções, seriam bem mais eficazes.

SOLIDARIEDADE

Como cidadão minimamente atento, tenho acompanhado o processo de reivindicação dos enfermeiros e parece-me relativamente clara a situação de discriminação na administração pública, ou seja, vencimentos diferentes para habilitação semelhante. De resto, desconheço os conteúdos do processo negocial com a tutela.
Também me parece que não pode ser beliscado um direito legalmente consignado, o direito à greve. No caso dos enfermeiros, como noutras classes profissionais, parece-me muito difícil que se possa desencadear uma situação de greve sem que isto implique sérias perturbações para a população, a grande maioria, utentes dos seus serviços. Daí, partir do princípio que a decisão de uma greve é de uma enorme responsabilidade e certamente bem ponderada.
Dito isto, esperava ver por parte dos representantes sindicais dos enfermeiros uma palavra de solidariedade para com os cidadãos afectados pela greve. Estamos a falar de cuidados de saúde. Na RTP ouvi dois representantes da classe, uma senhora enfermeira explicava que no Porto, no Hospital de S. João no Porto e no Instituto Português de Oncologia nenhuma das cirurgias programadas se realizaria. Também em Lisboa o senhor enfermeiro ouvido realçava o sucesso da greve pois os blocos operatórios estavam fechados. Devo confessar que me chocou o tom empregue e a falta de uma palavra dirigida às pessoas que viram adiadas as intervenções cirúrgicas de que necessitam, situação difícil e que os próprios enfermeiros avaliarão melhor do que eu.
Existe um grupo de profissões que pela sua natureza exigem uma solidez ética e deontológica que não podem, não devem, nunca ser descuradas.
Teria sido adequado uma referência de solidariedade e desculpa dirigida às pessoas que esperam meses por uma cirurgia e que vêem traídas as suas expectativas de tratamento. A eventual razão não retira responsabilidades.

MIÚDOS DIFÍCEIS

Mãe, ainda é dia posso ir jogar à bola para a praceta com o Luís, o do andar de baixo?
Já fizeste o trabalho de casa?
Já.
Não. Tiago tu sabes bem que é perigoso, pode aparecer alguém que vos queira roubar a bola.
Então e se for sem ser a jogar à bola, só estar lá em baixo?
Não, bem sabes as histórias que se ouvem, pode sempre surgir alguém que vos queira fazer mal.
Então posso ir a casa da Rita que é no prédio ao lado para brincar um bocado, ver um jogo novo que ela me disse na escola que a tia lhe tinha dado.
Não, a Rita está sozinha, os pais ainda não chegaram e não gosto que vocês fiquem em casa, sós, sem adultos por perto, pode acontecer alguma coisa.
Mãe, posso ir a casa da avó num instante, antes de jantar? É perto.
É claro que não podes, só tens 10 anos e é preciso atravessar duas ruas.
Mas as ruas têm semáforos, eu sei ver se está verde.
Eu sei, mas há gente que não respeita os semáforos e pode acontecer um acidente.
Mãe, posso telefonar ao João para ele vir cá para casa brincar um bocado? Eu sei que a mãe dele deixa-o vir sozinho.
Não acho boa ideia, vocês brigam sempre e arranjam problemas.
Mãe, posso ficar aqui sentado só a olhar para ti?
Não sejas mal educado Tiago. Olha, andaste tanto tempo a pedir para te comprar o computador, porque é que não vais um bocado para o quarto e jogas no computador até à hora de jantar.
E o Tiago lá foi trancar-se no ecrã, só, no quarto, deixando a mãe mais tranquila e a pensar como hoje em dia é tão difícil contentar os miúdos.

segunda-feira, 29 de março de 2010

UM PAÍS DE DESPORTISTAS

Ciclicamente, só para nos arreliar e dar cabo da nossa auto-estima referem-se à nossa pouca apetência pelo desporto e actividade física. Um estudo há algum tempo realizado pela GFK, empresa de estudos de mercado, referia que muitos portugueses, quando não estão nos locais de trabalho, estarão de pijama, sentados num sofá à frente de um ecrã. Os resultados do estudo sobre a ocupação dos tempos livres mostraram que 96% dos portugueses tem como principal actividade ver TV na qual gastam 37% do tempo. Ficamos ainda a saber que 40% gasta 8% do tempo a ver filmes (DVD). Os portugueses usam 22% do seu tempo livre a navegar na Net e 9% de volta dos livros. Somos ainda os que menos recorremos a actividades de ar livre. Alguns comentários.
Em primeiro lugar, os tempos não me parecem nada livres, ou seja, os portugueses estão completamente “agarrados” e tornaram-se teledependentes. Como sabem, os comportamentos aditivos retiram-nos liberdade pelo que deixemos de chamar livres ao tempo que dedicamos compulsivamente ao ecrã. Por outro lado, parece-me que a fatal atracção pode ser explicada pela qualidade da programação, sobretudo dos canais abertos e generalistas, novelas, novelas e, no meio, pérolas como o Preço Certo ou os programas de discussão sobre futebol. E também temos a Dra. Fátima Campos Ferreira a arbitrar intermináveis e estéreis discussões. No cabo temos overdoses de futebol, actividade cultural de que somos especiais consumidores e até faz menos mal, parece, que ver telejornais. Os dados referentes à leitura estarão provavelmente ligados à atitude séria que temos perante a vida, isto é, se estamos em tempos livres, achamos, que é para descansar e ter que estar a pensar no que se lê, bolas, dá cabo do descanso. O facto de não recorrermos a actividades de tempo livre deve-se certamente ao clima adverso e à excelência e conforto das nossas casas. Gostava de ver as pessoas que andam sempre em actividades de ar livre, como as do norte da Europa, a fazerem essas actividades com o nosso clima. Claro que se também tivessem casas confortáveis como as nossas, não quereriam sair delas e estariam de pijama, num sofá, em frente à TV.
Em termos de actividade desportiva propriamente dita, julgo que é de realçar o hábito bem enraizado entre nós de passear de fato de treino a caminho da bica, pelos centros comerciais ou ainda assistir a um evento desportivo na condição tão interessante de "desportista de bancada" onde até se pode participar num concurso de arremesso no âmbito das claques clubistas. É um começo. Convém ainda não esquecer a quantidade vezes que nos referimos no quotidiano, ao que "fazemos por desporto".
No fundo, somos mesmo um país de desportistas.

A NEGAÇÃO DA REALIDADE

Creio que em bom rigor ninguém fica muito surpreendido com as revelações sobre casos de abuso de crianças no interior da Igreja Católica. Durante muito tempo a natureza das instituições, a cultura e valores instalados sobre a infância e os seus direitos, tornavam frequente a realização de abusos que não se confinavam, e confinam, a instituições da responsabilidade ou tuteladas pela Igreja. A menorização dos direitos dos miúdos "legitimavam" socialmente tais práticas, da mesma forma que legitimavam o trabalho infantil. Tal entendimento é patente quando se acede a depoimentos de pessoas vitimizadas que, regularmente utilizam expressões como "era normal", "era frequente". Aliás, este tipo de situações, estendiam-se a todos os países pelo que também Portugal terá, tem, episódios desta natureza, lembremo-nos do caso Casa Pia.
Dito isto e do meu ponto de vista o que fica mais surpreendente é a reacção da hierarquia da Igreja à divulgação das situações.
Desde a defesa da ideia de que se trata de um ataque ou conspiração, à desvalorização das situações, aos reconhecidos casos de cumplicidade e protecção, compra de silêncio através de indemnizações, temos tido de tudo, menos o reconhecimento da gravidade dos problemas e a tomada de medidas que reponham alguma justiça e a punição de responsáveis e cúmplices.
Talvez se lembrem da posição assumida pelo Bispo do Funchal aquando do julgamento do padre Frederico e sobre comprovados casos de abuso sobre jovens. O padre foi aliás condenado em tribunal pelo envolvimento na morte de um adolescente.
Esta posição, negação da realidade, é que me parece inaceitável, tornando algo hipócrita parte do discurso da igreja dirigido aos valores sociais em áreas como família, sexualidade e casamento.

O QUE A GENTE ALCANÇA

Ontem ao fim da tarde no meu Alentejo, num fim de semana sem água que permitiu mandar as batatas para a terra pela qual já ansiavam, assim diziam os grelos já bem visíveis, era tempo das lérias. Já de manhã, enquanto apanhava os espargos para as migas, tinha recebido a visita do meu amigo António, veio ao monte cumprir uma promessa antiga, uma garrafa de um tinto especial, e as promessas são para se cumprir, assim entende o meu amigo António que, por isso, não tem a classe política em grande conta. Ficámos um tempo de conversa e a tentar perceber porque é que este ano, apesar da água, se encontram muitas carrasquinhas mas poucos catacuzes. É pena, porque são uma delícia, experimentem.
Voltando às lérias do fim da tarde com o Velho Marrafa, comentávamos o abalo que a terra tinha sofrido e como achamos que somos tudo e afinal não somos nada, a terra estremece, ouve-se aquele ronco vindo do fundo e tudo fica tão maior que nós.
A conversa andava por aí, o que a gente é capaz de saber e de fazer, até onde somos capazes de chegar, qual o limite ou melhor, os limites. Conversa que, como podem imaginar, tem um fim altamente previsível, isto é, não tem fim. No entanto, as histórias têm que ter um fim, uma história sem fim não é uma história, é assim uma estrada para lado nenhum e o Velho Marrafa mais lúcido que eu encontrou o fim para a nossa narrativa.
Disse ele, que não há longe nem perto, nem comprido nem curto, "o que a gente alcança é o que é curto, é o que está perto, não podemos é parar". De alcançar, digo eu.
O Velho Marrafa tem razão como, quase, sempre. Antes de descobrir o meu Alentejo não sabia o que era um espargueiro e nunca tinha ouvido falar em catacuzes e carrasquinhas que agora estão tão perto, no prato.

domingo, 28 de março de 2010

OUTRA FACE DA CRISE

Tratar-se-á certamente de uma informação de rodapé condenada à discrição. Segundo o DN, nos últimos meses a administração fiscal em vindo a vender em hasta pública cerca de 81 propriedades por dia, sobretudo andares e moradias. Tal acção resulta de penhoras por incumprimento fiscal.
Não tenho dados que ajudem a perceber em que medida este incumprimento fiscal é resultado objectivo da crise económica ou, também, da velha cultura de evasão e manha na relação com o fisco. De qualquer forma não deixa de ser um dado extremamente significativo.
A este cenário devemos juntar o número, também muito elevado, de famílias que em situação de sobreendividamento entram em incumprimento das suas dívidas, sobretudo na área do crédito à habitação. Nos últimos meses a DECO, através dos seu gabinetes de apoio aos consumidores, tem vindo a relatar o número crescente de famílias incapazes de responder às dívidas. Devido à crise que também afecta o mercado imobiliário, a própria banca tem mais interesse em renegociar dívidas que a executar hipotecas. Se assim não fosse, o número de famílias que ficariam sem casa seria certamente maior.
Pode sempre dizer-se, com alguma razão, que o ímpeto e a pressão consumista, induzem alguma irresponsabilidade dos cidadãos gerando posteriormente situações de incumprimento ao menor sobressalto ou desequilíbrio. No entanto, é bom não esquecer a ligeireza negligente com que a banca durante muito tempo facilitava o crédito mesmo quando a taxa de endividamento já era perigosamente ameaçadora do equilíbrio dos orçamentos familiares.
Não é que esteja particularmente optimista, mas pode acontecer que as actuais dificuldades nos obriguem a repensar valores e comportamentos. A banca, que entretanto continua com lucros sólidos, já não tem o dinheiro tão acessível, elevou significativamente os spreads como é sabido e verificável na bastante maior dificuldade de acesso ao crédito. Mas eles são mais cuidadosos que nós.

sábado, 27 de março de 2010

E NÃO SE PODE EXTERMINÁ-LOS

Pois é, de vez em quando lá me lembro de Karl Valentin e da sua peça, “E não se pode exterminá-los” e por várias razões.
Agora decorre da proposta do PSD de expulsão do sistema educativo de alunos em idade de escolaridade obrigatória. Como parece evidente pela reacção de especialistas a proposta será inconstitucional mas a questão, do meu ponto de vista, está para além da eventual inconstitucionalidade, tem a ver com os efeitos e sentido da proposta.
Não está em causa a necessidade de que o quadro legal e os procedimentos a adoptar em termos de punição sejam eficazes e oportunos. No entanto, como sempre refiro, do meu ponto de vista, a questão central é a natureza da oferta educativa para os alunos e os dispositivos de apoio a que alunos, pais e professores poderão ter acesso em caso de dificuldade.
No que respeita à oferta educativa, a aposta que tem vindo a ser feita de há alguns anos para cá deve acentuar-se. É fundamental que todos os alunos possam seguir formas de qualificação, de duração mais longa ou mais curta, mas sempre conducente a formação profissional. Qualquer aluno que não aceda a qualquer tipo de formação profissional é um potencial excluído.
Por outro lado, como ontem referia, a complexidade dos problemas actuais exige também respostas mais complexas, ou seja, é fundamental que se desenhem dispositivos de apoio a alunos, a professores e a pais que minimizem riscos e contribuam para ultrapassar problemas. Estes dispositivos de apoio, de natureza e com recursos variados, não têm todos que estar sediados nas escolas mas sim ao alcance expedito das escolas.
É também necessário, repito-o vezes sem conta, que os discursos de políticos, professores e seus representantes, pais e opinion makers, entendam que a imagem social dos professores deve ser positiva e protegida. Só assim, os alunos, percebem, os seus professores como uma classe respeitada e isso contamina a sua atitude para com eles.
Finalmente e voltando ao início, podemos sempre achar que expulsá-los resolverá alguns problemas embora seja necessário pensar para onde se enviam já que em casa e desocupados certamente causarão problemas. Assim, e já que não se pode exterminá-los, talvez uns campos de concentração e detenção nas zonas desertas do país, possam ser uma solução. A constituição é que atrapalha.

O CAJÓ E O PEC

Há já algum tempo que não encontrava o meu amigo Cajó. Não sei se se lembram dele, é mecânico, tem um Punto todo kitado e é o tuga mais tuga que eu conheço. Passei ao pé da oficina e lá estava o Cajó. Não pude deixar de parar para uns minutos de conversa.
Olhó meu amigo Zé, tem andado zangado aqui com o pessoal ou lá porque o seu Benfica vai à frente não liga à gente.
Tá bom Cajó? Não tem calhado passar. Vai uma bica?
A esta hora já vai um mine. Vamos lá antes q’os gajos as aumentem.
No café ao lado da oficina, o Cajó mostrou que estava em forma.
Ah pois é, estas cenas vão todas aumentar. Dizem que é por causa daquela cena do PEC ou lá o que é. O cacau p’ra gente fica congelado mas os gajos que mandam nas empresas mamam gandes balúrdios e aí eles não mexem. A malta cá de baixo é que se lixa. E parece que os impostos também vão aumentar. O Sócrates dizia que não, mas estes gajos é só tangas e na volta, carregam, anda tudo ó mesmo. O meu cunhado Joca, o irmão da minha Odete, disse-me que lá na empresa dele já o avisaram que aumentam os descontos. Lá nisso aqui tenho sorte, o patrão dá-me algum por fora e parece que assim não aumenta. Também ouvi dizer que iam mexer no subsídio de desemprego. Tá mal, a minha Odete, tem subsídio e faz umas limpezas a umas madames e safa-se bem. Parece q’os gajos vão andar em cima disto. É sempre assim, um gajo tenta governar-se e não deixam. Eu bem os topo, só os gajos é que se querem governar. E você já viu os caldinhos em que os gajos andam todos metidos? Mas não vai dar nada, se fossem gajos pequenos tavam feitos, assim safam-se bem e ficam a gozar o deles. E depois vêm cá com essa tanga do PEC ou lá o que é e ainda nos lixam mais. Noutro dia, até teve um bacano aqui na oficina que me disse que tinham dito na televisão que andavam a ver se fechavam as rulotes, parece q’os gajos das rulotes têm que andar de luvas. Estes gajos tão malucos, você já viu como é q’ um gajo de luvas arranja uns córatos ou um cachorro. Uma vez também apareceram uns fiscais na oficina a mandar vir com o equipamento da gente. Cambada de chulos vão mas é bulir. Por falar em bulir, tenho q’ir mudar pastilhas áquele Corsa, o Zeca tá aí não tarda. Você é q’anda um bocado calado amigo Zé.
É do tempo Cajó, é do tempo.

sexta-feira, 26 de março de 2010

ATENTOS AOS MIÚDOS

Como há algum tempo afirmei aqui no Atenta Inquietude, as tragédias que por vezes nos atingem têm a consequência “positiva”, por assim dizer, de nos obrigar a prestar atenção aos fenómenos que as provocam ou envolvem, foi assim com a questão da pedofilia, desencadeada pelo caso Casa Pia e passa-se o mesmo agora com a questão do bullying e violência escolar após a tragédia que envolveu a morte de uma criança e de um professor. Também na altura referi que depois da poeira mediática começar a assentar e dos discursos reactivos populistas, demagógicos e desinformados se aquietarem será altura de começar seriamente a pensar.
Do meu ponto de vista, como já disse, este fenómeno, o bullying, nas suas diferentes formas exige duas abordagens cruciais e complementares, atenção e dispositivos de resposta.
A primeira e fundamental abordagem é assumir uma atitude estruturada, informada, intencional de estar atento aos comportamentos dos miúdos. Como se refere na peça do Público, os pais podem e devem ser informados sobre um conjunto de sinais nos discursos e comportamentos dos miúdos que podem sugerir o seu envolvimento em situações desta natureza, como vítimas ou como agressores. Muitas vezes, os pais notam diferenças na postura dos filhos mas por medo, desconhecimento ou negligência não percebem esses sinais. Este é um aspecto fundamental. Por outro lado, também nas escolas esses sinais devem ser conhecidos de todos os intervenientes presentes naqueles espaços, designadamente, de funcionários e professores. Sei que não será uma proposta pacífica, mas defendo de há muito que os intervalos nas escolas, circunstância em que maioritariamente emergem incidentes, deveriam ser supervisados por professores, por razões óbvias. Também aqui se torna imprescindível uma atitude de “querer ver”, portanto atenta, mas informada e capaz de entender e escrutinar os sinais transmitidos por vítimas e agressores.
A segunda grande questão, é que para problemas desta complexidade, a resposta tem também de ser mais complexa, ou seja, para além da componente punitiva, importa perceber que dispositivos de apoio deverão estar estruturados nas escolas ou ao alcance rápido e oportuno das escolas para lidarem com este tipo de fenómenos que, como disse e devido à complexidade, estão, por vezes, para além da sua capacidade de resposta imediata. Noutro espaço poderia discutir-se qual a natureza dos recursos e trabalho a desenvolver por estes dispositivos de apoio, a questão aqui a registar é a sua imprescindibilidade.
Finalmente, apenas sublinhar, que qualquer forma de abordagem que se queira eficaz, tem, necessariamente, de assentar numa atitude de atenção e querer ver.

SABER FAZER CONTAS

Também me incluo no grupo alargado de pessoas que se sente preocupado com os resultados genericamente baixos que os nossos alunos evidenciam, designadamente, a matemática. Sabemos todos como os conhecimentos matemáticos são fundamentais na construção dos projectos de vida, independentemente até do percurso que cada um fará. Em Portugal é ainda mais importante este conhecimento.
O povo, quando pensa na organização da vida e no seu bom andamento, utiliza expressões como "deitar contas à vida", "ser de boas contas", "é preciso fazer contas" e até se refere aos que "contam" ou "não contam" para alguma coisa. Como vêem as contas estão bem presentes.
Como dizia, entre nós é particularmente importante esta questão. Vivemos tempos em que é imprescindível saber fazer contas. A complicada situação económica em que muitos portugueses vivem a isso obriga, obviamente.
Mas não se trata só dessas contas. Toda a gente se interroga, "que ganho eu com isso?". Muitos dos nossos discursos e comportamentos perderam genuinidade, obedecem ao que chamamos de calculismo, ou seja, fazemos contas. Há sempre uma conta, um cálculo, por detrás, do que fazemos ou dizemos. Damos e trocamos pouco, vendemos ou compramos tudo, o que queremos e o que não queremos, o que precisamos e não precisamos. Não nos podemos distrair senão, cito outra vez o povo, "as contas saem furadas".
Os miúdos aprendem, mesmo que digam que eles não sabem, a fazer bem as contas. Aprendem como chegar ao que querem, fazem bem as contas. Os adultos, muitos, não se contentam com trocos, só contas com números grandes.
De facto, saber fazer contas, transformou-se numa peça fundamental no kit de sobrevivência com que nos equipamos.
No entanto, lamentavelmente e por várias razões, continua a haver muita gente, miúda, graúda e mais graúda ainda, chamam-lhes velhos, cujas contas dão, quase sempre, mau resultado.

quinta-feira, 25 de março de 2010

GENERICAMENTE

Genericamente temos a percepção de que a produção de serviços e bens se destina a promover o consumo por parte do cidadão, independentemente, das suas condições de vida. A responsabilidade social das empresas é, genericamente, retórica.
Segundo o Público, o recurso sistemático aos tribunais, corriam 140 acções em 2009, por parte das multinacionais farmacêuticas para impedir a utilização dos medicamentos genéricos têm custos enormes para o cidadão, o genérico fica cerca de 35% mais barato e para o estado, uma vez que o valor da comparticipação também seria menor. Tudo junto, a poupança seria na ordem dos 100 milhões de euros, uma ninharia.
Certamente que as multinacionais e os laboratórios ligados à produção de genéricos terão as melhores razões para que tal situação se verifique. Certamente que a economia de mercado e a livre concorrência suportam esta situação que as próprias instituições internacionais ligadas ao sector acham estranha.
A questão que me parece importante é como parece falhar a acção reguladora do estado levando que em plena discussão do PEC com a obrigatória redução da despesa pública, se aceite um acréscimos de custos que penaliza duplamente o cidadão, através da comparticipação do estado, dinheiro dos cidadãos e do custo directo na parte que paga na farmácia.
O cidadão, genericamente habituado, a não ver os seus interesses protegidos, nada dirá, pensando para consigo, "é o costume, eles só pensam no deles". Generalidades.

TRABALHO DE CASA

Depois de um jantar tranquilo, toda a gente a olhar para a televisão, que no seu canto cumpria o papel que lhe estava cometido, evitar que a família fale, o Miguel dirigiu-se ao pai.
Pai, preciso da tua ajuda para um TPC.
O quê Miguel?
Preciso que me ajudes num TPC.
Claro que te ajudo na realização do trabalho de casa. Deixa até que te diga que fico muito satisfeito por, finalmente, te teres lembrado do trabalho de casa sem que fosse necessário que eu pergunte dez vezes se tinhas alguma coisa para fazer. Sabes como isso é muito importante para tu aprenderes e esta conversa também serve para a tua irmã, é bom que façam sempre os trabalhos de casa. Quando andei na escola muito do que aprendia era porque fazia sempre os trabalhos. Estou satisfeito contigo.
Pai, este trabalho não é bem como os outros.
Então?
A professora pediu para fazer um trabalho para mostrar como é a nossa relação com os nossos pais.
Acho muito bonito esse trabalho e ajudo-te a fazer. Já tens alguma ideia Miguel?
Já pai. A professora disse que tinha de ser uma coisa assim normal, para mostrar como é quase sempre a relação. Então lembrei-me de fazer uma birra, assim, tipo, eu quero ir fazer uma coisa, tu não deixas, eu começo a protestar, tu começas a gritar, eu choro assim um bocado para ver se te convenço, tu ainda gritas mais, eu choro mais alto e digo que não gosto de ti e depois tu deixas-me fazer o que eu queria. Pai, podemos começar?
Miguel, estás a brincar?
Não Pai, é a sério.
"Não acredito", disse o pai do Miguel já a gritar. E a cena continuou a desenrolar-se com o guião de sempre.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O FADO

Mais um estudo comparativo internacional e lá aparece Portugal em lugar de relevo. Ontem tratava-se do altíssimo nível de problemas na saúde mental, hoje trata-se do pessimismo face aos rendimentos na terceira idade.
Muitos destes estudos tem a vantagem de legitimar e certificar a percepção que temos da realidade e, simultaneamente, demonstrar que a realidade é o que é e não aquilo que nós gostávamos que fosse, como transparece em muitos discursos políticos, que nos querem convencer de que realidade é aquilo que dizem, não o que vemos e sentimos.
Outros estudos na área económica têm demonstrado que Portugal é um país com uma enorme assimetria salarial, ou seja, a diferença entre altos rendimentos e baixos rendimentos do trabalho é das maiores. É sabido e reconhecido. Também sabemos que o cálculo das pensões de reforma é realizado com base nos vencimentos. Assim sendo, não será de todo estranho que aos altos rendimentos salariais, a pequena minoria, irão corresponder as reformas mais elevadas, enquanto aos baixos rendimentos salariais, a grande maioria, corresponderão as pensões de reforma de mais baixo valor.
Quando são interrogadas as pessoas sobre o que esperam do futuro na situação de reforma, as respostas não podem deixar de traduzir este cenário pelo que os seus receios e baixas expectativas emergem. O futuro joga-se no limiar da sobrevivência, corta-se nos medicamentos para chegar para o comer.
Assim, cumpre-se o fado, baixa mobilidade social, nasce-se pobre, vive-se pobre, reforma-se pobre e morre-se pobre.
Para que este fado deixe de ser o destino, por assim dizer, precisamos, creio, de considerar dois eixos fundamentais, a qualificação das pessoas e a dimensão ética da cidadania. Em qualquer destas áreas está muito, mas mesmo muito, por fazer.

TENHO SONO

O JN de hoje aborda a questão da qualidade do sono de crianças e adolescentes. Alguns trabalhos evidenciam sustentam que os mais novos estarão a dormir menos que o desejável e função da idae. A falta de qualidade do sono e do tempo necessário acaba, naturalmente, por comprometer a qualidade de vida das crianças e adolescentes.
Várias investigações sugerem que parte das alterações verificadas nos padrões e hábito relativos ao sono remetem para questões ligadas a stress familiar e sublinham o aumento das queixas relativas a sonolência e alterações comportamentais durante o dia.
É certo que as situações de stress familiar serão importantes mas parece-me necessário não esquecer alguns aspectos relacionados com os estilos de vida. Segundo alguns estudos, perto de 50% das criança até aos 15 anos terão computador ou televisor no quarto, além do telemóvel.
Acontece que durante o período de sono e sem regulação familiar muitas crianças e adolescentes estarão diante de um ecrã, pc, tv ou telemóvel, o que o estudo hoje referido vem sublinhar. Com é óbvio, este comportamento não pode deixar de implicar consequências nos comportamentos durante o dia, sonolência e distracção, ansiedade e, naturalmente, o risco de falta de rendimento escolar num quadro geral de pior qualidade de vida. Creio que, com alguma frequência, os comportamentos dos miúdos, sobretudo nos mais novos, que são de uma forma aligeirada remetidos para o saco sem fundo da hiperactividade e problemas de atenção, estarão associados aos seus hábitos e padrões de sono.
Estas matérias, a presença das novas tecnologias na vida dos mais novos, são problemas novos para muitos pais, eles próprios com níveis baixos de alfabetização informática. Considerando as implicações sérias na vida diária importa que se reflicta sobre a atenção e ajuda destinada aos pais de forma a que a utilização imprescindível e útil seja regulada e protectora da qualidade de vida das crianças e adolescentes.

O DESFILE DO MUNDO

Parecia que estava a assistir ao desfilar do mundo como se estivesse no centro de um carrossel que girava com imagens, cenas que se repetiam.
Via pessoas, pareciam gente de poder, a dizer qualquer coisa que só eles entendiam assim, para logo a seguir dizerem o contrário sendo, entretanto, contrariados por outros parecidos com eles que numa cacofonia incompreensível gritavam sem se ouvir.
Via gente que passava na rua sem ter um destino mas sem conseguir refrear um passo que agitadamente as levava para lado nenhum.
E corriam miúdos que gritavam sem que ninguém parecesse ouvi-los. Alguns deles envolviam-se em lutas que não pareciam incomodar quem ia passando.
Também desfilavam velhos que, sem dar por isso, já não estavam vivos mas de que ninguém parecia sentir falta ou inquietação.
E via muita gente que parecia procurar desesperadamente algo que tinham perdido ou que lhes tinha sido roubado. Aproximou-se um pouco e percebeu que se tratava da dignidade. Aquela gente tentava, sem sucesso, recuperar o seu bem mais precioso, o sustento da existência, a dignidade.
E as cenas sucediam-se como se se tratasse de um turbilhão enlouquecido, de curtas e trágicas animações com gente real.
Começou a sentir-se mal, cada vez pior. A certa altura, quando a velocidade sôfrega do desfile estava a atingir o limite do suportável e se sentia a explodir, acordou, tenso, assustado. Tinha sido apenas um pesadelo, mas estava na hora.
Levantou-se, sem fazer ruído para não acordar a mulher e os filhos, arrumou-se, da forma possível, por dentro e por fora, e foi apanhar o comboio suburbano que o leva, como todos os dias, às sete da manhã, para o centro da cidade, para aquele escritório onde se esconde de si e do mundo há muitos anos.

OS ATÍPICOS PORTUGUESES

De há muito tempo temos vindo a habituarmo-nos a que os estudos sobre a nossa realidade evidenciem resultados ou padrões distintos dos outros países com que é legítima a comparação.
Agora é o estudo que mostra como a nossa saúde mental anda pelas ruas da amargura. Só mesmo os americanos parecem mais "perturbados" que nós e os espanhóis não atingem sequer metade da nossa taxa de perturbação.
Parece ainda relevante sublinhar que a área de maior prevalência de problemas é a das perturbações da ansiedade o que até não surpreende face ao nosso quotidiano.
Sendo poucos os dados em que nos distinguimos pela positiva, começa a ser preocupante esta conjugação negativa de dados e padrões que nos caracterizam nas mais diversas áreas de funcionamento. Tudo isto representa uma séria ameaça à nossa auto-estima e à confiança que seria importante sentirmos.
Temo que, estando em discussão a versão V do Diagnosis and Statistical Manual of Mental Disorders a publicar em 2013, que ainda possa surgir uma entidade clínica capaz de explicar esta estranha atipicidade dos portugueses e transformar-nos numa espécie de case study para a comunidade científica internacional, em diferentes áreas.
Já faltou mais.

terça-feira, 23 de março de 2010

AS GRANDES SUPERFÍCIES

É um dos termos que entrou na linguagem nos últimos anos e que acho curioso, as grandes superfícies comerciais. As grandes superfícies comerciais vieram ao encontro de vários dos nossos problemas e incompreensivelmente algumas não estavam autorizadas a funcionar durante os sete dias da semana, situação que agora foi regularizada, isto é, permitida. Ainda bem.
Para nós portugueses, um centro comercial não é apenas um espaço, maior ou menor, onde se realizam compras. Aliás, comprar o que quer que seja, está cada vez mais difícil por razões óbvias, daí as lojas com pouca gente e os corredores cheios. Um centro comercial é um espaço de ocupação de tempos livres. Como vários estudos mostram, Portugal tem um baixo consumo de actividades de lazer no exterior, de actividades desportivas e de actividades culturais. É nos centros comerciais que gastamos boa parte dos nossos tempos livres o que os transforma em excelentes ATLs. Para os reformados e, sobretudo, para a população escolar em tempo de férias são uma excelente alternativa para as famílias e com custos relativamente baixos, o hamburger e a cola para o almoço e a miudagem passa lá o dia. Com o fim dos cafés tradicionais, os centros comerciais ocupam também uma boa parte desse espaço de convívio e tertúlia, quando precisamos de nos encontrar com alguém é fácil marcar o encontro para qualquer espaço no centro comercial com a enorme vantagem de ter estacionamento disponível.
Uma outra razão prende-se com a falta de qualidade genérica da construção para habitação em Portugal. As nossas casas estão mal preparadas, quer para o frio, quer para o calor. Assim sendo, que melhor e mais confortável espaço para se passar o tempo que um climatizado centro comercial, com bancos para descanso, palmeiras em plástico, água a correr em fontes, sempre fresquinho no verão e quentinho no inverno.
Felizmente que as autoridades estão atentas e permitem a sua abertura durante os sete dias a semana. Sugiro aliás, que, considerando o número de pessoas que cada vez mais vivem isoladas, a sua abertura durante 24 h seria de considerar.

UM MIÚDO CHAMADO TRISTE

Era uma vez um miúdo chamado Triste. Como sabem, as pessoas que se chamam Tristes não são parecidas com as pessoas que têm outros nomes. Este miúdo, o Triste, também não era assim muito parecido com os outros miúdos lá da escola. Não falava tanto como os colegas, nas aulas estava tranquilo, realizava sem sobressaltos as tarefas que lhe pediam e os resultados ficavam-se pelos mínimos. Não era muito amigo de brincadeiras, no recreio, aconchegava-se a um canto e ficava a observar os outros. Não se percebia muito bem se não se aproximava por não querer, não gostar ou outra qualquer razão.
Mas o que verdadeiramente era diferente no Triste em relação aos outros miúdos era o seu olhar. Só estando perto dele é que se percebia, os seus olhos pareciam ainda mais tristes que o seu nome. Como as pessoas, pequenas ou grandes não se aproximavam muito do Triste não percebiam como tristes eram os seus olhos.
Um dia, o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, aproximou-se devagar e sentou-se ao lado do Triste sem dizer nada. O miúdo olhou-o mas também nada disse.
Alguns minutos depois o Triste disse "Não dizes nada Velho". "Estou a pensar" disse o Velho no seu jeito manso. "Em mim?", perguntou o Triste. "Sim, em ti. Queres falar sobre o que estou a pensar?".
"Não. Não gosto de Tristes. Como toda a gente". Disse o miúdo chamado Triste ao mesmo tempo que se levantava.

segunda-feira, 22 de março de 2010

A QUESTÃO CURRICULAR

O Público de hoje apresenta um trabalho interessante sobre as questões curriculares que justificam o retomar de algumas notas que tenho vindo a referir no Atenta Inquietude.
Quando há algum tempo comentei a intenção do ME de modificar o currículo do 3º ciclo, uma necessidade de há muito, sublinhei o consenso estabelecido sobre esta necessidade de mudança e sublinhei a necessidade de ouvir os parceiros envolvidos. Também referi que as razões que sustentam o quadro actual são complexas pelo que a sua abordagem transcende um espaço desta natureza. No entanto essas razões estão também na base, creio, das reacções que começaram a emergir, ou seja, a maioria das vozes entende a mudança como necessária, designadamente a diminuição do número de disciplinas, desde que isso não afecte a Sua disciplina que, aliás, Deve ser reforçada. Esta reacção, diria de corporativismo científico, na linha do “not in my backyard”, é fruto da quintalização excessiva das áreas de saber que se transformam em disciplinas com Donos diferentes. Esta lógica tem informado o sistema educativo e também o sistema de formação de professores durante demasiado tempo, o que alimenta a esta disciplinarização sem sentido, 14 disciplinas para 25,5 horas de aulas no 3º ciclo.
É curioso, e mostra como esta cultura está enraizada, verificar a frequência com que, a propósito de qualquer saber, se defende a existência de mais uma disciplina. A última proposta que ouvi falava da bizarra necessidade de uma disciplina de “Educação Financeira” para ensinar os meninos a poupar e consumir.
Não creio que a discussão em torno de “a minha disciplina é mais importante que a tua” contribua para necessária mudança. A Lei de Bases do Sistema Educativo define para o Ensino básico um modelo de área científica e não um modelo de disciplina, só presente no Ensino Secundário. Creio que o caminho mais eficaz será estabelecer, ouvindo quem seja de ouvir, as competências científicas e pessoais de que a educação deve ser responsável, por ciclos e por anos, embora me pareça que se deveria modificar o actual quadro de três ciclos, de 4, 2 e 3 anos. Depois deste processo discute-se então qual o desenho curricular mais ajustado aos objectivos a atingir e as formas de avaliação e regulação do trabalho de alunos e professores.
Finalmente, considerando a questões de indisciplina neste momento tão integradas na agenda, parece-me de sublinhar que uma mudança permitiria muitos professores pudessem ter mais tempo com menos alunos o que permitiria criar relações e referências reguladoras dos comportamentos escolares e sociais.
O que me inquieta é que a tutela já anunciou que a mudança será um "mero ajuste".

UMA HISTÓRIA EM CONTRA CORRENTE

Hoje dei por mim a olhar, com pouco tempo mas com preocupação, para o mundo que desfila à nossa frente e fiquei assustado. Bem me parecia que quando paramos para pensar, quase sempre, o resultado não é muito interessante. Mas de mansinho e, devo confessar, sem grande esforço, consegui começar a lembrar-me de algumas coisas em contra corrente com o desfile do mundo. Deixem que partilhe convosco, ao correr do teclado, algumas das minhas descobertas.
Afinal, sei de alguns miúdos que têm vidas tranquilas, são aconchegados pelos pais e têm os tratos que se espera que os pais dêem. Sei mesmo de alguns miúdos que falam com os pais e com outros adultos sobre aspectos que lhes parecem úteis ou necessários e reservam para os amigos e para si aquilo que assim deve ficar. Sei até de alguns miúdos que brincam na rua, tem resultados escolares positivos e também jogam com a PlaySation e computadores, vêm televisão sem se esconderem e ficar fechados num ecrã.
Imaginem que sei de miúdos que têm avós com quem se cruzam e "aprendem" aquilo que os pais não podem ensinar, porque pais e avós cumprem funções diferentes. Também sei de miúdos que crescem no meio dos outros e trocam uns nomes e uns sopapos que ajudam a perceber limites e diferenças sem que se pense que são delinquentes, feitos ou em construção. Sei até de miúdos que gostam de muitos dos professores que têm e que respeitam genericamente as regras de relação com eles.
Sei também de miúdos que nunca foram assaltados e outros que até já foram mas que crescem sem o receio de que cada vez que vão à rua mergulham num mundo que os irá atacar, embora estejam conscientes da prudência necessária.
Sei também de miúdos que fazem e dizem disparates e asneiras que precisam de fazer e dizer para não terem a tentação de mais a tarde as realizar, então com riscos para todos, e sei de pais e outra gente grande que acha que nem todos os miúdos que se mexem um pouco e falam muito são mal educados ou hiperactivos.
Afinal, descobri, em contra corrente, que existem miúdos que, não sabendo eu se são felizes porque não saberei muito bem o que será a felicidade, vivem uma vida na qual se sentem bem. Afinal, ainda não é desta que me convenço de que a nossa estrada desembocou num inferno. Os miúdos, agora falo de todos os miúdos, não deixam que acreditemos que a vida é um inferno. Se assim fosse, não teríamos outra coisa para lhes mostrar e deixar. E temos.

domingo, 21 de março de 2010

OS PROFESSORES E A SUA IMAGEM SOCIAL

Nesta senda de ir tentando reagir de forma avulsa aos problemas, a Senhora Ministra da Educação admite agora que a ofensa grave a professores possa ser considerada crime público e, portanto, não carecer de queixa para que desencadeiem os adequados procedimentos de investigação. Esta proposta da Fenprof retoma, tal como o Público refere, uma ideia subscrita em 2002, sublinho 2002, pelo Conselho Nacional de Educação.
Do meu ponto de vista e não tendo nada a opor à classificação como crime público creio que importa ponderar alguns aspectos.
A imagem social dos professores tem vindo a sofrer uma erosão significativa, alguns estudos e a chamada "opinião pública" reflectem-no. As razões são variadas e dificilmente compatíveis com este espaço mas creio que uma boa parte da política educativa dirigida aos professores nos últimos anos, uma boa parte dos discursos dos lideres sindicais e os discursos ignorantes e irresponsáveis de alguns "opinion makers" têm dado um bom contribuo para que, em termos sociais, a imagem dos professores se desvalorize. Este processo mina de forma muito significativa a relação que pais e alunos têm com os professores, ou seja e sendo deselegante, "uma classe de gente que não trabalha", "que não se interessa pelos alunos", "que não quer ser avaliada", etc., (basta ver muitos dos comentários on-line a notícias que envolvem professores), não é, obviamente uma classe que mereça respeito pelo que se instala de mansinho um clima de reacção, desconfiança e fraqueza que minimizam o exercício da autoridade. Os pais e alunos que agridem e ofendem professores são uma espécie de "braço armado" dessa imagem social induzida.
Por outro lado, a cultura profissional e institucional em boa parte das nossas escolas e agrupamentos é ainda marcada por um excesso de individualismo. Quero dizer com isto que, lamentavelmente, os professores evidenciam níveis de cooperação e partilha profissional abaixo do que seria desejável. As razões serão várias e não cabem aqui, mas creio que justificam, muitas vezes, a não realização de queixas de incidentes, muitas vezes graves, por receio de exposição e demonstração de fragilidades face a colegas e responsáveis, o que uma cultura de maior cooperação atenuaria. Acresce ainda que, por desatenção, incompetência ou negligência muitas direcções de escolas e agrupamentos não vão muito longe na definição de dispositivos de apoio, recorrendo a outros docentes mais experientes ou à presença de dois professores por exemplo, que dariam aos professores apoio e confiança para o trabalho com os seus alunos.
Finalizando e, independentemente, da classificação como crime público das ofensas físicas a professores, urge caminhar no sentido de reconstruir a imagem social dos professores como fonte imprescindível de autoridade, saber e importância e, paralelamente, incentivar a construção nas escolas de dispositivos leves e ágeis de apoio aos professores de forma a que cada um não se sinta entregue a si próprio e com receio de "enfrentar" os alunos e os pais, a pior das situações em que um docente se pode sentir.
Este caminho é da responsabilidade de todos, ministério, sindicatos, direcções de escola pais, professores e alunos.

sábado, 20 de março de 2010

LIMPAR PORTUGAL

Estou entusiasmado. Esta iniciativa, vinda daquela entidade tão curiosamente definida por “sociedade civil”, mobilizará cerca de 100 000 portugueses no sentido de limpar um pouco do muito que Portugal tem para limpar.
Não sei quais serão as prioridades definidas, li que cerca de 13 000 lixeiras poderão ser eliminadas. Se se conseguir será bom e Portugal ficará mais bonito. A iniciativa, que certamente mobilizará muitas crianças que, por sua vez mobilizarão muitos pais, poderá contribuir para alguma mudança nos comportamentos e cultura sobre questões de ambiente.
No entanto, temo que nem mesmo 100 000 pessoas a esforçar-se por limpar Portugal possam ter algum efeito em áreas onde seria imprescindível que o tivessem.
Talvez fosse importante proceder a alguma limpeza nos discursos e comportamentos de boa parte da nossa classe política que, tantas vezes, atingem um estado de degradação e putrefacção ambiental insustentáveis.
Também me parece que algumas ideias que começam a instalar-se necessitavam de alguma limpeza. Estou a referir-me à defesa de políticas altamente musculadas e “policializadas” que apesar de direccionadas para questões sérias e preocupantes nos podem conduzir por caminhos perigosos assentes exclusivamente na repressão.
Creio que poderia ser limpa a facilidade insultuosa com que muitas pessoas se atribuem mordomias e benefícios que insultam o cidadão comum mergulhado numa crise de que se não vislumbra o fim.
Um outro aspecto a carecer de alguma limpeza remete para o lixo presente na vida dos miúdos, na alimentação, nos comportamentos que lhes são dirigidos ou no entretenimento, que poluem cabeças que de tão sós se habituam a tal lixo.
Enfim, apenas alguns dos exemplos que solicitariam, creio, alguma limpeza. No entanto, é preciso começar por alguma lado.

sexta-feira, 19 de março de 2010

DEPRESSA E BEM, NÃO HÁ QUEM

A última equipa que ocupou a 5 de Outubro, estabeleceu como marca de identidade uma arrogante omnisciência, que a impedia de aceitar críticas e entender que vários dos aspectos de política educativa que subscreveu eram absolutamente inaceitáveis além de que dificilmente sustentáveis à luz de qualquer critério que tivesse a ver com ciência. Dois exemplos deste tipo de atitude são algumas das disposições do Estatuto da Carreira Docente e do Estatuto do Aluno.
A entrada de uma nova equipa suscitou legítimas expectativas de que a postura de trabalho fosse diferente e, de facto, algumas das questões relativas à carreira e à avaliação foram mudadas e anunciou-se que nada seria definitivo e inegociável. Anunciaram-se, por exemplo, mudanças nos currículos que entretanto foram definidas como um decepcionante mero ajuste e também uma tão necessária quanto urgente revisão do estatuto do aluno. A tragédia com o Leandro em Mirandela veio dar maior visibilidade à questão e o habitual aproveitamento político das coisas da educação contribui para acelerar o processo.
Neste quadro, a senhora ministra vem anunciar medidas como a possibilidade de suspensão preventiva imediata de alunos que transgridam e, foi hoje divulgado, a alteração no processo de tratamento das faltas dos alunos, justificadas ou injustificadas, que no actual estatuto eram completamente desadequado.
Apesar da necessidade de alterações e da sua urgência, temo que, como diz o povo, "depressa e bem não há quem", ou seja, podemos passar de uma arrogante inflexibilidade para um voluntarismo avulso que funciona em termos reactivos. Parece-me ser necessário abordar as questões de forma integrada e ponderada e introduzir as mudanças necessárias. Entendo que pode ser arriscado a pressa de mudar para corresponder a discursos mais ou menos informados, mais ou menos populistas. As mudanças avulsas e desarticuladas, mesmo em situações em que são necessárias alterações, podem não contribuir para melhorias significativas, podendo, até, inibir uma verdadeira mudança sustentada.

SOLIDARIEDADE, ESTABILIDADE E CRESCIMENTO

Um estudo hoje divulgado e realizado pelo Instituto de Ciências Sociais mostra que cerca de um terço dos inquiridos e com doença crónica não compram os medicamentos necessários por razões económicas. Neste cenário, é ainda de sublinhar que cerca de 28.1% não cuida da saúde oral e 21% de problemas do foro oftalmológico pela mesma razão, falta de recursos económicos.
Curiosamente, estes dados são conhecidos em pela discussão do Plano de Estabilidade e Crescimento que tem levantado fortíssimas críticas na medida em que no documento agora conhecido, o Governo estabelece que da poupança global a atingir, 28,3%, cerca de 3,9 mil milhões de euros, se verificará nas chamadas despesas sociais, segurança social, pensões e saúde e ainda que 9,4% da poupança global advirá da restrição de benefícios e deduções fiscais que atingirão rendimentos salariais superiores a 500 €.
Parece óbvio que importa promover poupança, combate ao desperdício e a à fraude mas este é um caminho perigoso.
Os destinatários das políticas sociais serão, na sua maioria, pessoas e agregados familiares em situação de vulnerabilidade e risco de pobreza, embora saibamos que existem abusos, fraudes e injustiças que urge corrigir.
Quando sabemos que um terço dos doentes crónicos, na sua maioria velhos, não compram os medicamentos de que precisam porque, simplesmente, não têm dinheiro para isso, estamos a alimentar uma sociedade que por este caminho implodirá nos seus valores sociais, promovendo e acentuando mecanismos de exclusão com preços certamente devastadores.
Nessa altura, não haverá estabilidade que resista e crescimento, só dos problemas.