sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

A MÃE

 Uma história já antiga  e que de que por vezes me lembro.

Um dia destes estava à bica num café pequenino, daqueles de bairro, e ouvi, não pude deixar de o fazer, uma conversa entre duas mães que me pareceram mães, isto é, mulheres que adoptaram os filhos, porque há mulheres, poucas, que são mais prestadoras de serviços à infância, do que propriamente mães, ou seja e usando uma expressão de Laborinho Lúcio, nunca chegam a adoptar os filhos. Uma delas, mais faladora, mostrava-se um pouco mais preocupada e com algumas inquietações relativamente à educação de um gaiato, pelos oito anos, ao que percebi. Achei curioso o discurso e vou tentar recuperá-lo.

Pois é, muitas vezes, nem sei o que fazer, ele faz asneiras, vou para me zangar com ele e lembro-me que estou tão pouco tempo com ele que se me zangar, nem esse tempo me sabe bem. Eu acho que ele vem cansado da escola, está lá desde as 8, vai com o pai porque eu saio às 7 de casa, vou buscá-lo eu já perto das sete e meia, eu também venho cansada. Depois é a lida do jantar e do banho, estás a ver que tempo é que eu tenho para ele. Dizem que a gente devia brincar com os filhos, falar com eles, mas quando? Ao jantar, aproveitamos para ir vendo as notícias que é quando temos alguma hipótese. Por vezes ainda começo a falar com ele ao deitar, mas ele adormece logo e eu também vontade não me falta. Este ano não consegui ir às reuniões da escola, foram sempre a horas que eu não podia. Lá no trabalho se falto começam logo a fazer má cara, como as coisas estão, sabes como é. Não sei se aconteceu contigo, mas este ano pediram para comprar muitas coisas para a escola. Não foi nada fácil, está tudo muito caro, a gente tem que fazer alguns sacrifícios, mas fica difícil, lá comprámos o computador, ele ficou contente e não quer outra coisa. Às vezes já me explica algumas coisas, eu percebo pouco daquilo mas ele fica contente de me explicar, mas é um bocadinho ao fim-de-semana, sempre com falta de tempo. Mas é a vida assim, a gente é mãe, é para isto não é, a gente é que quisemos que eles nascessem e ainda bem. E quando vejo o ar dele a dormir, bem quieto, até parece que está rir-se para dentro, fico contente e acho que vale a pena a luta dos dias.

Sabes o que ele me disse no outro dia, já nem me lembro a que propósito, “mãe, se os miúdos pudessem escolher as mães, eu escolhia-te à mesma”.

Eu também.

1 comentário:

Anónimo disse...

Tão bonito. E tão verdadeiro. Morgado, abraços grandes, meus, que tambem fui e sou mãe… e também andei às voltas com a falta de tempo… boas festas! Manela